Capítulo Dezesseis

About Time

(Já Era Hora)

Os três olharam para a pequena ampulheta dourada nas mãos de Hermione. Estava lá, inocente, apesar de Hermione não saber como deveria confiar nela depois daquela tarde.

— Bem — falou Draco, quebrando o silêncio que seguiu a explicação de Hermione. — Não chega nem perto de ser o que eu tinha esperado, mas acho que faz sentido.

— Faz sentido?

— Não somos idiotas completos — falou Ron. — Às vezes você estava bem atrás da gente e aí sumia...

— Como aconteceu depois do bicho-papão — falou Harry. Hermione sorriu, culpada. Era verdade que contara até demais com a falta de atenção dos meninos, mas parecia que não tinha acreditado o suficiente neles. Se fossem apenas Harry e Ron, achava que teria se safado por mais um tempo, mas Draco era muito observador.

— E — continuou Ron — você disse que tinha quatro aulas antes do almoço e...

— É, está bem — disse Ginny, sorrindo. — Então Hermione não é tão sorrateira quanto achou ser. Deixe-a em paz. — Ron cedeu com um resmungo. — Então, disse que hoje deu errado? — Olhou para o Vira-Tempo com desconfiança. Hermione não podia culpá-la.

Em resposta, afastou a gola da camisa do uniforme e mostrou as marcas vermelhas que eram um lembrete de seu acidente. Madame Pomfrey tinha dito que não ficaria com cicatrizes, mas no momento não era o que parecia.

— E seu cabelo — disse Draco. Hermione assentiu e levou a mão, constrangida, para sentir as pontas significativamente mais curtas. Pelo que podia sentir, Lavender tinha feito um bom trabalho, mas ainda era estranho. Seu cabelo não tinha esse tamanho desde que tinha oito anos.

— Parece que você se estrunchou — disse Harry, inclinando-se para ver melhor. Seus olhos estavam desfocados e ela achou que ele estava com problemas para ver, apesar de não conseguir imaginar o motivo; ele usava os óculos, como sempre.

— Foi o que a Madame Pomfrey disse — suspirou Hermione. — Mas não sei por que, eu não fiz nada de diferente...

— Você, não — falou Harry e ele parecia... arrogante? — Acho que eu estava certo — falou aos outros três antes de se voltar para Hermione. — Wormtail estava envolvido.

— Harry... — começou Hermione, impaciente; tinha certeza de que teria percebido se Peter Pettigrew estivesse por lá.

— Hermione — disse ele no mesmo tom. — Você se estrunchou porque ele estava com você. Draco falou que o Bichento estava interessado na sua mochila... provavelmente porque Pettigrew estava nela, como Wormtail.

— Ele não poderia estar... — disse ela, franzindo o cenho.

— Por que não? — perguntou Ron com sensatez. Hermione olhou para Draco e Ginny, esperando por ajuda, a ideia de Harry era maluca... mas os dois assentiam.

— Porque... porque eu teria notado! Um de nós teria notado...

— Ratos são bem sutis — lembrou Ginny. — Não são como, digamos, uma girafa ou algo parecido. — Ela sorriu para Harry, que bufou.

— Girafas? — perguntou Hermione, perdida.

— Não é nada — disse Harry, cerrando os olhos na direção de Ginny. — Mas ela está certa sobre ratos serem sutis, e nós todos estávamos um pouco distraídos hoje...

Isso é atestar o óbvio — murmurou Draco. Hermione relembrou o dia e percebeu, surpresa, que o sonho de Harry em Adivinhação, sua ida à Ala Hospitalar e a visita que Hermione e Draco lhe fizeram tinham sido naquela manhã. Viagem no tempo tinha um jeito de distorcer as coisas, apesar de isso não ser uma surpresa; ela tinha vivido aquela manhã duas vezes, afinal.

— ... e eu poderia ter notado se ele estivesse lá — dizia Harry —, mas quase não te vi hoje...

Se ele estava comigo — falou Hermione —, isso explicaria o que aconteceu quando tentei voltar... — Quase esperava para ser o caso; se fosse, então era fácil explicar porque as coisas tinham dado errado e era improvável que voltasse a acontecer. Estava com medo de voltar a usar o Vira-Tempo e passara a tarde no banheiro, chorando e tentando decidir se valia o risco ou se teria de desistir das matérias até conseguir montar um horário que não dependesse dele. — Mas não entendo por que tem certeza de que ele estava.

