Capítulo 15: Caravana Azul

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Izumu diz: Ela agora anda diferente. Sabe, anos como guarda te fazem conhecer as pessoas, e o jeito como Sakura anda não é mais o mesmo. É como… se ela estivesse andando sobre rochas o tempo todo.

Não pode ser bom para sua postura, sério.


Sakura cruza os portões no meio de uma manhã comum. Os trevos acabaram de começar a brotar no cume das colinas. Ela está limpa e sem machucados, e ostenta um sorriso nos lábios ao passar pelos guardas, cumprimentando-os gentilmente.

Izumo acena jovialmente e ela para conversar por um tempo antes de continuar sua jornada até o prédio do Hokage. A papelada do seu restabelecimento como uma cidadã de Konoha, ela diz, vai demorar algumas semanas para ser processada, e quanto antes ela fizer isso, melhor.

Kotetsu dá uma cotovelada em Izumo quando ele abre a boca para expressar preocupação e ela acena em despedida.

Seus passos somem no horizonte, solados gastos se arrastando pelo concreto.

Ela quase não mudou – talvez tenha envelhecido; os meses agiram sobre ela. Talvez ela esteja menos animada; a distância deixara parte de sua vivacidade nas estradas sinuosas.

Sasuke não está junto dela. De todas as coisas – como ainda é de madrugada, o excesso de bugigangas farfalhando em sua bolsa, os olhos levemente inchados – esse é o fato que mais se sobressai.

Sakura Haruno volta para casa de mãos vazias.


Kakashi diz: Sakura… está bem. Ela está trabalhando mais do que deveria como sempre, e escolheu me ajudar com a papelada, então não posso reclamar. Os novos filhotes gostam de matar tempo no apartamento dela, mas eles nunca me dizem o que se passa por lá. Eu acho que ela está subornando o silêncio deles com petiscos. Esperta.

Ela está… ela está mudada, um pouco, das suas viagens. Algo sobre estar mais vivida. É… na verdade, agora que eu penso sobre, me lembra do meu eu de anos atrás.


Kakashi observa quando ela agacha no chão do seu escritório, um sorriso largo nos lábios ao fazer carinho nos filhotes recém-nascidos se remexendo no cobertor. Pakkun finalmente encontrara uma companheira e a pequenas e fofas bolas de pelo no chão e no seu braço eram sua prole.

— Não acredito que eu perdi isso. — ela faz um som de surpresa. — Eu… Kakashi-sensei, dê parabéns ao Pakkun por mim.

Ele assente e após mais uns minutos de atenção, ela se desvencilha e fica de pé, se aproximando de sua mesa. — Eu gostaria de dar entrada na minha cidadania.

Kakashi lança um olhar para as olheiras que adornam seus olhos sem vida mas não faz nenhum comentário. — Certo, vou trabalhar nisso. Aliás — ele diz calmamente, pegando sua bandana na mesa. — Isso pertence a você.

Ela assente, aceitando a hitai-ate sem responder. Sua mão se fecha com força ao redor do tecido vermelho, os nós dos dedos embranquecendo. — Se não se importa, vou voltar mais tarde para preencher a papelada. Eu gostaria muito de tomar um banho. Foi uma viagem longa.

Ele assente mais uma vez, devagar, e ela está indo embora quando ele chama seu nome. Ela para de andar, os músculos dos ombros enrijecendo em tensão; ele se levanta da mesa para ficar de frente para ela. Ele não é um homem afetuoso mas abraçá-la não é nenhum sacrifício. Os dedos dela se fecham no duro material de seu habitual colete e ela reprime o choro. Ele finge não conseguir senti-la engolindo as próprias palavras.

— Bem-vinda de volta. — ele dá tapinhas de conforto em suas costas antes de se afastar, e seu sorriso é choroso quando ela olha para cima.

— Obrigada.


Sai diz: A Feiosa parou de ir nas aulas de pintura. Eu li um pouco sobre términos, já que parece isso, e eu cheguei a conclusão de que a Feiosa não quer ser mais minha amiga. Ela não treina mais com o time como antes, ela não pinta, e ela parece… não exatamente morta, mas vazia às vezes. Branca como uma tela.

