No mesmo dia, alguns minutos antes de Shaka e Mu voltarem do Hospital de Atenas com Kiki...
Templo de Peixes, 09:30am.
Na cozinha aconchegante de paredes e móveis em tons de marfim, rosa e verde pastel, Afrodite andava descalço e nas pontas dos pés procurando fazer o mínimo de ruído possível, embora todo seu empenho se mostrasse infrutífero, já que ele nunca fora conhecido por sua extrema destreza na cozinha; Como agora, quando tentava peneirar toda a sorte de ingredientes que compunham o famigerado suco de luz, e a peneira de aço rose praticamente lhe saltara das mãos para ir saracotear dentro da cuba da pia, causando um estardalhaço que parecia ressoar pelas colunas e ecoar por toda a Casa de Peixes.
— SHIIIIII! — fez, espalmando a mão sobre o objeto inanimado para que ele parasse de quicar — Tô loca, heim! Jaburu de peneira! Quer acordar a Mosca? — murmurou para si mesmo, olhando em seguida para a porta atrás de si e soltando um suspiro aliviado. — A pobrezinha dormiu tão pouco... e deve estar com uma ressaca atacada. Ressaca alcóolica e moral!... Ah, Dadá!... Vai ser preciso mais do que café forte para espantar todo aquele vodu de cima dela. — balançou a cabeça com um gesto negativo e deu um suspiro longo e tristonho.
Eram tantos problemas acontecendo ao mesmo tempo com seus amigos mais próximos que a ele só restava lhes dar suporte.
E foi com a toda a habilidade que conseguiu reunir que Afrodite equilibrou na bandeja de vidro espelhado dois mini sanduiches de geleia de carne, alguns biscoitos de gengibre, uma maçã, café forte sem açúcar e o generoso copo de suco de luz, o qual vinha enfeitado por um canudo colorido com estampas de abelhas. No quarto, a depositou com cuidado sobre o criado-mudo ao lado da cama em que a amazona dormia profundamente entre os lençóis macios e travesseiros fofinhos. Perdeu-se por alguns curtos segundos velando o sono da amiga, e sentiu-se aliviado por finalmente ela parecer serena enquanto dormia. Julgava que sono deveria mesmo ser o melhor remédio para ela naquele difícil momento, e que só com a mente minimamente descansada é que ela seria capaz de ponderar com sabedoria sobre o ocorrido na noite anterior, já que, como bem a conhecia, ele sabia que ela não os deixaria passar em branco. Geisty tinha uma decisão difícil pela frente, e que cabia somente a ela.
Com outro suspiro cheio de pesar, Peixes passou os dedos sobre a franja grossa da amazona, penteando as madeixas negras como pôde, depois beijou delicadamente os fios arrepiados. Não satisfeito lambeu dois dedos e ajeitou com um pouco de saliva uma mecha mais revoltada.
— Pronto. Agora está digna — sussurrou, e enfim deixou o quarto com um sorriso fraco de satisfação.
Assim que Afrodite fechou a porta, fazendo o mínimo de ruído o possível, os olhos violetas atentos de Geisty se abriram e rapidamente correram pelo cômodo para verificar se estava a sós, então, ainda deitada, ela deu um riso contido, o qual segurou por todo o tempo em que Afrodite estivera ali. A amazona preferiu deixar que o amigo acreditasse que havia conseguido descansar, pois que não o queria preocupar mais do que já o havia feito, mas a verdade era que nem se quisesse conseguiria dormir pelos próximos dias. Sua cabeça estava a mil. Até mesmo durante a madrugada, depois da terceira vez que Peixes despertara assustado de um de seus cochilos e ela seguiu fingindo que dormia. Já bastava ela acordada; Queria que ao menos ele conseguisse descansar para enfrentar sozinho o dia exaustivo de trabalho no Templo das Bacantes, uma vez que sabia que Mu provavelmente também não desceria para o bordel. Sentiu os Cosmos dele e de Shaka agitados durante a madrugada, o que indicava que Kiki talvez não tivesse passado bem a noite, e depois, ainda quando o sol nem bem tinha tingindo o horizonte de dourado, os sentiu novamente deixando o Santuário e seguindo para Atenas. Desejou tanto ir atrás deles... mas tinha tão pouco de si para oferecer.
Determinada a colocar em prática o que havia decido durante a noite que passara em claro, Geisty se espreguiçou, sentou-se recostada na cabeceira da cama e puxou do criado-mudo do outro lado o aparelho telefônico, discando um número de celular que sabia de cor. Enquanto aguardava ser atendida passava os dedos de longas unhas pela franja que havia sido arrumada por Afrodite caprichosamente à base de saliva.
— Alô... Bom dia, Tito — falou firme assim que o interlocutor do outro lado atendeu.
— Bom dia, senhora. — respondeu do outro lado da linha aquele que havia sido um fiel servo a serviço do Templo de Baco em seus primeiros anos de funcionamento, mas que agora, devido à sua irrepreensível dedicação e competência, fora recompensado por Geisty, Afrodite e Mu com uma promoção. Agora ele era secretário da administração.
— Tito, você já está no bordel, não está?
— Sim senhora. Cheguei no horário de sempre.
— Ótimo... Tito, eu preciso de um serviço com urgência. E quando digo com urgência quero dizer imediatamente. — ela falou enquanto mexia nos quitutes deixados na bandeja e olhava com estranheza para o sanduiche de geleia de carne e para um papel dobrado deixado sobre o copo de suco de luz.
— Pois não?
— Quero que você redija para hoje, digo, para agora de manhã ainda, um ofício de solicitação de reintegração de posse de moradia no Santuário.
— Sim senhora. — ele respondeu já mexendo nos arquivos de seu computador — E para qual endereço?
— Vila das amazonas, casa número 04.
— Certo... E no nome de qual solicitante?
— No meu nome mesmo. — ela disse firme, e nessa hora percebeu que do outro lado da linha o som de teclas sendo pressionas havia cessado.
— No seu nome, senhora? — ele disse com certo espanto, depois, desconcertado, voltou a digitar — Eh... certo.
— Ouça bem, quero que entregue esse documento o mais rápido possível, Tito, e quero resposta ainda hoje, ao final do dia no máximo.
— Sim senhora, eu farei o possível, mas... como bem sabe, um requerimento como esse precisa ser assinado pelo Patriarca, e o prazo mínimo nesses casos é de uma semana.
— Sim eu sei, mas é por isso que você é meu secretário, Tito. Eu confio na sua competência, e sei que tem os seus contatos. Faça acontecer... Quer um conselho? Entregue pessoalmente nas mãos do assessor do Patriarca, o Gigars.
— O Gigars, mas... não compete a ele esse tipo de burocracia.
— Eu sei, mas com certeza compete a ele aumentar alguns zeros na conta bancária dele. Tem dinheiro na última gaveta da minha escrivaninha, uma boa quantia. Vá até lá e pegue, você tem a chave. Ofereça um agrado ao velhote para priorizar a minha requisição. Seja persuasivo, entendeu?
