Seu corpo travou ao contemplar a paisagem ao seu redor, Loki não imaginava que um dia estaria ali outra vez, apesar de toda a dor e tristeza que aquele lugar já lhe trouxe ele foi o mais próximo de um lar que já teve. O feiticeiro se perguntava se aquilo era um tipo muito avançado de ilusão ou alguma de armadilha projetada em sua mente, mas mesmo que hesitasse aceitar tudo lhe indicava que era real, que o reino não havia sido destruído e que de alguma forma conseguiu estar ali novamente.

Ele se encontrava sentado sobre o gramado de uma campina florida que lhe era bastante conhecida, costuma se isolar quando criança no meio daquele que poderia ser descrito como um imenso jardim, mas mesmo que um dia tenha sido um lugar importante para si já não guardava memorias boas do tempo em que se refugiava ali. A maioria de suas lembranças sobre seu passado estavam manchadas por sentimentos ruins e isso incluía desde o que se recordava de dias tenebrosos aos dias que um dia julgou como os mais felizes de sua vida. Não se sentia magoado com o fim que todo aquele reino deve, talvez poderia ter salvado mais algumas pessoas, mas Asgard já havia se destruído muito antes do Ragnarok.

Decido a descobrir como foi parar ali e como voltar para onde estava anteriormente Loki se ergueu e lançou em si uma ilusão que modificou completamente sua aparência, não queria correr o risco de ser reconhecido antes mesmo de saber o que estava acontecendo e logo depois começou a traçar o conhecido caminho que lhe levaria de volta ao castelo. O deus agora com um rosto mais envelhecido e comum, de cabelos avermelhados e um pouco grisalhos, com uma barba de mesmo tom bem-feita e vestes elegantemente traçadas levando um tom azulado não demorou a notar que haviam certas coisas em sua volta que definitivamente não eram desta forma enquanto ainda morava naquele reino. Arvores que se recordava de ver no auge de sua magnitude não passavam de brotos, lagos que há muito tempo secaram quase transbordavam, criaturinhas extintas corriam e voavam a sua volta em abundancia, o ouro das ruas que avistava no horizonte era quase fresco e reluzente, o povo não andava nas ruas e Loki conseguia sentir o medo pairando no ar, coisa que para uma civilização como Asgard só acontecia durante suas mais intensas guerras.

A possibilidade de ter sido mandado de volta no tempo era extremamente alta, porém o deus ainda não tinha certeza se de fato era possível que as joias do infinito fizessem algo desta magnitude sem estarem influenciado nenhum tipo de portador, elas não possuíam meios para usarem seus poderes livremente, portanto a chance de Tempus tê-lo mandado até ali sem que alguém o guiasse a fazer isso era quase nula e por isso só lhe restava encontrar o portador da pedra naquele tempo e convence-lo a manda-lo de volta. Claro, a hipótese de estar preso em uma muito engenhosa ilusão ainda estava de pé, mesmo que tudo apontasse na outra direção.

De repente o príncipe foi tomado por um intenso mau pressentimento e ficou automaticamente em alerta, ao longe ouvia o alto barulho dos passos de grandes criaturas e estes se aproximavam cada vez mais e mais. Não podia definir exatamente o que era ou qual a razão de estarem tão agitadas, mas afirmaria sem hesitar que quem quer que fosse não deveria estar naquele reino, por qual outra razão estariam indo em tal desespero para uma das áreas mais remotas que conhecia?

Os sons se tornaram mais altos, os estranhos estavam agora a poucos metros de distância e Loki, com o objetivo de atrapalha-los e de descobrir em que época estavam, se colocou no meio do caminho que eles obviamente usariam. Ele tinha uma vaga esperança de não ser atropelado, mas de qualquer forma não deixaria a oportunidade passar por estar correndo alguns riscos.

Cavalos aparentemente tão magníficos quanto os que eram criados no castelo apareceram após ultrapassarem a curva que levava diretamente até onde o príncipe estava, guerreiros cujo os rostos não reconhecia montavam os animais e com eles carregavam uma jovem mulher e uma pequena criança adormecida. Eles não esperavam ser interrompidos e muito menos que suas montarias parassem imediatamente ao verem o estranho no meio da trilha, aquela para o deus era uma surpresa agradável, porém ele já sabia que animais como aqueles tendem a jamais machucarem ou desrespeitarem os que reconhecem como seus líderes ou familiares destes.

- Mas quem este homem pensais ser? - um dos guerreiros brandou irritado – Saíeis já de nossa frente!

- Lamento vós dizeis, mas tenho algumas perguntas a fazer antes de deixá-los partir. - Loki sorriu cordialmente, seria mesmo um inconveniente ferir asgardianos logo agora quanto acabou de chegar. Os outros homens olhavam para si assombrados, tinham notado algo que o que falou primeiramente não percebeu.

- Não temos tempo para...- o cavaleiro a direita dele o interrompeu.

- Deixais que ele fale. – Ordenou o que aparentemente se tratava do líder do grupo.

- Obrigado. - O deus agradeceu em um tom sarcástico – Primeiro, por gentileza, quem és o rei no trono deste reino? Eu afinal chegara por aqui a recentemente e confesso estar um pouco perdido.

- O rei é Borr, filho de Búri. - O líder respondeu, mesmo que hesitasse e estranhasse não lhe negou a informação. Os demais membros do grupo olhavam para suas montarias incrédulos e viam que elas quase reverenciavam o homem desconhecido a sua frente.

- Excelente. - Loki comentou como se aquilo não passasse apenas de um teste, isso confirmava sua teoria de estar muitos anos no passado, mas não deixava de pensar que ainda havia algo errado. - Segundo, o que sete guerreiros asgardianos estão a fazer tão longe do castelo? Que eu saiba estas terras costumam ser bem perigosas a noite e olhas, - Ele encarou o céu teatralmente. – estás anoitecendo. Eu deveria alerta-los que somente deuses e crianças serão poupados pelas criaturas que por aqui vivem, mas certamente como cidadãos de Asgard, disto vós já sabeis.

O príncipe conhecia as mentiras melhor do que ninguém e soube que havia os pegado mentindo no momento em que pode encara-los pela primeira vez. Era visível que eles não conheciam o que os aguardavam na floresta logo adiante e o olhar furioso que lançaram a mulher só lhe confirmava isto. Eram forasteiros com uma missão e aparentemente estavam sendo enganados.

- Nós claramente já sabíamos, estávamos apenas a vigiar o perímetro, sempre difíceis são os tempos de guerra. - Um deles disse, provavelmente era a primeira coisa que veio em sua mente.

Loki se concentrou nas menores pessoas que compunham o grupo, ou seja: a mulher e a criança. Havia cheiro de magia no ar, um cheiro tão familiar e querido por si que quase se engasgou ao constata-lo, isto fez com que olhasse um pouco mais para a bela asgardiana que os acompanhava e quando seus olhos desafiantes lhe encararam de volta ele teve absoluta certeza de quem se tratava. A sua frente estava a versão mais nova de Frigga e não foi preciso olhar o menino outra vez para saber que ele era o seu querido irmãozinho.

O príncipe deduziu sozinho que estavam no período em que ocorreu a guerra contra os gigantes de gelo e que aqueles homens eram soldados de Jotunheim, provavelmente os que foram mais bem sucedidos na tentativa de levar reféns até o seu próprio reino e que agora acreditavam estar sendo testados por alguém importante da realeza em que serviam já que seus fiéis animais reagiram de tal forma quando sentiram o cheiro do sangue de Loki.

- Hm, não sei, começo a achar que vós estais perdido. - Apenas para confirmar suas suspeitas ele deixou que seus olhos adquirissem a cor vermelha e o formato que realmente tinham, porém fez com que apenas os soldados vissem este feito, jamais teria a confiança da esposa de Odin se ela acreditasse que ele também era um jotun. Alguns entre eles ficaram ainda mais tensos, outros olhavam para trás repetidamente como se esperassem por algo. Ouve um momento de pavor por parte deles até que o que gritara consigo anteriormente caiu em si e saiu de cima de sua montaria desajeitado, se ajoelhou na frente de Loki tremendo e implorou.

- Nos perdoeis, majestade! Nós encontramos um caminho para dentro, mas Borr descobriu e o destruiu, pegamos Thor e Frigga como nos foi ordenado e mandamos que a mulher indicasse outro caminho de volta para vossa casa, porém esta puta vem nos enganando e infelizmente se o senhor não tivesse a bondade de interferir poderíamos estar todos mortos agora.

Por um instante Loki refletiu sobre deixá-los partir, já que estava mesmo no passado se Thor acabasse morto sua vida definitivamente mudaria muito, não haveria uma sombra sobre si, Odin não teria o maldito deus do trovão para se orgulhar e talvez assim demonstrasse carinho por si algumas vezes, além de obviamente ser obrigado a reconhecer o seu talento. Mas ele sabia o suficiente sobre o que significava mexer com a linha do tempo para entender que isso desencadearia em outras coisas desagradáveis, o Loki que surgiria com a ausência de Thor se tornaria tão insuportável quanto ele, não teria um rival para motiva-lo a melhorar e possivelmente não se dedicaria tanto a crescer quanto ele dedicou ao longo de sua vida, o príncipe percebeu que sem o irmão ele possivelmente não estaria aos pés do que é hoje e por mais relativo que o futuro fosse em seu íntimo ele sabia que quando criança não teria aguentado a vida em Asgard se não fosse pelo irritante filho de Odin. Todos esses eram fatos bem lastimáveis, porém mesmo com isso Loki poderia ter pensado em ignorar as consequências e até mostra-los um caminho de volta para Jotunheim, isto é claro se eles não houvessem ofendido Frigga.