Para concluir, devo dizer que a Feiosa não quer mais estar perto das pessoas.

Eu estaria mentindo se dissesse que não estou triste.


Ele aparece em seu apartamento dois dias depois com Naruto. — O treino não mudou de horário. — Naruto diz, entrando na cozinha para se apoiar no balcão.

Sakura está sentada na mesa de madeira, o cabelo bagunçado pelo sono. Seu rosto está pálido, mais fino do que costumava ser. Ela está lendo o jornal e bebendo uma xícara de chá morno, e tudo considerado, parecia que pouca coisa mudara. Ela sorri ao levantar o olhar, pés curvando como sempre faziam quando ela estava feliz com algo.

— Eu sei, Naruto. — ela responde calmamente, não estando afetada pela sua intrusão. — Oi, Sai. — ela se vira para cumprimentá-lo de onde ele está parado, incerto, no portal. Ele dá adentra e, mesmo que já tenha ido em seu apartamento antes, já faz um tempo e tudo mudou.

Ela está vivendo de sua bolsa de viagem, ele percebe, quando vê as roupas espalhadas no sofá, as cobertas empilhadas no chão como se ela tivesse jogado-as antes de se levantar. A porta do quarto está fechada. A janela está aberta.

— Sakura. — ele cumprimenta, fechando a porta ao entrar. — Você parece de ressaca. — ele comenta.

Algo muito parecido com irritação quase ressurge mas não antes de ser engolida pela aceitação. — Estou mesmo, na verdade. Bebi um pouco demais ontem a noite.

Não precisa de muito para ver, quase escondido pelos cobertores no chão, um copo e algumas garrafas vazias.

Naruto franze o cenho. — Não faz seu feitio.

Ela se levanta calmamente, andando até a pia. A xícara bate ruidosamente na bacia de metal. Ela está de costas para eles quando finalmente responde; as palavras são secas, uma piada forçada quando ela abre a torneira. — Que, uma garota não pode se divertir?


Lee diz: Radiante Sakura não é mais radiante e cheia de juventude. É meio triste e óbvio que ela está sofrendo de algum desequilíbrio na vida. Eu a convidei para dar 300 voltas ao redor de Konoha às manhãs e meditar às tardes, mas ela recusou.

Como é terrível ter um coração sendo consumido lentamente diante dos seus olhos.


Ela divide o tempo livre entre mecânicas de treino e nuances de engenharia genética. Quando ela não está tentando recuperar o físico que tinha durante os exames de meses atrás, ela está deitada no campo sob o sol, de bruços, lendo atentamente alguns textos.

Lee a observa ser transparente com suas intenções. Ela está bem o suficiente, ele pensa ao ouvi-la cantarolar lendo, fazendo anotações nas margens e marcando palavras; mas ela não está feliz.

Ele não consegue dizer como sabe disso porque para todos os efeitos ela é a mesma de sempre. Ela é espirituosa e bondosa, confiante e inteligente. Mas algo está diferente.

Sakura para de ler de repente, respirando fundo e pressiona a testa contra as páginas, fechando os olhos.

Lee engole em seco e vai embora.


Shikamaru diz: Eu não me envolvo nesse tipo de coisa. Sakura é uma boa amiga, ela é inteligente, continua fazendo seu trabalho e ela está bem. Não é da minha conta ficar especulando.

Como assim não é o suficiente? Deus, Ino, quem dá uma f…

Tá bom. Tá bom. Se quer saber, ela parece solitária.


Ela vai até a floricultura para pegar suas plantas quando Ino não está. Shikamaru está jogado no balcão, avental amarrado na cintura e apesar de tudo, isso a faz sorrir. — Belo avental. — ela brinca e ele faz uma careta.

— Ino me obriga a usar sempre que ela…

— Tem plantão na Inteligência, eu sei. Ou tem afazeres do clã, imagino.

— Sim. — ele assente e então franze o cenho. — Ela vai ficar puta que você finalmente veio e é quando ela não está.

Ela morde os lábios, encarando o relógio na prateleira intensamente. — Era meu único dia livre. Não teve muito movimento no hospital e eu estou esperando alguns exames ficarem prontos antes de continuar minha pesquisa.