— Sim senhora. Pode deixar, vou fazer todo o possível.
— Ah, mais uma coisa, Tito.
— Pois não?
— Não participe ao Afrodite e nem ao Mu desse meu pedido, sim? Eles não devem saber de nada... ainda. Afrodite acabou de sair daqui e Mu talvez nem desça para escritório hoje, então vá até minha sala agora e pegue o dinheiro. Quando estiver com a documentação pronta me traga na Casa de Peixes para assinar. Entendeu? Na Casa de Peixes. Daqui você já sobe e leva o documento para o Gigars.
— Sim senhora.
— Por enquanto é só, Tito. Até mais. — disse Geisty deligando o telefone, depois rolou para o outro lado e finalmente apanhou a bandeja deixada ali.
Estava faminta. Deu uma mordida generosa no sanduiche de geleia estranha e fez uma careta. O gosto era tão inusitado que no desespero deu um gole apressado e farto no suco verde para se livrar daquela maçaroca em sua boca. O que foi muito pior. Colocou a língua para fora e numa careta contorceu todo o belo rosto.
— Argh... Cazzo! Esse suco de mato me mata! Que amargo! — rapidamente recorreu aos biscoitinhos que não fazia ideia do que eram, mas no desespero enfiou vários na boca e os mastigou com fúria para se livrar do gosto horrível — Ahhhh! Mas que merda de biscoito ruim do caralho! O que é isso? — cheirou enquanto olhava de perto o quitute — Argh... eu não acredito que você fez isso comigo, bicha... Biscoito de passarinho!
Geisty engoliu grosso os biscoitos mal mastigados e deu mais um gole generoso no suco fazendo careta, então enfim apanhou o papel branco dobrado e leu o que estava escrito nele.
"Mosca, Mu me ligou logo pela manhã. A festinha de aniversário do Kiki teve de ser cancelada Não se preocupe, eles estiveram no hospital e já voltaram. Kikizinho vai precisar fazer uma dieta especial e não poderá receber visitas com frequência, mas está bem... quer dizer, não bem, mas bem... Está em casa com o loirudo. Desci mais cedo para falar com o Mu, depois te conto o que houve. Amanhã vamos juntos visita-los, porque hoje quero que fique aí, em Peixes. As defesas da minha casa estão ativas e o Coiso possuído do Aqueronte não pode entrar sem a minha permissão. Tem ajeum* na geladeira, tem congelados e frutas. Coma. Não faz a lôca. Hoje o bordel está com pouquíssimas reservas, então eu volto para casa antes da meia noite.
Me espera."
A amazona dobrou o papel enquanto soltava um suspiro esgotado e se jogou para trás no colchão, apertando os olhos com as pontas dos dedos.
— Oh, minha deusa, nos dê forças! A vida não para de nos bater... — disse com a voz embargada numa súplica que carregava melancolia e raiva.
Templo do Grande Mestre, escritório de Gigars, 11:43am.
Trancados na sala, Gigars folheava o requerimento redigido por Tito enquanto este o aguardava sentado na cadeira à frente da escrivaninha.
— Você tem conhecimento de que um requerimento desse tipo leva dias para chegar às mãos do Patriarca, certo? — disse o velhote caolho.
— É claro que tenho, mas a minha chefe tem pressa, como eu lhe disse. — Tito respondeu.
— A amazona de Serpente está sempre apressada com seus pedidos em cima da hora... Humpf, arianos... Detesto esse maldito signo. — resmungou Gigars, e sua voz saia mais arranhada que a de um LP.
— A senhora Geisty de Serpente pode até ser apressada, mas mais do que apressada, ela é generosa! — disse Tito com um sorriso de desdém a se desenhar no rosto pálido, o que chamou a atenção imediata de Gigars.
— Generosa? — questionou o velho corcunda encarando o secretário com o único olho — De quanto estamos falando?
— De uma quantia proporcional à urgência do pedido.
O assessor do Patriarca fechou a pasta de arquivos, pousando sobre ela a mão menos trêmula.
— Sei... Creio que, infelizmente, temos outros documentos mais importantes na frente desse, e para que esse seja priorizado é preciso muitos anexos... se é que me entende.
Tito estreitou os olhos castanhos e pouco expressivos o encarando fixamente, então, num gesto ligeiro e um tanto destemperado se levantou da cadeira, meteu a mão dentro da bolsa à tiracolo de couro marrom que trazia consigo e dela retirou um envelope de correspondência simples, branco. Ao abri-lo folheou com os dedos algumas dezenas de notas de Dracmas, mas sem revelar a quantia por completo.
O som do dinheiro sendo contado fora afinado o suficiente para que o velho corcunda esticasse o pescoço para frente e arregalasse o único olho, curioso.
— Aqui estão os seus anexos. — disse Tito depois de fechar o envelope e jogá-lo sobre a escrivaninha. — Minha chefe quer a assinatura do Grande Mestre para hoje ainda.
— Mesmo assim... — disse Gigars, que sorrateiro já esticava a mão para apanhar o envelope — O que está me pedindo não é tão simples quanto parece, Tito. — abrindo o invólucro correu o olho para o conteúdo de notas e sua boca até salivou. O guardou na gaveta, trancou a chaves e voltou a olhar para o homem à sua frente — Mas acho que sei como agilizar o processo... O Patriarca tem muitas documentações para assinar ainda hoje pela manhã, e não tem tempo a perder lendo uma por uma, não é mesmo? Pode ser que esse documento esteja no meio dos outros... pode ser que ele não o perceba ali. — batendo contra o chão o cajado que estava encostado na mesa, ele se levantou da cadeira e concluiu enquanto enfiava o requerimento dentro da pasta: — Caso não tenha outras tarefas para concluir por agora, pode aguardar aqui, em minha sala, enquanto levo esta pasta para o Patriarca.
Tito deu uma risadinha e voltou a se sentar na cadeira, ajeitando a gola da camisa.
— Não tenho outras tarefas. Obrigado pela prestatividade, Gigars.
O assessor do Patriarca deixou a sala a passos mancos. Já sabia como fazer com que o Grande Mestre assinasse o documento sem questionar, o colocaria no meio da pilha de documentos pendentes de autorização para aquele dia, e como bem sabia que o Patriarca nos últimos dias andava desprovido até mesmo da pouca paciência que carregava, faria a ele um resumo breve de tudo que continha ali, omitindo a solicitação que Geisty enviara.
Casa de Peixes, 11:15pm.
