CAPÍTULO XIV

Quinze minutos mais tarde, Pansy estava junto à porta da sala, ten tando controlar suas emoções. A pantalona de seda era confortável, e a camisa verde completava o conjunto clássico. A suave maquiagem disfarça va as linhas de tensão em seu rosto. Por dentro, sentia uma certa insegurança. Ia entrar quando ouviu uma voz vinda da sala.

- Como Harry sabe que o bebé é dele? Isso é o que não entendo. Você conhece Harry e seus princípios morais. Ela é, decerto, apenas uma oportunista. Lembra-se dela em Hogwarts?

- Ginny! - Veio a resposta sibilante. - Es pero que nem sonhe em dizer algo assim na frente de Harry.

- Talvez alguém devesse. Ele esqueceu que ela é uma maldita sonserina, que infernizou nossa vida em Hogwarts por anos? Além disso comentam no Ministério que ela dormia com o chefe, então sabe lá com quantos homens ela dormiu e quem é o verdadeiro pai.

- Sabe como são as fofocas Ginny, isso pode ser apenas isso.

- Duvido. Falarei com Harry para por algum juízo na cabeça dele.

- Por que se importa tanto Ginny? Você deixou Harry, deixei-o viver sua vida.

- Você sabe que eu o amo Rony, sempre amei, que o que eu queria era um tempo a mais para continuar jogando, o que não seria possível com Harry porque ele já queria uma família.

- Mas isso não a impediu de ficar com outras pessoas, você tem um namorado agora.

- Terminamos, e eu quero Harry de volta.

- Creio que não será possível.

- Por causa da vagabunda grávida? Assim que Harry fizer o teste de paternidade e descobrir que o filho nao é dele, nós voltaremos a ficar juntos.

- Não posso crer que você está pensando nisso. Melhor tirar essas ideias da cabeça Ginny, não vai acontecer.

- Isso nós veremos. Farei Harry enxergar a verdade, que eu sou a mulher da vida dele e que devemos ficar juntos.

- Por acaso ouvi meu nome ser mencionado?

Pansy escutou a porta da frente ser fechada. Percebeu que as pernas tremiam. "Não poderei aguentar isso." Sentiu um gosto amargo na boca. Então, seu orgulho veio em seu socorro. Não per mitiria, de maneira alguma, que aquela mulher afastasse seu filho de Harry. Com os olhos faiscantes, jogou os cabelos para trás e entrou.

Ginny e um homem, que deveria ser Rony, es tavam sentados no sofá. Pansy olhou para eles de relance e, então, concentrou a atenção em Harry, que alimentava o fogo da lareira. Todos a olharam, curiosos.

- Você ainda não conheceu Rony, não é, Pansy? - Harry quebrou o silêncio.

- É claro que ela se lembra dele de Hogwarts Harry – Ginny comentara azeda.

Não havia traços do antagonismo de Ginny na expressão afável de Rony, que se levantou com uma das mãos estendida.

- Olá, Pansy. Eu poderia dizer que Harry me falou muito sobre você, mas, conhecendo-o, deve saber que eu estaria mentindo. Ele é fechado como uma concha, mas recordo de voce de Hogwarts - Olhou para o ami go, sorrindo. - Parece ter resistido muito bem à viagem. Espero que não se ofenda se eu disser que dá um novo significado à palavra "radiante".

- Ela não se ofenderá, mas eu, sim, Casanova, e acredito que Hermione também. - observou Harry, com secura. - Sente-se, Pansy. Lembre-se do que o médico disse: não fique em pé, se puder se sentar, e não fique sentada, se puder se deitar.

- Foi um conselho como esse que a levou ao estado em que se encontra agora, não é? – Ginny comentou amarga.

O irmão de Ginny lançou-lhe um olhar fulminante e sorriu, constrangido, na direção de Pansy.

- Sente-se aqui, Pansy. - Com gentileza, Harry conduziu-a a uma enorme poltrona. Era impossível dizer o que ele estava pensando. - Ela não chegou a este "estado" sozinha, Ginny.

Os olhos verdes não se suavizaram ao perceber que a jovem estava sem graça. A mensagem que transmitira fora clara: assumira a criança.

Pansy notou que conquistara uma inimiga. A sensação não era nem um pouco agradável.

