Capítulo Vinte

Out For Blood

(à Procura de Sangue)

— ... e isso conclui nosso trabalho com criaturas mágicas, especialmente aquelas que são consideradas das trevas e perigosas. — Moody bateu as mãos ruidosamente. Lavender se encolheu, mas ela foi a única; um sinal, na opinião de Harry, de que a turma tinha se acostumado à tendência de Moody de fazer barulhos altos e inesperados. — Antes do natal, começaremos a estudar maldições... nada muito animador ou prático, infelizmente, até termos estudado a teoria.

Alguns alunos gemeram; Seamus, Hydrus e Crabbe foram os mais altos.

— Maldições são horríveis — continuou Moody, olhando-os. — Não se enganem... mesmo as mais úteis. Maldição redutora? Muito útil em demolições ou para remover barreiras, ou até para servir de distração, mas a mesma maldição em uma pessoa... — Ele parou de falar, deixando o resto no ar. — Ou o Feitiço do Corpo-Preso, algo que vocês sabem desde o primeiro ano...? — Alguns alunos deram um sorriso tímido; Harry, suspeitando que a aula tinha uma finalidade mais sombria, não estava entre eles. — Sim, sim — falou Moody. — É muito engraçado, até chega a ser hilário. O mesmo acontece com o Feitiço das Pernas Presas, ou o Feitiços dos Joelhos Esponjosos, só que antes não eram brincadeiras, porque ninguém conhecia o contrafeitiço. — Ninguém mais sorria.

— Jeito otimista de terminar as coisas — murmurou Ron; a audição de Moody era boa, mas a de Harry era melhor, e Ron descobrira um jeito de usar isso a seu favor. O único problema era que Harry não tinha como responder. Ainda assim, permitiu que seus lábios se curvassem (do lado que Moody não conseguia ver) e os de Ron se curvaram em resposta.

— Foi o que pensei — resmungou Moody. — E é por isso que a teoria vem primeiro. Se vocês querem aprender essas magias, então têm que provar que são de confiança... E ser de confiança me leva ao último assunto de hoje... Alguns alunos mais velhos mostraram interesse em um clube de duelos e, depois das festas, vou organizar alguns encontros experimentais. Provavelmente aos fins de semana, aberto a todos... no começo. Depois disso, só participará quem for convidado; se eu achar que você não está se esforçando ou se você for pego usando o que aprender do jeito errado, não será convidado a voltar.

Seu olho mágico foi de Hydrus, que sorria largamente, para Draco, sentado ao lado de Hermione e olhando feio para a mesa; apesar de Moody desgostar mais de Hydrus, ele não tinha aprendido a gostar de Draco. O olho de Moody correu mais uma vez pela sala.

— Até a próxima aula — falou, virando-se para mancar até sua mesa. Os alunos começaram a conversar na mesma hora sobre o clube de duelos.

— Você vai? — perguntou Ron a Harry ao saírem da sala atrás de Neville e Hermione. — Eu vou.

— Vou, sim — falou Harry, animado com a ideia. Achava que estaria animado de qualquer jeito, mas com Voldemort quieto, achou que as aulas extras valeriam a pena.

— Hermione? — perguntou Ron. — Malfoy? E você, Neville?

— Talvez — respondeu Hermione. — Preciso achar tempo...

— Vai achar mais do que a gente — murmurou Draco, e os quatro sorriram (Hermione timidamente, mas Harry achou que sua hesitação era genuína); ela ainda frequentava as cinco aulas e, ainda que ela não precisasse mais se esconder tanto agora que eles conheciam o segredo, Hermione ainda tinha dias longos, todos os dias. Neville sorriu, tímido, claramente sem saber do que estavam falando. — E talvez, Weasley. Vou pelo menos nas primeiras vezes, mas duvido que serei convidado a voltar.

— Acho que vou — disse Neville lentamente. — Mas... bem, nós todos sabemos como eu sou. Acho que não vou ser convidado a voltar, também.

— Nunca se sabe — falou Ron.

— Acho que depende de quantas pessoas vão aparecer; talvez nenhum de nós seja convidado a voltar — comentou Harry.

— Ou todos nós — retorquiu Ron, com um encolher de ombros animado.

— Claro, Weasley — falou Draco, revirando os olhos. — O que...

Harry deu um encontrão nas costas de Neville, que guinchou e teria caído se não fosse por Ron e Draco o segurarem. Harry demorou um momento para perceber que o corredor estava anormalmente quieto, e o motivo ficou claro quando Harry notou o professor Dumbledore esperando. Ele cumprimentou alguns alunos — nenhuma das garotas Sonserinas pareciam saber como responder quando ele usou seus nomes, exceto por Tracey Davis, que sorriu e o cumprimentou. Dumbledore conversou rapidamente com Blaise e, depois, com Neville, Lavender e, por fim, virou-se e encontrou os olhos de Harry.