- Não sei do que estais falando. - O deus comentou com uma calma sombria, a frieza em seu tom de voz acabou os assustando ainda mais. - Eu jamais seria alguém como vós.

Os jotuns não tiveram tempo de agir, a esposa de Odin desfez a ilusão que os escondia e alguns apenas conseguiram gritar antes de terem seus corações perfurados pelas adagas que eles se quer puderam ver o príncipe conjurar. Os animais foram abatidos em seguida, não deixaria nenhuma daquelas criaturas vivas por mais tempo, jamais permitiria que voltassem a colocar suas mãos imundas na mulher que por tantos séculos foi quem chamou de mãe.

O pequeno Thor cujo a aparência lembrava uma criança que em Midgard teria cerca de dez anos foi rapidamente embalado nos braços de sua progenitora, mas ela ainda possuía uma expressão amedrontada em seu rosto, afinal o menino ainda não havia acordado e o deus da trapaça não tinha nenhuma dúvida de que os invasores de alguma forma haviam o enfeitiçado para que não voltasse de seu sono profundo, muito provavelmente esta foi a chantagem que utilizaram para que Frigga se rendesse sem lutar e que os escondesse através de sua magia.

Em passos cautelosos Loki se aproximou dela, temia qual seria sua reação e definitivamente não queria assusta-la ainda mais. A princesa segurava seu pranto e tentava de todas as formas conhecidas por si trazer o menino de volta, estava aos poucos se desesperando e não parecia ligar para a presença do estranho assassino atrás de sua pessoa.

- Deixei-me tentar... - Pediu calmamente já muito próximo a ela que de tão concentrada não havia notado que o homem estava tão perto e por isso seu corpo reagiu com um sobressalto involuntário, Frigga se agarrou ainda mais a seu filho e por um instante o príncipe temeu que ela o ataca-se, mas sentiu seu coração se apertar quando viu aquele belo rosto coberto das mesmas lagrimas que há muito tempo estavam reprimidas pela mulher. - Meu nome és Meili, não pertenço a este lugar como já deves ter notado, porém quero ajudais. Deixei-me salvar o menino.

A deusa não parecia ser capaz de confiar ou de dizer o quer que fosse, ela olhava para seu filho em quase pânico e estava perdida, não sabia o que fazer. Talvez por não ver outra saída ou por seus sentimentos estarem cegando-a ela com um soluço agoniado estendeu os braços, permitindo que o estranho tivesse acesso a sua criança.

- Faça o que estás me pedindo e Asgard nunca esquecerás de teu nome, tu serás tratado como um de nossos amigos e serás bem-vindo. - Ela disse com uma voz fraca, quase em um sussurro, mas seus olhos mostravam a sinceridade e a determinação por trás do que dizia. - Deixei-o morrer, machuque-o ou traia o meu voto de confiança e irei encontra-lo onde que quer que tu se escondas, faça qualquer uma destas coisas e tú sentirás a fúria de Odin cair sobre si.

- Eu não ousaria questionar a verdade de tuas palavras. - Loki, ou melhor, Meili foi tomado pela súbita vontade de rir, aquela definitivamente era a mulher que lhe criara.

Pegando Thor em seus braços uma vozinha no fundo de seu subconsciente disse "Loki, Loki, ainda dá tempo de arremessa-lo de um penhasco.", mas ele decidiu ignora-la. Nunca tentem ameaçar um dos filhos de Frigga a menos que queria morrer mais cedo. Odin deveria agradecer aos céus por seu tão ignorado filho ter se dedicado a adquirir o máximo de conhecimento possível sobre os povos que habitam os nove reinos, caso o contrário ninguém em Asgard saberia o que causava a inconsciência do pequeno garoto e até que buscassem por socorro seria tarde demais.

Aquele que se tornaria o deus do trovão estava com um minúsculo, porém letal, parasita do sono. A pequena criatura, que foi identificada graças a magia do príncipe adotado e por ele ter uma breve noção do que procurar, a séculos atrás surgiu como uma verdadeira epidemia em Jotunheim e graças a ela grande parte da população acabou morrendo antes que conseguissem encontrar uma cura definitiva, muitos diziam que o que os salvou foi um golpe gigantesco do acaso e uma grande sorte já que a medicina no planeta ainda não era um ramo minimamente desenvolvido. Era cedo demais para que Thor sofresse algum dano irreversível, mas Loki não podia deixar de se divertir com o universo colocando a cura e a oportunidade de salvar tal vida importante nas suas mãos, assim como aconteceu semanas atrás com o terráqueo Peter Parker.

Enquanto providenciava uma cura para seu querido irmãozinho se permitiu refletir diante do olhar atento de Frigga sobre a possibilidade de estar fazendo uma grande merda, qualquer uma de suas ações no passado podem alterar o que levou a seu futuro de maneira catastrófica, assim como ter acabado de interferir no sequestro de sua família pode de alguma forma impedir que algo decisivo aconteça. A linha temporal era algo bem sensível para qualquer um que ousasse se colocar fora de seu próprio tempo e mesmo que não tenha sido por sua própria culpa que estava naquele lugar nada o impedia agora de causar um grande desastre por mais que este por muito tempo pareça imperceptível.

Ele tomou a decisão de que faria o possível para sair dali e voltar para onde deveria estar, mesmo que isso causasse danos graves. Na pior das hipóteses teria que se dedicar a encontrar mais uma vez a joia do tempo, voltar este tempo no local em que apareceu primeiramente e levar a si mesmo até a sua própria linha do temporal, desfazendo assim qualquer possível desgraça.

Uma agradável luz verde saiu da ponta de seus dedos enquanto agia no estomago do rapaz, havia localizado o parasita, Thor se remexeu incomodado e Loki o mais rápido e delicadamente que conseguiu fez com que a causa de todo aquele desconforto retrocedesse, voltasse pelo caminho que percorreu, subisse pela faringe e saísse pela boca do herdeiro do trono de Asgard. O corpo infantil pendeu confortavelmente para o colo do estranho, agora podendo enfim desfrutar de um sono tranquilo.

- Talvez tu devesse estudar sobre esta criatura para que algo assim não volte a acontecer. - Ele conjurou um frasco de vidro e aprisionou o animal lá, entregando-o para a princesa logo depois. - Ele detestará o calor, então recomendo que o mantenha congelado até que finalizeis teus experimentos.

- Obrigada, Meili.

O príncipe nunca havia notado o quanto aquela mulher lhe fazia falta até vê-la ali em pé em sua frente, o agradecendo e sorrindo de forma tão calorosa e acolhedora que até mesmo aquele maldito reino lhe pareceu mais com um lar. Foi preciso que controlasse o impulso de abraça-la ali e agora, então apenas sorriu cordialmente sentindo os bracinhos do pequeno loiro lhe envolvendo com carinho e mesmo que ele não soubesse o que estava fazendo foi o que faltava para que Loki se sentisse completamente acolhido.

O deus mentiroso da trapaça os amou durante tempo demais para que negasse esses sentimentos as figuras mais importantes de seu passado.

(…)

Frigga era uma mulher de palavra, portanto o reino acolheu Meili como se ele fosse um amigo de longa data e sempre que as pessoas o viam em algum lugar não hesitavam em cumprimenta-lo, agradece-lo e as vezes até mesmo presenteá-lo. Obviamente ele não deixava de ser vigiado e sabia que todos no castelo buscavam encontrar sua real origem, mas enquanto Odin estivesse vivo não havia ninguém que os preocupasse realmente como uma ameaça.

Por falar no futuro rei, não passou despercebido pelo viajante do tempo que ele não estava em Asgard há muito tempo. A guerra contra Jotunheim ocupava a maior parte de seus dias e nada parecia agrada-lo mais do que mostrar sua grandeza e superioridade, assim como aumentar a sua gloria. Loki as vezes ficava em dúvida sobre qual Odin detestava mais, o conquistador ou aquele que costumava chamar de pai.

Conhecer Borr foi surpreendentemente incrível, o velho asgardiano por mais que muitos julgassem ultrapassado e caduco era possivelmente o homem mais sábio que o príncipe já teve o prazer em conversar naquele reino. Seu filho se tornou mais forte, mais popular, mais admirado e temido que ele, mas mesmo assim o rei se recusou a lhe entregar a coroa de Asgard por todos aqueles anos, continuou a governar mesmo que o que mais desejasse fosse ir embora do reino de uma vez por todas e por mais que sentisse dificuldade até para subir escadas não desistiu de continuar em seu posto firme e forte (não tão forte assim, mas o povo não precisava saber disso). O idoso era uma presença extremamente agradável, talvez todos os asgardianos concordassem com isso e por essa razão jamais tentaram algo contra ele afim de colocar o primogênito logo em seu devido lugar.