Para sua surpresa, o resto da noite não foi tão horrível quanto imaginara. Ginny não fez mais ne nhum comentário ferino e disfarçou o desconforto que a presença de Pansy lhe causava.

- Foi voce quem fez o jantar? Não sabia que você cozinhava - observou Pansy, enquanto Harry tirava a mesa.

- Sei fazer o trivial, mas não me arrisco a tentar algo mais elaborado. Mathilda deixou tudo quase pronto.

- Não imaginei que fosse possível usar aquele fogão antiquado que tem na cozinha.

O sorriso de Harry foi de tirar o fôlego.

- Cuidado para que Mathilde não ouça seu comentário, Pansy. Ela se recusa a usar algo mais moderno.

Pansy voltou a atenção a Rony.

- Você é auror também, Rony?

- Sim, trabalho com Harry.

- E voces revezam para tomar conta da vinícula?

- Sim, o entusiasmo de Harry é contagioso. Todos diziam que seria impossível fazer um bom vinho onde os invernos são rigorosos e os verões bem quen tes, mas conseguimos. Esta região da França sempre produziu vinhos, mas não de primeira qualidade. Harry pretende mudar isso com a tecnologia do novo mundo. Hermione também é uma entusiasta dos vinhos e ela gosta de fazer parte de tudo.

- Tenho certeza de que Pansy não está in teressada em vinicultura - interferiu Ginny, com um sorriso superior.

- Para dizer a verdade, adoraria ouvir mais a respeito - contradisse Pansy. - Harry suge riu que eu me envolvesse com a estratégia de mar keting, no ano que vem. Talvez eu consiga uma excursão, com guia, pela propriedade.

- Eu me encarregarei disso - ofereceu Harry, depressa.

- Estará ocupada demais com os afazeres do mésticos e brincando de mãe para nos dar o apoio profissional de que necessitamos, Pansy. Odiaria obrigá-la a negligenciar suas responsabilidades.

- Se decidir aceitar o projeto, cumprirei minhas obrigações, Ginny.

- Se eu tivesse um filho, gostaria de devotar-me a ele antes de começar a me intrometer em outros assuntos.

- Eu nunca me intrometo.

- Desculpe-me, não queria ofendê-la. - Ginny, mais uma vez, ficou sem graça.

"Aposto que não...", pensou Pansy, sorrindo com doçura.

- Estou certo de que Ginny está apenas preo cupada com seu bem-estar, Pansy.

- Foi você quem me ofereceu o cargo, Harry. Ou não estava falando sério?

- Acho que é uma ótima ideia - anunciou Rony. - Assim, os negócios ficarão todos em família.

- Conhecemos Harry há anos. Rony e eu o consideramos como parte da família. Agora saber de vocês dois foi uma surpresa, como aconteceu?

Um barulho violento do lado de fora da casa assustou a todos.

- O que foi isso? - perguntou Pansy, com os olhos arregalados.

- As ventanias aqui são muito intensas, às vezes. - Harry levantou-se, calmo. - Deve ter sido aque le telhado precário no celeiro. Eu pretendia trocá-lo antes do inverno. E melhor investigarmos o estrago.
- Não, Ginny, você fica aqui com Pansy - acrescen tou, ao notar que a jovem se levantara.

A expressão de Ginny e a relutância com que se sentou revelaram que não gostara da ordem.

- Não é perigoso? - Pansy estava preocu pada, pois o vento parecia intenso.

- Estou comovido com sua preocupação - pro vocou Harry.

- Não seria mais prudente esperar que parasse? - Pansy sentiu um tremor ao imaginar Harry inconsciente, abatido pelo tronco de uma árvore caída.

- Não se preocupe, Pansy. Cuidarei para que Harry não tome nenhuma atitude heróica. - Rony ajeitou seu sobretudo e sorriu.

- Imagino que ele saiba tomar conta de si próprio - comentou ela, percebendo que soara mais preocupada do que desejava.

Ficou paralisada quando Harry, de repente, aproximou-se e a beijou, com firmeza, nos lábios.

- Eu sei, mas é bom ter alguém que se importa comigo. - Virou-se e saiu, seguido de Rony.

- Ele não ama você, sabia? - As palavras ás peras de Ginny trouxeram Pansy de volta à terra.

Ginny andava pela sala, as faces coradas de raiva. O silêncio de Pansy pareceu enfurecê-la mais ainda.

