Os dias seguiram lentamente como se pouco se importassem com os sentimentos dos outros. Snape, após se despedir de Draco e manda-lo para a casa de Sirius, passou um período de tempo vagando por diversos locais. Se sentia perdido, vazio, completamente angustiado, sem esperança, não sabia ao certo o que fazer... quando era chamado, ia para a mansão Malfoy prestar contas a Voldemort e retornava ao seu autoexílio. Com isso, julho já estava na metade trazendo consigo mortes, sequestros, torturas, desaparecimentos, acidentes inexplicáveis que eram noticiados a todo o momento... o bruxo de cabelos pretos e olhos de ônix, voltara a usar sua melhor máscara de Comensal da Morte. Com o assassinato de Dumbledore, se tornara o braço esquerdo de Voldemort, o estrategista das novas ofensivas contra os trouxas e, principalmente, o general responsável por chefiar os horrores causados aos moradores dos vilarejos e cidades que eram invadidos. Vendo que não havia lugar em que pudesse se esconder, voltou para Hogwarts e se enterrou nas suas masmorras. De alguma estranha maneira, se sentia seguro ali e encontrava a paz que necessitava, naquele instante em que sua vida estava soterrada pelo caos.
Foi com esse estado de espírito que não respondeu às inúmeras corujas recebidas com cartas de Narcissa perguntando onde ele estava, se poderia visita-lo... contando como estavam as coisas, comentando o quanto estava feliz com o nascimento do neto Scorpius, e, principalmente, dando notícias de Hermione. Cada vez que lembrava da sua castanha, seu coração se apertava tanto que doía. Não sentia apenas saudades dela, porque era uma angústia contínua, um sofrimento sem fim ter que ficar longe de quem mais amava. Estava convencido de que ela merecia alguém melhor, um homem que não fosse tão marcado, era digna de possuir tudo aquilo que ele não representava. Às vezes, ouvia a voz dela tentando conversar pelo Elo, sentindo a aflição e a tristeza que reverberava naquelas palavras. Não suportando mais, um dia, Snape decidiu responder, enquanto vagava por entre as árvores que circundavam à Floresta Negra.
- Onde você está, Severus? – a voz dela ecoava na sua mente.
- Não posso responder... mas, estou bem... saiba que quando fecho os olhos é sempre você que eu vejo, minha linda rainha – ao responder seus olhos encheram de lágrimas e se sentou em um tronco caído, próximo de onde se encontrava.
- Eu também... queria que estivesse aqui comigo. Gostaria tanto de te abraçar agora, de ouvir a sua voz e sentir o teu cheiro. Não sabia que era possível amar tanto e com tanta força alguém... mesmo tendo um pouco de você crescendo dentro de mim, preciso da sua presença ao meu lado. Sevie, por favor, venha para casa!
- Não faz ideia do quanto eu gostaria de te ver com a barriga aumentando, acompanhar cada segundo em que o nosso pedacinho está se formando aí dentro... no entanto, não é seguro... estão esperando a chance de atacar cada um de vocês. Não posso te colocar em risco.
- Sevie...
- Diga, Hermis... como é interessante saber que, até por pensamento, consigo perceber as ondulações da sua voz curiosa e tenho até medo de que você sucumba caso não possa fazer um simples questionamento – sorriu ao responder isso e perceber a irritação dela irradiando na sua mente.
- Ora, pare com isso! Você não é tão bastardo assim e sei que não gosta de me tratar mal... grosso!
- Quem disse que eu estou te tratando mal? Estou sendo absolutamente um cavalheiro soterrado na bosta da gentileza e das convenções sociais, mulher de pouca fé.
- Como eu posso aguentar um homem tão rabugento?!
- Hm... deixe-me ver... tenho algumas teorias... é possível que você o ame e ele não viva sem ouvir o som da sua voz. Provavelmente esse homem a trata como uma rainha e se coloca como seu escravo, mesmo sabendo que os anos a mais de experiência e de vida lhe oportunizem virar esse jogo e dominar a situação. Pode ser que ele conheça as profundezas da sua alma, os seus desejos mais inconfessáveis e esteja disposto a realiza-los, custe o que custar. Creio também que, embora seja soturno, esquisito e cruel... você seja a única no mundo que consegue despertar o que há de melhor nele, por ser suficientemente doce, inteligente e capaz de matar o monstro que vive em seu coração ou de desvendar os segredos que ele guarda.
- E quais são eles?
- O mais óbvio é de que morreria e mataria por você. O que prefiro não admitir é que... Hermione, eu acho que seria capaz de abrir mão de viver ao seu lado... mesmo que isso fosse o decreto da minha própria destruição, se tivesse certeza de que estaria feliz e segura.
- Jamais seria feliz longe de você, Severus... não imagino como seria a minha vida sem ver os sorrisos que dá... mesmo quando é a contragosto... ou o brilho dos teus olhos quando acontece algo capaz de proporcionar pequenas frações de felicidade. Eu quero cuidar de você todos os dias, mostrar o quanto é amado e que sempre foi o único. Antes, tinha certeza de que o meu amor por você começara quando o vi no dia da seleção das casas... mas, acho que não, porque parecia tão certo ficar contigo sem saber nem quem era. Vidinha, quando o vi sentando naquela mesa, todo de preto com um olhar vazio e tão triste, foi como se tudo fizesse sentido. Pela primeira vez, senti os meus pés tocando o solo, me vi parte da Terra... todos os sonhos estavam diante de mim e o amor podia, finalmente, ser tocado. Pode ser que eu tenha te amado quando me protegeu, há tantos momentos em que amei você com tanta força, com tanta intensidade... que é como se o ar me faltasse.
