Capítulo Vinte e Um

The Concept of Family

(O Conceito de Família)

— Ah, Sirius, obrigado por vir.

— Sem problemas — falou Sirius, acomodando-se no assento em frente a Dumbledore. — Do que se trata? — Achava que Harry estava bem (tinham conversado mais cedo, logo depois do sonho dele) e não sabia o que mais o diretor poderia querer.

— Visitei Petunia agora à tarde — contou Dumbledore.

— Certo. — Sirius não queria Petunia morta nem que seu sangue fosse usado para qualquer fim sinistro que Polkov tivera em mente, mas, além disso, não se importava com o que acontecia com ela. Não tinha pensado muito nela nos últimos anos, principalmente por seus sentimentos sobre ela serem tão complicados e contraditórios.

Por um lado, enquanto vivesse, Sirius nunca se esqueceria daquela pequena cama naquele minúsculo armário sob as escadas da casa de Petunia Dursley, nunca não ficaria um pouco incomodado com o fato de que os Dursley tinham permitido que Harry fosse com um homem sujo, morto de fome e que supostamente era um assassino e a única preocupação deles tinha sido que a proteção de Dumbledore poderia não funcionar mais.

Ainda assim, Petunia tinha sido um tipo de aliada contra Dumbledore e o Ministério, tinha ajudado — como ele tinha implorado que ela fizesse na breve carta que lhe mandara antes de ser preso... Mas admitia que não tinha sido do jeito que quisera que ela ajudasse. No fim, o jeito dela tinha sido melhor, e ela tinha providenciado para que ele ficasse com a custódia de Harry, enquanto ele estivera em uma cela de contenção, impotente.

"O garoto não quer morar conosco e, francamente, nós também não o queremos, como aconteceu quando o recebemos pela primeira vez." Ela tinha dito quando o visitara nas celas de contenção com os formulários da custódia de Harry. Seu cheiro era outra história; ressentimento, medo, vergonha, tudo controlado por um tipo de paz estranha e desapegada. Tinha sido a vergonha que fizera Sirius achar que aquele tinha sido seu jeito de se desculpar, de redimir o começo da infância de Harry, e o que o tinha feito agradecê-la, mas ela tinha lhe dito que não o tinha feito por ele e, aí, chamara os Aurores para a levarem embora.

Mas, quer ela tivesse feito isso por si mesma, por Harry, por Lily ou simplesmente por ter sido a coisa certa a ser feita, era o que ela tinha feito e, ainda que tivesse acabado com Harry na cela quando os Dementadores atacaram, fora o que dera aos Aurores e aos outros funcionários do Ministério a chance de vê-lo com Harry e de vê-lo como algo além de um assassino em massa. Scrimgeour certamente tinha sido convencido pelo ataque dos Dementadores e tinha tomado o lado de Sirius durante o julgamento.

— Estou certo que Kingsley te contou que vão arquivar o caso — falou Dumbledore, interrompendo os pensamentos de Sirius. — A partir da amanhã, a guarda de Petunia irá embora.

— Mas Harry disse que eles não conseguiram o que queriam dela, que Polkov fracassou — falou Sirius, franzindo o cenho. — Há uma boa chance de que ela volte a ser atacada, ou o primo de Harry...

— Harry achou improvável — falou Dumbledore. — Conversamos esta manhã — contou, sorrindo para Sirius. — A fúria de Lorde Voldemort foi impressionante, ou foi o que ele disse. Ele acha que Polkov foi devidamente punido.

— Mas é um risco que está disposto a correr? — perguntou Sirius.

— Não — respondeu ele. O silêncio pairou no escritório. Dumbledore girou os dedões. — Petunia ficou assustada o bastante para pedir ajuda... ou exigir, na verdade. — Ele sorriu levemente. Sirius conseguia imaginar. — Ela pediu que eu recolocasse os feitiços protetores que foram adotados quando Harry foi morar com eles. Eles aguentaram até Harry ir embora com você... quando ele já não considerava a casa de Petunia como seu lar.

— É bastante improvável que Harry pense naquele lugar como seu lar — falou Sirius, olhando-o feio.

