Pepper sentia seu peito se apertar em uma dor silenciosa ao agora observar o corpo desacordado daquela que passou a considerar internamente como sua própria filha, ela se encontrava sentada a uma distância segura da cama em que a mais nova se encontrava e lagrimas silenciosas desciam em seu rosto. Pela primeira vez desde que passou a conviver com o deus das trapaças ela desejou que ele estivesse ali com a jovem Stark, ela anteriormente de certa forma não queria acreditar naquilo que agora lhe parecia tão obvio: Linna é completamente dependente do príncipe de Asgard. A menina provavelmente nunca admitiria para ninguém, mas ele fez com que cada parte dela necessitasse de Loki para se manter sã. Talvez essa tenha sido a forma que ela encontrou para sobreviver ao longo dos anos que passou como uma prisioneira, mas agora estando em liberdade a Senhora Stark imaginou que isso mudaria permanentemente, Lin realmente parecia ter melhorado, já não lembrava tanto a garotinha frágil e quebrada que apareceu em sua casa no dia em que se conheceram.

Toda a evolução que ela apresentou até agora não passava de uma bem mascarada mentira, isso foi escancarado para quem quisesse ver naquele mesmo dia e Pepper teria impedido quem quer que fosse de ferir o orgulho do deus semanas atrás se soubesse que essas seriam as consequências...

Tudo começou pelo aviso dado pela guerreira Dora Milaje que foi encarregada de vigiar de perto a gênia sem que ela percebesse, foram informados por esta que uma crise havia se iniciado e que Peter deveria urgentemente ir até onde a menina se encontrava, ele era o que chegava mais perto de uma ajuda para momentos como esse. Porém quando a encontraram perceberam que era algo mais grave do que estavam acostumados, Lin estava sufocando e seu corpo tentava desesperadamente forçar uma transformação que a salvasse, ela emanava aquela aura poderosa outra vez embora não com quanta precisão quanto antes, ambos os seus olhos estavam dourados e ela parecia extremamente assustada com o mundo a sua volta, cada mínimo som a arrepiava mais e a deixava agressiva com aqueles que tentavam se aproximar. O Parker não conseguiu ficar perto dela muito tempo, seu sentido aranha se tornou tão alerta e o deixou tão inquieto que acabou nocauteando o curandeiro gentil que também tentava ajudar quando este perguntou ao garoto se ele estava se sentindo mal.

Com Peter longe, ninguém realmente tinha alguma chance de traze-la de volta ao normal além da pequena Morgan, mas não arriscariam deixa-la exposta a um perigo como este. Decidiram, portanto, que o melhor era esperar e evitar que ela se afastasse dali para que nenhum civil acabasse machucado, mas o tempo não parecia aliviar de forma nenhuma a agonia que a mulher demonstrava. Não se aproximaram, ela se contorcia como um animal ferido e parecia sofrer mais com a proximidade de qualquer um.

Foi Shuri quem conseguiu parar as convulsões, tentativas de transformações e o ataque de pânico, um eficiente aparelho ainda não testado depois de certa dificuldade foi implantado na medula óssea da Stark e quase que imediatamente ela caiu inconsciente no chão tendo a respiração aos poucos regulada, seu corpo não demorou a se normalizar e ela adquiriu uma expressão serena, a mesma que conservava até agora.

Com o passar das horas a preocupação com a possibilidade da saúde da mais nova ter se danificado com o experimento aumentou pela falta de recuperação dela, mas depois de um pequeno exame ficou claro que ela apenas foi arrastada para um sono profundo e não corria risco nenhum.

Pepper controlava com dificuldade o impulso de lhe acariciar os cabelos, queria cuidar da filha do homem que amava, queria ser a mãe que foi tirada dela, queria acreditar que algum dia ela seria uma garota normal sem ser atormentada por seu passado horrível. Talvez carregar o sentimento de culpa que pesava em seu coração fosse mais fácil se ela não lhe lembrasse tanto o seu gênio, playboy e filantropo, a ruiva constantemente sentia que falhou com Tony e que estava falhando com a imagem dele outra vez. Lin era uma estranha para si, mas toda vez que olhava para ela tinha a sensação de que a conhecia desde sempre, queria abraça-la e conforta-la mas era duro admitir para si mesma que a mais nova não a via desta forma, que deixava que a tocasse para não magoa-la mas que se sentia extremamente desconfortável.

Faria qualquer coisa para que ela melhorasse, mesmo com seus problemas e defeitos não seria privada do amor de sua família se aceitasse fazer parte dela. Ela não estava sozinha, nunca esteve e Pepper precisava urgentemente fazer com que ela enxergasse isso, Loki não era o único a lhe estender a mão e tinha absoluta certeza que se aceitasse verdadeiramente o apoio que lhe oferecia jamais seria deixada de lado outra vez, não viveria a sombra de uma constante possível traição e não precisaria se submeter a situações insanas por essa ser a vontade de seu "amigo". No colo da mulher mais velha estava o que possivelmente era o maior segredo de Tony Stark, a única prova que ele sabia da existência de uma filha que nunca pode conhecer, um compartimento protegido onde ele se expunha não como o grande Homem de Ferro mas como um frágil e quebrado ser humano, lá dentro estavam centenas de cartas possivelmente escritas nos momento mais difíceis do gênio, assim como presentes e conselhos que ele nunca pode dar, todos possuíam um único destinatário: a pequenina Linna. Aquilo começou com um conselho que parecia um pouco idiota, disseram ao bilionário que a dor podia diminuir se ele transmitisse para o papel tudo aquilo que queria dizer a filha e só parou quando ele de fato pode formar uma nova família e se assegurar de que sua outra menininha estava segura ao seu lado. A ruiva ainda não trabalhava para o prodígio na época, mas sabia o quanto autodestrutivo ele se tornou depois que soube da suposta morte da criança, nunca ousou pergunta-lo o quão desesperado ele estava para tentar até a mais bobas das ideias, porém de alguma forma deu certo. A ferida se cicatrizou com os anos e Tony já não mais se culpava pela morte dela, no entanto mesmo assim nunca deixou o habito de escrever para a filha falecida. Ali dentro do que parecia uma caixa estava um pedaço do coração do Stark.

Não fazia ideia de quanto tempo passou a divagar sobre sua frustração, mas só despertou para a realidade quando seus sentidos mais apurados do que o de um humano normal indicaram que estava sendo observada. Olhando novamente para a cama aconchegante notou que o par de olhos diferentes a encaravam curiosamente com um ar preguiçoso, ao ter seu olhar retribuído Lin sorriu aparentando sono e esticou seus músculos na inútil tentativa de acordar totalmente, Pepper tinha receio em imaginar o efeito de seja lá o que Shuri aplicou nela teria em uma pessoa normal se conseguia deixar a garota naquele estado.

- Parecia que você estava com os pensamentos longe daqui, não quis incomodar. - Ela escondeu um bocejo com a mão, aparentemente ainda estava sobre o efeito de algum remédio, afinal se portava mais lentamente e docilmente que o normal.

- Você nunca me incomoda, Lin. - lhe sorriu gentil. - Tenho aqui um presente para te entregar.