- Com 3 anos, uma pessoa não pode amar outra... ainda mais um adulto... não desse jeito. No máximo, você pode ter se encantado porque eu a ajudei. Com 11 anos, talvez... aos 14, certamente, porque a salvei de um lobisomem, que agora, a propósito, é seu concunhado... o que comprova o quão estranha e disfuncional é a nossa família! Retomando o seu ponto, não duvido que você me ame... até me ama muito mais do que eu mereço e sou grato por ser a única que me deu uma chance. Há tanto amor em você, que me contamina e me vicia. Você me desafia, me atiça, joga um verdadeiro xadrez de palavras e gestos comigo. Sei muito bem quando me apaixonei por você... eu tinha 17 anos e você apareceu do nada na minha frente, caída no chão com um olhar perdido. Depois entrou na Sonserina, dominou todos os meus sonhos e, ainda, ousou me defender dos valentões da escola e de uma falsa amiga quase partindo para uma agressão física. Sinceramente, até hoje eu penso que o Black deve ter medo de você azará-lo por minha causa... – o som dos risos ecoava na mente dos dois.
- Como você já estava na escola aquele dia?
- Eu não tinha mais ninguém... passei uma semana, antes do final das férias, na casa da Andrômeda, aproveitando que o Black estava na casa do Potter. Então, enviei uma carta a Dumbledore, perguntando se poderia chegar mais cedo, pois não pegaria o Expresso e recebi uma resposta positiva, dizendo que não via problemas se eu tivesse como carregar as minhas bagagens sozinho. Como o Ted me auxiliaria, eu cheguei um pouco depois do almoço e estava caminhando quando você surgiu. Contudo, estou curioso... não vai se defender das verdades que eu acabei de jogar na sua cara, minha boneca brava?
- Ora, não é para tanto, Severus... não ia bater em quem quer que seja.
- Oh, sim... como não? Chamou a Lillian de sonsa e falsa amiga, mas não pensava em bater em alguém... sei... eu que o diga! Pensa que me esqueci dos tapas que levei por ter te tirado do corredor?!
- Você ainda lembra disso?
- Claro que sim! Foi divertidíssima a confusão que você arrumou... em pouco tempo, até a Bellatrix se meteu e aproveitou para xingar a Lilly também... sinceramente, nessa parte, tudo ficou confuso, porque não lembro quem a chamou de vadia e cadela ruiva. Quando eu saí te arrastando de lá, creio que ela e a Bella já tinham se engalfinhado. No entanto, o que tenho absoluta certeza é de que nunca vi alguém liberar uma metralhadora de xingamentos que destruísse cinco pessoas simultaneamente... é o que eu chamo de um linguajar catedrático excelente. Admito que nem nos meus melhores momentos consegui esse grau de primazia.
FLASHBACK ON
A aula de Transfiguração corria tranquilamente com os alunos tentando executar o feitiço de transfiguração transubstancial Jorrus, que removia substancias tóxicas ou não desejadas de um líquido, o deixando puro. Hermione e Severus estavam em uma disputa silenciosa sobre quem conseguiria executar primeiro e, no fim, riram quando observaram ter feito ao mesmo tempo. Discretamente, ele segurou a mão dela, apertando um pouco para demonstrar o quanto estava orgulhoso daquilo. Estava extremamente feliz por ter encontrado uma mulher capaz de desafiá-lo a sempre ser o melhor em tudo. Por isso, ainda não conseguia acreditar como uma pessoa tão fantástica tinha se interessado por ele. Ao perceber que os dois já haviam encerrado a tarefa, Mcgonagall se dirigiu até eles e avaliou os trabalhos, dando 20 pontos para a Sonserina pela perfeição nas execuções. Para que não ficassem sem ter o que fazer nos próximos minutos da aula, mandou que tentassem executar o Emennare, transformando um líquido em outro. Assim, permaneceram concentrados até o final da aula.
Logo que se encerrara o período, arrumaram os seus materiais e saíram da sala conversando animadamente, com Severus segurando a mochila de Hermione para que ela não tivesse que carregar peso e estivesse com as mãos livres para carregar o livro que pegara emprestado com a professora. Foi então que, ele, misteriosamente, tropeçou nas próprias pernas caindo de mal jeito no chão e as risadas começaram a ecoar pelo corredor. Aquilo a enfureceu terminantemente, porque ela sabia quem e por qual motivo lançaram contra ele o Desequilibrum, principalmente, quando o viu se erguendo completamente envergonhado por ter sido atingido na frente dela.
Ao se virar, viu três dos quatro Marotos rindo às gargalhadas, Remus mais atrás olhando com uma cara de desgosto e Lillian dando um pequeno sorriso, enquanto abraçava o namorado. Essa cena bastou para que a castanha ficasse cega de ódio e partisse em direção a eles.
- Olha aqui seus cretinos! Quem vocês pensam que são para fazer isso com ele? – esbravejou.
- Ah, cala a boca, Geavet... vai defender o Ranhoso? Já conheceu as partes mais encardidas dele para estar tão revoltada? – perguntou James piscando para os amigos que seguiam debochando.
- É mais fácil a songa-monga que estar ao seu lado ter conhecido melhor do que eu, já que ela é do tipo que se vende por dinheiro ou benefícios. Essa sonsa, falsa amiga, cínica, estúpida, interesseira... e você, seu babaca, é só um covarde, convencido de merda, um porco bastardo que precisa humilhar ou outros para ter um pouco de autoestima! – disse apontando o dedo para ele.
- Porque você não arruma esse cabelo antes de gritar com os outros, sua escabelada doida? – respondeu Lillian tão vermelha quando os cabelos.
- Arrumo os meus cabelos quando você tomar vergonha na cara, otária! Mas isso vai ser difícil... porque caráter a pessoa tem ou não! No seu caso, não passa de uma pulha completamente desprezível. Isso serve para esse cachorro estúpido, patife e bobalhão, que precisa de um exército para defende-lo, por ser um malandro miserável que não sabe se defender sozinho – a castanha retorquiu bufando.
