Parque Dreyfus, 18 de setembro de 1999.
Descobri ainda na adolescência que minha inteligência teórica e abstrata não fazia a menor diferença na minha incapacidade de ler pessoas. Sempre fui terrível em escolher companhias, sendo a turma a única exceção em minha vida inteira. Provavelmente só estava admitindo aquilo porque achava-me próxima da morte, mas, sim: eu era uma solteirona traumatizada após traições sucessivas de namorados charmosos e dissimulados. Ariel nem havia sido um, contudo, eu me execrava por ter dedicado atenção a ele e acatado suas opiniões.
Respeitei um estranho bonitinho enquanto apunhalava um grande amigo pelas costas há meses, por isso não me sentia nem um pouco injustiçada quando chegava em casa da universidade e caía na cama, sem estímulo para estudar ou refletir, sem propósito, isolada demais para ser compreendida, esquecida demais para expressar sofrimento, alegria, amor e até ódio; em suma, morta por dentro. Eu merecia tudo aquilo, eu merecia a solidão.
Derramei uma lágrima para cada vez em que coloquei-me em um pedestal que me afastava demais da realidade, cada vez em que me arrependi logo em seguida mas forcei-me à verdade de não poder retirar certos fatos da existência, cada vez em que tranquei minha porta e preferi escutar um livro do que uma pessoa viva, cada vez em que me dei conta de que as palavras e fórmulas escritas não preenchiam o cerne de meu tronco apodrecido nem ajudavam-no a se reerguer, cada vez em que me recusei a ver o melhor nos outros e pedir perdão, pelo menos tentando, com o maior descaramento daquele mundo, ficar ao lado de alguém e ajudar em mais do que ensinamentos. Irônico meu arrependimento final ser não ter tentado aprender mais com as pessoas em vez de achar que só eu podia oferecer algo a elas.
Nem havia sentido em lamentar a proximidade da morte. Mesmo que eu continuasse a viver, já estava velha demais para compensar tanto desperdício. Salsicha e Scooby já desconfiavam de minhas indisposições, Daphne já passara um ano aprendendo a se tratar quase sozinha, Fred recebera mais punhaladas que César e há muito deixara de olhar-me questionando, chocado: "Et tu? ".
Saí de mim quando a voz por trás dos pontos luminosos enfim se pronunciou:
— Eu não falei para trazer uma arma de verdade quando voltasse aqui?
Salsicha e Scooby arrancaram para a entrada da caverna e eu os segui, porém, notei logo que não era seguida por ninguém, nem criatura-gato nem Fred e Daphne, então, como já estava em predisposição suicida, retornei, de lanterna ligada.
Não apontei a luz para a criatura que eu sabia estar ali, mas para baixo, verificando como estavam meus amigos e porque não corriam mais. Fred tinha um arranhão feio em boa parte do peito parcialmente exposto e Daphne já estava coberta em parte do sangue escorrendo; ela percebeu a iluminação súbita e voltou-se para mim, deixando-me entender suas razões.
Era mais provável Fred sobreviver sob os cuidados de criaturas que teriam de deixá-lo vivo até o Equinócio. Daphne não sairia do lado dele, porém, a sobrevivência dos dois dependeria de eu voltar com Salsicha, Scooby e gente competente para salvá-los.
Já estava virando-me e com o dedo no botão da lanterna para apagá-la e correr de novo, quando Salsicha e Scooby colidiram comigo, voltando ao mesmo tempo em que eu saia.
Salsicha caiu bem em cima de mim e não me soltou, passando-me toda a tremedeira e gritando:
— Está infestado lá fora!
— Zumbis de novo?
— Criaturas-gato! Melhor uma aqui do que cinquenta lá. Vamos, vamos... vamos para cima desta e depois corremos caverna adentro...
Pegaram a lanterna do chão e apontaram bem para nós, cegando-nos.
— Você, derrubar-me? Até parece! E chamou-nos direto de criaturas-gato? Não lobisomens, não pés-grandes, como outros xeretas. Há alguma chance de saber com o que está lidando, magricela?
Saí de debaixo de Salsicha e falei, tentando ganhar tempo:
— Você é o homem que vimos naquele dia.