— Exato. Esse feitiço em particular não funcionará assim, e foi o que eu expliquei a Petunia. Desde então, procurei por outras opções. Considerei o Feitiço Fidelius...

— Seria um pesadelo logístico — comentou Sirius.

— Eu concordo. — Dumbledore suspirou. — No momento, estou explorando outro feitiço baseado em sangue, com uma função parecida com a do feitiço original. E agora chegamos ao motivo de eu ter pedido que você viesse. Eu gostaria que você conversasse com Harry, para ver se ele concordaria em ajudar.

— Ah. — Sirius já estava temeroso; não de pedir a ajuda de Harry, mas da conversa que teriam de ter antes, sobre Petunia. Harry tinha mudado bastante, crescido bastante, desde aquela noite em fevereiro em que saíra da Rua dos Alfeneiros, mas uma coisa que não tinha mudado era o pouco que ele falava sobre seus parentes muggles, mesmo com Sirius. — Por que eu? É você que está organizando tudo, então...

— Não quero que Harry se sinta pressionado a concordar, como aconteceria se fosse eu a pedir — falou Dumbledore e suspirou. — Por diversas vezes você questionou o que eu estava pensando ao deixar Harry com Petunia e sua família... muito alto, se me lembro bem. — Sua barba tremeu, mas seus olhos eram tristes. — Eu não sei exatamente o que aconteceu nos anos que Harry morou lá; Petunia pediu que mantivéssemos nossa distância e, exceto por Arabella, foi o que fizemos.

"Eu pedi a Petunia, quando ela acolheu o menino, que o criasse como se fosse seu filho, como parte da família, mas, pela reação de Harry quando eu o reencontrei já crescido, ficou claro que não foi o que aconteceu, e isso me fez imaginar... Desde então, você já disse abertamente que ele era triste lá, mas Harry e eu nunca precisamos conversar muito sobre isso, nem mesmo durante seu julgamento, até essa semana."

— Ele falou sobre eles com você? — perguntou Sirius, erguendo as sobrancelhas.

— Não — respondeu Dumbledore, franzindo o cenho de um jeito que Sirius supôs significar que o silêncio de Harry era o problema. — Nada além de expressar preocupação por sua tia e perguntar se alguém lembrou de ver como seu primo estava.

— Lembraram? — perguntou Sirius.

— Eu já passei a alguém a tarefa de cuidar de Dudley Dursley, e ele morreria antes de permitir que um dos seguidores de Voldemort tocasse no menino. — Sirius ergueu uma sobrancelha. — O Voto dele garante isso, na verdade — murmurou Dumbledore. Sirius ficou boquiaberto. — Não é fácil encontrar alguém que fique confortável no mundo muggle, que consiga se misturar bem no ambiente escolar e que ainda seja bom em proteções. Ele cuidará de tudo até as férias de Natal e, aí, vamos reavaliar.

— Certo — falou Sirius num fio de voz.

Houve alguns segundos de silêncio enquanto Sirius questionava a sanidade de Dumbledore; permitir que Quirrell — um homem que matara uma criança e fingira ser essa criança para que pudesse colocar as mãos em algo que ressuscitaria Voldemort, o tempo todo carregando Voldemort — cuidasse de um menino que podia ser procurado por Voldemort por motivos que ainda não conheciam era loucura, independente de Votos e da falta de crueldades por parte de Quirrell.

— Certo — repetiu. Balançou a cabeça para organizar os pensamentos. — Certo. Então, essa... tal de proteção de sangue...?

— Ah, sim, nós desviamos o assunto. — Dumbledore riu, mas acalmou-se logo. — O feitiço, como o anterior, pede sangue... o de Harry, se ele decidir ajudar, assim como o de Petunia e o de Dudley. Vernon não é parente e, por isso, não será protegido, mas também é o que menos corre perigo. Mas para que o feitiço funcione, Petunia e Dudley precisam pensar em Harry como parte da família.

— Mas você disse que antes Harry precisava pensar da casa deles como um lar, então certamente...

— Sem me prender muito às complicações das magias de sangue, Harry tinha a proteção de Lily e, por isso, só precisava ter contato pontual com um parente de sangue para recebê-la. Petunia e seu filho não eram quem Lily queria proteger, mas como têm seu sangue e, portanto, o sangue de Harry, é fácil enganar a magia a protegê-los, também.

