Capítulo Dezenove

Harry não dormiu naquela noite. E quando o dia nasceu, ele saiu. Por uma hora, talvez duas, manteve o cavalo marchando. Não queria forçar demais a montaria, e no estado de espírito em que estava, isso era bem provável. Minuto após minuto, Harry pôs distância entre ele e o Castelo de Hogwarts. E Hermione. Sabia que ela ficaria decepcionada, mas ele tinha que ir. Harry não confiava em si mesmo. Se passasse mais um instante na presença dela, com aquelas mãos bonitas e macias o procurando, ele a puxaria para perto – arruinando não só ela, como também suas famílias. Não, aquele era o momento perfeito para ir embora. Depois de fazer tudo o que tinha feito, e antes de aprontar alguma coisa. Queria garantir que seu irmão tivesse chance de reconquistá-la e, para ser honesto, aquilo provavelmente era mais do que James merecia.

Depois de um tempo, o trecho de estrada começou a parecer familiar. Estava a cerca de oito quilômetros de Travessa do Tranco. E em Travessa do Tranco ele conseguiria uma luta. Deus, aquilo era tudo de que precisava. Tinha passado tempo demais sem o gosto de sangue na boca e o rugido frenético do público nas orelhas. Harry estava esquecendo quem era. Ele poderia ter entrado em qualquer vilarejo e arrumado briga com o canalha falastrão local. Todo pub tinha um . Mas não era um valentão e não lutava com amadores. Precisava de uma luta de verdade com um oponente habilidoso. A Torre Torta era o lugar ideal.

Em séculos passados, a estalagem tinha sido covil de contrabandistas e ladrões de estrada. Atualmente abrigava o público de lutas profissionais. Como as lutas eram ilegais, tinham que ser disputadas fora de Londres e só podiam ser anunciadas com pouca antecedência. Os cartazes saíam apenas um dia antes, e daí em diante era uma loucura para os espectadores conseguirem chegar ao local do evento.

A Cabeça de Javali era ideal, pois ficava perto o suficiente de Londres e não muito longe da estrada principal. Apenas algumas horas de viagem para a maioria das pessoas. Possuía um campo amplo nos fundos, com bastante espaço para o ringue e os espectadores. E Aberforth Dumbledore, atual proprietário, mantinha um entendimento amigável e corrupto com os magistrados locais. Para Harry, e muitos outros, ali era uma segunda casa. Se tivesse entrado ali no ano anterior – quando era campeão –, teria sido recebido com um aplauso ensurdecedor, vindo de todos os cantos.

Naquele dia, quando passou pela porta, em torno do meio-dia, sua recepção foi mais morna. Oh, muitos acenaram na sua direção ou o cumprimentaram de longe. Mas o clima do lugar era de incerteza. Ninguém sabe muito bem o que falar para um campeão derrotado. Ele estalou o pescoço. O clima estaria diferente quando fosse embora. Parecia um bom dia para começar seu retorno. E uma rápida olhada para o bar foi tudo do que precisou para encontrar seu primeiro oponente.

Os boxeadores lutavam por motivos diferentes. Alguns gostavam do esporte, outros gostavam do dinheiro, e apenas alguns gostavam de fazer os outros sangrarem . Viktor Krum pertencia à última categoria. Ele tinha sido campeão há mais de dez anos, mas durante a década passada, Krum tomava conta do banco mais à esquerda do Cabeça de Javali. Só levantava daquele lugar por duas razões: para ir ao banheiro ou para desferir socos. Ele lutaria com qualquer um , e o perdedor pagava a próxima rodada... O homem não pagava por sua cerveja há anos.

Harry foi direto até ele.

O irlandês, mais velho, virou seus olhos, duas fendas escuras, para Harry.

"É o Potter? O que você quer?"

"Eu quero uma luta. Um campeão vencido contra outro."

Krum bufou.

"Eu só luto com idiotas por cerveja. Não luto com campeões, a menos que haja um prêmio."

"Isso pode ser providenciado." Harry pegou seu próprio dinheiro no bolso. Tirou umas moedas do saco e colocou o resto sobre o balcão, onde pousou com um baque sonoro. "Guarde para nós", ele disse ao taverneiro.