Afrodite tinha quase certeza de que as escadarias das Doze Casas do Zodíaco nunca lhe pareceram tão longas, os degraus tão grandes e a subida tão fatigosa. No último lance as solas de borracha de seus tênis brancos de cano alto se arrastavam na pedra, e suas pernas pareciam pesar uma tonelada, cada uma. Também nunca lhe pareceu tão extenso e escuro o corredor de passagem da Casa de Virgem. Enquanto o cruzava, sob a permissão silenciosa do guardião daquele Templo, sentiu vontade de entrar na parte residencial e dar um abraço apertado em cada morador, inclusive no gato, e lhes dizer o quanto a dor deles também era a sua, mas na mesma hora em que olhou para o corredor que dava acesso aos aposentos internos desviou o olhar e seguiu em frente. Não queria ser o primeiro a dar a Shaka o tal olhar de julgamento e benevolência involuntária do qual Mu havia mencionado, ainda que sua compaixão e dor fossem legítimas de fato. Achou que não era hora de incomoda-los. Faria uma visita no dia seguinte, quando a poeira baixasse, e porque também tinha outra alma sofrida para dar atenção, lhe esperando em sua casa.
Felizmente durante aquele terrível dia, no início da noite havia conseguido dar uma escapadinha do Templo de Baco para ir jantar com Camus e Hyoga no Vênus, que estava ancorado a alguns quilômetros da praia de Lomvarda. Lá eles comeram juntos o bolo em formato de dinossauro que Shaka mandara para o pequeno russo, lamentaram juntos pelo cancelamento da festa, pelo estado de saúde de Kiki, e depois regressaram ao Santuário.
Agora, quando passou por Aquário, Afrodite disse a Camus, através do Cosmo, que ficaria em Peixes com a amazona, pois não a deixaria voltar para a Casa de Gêmeos até que ela resolvesse dar um basta naquela situação com o Patriarca, que já estava fora do controle dela há muito tempo, mas quando chegou a Peixes e abriu a porta de sua sala, eis que viu Geisty sentada no sofá de couro branco, usando um dos vestidos que compunham seu disfarce de Maman Di, e com uma de suas malas de viagem, a maior delas, a seu lado, encostada em seu joelho.
Curioso e surpreso, Afrodite caminhou com certa pressa até ela e colocando-se de pé à sua frente a olhou fixamente nos olhos.
— Para que a mala? Onde a senhora pensa que vai? — perguntou um tanto aflito.
— Oi bicha. Poxa, você demorou, heim — disse batendo no lado vago do sofá.
— Ah, o movimento está fraco, mas justamente hoje Karina, a Lagartixa malassombrada do Tejo e o Ronie inventaram de ter desarranjo. As maricona cacura* tudo acionaram a gerência, eu, para reclamar... Como também tô lôco do meu edi* hoje, mandei todo mundo dar linha*. O Touro chifrudo e o Máscara estão de folga, eu é que não ia ficar lá ouvindo reclamação de bicha velha charuf*. Ah, tá boa! Shura e Shina vão fechar a casa hoje. Para mim já deu.
— Cruzes! — ela disse com uma fisionomia de espanto, mas logo em seguida se levantou e assumindo um semblante de preocupação perguntou: — Me conta primeiro como está o Mu. O que aconteceu? Como está Kiki e Shaka?
Afrodite respirou fundo e deu de ombros. Não queria relatar todo o triste episódio daquela tarde com Mu em seu quarto no Templo das Bacantes, tampouco o que o levara a lhe pedir para que lhe cortasse os cabelos. Geisty já tinha tristezas em demasia para digerir naquela noite, e no dia seguinte ainda era o aniversário dela. Como havia proposto no bilhete deixado na bandeja, e justamente porque sabia que a amiga amazona detestava comemorar aniversário, posto que este tragicamente coincidia com o aniversário de morte dos filhos gêmeos, Peixes achou melhor coloca-la à par do novo surto de Shaka, também do transplante de medula de Kiki, da tristeza de Mu, no dia seguinte, quando fosse com ela visitar os amigos em Virgem.
— Eles estão bem, Mosca, só tristes pelo cancelamento da festinha — disse — Como te falei, amanhã a gente vai lá falar com eles. Isso se não for atrasar o seu voo para Bora Bora...
— Ah! — Geisty arregalou os olhos — Essa é a mala que você falou que comprou para quando for com o Batman para Bora Bora?
— A própria!... Vai me dizer onde a senhora vai de mala e cuia?
— Então, eu tenho novidades. — olhou por um curto momento para os olhos aquamarine do amigo, que eram um misto de medo e curiosidade, e sentiu seu coração aflito. Sua garganta parecia ter medo de verbalizar o que passou a noite anterior toda deliberando, e nem mesmo o passar arrastado daquele dia mergulhada em lágrimas, lapsos de racionalidade, ponderações e incertezas, pareceu ter lhe sido o suficiente para aceitar a decisão que tomara.
— Tô vendo! Que novidades? — Afrodite perguntou aflito, mesmo que em seu íntimo já soubesse a resposta.
— Eu vou embora do Templo de Gêmeos... Por isso a mala. Peguei emprestada, o vestido também. — ela disse com voz pesada e triste.
Afrodite arregalou os olhos e espalmou ambas as mãos no peito. Ficou assim por um momento, absorto, olhando fixamente para ela, até que sentiu medo, depois o tão esperado alívio, e então a inevitável tristeza. Essa, por sinal, veio de modo avassalador, arrastando consigo feito uma avalanche devastadora toda esperança que ainda tinha em ver a amiga amazona feliz ao lado de Saga, que voltaria para ela, para todos. Uma lágrima silenciosa e solitária saltou para fora de um seus olhos. Por um lado ele estava aliviado, afinal sempre temeu pela segurança dela, mas por outro...
— Mosca... — ele sussurrou com os lábios trêmulos, e sem conseguir dizer mais nada foi até ela e a abraçou com força. Ele sabia o quanto custava a ela aquela decisão. O quanto deveria estar doendo.
E como ela precisava daquele abraço!
Com a força que sempre tivera, e que mais do que nunca precisaria manter viva dentro de si ela abraçou o amigo de volta, e mergulhando o rosto na cabeleira azulada que exalava o perfume tão característico de rosas permitiu-se chorar, em silêncio, como uma última e dolorosa despedida de tudo que aceitara viver até aquele momento.
— Não dá mais, Afrodite. Eu tentei.
— Eu sei, eu sei... e como você tentou, Mosca! Ninguém suportaria tanto! — ele disse com a voz embargada, chorando copiosamente junto com ela.
— Eu fui até onde consegui suportar, mas esse é o meu limite. Fiz tudo o que pude por ele, até mais do que pude! Levei todos vocês junto comigo nessa missão que sempre foi em vão. E acredite... não é mais doloroso do que para mim mesma aceitar que é em vão continuar. — afastou minimamente do abraço apertado para encarar o pisciano.
— Dadá me perdoe, mas estou com tanto ódio dele, com tanto ódio. — ele disse, com os lábios trêmulos colados aos cabelos negros dela, até que de repente afastou-se para poder segurar me seu rosto e olhar em seus olhos — E se a gente lutar? E se, talvez, todos juntos, colocássemos ele contra a parede e... o atacássemos e o obrigássemos a ir embora? É sério! Lembra quando levei uma surra de cinta anos atrás do... de uns russos? Minha vida nunca mais foi a mesma, nem sou o mesmo. Então o Saga voltaria e...
