#Enfim algumas verdades sendo reveladas….

Capítulo Dezessete

"Os documentos", ele repetiu.

Hermione assentiu. Sua respiração estava tão entrecortada devido à excitação, que ela mal conseguia falar. A magia sensual da língua dele a deixou louca. O calor duro e o peso dele sobre ela era ao mesmo tempo ardente e reconfortante.

Perigosamente seguro. Agora a mão dele estava em sua coxa, e o polegar... Ah, tão perto. Ela se contorceu debaixo dele, ansiando por fricção. Pressão. Qualquer coisa. Nunca teria se imaginado tão devassa, mas Harry a fazia se sentir adorada. Ele a livrou de qualquer tipo de vergonha.

"Por favor", ela implorou. "Só assine os papéis antes. Então eu estarei livre e não existirão dúvidas nem arrependimentos."

"Certo." Ele retirou a mão da camisola dela.

Apesar da perda temporária do toque dele, Hermione ficou alegre. Aquilo finalmente iria acontecer. Eles iriam finalmente acontecer – ela e Harry. Hermione sentiu como se estivesse esperando por aquele momento não há dias ou anos, mas por toda a sua vida.

Ela se contorceu até ficar sentada e ergueu as mãos para abotoar a camisola. E soltou uma risada alegre.

"Não vai demorar mais que um minuto. Eu já volto."

"Não precisa voltar."

O tom áspero dele a assustou.

"O quê?"

"Não vou assinar."

"Por que não?"

"Porque você não quer isso." Ele gesticulou para o espaço entre os dois. "Você sabe que eu quero isso. Mas o que você quer é fugir."

Hermione não entendeu. Instantes atrás, ele dava beijos apaixonados em seus seios, e agora parecia... chateado. Quase bravo. Ou estava magoado?

"Este foi seu plano a semana toda, não foi? É a razão pela qual me deixou ficar." Ele deu as costas para ela ao se virar para pegar as calças na poltrona ao lado. "Você conhece a minha reputação. Se eu não assinasse os documentos que você colocaria na minha frente, era só me seduzir. E isso funcionaria muito bem . Eu não teria escolha senão dissolver o noivado."

"Não", ela se apressou em lhe dizer. "Não, esse não era meu plano. Eu juro,

Harry, você entendeu mal."

Ele levantou, puxando as calças.

"Por isso você foi me procurar em Southwark. Por isso me deixou beijá-la, vê- la, tocá-la... Você é tímida demais para enfrentar James, e eu sou um vilão conveniente."

"Você não é um vilão", ela disse.

"É claro que sou. Você acompanhou a minha carreira. Conhece a minha reputação. Eu sou o Filho do Diabo. Aos seus olhos, eu sou útil para uma coisa: destruição. Dissolver seu noivado. Arruiná-la para o casamento. Abrir buracos nas paredes das tavernas para vender cerveja." Ele olhou com raiva para ela.

"Você não me quer. Apenas deseja um modo de escapar."

Hermione também começou a ficar brava.

"Eu não sou tímida. Não mais." Ela fechou as mãos. "Durante toda minha vida, fui criada para acreditar que não valho nada sozinha. Não sou nada além da filha obediente de um cavalheiro, a caminho de se tornar a noiva submissa de um aristocrata. Nem nisso eu tive sucesso. Você não faz ideia de quanta coragem é necessária para apenas conceber a dissolução desse noivado."

"Então tenha coragem de falar você mesma com James", ele disse. "Eu não vou assinar esses papéis. Nem hoje, nem amanhã. Nunca."

Nunca? O estômago dela deu voltas.

"Você não pode recusar. Você me fez uma promessa."

"Você também fez promessas ao James."

"Eu era uma criança."

"Você não é mais criança." Ele se debruçou sobre ela, as mãos apoiadas no colchão. Uma mão de cada lado dos quadris dela. "Você é uma mulher de 25 anos. Uma lady com propriedade e dinheiro. Você poderia ter dissolvido o noivado a qualquer momento. Uma carta que tivesse enviado a ele, anos atrás. Mas não. Você fez sua família passar por uma semana dessa farsa de planejar casamento, só para se poupar de uma conversa constrangedora."

As acusações dele a atingiram , empurrando-a para um canto sombrio e desagradável – mas a gaiola formada pelos braços dele não lhe dava escapatória.