- Presente? - questionou parecendo ligeiramente mais animada, ela se sentou obviamente analisando com cuidado o embrulho no colo da outra, gostava de presentes. Pepper não tardou a estender o compartimento que segurava, esperava que suas expectativas estivessem certas e a mais nova fosse esperta o suficiente para descobrir como abri-lo já que Tony o projetou justamente para não ser aberto por ninguém além dele. Não pode deixar de dar um sorriso orgulho quando sem nenhuma hesitação a garota pegou o que lhe era entregue e com seus olhos curiosos passou a buscar meios de passar por toda a proteção que envolvia seu novo pertence.

- Quando eu comecei a trabalhar para o seu pai ele era o maior idiota que eu já havia conhecido, estava sempre bêbado, não conversava com ninguém sem acabar deixando a pessoa ofendida de alguma forma, agia como se nada pudesse abala-lo e como se nada no mundo se igualasse a sua grandeza. - a prova de que a Stark lhe ouvia e prestava atenção no que dizia era que ela ergueu uma sobrancelha em divertimento como se perguntasse "E você acreditou que ele era mesmo assim?", sua resposta certamente seria que até mesmo ela não notou as mentiras por trás da postura do bilionário inicialmente. - Tony passava todo o seu tempo longe de festas, bebidas e polemicas no laboratório, sozinho, ele não se aproximava muito de nenhum funcionário e seu comportamento era o suficiente para que ninguém quisesse passar muito tempo com ele. Havia é claro as exceções como Rhodes, Happy e – ela fez uma cara de desgosto - Obadiah Stane, ninguém mais via além das palavras sarcásticas e das ironias, inclusive eu... - Lin parou um pouco para olha-la, mas não demorou a voltar a se concentrar em abrir o compartimento. - Imprimi o meu documento de demissão em menos de seis meses de trabalho e quanto fui atrás do meu chefe para assina-lo Happy barrou a minha entrada na sala de estar onde ele se encontrava, Jarvis é claro teria feito o mesmo sem nenhum esforço, mas era a forma dele mostrar que estava ali caso o Tony precisasse. Happy parecia feliz em me ver, não sabia que eu ainda não havia ido embora, ele pensou que eu havia me preocupado com Tony e que por isso fui procurá-lo, afinal ele esteve ausente por muito tempo naquela semana. - Pepper deu uma risada nervosa – Quando ele não me deixou passar para vê-lo eu fiquei com raiva, mas foi ele quem pareceu mais abalado, mais perdido.

"Happy disse que eu era uma funcionária promissora, que eu deveria saber se quisesse continuar no emprego, mas que por mais que Tony provavelmente não ligaria se eu soubesse ele não estava exatamente confiante em me contar seja lá o que fosse. Foi então que ouvimos um gemido de dor e o barulho de vidro se quebrando vindo de dentro do cômodo, a relutância do segurança diminuiu e ele começou a confidenciar uma história sobre Tony que poucas pessoas sabiam."

"Anthony Stark de alguma forma descobriu que era pai e por mais improvável que fosse ele ficou tão absurdamente feliz que criou dezenas de planos, expectativas e até passou a pesquisar como lidar com crianças afinal isso nunca foi um ponto forte seu, construiu presentes para ela, pediu fotos para a mãe e passou a agir como um pai coruja sem ainda nem mesmo tê-la visto pessoalmente, a matriculou nas melhores escolas e providenciou para que a menina e a mulher que a gerou tivessem todos os mimos que mereciam. Ele sempre se sentiu muito sozinho e mesmo que estivesse diante de um possível golpe que causasse a perda de parte da sua fortuna Tony não se importou, ele agiu sem o conhecimento de mais ninguém e cuidou de todos os mínimos detalhes para que o primeiro encontro de pai e filha fosse perfeito, contando de última hora para Obadiah o que estava fazendo e para onde ele estava indo, quando chegou no parque em que ele marcou com sua mãe de encontrá-la Tony esperou por vocês, comprou um balão porque muitas das crianças de lá pareciam gostar de balões e continuou a esperar e a esperar, até o ponto de já estar quase se desesperando por ter sido deixado sozinho outra vez."

- Mas o encontro nunca aconteceu... - Lin falou com a voz baixa e a expressão séria.

- Não, porque houve um acidente e vocês nunca puderam chegar até lá. - A voz da Senhora Stark se tornou mais embargada, a mais nova não quis olha-la, mas sabia que estava contendo a vontade de chorar. - O carro em que vocês estavam despencou de um desfiladeiro, se destruiu na queda e se chocou em uma pedra, quando o socorro chegou eles conseguiram recuperar um pequeno embrulho mas não tiveram chance nenhuma de tirar vocês dos escombros, estavam demasiado presas e quando eles tentaram mexer no que restou do carro o motor explodiu. Não havia nenhuma possibilidade de uma de vocês estarem vivas, por isso ele não procurou muito por você, era como impedir a ferida de se cicatrizar e nada indicava que você não estivesse naquele veículo. - ela suspirou – Happy me deixou entrar depois que viu a minha expressão com o fim da história, nós encontramos o Tony chorando encolhido no chão, as mãos dele estavam sangrando por ele ter tentando recolher os cacos da garrafa de whisky que deixou cair e ele estava agarrado a um bonequinho de madeira como se fosse uma criança. Foi a primeira vez que vi aquele homem sem nenhum mascara, então percebi que ainda havia muito sobre Tony Stark a se aprender, cuidei de seus machucados, limpei os cacos e deixei que ele me analisasse e percebesse que eu não o julgava. Joguei os papeis da demissão no lixo, dei uma segunda chance para ele e talvez esta tenha sido a melhor decisão que tomei em minha vida.

Ouve-se um alto "click" no quarto, o compartimento se abriu e Lin encarou a ruiva em seus olhos, era a sua forma de dizer que aceitava os sentimentos que lhe eram oferecidos. Antes de ver o que seu pai fez para si a gênia deixou o presente de lado e abriu um pouco os braços, sem jeito para demonstrar afeto, Pepper ofegou ao entender o que aquilo significava e não demorou a envolve-la em um abraço. A mais nova sentiu lagrimas molharem sua pele, mas não as negou, não tremeu e não hesitou diante do acolhimento da completa humana, seu corpo e sua mente não a rejeitaram, pelo contrário eles a reconheceram como família.

- Leia as cartas, sim? - a ruiva beijou o topo de sua cabeça – Esse é um momento seu, vou lhe dar privacidade, mas estarei aqui sempre que precisar. Você não está sozinha, ok?

Lin apenas assentiu, não confiava em sua voz para dizer o que quer que fosse, sentiu os braços ao seu redor afrouxarem e assistiu a ruiva partir lançando um último olhar para si como se precisasse confirmar se estava tudo bem deixa-la sozinha agora. A garota não sabia como reagir e passou os seguintes minutos olhando para o nada, perdida e de certa forma confusa, definitivamente não estava acostumada com pessoas demonstrando sentimentos bons em relação a si. Com um suspiro um tanto contente, um sorrisinho tímido e um encolher de ombros a Stark resolveu dar atenção ao presente que lhe aguardava. O pai que nunca conheceu tinha esse habito inesperado de surpreende-la.