— Não vai adiantar... só iriamos ferir o corpo, não a mente, não a alma...
— Mosca... isso é tão... triste! — respondeu em pleno desânimo.
— Sim... é... mas não tem outro jeito. Saga não vai voltar, e mesmo que ele voltasse agora, eu já não sei se eu... — ela interrompeu-se com um soluço, não tinha coragem de verbalizar aquele pensamento, então também segurou no rosto dele com ambas as mãos — Obrigada! Pelos deuses, obrigada por tudo que você fez por mim. Nunca vou conseguir agradecer o suficiente a você, ao Mu e ao Shaka pelo apoio e proteção que me deram até aqui, e eu tenho certeza de que se o Saga voltasse... ele também os agradeceria... Mas ele não vai voltar, então, eu os gradeço em nome dele também, e sigo adiante... Preciso seguir a minha vida sem a sombra dele, preciso aprender a viver sem esperar mais por ele. — enxugou o rosto exasperada tomando folego.
— Mas... para onde você vai? — ele perguntou com um suspiro convulso. — E assim, no meio da noite feito uma assombração?
— Eu vou voltar para minha antiga casa, na Vila das amazonas.
O rosto de Afrodite se contorceu e uma nova crise de choro sofrido se deu início. Era tão triste pensar que a amiga que ele tanto amava havia perdido tudo, amor, marido, os filhos, a ideia de um casamento perfeito e um futuro a dois ao lado do homem por quem sempre foi apaixonada desde a adolescência, agora voltaria ao local de início de sua vida, à estaca zero. Queria ter palavras para consola-la, mas não havia conforto para a dor que ela deveria estar sentindo, por isso, a abraçou novamente e partilhou com ela aquele momento tão terrível apenas ficando a seu lado. Sendo o ombro amigo que sempre fora, até o choro convulso de ambos se tornar um lamento quase inaudível, então eles se separaram e se olharam.
— Mosca, mas você não precisa ir agora. Pode ficar aqui. — ele disse.
— Não. Eu tenho que ir agora. Não quero perder esse impulso de coragem, mas antes vou passar em Gêmeos para pegar algumas coisas minhas que estão lá.
— Então eu vou com você. Não vou deixar você entrar naquela casa sozinha com aquela alma sebosa podendo aparecer a qualquer momento. — disse Peixes, já que sabia que Gêmeos não estava no Santuário, porém não queria arriscar.
— Não se preocupe que aquele estupor não vai voltar tão cedo... talvez nem volte hoje. Deve estar enfiado em algum bordel barato enchendo a cara e dormindo com uma dúzia de prostitutas. — ela disse sentida, imaginando que ele tivesse ido maturar a raiva e frustração bem longe dali — Ele assinou a minha solicitação de reintegração de posse, então está ciente de que eu estou me retirando... Ele também não fez nenhuma objeção... Eu acho até que ele saiu hoje para me dar espaço para ir embora de vez da vida dele.
— Atena... eu sinto tanto por você, e também por Saga, Mosca. — disse Afrodite aos prantos. — Acreditei tanto quanto você que ele voltaria... Seria tudo tão diferente... Ele te amava tanto...
— Eu sei. — Geisty acariciou o rosto do pisciano, ela também em lágrimas. Era inevitável não se lembrar do marido com extrema melancolia e saudades sufocantes — Saga ainda me é uma ferida recente e que talvez jamais vá cicatrizar, mas, como me foi ensinado no campo das amazonas, um guerreiro tem que reconhecer quando perdeu a batalha. E eu perdi... Não se preocupe comigo, eu não vou me demorar em Gêmeos. Vou ser rápida. São poucas coisas que tenho que pegar. Entro e saio rapidinho. E juro que devolvo logo a sua mala de Bora Bora e o vestido... — fez uma pausa e franziu as sobrancelhas — Alias, falando nisso... por que tem tantos vestidos e peças femininas no seu closet? E é tudo tão novo, alguns até com etiqueta ainda... Nunca te vejo usando roupa de mulher.
Afrodite piscou os olhos e beliscou nervoso o lábio inferior.
— Ora... porque... por quê?
— É, por quê?
— Ora... porque sim, porque... são bonitos... porque... porque eu compro... compro para você. — disse batendo duas palmas, e imediatamente em seguida se arrependeu, ficando com o rosto lívido e a boca seca.
— Para mim? — Geisty questionou enxugando o rosto molhado e fungando algumas vezes — Mas... como assim para mim? Nunca me deu nenhum, nem me mostrou.
— É porque... eu esqueci... eu compro tanta coisa que... eu compro e esqueço de te dar, mas agora estou te dando. Esse já é seu. Ficou ótimo em você, olha só que caimento! E eu acertei bem o tom da sua pele! — pegou na mão dela e a fazia girar em torno de si mesma balançando a saia curta e plissada. Aquele vestido tinha sido um presente de Hyoga para a "mãe", mas sabia que ele não iria se importar se dissesse que emprestou para a amiga. Mulheres tinham dessas, de emprestar roupas uma as outras, e Hyoga sabia bem desse costume feminino.
— Hum... é um pouco mais claro, né, que minha pele. — disse Geisty olhado para as mangas longas e fofas da peça em seda italiana num tom de rosa nude.
— Vai botar ovos no meu presente?
— Não! — ela sorriu. — Eu adorei o presente. Depois venho experimentar os outros. Vai descansar que você está um trapo de cansado. Está até com olheiras.
Despedindo-se dele com um beijo no rosto e um forte abraço, Geisty agarrou a mala, deixou a Casa de Peixes e iniciou a descida até Gêmeos.
Do alto da escadaria Afrodite ficou a observa-la até sua figura desaparecer entre as escadas e os rochedos, então chorou mais uma vez, pensando em todas as tristezas daquele dia, mas dessa vez não choraria sozinho. Tomou um banho quente e rápido, vestiu-se com um pijama de seda azul marinho de Camus, o qual ele havia deixado em Peixes em uma das noites que passara ali, colocou seus tamancos de salto e penas de pavão, trançou os cabelos, fez uma maquiagem levinha para encarnar Maman Di e ocultando totalmente seu Cosmo desceu para Aquário, onde passaria a noite ao lado de Camus e Hyoga.
Saber que Mu e Shaka estavam perdendo o filho, e Geisty o grande amor da vida dela, só fez Afrodite dar mais valor ainda a sua família. Agora passaria todo o tempo possível junto deles.
Casa de Gêmeos, 00:10am.
O som das rodinhas a deslizar pelo assoalho de mármore cessou assim que a amazona parou diante da porta do quarto dos filhos. Ela sempre evitou ao máximo entrar naquele cômodo que tantas recordações lhe trazia, pois que essas tinham o gosto agridoce da felicidade promissora tão sonhada, mas que fora afogada nas tragédias constantes de sua vida.