— Não neste momento, mas deixe-me retribuir com outra afirmação: você é tola e, ainda por cima, inconveniente. Está atrapalhando o armazenamento. Eu devia te jogar direto para a abominação.
— Cavou aquelas valas e matou aqueles animais?
— Mortos eles não me teriam serventia.
— Então que cheiro era aquele nas cabanas?
— Nem todos dos meus sabem os lugares certos para atirar e arranhar.
— Não nega que são suas... isto é, de vocês?
— Possuí-las é mais grave que me transformar em fera? Pare de me importunar. Sairei e falarei com a gente sobre vocês. Ninguém estará na saída da caverna, mas a única direção que não barramos é a da Ilha Moonscar. Sintam-se à vontade.
Ele jogou a lanterna em Salsicha e saiu como prometera. Esperei por um momento, então peguei a lanterna e segui-o, constatando tanto a verdade nas palavras dele quanto nas de Salsicha, daí voltei à caverna rapidamente.
Daphne tremeu por inteiro ao rever o facho de luz, mas distinguiu minha silhueta e pôde respirar mais uma vez, murmurando:
— É verdade o que ouvi?
Hesitei bastante antes de falar, temendo causar outro ataque de pânico.
— Sim. Há... algumas dezenas de criaturas lá fora. Você parece surpreendentemente composta.
Ela balançou a cabeça.
— Não é pior do que aquilo que vivo imaginando. O trauma me vacinou bem.
Fred enfim manifestou-se com um sibilo, afinal, cerrara os dentes pela dor:
— Pelo menos não nos amarraram.
Daphne voltou-se para ele e abriu a boca, provavelmente pretendo perguntar como estava a despeito da obviedade, porém, Fred ergueu uma mão:
— Foco no problema maior. Eles talvez estejam confiantes em nos prenderem por um fator além dos números, como o voodoo. Não tirem o olho de um centímetro sequer das roupas de vocês.
Salsicha aproximou-se da luz que eu sustentava e examinou os arredores.
— Esta é aquela mesma caverna que encontramos faz pouco tempo? Dá para fugirmos pelos outros corredores. Há vários!
Eu objetei:
— Não conhecemos nenhum.
— O que ainda é melhor do que os caminhos conhecidos.
Scooby ergueu a pata e sugeriu, ainda de mandíbula trêmula:
— A gente se voluntaria para explorar.
Salsicha concordou:
— Isso! Se notarmos algo parecido com a luz da lua ao final de algum túnel onde dê para andar com tranquilidade, voltamos correndo e aí todos fugiremos juntos.
Fred sorriu à custa de muito esforço.
— Não é uma má ideia. Há outra lanterna no meu bolso. Peguem, vão lá, e, caso não consigam voltar, fujam sem dor na consciência.
Apesar da pressa para encontrar uma nova saída, Salsicha e Scooby ficaram rígidos feito estátuas enquanto encaravam Fred. Salsicha mordeu os lábios, revelando com um tom similar ao sufoco físico:
— Não sei se conseguiremos nos convencer a voltar mais tarde.
— Tudo bem – foi Daphne quem disse, tirando a tal lanterna do bolso e Fred e entregando aos meninos conforme também falsificava um sorriso – Vão logo!
Eu segurei a manga de Salsicha e a coleira de Scooby:
— É prudente que nos separemos numa hora destas?
Fred respondeu:
— Você pode ir também, Velma, assim como Daphne. Só eu estou exausto.
Salsicha passou a mão pelos cabelos e sacudiu-os.
— Não fale assim, cara. Faz parecer que estamos te abandonando. A questão aqui é achar soluções tentando alguma coisa.
— Agora mesmo você dizia que...
— Esqueça o que eu disse! Você acha que eu penso no que eu digo? Cruz-credo! Eu vou logo ou não teremos tempo para nada.
Isto posto, Salsicha e Scooby soltaram-se de mim e correram para o corredor mais próximo, logo desaparecendo.
Várias pessoas entraram na caverna. As roupas velhas delas tornavam a cena similar às de perseguição de monstros em filmes do começo do século XX. Pelos números, adivinhei de imediato quem eram, assim como pela presença do rosto familiar do estranho da trilha, à frente de todos.