O mais importante era que Borr gostou muito de Loki em todos estes dias deste que eles se conheceram, de verdade, talvez até mais do que do o que sentia pelo próprio filho. O velho era muito bem-humorado, compreendia e se divertia com quais quer que fossem os diferentes tipos de brincadeiras e adorava pregar pegadinhas em seus súditos. "Eu estou vivo a tempo demais para me importar com o que eles vão pensar, dar boas risadas é um ótimo remédio." Frigga costumava dizer que Meili foi a melhor coisa que aconteceu com o rei nos últimos milênios, era muito difícil para ele se manter em solitário em sua posição, quase como se não tivesse mais direito nenhum a continuar a governar com alguém como Odin pronto para substitui-lo, por muitas vezes ele foi visto apenas como um lunático pelo trono malditamente persistente.

Em Loki o rei viu um amigo que sabia fazer as melhores graças que já pode assistir, o feiticeiro ouvia os sussurros que diziam que até mesmo a aparência do homem melhorou desde a chegada do estranho e isso contribuiu para que ninguém de fato quisesse se livrar da pessoa que salvou o menino Thor. Muitos temiam que os dias do rei estivessem (finalmente) chegando ao fim, apesar de claramente preferirem Odin todos queriam o bem daquele que os serviu durante tanto tempo. Borr infelizmente achava o mesmo.

Havia uma tristeza bem escondida em toda a Asgard, era visível que a população ainda lamentava sobre uma brusca mudança que ocorreu antes do pequeno príncipe nascer e não foi preciso de muito para que o asgardiano adotado associasse isso ao banimento de Hela, fato que aconteceu apenas alguns anos antes do menino vir ao mundo, porém ninguém comentava sobre, estavam decididos a fazer com que ela fosse esquecida e as novas gerações não recorressem a algo semelhante.

Lhe partia o coração ver como Frigga carregava esse peso nas costas, ela se culpava sobre o que a filha se tornou, ajudava a governar mais do que deveria devido a constante ausência de seu marido, treinava pessoalmente a criança de quatrocentos anos e todos os dias ia até a Bifrost olhar para a imensidão que era o universo. Por mais que todos soubessem o que ela realmente queria indo lá ninguém nunca ouviu um único pedido sobre a deusa da morte vindo da mulher.

Loki consumava preparar chá para ela quando sentia que o que ela mais desejava era companhia, ele contava histórias sobre sua vida, umas verdadeiras e outras não, sempre lhe emitia dados sobre quem realmente era, as vezes exagerando sobre certos ocorridos, mas em todas as ocasiões arrancava gostosas risadas e aquele sorriso maravilhoso voltava a se estampar em seu rosto. A princesa confiava em si, por pura influência de seu sogro, mas confiava e passou a amar cada momento que tinham juntos, por vezes o viajante do tempo pensava flagrar no rosto dela o mesmo carinho que ela lhe dirigia sempre que lhe via na época que o considerava seu filho. A vida na família real realmente se tornou melhor.

Tudo bem, as vezes o deus ainda tinha vontade de jogar o pequeno irmão de um penhasco, mas ele era fofo demais para isso e agia como se Meili fosse a criatura mais sensacional que já conheceu, ele adorava ver esses momentos de idolatria por parte do futuro deus do trovão, então por enquanto nenhum herdeiro escorregaria acidentalmente e acabaria morto em um acidente fatal. Talvez o príncipe voltasse a pensar nesta possibilidade caso o menino parasse de roubar bolinhos da cozinha para comerem escondido com o rei, Frigga os mataria se soubesse disso mas eles eram bons em guardar segredo.

As coisas só começaram a piorar e regressar para casa só voltou a ser o seu principal objetivo quando Odin retornou ao seu reino. Houve uma grande festa, todo o povo estava extremamente contente com a presença do herdeiro entre eles, mas o grandioso príncipe apesar de agradar a todos com suas máscaras que sempre passavam despercebidas e mostrar sua suposta alegria ao povo no ponto de vista do deus mentiroso não estava nada feliz. Meili recebeu os agradecimentos do homem publicamente, o que convenceu as pessoas que ele também o aceitou e que se sentia imensamente grato por ele ter salvo aqueles que todos devem tratar como seu primogênito, a realidade infelizmente era bem diferente disto.

Loki sabia que Odin o odiou assim que ouviu o primeiro relatório que lhe fizeram sobre as semanas em que o estrangeiro passou em Asgard, ele sentia a raiva do deus em suas costas sempre que este lhe avistava de longe, com certeza não estava nada satisfeito com o carinho que o estranho conquistou de seu pai, filho e de sua esposa enquanto ele estava fora arriscando sua vida na guerra. O deus da trapaça não poderia estar com o ego mais inflado, afinal o todo poderoso herdeiro do trono sentia-se ameaçado por ele justamente quando não estava tentando fazer nada de errado.

Frigga parecia ter percebido o mesmo e ria junto de Meili da cara que seu marido sempre fazia quando sabia que ambos estavam juntos, para a mulher seu novo amigo não passava de nada além de uma boa companhia, era quase um absurdo para ela que ele sentisse ciúmes de alguém que a princesa acabou de conhecer. Thor não entendia muito bem a razão do mal humor de seu pai e se sentia magoado por ter sido afastado do mesmo quando quis contar das coisas incríveis e engraçadas que o estrangeiro estava fazendo, desde de então se isolava constantemente no jardim da mãe, lhe doía muito que o seu maior herói negasse sua aproximação e o príncipe realmente não parecia fazer muita questão de ter o menino por perto. Não sabia que era possível que sua raiva pelo homem aumentasse ainda mais, isto até ver como ele afetava negativamente sua família.

(…)

Borr não estava bem e parecia pior desde que Odin requisitou a pessoa que mais o fazia rir para a guerra, ele definitivamente não queria ser deixado sozinho no castelo outra vez, mas no dia seguinte Meili partiria para Jotunheim e não havia nada que pudesse ser feito. Na noite de sua despedida os dois se reuniram no quarto do rei e se aconchegaram perto da lareira, servidos com uma bandeja cheia de bolinhos prontamente contrabandeados da cozinha pelo loirinho que agora dormia confortavelmente na cama de seu avô. Parecia que o rei tinha algo muito importante para lhe dizer, porém naquele dia em especifico parecia que até respirar se tornou difícil para ele.

- Me parece que Morte lembrou-se de vir buscar-me... - Ele comentou com um sorriso sapeca no rosto, não estava amedrontado, apesar de sua visível dor estava realmente contente. - Estou cansado, muito cansado, mas queria viver o suficiente para que pudesse ver tú cresceres, Loki. - Um repentino assombro passou pelas feições do mais novo, como ele sabia seu verdadeiro nome? - Não faças esta cara, rapaz. A idade não me tornaste tão tolo assim, achaste mesmo que eu lhe deixaria andar livremente em meu reino sem perturbaste com perguntas sobre tua origem e vida caso já não soubesse exatamente quem tú eras? - O velho deu uma risada gostosa diante a cara de surpresa de seu neto.

- Pareceis que o senhor me pegaste... - Loki sorriu rendido, mesmo que sua mente trabalhasse em um milhão de possíveis momentos que poderiam tê-lo denunciado.

- Quase posso ouvir teu cérebro funcionando, acalmasses! Já sabia sobre tua vinda desde antes de Frigga lhe encontrar, provavelmente não desconfiaria do teu disfarce sem a informação que possuía anteriormente, sua magia não deixas este tipo de rastros quando não és intencional. - Ele comentou em um tom orgulhoso, tentando usar um linguajar mais parecido com o que pessoas no tempo do príncipe estão habituadas.

- Por que tenho a impressão de que o senhor está envolvido com quem me trouxe até aqui? - Loki questionou desconfiado, não mais se preocupando em manter a linguagem que os asgardianos costumavam usar naquele período, aquela poderia ser a resposta que ele precisa para voltar para sua casa.

- Provavelmente porque tú és um homem esperto. Vamos lá, desfaças a ilusão, quero ver teu rosto antes que meu tempo aqui acabe. - Não houve objeções por parte do outro e logo Borr estava encarando a imagem que o mais novo normalmente usava, mesmo que não fosse a verdadeira. - Credo! - O rei exclamou como se estivesse ofendido. - Por que a genética de minha falecida esposa és sempre a predominante? Tive esperanças que este pesadelo acabaria com a influência de Frigga já que Thor pareces mais com ela, mas aí estás tú com os mesmos cabelos negros e olhos verdes.

- Imagino que a vovó tenha sido uma mulher encantadora. - O drama do idoso desapareceu rapidamente ao recordar de sua rainha.

- Ah, não lembro-me do rosto dela, mas sei que sentia-me como se estiveste diante da criatura mais bela do universo sempre que olhava para ela. - Um sorriso sonhador apareceu no rosto do rei. – És bom que não irei encontra-la em Valhalla, aquela megera, com certeza iria empurrar-me em algum precipício assim que tivesse a oportunidade, ela foi para Hel. Eras uma pessoa terrível, mas nos dávamos bem de nossa maneira. - De repente o cenho do idoso se franziu e ele pareceu se irritar. - Ora, não faças-me perder o foco! Preciso dizer-lhe algumas coisas...- ele começou a tossir. - Importantes... antes de partir. - Mais tosse e ele quase se engasgou, mas Loki estendeu a mão para suas costas e iniciou um carinho reconfortante com a ajuda de sua magia, o que pareceu realmente alivia-lo.