"O sacrifício de Lily foi feito por amor a seu filho, e o amor estenderá sua proteção para incluir Petunia e Dudley tão completamente quanto Harry." Sirius achava que era pedir demais e isso deve ter aparecido em seu rosto. "Entretanto, afeição e respeito lhes dará um pouco de proteção", continuou Dumbledore, franzindo um pouco o cenho, "e acho que isso pode ser possível."

— Então por que se dar ao trabalho? Certamente há algo que é possível...

— Surpreendentemente, são poucas — respondeu Dumbledore — depois que eliminamos tudo que arrisque o Estatuto ou tudo que possa causar grandes transtornos à vida de Petunia e Vernon, a pedido deles.

— Por que não pode simplesmente dar a Petunia e Dudley o sangue de Harry e permitir que eles tenham uma proteção direta? — perguntou Sirius por fim. — Isso não funcionaria?

— Por um tempo, até seus corpos terem filtrado o sangue de Harry. Há formas de contornar isso, é claro, mas os feitiços necessários são das trevas, Sirius.

— Certo — falou Sirius —, então Harry teria que... O quê? Sangrar um pouco?

— Sangrar, sim, e depois ficar perto dos dois enquanto o feitiço toma força. Da última vez, isso não foi um problema, já que Harry morava com eles. Dessa vez...

— Ele não mora — terminou Sirius. — Então ele teria de visitar? — Dumbledore inclinou a cabeça. — Por... algumas horas, você disse?

— Eu sugiro alguns dias — falou Dumbledore. — Se ele estiver disposto a fazer isso, é melhor que faça direito, e isso significa dar a Petunia e Dudley a chance de se afeiçoarem a ele.

— Eles tiveram sete anos — murmurou Sirius. Dumbledore o olhou com paciência, mas Sirius notou que ele não discordou. — E se Harry negar? — Não achava provável, mas certamente não era impossível.

— Se Harry não quiser se envolver, eu ainda vou ajudá-los. Acredito que devo pelo menos isso a Petunia e tenho uma opção de contingência, mas será muito menos efetivo. Quanto a probabilidade... Eu espero que ele se negue — admitiu —, já que ele recusou minha oferta de visitá-la em St. Mungos. E é por isso — falou, um pouco triste — que eu acredito ser importante dar a ele a escolha.

Sirius e Dumbledore discutiram logísticas depois disso — por quase uma hora, se Sirius confiasse em seu Auxiliar — e, no fim, Sirius tinha uma dor de cabeça e morria de medo de falar com Harry, mas ele e Dumbledore tinham uma boa ideia de como fazer as coisas acontecerem se Harry concordasse.

Dumbledore não sabia em qual aula Harry estaria, mas tinha dito a Sirius que McGonagall deveria estar em seu escritório e que ela teria uma cópia do horário das aulas de Harry, dispensando-o.

Sirius desceu as escadas e considerou tentar chamar Harry pelo espelho, mas não quis arriscar caso ele estivesse em Poções. Ele e Snape tinham avançado bastante nos últimos anos, mas não tanto.

Sirius bateu na porta do escritório de McGonagall e as vozes se silenciaram lá dentro.

— Entre — pediu McGonagall. Sirius abriu a porta e parou; tinha esperado ver McGonagall, já que era o escritório dela, mas Molly Weasley e a outra mulher (de pele escura, com cabelo frisado e completamente desconhecida) foram uma surpresa. Elas estavam sentadas ao redor da mesa de McGonagall, cada uma segurando uma xícara.

— Uma festa do chá? — perguntou Sirius, sorrindo. — Por que não fui convidado?

McGonagall crispou os lábios em exasperação, mas Molly riu.

— Você tem que ser um professor, Sirius — falou ela —, ou ter filhos com pelo menos uma centena de detenções. — Ela e a mulher trocaram um olhar afeiçoado, mas frustrado, e Sirius deduziu que estavam ali para discutir qualquer problema que seus filhos tivessem causados e, com essa quantidade de detenções, os gêmeos tinham que estar envolvidos.