Destruíram nossas esperanças entrando pela frente, porém, o que eu não esperava era que fossem repetir o feito pelos fundos, pelos lados e, quem sabe, até pelo teto, pois Salsicha e Scooby voltaram apressados para a galeria e amontoaram-se ao nosso grupinho medíocre no chão. Do corredor de onde tinham começado a fugir, surgiram crianças vestidas como os adultos, uma das quais revirava com um franzir de cenho a lanterna que aqueles dois provavelmente deixaram cair.
— Voltem para dentro – o estranho ordenou a elas.
A garotinha loira com a lanterna deu-lhe um sorriso matreiro após achar o botão de ligar e apontou a luz em cheio nos nossos olhos.
— Quem são estas pessoas, vovô?
— Mosquitos em uma caminhada em pleno meio-dia pela selva. Voltem para dentro.
Ela olhou melancolicamente para Scooby, como se quisesse se aproximar para acariciar seu pelo, mas tinha mais obediência pelo ancião que força de vontade, então assentiu, embora não sem erguer a lanterna.
— Eu posso ficar com isto, pelo menos?
— Pode. Vá para dentro agora.
As crianças recolheram-se, deixando-nos a sós com seus ancestrais e aniquilando qualquer sentimento além do pavor na atmosfera.
Fred tentou levantar-se, mas Daphne segurou seu braço, embora não sua língua impertinente:
— Onde está o Ariel? Escondendo-se até mesmo neste momento? Era de se pensar que fosse aparecer para saborear a glória, mas presumo que um covarde completo se sinta seguro só depois de nos nocautearem e amarrarem.
Gritei:
— Não os afronte!
As criaturas disfarçadas de humanos balançaram as cabeças e o estranho anunciou:
— Seja lá quem tenha conhecido por esse nome, não é um dos nossos.
Fred não desistiu.
— Eu já sabia que o nome era falso, claro. Tentarei ser mais claro: quem armou para mim? Quem me atraiu para a mata e me emboscou?
— Sua própria imbecilidade, talvez?
— Por que está tentando me enganar?
— É você quem está se enganando. Eu tentei te avisar.
— Olhe, eu elaborarei melhor só uma vez: quem dentre vocês se faz de empregado do parque?
O estranho olhou ao redor de seus companheiros e pareceu tomar uma decisão. Ele chamou uma mulher idosa de detrás do grupo. Ela tinha uma aparência tão terna que era difícil acreditar na realidade de sua natureza amaldiçoada. Bastou um movimento da cabeça do homem que ela entendeu a mensagem, fosse qual fosse, e desapareceu em um corredor da caverna. O estranho então voltou-se para nós.
— Chega desse tom de ameaça. É ridículo na sua posição. Está aí quase morrendo e quer me fazer ameaças, me impor perguntas?
Outro do grupo se pronunciou:
— Deve ser o choque.
O estranho balançou a cabeça.
— Não sei.
— Acha que eles já sabiam sobre nós?
— Também não sei, mas será que a idiotice realmente é ilimitada? Se eu não soubesse de mim, comeria minha própria língua me vendo no espelho nesta época do ano. Se ousasse abrir a boca, seria para rezar, e só.
Naquele momento, a senhora retornou das sombras com alguns itens nas mãos, como potes e tecidos. Ela nos encarou cheia de dúvidas e buscou orientação no estranho, que apontou Fred.
— Dê um jeito nele, Margot.
A tal Margot decidiu-se e se aproximou. Eu, Daphne, Salsicha e Scooby todos nos erguemos e nos pusemos na frente de Fred como que em ação coordenada.
O estranho riu.
— Então ele vai sangrar até deixar meus ouvidos em paz?
Daphne relaxou um pouco.
— Quer cuidar do ferimento dele?
Salsicha falou, com vários cortes graças à tremedeira nos dentes:
— É claro que sim, ou ele não servirá para a Lua de Equinócio.
Todos lembramos simultaneamente da possibilidade, incluindo Daphne, que segundo minhas suspeitas a preferia do que uma morte imediata e permanente, saindo do caminho de Margot e nos empurrando para o lado também.
Argumentar seria inútil. Ninguém tinha escolha àquela altura, o que não impediu Fred de nos encarar como se fôssemos fugitivos de sanatório e de tentar enxotar Margot, ganhando assim uma advertência do estranho:
— O que fizer com uma das nossas será replicado em um dos seus.