Observando o conteúdo do compartimento Lin pode notar que haviam envelopes já amarelados pelo tempo e outros tão brancos que davam a ideia de terem sido escritos recentemente mesmo que isso fosse impossível, assim como também eram visíveis pen drives, brinquedos pequenos, fotos e o que parecia ser o drive aposentado de Jarvis. As fotografias despertaram seu interesse primeiramente, pegando-as em suas mãos atualmente sem os dedos mecânicos a Stark teve plena visão de uma passado que para si parecia tão distante que já não guardava lembranças da época, ali estava a imagem do que um dia foi uma criança normal e sua mãe cujo rosto há muito tempo havia sido esquecido pela garota. Uma momentânea divagação fez a gênia refletir que nem mesmo se lembrava do nome da mulher que lhe gerou, Kelly era o que estava escrito no verso mas em sua mente a pronuncia do nome não era nem mesmo meramente familiar, talvez devesse se sentir pior do que já estava com esta constatação porém tinha apenas a sensação de estar olhando para duas estranhas, era como se aqueles momentos com a mãe nunca tivessem existido para si. A ideia de ter uma família era algo estranho de se pensar, houve aquela mulher que lhe amava e o homem que também lhe amava entretanto ambos não estiveram consigo quando precisou, mas agora havia Pepper, a viúva do seu verdadeiro pai que estava disposta a ama-la e a ficar ao seu lado independente de qual fosse a situação, Lin não deixava de sentir um formigamento no estomago com a atitude da mulher embora tenha acreditado anteriormente que ela não fosse uma pessoa tão tola. De certa forma era divertido imaginar que talvez um dia de fato a considerasse sua família, mas atualmente isso parecia um tanto improvável.

Mesmo sabendo que não teria resposta mandou para o amigo/noivo sua atual visão com o seguinte pensamento "Quem diria que eu já fui uma coisinha fofa e adorável um dia?", com o coração aquecido e um sorriso um pouco mais animado no rosto ela continuou sua exploração, guardaria as recordações de sua mãe com carinho apesar de não ter nenhuma memoria sobre ela além das que acabou de adquirir. Não pode deixar de pensar o quão drasticamente diferente poderia ter sido a sua vida se aquele acidente de carro nunca tivesse acontecido.

Seguindo adiante ela analisou o drive de Jarvis, era uma agradável surpresa que ele estivesse ali afinal é algo realmente necessário no desenvolvimento do Visão, não parecia quebrado ou com qualquer tipo de defeito apenas foi superado por Sexta-Feira. Lin o guardou separadamente para usos futuros.

Seus dedos esbarraram em um boneco de madeira antes que outra coisa despertasse o seu interesse, a Stark não saberia dizer como, mas sentiu uma estranha familiaridade com o objeto e o pegou para analisa-lo melhor. Os contornos do pequeno brinquedo não eram bem feitos, eram tortos e irregulares, quem o fez não tinha muita ideia do que estava fazendo e com certeza não possuía nenhuma técnica para aquele tipo de coisa. Nenhum motivo suficientemente convincente surgiu em sua mente para que Tony Stark guardasse algo assim tão mal feito, quase como se fosse fabricado por uma criança... ah, pensando melhor as letras L.M.S faziam mais sentido agora. Aquela coisa feia tinha um valor sentimental para o Homem de Ferro pelo simples fato de que foi a própria Lin quem a fez, mesmo que ela já não se lembrasse disso. Precisava terminar de olhar aquelas coisas rápido, estava começando a ficar verdadeiramente sentimental.

Haviam projetos entre as folhas ali dentro, estava naqueles papeis o que poderia ter sido o ápice do poder do vingador e que foi mantido em segredo para que ninguém o continuasse. Seu pai nunca teve tempo de termina-los, morreu antes de começar a desenvolve-los. Os rabiscos audaciosos e improváveis nunca deixaram de ser uma simples ideia, por isso a mulher não demorou a guarda-los entre os seus próprios projetos sabendo que poderiam ser bastante uteis agora que começou a trabalhar.

Lin ergueu a mão e usou de seu dom para chamar seu notebook para mais perto, não se importaria com as dores que isso lhe causaria agora, já convivia com a dor por tempo demais para dar importância a algo assim. Conectou o primeiro pendrive e deixou que Sexta-Feira passasse pela segurança que o guardava enquanto começava a olhar as cartas. Lin não admitiria mas estava hesitando em ler o quer que Tony tenha escrito, não conhecer o pai tornava mais fácil aceitar que Loki foi sua única companhia durante a maior parte da vida mas ali estava a prova de que o homem não era apenas um herói cujo todos lhe contavam histórias, ele era real e não era ignorante em relação a sua existência. Podia parecer bobo, mas a Stark temia qual seria a sua reação perante as palavras que lhe aguardavam. Ela começou com uma ordem, a carta datada como mais antiga foi a primeira.

Quando finalmente terminou a ducentésima octogésima quarta carta a noite já havia chegado e todos os pendrives já tinham as barreias caiadas para que ela pudesse olha-los, porém a garota não se mexeu de imediato, alguns trechos insistiam em se repetirem em sua mente.

"Olá papai! Mamãe disse que vamos nos conhecer em breve!

Eu queria que você soubesse antes que mesmo que eu apareça com uma camisa do Capitão América e que eu tenha vários bonequinhos dele você sempre vai ser o meu super herói favorito!"

A primeira carta foi escrita pela letra grande e garranchosa da criança que Lin um dia foi, o envelope e o papel estavam amarelados pelo tempo, mas ainda continham os maus desenhos e enfeites que a mulher se lembrava de ter feito. Tony a aguardou por todos esses anos com muito carinho e cuidado.

"Tem sido difícil continuar, me sinto completamente perdido, admito que não sei o que fazer, mas acho que estou seguido o caminho certo, as pessoas vão ficar mais seguras com o que eu tenho feito. Nenhum pai deveria ver seus filhos morrerem"

"O melhor amigo do meu pai, aquele que representou para mim uma figura paterna mais presente que a do próprio Howard Stark me traiu, nunca me viu como parte de sua família, só o dinheiro importava."

"Inocentes morreram com as minhas criações, você se sentiria orgulhosa de mim se me visse agora?"

"Meus amigos dizem que o que estou fazendo agora é suicídio, porém pela primeira vez em muito tempo eu percebo que estou fazendo o certo, que estou ajudando as pessoas de verdade. Me sinto feliz com o que estou começando, é como se o vazio finalmente estivesse se preenchendo."

"Pepper e eu estamos nos envolvendo, como foi que eu não notei essa mulher incrível antes? Ela já está a meu lado a tanto tempo, devo ser mesmo cego para não ter olhado para ela como olho hoje desde o primeiro dia que nos vimos."

"Entrei para um grupo denominado Os Vingadores, eu sei, é ridículo e eles são uns idiotas (tirando talvez o Banner) mas parece que de alguma forma nós damos certo, apesar de eu ainda querer socar a cara perfeita do Rogers."

