Depois de alguns minutos, que pareceram horas, Andrômeda e Narcissa permaneceram ali paradas com um olhar perdido. Se sentiam completamente confusas, desorientadas e impotentes diante daquela situação, o que fez com que Sirius tomasse as rédeas e questionasse quais foram as primeiras atitudes tomadas após a descoberta do crime. Isso fez com que a bruxa de cabelos castanhos tivesse de refazer todo o relato, apontando cada passo desde a sua chegada até o instante em que entrou na casa deles. Ele escutou todos os pormenores e perguntou se Regulus ou Remus tinham ido para Hogwarts avisar as meninas do falecimento da avó e, principalmente, quem teria coragem de dar a notícia para Bellatrix em Azkaban. Todas as respostas foram dadas, com exceção da última inquirição. Na verdade, não fazia a menor ideia, até aquele segundo, de quem comunicaria a morena dos fatos.

Ao mesmo tempo, em que prestava atenção nas palavras da prima e a descrição dos pormenores de todo aquele horror vivenciado, procurou aumentar ainda mais as proteções da residência. Sentia que, a qualquer momento, Lucius poderia aparecer lá para ataca-los e se, por ventura, levasse alguns aurores, tudo estaria acabado. A loira compartilhava das mesmas sensações e se culpava por tudo. De certa forma, pensava que a barbárie protagonizada pelo ex-noivo era sua responsabilidade. Persistia na convicção de que, se tivesse se submetido aos desmandos dele, tudo estaria bem e seus pais protegidos. Com as duas mãos no rosto voltou a chorar copiosamente, sentindo uma dor avassaladora atravessar o seu coração, ao imaginar os dois indefesos, lutando para preservar a sua segurança a qualquer custo. Ao notar que a esposa se mostrava desesperada e com medo, Sirius a colocou sentada e segurou as suas mãos do rosto, segurando-as, tentando passar confiança nos gestos e nas alegações que expunha. Em tantos anos, era a primeira vez que ele experimentava a posição de o mais forte da família. Viu que se não conseguisse desempenhar bem este papel, as coisas sairiam totalmente do controle.

- Cissa, olhe para mim. Eu não vou deixar aquele anormal chegar perto de você ou dos meus filhos. O Malfoy pensa que você é fraca, que não passa de uma menina mimada que ficaria aterrorizada perante qualquer ameaça torpe. Mas, isso não é verdade! Eu sei a mulher que é... muito mais forte e corajosa do que eu! Você só está assustada com tudo isso. Confesso que eu também estou. Porém, vamos lutar juntos e nada vai acontecer – seguiu a amparando e acariciando o rosto dela, dando um beijo casto nos seus lábios. A bruxa apenas assentiu, tentando passar um pouco de serenidade. No fundo, sua mente parecia caótica... se Lucius ainda não aparecera ali, era um claro sinal de que planejava protagonizar eventos muito piores. Narcissa chegou a abrir a boca para sugerir que se mudasse dali. No entanto, desistiu da ideia. Se o fizessem, certamente, o outro procuraria meios de machucar ou assassinar outras pessoas que lhe fossem próximas.

- Eu vou deixar vocês dois aqui contando para as crianças sobre o falecimento da avó deles... eu vou entrar em Azkaban e dar a notícia para a Bella – Andrômeda, que até então, ficara na janela contemplando o movimento das árvores, comentou se encaminhando em direção à porta. Aquele foi tempo suficiente para decidir como procederia e não demoraria mais nenhum minuto ali parada.

- Não faça isso! Aquele lugar, Andy... com você neste estado, você sairá de lá destruída. Por favor, fique aqui conosco! – Sirius a prendia, segurando o seu braço, como um jeito de impedir que saísse de lá e acabasse envolvida em problemas.

- Sirius, faça o favor de largar o meu braço! Você não vai conseguir atrapalhar os meus planos de conversar com a minha outra irmã e, convenhamos, eu não vou ficar lá para sempre. Então, até logo, meu caro primo! – se desvencilhou, seguindo em frente, quase lhe dando um tapa na orelha pela audácia de tê-la detido.

- Andy, espere! – a loira a chamou, fazendo com que se virasse para ouvir qual era o teor do pedido que viria por parte da outra.

- Sei que é pedir muito a você... contudo, por gentileza, traga o Sevie aqui. Eu preciso muito vê-lo – recebeu apenas um sinal de concordância antes de vê-la sumir do seu campo de visão.