— Ah — disse Dumbledore, como se tivessem se encontrado por acaso. — Harry. Senhor Weasley, senhorita Granger, senhor Malfoy.

— 'Dia, senhor — falou Harry por todos eles. Draco e Hermione sorriram para o diretor, mas continuaram seu caminho para a aula de Runas Antigas, lançando um olhar curioso para Harry, mas Ron ficou onde estava; Harry ainda praticava seu Patrono sempre que tinha a chance, e Ron passara a acompanhá-lo durante as aulas vagas. Harry praticara todos os dias desde sua primeira aula com Padfoot e Tonks, mas, sozinho, seu progresso era lento e conseguia erguer apenas um escudo fraco.

— Peço desculpas por incomodá-lo dessa forma — continuou Dumbledore —, mas, se puder me acompanhar, Harry, aconteceu algo que devo discutir com você. Os outros nos encontrarão lá.

— Outros? — perguntou Harry, surpreso. — Quem? — Se era Padfoot, então Harry acabara de descobrir. — O Padfoot está bem? Aconteceu alguma coisa com o Moony?

— Os dois estão bem, assim como a senhora Lupin e a senhorita McKinnon, mas não falarei mais nada até chegarmos ao meu escritório. Peço desculpas, senhor Weasley, mas terei que deixá-lo sem a companhia de Harry para o que estou certo de que teria sido uma ótima aula vaga.

— Tudo bem — murmurou Ron. Harry achava que ele não estava animado com a ideia de passar uma hora sozinho, mas era claro que ele não queria dizer isso a Dumbledore. — Vou ficar na sala de aula; qualquer coisa, a gente se vê no almoço. — A expressão de Dumbledore vacilou; era claro que ele estava curioso sobre a sala de aula, mas ele não perguntou, por isso Harry não disse nada.

— Até depois — disse Harry, ajeitando a mochila no ombro.

— Maravilhoso — falou Dumbledore quando Ron continuou a caminhar pelo corredor. — Vamos, Harry.

Dumbledore perguntou uma vez, enquanto caminhavam, o que Harry estava achando de suas aulas, mas foram a maior parte do caminho em silêncio. Harry usou esse tempo para tentar descobrir sobre o que Dumbledore poderia querer conversar, mas se o problema não era alguém ter se machucado — e ele já tinha dito que Padfoot, Moony, Tonks e Marlene estavam bem —, não sabia qual poderia ser.

— Não estou com problemas, né? — perguntou quando chegaram à Gárgula de Dumbledore.

— Bolo de caldeirão — falou Dumbledore e olhou para Harry, verdadeiramente surpreso. — Não, Harry. Pelo menos, ainda não. — Fez um gesto para que Harry subisse as escadas. — Mas diga-me, teve algum sonho ultimamente?

— Não — respondeu, parando. — Por quê? O que aconteceu? — Dumbledore acenou a mão para a porta de seu escritório e ela se abriu. Então, indicou a cadeira em frente à sua mesa. Harry não se sentou. — Senhor?

— Por favor, sente-se, Harry. — Harry obedeceu, relutante. Dumbledore foi acariciar Fawkes e, depois, também se sentou. — Severus deve chegar logo e ele saber melhor o que aconteceu do que eu.

— Quem mais vem?

— Não tenho certeza — respondeu Dumbledore, franzindo um pouco o cenho. — Kingsley não deu muitos detalhes do lado dos Aurores quando falei com ele. Talvez ele venha, talvez seja outro Auror. O que posso te contar é que sua tia Petunia foi atacada há dois dias em sua casa em Surrey e, por enquanto, parece que o responsável é um bruxo ou bruxa.

Harry olhou para Dumbledore, boquiaberto, milhares de perguntas passando em sua mente ao mesmo tempo. Fez as mais importantes:

— Ela está bem? Quem foi? Por quê? — Harry nem sabia como se sentir; era claro que não estava feliz por saber que a tia Petunia tinha sido atacada, mas nunca tinham sido próximos; se tivesse sido Tonks (que, ultimamente, era um híbrido de irmã-tia), então ele estaria muito mais preocupado e chateado.

Mas por quê?, Harry perguntou-se novamente.

— Espero que Severus tenha as respostas — falou Dumbledore, ainda franzindo o cenho. Olhou o relógio de bolso. — Ele deve chegar logo.