"Tenho pensado em convencer o Thor a se exibir por ai como deus do trovão para expor como os nórdicos estavam certos e como ninguém tem certeza de nada nesse universo, causaria um verdadeiro caos com certeza. Que pena que isso não é algo que um herói faria, mesmo que seja algo que Tony Stark faria."

"Ainda estou esperando Jesus aparecer para fazer uma revolução aqui na Terra."

"Talvez eu peça a Pepper em casamento em breve, mas tenho medo. E se ela disser não? Claro, qualquer mulher neste planeta diria sim se eu pedisse, mas ela não é qualquer mulher, por isso me apaixonei por ela."

"Por mais estranho que pareça eu tenho me afeiçoado aos vingadores, eles têm se tornado minha família. Não, eu ainda quero socar a cara do Rogers, só talvez não vou usar a armadura quando fizer isso."

"Os pesadelos e os ataques de pânico continuam, eu não tenho feito o bastante, preciso melhorar, preciso me manter acordado e consertar o que eu errei. Pessoas estão morrendo lá fora, não posso ficar parado, todos vão morrer se aquilo voltar."

"Recuperamos o cetro do irmão do Thor, me recuso a dizer o nome daquele cervo, parece que as coisas vão ficar bem agora. Tenho alguns dias para estuda-lo antes do cachinhos dourados voltar para Asgard. Bruce vai me ajudar com um projeto para proteger o planeta, estou confiante que vai dar certo."

"Criamos o Ulton, mas ele está tentando destruir a raça humana, então tenho a impressão de que falhamos miseravelmente."

"Muitos inocentes morreram e a culpa é toda minha, vou encontrar uma forma de reverter isso."

"Steve e eu estamos nos tornando muito próximos, somos grandes amigos e talvez ele esteja conquistando o posto de meu melhor amigo. Rhodes não pode saber e se isso que eu acabei de dizer vazar eu nego até a minha morte."

"Conheci um adolescente interessante, seu nome é Peter Parker, talvez eu o torne um vingador apesar de ser muito jovem. O rapaz tem potencial."

"Nos foi proposto um acordo para acabar com as mortes dos inocentes, eu concordo, mas o Rogers não, temo que tenhamos que lutar com nossos amigos para que eles não façam nenhuma besteira."

"Houve uma guerra civil, nos enfrentamos. Talvez o único lado bom disso é que o rapaz realmente provou que está a nossa altura, mas mesmo assim ainda é muito jovem, tem muita coisa a aprender."

"Percebi o quanto estava errado em relação ao acordo, vou dar um jeito de libertar os vingadores que foram presos e vou encontrar o Rogers e aquele amigo esquisito dele, pretendo ajuda-los com o que precisarem."

"Descobri que foi Bucky Barnes quem matou os meus pais, acabei enfrentando os dois no lugar de ajuda-los, mas eles venceram e me deixaram para morrer. Fui resgatado por sorte."

"Steve me mandou uma carta e um velho telefone Nokia, isso é bem a cara dele. Tenho pensado em usar a tecnologia do telefone nas armaduras, ele sobreviveu em todas as vezes que o joguei pela janela em ataques de raiva e considerando que estou no vigésimo andar acho que devo a ele os meus parabéns."

"T'Challa concordou em dar abrigo aos dois amiguinhos felizes em Wakanda, não sei porque me dei ao trabalho de convence-lo."

"Tudo bem, não estou mais bravo com o fóssil e o picolé, eu reconheço que ele estava sendo controlado e não sabia o que estava fazendo. Mas isso não significa que vou ligar para ele, os vingadores já não existem mais, eu estou sozinho outra vez."

"Pedi a Pepper em casamento."

"Tenho me apegado muito ao pirralho, quer dizer, Parker. Ele passa mais tempo comigo do que na própria casa, já tem até o próprio quarto aqui, Pepper diz que eu estou agindo como se fosse pai dele só porque talvez eu tenha surtado na vez que ele se machucou muito em uma missão. Não sei do que ela está falando."

"Por que ele tinha que conseguir escalar paredes? Isso torna o meu trabalho de prender ele no quarto muito mais difícil, outro dia mesmo ele quebrou a parede para sair, Pepper diz que estou exagerando."

"Tive um sonho engraçado, eu estava gravido e acordei com um ótimo pressentimento, vou perguntar para a Pepper se ela está gravida. Tenho a impressão que nada pode dar errado agora, você se orgulharia do homem que eu me tornei, pequena Linna?"

Lin não precisava ser uma gênia como de fato era para saber o que aconteceu depois, Thanos chegou e acabou com todos os planos felizes que Tony pudesse ter criado. Seja lá o que ele escreveu depois não estava mais ali, provavelmente foi afetado pela mudança na linha temporal e ele morreu antes de poder escrever uma nova carta na linha em que estavam agora. Apesar de ser bem estranho que as cartas que continuavam ali pertencessem ao período anterior a viagem do tempo, provavelmente as joias haviam interferido nisso assim como fizeram com Loki.

Suspirando e um tanto perdida nos próprios pensamentos a Stark foi explorar o conteúdo dos pendrives e descobriu que não passava de vídeos caseiros, fotos queridas e informações que nem mesmo Lin conseguiu encontrar sobre o mundo antes da viagem do tempo. As vezes a mulher se surpreendia com o quanto o pai conseguia ser útil mesmo que não estivesse ali. Com os olhos úmidos e o coração aquecido por tudo que viu ela encaminhou uma cópia das informações que precisavam para Strange. Por último voltou a pegar o boneco de madeira no meio de todos os brinquedos que agora a cercavam e observou que estranhamente havia certa semelhança entre o ser horrendo que a olhava de volta no espelho e a coisinha feia que segurava na mão. Lin se orgulhava do pai muito mais do que achou que poderia imaginar, sem contar que ela só conseguiu se livrar de sua prisão e evoluir por causa da interferência que Tony causou na linha do tempo, não tinha palavras para agradece-lo.

- Eu que deveria perguntar, Senhor Stark, você sentiria o mínimo orgulho de mim se soubesse o que pretendo fazer?

(...)

Gamora não trazia de nenhuma forma boas recordações para Loki, quando ele a conheceu ela ainda gostava de ser a filha querida de Thanos e talvez fosse uma das criaturas mais temidas do universo assim como fez questão de deixar claro para o deus. A mulher seguia fielmente as ordens do titã louco e não se importou nenhum pouco em fazer com que o príncipe de Asgard carregasse para sempre uma memória do que significava trair a confiança de seu pai. A Godslayer, sua principal arma, é capaz de sem nenhuma dificuldade atravessar o corpo de um asgardiano, o que torna a guerreira uma matadora de deuses em potencial e que conseguiu fazer com que o atual portador da joia da mente carregasse a cicatriz de um ferimento que poderia ter causado sua morte se ele não passasse de uma brincadeira para ela.