Antes que o marido expusesse o seu desgosto pelo o que acabara de escutar, a bruxa apenas saiu da sala e foi em direção ao quarto de brinquedos, onde as crianças se encontravam. Como não tinha vontade e nem forças para debater qualquer assunto, se deteve ali, os acalmando e afirmando o quanto a morte fazia parte da vida. Jamais revelaria a eles que a avó foi brutalmente assassinada e, o avô, quase teve o mesmo destino. Era melhor que se conservassem na sua inocente ignorância com relação à crueldade do mundo, sobretudo, por parte de algumas pessoas. Seus bebês eram puros demais para uma realidade tão obscura e hedionda. Foi imersa nas suas considerações, enquanto os observava assimilar as notícias e se consolarem, que começou a atentar para os barulhos de Desaparatação próximos ao pátio. Saindo do cômodo, viu que o marido estava com a sua varinha em riste, próximo da entrada da casa, esperando para avistar quem seria ou seriam os visitantes. Logo, notou que ele abaixara a mão e deu passagem às pessoas que chegaram.

Remus mal cruzara a porta e abraçou o amigo fortemente, expressando o quanto sentia por tudo aquilo e garantindo que ficaria de guarda durante à noite no Saint Mungus. Todos estavam temerosos de que ocorressem um novo atentado contra a vida do patriarca dos Black. Após conversarem um pouco, foi em direção à Narcissa, demonstrando o quanto sentia tudo aquilo. De certa forma, eles eram a única família que aquele homem de olhos castanhos possuía, e, vê-los sofrendo daquela forma lhe partia o coração. Regulus repetiu o gesto com relação ao irmão, com quem ficou um bom tempo sem dizer qualquer frase, palavras não bastariam em uma hora daquelas. Ao abraçar a cunhada, é que conseguiu desabafar um pouco e expor os seus sentimentos sobre aqueles fatos.

Passados alguns minutos, novamente o som se repetiu, deixando todos atentos... e, Severus entrou acompanhado de Nymphadora e Delphine. As duas meninas se mostravam muito atentas e cuidadosas com uma cesta que carregavam, abandonando no chão apenas para correrem diretamente para os tios. Após os cumprimentos e chorarem um pouco, pois sentiam muito a perda da avó e estavam preocupadas com o estado de saúde do seu avô, que passaria dias no hospital, foram ver os seus respectivos primos e irmãs, no caso da última. Neste ínterim, a loira foi em direção ao amigo, o abraçando calorosamente, encostando a cabeça em seu peito. O mestre em Poções, correspondeu ao gesto ternamente, não gostava de testemunhar que ela se encontrava tão melancólica. Queria arrumar um modo de ajudar e resolver toda aquela dificuldade e deixa-la feliz outra vez.

Sem soltá-la ou se importar com os demais, somente destinou atenção para constatar o quanto Sirius estava indignado. O bruxo vigiava os gestos dos dois com um misto de ciúmes, nojo e raiva, o que levou os olhos de ônix do outro brilharem de satisfação. No fundo, não via qualquer complicação ou impedimento ao ato de acariciar, carinhosamente, os cabelos da sua melhor amiga para que ela se acalmasse. Ao mesmo tempo, estava bastante convicto de que, uma mera atitude inocente, acarretaria em uma enorme discussão... porém, não encontrava qualquer razão que o evitasse de dar o primeiro passo na briga que já se desenhava:

- Black, não precisa querer me matar... a Cissa não vai ficar impregnada com o meu maravilhoso cheio. Infelizmente, o odor de cachorro já a infectou e se entranhou na coitada – provocou a apertando ainda mais em seus braços, mesmo que, sentisse que ela soltou um som de desaprovação e sussurrou o quanto ele era um idiota.

- Creio que ela prefira o meu aroma do que ficar toda ensebada! Afinal, ela sabe que você é um imundo completamente encardido, Ranhoso. Esqueceu que ela viu as suas cuecas sujas aquela vez na escola? – seus olhos comprovavam todo o ódio que sentia pelo outro. Severus, quanto mais irritado o deixava, mais abria o sorriso sádico no rosto, sempre o detestou profundamente e, se tivessem mil vidas, em todas se dedicaria a infernizá-lo.

