#FelizAnoNovo
Capítulo Quinze
Na biblioteca, meia hora depois, Harry olhava fixamente para a garrafa de cristal de conhaque. Bem que precisava de uma bebida forte naquele momento. Mas, o que quer que Hermione quisesse discutir, ele precisava estar com as ideias claras.
"Estive procurando você por toda parte. Aí está."
E ali estava Hermione, parada à porta. Embaralhando suas ideias outra vez. Droga. Harry esperava algum aviso. Um pouco mais de tempo para se recompor antes de a ver. Daquele jeito sentiu como se tivesse sido jogado, de surpresa, em um lago de seda reluzente e de beleza luminosa. Ele tinha que nadar ou afundar, e estava sem fôlego... afogando.
"Eu..."
Ele a tinha sentido tão macia e quente com suas mãos. O sabor dela… Ron pigarreou alto. Ele já estava de pé. Com um instante de atraso, Harry também se levantou. Cristo, ele tinha se afastado tanto dos modos da Sociedade que agora se esquecia de levantar quando uma lady entrava na sala? Depois que se levantou da cadeira, Harry ficou sem saber o que fazer com as mãos. Elas pareciam ter vida própria e queriam tocar Hermione. Ele cruzou os braços e escondeu as mãos. Ele precisava se controlar.
"Você estava me procurando", ele disse.
"Estava." Ela mostrou um envelope. "Eu procurava vocês dois, na verdade. Fomos convidados para uma festa amanhã. Os Macmillan têm uma propriedade perto de Tunbridge. Fica a apenas algumas horas de carruagem . Lavender está disposta a ir e até Luna mostrou interesse. Vocês irão conosco?"
"Que beleza", Ron exclamou, com aquele sotaque afetado. "Mas é claro que vamos."
"Não." Harry olhou para ele. "Não vamos."
"Por que não?", Hermione perguntou.
"Minha presença não vai resultar em nada de bom . Eu já não me encaixo nesses eventos. Nunca me encaixei."
"Por que você diz isso?", ela perguntou. "É claro que se encaixa."
"Ah, claro. Todo mundo quer um lutador brigão em suas festas refinadas."
"Talvez não, mas todos querem lordes. Não importa o que você tenha feito em sua vida, será sempre o filho de um marquês. Nascimento e linhagem são tudo para a Sociedade."
Sim , nascimento e linhagem eram tudo para a Sociedade. E era exatamente por essa razão que Harry a desprezava. Ele preferia ser julgado por suas conquistas.
"Se você for", ela disse, "eu posso até perdoá-lo por faltar ao meu debute, anos atrás."
E então ela lhe deu um sorriso. Um sorriso caloroso, sedutor, curvado como o arco de um arqueiro. A flecha acertou o alvo, pegando Harry bem no coração. Ele se esforçou para parecer não ter sido atingido.
"Você é generosa por nos convidar, mas teremos que recusar."
Ron lhe deu um puxão no colete.
"Ora essa, meu camarada. Vou lhe dizer, não vejo por que nós..." Harry o fuzilou com o olhar.
"Nós. Teremos. Que. Recusar."
"Muito bem ." O treinador levantou as mãos. "Nós teremos que recusar."
Hermione baixou os olhos e ficou sacudindo o pedaço de papel entre as mãos.
"Entendo. Então, se vocês me dão licença, preciso escrever a resposta." Quando saiu da sala, Hermione apertou os lábios em uma linha inflexível.
Praguejando, Harry correu para o corredor, onde chegou a tempo de ver Hermione
entrando na biblioteca. Ele a seguiu.
"Nós precisamos conversar. Sobre o que aconteceu antes. Sobre tudo."
"Precisa ser agora? Eu tenho que escrever esta resposta, se você não se importa. O mensageiro está esperando há uma hora." Ela se sentou à escrivaninha.
"Você tem que entender. Eu não sou bem -vindo nesse tipo de coisa."
"É claro que eu entendo." Ela suspirou e deixou a caneta cair sobre o mata-borrão. "Na verdade, eu não entendo. Durante oito anos eu estendi a mão para você com um convite após o outro. Não entendo como você pode dizer que ninguém quer você nessas coisas. Eu quero você nessas coisas. Sempre quis."
"O que você estava esperando, Hermione? Que eu aparecesse nesse baile, vestindo casaca preta e botas altas e brilhantes? Que ficasse no alto das escadas para ser apresentado como Lorde Harry Potter de Somerset? Que procurasse você no meio da multidão e abrisse caminho para convidá-la para dançar?" Ele riu.