Ocultada pela magia ninguém jamais pode ver a ferida anormal que por muito tempo permaneceu aberta no tórax do extraterrestre trapaceiro sem que ele de fato quisesse mostra-la, afinal quando ele ganhou a confiança de Thanos ela já estava quase curada, mas Hulk fez questão de reabri-la quando o atacou, mesmo que não soubesse disso. Seu tempo na prisão de Asgard (ou o tempo como fugitivo) contribuiu para que o machucado sarasse completamente, mas nunca desapareceu e continuou como uma eterna lembrança do que significava enganar seres como aqueles com que se envolveu. Não que Loki atribuísse muito valor a esse aviso já que além de ter tentado matar a uva passa quando este pretendia destruir seu irmão em uma das linhas do tempo agora ele estava justamente indo roubar a mulher que o marcou. Lin gostava da enorme cicatriz, fazia com que ela se sentisse parecida com ele, mas nunca precisou exatamente de sua forma física para isso.

O deus escolheu expô-la ao seu tão improvável aliado antes que eles chagassem até Gamora, ele afinal precisava saber com o que estavam lidando, mas Stephen pareceu gostar ainda mais da mulher depois que a viu e Loki precisou resistir à tentação de esfaqueá-lo por isso. Velhos rancores são difíceis de eliminar e o mago ainda considerava o deus um possível inimigo por mais que estivesse se acostumando a sua companhia. Apesar de tudo Strange em seu íntimo agradeceu pelo príncipe tê-lo mostrado, para ele qualquer informação sobre o adversário desconhecido era válida.

Estavam atualmente em Contraxia, o planeta do prazer, e se encaminhavam para o bordel Lótus de Ferro, era estranho que o paradeiro de Gamora fosse aquele lugar, afinal havia um bom prêmio em dinheiro para quem entregasse qualquer membro dos Guardiões da Galáxia a um dos grandes líderes daquele lugar. Talvez trouxesse Thor para conhecer o lugar um dia.

- Vejo pela sua cara que nunca esteve em um lugar assim antes. - Loki comentou observando as feições de seu parceiro.

- Não possuo o habito de viajar pelo universo com esse propósito. - Stephen arqueou uma das sobrancelhas ao devolver o olhar. - Você por outro lado parede familiarizado com este planeta, ou eu estou errado? - o príncipe pareceu achar graça.

- Você se surpreenderia com o quão informativo criaturas bêbadas e excitadas conseguem ser.

Eles se encaminharam até uma das mesas mais afastas que o bar receptivo possuía e por todo o caminho o deus recebeu cumprimentos respeitosos e amigáveis das androides que ali serviam, uma delas até mesmo ofereceu a chave de um dos quartos para que ele pudesse relaxar com seu "elegante companheiro" e Loki fingiu ponderar aceitar só para ver o contido constrangimento do protetor da realidade aumentar. Ambos pediram bebidas que para o humano eram um tanto estranhas e encenaram estar numa conversa interessantíssima para que ninguém suspeitasse de seus objetivos enquanto esperavam a protetora da pedra do tempo aparecer.

Era positivismo demais pensar que não precisariam lutar portando, mesmo que ambos estivessem agindo como se fossem clientes normais para aquele tipo de estabelecimento, estavam atentos a cada som, movimento ou individuo diferente que entrasse pela porta do bordel. Apenas aguardavam o confronto eminente com o adversário que chegará a qualquer momento.

Loki atraia a atenção de quem quer que o olhasse, interpretava seu papel com maestria, estava vestido com uma roupa típica da alta classe do planeta, apenas um tecido leve de cor verde cobria o seu corpo deixando parte de seu abdômen a mostra e joias reluzentes enfeitavam seu pescoço e seus pulsos, era a personificação pura da luxuria e da mentira. Ele conversava com os que ousavam se aproximar como se fossem íntimos amigos de longa data e cativava o desejo de todo o macho ou fêmea que se deixasse cair perante as expressões falsas que o príncipe mostrava, era um tanto obvio que ele era popular por ali. Stephen não poderia estar mais deslocado, nada na Terra que ele frequentava em seus dias de riqueza material eram comparáveis a aquele lugar e ele sentia que mesmo estando quieto em seu canto, sem entender nenhuma palavra do que aqueles alienígenas diziam, era alvo da raiva, do desgosto e possivelmente dos instintos assassinos daqueles seres por ser o "escolhido" do príncipe de Asgard naquela noite.

Não poderia deixar de pensar que o asgardiano adotado estava realmente se divertindo com aquilo tudo, ele é vaidoso, adora ser cobiçado e adorado, mas gosta ainda de provocar circunstâncias em que pode se deliciar com o desconforto alheio. O mago se sentia tentado a abandona-lo ali para lidar com Gamora sozinho, mas percebia que isso era um troco justo por quase ter rido da marca que ele lhe mostrou, ela é visivelmente algo de que ele se envergonhava e que detesta em si e mesmo assim Strange não pensou em negar sua satisfação ao ver que alguém como ele havia tido algo que merecia.

Quando a guardiã da joia do tempo entrou pelas portas do bordel ninguém lhe deu atenção, já que o deus por si só já garantia todos os olhares, ninguém exceto Loki e Stephen pareceram conscientes de que a tão temida filha adotiva de Thanos estava agora entre eles. O protetor da realidade notou que ela estava sozinha e parecia deveras chateada com alguma coisa, não queria que a notassem e, portanto, pediu uma bebida, se afastou para ficar em uma mesa um tanto escondida e segurando o próprio rosto com as mãos passou a olhar para o nada como se se sentisse perdida.

Ainda usando seus encantos para fazer com que os clientes ficassem tão atraídos por si o príncipe forjou uma expressão de agradável surpresa, como se avistasse de longe um velho amigo querido, se levantou majestosamente e como quem não quer nada e fez com que todos ao seu redor percebessem a chegada daquela que poderia fazer com que qualquer um ganhasse um generoso prêmio em dinheiro, isso é claro se conseguissem derrota-la.

- Ora, ora, se não é a incrível Gamora que estou vendo aqui. – Todas as criaturas que antes se mantinham focadas no deus agora olhavam para a mulher esverdeada. Cada palavra saindo de sua boca estava inundada de veneno e ele a encarava com o que todos podem descrever como malicia e diversão. Ela por sua vez olhou para o homem que arruinara sua privacidade como se não acreditasse no que via, estrava incrédula que alguém como Loki ainda fosse capaz de provoca-la ou dirigir uma palavra se quer a si, de qualquer forma Strange sempre achou que o parceiro era louco.

- Também estou surpresa em vê-lo por aqui, Loki. Foi muito difícil rastejar para fora do alcance do seu querido irmão e fugir do seu confinamento em Midgard? – ela apoiou o queixo sobre uma das mãos, sua linguagem corporal mostrava que Gamora agia como se estivesse falando com uma criança atrevida e não com um deus, mas apesar disto o príncipe podia ver que ela levou a mão não ocupada até o cabo da Godslayer. Por que as pessoas nunca acreditavam que ele estava apenas casualmente cumprimentando um conhecido e que não havia nenhuma intenção ruim por trás disso?

- Eu sei que isso pode parecer estranho vindo de mim, mas Thor não manda, nunca mandou e nunca vai mandar nas minhas ações por mais que tente. – Ele foi se aproximando sorrateiramente, sendo seguido de perto pelas criaturas que pareciam ter interesse em ser sua nova guarda pessoal. – E nunca fui impedido de deixar Midgard, tenho apenas me afeiçoado as criaturas de lá.