Ele acena, encarando-a especulativamente e ela se mexe em desconforto, brincando com uma pétala de rosa. — Então… minhas plantas?

— Certo. — ele confirma, se levantando e vasculhando o quarto dos fundos. Ele vê pelo canto do olho que ao dar as costas para ele, ela suspira e passa as mãos nos braços em embaraçamento. Pegando os vasos com cuidado, ele retorna com um cacto e quatro potes de vidro com ervas que Ino colocara na estante dos fundos. — Aqui está. — ele as entrega numa caixa para facilitar o transporte e ela sorri.

— Elas cresceram. — ela repara em surpresa, olhando os longos talos de coentro.

— Plantas costumam fazer isso. — ele diz arrastadamente. — Você esteve fora por um tempo, então… as coisas mudam.

Ela desvia o olhar. — Certo. Bem, diga a Ino que eu mandei oi. E obrigada. Eu deveria ficar fora mais tempo — ela tenta fazer piada. — porque ela cuida muito melhor das minhas plantas. — ele arqueia uma sobrancelha e ela suspira. — Bem, te vejo por aí. — ela consegue dizer após um minuto de constrangimento e se vira, indo embora a passos rápidos.

Ele a encara enquanto ela faz seu caminho entre a multidão do lado de fora, desaparecendo entre as pessoas.

— Certo.


Naruto diz: É melhor eu nem começar. Eu estou… porra, eu estou tão puto com a Sakura-chan. Logo com ela. Eu não estou nem com raiva do Sasuke.

Tá bom eu tô sim. Mas eu estou tão… tão… irritado pelo fato de que ela está fingindo que está tudo bem, que as coisas estão ótimas, e que estar de volta a Konoha é ótimo, que a comida é ótima, o clima é ótimo; eu a amo, sabe? Ela é uma das melhores pessoas que eu conheço.

Mas ela precisa parar de mentir pra mim. Ela deveria saber que não precisa fazer isso.


— Naruto, eu juro que tá tudo bem. Já falei isso. — Sakura dá tapinhas em suas costas quando ele aparece pela décima sexta vez seguida em seu apartamento, exigindo explicações.

Ele rosna, se desvencilhando de seu toque ao se levantar abruptamente. A cadeira onde ele sentava cai com a força de seu movimento. — Besteira. — sua fala é quebradiça. Ele a encara e ela suspira em resposta, massageando o rosto em cansaço.

— Eu não sei o que você quer de mim. — ela diz quase assombradamente.

— Eu só quero que você seja sincera comigo, cacete. — ele grita, derrubando um copo da mesa, e ele se quebra ao atingir o chão. Ela estremece.

— Eu gostava desse copo. — ela murmura para a porcelana e ele espalma as mãos na mesa.

Que se foda o copo. Eu só… — ele se inclina, e de repente ele parece insuportavelmente triste; Sakura não consegue mais olhar para ele. Ela encara suas mãos entrelaçadas, lutando contra seus pulmões abrasados, a tentação de gritar de volta. Mas dá muito trabalho e ela não tem a capacidade de fazer isso; aceitar é mais fácil. — Eu só não entendo. Eu só… você é da família, Sakura-chan. — ele diz baixinho, e o sussurro dói mais do que qualquer grito.

Os lábios dela tremem, os olhos marejando.

— Por que você não confia em mim?

— Eu confio. — ela suplica, finalmente reencontrando seus olhos. — Eu confio em você. Mais que todo mundo. Eu só… — ela morde os lábios e ele vagarosamente ergue a cadeira, voltando a se sentar, esperando. Ela está a dez segundos de lhe contar a verdade; então, ela olha os cacos de vidro e fecha os olhos.

— Eu estou bem. — ela diz. — Sério.

Ele vai embora mas as lágrimas começam a cair antes da porta fechar. No vazio de seu apartamento, Sakura chora.

Ino diz: Ela está perdida por aí, e se eu tiver que interrogar todo mundo nessa maldita vila, eu vou. Eu vou fazer de tudo para encontrá-la.

Eu só… Eu só sinto falta da minha Sakura.

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15/18

Constellations está na reta final e vai ser concluída ainda esse ano. Obrigada pela paciência!