"Eu só quero uma chance de fazer minhas próprias escolhas, de definir minha própria vida", ela disse. "Você tem que entender. Eu sei que quer a mesma coisa para si."

"Eu sei quem eu sou. Um lutador profissional. Não sou o seu capanga. Se você quer dar um soco de surpresa nesse homem depois de oito anos, feche a mão e dê você mesma."

Hermione não entendia nada de socos de surpresa. Mas sabia que não podia deixar a conversa terminar daquele modo. Concentrar. Antever. Reagir. Ela lançou as duas mãos à frente e fez cócegas nas costelas dele. Harry ganiu de surpresa. Quando os braços dele dobraram nos cotovelos, ela lhe agarrou o pescoço e o derrubou na cama, colocando-o de costas. Antes que Harry pudesse se recuperar do choque, Hermione montou a cavalo sobre a barriga dele.

"Você não vai escapar de mim assim tão fácil."

Senhor. Os rígidos músculos abdominais dele pareciam tijolos sob as coxas abertas dela, e suas narinas pareciam as de um touro bravo. Ela levou vantagem sobre ele por um instante, mas Harry não teria dificuldade para inverter as posições caso desejasse.

"Nós tínhamos um trato", ela suspirou. "Eu confiei em você. Fiz tudo o que você pediu. Experimentei aqueles vestidos humilhantes. Eu... eu me desnudei para você, de todas as formas."

Ele passou os olhos descaradamente pelo corpo dela, então parou nos seios.

"Você fez isso mesmo, não foi? Você me deixou passar estas mãos enormes, grosseiras, por todo seu corpo."

"Deixei. E tudo o que consegui pensar foi em deixar você fazer isso outra vez. Eu quero você, Harry." Ela bateu o punho fechado no peito dele. "Como eu faço para o convencer disso? Eu sonho com seu toque. Eu sinto uma pontada no coração sempre que você está por perto. E isso só piora quando você está longe. E eu não..."

Não conseguiu continuar. Dentro da sua cabeça, ouviu sua voz ecoando. Um coro de uma palavra se repetindo: Eu... eu... eu... Ela podia ser mais egoísta? Lá estava ela confessando seus sentimentos a respeito de Harry, mas não estava pensando nas emoções dele.

"E eu não amo o James...", ela continuou, e foi quando um entendimento pesado a atingiu. "... mas você o ama."

O peito dele subiu e desceu.

"Você o ama, não é?"

Ele não disse que sim . Ela não esperava que dissesse. Ele era Granville demais para isso.

"Ele é meu único irmão", disse apenas, depois de soltar um suspiro impaciente. Como se isso explicasse tudo. E explicava.

Ela foi uma boba de não perceber antes. Era isso o que estava por trás daquela semana. Não era a carreira de Harry nem o seu conforto. Não importava tudo o que tinha acontecido. Não importava o quanto ele tentasse desdenhar a sociedade. Os laços de sangue ainda significavam algo para ele. A julgar por sua expressão, significavam muito.

"Por que você não disse?" Ela deu um empurrão de brincadeira no peito dele. "Homens. Eu tive que vir até o seu quarto, seduzir você durante o seu sono, prendê-lo no colchão... e só assim para você adm itir que gosta do seu próprio irmão."

Ele cedeu.

"Eu não posso tomar a noiva dele. Não depois de tudo."

"Depois de tudo?" Ela se moveu para o lado, soltando os braços dele. "O que mais você fez?Mesmo que tenha feito um mal investimento, ou perdido parte do dinheiro dele, duvido que James vá culpar você."

"Se fosse simples assim ." Ele ergueu o tronco e se apoiou nos cotovelos. "Eu tirei o pai dele, Hermione. Fui o responsável pela morte do marquês."

Estava claro que eles precisavam conversar. Mas para Harry conseguir se concentrar, essa conversa precisaria acontecer em algum lugar longe da cama. E eles precisariam estar vestindo mais roupas. Quando ele chegou à cozinha, quinze minutos depois, vestindo uma camisa de colarinho aberto e calças folgadas, Hermione esperava por ele.

Ela tinha trançado o cabelo, fechado bem o penhoar e colocado um lanche e velas sobre o balcão. Um piquenique à meia-noite para dois. Se as circunstâncias fossem diferentes, teria sido romântico. Naquela noite, contudo, ele se sentia como um condenado se preparando para fazer sua última refeição.

"Bolo e cerveja", ele disse após bater os olhos na mesa.

