Capítulo 16: Inverno
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Ele anda pelo pântano, galhos quebrando sob seus passos calculados. O ar é opaco, todo enevoado e sombrio, e é nesse momento que uma mulher de idade o aborda. Ela está usando correntes de ouro ao redor da pele flácida do pescoço; anéis nos dedos magros brilham à luz alaranjada do sol.
— Você aí. — ela chama, exigente e firme.
Sasuke, mesmo após todos esses anos, se lembra dos avisos sérios de sua mãe quanto a falar com estranhos; mas ele está crescido e sua mãe morta, e há algo na maneira como essa idosa fala com ele que o faz esperar.
Ele não se dá o trabalho de virar. — Sim?
Ela manca até sua direção. — Tenho um presente para você.
Ele olha para a lama sob suas sandálias. — Você não me conhece.
— Rapaz, eu tenho seu futuro.
Ele se vira. Ela foca os olhinhos brilhantes nele, rugas marcando as pálpebras. Seu cabelo cinza flutua para fora do coque cuidadosamente feito como fumaça.
— Me dê sua mão. — ela instrui, estendendo uma palma para ele. Seus dedos tremem, instáveis pelos anos vividos. Ele oferece a mão mas antes que ele possa fazer contato, ela se afasta, a mão indo até o peito, apertando as correntes. Suas palavras fluem. — Há muitos caminhos. Você tem a oportunidade de conhecer a todos e mais alguns. Você já viu de tudo mas continua procurando. Algo está faltando…
— O que? — os olhos de Sasuke arregalam de leve.
— … e o que quer que seja, você não conseguirá seguir em frente sem tê-lo. — ela respira fundo, olhos brilhando ao por do sol.
A mão dele cai ao seu lado. — Você não leu minha mão.
Ela balança a cabeça. — Eu posso ver. Não preciso da sua mão. Está nos seus olhos. — suas mãos repentinamente agarram o antebraço dele com mais força do que esperado de uma pequena idosa. As curtas unhas enterram na manga de sua camisa.
Irritado, ele se desvencilha e dá as costas para ela. — Você é uma fraude.
Suas últimas palavras são sérias; elas ecoam no vento. — Não há vida, Sasuke, sem amor. Certamente você sabe disso.
Ele se vira rapidamente, seus olhos estão vermelhos. Ele se vê inclinado a pegar uma shuriken na sua bolsa de armas mas ela desaparece antes que ele o faça. Apenas seus passos, marcados na terra enlameada, são evidências de que ela era real.
Ele é encantador.
Ele esteve falando sobre sua irmã pelos últimos minutos, o miso a sua frente ficando morno. Os temperos haviam acalmado para um padrão preguiçoso na tigela. Suas mãos são animadas e ela consegue ver unhas cuidadosamente aparadas, a suavidade de seus dedos. As mãos de um homem que se mantivera trancado dentro das paredes brancas de uma sala de operações. — E ela realmente te admira, sabe, Sakura. Fala que você é a heroína dela. Eu prometi que pegaria um autógrafo pra ela.
Ela pisca, olhos voltando a atenção para ele. Seus cílios são longos, do mesmo marrom escuro que seus cabelos. — Você tem uma caneta? — ela responde depois um tempo, sorriso tomando seu rosto.
Ele pisca. — Ah. Não.
Há um momento de silêncio e então ele começa a rir, e após alguns segundos ela o acompanha. Ele é legal, ela conclui. Ele é bom, e ele é normal. — Quando a conta vier, eu escrevo algo no verso da notinha. — ela promete entre risadas.
Ela come o restante de seu miso, observando os atendentes andarem de uma mesa a outra.
— Eu gosto muito de você. — ele diz tão sinceramente que quando sua cabeça vira em sua direção, as bochechas dela estão queimando. Ele está sorrindo e seu pescoço está vermelho, e ele parece prestes a retirar o que disse.
— Ah. — ela consegue falar. Seus dedos se fecham na borda da mesa.
— Me desculpe. — ele diz apressadamente. — Eu só…
— Não. — ela interrompe, colocando uma mão sobre a dele do outro lado da mesa. Ela ignora a dor em seu peito. — Não, está tudo bem. Eu só não esperava. Que amorzinho. Você é um amorzinho.
Sua garganta fica seca quando, bem atrás dele, ela vê Ino passando pelo restaurante. Seu cabelo loiro está arrumado sobre o ombro, e seus olhos se encontram. O olhar de Ino é cortante ao perceber suas mãos dadas e Sakura se desvencilha, o coração batendo mais forte.
Há algo no rosto de sua melhor amiga que se parece com desprezo.
— Que bom que acha isso.