Como se tivesse sido convocado pelas palavras de Dumbledore, o fogo ficou esverdeado e Snape apareceu, a expressão mais amargurada do que Harry já tinha visto e com pelos de gato longos, brancos e alaranjados em suas vestes. Apesar de tudo, Harry escondeu um sorriso.

— Diretor — rosnou ele. Ele não cumprimentou Harry, mas seus olhos pousaram no garoto por um momento, e Harry soube que Snape não estava surpreso por vê-lo.

— Severus. — Dumbledore indicou a segunda cadeira, mas Snape continuou em pé. — Muito bem — murmurou. — Agora — disse mais alto. — Harry, como já deve ter percebido, eu tenho cuidado de seus parentes ainda que você não more mais com eles... apesar de não ter sido tão cauteloso quanto era quando você ainda morava lá.

Harry não tinha percebido nada do tipo; talvez tivesse percebido se tivesse pensado nos Dursley por mais de um segundo desde que a tia Petunia o visitara no Ministério antes do julgamento de Padfoot... mas não tinha pensado. Balançou a cabeça em silêncio.

— Não? Sua antiga vizinha, Arabella Figgs, era parte da Ordem da Fênix — contou Dumbledore e pausou. — Assumo que a conheça...

Harry assentiu, impaciente, e disse:

— A senhora Figgs? Ela é uma bruxa?

— Uma Aborto — falou Dumbledore com gentileza.

— Ah — disse Harry.

— Ela testemunhou o ataque... Ou melhor, o que aconteceu logo em seguida, e entrou em contato comigo assim que Petunia estava aos cuidados dos Curandeiros muggles. No começo, ela achou ter sido um mero assalto e só me avisou por Petunia estar envolvida, não por achar que algo estranho tinha acontecido...

O Flu foi ativado mais uma vez, e uma figura alta apareceu; um Auror de pele escura, usando um brinco, que Harry lembrava vagamente de ter visto por causa do incidente da Câmara no ano anterior.

— Diretor — disse ele com a voz grossa. — Professor, senhor Potter. Desculpem o atraso.

— Não precisa se desculpar, Kingsley — respondeu Dumbledore. — Agradeço por ter vindo. — Shacklebolt assentiu e, como Snape, recusou a oferta para que se sentasse.

— Quanto o garoto sabe? — perguntou Shacklebolt, olhando de Dumbledore para Snape.

— Que Petunia foi atacada e que a Arabella me avisou, apesar de não achar que algo estranho houvesse acontecido — respondeu Dumbledore.

Shacklebolt assentiu novamente e, dessa vez, olhou para Harry.

— Sua tia está bem. Os médicos muggles não conseguiram fechar o ferimento, mas ela já foi transferida para St. Mungos e eles tiveram mais sorte ao tratar seu... ferimento amaldiçoado. — Os olhos de Shacklebolt foram para a cicatriz de Harry pelo mais breve dos momentos.

— Então foi um ataque? — perguntou Harry. — Se o ferimento é...

— Certamente foi um ataque — falou Shacklebolt gravemente. — A polícia muggle não encontrou sinais de entrada forçada, nem de que alguém entrou. E quando o senhor Dursley voltou, ele foi acompanhado por toda a casa e disse que nada foi levado. Uma equipe de Aurores determinou que magia foi usada na casa perto do momento em que ela foi atacada; uma maldição de corte, com certeza, algum tipo de feitiço de furtividade e aparatação, mas não conseguimos rastreá-la. — Shacklebolt olhou para Snape. — Teve sorte com ela agora à tarde?

— Um pouco — respondeu Severus, inclinando a cabeça. Ele franziu o cenho, parecendo se concentrar, antes de traçar o ar com a varinha. — Foi isso que Petunia viu do atacante. — O rosto de um jovem de cabelo escuro, olhos azuis e barba curta e pontuda surgiu, trêmulo. — Eu não o conheço.

Harry estava vagamente ciente de Dumbledore e Shacklebolt terem balançando a cabeça, mas estava mais concentrado no rosto, sentindo uma mistura de surpresa e preocupação.

— Esse é o Polkov — falou. — Ele... — Olhou para Shacklebolt, incerto, e para Dumbledore em seguida. Dumbledore assentiu, encorajador. — Ele é um dos seguidores de Voldemort.

Shacklebolt não se encolheu, e a opinião que Harry tinha dele — que tinha sido positiva, mas indiferente até então — melhorou consideravelmente. Dumbledore e Snape pareciam ter um tipo de conversa silenciosa.

— Entendo — falou Shacklebolt. — Então, você tem alguma ideia do motivo de a sua tia ter sido atacada?