Fred aquietou-se e Margot passou a cuidar do ferimento dele; quando a senhora tirou os restos da camisa rasgada para ter uma melhor visão da pele abaixo, Daphne caiu sobre os próprios joelhos e recolheu os pedaços de tecido, enfiando-os dentro das próprias roupas e recolhendo-se para junto de nós na mesma velocidade.
Não tiramos os olhos de Margot nem da orla de criaturas assistindo o processo. Odiei nunca ter pesquisado se voodoo podia ser feito também com sangue para evitar, com a mesma prontidão de Daphne, que Margot por um acaso separasse uma gota do de Fred, mas ela parecia limitar-se a estancar e limpar, por enquanto.
O estranho de repente perguntou:
— O que pensam que sabem sobre nosso povo?
Hesitamos em nos distrairmos de Margot para olhá-lo e responder. Na verdade, uma parte de mim pensava que seria melhor enfim seguir o conselho daquele homem e não falar senão para invocar a sorte do acaso, porém, eu também estava curiosa e sabia que Daphne, Salsicha e Scooby permaneceriam atentos à curandeira, uma por devoção e os outros por medo de voltarem a ver feras de brilhantes olhos amarelados.
— Encontramos três do seu... povo há um ano, na Ilha Moonscar.
— E ainda queriam voltar para lá? Não tenho mais dúvidas: a idiotice não tem limites.
Daphne interveio:
— Ninguém queria voltar, mas vocês não deixaram escolhas aos escrúpulos do Fred ao pegarem um garoto que não tem nem dez anos! Simone, Lena e Jacques eram uns desgraçados, literalmente amaldiçoados, mas nem no território deles eu vi uma criança entre os zumbis, seus imorais!
O estranho passou de furioso a plenamente interessado e procurou uma pedra plana pela caverna para se sentar. Ao achar, ele concentrou-se em Daphne.
— Simone e Lena, é? Então funcionou para elas.
O grupo inteiro repetiu os gestos do estranho, e onde antes não sabiam bem como nos encarar, limitando-se a seguir ordens e não agir quando elas não vinham, naquele momento mal pareciam conter a ansiedade para tecer as próprias questões.
Eu apertei o ombro de Daphne:
— Não os afronte você também. Estamos na casa deles – baixei minha voz – Preste atenção na Margot.
Daphne obedeceu a contragosto e eu pude responder ao estranho:
— Sim, funcionou por séculos.
Um do grupo balançou a cabeça.
— Não pode ser. A maldição deve tê-las pegado de um jeito cruel o bastante para entrar na história dos tais dos civilizados, daí estes conhecerem os nomes.
O estranho ordenou que ele se calasse e se dirigiu a mim:
— O que você entende por funcionar, o que são esses zumbis que mencionou e quem é Jacques?
— Os zumbis são a mesma maldição de que falou seu amigo; mortos-vivos que tentaram nos afastar daquele lugar. Simone e Lena atraíram o meu povo para a Ilha Moonscar por séculos, caçaram-nos na forma de vocês e sugaram a energia vital deles para preservarem a imortalidade. Jacques foi um velho que elas recrutaram para ajudá-las. Ele também era imortal.
Voltaram a se opor à minha palavra:
— Mentira! Deus nunca recompensaria a traição!
O estranho estava pálido e sua voz não tinha nem um quarto da confiança áspera de anteriormente:
— Calma, André. Eles não sabem de nada. Devem ter lidado com descendentes de gerações e gerações sem ter a mínima ideia.
Outro homem pronunciou-se:
— Mas ela falou dos mortos-vivos. Isso estava nas profecias!
O estranho argumentou:
— Se eram com descendentes que lidavam, os descendentes sabiam disso tanto quanto nós. Podiam mentir à vontade.
Eu, que estava controlando minhas emoções com facilidade até ali, explodi:
— Ah, não! Eu engoli o ceticismo do mundo inteiro, mas de vocês, aberrações, não! Como ousam negar a si mesmas para fritar cada neurônio restante na porcaria da minha cabeça?!
Apontaram-me dedos:
— Aberração é você que não para de falar besteira!
Fred bradou hipocritamente:
— Parem de gritar! Por que tanta controvérsia, afinal?
