Capítulo 17: Refúgio
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Sakura leva meia hora para soltar todas as palavras que ela guardara entre os vãos dos dentes, na ponta de sua língua.
Ela não endereça ou assina a carta. Ela não precisa.
Nós somos diferentes, você e eu.
Eu, esperando e sentindo saudades, uma garota que só teve olhos para você. Você, tentando.
Esses dias foram mais longos do que eu posso começar a explicar. É engraçado porque eu nunca deixei de sentir a sua falta. Nem mesmo quando você estava aqui, e era uma parte desse lar e família improvisada. Nem mesmo quando eu estive aí, presa nos seus braços em partes do mundo que eu nunca havia explorado.
Eu não sei como explicar – você sempre esteve muito distante de mim. Eu sou a costa, mas não importa o quanto você nade, suas próprias correntezas te puxam para longe.
Sabe, Sasuke-kun, você sempre foi meu oceano.
Eu finquei minhas raízes em você, minhas árvores, minha costa, minha terra, há tanto tempo atrás.
Eu consigo admitir: eu sempre vou querer que você fique aqui. Aqui, sob as árvores que cobrem essas colinas e esses rios. Aqui, sob esse sol onde eu aprendi pela primeira vez o que significava lutar.
Aqui, nesses braços onde eu posso acalentar a dor que você carrega como uma úlcera na boca, aqui, onde eu posso tocar suas partes sem armaduras que são todas minhas.
Mas o que eu quero, mas do que isso, é que você viva, de forma plena.
Eu te amo todinho.
Só peço que entenda uma coisa: Você não precisa ser bom. Você não precisa andar de joelhos por duzentos quilômetros no deserto, em penitência. Você só precisa deixar seu eu interior amar o que quiser.
Seja livre.
Ele escreve antes de receber sua carta.
Sakura,
Eu fui para o mar hoje.
O calor de tardinha era tolerável, mesmo quando o solstício de verão estava no pico. Um vento ameno soprava minhas velas com regularidade, me carregando até os limites do mundo, a esses arquipélagos intocados, livres.
Enquanto eu estava sozinho, seguindo a marca solitária de passos…
Eu pensei em você.
Eu percorri um longo caminho para encontrar minha paz, a resposta para minha autoimposta jornada de redenção. Eu me expus, fiz de tudo para me alienar a todas as coisas que distraiam.
Mas até mesmo aqui, tudo o que eu posso ver são seus olhos do mesmo verde cristalino das águas, brilhando sob a luz do sol. A areia branca como seus pulsos pálidos, meus lábios percorrendo as linhas frágeis de suas veias. Eu consigo te ouvir no ir e vir do oceano, nas ondas quebradiças.
Eu estive procurando por respostas, mas parece que…
Eu as deixei com você.
Eu juntei um bocado de pérolas, e elas têm várias formas diferentes – lágrimas, bolinhas brilhantes, círculos imperfeitos – seu cabelo, espirais de rosa acinzentado contra lençóis brancos perolados pelo luar.
Saiba que eu passei noites pensando em você.
É hora de voltar para casa.
Fique bem,
Sasuke.
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