- Quem você pensa que é para falar assim comigo? – falou Sirius nervoso.
- Quem sou eu? Alguém que tem mais coragem do que você, seu demente, canalha, ridículo de bosta! Banca o conquistador, mas fica se arrastando atrás de uma mulher... ou pensa que não reparei em como você se humilha pela Bella, seu traste medíocre – estava furiosa e prosseguiu ficando cada vez mais colérica:
- Mas pior do que vocês três, que são uns sacos de estrume supervalorizados... é esse rato imundo que não vai pensar duas vezes na hora de trair os amiguinhos e se agarrar em quem ele julga mais forte. Ou vocês pensam que o Pettigrew está aí pois são muito maravilhosos e admiráveis? Vocês são panacas, metidos a valentões, com os cérebros cheio de vento e esterco, são petulantes e se julgam melhores do que todos, pois sempre aparece alguém para passar a mão na cabeça de um grupo de imundices. Aliás, Sirius... todos te amam tanto, te admiram tão profundamente que não vão titubear em acreditar que você é um assassino miserável e sem escrúpulos! Será pelo fato de que já tentou fazer isso? E, você Lupin, o que me diz? Vale a pena estar aí escondido, sendo frouxo e omisso, ao não fazer absolutamente nada para evitar as barbaridades que os seus amigos fazem impunemente? Que bela porcaria você é como homem, para viver mendigando afeto de pessoas como estas que está cercado.
Nisso, Mcgonagall saiu impedindo que Hermione prosseguisse xingando cada um deles. Severus, que já estava segurando a namorada, aproveitou para arrastá-la de lá antes que a confusão piorasse e ela acabasse levando a pior. Sabia que os benditos grifinórios seriam postos como vítimas e que a castanha seria acusada de ter atacado brutalmente cinco pobres coitados e indefesos. Principalmente, pelo fato de que os santos Potter e Black estavam envolvidos naquela briga. O que ele não esperava era que Bellatrix, que estava assistindo tudo em um silêncio divertido, se meteria para colocar mais fogo no paiol, aumentando ainda mais a discórdia. A morena se irritou e decidiu aumentar toda aquela rixa, no momento em que Lillian gritou para Hermione que ela era louca e imprestável igual a Bella.
- Olha aqui, sua cadela ruiva de sangue ruim... antes de falar o meu nome, lave a sua boca podre, vadia! – Bella passou pela professora, como se não estivesse ninguém ali e começou a xingar.
- Por falar em vagabunda... chegou a ordinária que rodou por toda a Hogwarts – a ruiva respondeu.
- Inveja, porque tenho o homem que eu quero e quando quero? Você, no máximo, conseguiu o Potter que é o mais um dos meus restos, queridinha! Daqui a pouco, dá o golpe da barriga nele, já que puta desonesta e morta de fome arranja filho para conseguir dinheiro – a morena começou a gargalhar.
- Tem quem quer? Quando quer? Ora, faça-me rir, sua ridícula. Onde está o Severus, então? Ele é um que lambia o chão em que eu pisava, enquanto você se oferecia como uma completa ordinária. É tão indecente que faz sexo de graça com qualquer um, sem qualquer critério... se ofereceu tanto, que mentiu que foi estuprada, quando todo mundo sabe que você se esfrega em qualquer homem, inclusive com o tio e com o próprio pai – quando Lillian terminou a frase, as brincadeiras cessaram, Sirius fechou a carranca e deu um suspiro que parecia uma espécie de rosnado. A morena, por sua vez, partiu para cima da ruiva e lhe deu uma bofetada. Com isso, a briga se armou com as duas se atracando e os rapazes tentando apartar. Até que Mcgonagall jogou um feitiço contra elas e avisou que ambas iriam para a sala do diretor.
Severus, aproveitando a baderna instaurada, puxava a castanha para ir embora com ele. Tinha certeza de que aquela anarquia ia piorar se ela retornasse para lá. Tentando se desvencilhar do namorado, Hermione lhe deu uns tapas para que ele a soltasse... estava indignada com o que ouvira e com os fatos. Queria voltar lá e ajudar Bella a dar uma surra na ruiva pelo o que havia dito. Jamais, uma pessoa decente, usaria uma violência sem tamanho para ofender outra pessoa por pior que ela fosse. No fundo, sua revolta era em lembrar que o seu melhor amigo era filho de duas pessoas tão baixas e desprezíveis. Foi tirada do seu pensamento, quando se sentiu prensada contra a parede e Severo a beijando à força para que parasse de resistir ao que estava fazendo. Ele queria evitar que ela retornasse e a situação ficasse ainda pior. Hermione percebeu, o quanto o namorado estava decidido a acalmá-la, a cobrindo de carinhos, por mais que ela lutasse como uma leoa feroz para se desvencilhar dele. Demorou alguns minutos para que ela se acalmasse e começasse a retribuir as carícias e os beijos, tocando o seu rosto com delicadeza.
- Por Merlin, bruxa... não faça mais isso! – disse ele meio ofegante e sorrindo.
- É só esses idiotas pararem de humilhar você – o beijou novamente.
FLASHBACK OFF
Os dois riram abertamente daquela recordação... realmente, fora uma loucura ela ter saído enxovalhando todo mundo, mas valera a pena. Realmente, Sirius passou um tempo achando que levaria uma surra na primeira oportunidade que surgisse. Sobretudo, porque nunca alguém dissera que ele e os amigos eram um bando de tramposos da pior espécie. Hermione e Snape permaneceram um pouco em silêncio na conexão. Ele olhava para o céu quando ouviu a voz dela, mais uma vez, nos seus pensamentos:
- Tenho outra pergunta...
- Oh, Salazar... porque me arranjaste uma bruxa bonita tão insuportavelmente questionadora?