Algo na ousadia de Fred teve apelo para André, que respondeu:
— Por que Deus mandaria sua maldição sobre as traidoras só séculos depois de elas afrontarem todos nós? É absurdo!
— Não. Elas sofriam com a maldição da transformação e da energia vital já faziam séculos.
André quis avançar em Fred e só o estranho o conteve, mas aquele continuou gritando:
— Agora chama nossos costumes de maldição, seu filho da...
Naquela altura, eu começava a entender o que se dava e me pus na frente de Fred antes que a situação piorasse, falando ao estranho com a mesma curiosidade que ele há pouco me concedera:
— Está havendo uma série de desentendimentos. Fica claro que não temos a mesma visão das coisas. O que é a maldição para vocês?
— Os mortos-vivos haverão de derrubar toda abominação que surgir entre nós.
— É assim que conhecem Lena e Simone?
— Sim.
— E acreditam que elas deixaram descendentes, mas foram abatidas e não chegaram perto da imortalidade?
— Somos reles mortais. Quem chegaria a isso? É nossa natureza. Não há o que mudar.
Respirei fundo e só depois continuei:
— Se me disserem que não sabiam da reputação da Ilha Moonscar, terei de chamá-los de mentirosos. Por que o senhor quereria me afastar da trilha que leva até lá?
— Sabíamos que era perigoso por causa dos descendentes que vivem se esgueirando por aqui para roubar nossos altares, não por espíritos e lendas que caminham como nós.
— Certo... E por que Lena e Simone eram abominações?
— Elas tinham ideias que repugnariam Deus. É o que nossos pais nos passam desde que o mundo é mundo.
— Que ideias?
— Queriam fazer sacrifícios impuros e inadequados. Eram umas cadelas gananciosas que não se contentavam com boa saúde e as demais bênçãos que colorem a nossa vida.
— Elas... as mulheres que se chamavam pelos nomes delas disseram que viviam pacificamente entre o povo de vocês.
— Isso é mentira de descendente frustrado e safado.
— Nunca foram atacados por Morgan Moonscar?
Ele inflou orgulhosamente o peito.
— Fomos, e subjugamos o imbecil em uma horinha de luta pelo pântano. Nosso erro foi criar rancor, querer puni-lo, deixando a tripulação dele com aquelas doidas, que se aproveitaram escondidas de nós. Claro que já se sabia que seria possível, por um tempo, mas logo viria a punição.
— Refere-se a sugar energia vital de humanos?
— Sim.
— Mas vocês chamaram isso de costume.
— Viu alguma pessoa nas nossas valas? Não atacamos humanos.
— Então o que ganham em troca dos rituais?
— Nunca morremos jovens, nunca adoecemos. Tem sido assim desde que nosso povo nasceu.
— São tão aguerridos às tradições e, entretanto, deixaram a ilha de vocês quando Lena e Simone pecaram.
— Aquela ilha não passava de um esconderijo. Este parque funciona tão bem quanto ela – ele olhou feio para Fred – Na maioria das vezes.
— Saíram exatamente quando?
— Assim que percebemos o que fizeram as abominações. Não queríamos ver os nossos ancestrais levantarem-se para as pegarem nem arriscar sermos pegos em meio à fúria de Deus.
Decidi rapidamente como procederia a partir dali, mesmo escutando tentativas de protestos leves de meus amigos, que abafei elevando cada vez mais minha voz:
— As abominações da ilha devem ter se apaixonado tanto pelas precursoras no egoísmo e na podridão similares que adotaram até seus nomes.
Escolher despistá-los não foi fácil. Minha curiosidade não tinha fim. Com perigo ou sem perigo, eu passaria anos naquela caverna tirando dúvidas e estudando aquelas criaturas. Eles haviam mencionado serem mortais, nunca humanos, então eu podia estar diante de uma espécie inteiramente nova e cravar nela meu nome de descobridora.
André insistiu:
— Os mortos-vivos as pegaram?
Eu confirmei, afinal, de certa forma, era verdade:
— Pegaram. Caíram sobre elas – uma linha de pensamento fez-me retornar à mentira – Não quero ofender o povo de vocês, mas o único jeito de haver novas abominações me parece ser desertando desta caverna.
— Nossos ancestrais cortaram qualquer laço com Lena e Simone.