— Bem, teve o meu sonho — falou Harry. — Eu vi Wormtail contando ao Voldemort — Draco e Ron se encolheram ao ouvir o nome, a expressão de Ginny ficou tensa e Hermione fez uma careta — que ele sabia que eu não estava mais com a capa.

— Está bem — disse Hermione lentamente.

— E aí, quando voltamos à tarde, ele esteve aqui. — Hermione olhou ao redor do dormitório, cautelosa e cética ao mesmo tempo. O dormitório lhe parecia perfeitamente normal. Harry sorriu levemente, e ela teve a impressão de que ele sabia o que ela pensava. — Como? — perguntou ele. Ela assentiu, e Harry fez uma careta. — Tem a ver com meu segredo. — Hermione esperou pacientemente. — Eu senti o cheiro dele — contou por fim.

— Sentiu o cheiro? — repetiu, duvidosa. Olhou para os outros três, mas eles não pareciam achar tão estranho quanto Hermione. — Harry?

— Acho que é mais fácil só te mostrar — disse ele. Olhou para Ron. — Não a deixe surtar, está bem? — Ron assentiu e se aproximou mais um pouco de Hermione, que o olhou com confusão, mas não se moveu.

— Observe — disse ele, indicando Harry, então Hermione o fez. Harry se inclinou, criando pelos, dentes e orelhas negras. Hermione conhecia a transformação (tinha visto o padrinho de Harry se transformar na primeira vez que visitara Grimmauld Place), mas era um choque ver Harry se transformar. A mão de Ron era gentil em seu joelho, a de Ginny em seu ombro. Draco observava seu rosto com atenção.

— Não — conseguiu dizer depois de um momento — é o que eu esperava. — O Lobo Harry parecia ansioso. — Isso é... Como foi que... Harry, isso é magia incrivelmente avançada! Quanto tempo faz que você consegue... — Hermione parou. — Na verdade, deixa pra lá; o que eu quero saber é por que você acha que iria para Azkaban se alguém descobrisse... — Mas uma ideia lhe ocorreu antes que qualquer um dos outros pudesse falar qualquer coisa, e ela cerrou os olhos. Harry pareceu se encolher um pouco. — Você é registrado, né? — O rosto de Harry não era humano, mas Hermione conseguia ver a culpa nele mesmo assim. — Harry!

Harry se levantou e voltou a ser ele mesmo.

— Eu falei que era um segredo enorme — disse ele, tímido.

— Ser um Animago sem registro é ilegal, e você deveria saber disso depois do que aconteceu no julgamento de Sirius! — Hermione tinha lido sobre as multas que ele recebera. Olhou para os outros num pedido de ajuda, mas parecia que mais ninguém ia dizer qualquer coisa... para ele ou qualquer outra pessoa. Por um breve momento, ela perguntou-se se teria de fazer isso ela mesma. — Mesmo que você não queira, ele devia tomar mais cuidado. Ele é um Auror...

— Hermione — chamou Harry. — Eu sei. Ele sabe. Temos nossos motivos, sabe. — Hermione cruzou o braço e arqueou uma sobrancelha. Harry suspirou. — No começo, eu fiz Padfoot me ensinar porque achei que seria legal poder ir com ele e Moony na lua cheia. Ainda não consegui permissão, mas ainda é algo útil.

"Mas no segundo que eu me registrar, estarei na primeira página do Profeta e, assim que isso acontecer, Voldemort vai saber. Ele vai descobrir em algum momento", adicionou, "mas quanto mais tempo ele não souber, por mais tempo terei minha vantagem contra Wormtail e contra qualquer outro que ele mandar xeretar ou me pegar de surpresa. Já me ajudou uma vez contra ele; eu te contei que Quirrell me prendeu enquanto tentava entender o espelho. Eu não consegui me soltar porque as cordas estavam frouxas e ele estava distraído; eu me soltei porque me transformei e a corda não estava do jeito certo para um lobo."

Hermione conhecia Harry havia vários anos e achava que nunca o ouvira falar tanto de uma única vez. E ele tinha razão.

— Huh — disse Draco suavemente. Hermione tinha de admitir que essa versão dos eventos vazia muito mais sentido do que Harry se soltar de algum jeito.

— Acho que faz sentido — disse por fim, e Harry relaxou um pouco. — Você não achou mesmo que eu ia te denunciar, né? — Harry pareceu envergonhado, mas foi Ron quem respondeu.