Sakura engole em seco, e ela tenta ao máximo ser justa com ele mas seus pensamentos estão a todo vapor. Suas mãos são macias demais – não são ásperas por anos de trabalho duro. Ele sorri muito amigavelmente para alguém que mal conhece. Ele pode ter sido genin um dia, mas ele não serve para seu estilo de vida. Ela fecha os olhos e vê lembranças da guerra, sente a ardência de seu ombro em chamas.
Ele não teria durado dez segundos.
— Eu… preciso ir no banheiro. Com licença. — ela solta e se levanta rapidamente. Ao andar, seu sangue sobe até os ouvidos, lágrimas queimam seus olhos, e tudo que ela pode pensar é Sasuke, Sasuke, Sasuke.
A cidade portuária é úmida. As monções acabaram de começar no Relâmpago e a terra já está saturada. O céu rasga e leva apenas um milésimo de segundo para os pingos descerem em seu ombro coberto pela capa.
Ele se abriga num bar ao lado da estrada, a luz baixa e o rangir de copos prometendo calor e um lugar para esquecer. Ele não se lembra de sentar e fazer um pedido, mas rapidamente uma bebida é posta a sua frente, e é dourada como a cor do pecado. Ele automaticamente toma o primeiro copo, o licor agradável contra sua língua. A ardência quase não registra, e ele desabotoa a capa do corpo, colocando-a nas costas do banco do bar.
— Indo a algum lugar? — o bartender pergunta, misturando algo rosa na frente dele (a cor do rubor de Sakura, ele pensa distantemente) para a mulher a dois bancos de distância. Ela não para de olhar para ele.
Ele resmunga. — Outra dose. — ele umedece os lábios, apoiando-se com o cotovelo no balcão – madeira da cor cereja, ele percebe tarde demais. Havia semanas que ele não se sentia tão relaxado. O calor preenche seus membros e ele não sabe quanto tempo se passa, mas o bartender logo lhe oferece um copo d'água.
— Vai com calma, cara. Esse não é o jeito de esquecer uma mulher.
Os pensamentos de Sasuke, lentos e vacilantes, saem aos poucos. — Qu… Eu não te disse nada.
O homem dá de ombros, coçando a barba desmaranhada. — Dá pra saber. — ele está polindo copos agora, enfileirando-os.
— Você e aquela maldita velha… — Sasuke rosna, a raiva borbulhando como água quente. Seu maxilar range e ele fecha os olhos.
O homem ergue ambas as mãos, uma delas segurando um pano branco. — Certo, certo. Se você não quer conversar, pode fazer como os outros clientes e lidar de outra maneira.
Sasuke abre um dos olhos. — Como?
O bartender acena para a mulher, ainda no banco, ainda encarando. Ele se vira para olhar. Ela não é feia – cabelo castanho escuro cacheado, com as curvas certas. Assim que seus olhos encontram os dela, ela desliza do banco, andando em sua direção. Seus dedos agarram seus bíceps e ela se aproxima do seu rosto. Seu hálito cheira a menta e álcool.
— Oi. — ela diz, lábios roçando no seu ouvido. Ele consegue sentir o brilho labial que fica na sua pele, e quando a mão dela desliza do seu braço para sua coxa, ele fica tenso. Seus seios estão pressionados contra o seu corpo, e para ser honesto, ele consegue se imaginar transando com ela.
Ele sabe que vai ser bom.
Ela é rápida em desferir beijos no seu pescoço, mas são todos nos lugares errados. — Eu posso ser boa para você, sabe. — ela cantarola. Sua mão desliza para o seu quadril, e ele fecha os olhos, lembrando que as mãos de Sakura são diferentes.
O lugar se torna vertiginosamente claro, e então ele a está afastando. Ele é muito rude e ela tomba para trás, cotovelos e costelas colidindo contra a coluna atrás deles.
Ele se levanta, pega a capa, deixa dinheiro sobre o balcão, as moedas emitindo um som contrastante ao baixo zumbido das conversas e padrão da chuva contra o telhado. — Eu não quero isso. — ele diz, e não está muito claro com quem está falando, mas é tudo o que ele repete até se dirigir até a porta e andar até o cais no final da rua.
Ele está encharcado ao chegar lá, as ondas batendo contra a madeira para terminar o serviço da chuva. Ele aluga um barco sem muito problema. — Eu não quero isso; eu não quero isso; eu não quero isso.
Ele parte para a Neve.
Sakura está nervosa ao abrir a porta da Academia. O piso é o mesmo linóleo arranhado de suas memórias mas a pintura da parede é nova. Há quadros com desenhos onde antes ficavam avisos, e as velhas mesas estão acompanhadas de cadeiras novinhas.