— Vou mandar o Harry correr atrás do prejuízo, então — falou Sirius.

— Não mesmo — falou McGonagall, parecendo vagamente horrorizada com essa ideia. — Aquele menino já causa problemas reais sem precisar fazer arte!

— Não posso discordar — falou Sirius com uma careta.

— Acredito que não — falou McGonagall. — Agora, do que você precisa, Black? Como pode ver, a senhora Weasley, a senhora Jordan e eu estamos em uma reunião.

— É, desculpe — falou. — Só queria saber onde o Harry está, para encontrar com ele no fim da aula...

McGonagall acenou a varinha para a prateleira e um arquivo pesado flutuou em sua direção. Ela o folheou; Sirius reconheceu o nome de Hermione e perguntou-se o que estava acontecendo com o horário dela antes de decidir que devia ter sido escrito errado — e o de Draco, antes de McGonagall chegar a Harry.

— Adivinhação — respondeu ela brevemente. — Torre Norte. — Ela fechou o arquivo e o mandou de volta à prateleira. — Mais alguma coisa?

— Só isso — falou Sirius. — Obrigado. A gente se vê depois, Molly. — Acenou para a terceira mulher e foi embora.

Fazia anos que tinha ido à Torre Norte; sempre achara que Adivinhação era perda de tempo e só fora até lá em seus dias como aluno para preencher o mapa. Estava tentando decidir qual caminho seguir quando encontrou os olhos de Hermione, saindo do que devia ser uma aula eletiva, já que alunos das quatro casas a cercavam. Ele acenou para ela, que se afastou da garota indiana com quem estava e passou entre os alunos para se aproximar dele.

— Olá — disse ela, claramente confusa, mas sorrindo. Aí ela franziu o cenho. — O Harry...?

— Ele está bem, só estou aqui para falar com ele sobre sua tia — respondeu, e Hermione assentiu, séria.

— Isso é bom — falou. Ela hesitou por um momento e disse: — Ele nos contou quase nada sobre tudo isso, e estamos um pouco preocupados...

— Sim, é... complicado — falou Sirius, correndo uma mão pelo cabelo. — Você vai se juntar aos outros, certo? Última aula e tudo o mais, então acho que pode me ajudar a encontrar a Torre Norte? Eu não tenho ideia...

O cheiro de Hermione passou a ficar cheio de pânico.

— Eu... não posso — respondeu. — Preciso fazer algo, já estou atrasada na verdade, desculpe. — Ela não estava mentindo, mas seu cheiro era estranhamente culpado. — Mas se subir aquelas escadas...

Ela lhe deu uma lista de direções e se despediu rapidamente, sumindo na curva do corredor. Sirius a observou ir um pouco preocupado e decidiu conversar com Harry sobre isso, também.

As direções de Hermione foram úteis e, quando achou estar a meio caminho da Torre Norte, encontrou Harry, caminhando com Ron, Draco... e Hermione. Como se isso não fosse estranho o bastante, nenhum deles pareceu surpreso por vê-lo.

O que, em nome de Merlin...?

— Como chegou aqui antes de mim? — perguntou Sirius a Hermione, mas ela só lhe deu um sorriso nervoso e foi embora com Ron e Draco; Harry acenou para eles e se juntou a Sirius.

— Então, Petunia? — perguntou Harry, sorrindo como se fizesse parte da melhor pegadinha de todos os tempos. Sirius abriu e fechou a boca, silenciosamente retirando o que tinha dito no escritório de McGonagall, sobre Harry correr atrás do prejuízo.

— Se eu perguntar como você sabe, você vai me contar?

— Não — respondeu ele com uma risada abafada. Mas sob o sorriso estava a ansiedade. Sirius conseguia sentir o cheiro. — Bem?

— Aqui não — falou Sirius, e Harry pareceu aliviado; Sirius não sabia se era por encontrar um lugar mais discreto para conversarem ou se era por a conversa ter sido adiada, ainda que só um pouco. — Como foram as aulas?

— Neville derreteu um caldeirão hoje de manhã na aula de Poções — contou Harry, com uma careta. — Defesa foi só teoria sobre maldições, e aí Ron e eu fizemos nosso dever de Adivinhação na aula de História da Magia. — Harry sorriu, envergonhado, mas Sirius só riu. — Adivinhação ainda está em folhas de chá, e eu estou ferrado e tudo o mais. — Ele revirou os olhos.