— Eu sei, mas vocês mesmos chamaram o que nos atacou hoje de abominação, então há uma nova. Alguém sumiu ultimamente?
— Não, ninguém! Todo mundo aqui se conhece, todo mundo cresceu com todo mundo e assim será até o final de nossos dias.
Supondo que fossem de fato inocentes, presumi que continuar pressionando naquele sentido também me renderia problemas, afinal, obrigaria a concluir o quão impossível seria a perpetuação de abominações fora daquela comunidade caso a tal divindade realmente as punisse tão prontamente quanto se dizia.
— Vão nos deixar ir depois de tratarem Fred?
O estranho respondeu:
— Vão parar de xeretar?
Achei melhor não mencionar que continuaríamos a procurar Hugo e Fitzgerald quer eles quisessem quer não.
— Claro, e acho que é esperto o bastante para notar que saber da existência de vocês não fez nenhuma diferença em nossa sociedade incrédula. Não precisa se preocupar conosco atrapalhando seu estilo de vida.
Falou-se em tom altivo:
— Escolherei acreditar.
— Sabe, acho engraçado como é bem articulado tendo em vista que mora na selva. Há quanto tempo seu povo está aqui?
— Desde muito antes de chamarem de parque. Desde nossos ancestrais deixarem a ilha.
Diferente dele, eu não poderia manter a mesma postura impecável ao declarar que escolheria acreditar, preferindo manter-me calada e apenas forçar-me a anuir.
Eles me deixaram a sós com a turma e voltaram para fora a fim de supostamente reunir outras presas. Examinei o começo dos corredores mais próximos, prevenindo-me contra os ouvidos das crianças deles, e depois sentei-me diante de Daphne e Fred, perguntando:
— O que acham?
Daphne não respondeu. Ela mantinha o olhar vidrado no curativo do noivo. Ante a baixa inevitável da adrenalina, enfim ela tinha tempo de lidar com o que acontecera nas últimas horas, e se contemplar um dano em Fred era melhor que olhar nos meus olhos e aceitar a realidade da situação, eu mal podia imaginar como se encontrava a mente dela.
Fred resmungou:
— Eles estão mentindo para nós. Têm de saber que a imortalidade é possível sob o Deus Gato. Como não saberiam se supostamente o adoram?
Salsicha tentou amenizar a situação comentando:
— Não sabem quão alto aquela menina doida gritou quando nos deparamos com ela no corredor. Chegaram a ouvir? Claro que sim. Anotem minhas palavras: em breve o avô dela voltará aqui perguntando quanto quero pelo Scooby porque a neta dela sempre quis um igual a ele.
Scooby gritou:
— Não!
— Calma. Eu direi que você já está muito velho, praticamente no pé da cova. Que comprá-lo seria assegurar que a neta chorasse bastante dentro de breve.
Apreciei a tentativa de humor, mas ri apenas brevemente antes de me concentrar em Fred:
— Você foi bem enfático ao me informar de que nunca houve um desaparecimento neste parque antes de Hugo. Queiramos ou não, é um ponto a favor da história daquelas criaturas.
Fred bufou:
— Só se elas estiverem falando a verdade sobre estarem aqui há muito tempo e, mesmo se estivessem, poderiam manter a aparência de segurança do parque sequestrando apenas sem-teto que viessem se abrir por aqui. Aquele líder deles me pareceu espertinho demais para um selvagem.
Daphne murmurou, mantendo a expressão vazia e quase que buscando um consolo:
— Mas ele tampouco é dissimulado como Lena, Simone e Jacques. Nenhum traço de seu comportamento cheira a falsidade, e, quando tentou forçar-se àquilo fingindo-se de mudo na trilha, fracassou notavelmente.
Fred balançou a cabeça:
— A crueza só clarifica a psicopatia dele, e o resto do grupo é só de dissimulados.
Daphne insistiu:
— Não totalmente. É muito fácil aceitar que Lena e Simone fizeram o que fizeram por ganância egoísta e não vingança comunitária. Até vingança exige uma dose prévia de ternura por algo ou alguém que foi tomado de você. Elas não tinham nenhuma.
Fred deixou-se relaxar momentaneamente e segurou a mão de Daphne.
— Afinal, parece que essas duas são irrelevantes agora. Velma estava certa, em parte. Temos muitos e novos inimigos.