Harry deu de ombros, impotente; todo mundo sabia que ele já não morava com os Dursley — várias matérias tinham sido publicadas na época do julgamento de Padfoot —, então a ideia de usar a tia Petunia para atingi-lo não fazia sentido... a não ser que fosse dela que Polkov e Voldemort constantemente falavam, a que era tão boa quanto ele...? Fazia um pouco de sentido, já que eram parentes.

— Sangue — falou. — Talvez. Não sei por quê.

— Sangue? — repetiu Shacklebolt, a testa enrugada. Ele tirou um pergaminho e uma pena amassada das vestes. — Explique melhor — pediu depois de um momento.

— Eu... — Harry pausou, procurando as palavras certas. — Bem, até onde eu sei, a tia Petunia não se envolve comigo nem com magia desde o julgamento do Pad... Sirius, então...

— Não mantiveram contato? — interrompeu Shacklebolt. Harry balançou a cabeça, e Shacklebolt anotou alguma coisa. — Desculpe, continue.

— Er, certo — falou. — Bem, eu só ia dizer que eu sou a única ligação que ela tem com nosso mundo, e nós não mantivemos contato, então ela não sabe de nada.

— Sem informações atuais — murmurou Shacklebolt, anotando mais alguma coisa.

— Então, a única coisa que ela, que ninguém conseguiria, por exemplo, do Sirius ou do Remus, é o nosso parentesco.

— Mm — disse Shacklebolt, olhando de soslaio para Dumbledore.

— Eu tinha chegado à mesma conclusão, Kingsley — disse Dumbledore. — Polkov, e acredito que Harry tenha o identificado corretamente, não falou com ela nem levou algo da casa. Se ele estava perto o bastante para atacá-la, então ele estava perto o bastante para matá-la se quisesse.

Um arrepio correu por Harry e, em seu canto, Snape parecia particularmente mal-humorado.

— O que importa agora é se ele conseguiu o que queria. Não posso nem imaginar o que Lorde Voldemort e seus seguidores querem com o sangue de Petunia Dursley, mas se ele o conseguiu, então ela e sua família já não estão em perigo. Mas se não conseguiu...

— De fato. — Shacklebolt parecia pensativo. — Mas como saberemos? E mesmo que seja o caso, não sei se o Departamento de Aurores pode fazer muito. Eu acredito na palavra do garoto, mas ele é o único que sabe o nome do nosso criminoso e o único que sabe que ele tem uma ligação com Você-Sabe-Quem... mas sem explicar como sabe disso. — Shacklebolt ergueu uma sobrancelha para Harry, que olhou para Dumbledore. O diretor balançou a cabeça.

Shacklebolt notou o gesto e suspirou baixinho, olhando para Dumbledore com curiosidade.

— Como Harry conhece Polkov não tem nada a ver com sua investigação — falou Dumbledore. — Se a situação mudar, então podemos reconsiderar, mas por ora você tem bastante com que trabalhar.

Harry esperava que Shacklebolt insistisse no assunto, mas ele meramente abaixou a cabeça.

— Vou confiar na sua decisão, então, diretor — falou, calmo. — Pelo menos por enquanto. Voltaremos a nos falar assim que eu tiver conversado com a senhora Dursley e investigado o senhor Polkov.

— Excelente, obrigado, Kingsley — respondeu Dumbledore; Kingsley voltou para o Flu, assentiu sua despedida a Harry e Snape e foi engolindo pelas chamas esverdeadas.

-x-

Harry estava, por falta de palavra melhor, rosnando. Seamus e Dean tinham escondido a cabeça embaixo do travesseiro há um bom tempo, e Neville nem sequer acordara. Sobravam apenas Ron e Malfoy acordados, fazendo gestos vagos e preocupados um para o outro no quarto escuro. Harry se debateu na cama entre as deles pela primeira vez em um pouco mais de duas semanas.

Ron e Malfoy já tinham decidido acordá-lo — pelo menos, era o que Ron tinha decidido e tinha certeza de que o gesto de Malfoy significava que ele concordava —, já que Harry não tinha acordado sozinho, como costumava acontecer.

Malfoy foi o primeiro a se mexer, rolando até a ponta de sua cama mais próxima à de Harry. Um pé pálido saiu debaixo dos cobertores e cutucou a lateral do corpo de Harry.

Harry parou de se mexer por um momento e, aí, sibilou.

— Acorda, Potter — sibilou Draco em resposta, voltando a chutá-lo. Seamus suspirou atrás de suas cortinas.

Ron revirou os olhos, abafando um bocejo ao se sentar, levantar e ir até a cama de Harry.