Um novo entusiasmo se acendeu nos olhos de Krum. Um entusiasmo que dizia a Harry que a luta não seria fácil. Ótimo! Ele não queria que fosse fácil.

"No pátio." Krum apoiou as duas mãos no balcão e tirou o traseiro do banco. "Me dê um minuto. Preciso ir ao banheiro."

Harry aquiesceu.

Enquanto aguardava, organizando seus pensamentos, uma caneca de cerveja apareceu diante dele.

"Da senhora", o taverneiro inclinou a cabeça na direção de um canto obscuro do bar. Senhora? Rá. Somente um tipo de "senhora" frequentava aquele estabelecimento. Harry olhou para o lado. Esguia. Cabelos escuros. Sedutora. Disponível.

Ele já sabia o que ia acontecer. Primeiro venceria a luta, depois iria para o quarto com ela. Quando começasse a lavar o suor e o sangue do rosto, ela lhe diria que não precisava. Quando a tocasse, ela estremeceria – de propósito, porque gosta da ideia de sentir medo. Sua brutalidade a excitava. Dali em diante seria igual a todos os outros encontros desse tipo. Rápido, enérgico e, no fim, insatisfatório.

Ele levantou a caneca e tentou afogar a pontada de culpa. Talvez aquele tipo de encontro fosse do que precisava. Estava na hora de parar de babar pela única mulher – uma virgem inocente, comprometida, criada com classe – que ele nunca poderia ter. O que ele queria com metros de renda cor de marfim e uma cama de dossel com duas dúzias de almofadas? Não podia ter noite de núpcias, lua de mel nem felizes para sempre em um maldito castelo de contos de fada.

Não um homem como ele.

"Harry Potter, seu bastardo dissimulado." Aberforth Dumbledore emergiu da despensa da taverna. Nos braços trazia um baú pequeno, que depositou sobre uma mesa ao lado.

Harry estendeu a mão para cumprimentá-lo, mas o outro o puxou para um abraço.

"Fazia tempo demais que você não aparecia", disse, batendo nas costas de Harry.

Dumbledore era um escravo liberto das Índias Ocidentais, nascido na Jamaica. Ele veio para a Inglaterra há cerca de vinte anos, com um grupo de abolicionistas. Com seu testemunho comovente a respeito da crueldade da escravidão, deixou seus patrocinadores Quaker muito satisfeitos. Como pacifista, contudo, ele os decepcionou profundamente. Assim como a maioria dos lutadores profissionais, Dumbledore teve alguns anos bons.

Ao contrário da maioria, ele transformou o sucesso transitório em algo mais duradouro – a Cabeça de Javali. Naquelas horas solitárias da noite em que contemplava sua vida depois que parasse de lutar, Harry tinha pensado em se oferecer para comprar uma parte do estabelecimento. Apesar do que disse a Hermione, sabia que seus anos de lutador não eram infinitos, e queria garantir algo para seu futuro.

Mas tinha que ser do seu jeito. O lugar dele não era em nenhum tipo de escritório. E ele queria ser mais que uma curiosidade da taverna, lutando por cerveja ou enfiando canecas no reboco das paredes.

"Imagino que esteja aqui para pegar isto." Dumbledore bateu no baú. "O resto está lá atrás. Diga para o atendente onde você quer que coloque."

Harry tinha praticamente esquecido de suas coisas, para ser honesto. Tinha pedido a Dumbledore que guardasse os baús para ele quando saiu de seu apartamento em Harrington. Harry não queria bagunça no armazém enquanto treinava.

Abriu o baú e revirou uma pilha de camisas de algodão e calças de lã. Esperava encontrar algo mais confortável para lutar, mas as roupas naquele baú eram muito finas. Quando chegou ao fundo, sua mão se fechou sobre uma caixa pequena de madeira. Ele sabia o que a caixa continha mesmo antes abri-la. As cartas de Hermione. Riu para si mesmo. Bem quando tinha decidido esquecê-la, Hermione o

seguiu até aquele lugar. Ela o seguiu por toda parte, não foi mesmo? Não importava quantas vezes ele mudasse de endereço. Ao longo dos anos, foi lhe enviando todas aquelas mensagens – uma ou duas por mês, no m ínimo. Harry tinha guardado todas naquela caixa. Não tinha lhes dado muita atenção, mas também não conseguiu jogá-las fora. De certa forma, as cartas grudaram nele, do mesmo jeito que coisas encantadoras costumam fazer.