Mas ela não riu. Nem disse qualquer coisa. As faces dela ficaram coradas e Hermione ficou encarando o mata-borrão. Depois de longa pausa, ela mergulhou a pena no tinteiro e começou a escrever. Ora, maldição. Era exatamente o que ela esperava que acontecesse. E ele debochou dela por pensar nisso. Harry odiava magoá-la, mas talvez fosse melhor assim . Aquela cena que ela tinha imaginado nunca iria acontecer. Não podia acontecer. E precisava entender isso, com absoluta clareza.
"Hermione, me desculpe se você..."
"Não, por favor. Não se desculpe. Por que alguma coisa deveria mudar entre nós? Só porque você confessou que me deseja há anos e depois acariciou meus seios? Não importa que esse foi um dos momentos mais apaixonantes e excitantes da minha vida. Porque para você, imagino, foi uma quinta-feira como outra qualquer."
"Você sabe que isso não é verdade."
Ela levantou a cabeça e seus olhos azuis fuzilaram os dele.
"Você tem razão. Eu sei que não é verdade e isso torna tudo ainda mais doloroso."
Inferno. Harry sabia que estava estragando tudo.
"É que eu não pertenço mais a esse mundo", ele disse. "Mas você sim , Hermione. Você tem que ir e se divertir."
"Vou estar rodeada por fofoca." A pena arranhou a página. "Lá está ela, a Srta. Espera-Mais. Será que desta vez ela vai conseguir passar o laço no noivo? Quem quer fazer uma aposta?"
"Não vai acontecer nada disso."
"Você tem razão." Ela parou de escrever. Sua atitude ficou mais branda. "Você tem toda razão. Não vai ser assim , porque a esta hora, amanhã, eu não vou estar mais noiva."
Maldição. Harry não gostou de ouvir aquilo.
Ela fechou o envelope com um pouco de cera.
"Não vou pedir que vá ao baile. Mas você tem que assinar o documento de dissolução antes de eu sair para a festa."
"A semana ainda não terminou", ele observou. "Ainda temos esta noite."
"Não consigo imaginar o que você pode aprontar em uma noite para me fazer mudar de ideia." Ela lhe deu um sorriso irônico. "Se me dá licença, o mensageiro está esperando."
Ela saiu da sala com a resposta selada na mão.
E Harry começou a pensar em bordados.
O jantar foi um sofrimento. Pelo menos para a metade das pessoas à mesa. Hermione ficou em silêncio, incomodada. Harry ficou em silêncio, incomodado. Até Luna ficou em silêncio, também incomodada. Contudo, a outra metade dos comensais parecia ignorar por completo a aflição dos outros. Lavender tagarelava sobre a festa da noite seguinte na propriedade dos Macmillan. O Escudeiro, como Hermione passou a chamá-lo em seus pensamentos, preenchia os vazios na conversa contando suas aventuras "continentais". E Seamus monopolizou a hora do peixe com uma extensa descrição de suas botas Hessian feitas sob medida. Quando a refeição terminou, todos se dirigiram para a sala de estar.
"Estou terminando o menu do almoço de casamento", Lavender disse. "Quantos molhos nós devemos servir?"
"Podemos falar sobre outra coisa?" Hermione perguntou, a voz emocionada. "Por favor? Eu me sinto uma anfitriã horrível, fazendo você trabalhar a semana toda. E olhe só o pobre Seamus. Ele está morto de tédio com toda essa conversa de menu. Por que não jogamos alguma coisa?"
"O quê?"
"Qualquer coisa." Ela concordaria em correr atrás de um porco ensebado pelos corredores se isso significasse falar de outra coisa que não o casamento. "Vamos jogar cartas, gamão ou outra coisa."
"Cartas, não", Lavender disse. "Não com Luna. É impossível ganhar dela."
"Isso não significa que nós não gostemos de jogar com ela", Hermione contrapôs, não querendo magoar a irmã mais nova.
Luna virou uma página do livro que estava lendo.
"Eu não quero jogar cartas."
"Se eu puder sugerir algo...", o Sr. Weasley se manifestou. "O que as senhoras dizem de um jogo de salão?"
"Um jogo de salão?" Hermione arriscou olhar na direção de Harry. Sua expressão de desgosto era evidente. Ele preferiria comer lesmas a um jogo de salão. "Parece uma ótima ideia."
"Oh, eu adoro jogos de salão", Lavender concordou. "São tão danadinhos. Se não têm beijos, é preciso agarrar alguém vendado ou sentar no colo do outro."
"Eu pensava em um outro tipo de jogo de salão. Um que eu aprendi durante minha passagem pelo continente", Weasley disse.
"Um jogo de salão continental?", Lavender perguntou. "Parece promissor. Tem agarração no meio?"