"Graças a vocês, nós vamos comer bolo por mais de um mês." Ela enfiou o dedo na cobertura e provou. "Este é de groselha. A acidez deve harmonizar com as notas de anis na cerveja porter."

Notas de anis? Na porter?

"Quem ensinou tudo isso a você?"

"Eu aprendi sozinha. Quando comecei a pensar em fazer uma cervejaria, pedi à cozinheira que encomendasse uma barrica de todos os tipos de cerveja existentes, porter, ale, stout. Meu estudo incluiu instruções sobre como harmonizar vinhos. Sabe que cerveja não é tão diferente?" Ela despejou um dedo de uma porter castanho-avermelhada em um copo e o levantou até o nariz. "Esta aqui é bem maltada. Um toque de cacau. Experimente."

Ela entregou o copo para Harry, que tomou um gole. O sabor era de porter. Excelente, mas... porter. Maltada, claro. Toda cerveja porter é maltada. Quaisquer notas de anis e toques de cacau que houvesse, passaram despercebidos por ele.

"Eu não sei como você consegue sentir esses sabores."

"Eu acho que nós, garotas Granger, somos ligadas em detalhes. Luna é um espanto em matemática. Lavender sabe dizer quem fabricou qual renda, onde e durante qual temporada, só de olhar uma amostra de três dedos." Ela deu de ombros e bebeu. "Eu consigo sentir o gosto da alfazema que cresceu perto do lúpulo."

"Mas Lavender e Luna não escondem os talentos dela."

Hermione encheu o restante do copo.

"Como se não bastasse ser o docinho da família, ainda tenho o dom do paladar? Você pode imaginar as provocações que eu teria que aguentar. E isso só do meu cunhado." Ela passou a cerveja para ele. "Mas não estamos aqui para falar de mim."

Não, eles não estavam . Harry puxou um banco.

"É uma longa história."

"É um bolo grande." Ela empurrou um garfo para ele. "E antes de começarmos, quero deixar uma coisa clara. Eu sabia que você tinha uma dor secreta."

O peito dele subiu com uma risada sem graça.

"Depois dessa noite, não vai ser tão secreta."

"Bem , pelo menos isso é algo de que posso me gabar. Nenhuma das suas outras mulheres chegou tão longe."

Ela não fazia ideia. Nenhuma outra mulher tinha chegado tão perto. Ela cutucou o bolo com o garfo, tirando as frutas do recheio e colocando uma na boca. Enquanto engolia, fechou os olhos sem querer. Ao abri-los, pegou Harry a encarando.

"Você está fazendo de novo", ele disse.

"Fazendo o quê?", ela perguntou, a boca ainda com parte da fruta. "Sons de bolo."

"Desculpe", ela engoliu. "Eu nem reparei."

"Eu reparei. Sempre reparei. Sou esse tipo de canalha."

"Eu gostaria que você parasse de falar assim ." Ela largou o garfo e apoiou os braços na mesa. "Não, estou falando sério, Harry. Você usa essa palavra com tanta facilidade, e errei em não dizer nada antes. Eu gosto muito de você e... e me dói ouvir qualquer pessoa falar mal de você."

Que garota doce.

"Mas me serve. Eu sempre me senti sendo o estranho da família. Desde a infância, eu era o diferente. James foi tirado do mesmo molde que meu pai, e eu… eu simplesmente não fui. Fui um péssimo aluno. Não me destacava nas coisas de cavalheiro. Não tinha os amigos elegantes. Era grande e rude. Não era atraente nem refinado." Ele tomou um gole da cerveja. "Se James espirrasse, o velho ficava todo orgulhoso. Eu era sempre o errado. Às vezes me perguntava se era mesmo filho dele."

"É claro que você é filho dele. Como pode duvidar disso?"

"Acontece que ele duvidava. Ele afirmava isso. Eu devia ser o filho do diabo, era o que meu pai sempre dizia."

"Seu próprio pai lhe deu esse nome?"

Harry bateu o garfo na mesa.

"'Filho meu não faz isso'. Não sei quantas vezes eu ouvi frases assim enquanto crescia. Ele estava sempre atrás de mim por uma coisa ou outra. 'Filho meu não disputa corridas com plebeus.''Filho meu não vai ser expulso de Eton.''Filho meu não entra em briga'."

A cada frase, ele enfiava o garfo mais fundo no bolo.