"Então?" Krum voltou do banheiro. "Vamos começar?"

"Um instante."

Harry se esparramou em uma cadeira, pediu outra caneca de cerveja e mandou uma garrafa de vinho para a "senhora" que iria passar a noite sozinha… e então fez algo que não fazia de boa vontade há anos.

Começou a ler. A maioria das mensagens era leve; convites misturados a eventuais notícias sobre a fam ília. Todas eram velhas e nenhuma era especialmente importante.

Estamos organizando um jantar para a próxima quinta-feira. Se você não tiver outros planos para essa noite, será muito bem-vindo.

Receba calorosos cumprimentos por seu aniversário de todos nós da Casa Granger.

Eu recebi uma nova carta de James e tomei a liberdade de copiar aqui as partes que podem interessar a você. Vamos passar o mês de agosto na propriedade do meu tio em Hertfordshire. Se estiver passando por perto, faça-nos uma visita.

Ainda assim , Harry leu carta por carta, bilhete por bilhete, cada palavra que ela escreveu, da saudação à despedida. Quando levantou a cabeça e esfregou os olhos cansados, o céu estava ficando escuro. As mensagens eram breves, inconsequentes por si só. Mas quando reunidas, seu peso era esmagador. Quando saiu da Casa Potter, seu pai lhe deu as costas. O resto da família e os amigos da alta sociedade também lhe fecharam suas portas. Todos fizeram o mesmo. Todos menos Hermione. Ela lhe estendeu a mão, várias vezes. Nunca deixou que se afastasse demais. Sempre pronta para recebê-lo quando ele decidisse aparecer. Ela não sabia o que isso tinha significado para ele. E ela não sabia, pois nunca tinha feito o esforço de lhe contar.

Era tão irônico. Quando adolescente, nunca sentiu que pertencesse àquela família. Agora que ficava mais velho, ele podia ver as características Potter que tinha herdado. Características como ambição, orgulho e a recusa obstinada em admitir que possuía sentimentos até ser tarde demais.

Segurou a raiva fútil que sentiu crescendo. O passado já estava decidido. Não havia como mudá-lo. Ele não podia ser o homem de que Hermione precisava. Mesmo que voltasse à sociedade, o escândalo sempre o seguiria. Não era apenas a fofoca. Ele estava formado, agora, habituado com as coisas do seu jeito – para o bem ou para o mal. Sua mente era muito agitada e seu corpo precisava de ação constante. Não servia para a vida de cavalheiro e também não queria ser um .

Nunca poderia ser um desses idiotas vaidosos e inúteis como Sir Seamus Finnigan. Harry não sabia como fazer nenhuma dessas coisas de sociedade. E foi por isso que, depois de finalmente ler todas aquelas cartas, não podia continuar parado nem mais um momento. Ele tinha uma dívida com ela que era muito maior que uma dança. Mesmo que não pudesse ser o homem de que ela precisava, Harry tinha que fazer alguma coisa.

Ele levantou e pegou todas as correspondências, uma por uma. Juntas, formavam uma pilha da altura do seu punho. Ao longo dos anos ela deve tê-lo convidado para centenas de jantares, festas e bailes. O mínimo que podia fazer era comparecer a um , e fazer com que valesse por todos os outros.

Ele alongou a rigidez de seus braços e pernas. Não era tarde demais. O dia ainda tinha uma ou duas horas de luz. Seu baú continha algumas peças de roupa adequadas. Contudo, não podia partir sem dinheiro.

Foi até o balcão recuperar suas moedas.

"Desculpe, amigo", ele disse a Krum. "Nossa luta vai ter que ficar para outro dia."

Harry estendeu a mão para pegar o saco com seu dinheiro.

"Não tão rápido." Amanzorra de Viktor Krum desceu sobre a sua. "Se você quiser recuperar isso, vai ter que lutar comigo."