"Não, Lady Finnigan. Mas eu desconfio que você vá gostar mesmo assim ." Ele sorriu. "Nós nos revezamos e cada jogador faz três afirmações. Duas devem ser verdadeiras e uma falsa. Os outros têm que adivinhar qual das três é mentira."
Lavender rapidamente foi pegar os palitos. Quando foram sorteados, Harry declinou. Hermione acabou com o mais curto.
"Mas isso vai ser muito fácil", Lavender reclamou. "Nós conhecemos Hermione a
vida toda. Ela não tem segredos.
"Será que não?" Reclinando-se na cadeira, Weasley cruzou a perna esquerda sobre o joelho direito. "Eu não sei, Lady Finnigan. Suspeito que a Srta. Granger possa ser cheia de segredos."
"Na verdade, sou mesmo", Hermione concordou.
Ao ouvir isso, Harry lançou para ela um olhar de alerta. O coração de Hermione acelerou. Homem terrível. Ele estava preocupado que ela anunciaria seus planos de dissolver o compromisso? Ou talvez estivesse inquieto com a possibilidade de ela confessar o momento apaixonado dos dois? Seria bem feito, para ele, se ela fizesse qualquer uma dessas coisas. Mas Hermione estava cansada de pensar em Harry e James. Para variar, ela queria falar de si mesma.
"Estas são minhas três afirmações. Primeiro, minha cor favorita é verde." Lavender gemeu.
"Dá para ser um pouco menos óbvia?"
"Segundo", Hermione continuou, "estou planejando construir uma cervejaria aqui, no Castelo de Hogwarts. E terceiro..." Ela passou os olhos pela sala. "Eu nunca fui beijada."
Ela juntou as mãos e esperou a reação dos outros.
Todos ficaram em silêncio, estarrecidos. Lavender, Seamus... até Luna. Eles não estavam apenas surpresos. Eles pareciam de fato horrorizados. Será que a ideia de uma cervejaria era assim tão inquietante para eles?
Seamus meneou a cabeça, solene.
"Isso é... bem , droga. Eu não sei o que dizer. A não ser que eu sinto muito." "Oh, querida", Lavender levantou de sua cadeira e foi se sentar ao lado de Hermione no divã. Ela pôs a mão no joelho da irmã. "Ele nunca beijou você? Em todos esses anos, nem uma única vez?"
Hermione inspirou devagar. Era um testemunho da tristeza de sua vida que seus familiares mais próximos acreditassem que aquela era a afirmação verdadeira.
"Eu acho que todos nós sabíamos que não é um casamento por amor", Lavender disse. "Mas eu estava certa que vocês dois tinham algum carinho um pelo outro."
"Ele não vai se safar dessa." Seamus levantou de sua cadeira. "Nós não vamos permitir que ele dê para trás, não importa que ele tente cair fora deste noivado. Depois de oito anos, esse homem lhe deve um casamento."
"Esperem", Hermione interrompeu. "Vocês estão tirando conclusões precipitadas. Como vocês sabem que a afirmação sobre o beijo não é a falsa?"
"Porque é óbvio", Lavender disse. "Todo mundo sabe que sua cor favorita é verde. Então essa já era. Uma cervejaria? Sério? Não pode ser verdade, dentre todas as ideias absurdas."
"O que ela tem de tão absurda? Os recursos da propriedade precisam ser usados, ou a comunidade local irá sofrer. Vocês não acham que eu conseguiria?"
"Ela conseguiria", Harry afirmou.
Hermione se virou para ele, surpresa. Ela não achou que Harry estivesse prestando atenção.
"Ela conseguiria", ele repetiu, apoiando um ombro na parede revestida. "Esta região é ideal para a produção de cerveja. A Srta. Granger tem o capital, a terra, o conhecimento. Com a ajuda certa, ela conseguiria."
"Talvez ela conseguisse", Seamus concordou. "Mas o noivo não aprovaria. E nós
vamos acreditar que os pubs e as tavernas iriam servir a Cerveja Lady Granville?" Ele riu. "Seu irmão não permitiria algo assim ."
"Você tem razão", Hermione disse, enchendo-se de coragem . "Não acredito que James permitisse. Mas é isso, vocês entendem . Eu não vou me..."
"Você não vai abrir uma cervejaria. É claro que não. Que absurdo." Lavender bateu as mãos. "Isso encerra a vez de Hermione. Quem é o próximo?"
"Espere", Harry interveio, em um tom que não permitia discussão. Seus olhos chispavam . "A vez de Hermione ainda não acabou. Você errou, Lady Finnigan. Errou por completo."
"O que o faz dizer isso?"
"A Srta. Granger já foi beijada", Harry afirmou. "Tenho certeza disso."
"Mas como você pode saber?" Lavender perguntou.