- Harry só se sente responsável por causa do bebé. Você arruinou a vida dele! O que acontecerá quando todos souberem? Pensa que é muito esperta, mas antes que o agarrasse, eu e ele... - Ginny parou de falar, tomada pela emoção.

Não haveria sentido em tentar argumentar na quele momento, decidiu Pansy. Quase sentia pena da jovem, que não conseguia disfarçar seus sentimentos. Além disso, o que Ginny dissera era, em parte, verdade. Não tentara prender Harry, mas, no fim, o resultado era o mesmo.

- Não provoquei esta situação, Ginny.

- Você podia ter tirado a criança!

Pansy levantou-se, trémula e ultrajada.

- Quero meu bebé. E, goste você ou não, Harry também o quer.

- Harry não quer você.

Pansy empalideceu, ciente de que não poderia negar aquilo.

- Eu sei que não, mas acredito que ele nao a quer também. Até onde ue recordo, ele andava com Cho Chang.

- Cho fora apenas uma distração, Harry queria aproveitar um pouco, como fizera com você. Suponho que a situação tenha um certo ar de novidade, agora. - Ginny riu, com desprezo. – Mas se ele quisesse brincar de família feliz com você, a teria pedido em casamento. Mas Harry é prático demais para se amarrar a uma aproveitadora!

Pansy apoiou as mãos sobre a mesa para não cair, pois as pernas não mais conseguiam susten tar o peso do corpo. Se não estivesse apaixonada por Harry, ou se ele a amasse, aquelas palavras soariam apenas como um desabafo de ciúme. Mas, na situação em que se encontrava, cada flecha envenenada acertava o alvo com destreza. Rony e Harry voltaram para a sala.

- Pegue seu casaco, Ginny - disse Rony, ofegante. - Quero voltar para casa antes que uma árvore caída bloqueie a estrada. O vento está cada vez mais forte.

- Não podemos ficar aqui?

Pansy mal ouviu o debate entre os irmãos. Não conseguia desviar o olhar, fixo em Harry e no corte em sua face, que sangrava. Seria sério?

Ainda que não fosse por Ginny, algum dia ele se apaixonaria por uma mulher e, então, o que seria de Pansy? Sua vida estava ligada à dele para sempre.

- Está machucado - disse Ginny, livrando-se da mão autoritária do irmão e correndo para perto de Harry, com um gesto dramático.

- Não é nada, Ginny. - Harry parecia irritado.

- Tem de cuidar disso. Ginny tem razão - ar gumentou Pansy.

Não ia se oferecer para ajudá-lo. Sabia que não conseguiria manter as mãos firmes ao tocá-lo, e aquilo trairia seus sentimentos.

- Eu o ajudarei - ofereceu-se Ginny, o tom de voz dando a entender que qualquer mulher apai xonada deveria estar ansiosa por ajudar seu ho mem. Era óbvio que ela estava ansiosa.

Harry segurou-lhe os pulsos e, com firmeza, virou-a na direção de Rony.

- Faça o que Rony pediu, Ginny. Uma árvore caiu sobre o celeiro, e outras poderão cair. Seria estúpido deixar para partirem mais tarde.

Harry era o tipo de homem que conseguia o que queria, e Pansy não ficou surpresa quando os convidados obedeceram de pronto.

Assim que se foram, Pansy comentou:

- Ginny está apaixonada por você.

- Ela pensa que está - corrigiu Harry, com calma, passando os dedos sobre o corte no rosto.

- E tem motivo para isso?

- O que há, Pansy? Está me interrogando? - Estreitou os olhos. - Você se importaria se Ginny e eu fôssemos amantes?

Pansy permaneceu imóvel como uma estátua. Ela empalideceu e sentiu de repente uma tristeza a invadir.

- Não me interessa quem seja sua amante, se ela ou Cho Chang - mentiu. - Quer que o ajude a arrumar a cozinha?

- Vá para a cama, Pansy. Não infligirei mi nha presença a você nem mais um minuto, se é isso o que a incomoda.

Apesar de estar exausta, Pansy não dormiu. Ficou deitada, os ouvidos atentos a qualquer ruído na casa. Harry cumpriu sua palavra, e ela nem sequer ouviu quando ele subiu para deitar-se.