- Não vejo objeções da sua parte nas minhas inquirições...
- Se é por isso, fecharei o Elo e sairei correndo, enquanto ainda posso me salvar.
- É que você é sempre muito quieto... sempre salientei o quão fechado é para as coisas a seu respeito. Tanto que você sabe muito sobre mim... mas, o contrário, é através do que as outras pessoas me contam ou das minhas observações – a voz dela em sua mente soava chateada, o que o fez respirar fundo e responder:
- O que quer saber exatamente? Eu acredito que te falei tudo... fui uma criança pobre, maltrapilha, esfomeada, física e moralmente abusada, negligenciada, praticamente fui vendido a uma família rica para ser o boneco favorito da filha deles. Quanto pensei que teria alguma tranquilidade, tive que suportar uma gangue de valentões protegida pelo diretor do internato em que eu estava... eu mal entrara na adolescência e estava descobrindo aos pouco a minha sexualidade, quando fui acusado de estupro e espancado, perdi a minha virgindade aos 17 anos com um menina fantástica que jamais sonharia que seria capaz de conquistar. Tentei o suicídio aos 18 e, nesse mesmo ano virei Comensal da Morte... me tornei uma pessoa promíscua, me drogava e bebia muito... nos meus momentos de "férias do Lorde das Trevas" me envolvi com um grupo de arruaceiros, em que conheci os mais diversos tipos de crimes entre trouxas e jogos sexuais perturbadores. Era o típico punk de machadinha dentro das vestes... um perfeito marginal! Quase matei a Narcissa, que você sabe que é a minha melhor amiga, de preocupação e desgosto, com tudo o que eu estava me envolvendo... aos 19 anos, me transformei em pai da minha irmã e tive que rever toda a minha vida até aquele momento. Dividi essa responsabilidade com a Cissa, embora a maior parte do tempo a criação da Nymphadora fosse minha obrigação. Mas, ela sempre dava um jeito de participar da vida da sobrinha, por saber que a menina precisava de uma figura feminina para se espelhar e ouvir conselhos. Aos 21, você sabe, me tornei professor de Hogwarts, aos 24 anos, era professor da Cara de Pato e tive que esconder de praticamente todos essa informação... menos dos diretores das casas, que prometeram ajuda para que ela ficasse sempre segura... aos 26, a carreguei para um show do Queen, em Wembley, e o Dumbledore quase me matou por ter fugido com uma garota de 13 anos, no meio de uma semana, para ir à Londres trouxa e me divertir. Aos 27 terminei o meu doutorado em Bioquímica em Oxford. Aos 31, tive que aguentar o Potter, que é a cara do pai, convivendo comigo... e, para piorar, ele arrumou um ruivo com merda de trasgo na cabeça e uma menina insuportavelmente inteligente para me infernizar e ficarem tramando pelos corredores. Com 35, o Lorde retornou e a minha vida voltou a ser o mais infernal possível... ainda mais porque essa menina, amiga do Potter, pouco antes se disse apaixonada por mim e quase cometi o pior erro da minha vida, quando ela me beijou. Ainda com essa idade, voltei a ser obrigado a fazer coisas às quais me sinto enjoado e percebi o quanto eu posso ser repulsivo quando quero. Aos 37... recuperei a mulher da minha vida, fiz amor com ela inúmeras vezes, me casei e, agora, ela está grávida. Mesmo que eu lembre do projeto dela de só ter um filho aos 25... Mas, como nada na minha vida é fácil, quando eu estava certo de que tudo ocorreria às mil maravilhas, casando com a minha doce Hermione Jean Granger, nascida trouxa, após ter pedido permissão aos seus pais para ficar com ela eternamente... descobri que ela é filha da mulher que eu deveria ter casado com um homem que absolutamente me odeia... resumidamente, o meu amor é uma Black. Quanto a Dora... bem, ela casou com o lobisomem que quase me matou na adolescência, depois evitou que eu morresse sozinho em um corredor, me salvou de ter ido para Askaban quando eu estava com 20 anos e fui traído pela cadela da Bellatrix, que preparou uma cilada para que eu me desse mal e fosse preso.
- O Remus te ajudou a não ir para aquele inferno, mesmo sabendo que você era um Comensal?
- Sim... ele me encontrou quando eu estava me arrastando para voltar para casa. Acho que só me ajudou porque a Dora saiu pela porta e foi correndo na minha direção... ela só tinha 7 anos, Hermione e, aquela cena deve ter mexido com o senso de honra dele. Tenho quase certeza de que o motivo que o fez me auxiliar foi porque, naquele momento, descobriu que eu não tinha assassinado a menina, e que a mantive a salvo. O Remus me ajudou a chegar em casa, mesmo repetindo que poderia se arrepender amargamente de ter feito aquilo e, a Dora contou que era minha irmã... ele ficou confuso e prometeu que não contaria a ninguém que tinha me encontrado ou sobre essa história. Depois eu soube pela Narcissa que ele deu um jeito de falar com ela e perguntar se era verdade.
- Quanto ao resto, Severus... bem acho que a menina irritante pode ter se tornado a mulher da sua vida e mãe do seu filho. Que besteira você quase cometeu comigo naquela noite do Baile de Inverno?
- Não te ocorre nada? Você me beijou, eu retribuí...
- Você ia fazer amor comigo... é sério?
- Se eu não tivesse retomado a minha consciência e me dado conta do absurdo daquilo... provavelmente, o que me tornaria o que o seu pai vive me acusando, um pedófilo desgraçado que teria abusado de você.
- Mas, eu queria tanto...
