#voltei!

Capítulo Dezoito

Hermione não fazia a menor ideia do que Harry queria fazer. Eles pegaram lamparinas e foram até a sala de estar, onde ele afastou as mesinhas e cadeiras para abrir espaço.

"O que nós vamos fazer?", ela perguntou.

"Eu vou lhe ensinar a dar um soco."

Ela riu.

"Você quer que eu soque seu irmão?"

"Não." Ele encostou um divã na parede.

"Então não entendo por que isso é relevante."

"Eu sei que você não entende. Mas acredite em mim . A hora de ser educada já passou. Você precisa ser mais agressiva, Hermione. Precisa entender a força do seu corpo e como usá-la."

"Força?" Ela ergueu o braço delicado para Harry avaliar. "Você vê alguma força nesse corpo?"

"Vejo sim ."

"Você quer dizer a força para atrair o olhar de um homem , talvez. Mas parece que isso nunca funcionou com o James."

"Eu estou falando de força física. Está aí, esperando para ser liberada." Após afastar a última peça da mobília, ele se colocou diante dela. Seu olhar fixou-se no dela. "Confie em mim."

Hermione queria confiar nele. Contudo, suspeitava que o exercício inteiro só a faria parecer mais tola. Ela, dando um soco? Mas ela tinha que tentar. Harry afirmava que queria acertar sua dívida com James. Hermione sabia que ele desejava muito mais do que isso. Ele precisava de uma família, de ligações duradouras. E para ele ter alguma chance de conseguir isso, Hermione não podia lhe pedir que lutasse as batalhas dela. Precisava aprender a desferir seus próprios golpes.

"Muito bem , o que eu faço?"

"Primeiro, você precisa se aquecer."

Harry segurou os pulsos de Hermione com suas mãos enormes e sacudiu os braços dela como se fossem duas enguias que ele queria nocautear. Hermione se sentiu ridícula.

"Ótimo." Ele soltou seus pulsos e a rodeou, ficando atrás dela. Com as mãos, ele segurou sua cabeça. "Agora mova a cabeça para trás e para a frente um pouco. Alongue seu pescoço."

Ela fez conforme ele mandou, olhando de um lado para o outro, depois do teto para o chão. Ela saltou para a frente e para trás, transferindo o peso do corpo de um para o outro pé.

"Quando eu começo a socar?"

"Calma, calma. Comece com os pés separados na largura dos seus ombros. Braços soltos, ombros caídos. Encontre seu centro de equilíbrio." A mão espalmada dele encostou no abdome dela. "Aqui. Você consegue sentir?"

Como ela poderia não sentir? Se o objetivo era aquecê-la, Harry tinha conseguido. O peso quente e possessivo de sua mão na barriga dela, aliada à voz baixa e trovejante em seu ouvido... Oh, aquilo a deixou toda quente.

"Eu... eu acho que estou pronta, agora."

"Então me mostre o punho."

Ela fechou a mão e a ergueu.

"Aqui."

Ele reprovou o que viu.

"Não, não assim . Você vai quebrar o polegar." Ele desdobrou os dedos dela e os enrolou de novo, dessa vez deixando o polegar por fora.

Então, envolvendo-a com seus braços, ele a colocou em uma posição de luta. Perna direita um pouco para trás, os dois punhos em guarda. O calor amplo e sólido do peito dele funcionava como um ferro de passar, alisando a tensão nas costas de Hermione.

"O primeiro soco que se aprende é o jab", ele disse. "Dê um passo à frente com o pé esquerdo, ao mesmo tempo que solta o punho esquerdo também para a frente. Deixe que o peso do corpo empurre o golpe. Rápido e certeiro, como uma picada de abelha. Então recue. Assim , está vendo?"

Hermione deixou os braços soltos e permitiu que ele a guiasse pelos movimentos do soco, como se fosse uma marionete.

"Você segue o jab com um cruzado de direita." Ele guiou o punho direito dela para a frente. "Você consegue sentir o tronco girando enquanto desfere o golpe?"

Ela aquiesceu.

"É daí que vem a força. Não é do braço, mas do resto do corpo."

Quando ele empurrou para a frente os punhos dos dois juntos, Hermione pôde sentir a pura força dele por trás do movimento. Fardos de músculos se agrupando e flexionando sob a pele. Com Harry atrás dela, Hermione sentiu que poderia mover montanhas. Mas aquela era uma força emprestada. Ele poderia fazer um homem sair voando com um peteleco, se quisesse.

"Agora é a sua vez." Ele a soltou e pegou duas almofadas firmes no divã.

Segurou uma almofada em cada mão, na altura do ombro dela e mostrando o lado plano para Hermione. "Experimente."