Sim, sua vida tinha se tornado uma tragédia crônica.
Porém, por mais que evitasse, naquela data ela sempre estava ali. Sempre. No dia em que as promessas de felicidade se despediram de sua vida junto com seus filhos.
A partir daquela hora ela completava vinte e nove anos de vida e seis longos anos carregando sozinha nos ombros a dor da perda irreparável de sua pequena e tão breve família. Naquela data, há seis anos atrás, ela estava prestes a perder os filhos e Saga para sempre.
Com um suspiro pesado Geisty girou a maçaneta e adentrou o quarto, direcionando um olhar amargo para a decoração intacta e imutável. Ali era como se o tempo nunca tivesse passado. Os móveis, roupas e brinquedos aguardavam eternamente pelas crianças que nunca viriam. Ali, nem mesmo o ar atrevia-se a mover, estancado pelas janelas trancadas e a cortina de voal branca imóvel.
Em silêncio ela seguiu até o guarda-roupa branco coberto por uma fina camada de pó e abriu uma das portas. Pegou dali a antiga caixa azul de presente enfeitada por uma fita branca de cetim. Não a abriu, pois que sabia o que havia dentro dela. Jamais se esquecera de sequer um detalhe, nem do bilhete carinhoso escrito à mão que estava no interior, do qual se recordava minuciosamente de cada sílaba. Levaria aquela caixa consigo e a guardaria como uma recordação triste de tudo que mais amou. Dos filhos gêmeos, aquilo era tudo o que levaria daquela casa que um dia chamou de lar.
Fechando a porta sem olhar para trás, Geisty seguiu em direção ao quarto que ocupava ali, e que era somente seu. Nem se deu ao trabalho de acender as luzes, já que a sutil penumbra que iluminava o local lhe era o suficiente. Jogou a mala sobre a cama e do lado dela deixou a caixa azul carinhosamente, depois foi direto ao closet e ali sim acendeu todas as luzes. Como um gigantesco globo de espelhos o ambiente todo se iluminou, irradiando claridade até para o quarto, produzindo um efeito prismático, pois que o closet de Geisty era imenso e todo espelhado. As luzes frias e potentes refletiam-se nos espelhos, e estes estavam por toda a parte, desde as gavetas, nas dezenas de prateleiras de sapatos, também nas portas de madeira dos armários e nas paredes, desde o rodapé até o teto. Este mesmo era inteiramente revestido por um enorme espelho de peça única.
Sem querer perder mais tempo do que já havia perdido naqueles últimos seis inúteis anos, ela começou a juntar algumas peças, com cabide e tudo, e em curtas viagens as colocava dentro da mala aberta sobre a cama. Pegou também alguns sapatos e joias, e em poucos minutos já havia pego quase tudo que fora buscar, mas de repente a porta do quarto se abriu com um forte solavanco chamando sua atenção na mesma hora, e quando ela inclinou-se para fora do closet, com os braços cheios de peças de roupas, só teve tempo de ver a figura nefasta e visivelmente perturbada de Gêmeos vindo apressado em sua direção.
Gêmeos viveu um verdadeiro inferno interno desde o momento em que Geisty fora levada de seu Templo por Afrodite na noite passada. Ele sentia ganas em subir até a Casa de Peixes a qualquer momento para tira-la à força de lá, porém o pouco de racionalidade que ainda lhe sobrara lhe dizia que essa não era a alternativa mais sábia a seguir, posto que Afrodite também tinha erguido as defesas de sua casa, e seria necessário confronta-lo em uma batalha de Mil Dias para derruba-las. Por isso, frustrado e extremamente contrariado ele passou a noite em claro, supervisionando as oscilações do Cosmo da amazona, até que, resignando-se de que não conseguiria aproximar-se mesmo dela enquanto estivesse sob a custódia do Cavaleiro de Peixes, seguiu para o Templo do Grande Mestre antes dos primeiros raios de sol despontarem no horizonte, afinal, havia muitas burocracias a dar conta ainda pela manhã, acordos de diplomacia, documentação a ser assinada, decisões e resoluções que só cabiam ao Patriarca.
Mas, além do cargo de regente maior do Santuário, Gêmeos também era chefe da emergente máfia grega, e outros problemas também urgiam por suas resoluções no escritório da sede da máfia no centro de Atenas, por isso após o almoço ele foi para lá muito a contragosto, mas sem deixar de monitorar o Cosmo da esposa nem por um segundo. E foi assim que ele sentiu, depois de um dia todo, e mais da metade da noite, enquanto bebia a sexta dose de Bourbom no cassino Filipino do centro de Atenas, o Cosmo de Geisty deixar a Casa de Peixes, rumar Monte zodiacal a baixo, e parar na Casa de Gêmeos.
Afoito, e decidido a botar em pratos limpos o ocorrido na noite anterior com a amazona, ele partiu em disparada, ou no máximo da potência que o motor de sua Mercedes Benz podia alcançar, para o Santuário. Havia passado o dia todo redigindo mentalmente um discurso de retórica impecável, até com contra argumentos cabíveis, segundo seu próprio e torpe julgamento, para tentar justificar sua atitude na noite anterior.
Mas tudo caiu por terra quando Gêmeos entrou no quarto e viu a mala rosa aberta sobre a cama, já abarrotada de roupas.
— Mas o que significa isso? — ele perguntou atônito. A adrenalina já em ebulição em suas veias.
Geisty porém não se intimidou. Trocando um rápido e firme olhar com o cavaleiro ela seguiu até a cama e jogou o novo monte de roupas dentro da mala.
— Eu estou indo embora desta casa, Gêmeos. — disse seca.
— Quê?! — a voz dele soou perplexa, como um sopro que escapa depois de uma dura punhalada nas costas.
— Você ouviu bem que eu sei, mas não me importo em repetir — ela virou-se de frente para ele e o encarou nos olhos — Eu estou indo embora da sua casa, Gêmeos... e também da sua vida, para sempre.
Dito isso Geisty seguiu novamente para o closet para apanhar outra leva de roupas.
O olhar firme e desafiador dela o irritou em demasia.
— Você não vai a lugar algum! — disse ele em voz alta e tom vigoroso, então, já mais refeito do choque inicial, seguiu a passos ligeiros até a mala na cama, pegou algumas das peças e as atirou no chão. Já repetia o processo quando Geisty veio correndo em sua direção.
— Pare com isso! — ela gritou lhe dando um empurrão — O que pensa que está fazendo?
— Você não vai sair dessa casa. Ouviu? Não vai sair dessa casa! Eu não te dou permissão para que saia! — Gêmeos praticamente berrava. Era visível seu abalo.
O coração de Geisty se acelerou ainda mais, e os pelos de seus braços arrepiaram-se de raiva.
— Eu não preciso da merda da sua permissão para porra nenhuma na minha vida, seu estupor! — gritou exasperada.