- Hermione, você tinha 15 anos... se quisesse copular com o Potter ou com o Weasley que tinham 14, ou com um dos gêmeos Weasley, como também com o Diggory, que eram um pouco mais velhos, isso não teria problema se o fizesse. Seriam adolescentes fazendo sexo como animais no cio. O completo impedimento está no fato de que eu tinha 34 para 35 anos, era o adulto ali e não é normal um homem querer transar com uma menina. Você não tem ideia do quanto é sujo, imoral e criminoso roubar a inocência de alguém. A questão de você ter desejo, tesão ou o que fosse por mim, não era errado ou indecente... acho que fazia parte de um processo natural de descoberta das suas necessidades, dos seus anseios e da sua própria sexualidade. Não pense que eu não reflito que deveria ter esperado mais para ter você... que o certo era ter cumprido a promessa que eu fiz de esperar que fizesse 18 anos, antes de te tocar novamente e te tornar minha. Mesmo que, com 17 anos, você seja uma mulher adulta no mundo bruxo... ainda me sinto mal com isso, creio que fui fraco e estou te roubando a juventude.
- Pare com isso, Severus! Estou com você porque quero, não estou sendo obrigada a nada... só a ficar longe, pois, está tão obstinado de que vai me fazer mal que prefere que eu morra de saudades. Mas... já que estamos conversando, depois de tanto tempo... você disse que foi ao show do Queen em Wembley. Contudo, quando tentou me afastar, disse que era interessante ser punk no final dos anos 70 e início dos 80, e repetiu isso agora quando se definiu como punk da machadinha. Como é que você ouvia Queen se estava metido nisso de gloriosamente se esfregar em espelhos quebrados?
- Porque, na verdade, gosto de música clássica. É um tipo de som que me acalma e dá concentração suficiente para o preparo das poções. Ouço Rolling Stones por considerar suas músicas interessantes... punk não, embora tenha me utilizado da estética como modo de sobrevivência. Respondendo o que quer saber, como eu me enfiei em um show do Queen e deixei o Dumbledore querendo o meu fígado ensopado... não ia perder a oportunidade de ver algo que eu gostava e de ter uma lembrança boa com a minha única irmã, porque isso geraria a ira de alguém que pouco se importava com o que sentíamos. Eu estava lutando bravamente para que ela tivesse a melhor infância e uma adolescência fantástica, porque sempre vi na Cara de Pato a pessoa mais pura que já conheci. Faria, fiz e faço tudo o que está ao meu alcance para que ela seja feliz. Bom, voltando à música, eu gosto de Pink Floyd, Queen, U2, Joy Division, The Smiths, The Cure, Black Sabbath, Elton John e David Bowie. Você deveria ter percebido pelas camisetas que eu andava pela minha casa, quando ia lá, já que não é obtusa. Sei que alguns você gosta também.
- Eu escutei muitas vezes Who wants to live forever e pensei em você, achando que nunca seria possível.
- Quando eu vi as memórias do Remus... eu pensei nessa música também... e pode ser que seja a nossa realidade... que tudo já esteja decidido e apenas teremos doces momentos. O que significa que por maior que seja o nosso amor, ele não será possível ou aceito. Mesmo que você seja a única que toque as minhas lágrimas com os seus lábios e o meu mundo com a ponta dos seus dedos... não há tempo e nem chance para nós. Quase todos que estão a sua volta, me enxergam como um monstro instável e completamente agressivo capaz de te matar. Na primeira oportunidade, vão querer te obrigar a fazer uma opção entre eu ou eles. Não quero que se afaste dos seus amigos por minha causa...
- Você não é um monstro, é só um homem que teve uma vida cheia de sacrifícios, fez escolhas erradas, por não ter alternativas... reconheço os seus defeitos, já presenciei muitos deles ou já fui vítima de alguns... mas, se arrependeu de ter errado e tenta consertar as suas imperfeições. Já disse o que eu vejo de qualidades em você, mas você é dolorosamente determinado e inclinado a teimosia, para não querer admitir que é protetor demais, é inteligentíssimo, brilhante e perspicaz, é forte, leal, corajoso, gentil e doce. Se eles o fizerem, vou ficar ao seu lado, pois só vai demonstrar que eles não me respeitam e são incapazes de ver quem é.
- Se você diz... mas, como estamos falando de música... ouça A night like this hoje. Tenho certeza de que a Dora e o Remus levaram toda minha casa para enlouquecer o Sirius um pouco, então os discos devem estar em algum lugar. Pense que o nosso amor é a coisa mais magnificamente estúpida que construímos nas nossas vidas. Agora, tenho que me despedir e quero que saiba o quanto eu amo você.
- Eu também te amo, Severus. Amo muito!
Snape deu um sorriso triste ao fechar o Elo... novamente estava sozinho, mesmo tendo quase certeza de que, em Hogwarts, estavam Hagrid, Filch e, possivelmente, Trelawney... o que, em outras palavras, significava que não teria ninguém que considerasse mentalmente apto para conversar ou dizer que se importava com o ele estava passando. Ficou um tempo olhando para dentro da floresta, observando as árvores, pensando no que vivera naqueles terrenos desde os 11 anos. Sua vida basicamente se resumia àquele lugar, que foi o seu lar, sua prisão, seu abrigo... estava completamente absorto com aquilo, quando percebeu a presença de um centauro se aproximando calmamente em sua direção.
- Boa tarde, Severus Snape – disse Firenze altivo olhando para o homem sentado.
- Boa tarde... o que o traz aqui, Firenze? – questionou curioso.
- Vi que estava sozinho e com o olhar perdido. Não é bom para qualquer criatura ficar isolada. Ainda mais, quando ela apenas fez o que foi lhe pedido – seguiu o encarando.
- Como sabe que o que eu fiz foi cumprir uma ordem? – perguntou sem acreditar naquelas palavras.
- Embora não creia, é um humano, macho e adulto com caráter. Seus olhos dizem que não gostaria de ter feito nada daquilo que foi obrigado a executar e que gostaria de estar ao lado da sua jovem fêmea que está prenha – o centauro falou olhando para o céu.