"Acho que Lorde Harry não vem ."

Hermione passou a noite toda segurando a língua, mas acabou falando. Ali, no canto mais sossegado do salão de festas dos Macmillan, onde ela e Luna passaram as últimas duas horas. Esperando, assistindo. Ajeitando as costuras da luva ou arrumando as pregas do seu vestido de seda cor-de-rosa para pontuar o tédio.

De vez em quando algum conhecido fazia uma peregrinação até aquele canto remoto em que estavam para cumprimentá-las. Então, perguntavam sobre Piers e o casamento, praticando a arte da ironia sutil-mas-inconfundível. Ela percebia o que todos estavam pensando: Granville aparecerá desta vez ou não? Mas não era James e sua ausência que ocupavam os pensamentos de Hermione. Oito anos após seu baile de debutante, ela ainda estava esperando – em vão – Harry Potter tirá-la para dançar.

Enquanto observavam as ladies e os cavalheiros formando pares para dançar, Luna tirou um pedaço de barbante do bolso.

"Ele virá", ela disse.

"Já são sete e meia", contrapôs Hermione. "Talvez tenha acontecido alguma coisa que o fez mudar os planos."

Pretendia falar com Harry mais cedo, para se certificar de que ele pretendia ir ao baile. Não queria que Luna ficasse decepcionada. Mas ele não apareceu durante o café da manhã, e depois Hermione ficou muito ocupada com as irmãs, todas se preparando para a festa. Quando saiu à procura dele, no meio da tarde, Harry não estava mais no castelo. Ron disse que ele provavelmente iria encontrá-las na festa, mas que não podia dar certeza.

Àquela altura, Harry podia ter voltado ao armazém em Southwark, tocando sua vida em frente. Ou podia ter sofrido algum acidente com o cavalo e, naquele exato momento, estar caído em uma vala, usando o que lhe restava de forças para escrever o nome de Hermione com seu próprio sangue. Não desejava, honestamente, o segundo cenário, mas uma parte horrível e egoísta dela o preferia ao primeiro. Harry não estava ali e Hermione não conseguia evitar de se sentir magoada. A ausência dele amplificava todos os insultos sutis que lhe eram dirigidos na Casa Macmillan.

Você é uma boa garota, Hermione. Mas isso não é bom o bastante. Sir Seamus, trazendo duas taças de ponche, e Lavender, com uma careta de deboche, foram se juntar a elas.

"Luna", Lavender exclamou, "não acredito que você trouxe esse barbante."

"Eu não vou a lugar nenhum sem meu barbante."

"Bem , você não pode ficar brincando com essa coisa suja em um salão de festas." Lavender arrancou o barbante das mãos de Luna e o jogou no chão, onde logo foi pisoteado. "Esta noite nós queremos que as pessoas falem do casamento de Hermione, não das suas esquisitices."

"Eu tenho mais", Luna disse.

"Esquisitices? Ah, sim . São intermináveis."

"Barbante", respondeu Luna, colocando a mão na bolsa e tirando outro pedaço.

"Dê isso aqui." Lavender estendeu a mão para o barbante.

Dessa vez, Luna o segurou com firmeza.

"Não."

"Deixe-a em paz", Hermione pediu. Ela não estava com paciência para aguentar Lavender bancando a mãe.

Pois esse era o problema. Bancar a mãe do modo que elas aprenderam na Casa Granger. Lavender acreditava que estava sendo amorosa e protetora, à sua própria, estranha e tortuosa maneira. Mas ela estava errada. Seamus estalou a língua.

"Você está fazendo uma cena, gatinha."

"Não me importo", Luna disse em voz alta. "Isto é meu e vocês não podem pegar."

Ao redor delas, pessoas se viraram , encararam e conversas foram silenciadas. Aquela noite toda era um erro, e tudo era culpa de Hermione. Ela deveria ter protegido a irmã. Luna não estava pronta para aquilo. Talvez nunca estivesse.

"Deixe-a em paz", Hermione repetiu.

"É para o bem dela, Hermione. Ela tem que perder esse hábito."