A Academia ainda é um lugar de conforto, um lugar para aprendizado. Ela não está nervosa por estar lá. Não, ela está nervosa pela pessoa que vai rever.
Todo ano, o Hokage passa para falar com os novos estudantes, mas por Kakashi viver um atual pesadelo de papeladas e por ela estar mais do que afoita por pegar tarefas que vão mantê-la ocupada, ela se voluntariou. Naruto fez o mesmo.
Vai ser a primeira vez que ela vai vê-lo desde a última briga em sua cozinha.
Naruto coloca um braço ao redor do seu ombro sem aviso, trazendo-a para seu lado. Ela não ouvira ele se aproximar, e mentalmente se repreende por não estar mais atenta. — Sakura-chan! Está pronta? Está animada?
É impossível para ela, mesmo após um copo quebrado e um mês de conversa sóbria entre eles, não retornar seu sorriso contagiante. Ela ri, o topo de sua cabeça contra o queixo dele. Ele cheira a sabonete de lavanda – do tipo que Hinata usa. — Não estou no seu nível de entusiasmo mas estou feliz.
Ele encara seu rosto, o pequeno sorriso brilhando contra sua bochecha, e beija o topo de sua cabeça. — Bom. Estou feliz.
Eles entram na sala de aula juntos, e Sakura se pergunta por que ela manteve segredo dele para começar. Vergonha? Dor?
Mas enquanto Naruto está cumprimentando as crianças e falando sobre o começo da Quarta Guerra, os primeiros anos de sua vida, ela se lembra.
Foi porque ela o ama demais, e ela não quer decepcioná-lo.
Ela encara as sandálias bege, esquecendo por um segundo que ela deveria apresentar a importância do trabalho de equipe e Naruto cutuca seu braço. Ela olha para ele, e ele a encoraja com um aceno. — Naruto é o tipo de companheiro que eu tenho certeza que todos possuem dentro de si. — ela começa, pensando em olhos azuis cintilantes e promessas de uma vida inteira.
Seus lábios tremem, sobrancelhas se juntando enquanto ela esforça para conter a enxurrada de emoções. Ele é um amigo tão bom.
— Naruto é a pessoa que vai te levantar quando você cair, te amar quando você afastá-lo, e nunca vai te abandonar. E eu sei que cada um de vocês pode achar uma parte dele em si mesmo porque o que o motiva está em todos nós. É a Vontade do Fogo.
Eles saem para treinar tiro ao alvo, e então ela está pegando Naruto pela mão e o arrastando para fora da sala, rindo sobre como ela sempre fora melhor com a shuriken do que ele. Eles atiram as lâminas facilmente nos alvos próximos, brincando, e logo a atividade escolar é encerrada pelo dia.
Os dois permanecem lá, sentados sob uma grande árvore. — Me desculpe. — Sakura diz, e a admissão parece o primeiro ar puro que ela respira em semanas. — Eu estava com medo do que você fosse pensar, mas eu já deveria saber.
Ele abre um olho. — Ah.
Tudo vem a tona de uma vez só. — Eu fui embora do Relâmpago porque fui muito orgulhosa mas… Eu ainda o amo, Naruto. — ela fala devagar, a garganta se apertando. — Eu amo tanto ele que chega dói. Eu tento superar, seguir em frente, mas ele é uma parte de mim há tanto tempo que eu não consigo. Eu o amo mas eu não sei se ele algum dia vai voltar para casa.
Naruto suspira, uma mão bronzeada bagunçando seu cabelo. Ele tem uma cicatriz no pulso. — Sakura-chan, você sempre soube mais sobre amor do que eu. Você viveu por ele a vida toda. Você não acha que vale a pena?
Ela arranca algumas plantas perto de seu quadril. — Você está me perguntando se eu me arrependo? Você já sabe a resposta.
Ele dá de ombros. — Então por que desistir dele agora? Por que correr do amor quando ele te fez chegar tão longe?
Ela se inclina para a esquerda, cabeça recostando no ombro dele. — Eu não sei.
Leva um mês para a lama secar em terra, e para terra dar lugar a grama. O país da Neve não é o mesmo de antes. O remanescente da estação derretera no verão, e o ar é temperado.
Telhados avermelhados povoam as vilas e o vento ruge contra ele, seu toque um lembrete do que já fora. Tudo está calmo. Seus pés se movem na grama, olhos no horizonte.
A Neve é de fato um dos lugares mais lindos que ele já vira. O ar é encorpado, o cheiro de pinha é leve na briza mas há um vazio no lugar. Seus dedos ameaçam congelar, e ele põe a mão de volta no casaco.