"Ele não conseguia me entender", Harry continuou. "Céus, eu não conseguia me entender. Quando garoto eu queria, mais do que qualquer coisa, ser o filho que ele amava. Ser um bom aluno. Deixá-lo orgulhoso, como James o deixava. Parar de brigar com todo mundo. Mas nunca consegui." Ele fez um gesto vago para o próprio peito. "Eu sou muito agitado e impulsivo. Agora consigo segurar meus socos. Mas sempre tive o hábito de dizer coisas que preferia não ter dito."

"Coisas como 'Hermione, acho que vou morrer de desejo por você'?"

"Não. Coisas como, 'eu não quero ser seu filho, não quero um centavo do seu dinheiro, e espero nunca mais vê-lo'."

Hermione parou com o garfo no ar e inspirou fundo.

"São palavras mais difíceis de se retirar."

"No que diz respeito ao meu pai? Não são apenas difíceis. São impossíveis."

"O que aconteceu?"

"Eu pedi para ele comprar uma comissão no Exército, mas meu pai não quis nem falar no assunto, com James já fora do país. Decidiu que eu deveria fazer minha vida, adivinhe só, na Igreja. Talvez Deus pudesse me corrigir onde ele havia fracassado." Harry estalou os dedos. "Essa ideia não me caiu muito bem ."

"Eu posso imaginar." Ela riu.

"Eu me recusei. Ele ficou furioso. Nós discutimos e foi pior do que qualquer outra vez." Trata-se do legado da família. Filho meu não vai ser um boêmio sem rumo. Filho meu não vai desperdiçar seu potencial. Foi então que Harry desferiu o golpe mais violento, mais impensado de sua vida. Eu não quero ser seu filho. "Eu soube no mesmo instante", Harry disse para Hermione. "E ele também . Assim que as palavras saíram , vi naqueles olhos frios. Eu tinha ultrapassado um limite, um ponto sem volta. Ele me falou para ir embora de casa. Daquele dia em diante nós nos distanciamos. Sem herança. Sem lar. Sem família."

"Uma punição dura por ser jovem e impertinente."

Harry deu de ombros. Não era mais dura do que passar fome. Depois do que Hermione tinha aguentado, ele não iria chorar pela compaixão dela.

"Fui eu que pedi. Na época, fiquei feliz de ir embora. Você entende. Depois que algo lhe é negado, você começa a dizer para si mesmo que não queria aquilo."

Ela pegou um bom pedaço de bolo.

"E aí você foi embora e virou lutador para se sustentar."

"Isso mesmo. A melhor coisa que poderia ter acontecido comigo. Isso me deu disciplina e a oportunidade de encontrar meu próprio sucesso. E não posso negar que serviu como uma vingança deliciosa. Eu ficava contente de lutar usando o nome da família, ainda mais em um esporte tão vulgar e por dinheiro."

Harry tomou um gole da cerveja. Hermione comeu pedaços do bolo. Ela não pediu que ele continuasse. Achou melhor esperar.

"Ele foi assistir às minhas lutas."

Ela engoliu.

"O marquês?"

Harry aquiesceu.

"Confesso que estou chocada. Eu visitava o falecido Lorde Granville uma vez a cada quinze dias. Ele nunca me contou."

Harry estalou o pescoço.

"Nós nunca conversamos, antes ou depois, mas ele sempre estava no meio da multidão, com o rosto fechado e severo. Nunca torceu. Nunca aplaudiu. Apenas ia para registrar sua reprovação, eu acho."

"Você gostava de vê-lo?"

Harry sacudiu a cabeça.

"Aquilo me deixava muito bravo. E também me fazia lutar com mais empenho, porque com certeza não ia perder na frente dele. Eu tinha uma fantasia maluca... uma esperança, acho... de que um dia venceria, e ele abriria caminho em meio à multidão para me dar a mão. Para dizer 'Muito bem , Harry'. Isso teria sido suficiente. Mas isso não aconteceu nos quatro anos em que fui campeão".

"No dia em que lutei com Diggory", ele continuou, "eu o vi ali. E, pela primeira vez, pensei... se vencer durante quatro anos seguidos não o impressiona, o que o velho faria se me visse perder?"

"Você está dizendo que perdeu a luta de propósito?"

"Não. Não posso dizer isso. Seria injusto com Diggory. Ele lutou muito bem naquele dia. Mas a ideia de perder ficou na minha cabeça. E qualquer treinador pode lhe dizer, depois que a ideia está na sua cabeça... tudo está acabado, menos o sangramento. Comecei a cometer erros, a ficar mais lento, a desferir socos que só acertavam o ar."