"Pelo amor de Deus, por quê? Deixe-a ficar com o barbante e suas esquisitices também . Deixe-a ser ela mesma." Hermione inclinou a cabeça em direção à multidão no salão reluzente. "Nós fomos criadas para dar muita importância ao que os outros pensam de nós. Isso me mudou. Mudou você também , Lavender. E sinto

dizer, nenhuma de nós mudou para melhor. Eu me recuso a deixar que Luna tenha o mesmo destino. Ela é admirável."

"'Admirável' é a palavra certa. Todo mundo está admirando."

Hermione se virou para Luna, apertando o barbante na mão dela.

"Vou fazer uma promessa. Para você e para mim mesma. Sou sua irmã e, agora, sua guardiã. Eu te amo e nunca vou fazer com que você sinta que precisa ser outra pessoa só para agradar os outros."

"Não seja ingênua, Hermione", Lavender disse. "Não pode ignorar a Sociedade. Você vai ser a mulher de um diplomata. Uma marquesa."

"Não, não vou. Eu não vou casar com James."

"Oh, docinho", Seamus disse, cutucando-a no flanco. "Não desista agora. Espero que não esteja dando ouvidos ao que estão falando na sala de carteado."

"Por quê? O que estão falando na sala de carteado?"

Seu cunhado pareceu envergonhado.

"Estão apostando, claro. Se o casamento vai mesmo acontecer. Lorde Macmillan está pagando quatro contra um ."

Ah. Provavelmente era esse o motivo de terem sido convidadas para esta noite. Para que fornecessem um pouco de diversão. Uma piada. Naquele momento, Hermione percebeu algo maravilhoso. Não se importava. Talvez eles a tivessem vencido. Ou talvez 25 anos fosse uma idade mágica em que uma mulher se tornava segura de si. Qualquer que fosse a razão, genuinamente, não dava a mínima. E então, como se anunciando o prêmio que ela tinha conquistado, o mordomo pigarreou antes de anunciar:

"Lorde Harry Potter."

Ninguém estava mais preocupado com o barbante. Nem mesmo Luna. Hermione sabia que ele poderia fazer uma entrada dramática e assustadora em cima de seu cavalo. Mas que fosse aparecer em uma casaca bem ajustada, gravata branca e botas reluzentes...? Bom Deus. O formato de seu maxilar forte era totalmente Potter, assim como o ar natural de comando. Mas ele também trouxe consigo a essência Harry. A aura de rebeldia e perigo que deixava o ar carregado e fazia seu coração acelerar. Tudo em sua aparência declarava que ele tinha nascido para aquele ambiente. Tudo em sua expressão deixava claro para Hermione que ele detestava tudo aquilo. Mesmo assim , ele estava ali... Por ela.

Harry atravessou o salão, chegou ao canto em que ela estava e fez uma reverência para cada uma delas, deixando Hermione para o final.

"Srta. Granger."

Hermione fez uma mesura.

"Lorde Harry."

"Você veio!", Luna disse.

"Claro." Ele deu um puxão na manga e passou os olhos pelo salão abarrotado. "Desculpem -me por chegar tão tarde. Srta. Granger, imagino que todas as suas danças já estejam reservadas."

Hermione não conseguiu segurar a risada.

"Não. Todas as minhas danças estão disponíveis."

"Como diabos isso é possível?"

"Eu estou aqui sentada com a Luna."

A orquestra tocou os primeiros acordes de uma valsa. Harry a pegou pela mão.

"Bem , você não vai ficar nem mais um momento sentada."

Com o rosto ostentando uma expressão que misturava desafio e desconforto, levou-a para a pista de dança e os dois começaram a valsar. Ele era um dançarino muito bom , o que fazia sentido. Mover-se com elegância e coordenação fazia parte do ofício dele.

"Eu confesso que tinha perdido a esperança. Não achei que você viesse."

"Eu também tinha minhas dúvidas."

Quando ela conseguiu levantar os olhos para o rosto dele – o que foi estranho, já que olhar para ele era o que mais queria fazer, e ainda assim isso lhe custou toda a coragem que tinha –, Hermione reparou uma sombra roxa na maçã do rosto esquerdo. E aqueles lábios carnudos e sensuais estavam mais carnudos que de costume.