Houve um momento de silencio antes que Borr se recuperasse totalmente, lá fora se iniciou uma chuva forte, o mar se agitava e o vento uivava em um som muito triste. Asgard sentia que estava perdendo um grande líder.

- Alguém mais sabe sobre mim? - o príncipe perguntou com cuidado, não lhe parecia bom que muitas pessoas soubessem sobre sua verdadeira identidade.

- Somente Frigga, ela notou que teu núcleo magico eras demasiado parecido com o dela para que fosse coincidência, minha nora és uma mulher realmente inteligente. - Sua voz soou fraca e distante. - Preciso lhe pedir que mantenha a minha imagem viva aqui no castelo, até mesmo leve-me a batalha se fores necessário, não confio em meu filho o suficiente para lhe entregar o trono, mesmo após todos estes anos... - Borr parecia um tanto mais abalado do que segundos atrás.

"Odin já deveria ser rei há muito tempo, porém eu não consegui deixar minha querida Asgard nas mãos dele, sempre tive esperanças de que algum dia uma mudança aconteceria, mas apenas vi o meu primogênito piorar mais a cada dia. Ele sempre foi extremamente ganancioso e egoísta, nunca se importou em machucar as pessoas para conseguir o que queria. O casamento com a tua mãe foi um arranjo feito a muito custo, ela sempre mereceu mais do que um título que não lhe traria felicidade e um homem que usasse o corpo dela, mas então Hela nasceu e pela primeira vez vi o coração do meu filho se amolecer, quando a pequena cresceu senti que ele realmente estava aprendendo a não somente a amar aquela que seria a nova herdeira mas também a mulher que a trouxe ao mundo. A infância de minha neta foi uma das épocas mais felizes de minha vida, porém como tudo também acabaste. Hela alimentava os desejos ambiciosos de teu pai e eles se entendiam mais que perfeitamente nesse assunto, partilhavam do mesmo sonho e eram uma dupla perfeita. Não consegui evitar que os tempos de conquista começassem, aliás nunca consegui impedir muitas coisas vindo dele, entretanto todas as minhas interferências fizeram ao menos com que não fossemos extintos por conta das loucuras daqueles dois. Meu posto como rei sempre foi um empecilho para que meu filho fizesse tudo o que queria. Foi então que rebeldes do planeta que se tornou abrigo dos pais, irmãos e sobrinhos de sua mãe atacaram a família dela pouco tempo depois de conseguirmos os nove reinos, ninguém que Frigga conhecesse naquele lugar sobreviveu e isto desencadeou em tempos de muita dor aqui no castelo. Ninguém ficava feliz vendo a tristeza da amada futura rainha e até Odin foi afetado pela magoa dela, ele partiu atrás das joias do infinito para trazer as pessoas que ela amava de volta e conseguiu todas as seis, porém o poder cobrou seu preso e quando a manopla ficou completa ele se tornou cego com todo aquele poder, se tornou novamente um ser horrível e se esqueceu de sua compaixão. Frigga ficou furiosa quando viu no que o marido havia se tornado e o confrontou na intenção de que ele se livrasse daquelas pedras, ela sabia que aquilo desencadearia em mais desgraça, mas como já era esperado meu filho não ouviu e se zangou com ela." Haviam algumas lagrimas acumuladas nos olhos do rei. Por curiosidade, ele se adaptou rapidamente ao que sabia ser o novo linguajar dos asgardianos.

"Odin a matou. Não foi proposital, ele não tinha controle do poder que possuía e quando se deu conta do que estava fazendo ela já havia virado pó. Aquela foi a vez que mais vi meu menino se arrependendo de algo e talvez foi a primeira vez que ele se tornou consciente das consequências que ter tamanho poderes trazem, meu filho a trouxe de volta pouco tempo depois, assim como trouxe a família dela e todos os inocentes que morreram por conta da gloria de Asgard até aquele dia. Nunca mais as joias o influenciaram de alguma forma e ele passou a usa-las apenas quando fosse estritamente necessário, fui lavado a pensar que ele havia se tornado finalmente um homem digno de ser rei e quase estive pronto para descansar. Mas Hela não aceitou a repentina mudança no comportamento do pai, ela não entendia e se voltou contra ele, não queria parar de expandir nosso império agora que estavam em seu auge, ela sabia que todos os povos se ajoelhariam perante a nossa força se Odin quisesse. Foi a atitude dele com ela que me fez mudar de ideia, entenda... meu filho ainda estava em posse da pedra da mente, ele poderia convence-la a mudar e não fez isso. Ele a baniu e fez com que nosso povo se esquecesse quase que completamente dela como punição, Hela não merecia perder tudo o que tinha, ela foi ensinada desde nova de que aquilo era o certo e ninguém se preocupou em conversar verdadeiramente com a deusa para tentar ensina-la sobre aquela nova vida, simplesmente a atacaram por não concordar com um ponto de vista completamente diferente para si. Não tive tempo e nem forças para impedir o que aconteceu." As lagrimas não eram mais contidas.

"Tantos anos depois e Odin já havia espalhado as pedras novamente pelos cosmos quando Jotunheim atacou Midgard. Tu não tens ideia de como eu quis dar umas belas palmadas no meu filho por causa do que ele fez em seguida. Agora como protetor dos reinos ele levava como um dever protege-los e estabelecer a paz, que maneira melhor de faz isso se não declarando guerra ao povo que ousou invadir um planeta? Muito justo esse meu garoto. Ainda não acabamos com essa baboseira até hoje e uns meses atrás uma moça muito simpática de Midgard veio até o castelo, nocauteou todos os guardas e exigiu que parássemos de atacar o reino dos gigantes, Odin não estava aqui, fui eu quem a recebeu. 'Nos de Midgard somos plenamente capazes de nos defendermos de nossas ameaças sozinhos, não queremos que massacrem todo um povo por uma coisa que poderíamos ter resolvido imediatamente'" Borr falou por último imitando a voz de uma mulher histérica.

"Nem eu acreditei nela primeiramente, mas isso mudou logo que reconheci a joia do tempo no amuleto que ela carregava no pescoço. Deixei então que ela me explicasse sobre suas forças e seu próprio exército e por fim concordamos que algo deveria ser feito em relação a guerra, mas que por exigência minha o povo dela não deveria se envolver mais do que ela já estava fazendo. Nosso acordo foi que ela encontraria uma linha do tempo em que Odin se transformaria em um 'benevolente rei' e que faria as modificações necessárias para que este se tornasse o nosso futuro, mas para isso a mulher acabou percebendo que precisaria trazer um de meus netos ao nosso presente e que somente ele tornaria tudo aquilo que queriamos possível." O folego o idoso foi desaparecendo com o fim da história, o tempo lá fora se tornou ainda mais desesperado e Loki entendeu que a explicação levou todos os últimos minutos daquele homem.

- Não sou a melhor pessoa para trazer a paz, mas lhe prometo que darei o meu melhor. - O príncipe sussurrou sem deixar que seus sentimentos transparecessem por sua voz e Borr lhe dirigiu um pequeno sorriso orgulhoso antes de fechar os olhos e seu corpo se transformar no belo brilho que o levaria diretamente a Valhalla.

(…)

Quando Meili foi até a Bifrost ao lado de Odin acabou sendo uma surpresa para ambos que o rei, visivelmente mais saudável e mais disposto, junto de Frigga e do pequeno Thor estivessem lá para se despedirem. Obviamente não foi pelo herdeiro do trono que eles estavam lá, afinal já haviam dado os seus "até logo" para ele e sim pelo estrangeiro que causara tantos bons momentos para eles nas últimas semanas.

O menino, amedrontado pelo olhar de seu pai, relutou antes de se aproximar com o presente que queria dar ao novo amigo. Foi com espanto que Loki reconheceu o capacete de chifres retorcidos nas mãos do pequeno, aquele era um dos principais símbolos dos guerreiros de Asgard e dá-lo para o viajante do tempo significava que ele era completamente aceito como um deles. Ignorando a visível reprovação do príncipe glorioso Meili se ajoelhou diante do loirinho e abaixou sua cabeça para que ele fizesse a sua vontade. "Não vá se acostumando, Thor. Isto não vai acontecer de novo." pensou com um sorriso divertido no rosto e se ergueu ao ter o capacete devidamente colocado em sua cabeça, antes de se dirigir a Frigga fez questão de bagunçar os cabelos da criança como forma de demonstrar o seu agrado e isto arrancou um grande sorriso feliz e banguela por parte dela, porém agora sua mãe era o alvo de toda a sua atenção.

O estrangeiro sabia que teoricamente não era obrigado a ir para uma guerra que não era sua, mas também sabia que se ficasse ali o herdeiro lhe tiraria toda a confiança que conquistou do povo, assim como acabaria sendo expulso sem fazer seja lá o que o universo esperava que ele fizesse. Lutar ao lado de Odin e voltar com vida era como provar que era digno de continuar entre eles, aquele que um dia chamou de pai teria que engolir todos os seus ciúmes e teorias loucas que talvez estivessem um pouco certas sobre Meili estar planejando roubar-lhe o trono, assim como teria que aceita-lo como parte do povo, já que todos o aceitariam em seguida sem hesitação. O principal ponto era que Odin não esperava e nem queria que ele voltasse, portanto já era de se esperar que ou seria mandado em uma missão suicida ou ele próprio daria um jeito de garantir que só o seu corpo retornasse, que rei mais amável este homem seria, não é mesmo? Loki planejava se livrar de um dos olhos do herdeiro, já que pelo o que as histórias contam foi depois disto que ele passou a ver a outra metade da pintura e abandonou completamente os seus desejos de conquista e de guerra.