- Aposto que os humanos estão em festa pela sua ausência. – Ela provocou com um falso sorriso inocente no rosto.

- Ah, sem dúvidas quanto a isso. – Loki deu um riso anasalado, ele agora estava tão perto que se estendesse a mão poderia toca-la, mas ainda não faria isso, não tinha a menor vontade de perder uma das mãos. – Mas se até você consegue cativar um deles, não é muito difícil para mim ganhar a confiança de toda a população, basta apenas que eu tente.

- Admito que mentiras e ilusões podem mesmo deixar aqueles seres na palma da sua mão, mas quando foi que um deles realmente gostou de você e lhe foi leal? – o sorriso do deus aumentou ainda mais e ele abaixou o rosto para ficar à altura do dela.

- Não soube da novidade? Eu estou noivo de uma humana, uma vingadora, irei me lembrar de te mandar um convite quando a cerimônia acontecer. – De fato por baixo das joias da mão esquerda ainda estava a fita vermelha que significa sua união com outra criatura, não que os outros seres ali presentes se importassem com isso. Em pé ali perto para quando a ação começasse e sem que a mulher o notasse o Doutor Estranho pensava seriamente em conjurar um balde de pipoca para acompanhar o desenrolar da cena.

- Imagino que ela seja completamente insana, para combinar com você.

- Acredito que vocês seriam boas amigas, a loucura dela deve te tornar mais suportável.

- Você quer um lembrete do significado de limite, Laufeyson? – Ela desembaiou um pouco de sua arma, apenas para deixar a ameaça ainda mais explicita.

- Não obrigada, eu me lembro bem. – Sem dúvidas ele pode sentir sua cicatriz formigar no momento, mas não deu o mínimo valor para isso e continuou a se manter próximo não deixando em nenhum instante de olhar nos olhos dela.

Antes que a dupla resolvesse agir ou que a paciência de Gamora acabasse de vez a porta de entrada foi escancarada e por ela entrou um homem de feições humanas aparentando uma genuína preocupação, como se procurasse algo ou melhor, alguém. Não era preciso muito esforço para saber que aquele era Peter Quill e que com certeza havia acontecido algo entre os dois afinal ao notar a presença dele o corpo da esverdeada se tornou tenso e ela pareceu querer evitar com todas as forças que ele a notasse ali.

Aproveitando a ligeira distração de seu alvo Loki levou a mão até seu rosto como se estivesse fazendo nela um intimo carinho, mas foi apenas quando ela não o atacou imediatamente que ele teve a certeza de que aquele jogo já estava ganho. A mulher a sua frente guardava demasiado rancor e raiva do deus para se permitir imaginar que ele seria capaz de grandes feitos, tanto que não fez o mínimo esforço para reconhecer a pedra que carregava em seu pescoço o que obviamente conseguiria sem dificuldade mesmo que a magia houvesse alterado sua imagem.

Era como o príncipe sempre dizia, sentimentos são uma fraqueza, eles fazem com que você perca o controle sobre suas emoções e permitem que você seja manipulado com ainda maior facilidade, a Gamora que Loki conheceu no passado nunca se deixaria ser controlada desta forma e foi com muito custo que ele a seduziu e conquistou sua confiança na época, mas esta de agora já ama ou amou alguém e esse amor entregou de bandeja para ele tudo o que precisava.

Garantindo o controle total da mente da mulher o deus trapaceiro fez com que ela lhe dirigisse o seu olhar mais encantado possível, assim quando o "Senhor das Estrelas" a viu ela encarava seu inimigo como se ele fosse um amante que não tivera notícias por muito tempo.

- Mas o quê...? - foi possível ouvi-lo balbuciar e Gamora pareceu sair de seu transe ao nota-lo agora tão perto.

- Quill... - ela piscou lentamente tentando focar sua visão no ser que atrapalhou o momento com seu "amante", os sentimentos dela já estavam confusos em relação ao que um dia foi seu namorado mesmo antes de que Loki agisse, mas agora com a intervenção dele tudo se tornou muito mais claro e intenso, a esverdeada sentia raiva, muita raiva e uma vontade incontrolável de machuca-lo como ele havia feito consigo.

- Você conhece esse inseto, querida? - Loki perguntou com o cuidado mentiroso que só ele tinha, sua voz saiu um tanto mais rouca que o normal e as criaturas ao redor pareciam achar graça do que ele estava fazendo, gostavam de vê-lo subjugar alguém.

- Inseto?! - Peter além de perdido agora aprecia indignado, ele se aproximou se deixando tomar conta pelos ciúmes e tentou afastar o deus de sua namorada a força, o que não funcionou e apenas fez com dezenas de seres pegassem em suas armas para destruírem aquele que ousou tocar no homem que cobiçavam. Quill os ignorou como se não estivesse sendo ameaçado. - E o que seria você, um deus?! - havia ironia e sarcasmo em sua voz, assim como a autoconfiança que ele parecia precisar reafirmar.

- Na verdade sim. - Um sorriso presunçoso apareceu no rosto do príncipe. - Eu sou Loki, filho de Odin.

Peter fez uma expressão de horror e dor, passando a olhar do homem para Gamora como se não acreditasse no que seus olhos viam, já tinha muitos problemas de autoestima envolvendo deuses para precisar aguentar outro filho de Odin.

- Não ligue para ele, querido, é apenas o meu ex-namorado agindo como se se importasse. - Ela se levantou como se estivesse ferida e segurou a mão de seu inimigo, pronta para tira-lo dali.

- Ex-namorado? Espera aí, quando foi que a gente terminou? Eu pensei que você estivesse disposta a fazer as coisas darem certo entre nós outra vez! - Ele agora estava a alguns tons mais pálido, definidamente asgardianos não lhe causavam boas lembranças. - Gamora, eu já disse, aquilo que você viu não é nada do que você está pensando, eu jamais me envolveria com outra mulher... Aparentemente ao contrário de você que se jogou nos braços do primeiro Senhor Perfeição que apareceu!

Stephen e Loki se olharam de longe, nem eles estavam acreditando que o casal de pombinhos estava brigando em um momento como esse. Gamora não parecia ser capaz de falar, apenas levou a mão a sua espada novamente, furiosa e pronta para ataca-lo, Peter por sua vez se afastou em alguns passos, um tanto incrédulo de que ela fosse mesmo capaz de machuca-lo dessa forma.

O jotun não deixaria a oportunidade passar de nenhuma forma então levou a mão por entre os fios do cabelo dela e adentrou em sua mente, descobriria sem erros onde a esverdeada escode a joia do tempo. Mesmo com a pedra da mente ajudando sem nada cobrar em troca as barreiras da mente da mulher eram forte, sem dúvidas foi treinada durante muito tempo para quando algo assim acontecesse e isto o atrasou mais do que o previsto, tanto que quando voltou a realidade com a tão preciosa informação se deparou com um cenário um tanto diferente do que quando a deixou.