Chegaram aos jardins sem falar muito. Sirius ainda pensava na melhor forma de abordar o assunto, e Harry não parecia se importar com o silêncio.

— Lago? — perguntou Sirius.

— Hmm? — Harry observava o time de Corvinal com interesse, enquanto ele ia para o campo. — Lago? Claro. — Começaram a ir nessa direção. — Corvinal joga com a Lufa-Lufa amanhã.

— Você vai assistir?

— Sim — falou Harry, sorrindo. — Wood quer que eu veja o primeiro jogo da Apanhadora da Corvinal, tentar descobrir que tipo de jogadora ela é.

— Wood parece ser tão maluco quanto James — murmurou Sirius. — Espero que seja um jogo rápido, então, para que você não morra de tédio. — Harry deu de ombros, sem parecer preocupado, e Sirius decidiu não questionar.

Não estava nevando, mas o chão estava congelado, então Sirius limpou uma parte com a varinha, e eles se sentaram de frente para o lago. Harry estremeceu uma vez, e Sirius usou um feitiço de aquecer nos dois. Harry o olhou de um jeito estranho e, um momento depois, estremeceu de novo, parecendo nem perceber.

Sirius demorou uns instantes para entender qual era o problema; ele, é claro, tinha seu Patrono mental trabalhando desde que chegara ao terreno e, depois de algumas patrulhas em Azkaban, quase não precisava pensar para dar lembranças felizes, quase não percebia que ele estava ali e que os efeitos dos Dementadores não estavam. Sirius acenou a varinha, o rosto de Marlene em sua mente, e um Padfoot prateada surgiu. Algo se acalmou no rosto de Harry quando ele observou o cachorro pular em volta deles.

— Então? — perguntou Harry.

— Petunia vai ter alta amanhã — contou Sirius, guardando a varinha. — E seus guardas receberam outras missões.

— Então ela não vai ser protegida?

— Não pelos Aurores — respondeu Sirius, balançando a cabeça. — Dumbledore vai fazer o que puder, e eu... — Fez uma careta. — Eu vou conversar com o Moony, ver se não podemos deixar os Dursley na cabana dele até o natal.

— Certo — falou Harry. — E o Dudley? Dumbledore disse que ele faria algo, mas Dudley teria que ficar na escola...

— Quirrell está o protegendo — falou. Surpreendentemente, Harry apenas assentiu e aceitou sem questionamentos.

— E depois do natal? — Brincou com o fecho da mochila.

— Isso depende — falou Sirius.

— De quê?

— De você querer se envolver ou não. — Harry não falou, mas seus olhos eram grandes e cautelosos atrás dos óculos. — Dumbledore está procurando por um encantamento parecido ao que estava na Rua dos Alfeneiros antes de eu te levar. — Harry se abraçou, os olhos no lago. — Ele... bem, ele precisa de sangue em uma parte. — Harry lhe deu um olhar duro, antes de assentir lentamente, seu cheiro ainda cauteloso. — A outra parte é que Petunia e Dudley precisam pensar em você como parte da família.

Harry bufou, zombeteiro.

"Se você concordar com a proteção de sangue", continuou Sirius, cauteloso, "teria de ficar com eles por um tempo, na Rua dos Alfeneiros. Se ficar, Dumbledore acha, e eu odeio concordar, mas concordo, que eu não deveria ir com você. Eu visitaria, é claro, mas se eu ficasse lá, eu provavelmente dificultaria as coisas."

Harry ficou em silêncio por um bom tempo, e Sirius não se atreveu a interrompê-lo.

— Eu mandei um cartão — falou ele por fim, franzindo o cenho.

— Um... o quê? — Sirius se virou para olhar para Harry, que olhava para os tênis.

— Para a Petunia — explicou. — Era... era um cartão horrível, de verdade, que só dizia "melhore logo. Harry", em um pedaço de pergaminho... — Ele parou de falar, parecendo perdido.

— Eu teria te levado para visitar se tivesse pedido — falou Sirius, cauteloso.