"E você perdeu."

"Feio."

"É. Eu lembro dos machucados." Ela estremeceu. "E então? O que o seu pai fez?"

Harry tomou um gole demorado de cerveja, preparando-se para o que vinha a seguir.

"Ele voltou para casa sem falar comigo. Naquela noite teve um ataque do coração. O resto você sabe. Nunca se recuperou. Morreu em menos de uma semana."

As palavras ecoaram no peito dele.

"Ah, não", a voz dela ficou mais doce. "Harry, você não pode se culpar."

"Como não?" Ele massageou as têmporas. "Eu não tenho a menor noção do que ele tinha no coração aquela noite. Ele estava enojado? Preocupado? Satisfeito? Seja qual for a emoção que ele guardou tão bem guardada, ela finalmente explodiu. E eu acendi o pavio."

"Harry, escute." Os olhos azuis dela penetraram nos dele. "Não foi sua culpa. Não foi. Ele tinha sofrido dois ataques mais leves no ano anterior. Ele não estava bem."

Ele aquiesceu, mas o que Hermione lhe disse fez pouco para diminuir sua culpa. Se o que ela tinha dito era verdade, Harry deveria ter sabido. Ele deveria ter tido mais cuidado. Se não tivesse contrariado o pai, talvez ele tivesse sobrevivido para ver James voltar para casa.

"Foram me chamar, dizendo que ele estava à beira da morte. Que pedia para ver o filho. Eu disse para mim mesmo que não deveria ir. Não era eu o filho que ele queria. Mas no fim , eu..." A voz dele fraquejou. "Eu não pude ficar longe."

Hermione esticou o braço e pegou a mão dele. Ele começou a se afastar, mas se deteve. Em vez disso, apertou os dedos dela, um agradecimento silencioso. Se ela tinha coragem para fazer o gesto, ele tinha que ser homem para aceitá-lo.

"Então eu fui até a casa dele. Fiquei ao lado do meu pai. Parecia que ele já estava se despedindo. Fraco, confuso. Já vi muitos lutadores em mau estado, mas nunca tinha visto um homem ir de indômito a frágil tão rapidamente. Ele não sabia onde estava, nem quando. Ele só ficava repetindo 'meu filho' sem parar. 'Meu filho, busquem meu filho'. Eu..." Harry pigarreou para limpar a garganta da emoção. "Eu lhe disse que James estava em Viena. Ele pareceu não entender."

"Talvez ele estivesse perguntando por você."

"Talvez estivesse. Pode ser que ele sempre tenha me amado. Talvez tenha ido a todas aquelas lutas na esperança de que eu atravessasse a multidão para cumprimentá-lo." Harry soltou a mão dela. "Só sei que depois tudo pareceu bobagem . Todos aqueles anos me esforçando para ser uma pessoa ruim , aumentando minha reputação diabólica só para irritar o meu pai. Tanto orgulho e tanto tempo desperdiçado."

"O tempo só foi desperdiçado se você não aprendeu com ele."

"Você acredita nisso?"

"Eu tenho que acreditar. Ou então vou chorar toda vez que pensar nos últimos oito anos."

Ele pensou naquilo.

"Talvez você tenha razão. Eu nunca vou poder voltar e ser um filho melhor. Mas tenho uma chance – ainda que cada vez menor, depois desta noite – de fazer a coisa certa pelo James. Nós dois nunca vamos ser grandes amigos. Ele nunca mais vai ver o pai, e isso é culpa minha. Não posso trazer o velho de volta, mas pelo menos eu posso..."

"Manter o cachorro dele vivo", ela concluiu a frase. "E garantir que a noiva o espere."

Ele não se preocupou em negar.

"Você diz que James não sente nenhuma paixão por você. Talvez tenha razão; eu não sei dizer. Mas ele é muito parecido com nosso pai. Não posso afastar a possibilidade de que meu irmão goste de você, e muito. De um modo reservado, distante, tipicamente Granville. E tanto que perdê-la poderia acabar com ele."

James e Hermione eram duas das melhores e mais decentes pessoas que Harry conhecia. Agora, se James a amava, e se os dois podiam ser felizes juntos...? Harry queria isso para os dois.

Ela apoiou a cabeça nas mãos.