Gamora por algum motivo imaginou que a mão em seu cabelo representava um pedido mudo por algo a mais e estava a centímetros de beija-lo por tamanha era a sua vontade de ferir os sentimentos do Senhor das Estrelas, Quill já magoado e com ódio sacou a sua arma determinado a afastar o deus de sua amada e isso fez com que as criaturas que ainda tinham esperanças de dormir com o príncipe atirassem nele sem nenhuma piedade. Foi Strange quem controlou a situação, protegeu os três com escudos, imobilizou Gamora com cordas magicas e evitou que Peter conseguisse atingir seu adversário.

- Por que humanos sempre se descontrolam tão fácil? - Loki perguntou divertido e com um sorriso vitorioso no rosto. - Acabam deixando as coisas simples demais.

Ele arrancou fios de cabelo da mulher e caminhou em direção ao protetor da realidade tranquilo, como se não estivesse fazendo nada de errado. Foi perceptível a imediata mudança na postura de Gamora quando ele deixou de controla-la. Se ela antes estava com uma raiva insana que não era totalmente sua, agora ela sentia ódio, pura e inteiramente seu.

- Filho de um Fenrir peludo e sarnento... - ela sussurrou furiosa encarando o deus que ousava quase rir petulantemente para si, a mulher desembaiou a espada e não demorou a ir de encontro ao maldito jotun, faria qualquer coisa para arrancar aquele sorriso triunfante do rosto dele.

Loki obviamente não seria um alvo tão fácil assim, conjurou uma espada rapidamente e com ela bloqueou o golpe que o deceparia, seu sorriso vacilou por um momento, mas não deixou que sua expressão de vitória desaparece. Ele afinal era o deus da trapaça e das travessuras, aquele que sente prazer em estragar relações e que faz tudo para o próprio entretenimento, se a esverdeada tivesse uma imagem diferente de si todo o plano iria por água a baixo.

Quill observou a interação entre os dois bastante confuso, ela a meio minuto estava querendo beija-lo e agora quer mata-lo, seria isso um tipo muito perturbado de TPM? Pensando bem o rosto do homem que agora lutava com sua namorada (ou possivelmente ex-namorada) não lhe era estranho e por falar em estranho... o que diabos o Doutor Estranho estava fazendo ali?

- Você está mesmo ajudando este verme miserável, Strange?! - Gamora perguntou exaltada ao perceber que claramente o mago se posicionava a favor do deus na briga.

- São tempos ruins Gamora, até a mais improvável das criaturas pode ser um bom aliado. - Stephen com sua magia conjurou armas e se colocou entre os dois.

- Espera aí, esse cara é deus da trapaça! - Peter quase gritou ao constatar o que todos já sabiam. - Eu já ouvi falar de centenas das pegadinhas dele, ele é incrível! - A esverdeada o encarou num misto entre surpresa e indignação, enquanto Loki arqueou a sobrancelha e respondeu divertido.

- Fico contente em saber que tenho mais um fã por aqui. - Seus outros admiradores agora pareciam receosos, sem saber se entrariam no meio da briga ou não.

Não havia mais o que fazer, eles já haviam conseguido o que buscavam mesmo que ninguém tivesse percebido isso, agora só o que faltava era se afastarem o suficiente para abrirem o portal sem que ninguém soubesse para onde estavam indo. Gamora avançou mais uma vez e foi contra o escudo magico que protegia o que talvez fosse o único ponto cego do deus, usou tamanha precisão que o feitiço se rompeu e Loki quase não teve tempo de se defender, as coisas seriam mais fáceis se ele simplesmente pudesse machuca-la, mas não valia a pena quebrar seu acordo com o mago apenas para ver aquele belo rosto sangrar.

A multidão ao redor começou a se exaltar mais, a segurança já havia sido ativada e eles se posicionavam contra os supostos causadores do tumulto, ou seja, os Guardiões da Galáxia. Gamora e Quill, que escolheu lutar junto da mulher a ficar olhando o deus de índole tão questionável machuca-la, se viam encurralados e o mais aconselhável a se fazer era deixar que os outros dois fosse embora, afinal tudo não passou de uma brincadeira de mau gosto de Loki, não é mesmo? Porém já havia tanta magoa por parte dela acumulada em relação a aquele homem, tanta raiva por ter confiado nele e tanto ódio por ele tê-la engado que a esverdeada não pensou nas consequências, desejou com todas as forças ferir o príncipe e quem se intitulasse amigo dele. Stephen se tornou seu alvo, não importava para ela se um dia o mago houvesse se mostrado um bom aliado, qualquer um que escolhesse o trapaceiro como parceiro tem um caráter tão duvidoso quanto o dele.

Ela se posicionou como se fosse repetir o ataque contra o deus, mas no momento exato que o protetor da realidade agiu para defende-lo e que o próprio Loki mudou sua postura para receber o impacto enquanto ambos se aproveitavam da confusão para tentarem desaparecer ela mudou rapidamente o foco de sua arma e o dirigiu para o único homem que seria capaz de tirar o gigante de gelo dali ileso. Nenhum humano sobreviveria a aquele golpe, Peter sabia disso e tentou para-la por não conhecer nenhuma das razões que despertaram a ira da companheira, mas ele estava longe demais para ter a chance de fazer algo útil e não chegou a tempo de impedir o sangue de ser derramado.

Ouve um momento de silêncio, era como se todos prendessem a respiração momentaneamente, Gamora percebendo o que acabara de acontecer se afastou bruscamente, sua expressão estava em choque e nada faria ela acreditar no que estava vendo. Só agora a pedra deixou completamente de influencia-la, não havia mais tanta raiva em si, o sentimento que a dominava era a mais genuína surpresa. O príncipe havia se mexido rápido o suficiente para parar o golpe, mas não o bastante para bloqueá-lo com uma de suas próprias armas, a única coisa que ficou entre Strange e a Godslayer foi o próprio corpo do jotun. Loki pendeu para o lado, sentia o gosto de sangue em sua boca por mais que a lamina tenha o atravessado lateralmente na região da barriga, a dor que aquela maldita arma causava definitivamente era algo que poderia ter morrido sem sentir outra vez, muito sangue estava se perdendo, ele e o mago não se incomodaram quando manto da levitação se prendeu no corpo do extraterrestre desta vez.

Nunca, nunca, mas nunca mesmo, Gamora pensou que aquele homem se arriscaria por alguém algum dia e isto fez com que seu corpo travasse. Peter envolveu seus ombros em um gesto de conforto, ele entendia agora que estavam manipulando as emoções dela, não a julgava de nenhuma forma. Stephen não aparentava o que realmente estava sentindo no momento, ele retirou a Godslayer do corpo do companheiro e se aproveitou do espaço que a multidão estava lhe dando para tira-lo dali, mas não antes de transferir a arma de volta para a sua verdadeira dona, ela precisaria dela mais do que ele. Depois que eles se afastaram o suficiente para que ninguém mais os visse o mago abriu passagem para a localização que Loki havia lhe mandado anteriormente por telepatia e desta forma ambos deixaram a Contraxia sem deixar para atrás nada além de um longo rastro de sangue.

(...)