— SIM, VOCÊ PRECISA! — ele respondeu com um grito ainda mais potente — Eu sou o Grande Mestre, e eu sou o seu marido! Você deve obediência a mim, e eu digo que dessa casa você não sai sem a minha autorização.
— SAGA ERA MEU MARIDO! VOCÊ NÃO É NADA! — ela rebateu em fúria, com os olhos brilhantes e o rosto contorcido — Nem a ele eu devia coisa alguma, quanto muito a você, mas... não seja por isso. Se faz tanta questão assim de que eu só saia daqui sob sua autorização... — com um gesto afoito e cheio de pressa, Geisty mergulhou as mãos dentro da mala e do meio das roupas retirou a pasta que continha a autorização de reintegração de posse assinada por ele e a atirou com satisfação contra seu peito — TOMA!
Confuso ele agarrou a papelada sem desviar os olhos do rosto da amazona.
— Que merda é essa?
— É a sua autorização, Grande Mestre. — ela disse sílaba por sílaba, enquanto encarava os olhos jades furiosos dele nas escleróticas rubras como sangue vivo — Protocolada e assinada por você.
Um momento de silêncio absoluto se fez entre eles, onde apenas o arfar da respiração tensa do geminiano podia ser ouvida. No instante seguinte ele folheou furioso e incrédulo o documento, e se este não estivesse ali, nas suas mãos e com a sua assinatura, não seria capaz de acreditar no que lia.
— Mas como isso é possível? — fez um gesto franzindo as sobrancelhas severas e raspando a unha do indicador sobre a assinatura em tinta azul. — Isso é uma fraude!
— Não, não é. O documento é autêntico, e se era essa a sua condição, você autorizou a minha saída, Gêmeos. Assinou de próprio punho a minha alforria hoje, e vou fazer bom uso dela. Não fico nem um minuto a mais na sua vida.
— Sua ardilosa! VÍBORA! — ele gritou enquanto os músculos de seu rosto se contraíram. — Desgraçada, você me enganou! Você me fez assinar essa merda aqui... Como foi que você...
— Ah, me poupe, Gêmeos! — ela disse ao interrompe-lo — Não enganei ninguém. Se você, que se diz ser tão competente, magnífico e brilhante homem de negócios, e Grande Mestre, não leu um documento antes de assiná-lo, o problema é seu, não meu.
Gêmeos sentiu o rosto ferver e o couro cabeludo se arrepiar de raiva, então com ódio alucinado rangeu os dentes e rasgou o documento em vários pedaços.
— Sabe do que isso vale, Serpente? DE MERDA NENHUMA! Foda-se essa merda! — gritou atirando ao ar os pedaços de papel.
Geisty respirou fundo, agarrando-se a razão e mantendo a compostura como quem tenta cavalgar sem sela e areio.
— Pode rasgar. Óbvio que essa era uma cópia do documento original.
— Escuta aqui, sua desgraçada. — apontava o indicador em riste para o rosto dela enquanto arfava — Eu não suportei a sua presença indigesta e irritante nesta casa por seis porras de anos para nada, para no fim sair sem nenhum ganho.
— Ah, é? E o que você achou que ganharia, estupor? Ou melhor, você achou mesmo que ganharia algo de mim? Como você é ridículo... Ridículo, idiota e insano. E quer saber? Cansei desse bate boca. Cansei de você!
Dando as costas a ele, Geisty voltou ao closet para pegar mais algumas peças, porém Gêmeos a seguiu, ficando a um passo de entrar no cômodo espelhado junto dela.
— A porra da sua opinião sobre mim não me interessa. Você acha que me ofende? Está muito enganada. E também não me interessada o que você pretende fazer à merda da sua vida miserável.
— Ótimo! — ela disse enquanto separava alguns sapatos — Porque não era para interessar mesmo. De hoje em diante cada um segue sua vida, como, aliás, deveria ter sido desde o início... eu é que fui ingênua em pensar que poderia trazer o Saga de volta. Talvez ele nem queira mesmo voltar... — murmurou com certo pesar, porém em volume suficiente para que Gêmeos a ouvisse.
— Finalmente você disse algo sensato em anos. — disse ele erguendo as mãos para o ar e respirando fundo, queria retomar o controle de si — Saga não vai voltar. Não há nada mais para ele aqui, e ele sabe disso... Mas há para nós! Há para você e eu. Não seja tola, amazona. — disse em tom ameno.
Geisty olhou para ele, chocada.
— Como é?
— Juntos você e eu seremos imbatíveis! — os olhos dele faiscaram — Você só precisa deixar de bancar a intransigente e confiar em mim.
— Confiar em você? — ela deu uma gargalhada debochada — Mas além de burra eu teria que ser louca! — disse com sarcasmo.
O Patriarca novamente se enfureceu. Argumentar com ela se mostrava em vão.
— Você vai fazer o que eu quero, na hora que eu quero... Vai seguir os planos que tracei para nós dois e para o futuro do Santuário porque estou mandando! Nós teremos juntos nossos herdeiros, e eles serão os futuros líderes da mais alta hierarquia dos exércitos de Santos! Nós vamos construir um legado de guerreiros ainda mais poderosos que os filhos de Ares! — vociferou entre gestos eloquentes.
— Vá se foder bem longe de mim, você junto com teus herdeiros e o teu plano insano, Gêmeos. — Geisty deu um passo à frente jogando no chão os sapatos para apontar o punho em riste para ele — Você... você é absurdo! Você acha que eu sou o quê? Uma fêmea reprodutora? Uma égua? Uma égua parideira, para o garanhão aí montar e procriar? Ah, vá para a puta que te pariu! Se quer tanto assim uma prole, então a tenha com as vadias baratas que você busca na podridão do submundo dos bordeis russos que você frequenta... Melhor ainda! Copule com uma cadela sarnenta de rua, combina muito mais com você, seu imundo!
O Grande Mestre deu uma gargalhada longa e alta, de puro escárnio.
— Você é mesmo uma imbecil, Serpente. — balançou a cabeça em negação, depois começou a desabotoar os primeiros botões da gola da camisa branca que usava para poder afrouxar o nó da gravata — Sabe que eu muitas vezes questionei sua capacidade intelectual e até me perguntei como foi que Saga pôde se interessar por uma mulher como você, que pensa tão pequeno... Não é possível que uma boceta seja assim tão gostosa para compensar tamanha burrice. — livrou-se de vez da gravata a jogando no chão carpetado.
— Seu... porco... — Geisty sussurrou olhando para ele com uma expressão de puro nojo.
— Geisty, minha cara e burra Geisty, olhe para mim... Francamente!... Você acha que eu, o Patriarca desse Santuário, o Cavaleiro de Ouro de Gêmeos, um homem capaz de destruir galáxias inteiras com um simples estalar de dedos, praticamente um deus vivo na Terra, iria misturar o meu sangue ao de uma vagabunda civil qualquer? Vagabunda por vagabunda eu tenho você, que além de estar acessível é uma amazona poderosa e pode me dar uma prole forte e verdadeiramente digna de carregar o meu sangue e o meu Cosmo.