"Você está machucado. O que aconteceu?"

Ele deu de ombros.

"Bati em um obstáculo da estrada. Por assim dizer."

"Parece que o obstáculo também bateu em você."

Ele torceu o canto da boca inchada.

"Não foi nada que eu não faria dez vezes só para estar aqui esta noite. Mas não posso ficar muito tempo. Só vim para pagar a dança que lhe devia. E para me despedir."

"Para se despedir?!"

"Vou voltar para Londres esta noite." Ele a girou. "Imagino que possa deixar Ron e Padfoot no castelo com você."

"Claro, mas... Por quê? James vai voltar dentro de uma ou duas semanas. Você quer vê-lo e eu..." O peito dela murchou. "Eu só não entendo por que você tem que ir embora tão cedo."

Ele a puxou para perto e baixou a voz.

"Ora essa. Você é uma garota inteligente e não lhe fica bem fingir que não é. Sabe por que eu tenho que ir embora."

"Eu não sei mesmo. Nós podemos combinar em manter distância."

"Sim , podemos fazer um combinado. Mas então vem a noite. Uma coisa é estar sozinho no escuro, e outra é saber que você está em algum lugar debaixo do mesmo teto. Não podemos depender dos seus parentes sonâmbulos e insones para continuar salvando você. Se eu passar mais uma noite naquele castelo..."

O olhar dele passeou pelo corpo dela. Hermione sentiu o corpo todo arder.

"Eu iria atrás de você", ele disse.

Eu iria atrás de você... Aquelas palavras fizeram o coração dela dar um pulo e seus joelhos amolecerem .

"Eu iria atrás de você", ele repetiu, como se fizesse um juramento solene.

"Não conseguiria me manter longe."

"Eu poderia mudar de quarto. Poderia ir para..."

Ele sacudiu a cabeça.

"Não faria diferença. Nem se você se trancasse na torre mais alta e distante. Eu a encontraria. Bateria na sua porta à noite. E então... você sabe o que aconteceria."

"O que aconteceria?", Hermione perguntou, sem conseguir respirar.

"Você atenderia." Ele se aproximou e ela ficou tonta com o calor que emanava dele, com seu aroma másculo de limpeza. "Você me deixaria entrar, Hermione. Não deixaria? Não conseguiria me mandar embora."

Ela aquiesceu, em um transe causado pelo ritmo sensual e grave das palavras dele. Ele estava certo. Se Harry batesse em sua porta no meio da noite, ela o deixaria entrar. E isso não teria nada a ver com educação ou generosidade, mas com paixão e desejo. Com a torrente de sangue que corria mais rápido pelas veias dela sempre que ele se aproximava. À pontada de carência que Hermione sentia toda vez que Harry olhava assim para ela. O poder da emoção naqueles olhos verdes... Se esse homem um dia amasse de verdade uma mulher, esta poderia passar a vida se alimentando apenas dessa força. Mas ele estava ali para se despedir, e a dor lancinante de perdê-lo foi suficiente para deixá-la tonta.

"Você está pálida." Ele interrompeu a dança.

Ela estava? Depois que ele falou, Hermione percebeu que as bordas do salão tinham escurecido. E sua cabeça continuava girando, embora os dois tivessem parado de dançar há alguns segundos. O coração dela estava tão cheio. E batia com tanta força. O terno dele, aquelas palavras, a valsa... Como qualquer mulher mortal podia suportar tudo aquilo?

"Acho que eu só preciso de um pouco de ar", ela disse.

Harry a amparou com um braço na cintura e a conduziu até o canto do salão, onde Lavender, Seamus e Luna a esperavam.

"Lady Finnigan." Ele inclinou a cabeça para Lavender. "Você deveria levar sua irmã até a sala das senhoras."

"Não." Hermione inspirou um pouco de ar. "Não me deixe. Vou ficar bem . O problema foi ficar rodopiando de estômago vazio. O espartilho apertado. Você nessa casaca."

Você, você, você. Ele ignorou o elogio.

"Por que você está com o estômago vazio? Não comeu antes da festa?"

"É claro que não", Lavender disse. "Uma lady nunca come antes de uma festa."