- Não é o que parece, pulguento! Ao que eu noto, a Cissa está muito feliz aqui comigo – debochou, antes que ela se afastasse dele e lançasse um olhar de reprovação para os dois. Pareciam duas crianças mimadas brigando por conta de um brinquedo. Aliás, eles sempre agiam como adolescentes idiotas quando se encontravam ou eram obrigados a ter algum tipo de convivência.

- Para de implicar com o Sevie, amor! Ele veio aqui nos auxiliar, de tão boa vontade... e você, puxando um atrito? Isso é um absurdo! – o repreendeu sem se afetar pelos olhares dos outros homens que acompanhavam todo o conflito em silêncio.

- Mas, Cissa... foi ele quem começou a me provocar! Duvido que, esse canalha chupador de sangue, queria fazer alguma coisa boa – tentou argumentar e a loira fechou os olhos, com um semblante emburrado, fazendo um aceno com a mão para que parasse de falar.

- Não tem "mas". Eu não aceito que chame o meu amigo disso! Sinceramente, Sirius Black, você está agindo como um verdadeiro mocinho desagradável e inconveniente... exatamente como era quando criança! – cruzou os braços o encarando firmemente, o levando a baixar a cabeça para evitar uma desavença com ela.

- Você está certa, linda bruxa! Snape nos socorrerá na hora em que estivermos fazendo um frango frito – riu, deixando escapar uma gargalhada, e, continuou:

- Convenhamos, amor, excesso de óleo e sebo não faltam nesse encardido – lhe deu um olhar buscando aprovação. Porém, o que obteve em troca foi deixa-la ainda mais irritada e, os olhos de ônix bem fixos nele cintilando todo o desprezo que sentia.

- Mais duas palavras, Sirius, e eu vou te colocar no sofá pelo resto do mês! Vocês dois aí vão ficar parados, olhando tudo isso, feito duas estátuas? Concordam com essa total falta de receptividade? Não vão fazer absolutamente nada para que respectivo amigo e irmão de vocês pare de agir como um mentecapto, parvo e imbecil? – esbravejou, fazendo com que os homens na sala disfarçassem para ser servirem de alvo para descontar toda a fúria dela. Principalmente, Remus e Regulus que pareciam ter vontade de sair dali correndo, antes que a bruxa ficasse ainda mais brava com o marido do que já exteriorizava. Não duvidavam nada que estivesse bem próxima de azará-los.

- Que maravilha! O cachorro será escorraçado para fora do quarto... – Severus se manifestou, levantando a sobrancelha para enfurecer o outro.

- Cala a sua maldita boca! Olha o que você fez?! – gritou o outro alterado indo na sua direção.

- Eu? Não sou o responsável por nada! Deixe de ser um chorão e de ficar acusando os outros a respeito de como o mundo é injusto com as suas pulgas e carrapatos – sustentou uma postura tranquila e altiva, permanecendo com um tom de voz baixo para exasperar o outro ainda mais.

- Severus Snape, se comporte também! – Narcissa lhe deu um tapa no braço para que interrompesse aquela provocação.

O homem de cabelos castanhos, diante da atitude da esposa, cogitou falar mais alguma coisa. Todavia, foi impedido pelo amigo que o puxou para conversarem na biblioteca, onde Regulus já se encontrava refugiado da ira da prima furiosa. Ao chegarem lá, iniciaram um debate sobre os pormenores do ataque promovido por Lucius e quais os passos que dariam para detê-lo. Enquanto isso, na sala, o outro segurou as duas mãos da loira, como se nada tivesse acontecido e a fez sentar ao seu lado no sofá. Aproveitaria aquela tranquilidade momentânea para acalentá-la um pouco e escutar o que lhe afligia.

- Como se sente, Cissa? – afagava os nós dos dedos, a puxando carinhosamente para perto de si.

- Eu estou apavorada! Aquele maníaco invadiu a casa dos meus pais e matou a minha mãe... com toques de crueldade. Imagine o que ele pode estar projetando para fazer contra os meus pequenos?! – um choro lamurioso rompeu novamente, levando-a a abraça-lo com força, como se procurasse abrigo. Com a cabeça deitada sobre o ombro de Severus, prosseguiu desabafando a respeito de todos os seus temores.