Geisty sentiu ganas em esganá-lo, chegou a caminhar até ele, mas deteve seus passos a menos de um metro de seu intuito.
— NÃO, Gêmeos, você não me tem porra nenhuma, sequer chegou perto disso nesses seis anos. Seus delírios chegam a ser cômicos de tão patéticos. — uma raiva inveterada apossou-se dela, a fez contrair as mandíbulas e encara-lo nos olhos feito um animal raivoso prestes a atacar — Se era esse o seu grande, e já dado como certo, plano, isso só mostra o quanto você é amador e megalômano. Acha o que? Que as pessoas não têm vontade própria? Que existem apenas pare te servir? ILUDIDO! — berrou a última palavra a plenos pulmões — Você de fato se considera onipotente? Pois eu te digo que não é! Não é! Mesmo você sendo um cavaleiro de Ouro, ainda existem outros oito dentro deste Santuário, e eles não te seguem, eles apenas te toleram, e só não se rebelaram contra você ainda por consideração ao que Saga representava para eles, e porque eu pedi uma chance de tentar trazê-lo de volta... Só que, Gêmeos, nós dois sabemos que Saga não vai voltar...
— Exato! Ele não vai voltar. — rosnou o Patriarca enfurecido — E eu estou pouco me lixando para esses imbecis. Eu vou construir eu próprio um exército!
— Se eu fosse você me importaria sim, porque eu saindo daqui hoje significa que desisti de lutar por Saga, e se eu desisti, não há mais nada no caminho deles, nada que os impeça de massacrarem você como o inseto sujo e insignificante que é.
Sem que Geisty esperasse Gêmeos avançou em sua direção, e com um gesto rude e brusco a pegou pelo braço.
— Você não vai sair daqui, sua cadela maldita, eu já disse! — a voz dele era gutural e ameaçadora, e ele falava tão perto do rosto dela que ela podia sentir seu hálito azedo de whisky.
— Não ouse me tocar! Solte meu braço, Gêmeos. — vociferou Geisty encarando ele nos olhos, e vendo que ele ignorou seu pedido lhe deu um empurrão com toda força, que serviu apenas para que ele se enfurecesse mais e a trouxesse para mais perto, colando seu corpo ao dela e a mantendo presa com um abraço forte.
— Não se faça de difícil. Eu sei exatamente como você é, Geisty... — Gêmeos roçou os lábios na lateral do rosto dela enquanto com uma das mãos agarrou firme seus cabelos negros rente a nuca, pois assim a obrigava a olhar em seus olhos enquanto sorria-lhe desdenhoso — Eu sei que você resiste porque é orgulhosa, é durona, quer passar a imagem da dedicada e fiel esposa do Saga... mas comigo você não precisa encenar esse papel. Comigo você pode ser você mesma.
Para completa surpresa, pânico e indignação da amazona, que já não bastava ter ouvido aquelas palavras, o Patriarca correu a língua úmida por sua bochecha, por fim forçando um beijo. No mesmo instante ela acendeu seu Cosmo e com um safanão em sincronia perfeita com uma pisada certeira no pé dele, se livrou dos braços que a prendiam e da boca que lhe dava asco.
— SEU PORCO MALDITO! — ela gritou passando a palma da mão nos lábios, enquanto recuava afastando-se dele, indo para os fundos do closet. — NUNCA MAIS TOQUE EM MIM! SAIA DAQUI! VOCÊ É LOUCO! LOUCO!
— E VOCÊ É UMA FARSA! — ele gritou enfurecido — É uma piranha que se faz de pudica! Você se deitava com patife do Kanon, e mesmo ele sendo o canalha que era, ele era bom para você, não é? Se deitava com o imbecil traíra do Milo bem debaixo do nariz do Saga, e com o próprio frouxo do Saga, mas comigo é essa frescura? Com quem você pensa que está lidando?
— Com um pulha imundo... — ela cuspia as palavras com ódio. Seus olhos estavam marejados e seu corpo todo tremia — Saga só não me impediu de ficar com o Kanon para me proteger de algo muito pior que ele, você!... Esteja certo de que se não fosse por você existir, Saga jamais teria permitido que eu continuasse com o Kanon... E quanto ao Milo... você me vendeu a ele. Você! Em todas as vezes foi você.
— E pelo tempo que ficavam no quarto e o barulho que faziam, você deveria me agradecer, não é? Sua cretina safada. Você gostava de dar para ele. Rameira fingida. — gritava a plenos pulmões.
Geisty sentiu-se ofendida como nunca, mas não lhe daria o gosto de saber disso.
— Sim, eu gostei! Você está certo, Gêmeos, eu gostei sim, gostei muito! — ela o enfrentava de queixo erguido — E sabe por quê?
— Cala sua boca, Serpente. Já chega dessa merda! — ele disse num rosnado contido. Milo sempre fora seu ponto fraco.
— Porque, diferente de você, Milo era um bom amante. Milo sabia como tratar uma mulher, como seduzir e fazê-la se sentir especial. Milo podia ter todos os defeitos do mundo, mas era um amante espetacular, como nenhum outro! Escorpião... o signo mais sedutor, quente, fogoso... e sabe o que mais? Milo nunca precisou me forçar a me deitar com ele. Todas as vezes que você me vendeu a ele, Milo nunca me obrigou a nada. Eu transei com ele porque eu quis, e na hora que ele me pegava em seus braços, eu já estava louca de tesão. Ao contrário de você, que é desprovido desse talento... Você, Gêmeos, me estuprou! — Geisty cuspiu a verdade amarga na cara do grego.
— EU TE MANDEI CALAR A PORRA DA BOCA!
— Eu nunca vou me esquecer do que fez comigo anos atrás, quando me trouxe para a Grécia, me deixou à mingua no Cabo Sunion e depois me manteve em cativeiro num quarto de bordel. Eu nunca vou me esquecer de quem realmente me machucou e me usou naquele dia. Porque nunca me esqueci desse teu cheiro enjoado, e do seu suor pegajoso na minha pele... do hálito azedo de absinto... a ânsia que eu senti quando me tocou... e do asco que senti de mim mesma depois... — ela sentia o estômago revirar com a lembrança. Reviver aquelas memórias que por anos fez questão de manter adormecidas no mais profundo de sua mente lhe era deveras terrível. Sentia os pés e as mãos formigarem, e seu rosto tinha uma lividez de morte — Era você naquele dia... Nunca tive uma ponta de dúvida sequer. Eu sempre soube que naquele dia, naquele quarto, não era o meu Saga... Fiz questão de nunca esquecer desse teu cheiro nojento, e desde então eu jurei a mim mesma que se um dia você me tocasse de novou eu o mataria, ou eu me mataria, porque eu jamais deixarei aquele dia se repetir. Seu abutre falso, CANALHA! — com o grito Geisty elevou seu Cosmo.