"Você quer que eu soque a almofada?"

"Por que não? Você precisa de um alvo." Ele fez uma pausa. "E estas coisas ridículas precisam de um objetivo."

Hermione mordeu o lábio.

"Elas fazem eu me sentir menos sozinha."

"Como é?" Ele franziu a testa.

"As almofadas. Esse é o objetivo delas. A razão pela qual eu tenho tantas e em todos os lugares. Elas são macias e quentes, e ficam paradas em um lugar. Elas fazem eu me sentir menos sozinha." Hermione fungou. "Acho que você tem razão. É ridículo."

Baixando as almofadas, ele andou na direção dela.

"Hermione..."

"Eu estou bem ." Ela recuou um passo e fechou os punhos. "Estou pronta para socar."

"Punhos para cima", ele disse e ergueu a almofada da direita. "Tente um jab."

As primeiras tentativas foram constrangedoras. Da primeira vez, ela nem conseguiu acertar a almofada. Na segunda, seu jab foi apenas um empurrão. Mas Harry não riu dos esforços dela. Ele ficou insistindo, alternando provocação com encorajamento. De vez em quando pedia uma pausa para corrigir a postura dela. Depois de algumas dezenas de tentativas, ela soltou um soco que pareceu atingir o alvo com uma coisa que lembrava... força.

"Aí está", ele disse. "A sensação é boa, não é?"

"Muito boa", ela disse, ofegante. Mas "muito" era uma palavra educada demais. Aquilo era boxe, afinal de contas. "É boa pra cacete!"

Ele sorriu.

"Não conte isso para o Ron, ou ele vai tentar colocar você no ringue."

Ela inclinou a cabeça.

"Existem mulheres que lutam? Sério?"

"Ah, sim . Fazem muito sucesso com o público. Principalmente porque elas geralmente acabam com os seios de fora."

Aquele malandro incorrigível. Ela soltou um cruzado de direita que atingiu a almofada com um baque satisfatório.

"Estou começando a entender por que você gosta disso."

"Então quem sabe agora você consegue entender meu verdadeiro segredo. O que nenhuma outra mulher quis acreditar."

"Qual é?"

"Eu não preciso ser salvo das lutas. As lutas me salvaram ."

Hermione baixou as mãos e o observou. Ela acreditou nas palavras dele. O tom de sua voz, enquanto explicava aqueles movimentos simples... carregava não apenas autoridade, mas algo que soava quase como amor. O boxe profissional era para ele mais que violência bruta ou manifestação de rebeldia. Era uma técnica que ele trabalhou anos para dominar. Talvez até mesmo uma arte.

"Obrigada", ela disse. "Por dedicar seu tempo para me ensinar."

"Oh, mas nós não terminamos." Ele ergueu a almofada. "De novo."

E ela socou de novo. E outra vez. Ela acertou aquelas almofadas sem parar, até que começou a empurrar Harry para trás, e ele começou a fazer um círculo para não ser colocado contra a parede.

"Muito bem", ele disse. "Essa é a minha garota. Soque tudo o que sempre lhe disseram . Que tiveram a ousadia de dizer. Que você não era boa o bastante, que nunca seria. Tudo isso é bobagem ! Olhe como você é forte!"

Ela desferiu soco após soco, jogando toda raiva e frustração dos últimos oito anos, até seus braços ficarem moles.

"Agora," – ele jogou as almofadas de lado – "eu sou James. Voltei de Viena. Pronto para casar com você. Mostre o que você tem de pior."

"De pior? Eu pensei que você queria que eu desse uma chance ao seu irmão."

"É a mesma coisa. Dê-lhe uma chance, mas também acabe com ele. Se James não conseguir conquistá-la, ele não a merece."

"Ahn..." Ela estava ofegante de tanto boxear. "Oh, céus. James, eu..."

"Não, não. Sua postura está toda errada." Ele a corrigiu com as mãos, colocando uma nas costas, entre as escápulas, e outra na barriga. "Lembre-se, você pode fazer isso. Você não tem mais 17 anos. É uma mulher forte."

Ele a soltou e deu dois passos para trás, fingindo novamente ser James.

"E agora, o que você tem a dizer?"

"Eu..."

"Olhos nos olhos. Levante a cabeça."

Ela se obrigou a encará-lo.

"Estou feliz que você esteja bem e tenha voltado para casa, mas acho que não devemos nos casar."

"Oh, que maravilha." Ele se jogou na poltrona mais próxima e colocou os pés para cima.

Hermione estremeceu e riu.

"O que você está fazendo?"