— Ei, cara — sussurrou, balançando o ombro de Harry. — Harry!

Harry ofegou e abriu os olhos. Ele se sentou tão rápido que quase trombou em Ron, que se afastou para desviar. Ofegando, Harry olhou ao redor, para Ron, parado do seu lado, e para Malfoy, que os observava de sua cama.

— Tudo bem, Potter? — sussurrou Malfoy.

— Bem — respondeu Harry, soando distraído. Uma mão descansava sobre a cicatriz.

Eles ficaram em silêncio por vários segundos — Ron, preocupado, Malfoy provavelmente também, e Harry tentando entender seu sonho —, até Harry balançar a cabeça e se jogar em seu malão no pé da cama, procurando por seu espelho.

Depois, ele saiu da cama, atravessando o dormitório até a porta.

— Acha que ele está bem? — perguntou Ron.

— E alguma vez ele está bem? — retorquiu Malfoy, e Ron conseguia imaginar seu sorriso. Ron olhou de soslaio para seu roupão e para a porta que levava ao Salão Comunal, pensando. — Deixe-o, Weasley — aconselhou Malfoy. — Black consegue lidar com ele, estou certo, pelo menos até a gente levantar em... — Olhou para o relógio e resmungou alguma coisa, soando aborrecido. Ron definitivamente o ouviu dizer "Potter". — Quarenta minutos.

Ron não voltou a dormir, mas deixou Harry sozinho e, quando ele e Malfoy desceram, encontraram-no sentado perto do fogo, o espelho no colo, com uma expressão... interessante.

Ginny estava sentada no sofá lá perto, escrevendo em um pergaminho. Havia várias outras pessoas passando pelo Salão Comunal, mas ela parecia confortável demais para ter acabado de chegar lá.

— Acordou cedo? — perguntou Ron. Ela deu de ombros sem erguer os olhos, e Ron abriu a boca para fazer mais perguntas, antes de mudar de ideia. — Você está bem, cara? — perguntou a Harry, enquanto Malfoy espiava por cima dos ombros de Ginny para ver que ela escrevia. Seus ombros ficaram tensos, mas ela não o afastou, como teria feito se fosse Ron.

— Sim, eu... mais ou menos. — Harry olhou para o grupo de garotos do quarto ano que cruzava o Salão Comunal fazendo barulho e abaixou a voz. — Ele voltou. Não de verdade — adicionou rapidamente ao ver o rosto de Ron e como Malfoy tinha ficado tenso. — Só... está no meus sonhos de novo. Como antes.

Hermione desceu as escadas dos dormitórios femininos e se aproximou com um sorriso alegre, que sumiu no momento que se juntou a eles. Ela olhou para Harry, franzindo o cenho, e depois para Ron e Malfoy.

— Bom dia — disse ela, incerta, olhando para Ron com curiosidade.

— Eu tive um sonho — contou Harry antes que ela pudesse falar qualquer outra coisa. Hermione respirou fundo. — Voldemort voltou ou acordou ou sei lá. — Ele quase parecia satisfeito com isso. Ron supôs que ele ficava feliz por saber o que estava acontecendo.

— Eles falaram alguma coisa sobre o ataque à sua tia? — perguntou Hermione. Não era o que Ron esperara que ela falasse, e era claro que Harry também não esperara, porque ele a olhou boquiaberto antes de responder. Hermione deu um sorriso leve quando achou que ninguém mais a olhava.

— Sim — respondeu Harry. — Sim, Polkov estragou tudo, Voldemort ficou tão bravo...

— Isso explica os barulhos — murmurou Malfoy. Ron sorriu para ele e, depois, franziu o cenho.

— Então, eles vão atrás dela de novo?

— Não sei. Voldemort ficou muito bravo, mas, é, acho que é possível. Os Aurores provavelmente vão montar guarda ou algo assim.

Ron trocou um olhar com Hermione. Ele sabia, é claro, graças aos jornais que circularam durante o julgamento de Sirius, que Harry tinha parentes muggles, e Malfoy sempre brincava sobre Harry ter sido criado por eles, mas Harry nunca tinha falado sobre eles, até alguns dias atrás. Hermione tinha perguntado se Harry ia visitar sua tia em St. Mungos e houvera... algo estranho em seu tom quando ele falara que provavelmente não iria, e eles não tinham feito mais nenhuma pergunta.

Harry esfregou a cicatriz, franzindo um pouco o cenho.

— Estou certa de que eles vão ficar bem, Harry — falou Hermione, positiva, e Harry fez uma expressão estranha. — Vamos tomar café?

Continua.