— Isso é uma ameaça? É isso que está pensando em fazer agora? Me matar? Se matar? — ele riu desdenhando dela — Não seja ridícula, mulher.
— O que acha que aconteceria se eu me matasse, Gêmeos? Você pode não saber, ou se negar a aceitar, mas eu sei...
— Suprima já o seu Cosmo, isso é uma ordem! — ele urrou ensandecido.
— Você iria definhar, aos poucos, porque você não existe sem o Saga... Ainda que o mantenha enclausurado em sua mente, ainda que ele tenha decidido nunca mais voltar... Você é só um parasita, precisa dele para existir.
— Eu não vou falar uma terceira vez, amazona. Suprima seu Cosmo agora. — avançou um passo em direção a ela com o indicador em riste, parando na porta de entrada do closet.
— Você vai passar o resto da sua miserável vida amargurando esse fato, Gêmeos. — ela gritava, enquanto seu Cosmo se elevava rapidamente a níveis inimagináveis. Seus cabelos negros esvoaçavam como manipulados por uma intensa ventania, e seus olhos violetas faiscavam um brilho púrpura. Nas mãos, as garras já estavam distendidas, e conforme ele avançou ela recuou, mantendo-se em posição de ataque — Assim como vai passar o resto da vida tendo que aceitar que eu posso querer me deitar com o canalha do Kanon, com o imbecil do Milo e com o frouxo do Saga, mas jamais com você.
— SUA VAGABUNDA DESGRAÇADA! — Gêmeos gritou cuspindo saliva, enlouquecido de raiva, e seu nítido destempero trouxe pânico aos olhos de Geisty.
— GARRAS DO INFERNO!
A amazona atacou. Movida por um terror que de repente a dominou por completo, mas o golpe potente dela nem chegou a atingir Gêmeos, pois que ele, em um reflexo tão rápido quanto um piscar de olhos, acendeu seu Cosmo e o repeliu com facilidade usando apenas uma das mãos.
No entanto, eles estavam em um cômodo todo revestido por espelhos...
Gêmeos repeliu o golpe de Geisty contra ela mesma.
A intenção dele não era iniciar uma luta corporal com ela, nunca fora, por isso ele não contra-atacou, mas seu Cosmo poderoso de Cavaleiro de Ouro arremessou a amazona com toda força contra a parede espelhada dos fundos do closet, e o choque do corpo dela contra o espelho, somado à pressão das Cosmo energias em explosão naquele ambiente fechado, fizeram todos os outros espelhos estourarem ao mesmo tempo criando uma tormenta feroz de cacos de vidro afiados, que inevitavelmente encontraram o corpo de Geisty em seu caminho.
O que ocorreu a seguir se deu tão rápido quanto um susto provocado por uma cena de filme de terror pouco verídica, porém impossível de ser evitada, e bem diante dos olhos de Gêmeos, que viam, atônitos, Geisty cair no chão de bruços enquanto seu corpo era todo perfurado por estilhaços afiados de espelho. O sangue já brotava abundante dos cortes abertos e tingia de vermelho a seda rose do vestido, também o carpete marfim e a pele bronzeada.
— GEISTY! — Gêmeos gritou em desespero. A expressão maligna que sempre dominava sua fisionomia se desfez imediatamente, e ele tinha o rosto lívido pelo choque e pelo pânico.
Alarmado ele tencionou correr até ela para dentro do closet, mas parou assim que a viu levantar um dos braços e com a palma da mão aberta lhe fazer um gesto para que não se aproximasse.
— NÃO CHEGA PERTO DE MIM... SAIA GÊMEOS! SAIA! — ela gritou. Sua voz estava rouca, plena de terror, e não era alta, mas o tom tinha autoridade o suficiente para fazê-lo parar de avançar e obedecer. Porém, o horror que ela vivia ali, somando ao medo de ser agredida, ou mesmo violentada, a faziam vencer a dor dos ferimentos e lutar para fugir dali, fugir da presença daquele homem, mas tudo que ela conseguia era ferir-se ainda mais, pois que a cada nova tentativa de levantar-se ela patinava com os joelhos e as mãos em meio à poça de sangue que se formava embaixo dela, e mais fragmentos de espelhos se cravavam em sua carne. — SOCORRO! SOCORROOO!
Desesperada ela gritou, e nesse instante Gêmeos voltou a avançar, aflito por ajuda-la, mas eis que de repente, a poucos passos de chegar a ela, como um enviado dos céus surgiu ali à sua frente o Cavaleiro de Áries, e este, embora estivesse em trajes nada convencionais, de chinelos, samba canção, vestido com uma camiseta de pijama que estava toda suja de vômito, e segurando nas mãos um pano de chão também todo sujo, o encarou com tanta autoridade e ódio visceral que o grego estancou onde estava. Nem mesmo a fisionomia terrivelmente esgotada dele, o rosto abatido e os cabelos muito mais curtos lhe chamaram mais a atenção imediata que sua presença forte e opressora.
No momento em que Mu sentiu o chamado de socorro de Geisty, segundos após o Cosmo dela lhe dar o alarme, ele largou tudo o que fazia em Virgem e foi socorre-la, mas nada o tinha preparado para ver a cena que encontraria ali, que era digna dos catálogos de crimes bárbaros dos anais da polícia investigativa. A visão terrível da amiga no chão aos prantos, desesperada e toda ensanguentada, o closet completamente destruído e Gêmeos de pé diante dela, fora mais do que suficiente para fazer o sangue do lemuriano entrar em ebulição dentro de suas veias e seu Cosmo explodir em fúria.
— M-Mu!... — Geisty murmurou entre lágrimas de pavor e de dor, mas também tinha o alívio em vê-lo ali. Angustiada e aflita ela estendeu a mão ensanguentada e cravejada de pedaços de vidros para ele, ansiando por ajuda, mas Mu nem ousou toca-la, ou a machucaria ainda mais.
O Santo de Áries rangeu os dentes e sentiu o coração acelerar ainda mais ao se dar conta da situação, então lançou um olhar tão intenso e furioso ao Cavaleiro de Gêmeos que este sentiu como se seu próprio corpo tivesse sido paralisado, a respiração suspensa, e até o raciocínio freado. A ira fulminante dos olhos verde esmeralda parecia ter caído sobre ele como uma maldição terrível, e ele só sentiu que foi capaz de voltar a respirar e se mexer quando Mu, juntamente com Geisty, desapareceram diante de seus olhos como num passe de mágica, tão abruptamente quanto o ariano tinha surgido ali.
Dicionário Afroditesco
Ajeum - comida
Cacura – gay idoso
Charuf – sujeito mal educado, grosseiro, canalha, fedido, tudo de ruim
Dar linha – mandar embora com grosseria
Tô lôco do meu edi – estou sem paciência para isso, nem tolêrancia