Frigga estava belíssima naquele dia, mais do que nunca ela lhe lembrava a mulher que mais admirou em toda a sua vida e quando ela abriu seus braços para recebe-lo não esperou por nada para ir até ela e envolve-la em um abraço carinhoso. Realmente sentia sua falta, lamentava imensamente pelas últimas palavras que disse a ela em seu último dia de vida e não se arrependia nem um pouco do tempo que passou ao seu lado nestes últimos dias.

- Não importa o que eu lhe diga no futuro. - Ele sussurrou rente ao ouvido dela. – Tu sempre serás a minha mãe. - E a apertou com um pouco mais de força, sendo retribuído da mesma maneira diante do olhar nada feliz de Odin.

A imagem de Borr carregava lagrimas mal contidas em seus olhos e quando foi a vez dele dizer adeus era como se não soubesse o que falar, era interessante como aquele rei conseguia passar uma imagem de poder tão forte que amedrontava todos os seus inimigos, mas ao mesmo tempo também lembrava um idoso sensível e amável. Apenas aqueles que cresceram em Asgard e o acompanharam desde que eram crianças conseguem ver além da aparência indestrutível, só eles veem o homem bondoso com inúmeras fraquezas que ele realmente era, ninguém negava que ele era o Pai de Todos naquele tempo.

- Não ouses morrer, meu amigo. - o rei disse segurando firmemente o ombro do neto, por mais que para muitos aquele gesto significasse algum tipo de apego ou carinho adquirido pelo estranho, Loki sabia que se o verdadeiro Borr estivesse ali para lhe dizer aquelas palavras seria porque o futuro do reino dependia do que ele faria em Jotunheim e não porque estava preocupado com a sua segurança. - E tu. - Ele olhou para o filho com uma sobrancelha arqueada. - Pares de olhar-me desta forma, porque eu diria algo assim para ti se tenho certeza de que vais voltar?

Foi com um sorriso divertido por parte de Meili e uma carranca por parte de Odin que os dois partiram pela Bifrost, a família acenando para ambos foi a última visão que tiveram daquele reino e os dois partiram com a certeza de que quando estivessem de volta a Asgard tudo estaria muito diferente do que agora quando a deixaram.

Estar no reino gelado não trazia boas recordações a Loki, mas pelo menos enquanto estivesse ali não teria que medir suas palavras ou agir como o príncipe perfeito que todos tiveram a ilusão de que ele era nas últimas semanas, ali, longe de qualquer pessoa com que ele se importasse minimamente ou de qualquer um que fosse conveniente agradar ele era novamente o deus da trapaça e mais uma vez estava em suas mãos manipular os acontecimentos para que um objetivo maior fosse alcançado.

Não passou despercebido para ninguém que Meili não usava trajes adequados para um planeta como aquele, afinal não era comum que alguém conseguisse sobreviver a temperatura daquele lugar sem se preparar com grossas vestes feitas de peles pelos melhores artesãos de Asgard, mas não ouve questionamentos em relação ao comportamento do estrangeiro. Nenhum dos homens do herdeiro gostava dele ou possuía uma mera confiança, não se importavam se ele enfrentaria o frio congelante de Jotunheim, isto até mesmo era a causa algumas risadas entre eles.

Havia um acampamento asgardiano em uma rara planície levemente afastada do terreno montanhoso em que os gigantes viviam, mesmo que a maior parte do exército se mantivesse em casa e só aparecesse durante os confrontos, haviam aquelas pessoas que não descansavam até garantir que nada sairia do controle de seu líder. Eram eles que se arriscavam para adquirir o máximo de informações possível do reino inóspito, eram quem bolavam as estratégias e eram os que mantinham a crescente pressão sobre o povo que ali vivia. Estar ali já era como afirmar para os nove reinos que o estrangeiro era sim digno de ser um deles, pois só os mais aptos entre os seres que servem o herdeiro eram selecionados apara agirem sobre aquelas condições.

Conforme caminhavam entre as cabanas era possível ver pessoas feridas, bêbados, alguns homens tentando desesperadamente manter uma fogueira acessa, outros preparando uma grande panela de sopa quente que se tornaria o jantar dos soldados antes que congelasse e guerreiros se preparando para saírem em suas devidas missões, todos paravam o que estavam fazendo para reverenciar o futuro rei quando o avistavam. Porém na tenda que mais se parecia com uma casa e que era para onde estavam se dirigindo havia um único homem rodeado de mapas e livros, mas foi apenas quando entraram de fato se tornou possível perceber que aquele era Tyr, o deus da guerra, aquele que ganhou esse título do próprio Odin ao distrair Fenrir, o lobo de Hela, para que este fosse capturado e que perdeu a mão no processo quando o animal se deu conta do que estava acontecendo. Loki as vezes não entendia por que as pessoas faziam coisas assim e ganhavam títulos importantes enquanto ele ganhou sua fama de mentiroso e traidor em parte por fazer o mesmo, afinal o deus sabia que Fenrir foi um presente do herdeiro e que foi Tyr quem ajudou a princesa a cuidar do lobo, a treina-lo e ensina-lo sobre quem deveria obedecer, quando o ele chamou sua atenção o animal a deu de bom grado pois considerava o ser a sua frente como um amigo e aliado, mas foi tarde demais quando percebeu que estava sendo enganado e acabou morto pouco tempo depois.

- Oh, já retornaste Odin! - Tyr anunciou sério e levantou seu olhar dos papeis que analisava para ver de melhor forma seu príncipe e amigo. Não pareceu meramente surpreso com a presença de um desconhecido.

- Vejo que meus exploradores têm feito um bom trabalho. - Odin comentou ao analisar os mapas que estavam ao seu dispor. - Este és Meili, o homem de quem lhe comentei. - Ele falou gesticulando para Loki como se não fosse alguém importante. - Podes aproximar-se. - O deus trapaceiro foi sem esperar outro convite, mesmo que revirasse os olhos em descaso.

Tyr passou a avaliar o estranho com mais interesse e com bastante curiosidade, como se procurasse algo especial em sua aparência, quanto isso o viajante do tempo aproveitou para gravar mentalmente todas as informações que aqueles asgardianos lá fora coletaram e que agora estavam em seu campo de visão.

- Tu tens razão, o feitiço que ele usa para esconder-se és melhor do que um que Frigga poderia produzir. - Concluiu o deus da guerra quase surpreendido e Loki não demonstrou nenhuma emoção por Odin saber que estava escondendo sua verdadeira aparência. - És bom que estejas disposto a lutar conosco, rapaz, és a primeira vez em muito tempo que alguém impressiona este teimoso. - Pela primeira vez o homem abriu um grande sorriso e o herdeiro pareceu levemente constrangido, o que era novo para si. - Um ser misterioso que apareceu do nada, salvou o príncipe Thor, conquistou a confiança do rei e de Frigga, ganhou a boa vontade do povo e que tem coragem de provocar o Odin! Admito que pensei que os boatos fossem falsos, mas tu até mesmo possuis um controle de magia invejável. És exatamente o que estávamos precisando no momento!

Definitivamente seria mandado para uma missão suicida, já não havia mais nenhuma dúvida sobre isso. Porém a parte sobre ter impressionado o herdeiro lhe deixou com o ego inflado, foram pouquíssimas as vezes que o pai se surpreendeu com o que quer que fizesse e isso apenas mostrava que mesmo que não gostasse de Meili Odin via nele potencial o suficiente para se tornarem verdadeiramente aliados. Teria anotado isso em seu diário como uma memória feliz se ainda fosse criança e tivesse um diário.

- Meu pai pode não estares em juízo perfeito, porém nunca deixou que um inimigo se aproximasse dele, se o velho confia em tu, estrangeiro – O herdeiro olhou para aquele que ainda lhe causava desgosto com o mais próximo de um sorriso que conseguiu, estava mesmo tentando deixar de enxergar o homem como uma ameaça. - és porque há algo em tua pessoa que vale realmente a pena conhecer.

- Posso saber qual és o meu motivo de estar aqui? - Loki questionou olhando de Tyr para o Odin, eles com certeza planejavam que alguém se infiltrasse entre os gigantes pelo que insinuaram sobre suas habilidades, mas era preciso ter um ótimo plano em mente para pensar que seus adversários confiariam em quer que fosse.

- E ainda por cima estás sedento por tua missão... - O deus da guerra parecia mais gostar de Meili a cada segundo que se passava, entretanto foi o príncipe glorioso quem se dispôs a explicar.

- Existe uma gigante que estás disposta a qualquer coisa para salvar o filho, o garoto aos olhos do povo e do pai és apenas uma vergonha por seres tão fraco e tão pequeno, mas apesar de todos o desprezarem a mãe quer a todo custo que ele consiga sair do planeta e que tenha uma vida digna em algum outro lugar. Por sorte uma velha amiga minha, Grid, veio até nós com o apelo da mulher e se chegarmos a um bom acordo podemos convence-la de que vamos levar a criança e entrega-la a uma boa família entre os nove reinos, porém, és claro, em troca elas terão de nos dizer como chegar ao principal reduto de todo o reino, que és onde guardam a Caixa dos Invernos Passados, a mais importante das armas deste povo.