No fundo, compreendia e dominava plenamente a dimensão daquele receio todo, até mais do que a própria amiga. Embora tivesse permitido que ela visse muitas as memórias, nunca permitiu que Narcissa pressentisse que fora casada com Lucius em outra realidade e que, aquele homem, sempre usara Draco para aprisiona-la ou a ferir de várias maneiras diferentes. Jamais toleraria que aquele horror se repetisse... ver sua melhor amiga se submetendo a executar todos os tipos de coisas bizarras e humilhantes, para que o marido em nenhuma circunstância usasse o filho, era repugnante demais. Em partes, se odiava por não ter feito mais por ela, mas, estava de mãos atadas perante às leis e o poder financeiro dos Malfoy. Se tentasse defende-la, certamente, a veria morta e nunca mais encontraria o seu afilhado, ou pior, quando o localizasse, estaria destruído demais para ser salvo.

- Cissa, eu tenho certeza de que aquele maldito não será louco de entrar aqui. Mesmo que o Sirius não seja um assassino, ele mataria o Lucius sem pensar duas vezes, se isso preservasse vocês em segurança – assegurou lhe dando um beijo na testa e secando as lágrimas com a ponta dos dedos.

- É tudo minha culpa, Sevie... – disse o olhando tristemente, fazendo beicinho de lamento.

- Nunca mais fale um absurdo desses, mulher tola! – a apertou contra o peito para que ficasse tranquila, antes de voltar a revelar o que estava pensando.

- Aqui não é mais um lugar seguro para que vocês continuem morando. É melhor que encontrem uma nova casa e terá que ser bem longe do poder do Ministério da Magia – ponderou com um mirando a parede. Analisara todas as possibilidades, antes de falar qualquer outra coisa, porque não queria deixa-la ainda mais preocupada.

- E para onde nós vamos? – se sobressaltou com a proposta, apesar de ter refletido acerca do mesmo tema anteriormente.

- Eu não sei... sinceramente, acredito que o Lupin e o mini-Black já pensaram em algum plano mirabolante antes de chegarmos aqui. Deve ser isso que estão lá tratando com o Sirius... ou estão se escondendo antes que você os amaldiçoe e os coloque em uma caixa de sapatos! – respondeu serenamente, aproveitando para questioná-la:

- Onde a sua irmã está?

- A Andy foi avisar a Bella do falecimento da nossa mãe... o Remus disse alguma coisa a respeito de que o Ministro dará uma autorização para que ela possa ir ao velório e ao enterro. O Alastor Moody garantiu que fará a escolta... sinceramente, eu não compreendi muito bem, pois a minha cabeça está pesada com tantas coisas. Eu só acho estranha toda essa benevolência... você lembra que o Sirius não teve o direito de estar no sepultamento da tia Walburga – continuando com o rosto encostado no ombro dele até se assustar ao ouvir a voz de Sirius, que surgiu do nada, no meio da sala:

- Claro que não é, isso faz mais sentido do que imagina! – se aproximou, se sentando entre os dois e a trazendo para perto de si.

- Ora, Black, me ilumine com o seu brilhantismo inspirador – Severus o encarava com uma expressão de poucos amigos e com um sarcasmo latente.

- Simples, Snape... minha querida prima sempre teve privilégios ao longo da vida. Além de psicopata e pervertida, ela é uma mulher muito bonita. Coloque a sua mente espetacular para funcionar que vai perceber que alguma vantagem vem de certas trocas de favores – afirmou convicto do que atestava ironizando o outro.

- É um ponto ou... – antes que prosseguisse foi interrompido.

- O Lucius quer todos os Black lá – assegurou Regulus, constatando o óbvio que, por estar diante dos olhos de todos, não havia sido percebido.

- O que será que aquele demônio está planejando? - resmungou Sirius dando um soco na mesa.

- Matar a todos seria muito estranho e perigoso, ainda mais com aurores lá. Se ele pensa que vocês levarão as crianças, utilizará o poder do Ministério para tirar da Cissa a guarda do Draco e da Luna. Principalmente, porque a Bella estará enlouquecida... provando que não poderia ter entregue a menina para a irmã - ponderou Remus bastante pensativo.

- O lobo está certo, tirando as crianças, a Cissa não vai querer sair de perto e, o Lucius, poderá ameaça-la com tranquilidade. Ainda mais com o Ministro lambendo o chão onde aquela barata branca pisa. Além disso, é uma chance dele colocar uma focinheira em você, cachorro – sentenciou acidamente olhando para o outro que sentia vontade de pular no seu pescoço.