Gamora havia escondido a joia do tempo em um caverna perdida entre o vão da realidade universal, não se sabe como foi que ela encontrou este lugar ou como soube da existência dele, normalmente só os mais experientes magos e deuses tinham acesso a algo assim, era em falhas como essa que escondiam seus tesouros mais preciosos, artefatos raros ou de grande valor emocional e até mesmo suas armas mais uteis para que pudessem invoca-los onde quer que estivessem sem correr o risco de outro individuo encontra-los, ninguém podia negar que com certeza era um ótimo local para colocar aquilo que não deve ser achado, afinal ninguém jamais chegaria até lá sem ter estado na mente da esverdeada para saber o que exatamente estavam procurando e considerando que não havia nenhum buraco de minhoca por ali não havia a probabilidade de alguém chegar no lugar por engano como aconteceu com Jane e a pedra da realidade tantos anos atrás, a joia sem sombra de dúvidas estava segura ali. Era uma pena que duas pessoas que utilizavam este mesmo recurso para fins pessoais estivessem reunindo as joias do infinito, um pena mesmo, talvez se não fossem estas pessoas em especifico na caça ao tesouro o feitiço que os levou até ali poderia ter dado errado e eles poderia ter chegado a um ambiente completamente fora de contexto. Não se pode dizer se foi sorte, habilidade ou um empurrãozinho na direção certa dado pela pedra do espaço onde quer que ela estivesse, o importante é que eles estavam frente a frente da relíquia tão cobiçada.

O manto da levitação se ajeitou cuidadosamente no chão, ele sentia de sua maneira receio sobre causar ainda mais dano ao seu antigo quase mestre. Stephen se abaixou para ficar na altura do deus, era difícil de aceitar que ele tenha se ferido por protege-lo de alguém que poderia tê-lo matado depois de seu descuido e continuava estranho para si ter certa preocupação com relação a aquele homem.

Não podendo, nem querendo, ficar parado enquanto o indivíduo que salvara a sua vida ainda sangrava o Doutor Estranho se aproximou do local da ferida e com toda a habilidade e calma que adquiriu em seus anos de medico rasgou as vestes da região ensanguentada, pronto para ajudar na recuperação do parceiro. Strange já não conseguia mais realizar cirurgias ou procedimentos antes tão simples para si sem o auxílio da magia, afinal os nervos de sua mão foram severamente danificados, porém mesmo com toda a sua disposição e experiencia ele não estava preparado para o que viu. A Godslayer atravessou Loki horizontalmente por pelo menos quinze centímetros, foi um ferimento grave que teria levado qualquer um dos deuses de Asgard a uma morte dolorosa e deveras rápida dependendo apenas de seu nível de poder, Stephen viu quando a lamina o atravessou, o tocou e por isso sabia que não foi uma ilusão, sentiu o sengue em suas mãos e foi ele a arrancar a espada do príncipe...

O mago agora compreendia a sensação de querer sufocar alguém até que ela morresse de fato, se sentia um tolo por ter se preocupado e poderia muito bem se levantar, pegar a joia do tempo e abandonar o outro ali, é talvez ele devesse mesmo fazer isso. Loki não estava ferido, pelo menos não mais, já havia usado a própria magia para se recuperar e possivelmente só se aproveitava da carona que recebeu para descansar. Quando o protetor da realidade arrancou o medalhão de seu pescoço o príncipe nem mesmo reagiu, apenas lhe sorriu preguiçoso sem forças para se mexer e ficou observando o companheiro caminhar com passos decididos até o pedestal com a pedra que desejavam.

O manto da levitação protestou se remexendo abaixo de si, incomodado por também ter sido iludido, mas não ganhou nenhuma atenção. Loki precisava de tempo para recuperar suas forças, ele obviamente tem reservas de magia em seu corpo, mas algo o fazia sentir que o melhor era guarda-las para o que estava por vir, seja lá o que fosse. O tempo naquela caverna parecia mortalmente mais devagar, se passaram alguns minutos deste Stephen se encaminhara ao tesouro, porém na visão do jotun ele ainda não havia saído do mesmo lugar de onde estava quando começou a sua jornada. Alguma coisa estava errada, os pelos de seu corpo se arrepiaram com a presença poderosa de uma criatura desconhecida, mesmo que não conseguisse vê-la, ouvi-la ou senti-la ele sabia que estava muito próxima, tanto que teve o instinto de encarar a costas do companheiro, algo tão primitivo que lhe dava a certeza de que a presença estava concentrada ali embora não fosse a verdadeira fonte daquele poder.

Loki não sabia quais eram as intenções da criatura, não a conhecia e por mais que seu corpo protestasse para se recuperar rapidamente e ir embora daquele lugar sem olhar para trás, seu subconsciente não a temia, quase como se já estivesse extremamente familiarizado com o que quer que fosse. Então, sem que fizesse muito sentido ou que lhe parecesse possível um nome veio em seus pensamentos.

- Tempus... - ele chamou em um sussurro fraco e quase surpreso, afinal se aquela era mesmo a consciência da pedra do tempo ela definitivamente não deveria estar se manifestando daquela forma. A presença da criatura se afastou de Strange e se encaminhou para o feiticeiro mentiroso, ele não podia notar, porém ela estava curiosa sobre o jotun.

"Loki, filho de Laufey e de Odin, não pensei que seria possível que você me percebesse desta forma." - a voz ecoada, antiga e extremamente calma soou como se estivesse dentro da cabeça do deus. - "Parece que não é tão influenciável como costumava pensar que fosse, fico imensamente feliz com isso. Está além das barreiras que impomos." - de fato havia certa alegria em seu tom.

- O que quer dizer com isso? - seus pensamentos continuavam lentos, não conseguia raciocinar direito.

"Só o que posso dizer com isso é que você provavelmente é a criatura mais verdadeira em toda essa situação."

A presença de Tempus desapareceu de repente, o tempo pareceu voltar ao seu normal e o deus sentiu sua magia retornar mais rápido do que deveria, seu corpo suava frio por conta do esforço em se recuperar do machucado, porém ele tinha consigo a sensação de que o curto dialogo que acabara de ter não passou de um repentino e alucinado sonho. Stephen caminhava normalmente em direção a pedra, não havia nada que o impedisse de alcança-la, ou se havia alguém já destruíra os empecilhos anteriormente.

Levantando como se nada tivesse acontecido Loki correu até o parceiro, não lhe parecia saudável que ele carregasse duas das pedras do infinito, nem justo, por isto e por querer que ele continuasse com a carranca em seu rosto o príncipe o ultrapassou no último segundo antes que ele pusesse as mãos no tesouro e envolveu a joia do tempo em suas próprias mãos. Deveria ter imaginado que ninguém deixa algo assim tão simples de se conquistar...

Loki sentiu o formigamento em suas mãos junto de uma crescente e insuportável dor e então sua visão embaçou, seu corpo pendeu para trás e ele soube que não havia nada a se fazer, mesmo que ainda conseguisse ver Strange reagindo ao seu lado era como se não pertencesse mais a aquele lugar. Ele não percebeu, mas estava desaparecendo, não daquela realidade, porém sim daquele tempo.

A última coisa que teve a impressão de ouvir foi a voz de Tempus dizendo "Mande meus cumprimentos a Alanes." seguido de seu próprio grito e então tudo se escureceu ao seu redor.

Quando voltou a conseguir abrir os olhos estava em Asgard.