- Não hás a menor possibilidade destas jotuns aceitarem condições como estas. - O feiticeiro afirmou com certeza. - Imagino que se um dia consideraste esta mulher como tua amiga ela és ser minimamente inteligente para saber que não se troca uma arma lendária por um menino fraco e sem utilidade, tu no mínimo deveria ofertar que ele será criado no palácio como teu próprio filho, nem uma mãe daria tal coisa em troca de uma posição tão insignificante para um filhote. - Tyr pareceu se agradar quando o ouviu se referindo aos gigantes como animais, Odin por outro lado pareceu olha-lo com outros olhos, como se agora pudesse ver certa semelhança entre o estrangeiro e si, era de se imaginar que ele já esperasse uma resposta a esta altura.

- Então surpreenda-me e as faça aceitar, no fim irão estar mortas de qualquer forma. - Ele deu de ombros, mas estava satisfeito, sabia que seu mais novo aliado conseguiria.

(...)

Grid estava esperando por sua resposta em uma caverna próxima ao acampamento, ela se camuflava entre a neve com tamanha perfeição que se não se tratasse de um grande deus a procura-la jamais teria sido possível se aproximar sem que ela o percebesse. A princípio a giganta hesitou e não acreditou em suas palavras ou intensões, a mulher queria o próprio Odin para barganhar, era quase um insulto que lhe mandassem um estranho completo.

- Saias daqui asgardiano! Não penses que irei negociar com qualquer um entre vós! Como teria a garantia de que não vão nos enganar? - ela parecia desnorteada e perdida, estava com medo assim como a maior parte de seu povo e no entanto diferente de todos os gigantes havia se arriscado a se aproximar, o desespero tornava as pessoas mais corajosas. Grid acreditava que seria morta por aquele que o herdeiro mandou a seu encontro e por mais que um dia tenha sido uma incrível guerreira ela havia definhado com a guerra, estava magra ao extremo e fraca demais para resistir a qualquer investida de seus inimigos.

Loki sabia que ela poderia ser teimosa o suficiente para morrer de fome a confiar em alguém que pertencesse ao reino dos conquistadores que tentavam destrui-los, portanto para abaixar a guarda dela de uma vez por todas e não perder tempo tentando convence-la de que não tinha vontade de feri-la no momento o príncipe desfez toda e qualquer magia sobre si. Grid já estava indo embora amedrontada quando seu faro experiente lhe indicou que não havia mais nenhum feitiço sobre o ar e ao olhar para trás se deparou com o que parecia ser uma criança jotun, mas percebeu que era o mesmo homem que tentava conversar consigo anteriormente e um soluço ficou preso em sua garganta quando compreendeu o que aquilo significava.

- Não fui mandado aqui por acaso, eu sou um mestiço, o que provavelmente me deixou o mais próximo possível de ser a vergonha e o desprezo de teu povo. Porém me parece que o tal menino não estás em uma condição muito diferente da minha, és por isso que estou aqui. Sou a prova de que mesmo pessoas defeituosas como eu e ele temos chance de viver em outro lugar nos nove reinos. - Ele conjurou uma boa porção das raízes que entre os gigantes eram uma das mais saborosas e nutritivas refeições. - Vamos, coma, não vais conseguir se manter em pé por muito tempo se não consumir algo.

Lá fora a nevasca parecia diminuir aos poucos e ela sabia que o homem tinha razão, já fazia tempo demais desde a última vez que pode ter uma boa refeição e por isso pegou a comida que lhe foi oferecida, engolindo-a com mais rapidez e comoção do que seria o normal.

- Como disse que eras o teu nome, rapaz? - a fêmea se sentou no chão, com seus generosos oito metros de altura esta forma era a única forma de ficar à altura dos olhos do outro.

- Meili, de Vanaheim. - Loki sentia que os grandes olhos da criatura a analisavam nos mínimos detalhes. - Como disse antes gostaria de acompanha-la até o acampamento em que a criança se encontra para analisa-la e verificar se ela está em condições de sobreviver ao feitiço que permitirá que ela tenha uma vida sobre altas temperaturas.

- Certo... - Ela parecia esperançosa - Quando chegarmos lá tu poderás repetir para o povo o feitiço que trouxe estas raízes?

- Claro, não teria nenhum problema quanto a isso. - Ele a ofereceu um sorriso gentil.

- Ótimo! - Grid voltou a se erguer, já havia terminado de comer – Mas terei de levar-te vendado e em meus ombros, não posso arriscar que eles descubram onde estamos.

O deus poderia ter dito a ela que Heimdall era capaz de ver todo o universo e que provavelmente Odin já sabe onde eles estão, mas que por precisar do desespero das mulheres não havia os atacado ainda e que estava os enfraquencendo propossitalmente cortanto todo a acesso que eles poderiam ter a suprimentos. Obiviamente isso faria com que no minimo ela entrasse em panico e escolhesse fugir para alertar seu povo, deixando-o para trás e isso não era algo exatamente agradavel. Sua decissão foi concordar com as condições dela sem mostrar nada em sua expressão que pudesse compromete-lo. Logo sua visão já havia sido bloqueada e seu corpo foi jogado aos ombros largos da giganta que estava ligeiramente mais animada do que quando se encontraram.

Loki podia sentir a neve batendo com força em seu rosto, mas gelo e o frio não incomodavam, pelo contrário o que o deixava desconfortável era a crescente impressão de que cairia a qualquer momento, Grid como qualquer outro gigante era bruta em demasia e mesmo que estivesse tentando ser cuidadosa não deixava de fazer com que o príncipe se mantivesse alerta a cada segundo pelo risco de despencar.

As primeiras horas foram se passando e os sentidos do homem não detectavam nenhuma forma de vida jotun por perto, o que dava sempre a sensação de que demorariam muito para começarem a se aproximarem do acampamento. Seus braços e pernas se inquietavam como se aos poucos nós fossem se formar em seus músculos, porém estava se esforçando para não se mexer mais do que deveria, qualquer coisa estranha poderia causa uma reação nada desejada de sua companhia.

O barulho do vento o distraia, as vezes os movimentos estranhos e repetitivos da giganta o davam a impressão de que ela estava perdida, assim como o som da respiração cansada dela fazia com que pensasse que talvez ela não alcançaria o seu destino sozinha. Por mais que a refeição pudesse ter ajudado Grid ainda estava fraca demais para uma viagem tão longa.

Começava a divagar sobre o que estaria acontecendo em seu tempo enquanto estava ali no passado, pensava que talvez sua noiva estivesse em crise por saber que ela não seria capaz de senti-lo ali, mas quando mais pensava nela mais se preocupava, qual era mesmo o nome de sua monstrinha? As consequências de se manter por todos estes dias em um passado que nunca lhe pertenceu estavam mais aparentes agora, suas lembranças estavam sendo afetadas e seus últimos anos pareciam ainda mais distorcidos. O medo súbito de se esquecer e voltar a toda aquela amargura lhe tomou, sua cabeça doía e por isso forçou a si mesmo para transferir sua consciência até outro lugar para se distrair com qualquer coisa e não perder o controle.

(...)

Enquanto o estrangeiro viajava para longe afim de conquistar a confiança do inimigo, no acampamento asgardiano todos se aprontavam para o ataque que estava por vir, aparentemente os gigantes haviam chegado até onde eles estavam e planejavam pega-los desprevenidos com um ataque surpresa, o que não daria certo e muito menos seria surpresa já que bem antes dos primeiros sinais da aproximações surgirem no horizonte Borr veio pela Bifrost comunica-los do que estava acontecendo.

- Tu não poderias ter me dito isto telepaticamente? - Odin questionou ao pai um tanto confuso, não era comum que o rei desejasse pisar no campo de batalha nos últimos séculos.

- Obviamente poderia. - O idoso respondeu se alongando. – Mas estava me sentindo entediado no castelo e resolvi vir aqui vós liderar, como aliás já deveria estar fazendo. - Ele dirigiu ao filho um sorriso empolgado.

O herdeiro claramente não acreditava no que estava ouvindo, seu pai, o deus que até semanas atrás tinha dificuldades inclusive para respirar agora estava na sua frente dizendo que pretendia comandar um ataque. Ele não duvidava que o rei um dia teve um valor inestimável em campo de batalha, afinal ele ouviu cada uma das histórias sobre os granes feitos dele e cresceu com a constante pressão de ser um deus tão incrível quanto Borr ou até melhor, mas o tempo do velho já havia passado e não havia a menor possibilidade dele conseguir fazer algo útil quando a ameaça chegasse, sendo apenas uma provável distração e nada além de um fardo para todos os guerreiros.

- Ficaste louco? - Havia indignação no tom de voz do herdeiro. - Ir conosco lhe levará a enfermidade, nos liderar lhe dará uma passagem direta para Valhalla!

- Ainda sou teu rei, não sou? Portanto tu não podes interferir na minha escolha. - Ele pode ser a autoridade local, mas não deixava de parecer uma criança emburrada com a expressão que estava fazendo.