Harry olhou para Hermione.

"Quando foi a última vez que você se alimentou de verdade?"

"Não é isso..." Ela evitou responder.

"Responda", ele insistiu.

"No café da manhã", ela admitiu, relutante.

Ele praguejou baixo.

"É um mau hábito." Um hábito que Hermione sabia que precisava abandonar. Se queria proteger Luna de expectativas danosas, tinha que estender essa proteção a si mesma. "Eu só preciso de uma limonada ou água de cevada e vou ficar bem ."

Harry passou o braço dela pelo seu.

"Precisa de comida de verdade. Vou acompanhar você até o bufê."

Lavender os deteve.

"Mas você não pode. Ainda não."

"Ainda não?"

Minha nossa. Hermione nunca o viu com uma expressão tão severa. A ruga em sua testa poderia quebrar nozes. Mas Lavender, sendo Lavender, ignorou a raiva evidente que ele demonstrava.

"Essas coisas têm uma ordem . Talvez você esteja fora do nosso círculo há tanto tempo que se esqueceu. Mas nós não atacamos, todos ao mesmo tempo, o bufê do jantar, como se fôssemos um bando de gaivotas. Nós jantamos de acordo com a precedência, começando com os de classe mais alta e descendo."

"Então posso levá-la primeiro", Harry disse. "Sou filho de um marquês. Ninguém aqui é de classe mais alta."

"Nós observamos a classe das mulheres", Lavender o corrigiu. "E minha irmã, como Srta. Granger, solteira, está quase no fim da fila."

"Ela é noiva de um lorde."

"Mas ainda não casou com ele."

"Isso é bobagem", Harry rilhou os dentes.

"Isso é a Sociedade."

"No momento, Lady Finnigan, não vejo diferença entre as duas coisas." Ele apertou o braço, puxando Hermione para perto. "Nós vamos jantar. Que se dane a precedência."

"Sério, eu posso esperar", Hermione murmurou.

"Mas não vai." A voz grave dele fez tremer até a sola dos pés dela. A raiva mal contida irradiava dele. "Esta noite, não. Quando eu estiver por perto, você não fica sem dançar, você não fica com fome. E com toda certeza, não espera no fim da fila."

Bom Deus. Outra vez ela precisou se esforçar para não desmaiar. Ela não queria que aquilo significasse o fim da festa para os dois.

"Eu juro que posso esperar. Já estou me sentindo melhor."

"Boa garota", Seamus disse. Ele cutucou Harry nas costelas. "Nós temos que permitir que as mulheres tenham suas vaidades, Potter. É como eu já disse à nossa docinho aqui, mais de uma vez. É melhor ir devagar com o jantar. Lorde Granville já tem um peso-pesado na fam ília."

O cunhado de Hermione riu com satisfação da própria piada. Ela queria desaparecer.

"Isso mesmo", Harry concordou, parecendo achar aquilo divertido. "Lorde Granville tem ."

Pou! Ninguém viu o soco chegando. Nem Hermione, nem Lavender. Com certeza, nem Seamus, cuja cabeça virou para o lado com a força do golpe de Harry. Ele piscou. Então cambaleou para trás e caiu sentado, produzindo um "puf" fraco e nada dramático. Um baque sem graça que parecia sintetizar toda a existência daquele homem . Hermione quis aplaudir.

"Seamus !", Lavender exclamou. Ela se ajoelhou ao lado do marido, pegando um lenço no bolso do colete dele, que encostou no lábio que sangrava. Então lançou um olhar fulminante na direção de Harry.

"Qual é o seu problema? Você parece algum tipo de animal."

Mas Harry não estava lá para ouvir. Quando Hermione o procurou na multidão, ele já tinha sumido.


Estamos quase chegando ao fim dessa história… aguardem o próximo capítulo será incrível...

Lembrando esta é uma adaptação, nada além da paixão pela leitura me pertence. Decidi juntar uma das minhas escritoras favoritas com meus personagens favoritos de Harry Potter. A história original também se chama "Diga sim ao Marquês", da maravilhosa Tessa Dare". Sei que algo assim já foi feito, mas estou apenas passando o tempo e curtindo.