- É uma estranha forma de definir o que eu desejo, mas não discordo – argumentou sério.
- Vocês se negam a lembrar que, antes de serem bruxos, são humanos e animais. Eu vi a sua fêmea no funeral de Dumbledore... ela também sente a sua ausência e está feliz porque carrega os seus filhotes – permaneceu sem olhar para Snape que ergueu a sobrancelha incrédulo.
- Como filhotes? É apenas um... – antes que prosseguisse, Firenze o olhou.
- Não, não é apenas um... nós percebemos quando a fêmea espera mais de uma cria. São dois e pelas constelações, a terra e a guerra vão defini-los – ficou observando o homem.
- Gaia e Marte? Uma menina e um menino, é isso? – indagou.
- Isso quem decide não sou eu... apenas preste atenção nas constelações, homem. Faça o que for necessário para impedir que a terceira estrela mais brilhante da constelação de Orion e a 27ª mais resplandecente do céu noturno, tida como guerreira, obtenha êxito no que pretende – respondeu dando as costas, se despedindo:
- Adeus, Severus Snape.
- Até breve, Firenze... não vou permitir que a Bella toque na minha rainha, não se preocupe – após a saudação, sussurrou o que compreendera das palavras do centauro que seguia em direção à cabana de Hagrid.
Narcissa entrou na casa do largo Grimmauld com uma carta nas mãos, perguntando onde estava Sirius, enfatizando que era urgente. Como ele havia saído, ficou conversando com as meninas sobre amenidades, tranquilizando Hermione que tudo estava bem com Snape e que acreditava na possibilidade de, logo, tudo aquilo acabar. Depois de algumas horas, perto do anoitecer, o homem de cabelos castanhos chegou à residência e ficou surpreso ao encontrar a loira ali.
- Olá, Cissa! Houve algo grave para ter vindo sem avisar? – perguntou curioso.
- Olá, Sirius! Em partes, sim... mas, creio que eu não necessite anunciar quando pretendo vir, não é? – o olhou desafiadora.
- Não... não é isso que eu quis dizer. É que sempre me envia um bilhete informando quando pretende aparecer aqui – riu sem graça e seguiu:
- Mas, deixando de bobagens... digo, da minha parte... o que te traz hoje a minha casa?
- Severus quer falar com você ainda hoje e é improtelável que compareça - respondeu séria, estendendo a mão para que ele pegasse a correspondência. Sirius leu atentamente o que estava escrito e devolveu a ela.
- Eu só trocarei de roupa e vou encontra-lo. Não preciso mencionar que o seu filho foi para a Toca e está babando em cima daquele inocente... certamente, necessita da um babador para não afogar a criança – falou em meio a uma gargalhada alto ao subir às escadas.
- Tia Cissa, vai ficar aqui e jantar conosco? – inquiriu Luna sorridente.
- Com um convite tão gracioso, quanto o seu, não tenho como recusar – fez um gesto de concordância com a cabeça ao retribuir o sorriso para a sobrinha.
- Ainda não acredito que a minha irmã possa ter colocado no mundo duas meninas tão amáveis... mesmo que, inegavelmente, uma tenha puxado o gênio explosivo dos Black – argumentou olhando de soslaio para a de cabelos castanhos que riu.
- Ora, Cissa... nem tanto! – falou olhando para a tia, mantendo o semblante alegre. Sabia que aquilo era um elogio e não uma crítica velada.
- Ainda vou te convencer a me chamar de tia também, menina – disse com um falso tom autoritário.
- Não vai conseguir... afinal, acredito que ainda seja muito jovem para ser minha tia. Principalmente, depois que me ajudou a ir com o Sevie na festa do Clube do Slugh – o rosto de Hermione se iluminou ao lembrar disso.
- O que eu não faria para ajudar dois amigos? Sobretudo, quando já se gostavam tanto – retribuiu o sorriso.
Sirius passou pela sala, vendo que elas estavam envolvidas em uma conversa a respeito do passado. Contavam para Luna, detalhadamente, tudo o que aconteceu naqueles meses entre 1977 e 1978. Como já estava atrasado, preferiu não se importar com aquele assunto e jogou Pó de Flu para entrar diretamente na sala do diretor em Hogwarts.
Ao chegar lá, observou que o lugar estava vazio e havia um bilhete em cima da mesa.
- Black, se chegar aqui e a sala se encontrar vazia... obviamente, eu não me encontro! Em verdade, posso ter saído para resolver algo importante... Aviso que não deve vagar pelos corredores ou no entorno do castelo em hipótese alguma, há dementadores cuidando as saídas, até mesmo as passagens secretas presentes no Mapa do Maroto. A escola também está com dois Comensais da Morte, altamente treinados, servindo de cães de guarda e de vigilantes... creio que o Lorde das Trevas tenha alguma desconfiança a meu respeito... Aconselho a ficar conversando com Dumbledore, pois, dois lunáticos devem se alegrar em um encontro furtivo. SS
- Ranhoso, idiota! – pensou alto ao jogar o pergaminho no fogo da lareira. Sabia que não podia ficar qualquer vestígio de que alguém da Ordem estivera ali. Especialmente, se essa pessoa fosse convidada por Snape.
Para passar o tempo, caminhou pela sala e começou a dialogar com alguns quadros, particularmente com o do antigo diretor. Tentava ter certeza de que o que estava escrito na carta era verdade e, assim, permaneceu por cerca de uma hora até ouvir a porta se abrindo.
- Boa noite, Black. Presumo que esteja ciente do teor do que lhe enviei e esteja aqui para conversarmos como homens civilizados.
- Noite... Sim, Narcissa me entregou o pergaminho. Aliás, você está um farrapo humano...há quanto tempo não pensa em se barbear ou tomar banho? - deu um meio sorriso, debochado. Contudo, uma parte dele, estava preocupada por nunca ter visto Snape naquele estado tão deplorável... nem mesmo quando exercia o papel de agente duplo.