Hermione prendeu a respiração. Será que ela queria que Harry respondesse àquela pergunta com honestidade? Talvez sim . Mas mesmo que ela tenha começado o jogo, a decisão não estava mais em suas mãos. Harry fez um gesto nervoso.
"Eu sei porque estava lá."
Ah, não... Harry não pretendia dizer aquilo. As palavras escaparam dele como um soco violento, imprudente, que ele deveria ter segurado.
"Lorde Harry, você está nos dizendo que testemunhou esse beijo com seus próprios olhos?" Lavender não se preocupou em esconder seu ceticismo.
"Não", ele respondeu, sincero.
Ele não tinha testemunhado com seus próprios olhos. Que tipo de imbecil beija de olhos abertos? Ele testemunhou com seus próprios lábios. Mas dizer a verdade não ajudaria em nada a sua causa.
"Então vou manter minha resposta", Lavender disse. "De quem é a vez, agora?"
"Minha", Harry disse.
"Sua?" Hermione estranhou. "Pensei que tivesse dito que não iria jogar."
"Mudei de ideia."
"Receio que você terá que esperar a próxima rodada, Potter." Sir Seamus Finnigan disse. "Minha mulher cortou e distribuiu os palitos. Isso já foi feito. Você não pode jogar se não tem um palito."
Harry olhou firme para ele. O olhar tinha a força de um soco no estômago.
"É mesmo?"
Finnigan não tinha mais nada a dizer. Nem os outros. Harry tomou o silêncio coletivo como consentimento.
"Primeira afirmação. Na minha primeira luta pelo campeonato, derrotei Golding com um golpe forte sobre o fígado dele, na vigésima-terceira abordagem . Segunda..." Ele se acomodou em uma poltrona. "Na última vez em que falei com meu irmão, James me contou o quanto ele lamentava a extensa ausência imposta por seus deveres, porque..."
Resolva logo isso.
"Porque ele estava profundamente apaixonado", ele concluiu.
A sala ficou em silêncio. Até Lavender pronunciar aquelas duas palavras:
"Por Hermione?"
"Sim , por Hermione."
Harry se levantou e começou a andar pela borda do tapete. Ele estava muito irritado. O que havia de errado com aquela gente? Isso não devia ser assim tão difícil de acreditar. Sim , seu irmão era reservado, mas com certeza eles todos amavam Hermione. Ela merecia ser amada. Amada demais. Ele podia ter começado aquela mentira sem acreditar nela, mas agora estava comprometido a fazê-la funcionar. Comprometido com tudo que tinha.
"Quando nos falamos da última vez, James relembrou o baile de debutante dela", ele disse. "De como ela usava um vestido de seda azul clara com renda nas bordas. Pérolas cravejadas no cabelo. Lembrou-se de como ela estava linda, ainda que nervosa. Ele notou como ela cumprimentou cada convidado com verdadeira atenção. E me contou que soube, naquele momento, que não havia outra lady no salão que fosse igual a ela. Que se sentiu o mais feliz dos homens, sabendo que ela era sua prometida." Harry passou os olhos pela sala. "Ele a amou naquele momento. E ainda a ama."
Todos permaneceram em silêncio enquanto ele voltava para sua poltrona.
"Nada mal", Ron murmurou.
Finnigan bateu na coxa com a mão enluvada.
"Bem , isso é reconfortante. Não é mesmo, docinho?"
"Você está supondo que isso seja verdade", Hermione disse sem se alterar. "Nós só ouvimos duas afirmações de Lorde Harry. Eu estou esperando a terceira."
"A terceira. Certo." Ele pigarreou. "Eu durmo com um pijama lilás. Bordado."
Ron bebericou seu licor.
"Como você é literal."
Lavender riu.
"Sério, é impossível. Nenhum de vocês sabe jogar este jogo. Seu pijama lilás é quase tão absurdo quanto a cervejaria da Hermione. Vamos jogar cartas, então."
Bem , era isso. Ele parecia ter convencido a família dela, pelo menos. Mas Harry não sabia como se sentir a respeito. Aliviado, vitorioso, enojado consigo mesmo... Suas emoções eram uma combinação de tudo isso. Mas os sentimentos dele eram irrelevantes. Só havia uma pessoa naquela sala cujos sentimentos eram importantes. E se Harry não tivesse conseguido convencê-la nessa noite, ele não tinha mais esperança.
Mais um capítulo e as coisas voltam a esquentar...ficarei alguns dias off, ate o próximo ano.
Lembrando esta é uma adaptação, nada além da paixão pela leitura me pertence. Decidi juntar uma das minhas escritoras favoritas com meus personagens favoritos de Harry Potter. A história original também se chama "Diga sim ao Marquês", da maravilhosa Tessa Dare".