Odin suspirou longamente pedindo que quem quer que pudesse ouvi-lo que lhe permitisse ter paciência para lidar com o pai, apesar dele ser irritante, inconveniente, extremamente persistente com as coisas erradas e um velho caduco ainda era parte de sua família portanto era seu dever explicar calmamente que ele NÃO podia liderar coisa nenhuma!

- Escute-me pai, enquanto estivermos lutando não podemos nos preocupar com a tua segurança, muito mais vidas podem se perder se meus homens estiverem focados em proteger o líder no lugar de destruírem a ameaça. Sei muito bem que temos guerreiros plenamente capazes de aniquilarem um exército enquanto protegem os mais fracos, mas estes homens não estão aqui e a tua vida tem mais valor para qualquer um de teu povo do que a deles próprios, achas mesmo que eles vão lutar com as melhores capacidade que tiverem se ficarem pensando se tu estas machucado ou não? - Borr se encolheu levemente, sabia que era a verdade. - Eu lhe peço, vá para casa!

- Eu poderia ao menos ficar em um lugar seguro e assistir... - Não havia jeito, aquilo possivelmente era o melhor que conseguiria convencer o velho teimoso a fazer.

- Tudo bem. - Odin deu-se por derrotado. – Mas não ajas por impulso, não deixes que saibam que estás aqui e em hipótese nenhuma saías de teu esconderijo.

O enorme sorriso alegre de seu pai sempre fazia as coisas valerem a pena, se enganava quem pensava que o herdeiro não amava o homem, mas não era como se ele deixasse seus sentimentos acima de suas ambições. O príncipe glorioso guiou o rei até o canto mais remoto do acampamento e lançou alguns feitiços para que ele pudesse ter a melhor visibilidade, deu também conforto e a melhor proteção que aquele lugar poderia oferecer. Ninguém notaria a presença do deus lá dentro e também não conseguiriam entrar sobre nenhuma hipótese, afinal os únicos que possuíam a permissão do herdeiro para fazer tal coisa eram Borr e o próprio Odin.

Logo que o mais velho foi deixado em segurança os gigantes chegaram e o príncipe foi recebe-los como eles mereciam, montou em seu lendário cavalo de oito pernas e partiu a toda velocidade para enfrenta-los liderando os seus fiéis soldados. Um rosto grande e conhecido chamou sua atenção, em meio a toda a multidão de corpos que se formava se encontrava Laufey o rei de Jotunheim, seu principal inimigo dentre todos os gigantes de gelo. Não foi preciso mais do que isso para que o alvo de Odin fosse demarcado e todos ao redor deles sentiram as intenções de seus líderes, logo deram espaço para que eles se encaminhassem um ao outro e se enfrentassem, os guerreiros se afastaram até chegarem em uma distância segura que que não interferiria na luta dos dois e voltaram a se atacarem.

Jotunheim tremeu quando a lança do herdeiro de Asgard se chocou com o machado de guerra do rei sobre aquelas terras.

Não era possível distinguir quem estava obtendo vantagem naquele confronto, corpos de ambos os lados caiam na neve, sangue manchava o puro branco e bons homens e gigantes eram perdidos a cada minuto. Borr observava os horrores da guerra de seu refúgio, estava atento a todos os detalhes e foi sua posição privilegiada que lhe permitiu ver o que estava por vir. Alguém empunhava a Caixa dos Invernos Passados no topo do monte mais próximo. O desejo daquele jotun poderia retirar a vida de todos os asgardianos lá em baixo e ninguém poderia ver isso exceto ele.

"Que se dane a proteção!" - O rei saiu de seu esconderijo e ampliou a sua aura ao ponto de que todos o notassem, até sentiu um certo divertimento quando alguns entre os inimigos fraquejaram ao contemplarem a imagem do legitimo líder de seus adversários.

- SE PROTEJAM SEUS IDIOTAS! - Berrou para que então seu povo notasse o perigo, uma gigantesca avalanche estava a metros de alcança-los. Ninguém teria tido tempo de salvar a própria vida se não fosse a intervenção do mais velho.

Houve momentos de silencio antes que o rei conseguisse ver seus soldados tendo sucesso em se desenterrarem, ao mesmo tempo em que os gigantes já mais acostumados com coisas assim tinham vantagem e se reagrupavam longe dali, Borr ajudou cada um de seu povo a encontrarem seus parceiros e a eliminarem os jotuns retardatários. Muitos estavam surpresos, bastante surpresos, mas muito felizes em verem o querido velho caduco ali com eles.

Odin não estava mais a vista, assim como Laufey, ambos haviam desaparecido na imensidão branca. Agora todos os asgardianos encaravam o seu verdadeiro líder em expectava, sobre qual atitude tomariam. Com um suspiro e procurando pelo homem que portava a tão perigosa arma o rei começou a agir, os colocou em formação e ordenou o próximo ataque ao inimigo, conforme os guerreiros lutavam e agiam conforme os seus comandos ele observava tudo ao seu redor na esperança de localizar o filho.

Os minutos se passaram mais lentamente do que deveriam e não havia sinal de Odin em lugar nenhum, a luta continuava e as pessoas apenas não desviavam sua atenção para protegerem o rei porque era seu herdeiro quem precisava de ajuda. Borr foi se afastando, ele seguia o que parecia ser uma maior concentração atmosférica da tempestade de neve, seus instintos diziam que nada daquilo era comum e por isso apressou seus passos, atravessando seus obstáculos e a própria neve sem nenhuma dificuldade.

Quando chegou próximo a um desfiladeiro foi com alivio que viu o príncipe lá embaixo, mas este sentimento não durou muito tempo, ele afinal lutava com Laufey e o feiticeiro que portava a Caixa dos Invernos Passados ao mesmo tempo, além de ter sido visivelmente ferido pela avalanche que os atingiu a pouco tempo. Não havia sinal do cavalo de Odin e o rei não sabia o que fazer, então por fim se arriscou e usando magia fez um sinal extravagante para chamar a atenção de seus guerreiros. Porém é claro que eles não foram os únicos a notarem sua presença graças ao que ele fez, lá embaixo os lutadores também o perceberam e o feiticeiro não demorou a ataca-lo.

O raio congelante atravessou seu corpo e destruiu parte do chão com o impacto, o que também ocasionou a sua queda pelo desfiladeiro. Seu corpo estava paralisando, mas não era possível dizer o que acontecia ao seu redor já que seus sentidos pareciam ser puxados para outro lugar e haviam destroços do desmoronamento a sua frente, dificultando ainda mais a sua tarefa de descobrir quem estava ganhando.

O barulho estava confuso para si, não conseguia registrar nada, mas sentia muito frio. Só foi possível saber quem havia sido o vitorioso quando Odin apareceu próximo a si, ele carregava consigo uma expressão tão gélida quanto o planeta em que estavam, não parecia reconhecer o homem morrendo a sua frente e também estava ferido.

- Olhe só para ti... - O herdeiro falou, não mostrava nenhum sentimento. - Eu lhe avisei que deverias ficar longe da batalha, tentei protege-lo.

- Meu filho. - Ele falou fraco, estava tão frio, mas ele entendia o que o príncipe iria fazer. - Busques um curandeiro em Asgard... - A imagem tremia em agonia. - Eles podem... eles podem... ajudar.

- Um curandeiro? - Odin fingiu não entender. - Não, eu acho que não, tu desperdiçaste a chance que eu lhe dei. Eu fiz tudo por nosso reino durante a minha vida toda e tu nunca entregou-me o trono que sempre foi meu por direito! Seu tempo já acabou a séculos, Borr. Tu não precisas continuar a resistir a passagem que te levarás a Valhalla. - Ele se abaixou para ficar na altura de seus olhos. - Entenda, estou fazendo um favor para ti não buscando ajuda, Asgard ficará bem em minhas mãos e tu sempre serás lembrado como um herói. - O herdeiro estendeu a mão como se quisesse toca-lo. - Adeus, pai.

A imagem do rei asgardiano desapareceu diante dos olhos do filho e com sua oficial morte a coroa agora se passava para as mãos do príncipe. Ninguém além do atual soberano jamais saberia o que realmente aconteceu naquele dia. Ou assim deveria ter sido se aquela não fosse apenas mais uma ilusão de Loki e se não fosse ele olhando para Odin através dos olhos do pai durante todo esse tempo.

(...)

- Tu acordaste! Que bom, pensei que tinhas morrido. - Grid comentou ao sentir a respiração do mestiço Meili voltando ao normal.

O feiticeiro estranhou momentaneamente onde estava, era raro que ele transferisse o seu controle completamente para uma de suas ilusões. Demorou um pouco para que ele notasse que agora eles estavam montados confortavelmente em alguma criatura estranha, mas que lhe passou uma agradável sensação de proteção.

- Estamos quase chegando, daqui já posso ver o acampamento.

Loki apenas resmungou em concordância, estava com muita raiva para raciocinar direito, Odin lhe julgou por tentar tomar o trono, o condenou por atacar Jotunheim e Midgard e o aprisionou por seus feitos, mas foi ele quem atacou todos os nove reinos primeiramente e que deixou o próprio pai de sangue morrer em sua frente sem fazer absolutamente nada, além de ter saído impune ainda levou a coroa de recompensa e passou a viver como se nada disso tivesse acontecido.