- O que isso importa? Quer me dar banho ou me admirar nu, por acaso? - retribuiu com alguma irritação.
- Não se exalte, foi só uma pergunta... Então, foi iniciada à temporada de caça?! – disse com uma ironia triste.
- Verdade... todos vocês estão em risco. Eu não estou participando ativamente das reuniões, por estar aqui, então há coisas que permaneço na ignorância. O que sei é que ocorrerá um ataque à casa dos Weasley. Além disso, o Lorde das Trevas deu uma ordem direta a todos os Comensais se encontrarem Hermione... era para a destruir completamente antes de assassiná-la. Ou como ele mesmo disse "matando o cérebro, o coração e a coragem sucumbem"... não vejo outra pessoa, além de você e do Remo para me auxiliar com isso – soltou uma respiração pesada ao terminar o relato.
- Você já fez isso com alguém? Assassino, eu sei que você é... só me diga se já cumpriu uma ordem dessas – perguntou sério.
- Já... não é algo que me orgulhe e, se pudesse, teria tratado o assunto de outra forma quando aconteceu, Black. Para a sua informação, atualmente, eu evito mais que essas coisas aconteçam do que executo – respondeu fechando a carranca.
- Foi com alguém que eu conheço? – a raiva era crescente.
- Sim... – falou o encarando.
- Posso saber quem? – a mão estava perigosamente agarrada na varinha.
- Melhor não e nem pense em ser idiota de me atacar aqui dentro – Snape falou observando o outro homem, sem fazer qualquer movimento de defesa.
- Como estamos sendo sinceros, Ranhoso, só me diga... aquela história de você ter estuprado a Bellatrix, é verdade ou não? – dizia tentando conter o ódio. Embora a pergunta de outro homem fosse relativa ao ano de 1974, aquilo o incomodava, porque se tornara verdade.
- Já cansei de repetir que não fui eu e que, descobri recentemente, o autor foi o Lucius. Ele mesmo jogou isso na minha cara quando teve a oportunidade, Pulguento – bufava.
- Você sabe que isso a destruiu mais do que Askaban – esbravejava.
- Sei e sinto muito, mas não é minha responsabilidade e nem sua... sempre as nossas conversas terminam nela! Eu acho extremamente enfadonho que ainda aconteça... parecemos dois velhos esclerosados repetindo as mesmas coisas. Se convença que eu nunca a quis e que ela te usou. Prometi que não ia me envolver nisso... mas, se você diz que está apaixonado pela Cissa, pare de falar na Bella, esqueça essa mulher! – gritou.
- E você conseguiu esquecer a Lilly? – o encarou com o rosto contorcido de raiva.
- O fato de ter vivido uma mentira por anos e ter me fodido por isso, não me faz amar a Lillian. As únicas lembranças boas que eu guardo dela, são da minha infância e, mesmo assim, quando penso seriamente... não são tão maravilhosas, quando era eu quem tinha de me moldar ao que ela queria e, ao ver que não precisava mais de mim, correu para aqueles que lhe beneficiariam de algum modo. Você diz que me humilhei pela Lilly, mas, fez igual ou até pior! Se enfiou no casamento da Bella e implorou para que ela fugisse com você... nunca fui capaz de descer tão baixo por alguém – argumentava aos berros indo em direção ao outro homem, com a ânsia de agarra-lo pelo pescoço e começar a sacudir até que tomasse consciência.
- Ela é a mãe da minha única filha! E a sua história com a Lillian não foi bem assim... ela nunca foi cruel com você! Não seja sonso comigo e nem se faça de vítima, quando eu conheço bem a história. Você a perseguiu, a espionou, a encurralou para que cedesse aos seus desejos. Eu não fiz isso nunca! – vociferou.
- Bom saber que era essa versão rondando na Torre na Grifinória... ela conseguiu se sair melhor do que eu imaginava para conquistar o James Potter. Sempre soube que era inteligente, mas, dissimulada... é surpreendente – disse sarcástico e prosseguiu:
- A mãe da sua filha, não se chama Bellatrix! É a senhora Jean Granger, que criou, amou e educou a Hermione com todo o coração. Essa é a única mulher que pode ser chamada de mãe e reconhecida como tal, e, não a vagabunda que a pariu e sequer quis conhece-la. Você se prende a isso porque não quer esquecê-la... é lascimável ver que, depois de tantos anos, ainda rasteje por conta dessa mulher.
- Não sabe o que diz. Eu já a esqueci... só tenho consideração por ela – respondeu encarando Snape.
- Consideração... tá bom, Black! Vamos deixar assim, mas não faça a Cissa sofrer – falou revirando os olhos com desdém.
- Se Vold... – começou a dizer e foi interrompido pelo outro homem, que quase pôs a mão na sua boca para que se calasse.
- Não diga, o nome dele agora é amaldiçoado para rastreá-los. Só vocês ousam falar em voz alta – explicou preocupado.
- Retificando, se o seu mestre mandar que execute essa tarefa que foi dada contra a Hermione... o que fará? – inquiriu mantendo um semblante sisudo.
- Prefiro me castrar e arrancar os meus próprios braços antes de fazer algo desse tipo com ela. Você sabe, seu idiota, que eu morreria se fosse preciso e tivesse certeza de que estaria a mantendo em segurança. Faça a sua parte nisso, seja pai dela... por mais que eu não queria admitir, preciso da sua ajuda para que ela permaneça a salvo – seu tom de voz era preocupado.
- Não se preocupe, vou cuidar dela – assentiu.
- Mesmo que isso te obrigue a matar o seu único amor? – Snape ergueu a sobrancelha, tinha certeza de que aquela pergunta era certeira e que faria o outro dizer a verdade. O modo retórico como foi feita a inquirição fez com que Sirius desviasse o olhar, antes de reagir.