— Dumbledore ofereceu — disse Harry, balançando a cabeça. — E o Auror Shacklebolt.

— Não quis?

— Eu...er... acho que o cartão disse tudo o que eu tinha a dizer — falou. — E ela não ia querer me ver. Se quisesse, alguém teria dito. — Ele deu um sorriso fraco, e Sirius não sabia o que dizer. Harry tinha aberto um pequeno buraco no chão com a ponta do tênis. — Então quando... quando eu preciso ir para a Rua dos Alfeneiros? E por quanto tempo?

— Você não tem que ir, garoto — falou Sirius. — Essa é a finalidade dessa conversa; deixar você decidir.

— Mas eu tenho que ir — disse Harry, engolindo, os olhos no Patrono. — Eu não quero que ela se machuque de novo, e... mesmo que eu não me importasse com isso, eles... Eu não acho que o Voldemort vai deixar Polkov tentar de novo, mas eles a quiseram e isso é motivo o bastante para deixá-la longe deles. — Então, em um tom mais baixo, ele disse: — E ela ajudou antes do seu julgamento.

— Ajudou — suspirou Sirius. Harry o olhou, chateado, mas ansioso. — No natal... Não necessariamente no dia, mas em algum momento durante o feriado... E acho que Dumbledore sugeriu três dias.

Harry assentiu — mais para si mesmo, Sirius achou —, o maxilar de um jeito que era totalmente James. Mas não durou muito; sua expressão logo passou a ser incerta, e Harry olhou para Sirius.

— Você visitaria, né?

— É claro — respondeu, colocando um braço em volta de seu afilhado. O sorriso que Harry lhe deu em resposta era o bastante para seu próximo Patrono. — Todos os dias, se você quiser. E Moony e Tonks vão passar o natal aqui, então eles podem ir junto se eu conseguir afastá-los da Andy.

Os olhos de Harry estavam distraídos e divertidos; Sirius imaginou se pensavam a mesma coisa: como os metódicos Dursley lidariam com uma Dora atrapalhada, bagunceira e ocasionalmente vulgar, ou como eles se sentiriam ao receber a visita de um lobisomem... Eles só saberiam que ele era um lobisomem se contassem, é claro, então Sirius certamente contaria e, só dessa vez, não achava que Remus se importaria. Ele provavelmente até gostaria.

— E... — Sirius franziu o cenho para as duas figuras que corriam até eles do castelo, acenando. — São o Draco e o Ron?

Harry se levantou na mesma hora, e Sirius sacou a varinha. Ron chegou primeiro, suado e ofegante, e Draco chegou pouco depois, vermelho e descabelado.

— Pettigrew — ofegou Ron, passando o mapa para Harry, que o pegou e o desdobrou. Sirius olhou por cima de seus ombros. Draco estava inclinado, ofegando. — Salão Comunal. — Ron apertou as costelas. Sirius estudou o mapa. Quase todos os alunos da Grifinória estarem no Salão Comunal depois do jantar não ajudava em nada.

— Aqui — falou Harry depois de alguns segundos tensos, cutucando o corredor do sétimo andar. Sirius seguiu o nome, quase incrédulo. Então, curvou-se ao se transformar em Padfoot e saiu correndo.

Finalmente Peter estava ali e, a não ser que ele estivesse com uma vassoura, estava mais ou menos preso no sétimo andar, especialmente por terem o mapa para segui-lo.

Atrás dele, os meninos começaram a correr — Draco relutante, se fosse se basear em seus resmungos e ofegos —, e Padfoot conseguia ouvir trechos da uma conversa ofegante. Ouviu algo sobre correr desde a biblioteca, e Hermione os encontrar no Salão Comunal com qualquer professor que conseguisse encontrar.

— Espera! — chamou Harry abruptamente. Padfoot rosnou (a última coisa queria fazer era esperar quando Peter estava ali), mas escorregou até parar. Padfoot voltou a ser Sirius em um instante e pegou o mapa de Harry. — Ele estava bem ali — falou Harry, apontando para um pedaço em branco do sétimo andar — e o mapa meio que... o ponto dele foi de um lado para o outro e...

Peter tinha sumido.

Continua.