— Poderia ter denunciado — falou. — Você sabe; regras, Ministério... — Hermione o acotovelou sem muita vontade, mas ele apenas riu e se afastou.

— Não vou dizer que não pensei nisso — admitiu —, mas não vou denunciar. Eu já queria, mas depois de hoje, quero que o Wormtail seja pego e isso pode ajudar. — E, para Hermione, era isso; lidariam com as habilidades ilegais de Harry quando não fosse tão necessário que elas continuassem escondidas.

-x-

— Senhor Malfoy... o mais novo — adicionou quando Hydrus também o olhou. Finalmente o garoto tinha tirado a tipoia que usava desde o incidente com o Hipogrifo, apesar de ele ainda choramingar sobre seu braço para quem quisesse ouvir. — Por favor, fique mais um pouco. — Draco terminou de guardar suas coisas na mochila e se aproximou de sua mesa. Severus esperou até os últimos alunos do terceiro ano terem saído; nem mesmo Potter, Weasley e Granger enrolaram para ir embora, mas Severus duvidava que eles tinham ido muito longe.

— Senhor? — perguntou Draco educadamente.

— Não pude evitar entreouvir sua conversa com Hydrus quando chegaram à aula — disse Severus. O rosto de Draco se contorceu de um jeito que sugeria que ele duvidava disso, e Severus o ignorou, porque ele não estava errado. — Sobre a situação com seu pai.

— Ah — disse Draco. Ele pareceu surpreso por um breve momento, mas logo a expressão sumiu. — Isso. O que tem?

— Precisamente o que você escreveu em sua carta para Lucius que o faz achar que tem a situação sob controle? — perguntou. — Até onde sei, suas tentativas de negociar em nome do Hipogrifo não estavam indo bem. — O próprio Draco tinha lhe contado, afinal.

— Tentei algo diferente — disse ele. — Na verdade, Potter que me deu a ideia.

— Potter? — perguntou sem se dar ao trabalho de esconder o ceticismo. — E desde quando Potter sabe como lidar com seu pai?

— Ele sabe mais do que o esperado — falou Draco. Severus perguntou-se se o menino estava sendo vago de propósito. — Mas acho que ele não sabe que adotei suas táticas.

— E quais são essas táticas?

— Um segredo — falou Draco, sorrindo levemente. Severus queria muito revirar os olhos, mas não o fez.

— Draco — disse, paciente. — Não posso te ajudar nem te aconselhar se não souber o que planeja.

— Não tem problema — falou Draco. — Acho que dessa vez deu certo. — Tirou um pergaminho cuidadosamente dobrado do bolso e o colocou na mesa.

Draco, estava escrito.

Admito que sua proposta me intrigou e estou disposto a considerá-la, com a condição de que sua próxima carta tenha mais detalhes da oferta do que a última; recuso a concordar com qualquer coisa sem as informações necessárias para saber com o que estou concordando.

Assumindo que as informações adicionais sejam satisfatórias e não acabem com meu interesse na solução proposta, poderemos conversar mais.

Sinceramente,

Lucius Malfoy.

— Bom, né? — perguntou Draco, parecendo bastante arrogante. Severus leu a carta mais uma vez e a devolveu.

— Em nome de Merlin, o que foi que você ofereceu? — perguntou Severus, apertando a ponte do nariz; é claro, era possível que Lucius só estivesse concordando com Draco para deixá-lo feliz, mas a carta não era tão condescendente quanto seria se fosse o caso... Lucius, até onde Severus sabia, estava sendo sincero.

— Um segredo — repetiu Draco.

-x-

— Levante-se, McKinnon, precisamos de você — disse Scrimgeour bruscamente ao passar por seu cubículo. — No Departamento de Cooperação Internacional, alguém estará esperando. — Marlene deixou a pena de lado e apalpou o bolso, procurando a varinha. Scrimgeour não diminuiu a velocidade; ele ainda ia em direção ao seu escritório. — Leve Brown com você.

Marlene não fez perguntas — achou que Scrimgeour não estava de bom humor — e foi em direção ao cubículo de Brown. Passou por Sirius no caminho, e ele ergueu os olhos de seu trabalho com uma sobrancelha arqueada, mas não disse nada.

Parecia que Brown tinha ouvido Scrimgeour falar seu nome, mas ele ainda não saíra de sua mesa; ele a olhou com expectativa assim que ela entrou em seu campo de visão.