A cidade se estende abaixo do seu olhar, o céu está limpo de nuvens e sua única mão se fecha ao redor das cartas em seu bolso. O vento bagunça seu cabelo novamente, o fantasma do toque dela, e arrepios se formam em seu pescoço em resposta.
O papel é macio pelo tempo, e ele não precisa pegá-las para lembrar das palavras. É uma das endereçadas à outra pessoa que primeiro lhe vem a mente. A manhã faz as pássaros despertarem em seus ninhos e as palavras o abraçam, apertando.
Naoya, um homem que ele nunca conheceu, sussurra para ele. Eu passei meus últimos momentos pensando apenas em você. Eu gastei todo o meu tempo me perdendo em você.
E então: Eu não quero nada além da sua felicidade.
E então: Por favor, volte para mim.
E então: Eu te amo.
Ele balança de um lado para o outro, as costas se curvando enquanto o lugar traz de volta todas as coisas que ele deixou para trás. O toque dela, sua fé. Se ele fecha os olhos por tempo suficiente, ele ainda consegue ver seu cabelo curto, a neve caindo, a sensação dela contra o seu corpo.
Sua mão na dela.
Tão suave, tão suave.
Ele espera.
Sakura está esperando na floricultura, brincando com as pétalas de um copo-de-leite quando a porta emite um baralho e Ino adentra, mãos nos quadris. — Então você finalmente voltou rastejando, não? — ela faz uma careta, braços lotados de sacolas de mercado.
— Ino. — Sakura implora. — Você precisa de ajuda com…
— Não. — a voz de Ino é cortante. — Eu consigo dar conta das minhas coisas. Algo que eu aprendi com você nesse último mês. Você tem tudo sob controle e eu também. Agora, se me dá licença. — ela diz mordazmente. — Você está no meu caminho.
Sakura pega as sacolas antes que Ino possa protestar, colocando-as no balcão cuidadosamente. Ela arruma as frutas na bacia de cristal da bancada, os pacotes de semente na cesta de tecido perto da janela, e os cortes de peixe no freezer.
— Me desculpe. — a voz de Sakura quebra, e quando Ino finalmente olha para Sakura, seus olhos verdes estão marejados com lágrimas. — Eu não sei o que tô fazendo. Eu só… Eu não queria falar sobre isso porque achei que pudesse dar conta, eu achei que se ignorasse por tempo suficiente, isso passaria. Que eu poderia esquecê-lo. Mas eu não consigo, e eu te machuquei ao te evitar, e tá tudo uma confusão. E eu sinto sua falta. Sinto saudades da minha melhor amiga.
Ino suspira pesadamente, cruzando os braços.
— Eu não sei o que fazer. Sou apaixonada por um homem que pensa que seu coração está perdido pelo mundo quando está bem dentro dele.
O olhar de Ino suaviza e ela envolve Sakura com seus braços. Lágrimas quentes escorrem por seu pescoço e encharcam sua camisa. — Dói. — Sakura sussurra, voz pesada pela perda. — Dói demais e pra caralho porque ele está por aí e eu estou aqui, e eu não posso consertar isso. Não sei nem se há o que consertar.
Elas deixam o resto das compras nas sacolas de papel sobre o balcão, e Ino apressa Sakura escada acima para a cama onde elas passaram a infância construindo fortes e dividindo sonhos. O início da chuva de verão começa a cair contra a janela.
As duas se deitam lado a lado, cobertas até o queixo, e Sakura conta tudo. Conta sobre a troca de correspondência, os dias na Neve, as viagens. A pintura das montanhas, a pintura de Sasuke. Os braços dele na sua cintura, sua respiração contra seus lábios. As cartas. O desespero. O mês que passara, o encontro, e Naruto.
— Eu o amo. — Sakura diz baixinho, lágrimas escorrendo pelo canto dos olhos. Ela seca as lágrimas com pressa, olhando determinadamente para o céu escurecendo do outro lado da janela.
Ino faz um cafuné em Sakura. — Bem. — Ino diz. — Você sabe o que fazer.
Sakura, com os olhos inchados e avermelhados, se vira para encará-la em perplexidade. — Não, eu não sei.
— Sim, você sabe. — Ino insiste. — Testuda, você não precisa que eu diga o que fazer para consertar isso. Você não é mais a garota com o laço vermelho. Já faz um tempo que não é.
Sakura está quieta, fungando sem parar. Do lado de fora, o vento faz as árvores farfalharem e a chuva aperta, e as nuvens cobrem o mundo em sombras.
Ino entrelaça os dedos nos de Sakura, apertando-os. — Faça o que sempre fez. Siga seu coração.