Ele hesitou em continuar o que pretendia anunciar ainda mais do que hesitara em dizer aquela última frase. Daphne poupou-o de esforçar-se demasiadamente tirando as palavras da boca dele:
— E farão conosco o mesmo que fazem com os veados naquelas valas. Talvez nem precisem mais deles agora que nos têm. Nada garante que não tenham as mesmas intenções de Ariel para conosco nem que não trabalhem com ele.
Fred revoltou-se ante aquelas verdades e olhou-me:
— Por que os deixou mentirem tanto? Se vão nos forçar a ficar aqui, que seja, mas não temos de degradar nossos ouvidos antes do tempo.
Esclareci:
— Para quê provocá-los? Eu não estou participando de nenhum pacto de suicídio, além disso...
— O quê?
— Sei que está convencido de que mentem, mas concordo com as observações da Daphne, e tem outra coisa: se fossem como Lena e Simone, teriam virado pó junto delas no ano passado, a não ser que ainda não fossem criaturas na época.
— Não necessariamente. Poderiam estar tendo sucesso aqui enquanto elas falhavam lá.
— De toda forma, se houver chance de falarem a verdade, é certamente melhor para eles e para toda a humanidade que não descubram que o amado deus deles só soltou a maldição profetizada sobre Simone e Lena quando deixou de ser adorado ritualmente. Não quero nem arriscar converter um bando de feras excêntricas em bestas perigosas e assassinas cuja única diferença daquelas duas será um maior cuidado em não serem detidos.
Fred riu amargamente:
— Então ficaremos aqui paradinhos e seremos sugados com Hugo e Fitzgerald no Equinócio?
Ele se apoiou em Daphne e na parede, levantando-se mais rápido do que devia.
— Temos de fugir e ir para a ilha! Se Hugo e Fitzgerald não estiverem lá, traremos a polícia para estas cavernas custe o que custar. Se eles dizem que são mortais, podem ser feridos por balas, diferente das abominações. Se eles têm uma curandeira, temos chance de sucesso.
Salsicha passou um braço por debaixo dos de Fred e quis aplacá-lo:
— Calma, cara. Eles não pareceram tão intimidantes quanto não estavam transformados. Há velhos e crianças aqui.
— E por que são velhos e crianças vai deixar que te peguem? Jacques também era velho. Velhice nem sempre purga oportunismo e perversão.
Sustentei o outro lado de Fred e ditei:
— Vamos nos concentrar só na fuga, por enquanto. Você realmente acha que pode voltar para o hotel agora? Conseguiria correr, se necessário? Ainda faltam alguns dias para o Equinócio. Nossas vidas não estão em perigo imediato.
— Eu posso já estar envenenado agora. Ninguém me garante que o unguento daquela mulher não era um paralisante dérmico.
— Paralisante não é veneno, e você está muito pálido.
— Melhor pálido e cheio que marrom e murcho, lembra?
Fred soltou-se de nós e caminhou sozinho para a entrada da caverna, encostando-se à lateral e examinando o exterior. Ele voltou para perto de nós e sussurrou:
— A única coisa que invejo deles é a visão. Não fosse a escuridão, poderia afirmar com certeza que não há vigias fora da caverna. Poderemos correr, pelo menos por um tempo.
Salsicha objetou:
— Eles nos alcançarão. Não estamos tão vigorosos quanto na primeira perseguição.
— Aí nós voltamos para cá e nos metemos nos corredores, conforme o plano original.
Uma sombra tomou conta do rosto de Fred e, naquele momento, eu tive certeza de que uma maldição realmente pairava sobre todos aqueles que se envolvessem com o Deus Gato, fossem adoradores, fossem vítimas, pois não pude reconhecê-lo na próxima vez em que ele se pronunciou, e já não sentia tal estranheza para honrar interesses próprios.
— E avançaremos continuamente, independentemente do que encontremos no caminho.
Saímos da caverna com Fred ainda liderando o grupo apesar do ferimento. Era absurdo acreditar que conseguiríamos dada a forma como ele esforçava-se para não expressar dor nem pressionar o curativo que já começava a enrubescer. Só a lua que rapidamente transformava-se em aurora dava-nos esperanças, apesar de não terem precisado da escusa da noite consumada para levarem Hugo.