— O que foi?

— Estão nos chamando no Cooperação Internacional — respondeu. — Não sei por que — adicionou, já adivinhando sua próxima pergunta. Brown deu de ombros e a seguiu até os elevadores.

O Nível Cinco do Ministério estava movimentado, como era esperado; com a Copa Mundial se aproximando e o Torneio Tribruxo no ano seguinte, os membros do Departamento de Cooperação Internacional estavam muito ocupados. Marlene desviou de uma loira maravilhosa que conversava rapidamente em só Merlin sabia qual idioma com seu parceiro fascinado.

— Uau — disse Brown girando no mesmo lugar para vê-la passar. Marlene suspirou e o tirou do caminho de um bruxo que carregava algum tipo de estádio. Um memorando interdepartamental passou por eles roçando a orelha de Marlene, e em algum lugar à sua esquerda, as pessoas discutiam em voz alta sobre... ovos?

— Ah, Aurores, bom. — Um homem magrelo, segurando uma prancheta os seguiu. — A Madame Sprottle está esperando; venham comigo.

Eles o seguiram pelo caos que era o quinto andar, indo para uma seção mais silenciosa, com escritórios. O homem bateu duas vezes na porta do escritório de Sprottle antes de deixá-los entrar. Ele se sentou ao lado da mesa de Sprottle, que ergueu os olhos.

Ela era mais velha que Marlene, mas certamente não tão velha quanto seu antecessor, Crouch, tinha sido. Mechas grisalhas estavam misturadas com o cabelo castanho em suas têmporas, e ela usava óculos de tartaruga. Algo nela — apesar da pouca semelhança física — fez Marlene se lembrar da professora McGonagall.

— Nomes — disse ela.

— Auror Marlene McKinnon — respondeu Marlene. — Esse é o Auror Michael Brown.

— Adorável. — Sprottle anotou algo em um pergaminho e voltou a erguer os olhos. — Eu sou Damaris Sprottle; já sabem disso, é claro, mas não fomos oficialmente apresentados. Estou ansiosa para trabalhar com vocês pelos próximos dois anos.

— Igualmente — falou Brown. — Estar envolvido em algo assim é, bem, brilhante. — Sprottle assentiu e indicou o homem que os levara até ali.

— Esse é William Pemberley, meu assistente. Sei que Scrimgeour os orientou quando receberam essa missão, mas não tive a oportunidade de fazer o mesmo e me desculpo pelo atraso. — Marlene assentiu; tinha sido notificada sobre a missão em setembro e agora já estavam no fim de outubro.

— Não se preocupe com isso — respondeu Brown.

— Então, aos negócios: assim como era quando receberam a missão, é tudo confidencial. Com o passar do tempo e com mais pessoas sendo envolvidas, a notícia irá se espalhar, mas ainda não estamos prontos para isso. — Marlene e Brown assentiram seu entendimento, apesar de o coração de Marlene ter se apertado um pouco; a confidencialidade era parte do trabalho, sabia disso, mas normalmente havia um pouco de flexibilidade, principalmente entre os Aurores, o que era bom para ela e Sirius. O próprio Sirius tinha um pouco de flexibilidade em seu envolvimento com a Copa Mundial (tinham lhe oferecido a missão apenas dois dias depois de terem conversado na Cantina do Ministério) e tinha compartilhado isso e aquilo com ela, e ele ficaria desapontado por ela não poder oferecer o mesmo.

— Excelente. Então, vocês estarão mais envolvidos com a segurança. Precisaremos de sua ajuda para investigar cada uma das escolas envolvidas e descobrir os benefícios de o Torneio ser em uma delas, assim como possíveis problemas. Além disso...

A porta do escritório foi aberta para admitir um homem em vestes esmeraldas.

— ... finalmente fiz contato com o santuário na Romênia, e eles ficaram felizes em ajudar, mas... Oh! — Ele pareceu notar Marlene e Brown e olhou para Sprottle.

— Esse é o Elton Giffling — disse Sprottle, paciente. — Ele é um dos nossos criadores de tarefas.

— Olá — disse Giffling, piscando para eles. — Devo voltar depois...?

— É melhor, Elton, obrigada — falou Sprottle. Com desculpas murmuradas, Giffling foi embora. — Peço desculpas. Agora, onde eu estava...?

Continua.

N/T: Obrigada a quem comentou! :)

Feliz ano novo, gente!