- Se for preciso, por mais que me doa... serei o responsável por tirar a vida dela – respirou fundo, dando as costas para ir embora. Antes de partir, o questionou:
- É seguro eu sair por aqui?
- Não... não é. Solicitei que uns trinta Comensais estejam te esperando dentro da lareira para exterminar com você - retorquiu sarcástico e prosseguiu:
- Ora, francamente, Black! Sabia que era obtuso, entretanto, isso chega a ferir os meus tímpanos... respondendo a sua tola pergunta, não será mais tão seguro utilizar Pó de Flu daqui uns dias. Contudo, como sou o bruxo de "confiança", esta lareira ainda não está sendo vigiada... por enquanto! – deu de ombros, vendo o outro ir embora.
Ao retornar do encontro com Snape, pensava em tudo o que havia sido dito ali e sabia que o que teria de fazer era necessário. Antes de chegar ao largo Grimmauld, sentou em uma praça nas proximidades e ficou olhando para a lua e as estrelas. Seu pensamento estava vagando quando ouviu um sussurro indo em sua direção:
- Sirius... Sirius... Sirius Black – quando escutou a risada, que tanto conhecia, olhou para trás e viu Bellatrix o olhando sorridente com um ar vitorioso. Instintivamente, apontou a varinha para ela, o que a fez erguer as mãos, como se estivesse se rendendo, sem tirar os olhos dele.
- O que faz aqui? – perguntou sério, sem desviar o olhar.
- Vim falar com você, priminho – continou indo em direção a ele.
- Não temos nada o que conversar, Bella... - disse se erguendo para ir embora, sentindo a mão dela o segurar pelo braço para que ficasse.
- Como não? Temos uma filha, uma linda mulher feita por nós dois - respondeu com a sua melhor máscara de inocente.
- Você chamou a menina de cadela! A jogou fora como se fosse lixo... quase a matou! O que quer falar? Não tem direito algum - argumentou irritado se desvencilhando dela.
- Estou pensando nisso desde a morte do Dumbledore... me arrependo muito de tantas coisas que eu fiz. Devia ter ficado com você... Já pensou como teria sido a nossa vida juntos? - o encarou inquisitiva e com um olhar maliciosamente calculado para demonstrar paixão. No entanto, Sirius respirou fundo e não respondeu, o que a fez continuar.
- Se não refletiu, eu contemplo essa possibilidade... teríamos criado ela da melhor maneira possível. Certamente, não seria a única que produziríamos, haja vista que sempre combinamos tanto - foi se aproximando, enquanto ele dava alguns passos para trás até bater com as costas em uma árvore e ela ficar perigosamente perto. Assim, Bella tocou o seu rosto e tudo nele começava a trai-lo diante daquele contato.
- Vá embora, Bellatrix - tentou debilmente afastá-la. Percebia que todas as suas tentativas estavam sendo em vão e se sentia fraco perante aquela situação.
- Não é o que os seus olhos estão me dizendo - respondeu com um meio sorriso o analisando.
- Eu... eu tenho outra... estou comprometido. É melhor se distanciar - gaguejou.
- Ah, sim! Quanto a isso, não tenho problemas... você sabe que eu não sou ciumenta, queridinho! Ou, acha que não sei que era você debaixo da cama da Cissa, aquele dia? Ora, Sirius, reconheceria aquele cachorro parecendo o Sinistro em quilômetros... – riu o fitando.
- Por isso falou aquela barbaridade? - a olhou incrédulo.
- Claro, sabia que a minha irmãzinha ficaria chocada ao ouvir aquilo - continuou rindo abertamente.
- O que aconteceu com você? Bella... não há o que discutir, não existe mais nada aqui... – seguiu tentando se manter longe dela.
- Não me ocorreu nada demais! Veja, continuo a mesma e... ao contrário do que afirma, resta sim... você está aqui conversando comigo e acontece que o seu coração ainda é meu - disse colocando a mão no peito dele, lentamente, sentindo que, de fato, ele estava prestes a ter um ataque cardíaco se ela permanecesse ali.
- Eu já disse...acabou... desapareça! – tirou as mãos dela do seu corpo a empurrando para trás. Caminhou alguns passos até que ela o alcançou. Ao puxá-lo, fez com que se virasse novamente para olhá-la.
- O que quer agora, Bella?! – soltou um suspiro pesado.
- Fale isso olhando nos meus olhos, Sirius. Diga que deixou de me amar, me encarando... – sorriu sabendo qual era a resposta.
- Não faz isso... nunca vou te perdoar pelo o que fez... desista! Eu não quero mais saber... – a olhou nos olhos firmemente, mesmo que todo o resto o desmentisse.
- Não significa que tenha deixado de me amar... – Bellatrix ergueu as duas sobrancelhas para ele, demonstrando o quanto compreendia a verdade por trás daquelas palavras que escutara.
- O que isso importa para você? Nunca ligou para os sentimentos dos outros! Agora, vem atrás de mim com essa conversa sem pé nem cabeça... se puder me fazer esse único favor, me esqueça! – tentou ir embora e ela o segurou contra uma parede.
- Shhh, você sabe onde quero chegar, o que eu quero e como eu quero... – falou apertando o queixo de Sirius o obrigando a manter o olhar nela.
- Você não vai mudar em relação a isso... continuará sempre a mesma... eu... eu não sou mais um adolescente que aceitava tudo o que fazia. Não posso concordar com os seus delírios... eu preciso ir – falou conseguindo se afastar e ela o pegou pela mão.
- Me ame, Sirius... só me ame novamente! – aquela declaração foi suficiente. Ele a segurou, Bella riu triunfante. Se beijaram esquecendo que, ali, existia 18 anos e tantas outras questões muito mais relevantes que os separavam.