"O que você tem afirmado que James vai fazer." Cruzou os dedos das mãos atrás da cabeça. "Você garantiu que ele vai se sentir aliviado. Radiante, até."

Ela suspirou.

"Está vendo? Quando é honesta consigo mesma, até você percebe que não vai ser assim ." Ele levantou. "Então ele não vai dizer 'oh, que maravilha'. Vai dizer algo como..." Harry empostou a voz com um tom aristocrático. "É claro que vamos nos casar. Isso foi decidido quando éramos crianças. Estamos noivos há anos."

"Sim , mas acho que seria melhor se..."

"Não, não." Harry saiu do papel de James. "Não use palavras como 'acho' ou 'seria'. Você está decidida, não está? Você decidiu."

"Eu decidi. Eu decidi terminar nosso noivado."

Ele estreitou os olhos, encarando-a de modo severo, em uma imitação assustadora do irmão.

"Mas você tinha concordado em casar comigo."

"Eu tinha 17 anos. Era pouco mais que uma criança. Não sabia que possuía escolhas. E agora que sei... eu escolho algo diferente."

"Por quê?"

"Porque eu não te amo e você não me ama."

"Uma afeição mais profunda virá com o tempo", ele disse. "Não importa o quanto eu tenha viajado, você nunca saiu do meu pensamento. Eu gosto de você."

Ela engoliu em seco.

"E eu lhe agradeço por isso. De verdade. Mas isso não muda minha decisão."

"Existe outra pessoa?"

A pergunta a pegou desprevenida. Embora... não devesse. Fazia sentido que James perguntasse isso. Mas Hermione não sabia o que Harry queria que ela dissesse.

"Responda", ele disse, enérgico e autoritário como um bom marquês. "Exijo saber a verdade. Existe outra pessoa?"

"Sim . Existe outra pessoa. Eu mesma."

E então ela continuou.

"Eu sou a outra pessoa", ela insistiu. "Eu passei muito tempo sozinha nos últimos oito anos. Comecei a conhecer melhor a mim mesma e minhas possibilidades. Sou resiliente. Consigo aguentar um pouco de fofoca. Muita, até. Eu consigo herdar uma propriedade e não só preservá-la, mas também melhorá-la. Porque tive todas essas aulas que deveriam fazer de esposa ideal de um diplomata e as usei em proveito próprio. Em algum momento, enquanto você viajava pelo mundo fazendo tratados e dividindo os despojos de guerra, eu declarei discretamente a minha independência. Agora sou a nação soberana de Hermione. E não há rendição possível."

Harry ficou em silêncio.

"Bom?", ela perguntou.

Ele deu de ombros, sem se manifestar.

"Melodramático demais no fim? Não foi bom?"

"Não... foi ruim", ele disse.

"Não foi ruim?" Ela pegou a almofada que ele tinha jogado de lado e bateu no ombro dele com ela. Várias vezes. "Foi brilhante e você sabe disso."

"Está bem , está bem ." Rindo, ele pegou um canto da almofada e a puxou, trazendo Hermione para perto. "Foi brilhante."

O coração de Hermione inchou dentro de seu peito. O elogio dele foi... Bem , foi melhor do que bolo.

"Você é brilhante", ele sussurrou. "Se James não cair de joelhos e implorar para você reconsiderar, é porque é um verdadeiro idiota."

Calor e desejo cresceram entre eles, rápido como fogo incendiando capim seco. A sensação era tão inebriante e cruel. Durante toda sua vida esperou sentir esse tipo de paixão – para então encontrá-la com o único homem que ela não poderia, jamais, ter. Discutir como lidar com uma irmã problemática, passar a noite toda cuidando de um cachorro com indigestão, falar de dores secretas tarde da noite acompanhados de bolo e cerveja... essas eram as experiências que provavam que duas pessoas poderiam construir uma vida juntas. Não importava o que eles sentiam um pelo outro. Harry amava James. Ele queria ter a oportunidade de ser um bom irmão, e Hermione não queria tirar isso dele. Assim , o que quer que os dois tivessem , ela e Harry... Não poderia ir adiante, a menos que ela estivesse disposta a destruir a última chance que ele tinha de unir a família.

"Nós não podemos fingir que somos outras pessoas?", ela sussurrou. "Pelo menos por algumas horas?"

"Eu não quero isso. Você também não."

Hermione aquiesceu. Ele tinha razão, ela não queria fingir que os dois eram outras pessoas. Não queria ser ninguém que não ela mesma. E queria ficar com ele. Ela queria Harry. Não porque ele era perigoso, indômito ou errado. Mas porque se sentia bem com ele.

"Você não vai se arruinar", uma voz conhecida anunciou.

Oh, Deus.