"Eu sei que você odeia que lhe digam para esperar", Harry disse. "Mas é só por algumas semanas. Se quiser dissolver o noivado, eu não vou me opor. Só não posso ser eu a desferir o golpe."

Harry já tinha uma decepção pesando na sua consciência. Uma culpa era mais que suficiente.

"Você nunca vai saber o que ele realmente pensa a menos que lhe dê uma chance."

"Ele teve oito anos de chances", ela argumentou. "Eu receio nunca ter a minha."

"Esta é a sua chance. Não espere como um favor para mim. Faça isso por você mesma. Porque a decisão é sua, e tanto você como James merecem saber isso."

"Tem razão", ela disse depois de uma pausa. "Eu sei que tem razão. Foi egoísmo meu pedir que você assinasse o documento. Egoísmo e covardia. Eu estava com muito medo. Como é que vou conseguir argumentar com ele? James é um diplomata que passou os últimos oito anos convencendo governos a se render. Tenho pavor de que, quando ele voltar para casa, as lições da minha mãe prevaleçam sobre as minhas intenções, e case com ele só para ser bem - educada."

"Você vai se sair bem", Harry disse.

Ela riu alto.

"Estou falando sério. A semana toda você não teve dificuldade nenhuma para discutir comigo."

"É diferente." Ela lhe deu um olhar confidente. "Eu nunca consegui conversar com ninguém do jeito que converso com você. Você nunca concorda com as minhas ideias, mas pelo menos as escuta e me faz o favor de rebatê-las."

Ele olhou, sorridente, para a cerveja.

"Nós treinamos você do modo errado."

"Vocês me treinaram?" Ela arqueou as sobrancelhas. "Como um cachorro?"

Harry grunhiu. Isso de novo não.

"Não como um cachorro. Como um lutador. Ron deu a ideia de que nós deveríamos fazer o planejamento do casamento do mesmo modo que se prepara um lutador para a busca do título. Colocar sua cabeça no ringue, aumentar sua confiança. Para que você possa se imaginar vitoriosa."

"Bem , isso explica algumas coisas. Como os elogios. E os beijos. E aquela mentira ridícula sobre James no meu debute." Ela cobriu os olhos com a mão.

"Que vergonha. Você só queria aumentar minha confiança. E esta noite, então, eu..."

"Esta noite você foi quase arruinada." Ele tirou a mão dela da frente dos olhos. "Eu sempre desejei você. É uma das razões pelas quais me mantive à distância. Você é tentadora demais, e não está em mim resistir."

Como resposta, ela empurrou um pedaço de bolo pelo prato. Com certeza não podia duvidar disso. Mesmo que acreditasse que Harry seria capaz de enganá-la, Hermione devia ter sentido o desejo dele. Cada centímetro quente e duro do seu desejo.

Por outro lado, considerando que ela não recebeu nada além de insultos e descaso de sua própria família e de seu noivo nos últimos anos... a ponto de ficar doente de fome... Harry pensou que uma conversa maliciosa e um cutucão nas partes moles podia não ser o gesto de encorajamento pelo qual ela ansiava. Um vestido branco rendado também não devia ser a resposta. Droga.

Harry nunca foi um gênio, mas naquela semana tinha sido um verdadeiro idiota. Eu quero um desafio, ela tinha lhe dito. Algo que seja meu. Ela já era uma lutadora. Ele devia ter reconhecido logo de início. Hermione não teria sobrevivido aos últimos oito anos se não tivesse coração de campeã. Mas ela não queria vencer no "jogo da mãe" mais do que Harry queria ser o campeão mundial de bocha. Ela queria definir seu próprio sucesso.

"Então aquele casamento grandioso do sonho de toda garota", ele disse, "no qual você flutua pela nave da igreja como um anjo e prova que todas as fofocas estavam erradas... não era essa a vitória que você queria."

"Não, não era."

Ele aquiesceu.

"Então termine seu bolo e sua cerveja. Depois nós vamos tratar de melhorar sua resistência."


Ai que fofo….

Bem sinto informar que vão ter que esperar para saber o resto, estarei totalmente off nos próximos dias, mas vai valer a pena.

Lembrando esta é uma adaptação, nada além da paixão pela leitura me pertence. Decidi juntar uma das minhas escritoras favoritas com meus personagens favoritos de Harry Potter. A história original também se chama "Diga sim ao Marquês", da maravilhosa Tessa Dare".