Sua atual vontade era de voltar até o acampamento e destrui-lo por toda a merda que ele já o havia feito passar, por todas as vezes que ele o tratou como lixo por suas escolhas enquanto em seu passado havia feito as mesmas ações e até piores. O Príncipe queria mata-lo ali mesmo já que no futuro ele já estava morto. Agora o deus entendia completamente o que Hela quis dizer com ele se parecer com Odin, o asgardiano adotado agia da mesma forma que o homem fazia quando era mais jovem. Nunca em toda a sua vida Loki sentiu tanto nojo de si mesmo quanto ele sentia no momento.

Seus olhos foram destampados e ele se viu em uma grande cadeia subterrânea de cavernas, era o abrigo daqueles que já não tinham nenhum valor para seu rei, ou seja, os que eram fracos, os que eram muito velhos e os que eram muito jovens. Apesar de serem a parte descartável da população todos eram muitíssimos mais altos que si e pareciam tão abalados que não o notaram ali nem mesmo com todo o barulho que o animal em que ele e Grid montavam fez. A situação em que aqueles gigantes se encontravam era lastimável, só de olhar para eles já era possível notar que não havia mais comida disponível e podia-se imaginar que se ainda possuíam água era porque o maior recurso que possuíam era o gelo e ele obviamente se torna água caso eles consigam aquece-lo. Muitos corpos estavam deitados no chão já com os olhos fechados e o pranto daqueles que se mantinham perto deles só indicava qual eram as suas atuais condições, mais adiante havia uma fogueira fortemente alimentada que provavelmente não se apagaria tão cedo, era lá que eles queimavam os seus mortos.

Grid desviava o olhar, era muito difícil para ela aceitar que realmente haviam chegado naquela condição, já Loki não perdia nenhum detalhe. Desde pequeno lhe foi ensinado o quão cruel aquelas frias criaturas eram, que eles eram ingratos por não aproveitarem a bondade do Pai de Todos, lhe diziam que não haviam nenhum motivo para que eles quisessem se rebelar, que deveriam ser submissos a vontade de seu líder e não reclamarem das guerras porque os jotuns sempre seriam os vilões a causarem elas. Claro, era muito fácil para os deuses colocarem a culpa neles enquanto se banqueteavam nos salões de Asgard, era bem simples menosprezar o ódio dos gigantes enquanto o terreno de seu reino lhe rendia as mais fartas colheitas, ninguém parecia ver que o chão de Jotunheim em sua maior parte era rochoso e não permitia o plantio e que o que conseguiam acumular de alimento era saqueado ou dado somente aos soldados durante cada confronto. Crianças estavam morrendo de fome enquanto os soberanos jogavam os seus jogos de guerra.

Os asgardianos depois que Odin se tornou benevolente até tentaram reparar os seus erros, eles enviavam todos os anos toneladas de alimentos que eram produzidos em Asgard, mas seu organismo nunca os permitiu entender que para os gigantes toda aquela comida tinha gosto de serragem, que apesar de mantê-los vivos nos tempos mais difíceis era fisicamente doloroso comer a comida produzida fora de Jotunheim, os nutria, mas não corretamente e mais prejudicava seus corpos do que ajudava. Frigga havia evitado que seu menino passasse por isso quando entendeu o porque de ele sentir dor sempre que tentava comer, ela o enfeitiçou para que seu sistema funcionasse como o do povo dela e isso nunca mais foi um problema para eles.

Grid levou Meili a que parecia ser a mais aconchegante entre as tendas, não se anunciou ao entrar e simplesmente o arrastou para dentro, ela novamente parecia orgulhosa por ver que ele havia sobrevivido mesmo sendo tão pequeno e foi mais adentro da caverna, deixando-o sozinho com um desconhecido homem que possuía por volta de dois metros, o que entre eles era considerado algum nanico.

- Asgard está sempre nos surpreendendo. - O estranho falou encarando o ser que acabou de entrar. - Nunca pensei que iria ver um gigante menor do que eu. Tu também deves ser um mestiço! - Ele realmente parecia feliz com esta constatação. - Não ligues para ela. - Indicou o lugar por onde a mulher sumiu. - És provável que tua condição a encheste de esperanças, deve ter ido buscar o menino e a senhora mãe dele.

Loki concordou e se aproximou analisando mais homem, ele possuía a pele azulada dos gigantes, mas o cabelo e a barba eram pretos como carvão e a luz agora lhe permitia observar que ele possuía familiares olhos verdes, assim como a estrutura de seu corpo era bem diferente das dos demais e o formato de seu rosto lhe lembrava o de alguém...

- Não apresentei-me ainda, sou Vidar Gridson. - Ele lhe ofereceu um sorriso radiante. - Sou o guerreiro juramentado de proteger o Pequenino, irei com ele para o outro reino quando o momento chegar.

- As pessoas por aqui chamam-me de Meili, és um prazer conhece-lo. - aquela criatura realmente despertou a sua curiosidade. - Por que não usas o nome de teu pai?

- Está não és uma dadiva para os bastardos. - Apesar de para muitos este ser um assunto delicado, o gigante levou a pergunta com diversão.

Loki sorriu de volta para o homem, ele pensava em como Borr tinha razão, a genética de sua esposa realmente era a que sempre predominava. Não havia dúvidas para o príncipe, aquela era a razão de Grid ter arriscado procurar pela ajuda de Asgard e de Odin tê-la considerado uma amiga no passado, em sua frente estava mais um dos filhos do glorioso rei, o legitimo herdeiro do trono com a ausência permanente de Hela. Queria poder ver a cara de Thor se ele pudesse ver o mestiço que acabou de conhecer.

De repente, surgindo da penumbra com um andar manco, veio a gigante de gelo mais graciosa que o deus já havia visto em toda a sua vida, ela possuía curtos cabelos cacheados em tom de vermelho escuro, lábios carnudos escurecidos, sardas em suas bochechas e o olhar mais acolhedor que ele já havia recebido. Seu corpo era um pouco mais alto que o de Grid, mas não possuía um porte físico de guerreira como a outra, um longo vestido negro e esfarrapado a cobria quase que completamente e em um de seus braços estava a minúscula coisinha que provavelmente era o menino que ele deveria salvar. Como giganta seus ossos eram graúdos e em nada ela lembrava as belas princesas com que os jovens rapazes normalmente sonham, mas aos seus olhos nenhuma outra mulher era tão agradável de se observar, nem mesmo Frigga ou a sua garota, ninguém jamais lhe trouxe tanto conforto. Loki sabia que era o seu lado mais primitivo falando e que ele não deveria dar um mundo para aquela estranha como repentinamente sentiu vontade de fazer, porém nada faria com que deixasse de ser agradável contemplar de longe aquela criatura maravilhosa.

- Meili, está és Farbauti, minha irmã. - Grid apresentou, nenhum dos gigantes parecia estranhar a expressão do homem. - Irmã, ele és o enviado de Asgard.

O deus percebeu que estava sendo minuciosamente avaliado pela mulher, mas não havia nenhum julgamento em seus olhos, apenas curiosidade. Ela veio se aproximando sem desfazer o contato visual e quando estava a alguns centímetros de si ergueu a mão para tocar seu rosto, como se quisesse se certificar de que ele era real.

- Tu trouxeste muita esperança para meu povo, obrigada. - Nada em sua expressão indicava sarcasmo ou uma possível mentira, ela estava tão grada que era possível ver seus olhos se umedecendo.

A mão de Farbauti era macia e delicada e não foi possível não notar que ela parecia muito mais frágil e delicada de perto do que quando estava longe, olhando um pouco melhor era notável a palidez de sua pele, ela parecia estar doente. Loki ergueu a própria mão e a colocou sobre a que quase envolvia todo o seu crânio, se sentia tão seguro ali que poderia ficar envolto pelo toque daquela mulher por toda a eternidade. Foi o grunhido alegre da criança que quebrou o momento, o pequeno bebê olhava para baixo como se visse coisa a mais maravilhosa do mundo e esticava os bracinhos pedindo colo ao asgardiano.

- Hey! - Vidar chamou se fingindo de indignado quando a mulher passou o pequeno para os braços do estranho. - Por que tu estás indo tão rápido pros braços dele se passou suas primeiras semanas berrando quando eu me aproximava? - O menino gargalhou enquanto puxava os cabelos de Loki encantado, ignorando completamente a presença de seu guardião. - Tu és uma criança horrível, sabia disso?

Não se sabia se quem estava mais surpreso era o deus ou os gigantes que conheciam o habito desconfiado do pequeno. Não era comum que crianças gostassem do príncipe, por alguma razão elas sempre se assustavam ao vê-lo e nunca o achavam interessante, claro que o fato dele não gostar de crianças ajudava um bocado e ele também nunca se esforçava para criar algum vínculo bom com elas. Mas aquele bebê lhe despertava uma curiosa boa sensação em seu peito, não sabia como explicar.

- Grid disse que tu podes invocar comida... - Farbauti comentou como quem não quer nada, mas sua notável magreza denunciava que poderia se ajoelhar e beijar os seus pés em agradecimento, assim como todos os que se encontravam naquele lugar também fariam se o que a irmã disse era verdade.

De fato, ele seria um herói se os ajudasse até mesmo com isso.