Harry a soltou e deu um passo atrás. Hermione agarrou a almofada bem apertada contra o peito. Mas não importava quantos passos – ou almofadas – estivessem entre eles, os dois estavam sozinhos, semi-vestidos, no meio da noite. Ninguém deixaria de enxergar a verdade. Ninguém, exceto talvez a pessoa que entrou naquela sala. Luna, com o cabelo castanho solto sobre os ombros e o nariz enfiado em uma cópia velha do The Times.

"Luna", Hermione disse o nome em meio a um suspiro de alívio. "Que surpresa. Lorde Harry e eu estávamos..."

"É o rendimento do lúpulo", a irmã interrompeu Hermione, sem mostrar interesse em explicações.

"O quê?"

Colheitas. A irmã estava vagando pelo castelo, no meio da noite, lendo The Times, enquanto se preocupava com o rendimento do lúpulo. Sim , isso era a cara de Luna.

A irmã baixou o jornal.

"Lorde Harry estava certo. Lúpulo é uma cultura frágil e um investimento de risco. Mas eu descobri como você pode se proteger da ruína." Ela apontou um artigo. "Todo ano, especuladores apostam centenas e milhares de libras no rendimento final do lúpulo. Está tudo nos jornais."

Hermione vasculhou sua memória. Se algo tivesse aparecido nos jornais, ela saberia.

"Sim , eu lembro de ler as previsões. Não me dei conta de que as apostas eram tão disseminadas."

"Pode ter certeza que sim ." Harry pegou o jornal. "Em algumas tavernas apostam mais dinheiro em lúpulo do que nos lutadores. Eles fazem gráficos de cada nuvem de chuva que passa."

Hermione se aproximou para também espiar o jornal.

"Mas nós não podemos prever o tempo. Como eu saberia o que prever?"

"Não importa", Luna disse. "Você vai apostar contra si mesma."

"Apostar contra mim mesma? Mas por que eu...?" Enquanto calculava os resultados de cabeça, Hermione começou a entender. "Então se a colheita for boa, nós ganhamos dinheiro com o lúpulo, mas se o ano for ruim ..."

"Ganha com a aposta", Luna concluiu. "Os ganhos são limitados, mas as perdas também . Você não tem como perder tudo."

"Apostas cobertas." Harry coçou o queixo. "É tão louco que pode ser genial."

Luna deu de ombros.

"Já fui chamada das duas coisas."

"Bem ." Hermione a pegou pelo braço. "Como sou sua irmã mais velha, vou mandar você para a cama. Nós temos um dia importante amanhã. Será o seu primeiro baile de verdade."

O rosto da irmã ficou sombrio.

"Ah, sim . A provação desgraçada."

"Não vai ser tão ruim . Essas coisas não podem ser evitadas para sempre. Não se você for debutar na próxima temporada."

"Ninguém vai me cortejar. Por que eu tenho que ter um baile de debutante?"

Hermione pegou uma mecha do cabelo da irmã.

"Vai ficar tudo bem . Eu vou estar lá com você. E já sei como isso funciona."

"Você não sabe como funciona comigo." Luna virou a cabeça e a mecha de cabelo escapou dos dedos de Hermione. "Lorde Harry, você virá conosco amanhã, não é?"

Os olhos de Harry estavam sombrios quando encontraram os de Hermione. Por favor, ela implorou silenciosamente. Por favor, venha. A presença dele acalmaria Luna. Quanto a Hermione... Aquela podia ser a última chance dela. A última chance dos dois. Depois que terminasse o noivado com James, Hermione não teria mais desculpas para convidar Harry para esses eventos. Que mal poderia fazer os dois terem uma noite para lembrar?

"Você ainda me deve uma dança", ela o advertiu. "Acho que está na hora de pagar a dívida."

"Não é uma boa ideia. Há um motivo pelo qual fui embora do seu baile de debutante. Eu fico fora do meu ambiente nessas coisas. Fico agitado. E quanto fico agitado... o meu lado ruim cresce e pessoas ficam magoadas."

"Gosto do seu lado ruim também", ela disse. "Eu vou ficar magoada se você não for."

Em uma atitude que foi ao mesmo tempo encantadora e inusitada para ela, Luna estendeu a mão e segurou o braço de Harry.

"Por favor, diga que vai."

"Vou pensar durante o sono", ele suspirou.


Lembrando esta é uma adaptação, nada além da paixão pela leitura me pertence. Decidi juntar uma das minhas escritoras favoritas com meus personagens favoritos de Harry Potter. A história original também se chama "Diga sim ao Marquês", da maravilhosa Tessa Dare". Sei que algo assim já foi feito, mas estou apenas passando o tempo e curtindo.