*********************** Cap 18 Vamos resolver no tijolo! ***********************
O olhar congelado de Gêmeos ainda fitava o espaço destroçado, e consumido pelo choque ele era incapaz de desfazê-lo. Nem mesmo os milhares de cacos tingidos de vermelho espalhados pelo chão, e que refletiam o brilho da única lâmpada que sobrara inteira, a qual piscava como um aviso funesto, fora capaz de tira-lo daquela contemplação involuntária que dava uma lividez de morte a seu rosto. A alguns centímetros de seus pés o rio de sangue lhe era percebido apenas como uma turva, distante, desfocada e de incompreensível realidade.
Enquanto ainda olhava em choque para aquele cenário, com a boca entreaberta, os olhos arregalados e a respiração suspensa, na velocidade de um pensamento ele sentiu algo se assomar lentamente sob seus pés; Um incômodo já bem velho conhecido seu, por isso mesmo não ousou olhar para baixo.
De olhos fechados, punhos fortemente cerrados, e com o coração aos saltos dentro do peito, Gêmeos engoliu em seco quando sentiu que do carpete sob seus pés começou a brotar água fria e tão abundante que em poucos segundos já lhe invadia os sapatos, encharcando lhe as palmilhas e subindo intrépida até a barra da calça.
Aflito ele retomou a respiração em um suspiro assustado, e nessa hora suas narinas foram invadidas pelo odor forte de maresia.
"Não é possível!"— ele pensou incrédulo e furioso.
Foi quando um sentimento primitivo de sobrevivência o despertou daquela letargia e o fez correr em disparada dali, sentindo o farfalhar pesado do tecido da calça encharcado pelas águas salgadas do Egeu, as quais subiam, e subiam... rapidamente, e cada vez mais abundantes.
Gêmeos fugiu da Terceira Casa às pressas, e com igual desespero correu Monte Zodiacal acima, passando pelas casas de Câncer e Leão sem nem se fazer anunciar.
Precisava encontrar Geisty. A amazona era sua única chance de recuperar a estabilidade que sentia lhe escapar pelos dedos feito areia, e isso o deixava furioso.
Porém, o Cosmo de Geisty, juntamente com o do Cavaleiro de Áries, havia desaparecido completamente da face da Terra no mesmo instante em que eles desvaneceram juntos diante de seus olhos. Gêmeos sabia que o lemuriano estava bloqueando os Cosmos de ambos para que não fosse capaz de rastreá-los, e que ele poderia ter levado a amazona para qualquer hospital, qualquer um da Grécia ou mesmo do globo, mas que o Hospital de Atenas e a Ala 5 seria a opção menos provável, já que era óbvia. Seria perda de tempo procura-los lá.
Sendo assim, só havia um lugar, um único lugar, onde Gêmeos tinha certeza para onde Mu voltaria. A Casa de Virgem.
E foi exatamente para lá que ele correu.
Nunca subira tão rápido aqueles degraus, como também nunca lhe pareceu tão longa a escalada. Caso Áries não estivesse na Sexta Casa, provavelmente o guardião dela saberia seu paradeiro e o de Serpente.
Sem se anunciar, como fizera nas casas anteriores, Gêmeos invadiu o imenso corredor de passagem tão rápido quanto um cometa, mas apenas conseguiu avançar um passo, pois que seu guardião materializou-se bem à sua frente emanando uma luz dourada tão intensa que por um breve momento o obrigou a fechar os olhos e proteger o rosto. Quando os abriu novamente surpreendeu-se ao ver Shaka com o filho lemuriano no colo, que choramingava enquanto ele lhe comprimia o nariz com um chumaço grosso de gaze já todo encharcado de sangue. O garotinho lhe olhava assustado e amedrontado, enquanto Shaka tinha os olhos extraordinariamente abertos. Uma lágrima saltou de um deles e escorreu pela bochecha que tinha marcas de arranhão, o que deixou o Patriarca desconcertado, ainda que por um momento muito breve, pois que jamais imaginou que um dia veria o mais imponente e sempre tão seguro Santo de Atena com aquela triste figura, os cabelos surpreendentemente curtos, as roupas desleixadas e sujas de toda a sorte de detritos, as mãos e os pés feridos, a fisionomia de alguém que deseja a morte, mas que se agarra com todas as forças à vida.
— O que fez a ela, seu covarde desgraçado? — Shaka perguntou num ranger de dentes. Estava furioso, mas muito mais apreensivo, para não dizer em pânico, porque além de não saber o que tinha ocorrido com a amazona, estava com Kiki ali, em seus braços aos prantos, assustado e sofrendo dores horríveis. Sabia que era uma imprudência abordar Gêmeos naquele estado e com o filho no colo, embora o percebesse em visível agonia.
— Onde ela está, Virgem? — o Patriarca rosnou furioso, lançando ao indiano um olhar tomado de ódio, mas também cheio de temor e urgência. — Para onde ele a levou? — a boca extremamente seca e o aperto na garganta lhe tornava dificultoso articular as palavras.
— Saia da minha casa, Gêmeos. — ordenou Shaka, cujo semblante demasiadamente triste e cansado ainda conservava o traço da majestade de sua figura imponente de cavaleiro de Ouro. Sentia o Cosmo de Gêmeos completamente caótico, perdido, e isso tanto podia ser bom sinal quanto ruim, já que aquela faceta maligna de Saga era um mistério, e seus atos totalmente inconsequentes e imprevisíveis.
— DIGA ONDE ESTÁ A MINHA MULHER, SEU MALDITO! — gritou Gêmeos perdendo para o medo, o desespero e a raiva que já o dominavam. Uma pontada ritmada e constante de dor na fronte lhe obrigava a estreitar os olhos e contorcer o rosto.
O Grande Mestre suava frio e sabia que seu tempo estava se esgotando, por isso tinha pressa e avançou alguns passos. Sua figura nefasta causava tanto horror a Kiki que este se agitou no colo do pai.
— BABAAA! — o garotinho gritou assustado, entre o choro e ânsia que sentia, e sensitivo como era percebia a agressividade vinda do geminiano feito uma onda medonha de ódio que se chocava impiedosamente forte contra seu corpo dolorido.
Shaka recuou alguns passos apertando mais o filho contra seu peito, mas sem jamais desviar os olhos dos de Gêmeos.
— Áries está com ela... e eu sei que você sabe onde. — Gêmeos continuava avançado. Os olhos estreitos eram devido à cabeça, que tinha um latejar excruciante. A urgência em encontrar a amazona ditava seu desespero. — Aqueles dois filhos de uma puta... Eles estão escondidos aí dentro, não estão? DIGA, MISERÁVEL! EU SEI QUE ELES ESTÃO AÍ!
— Eles não estão aqui, infeliz. — disse Virgem elevando a voz enquanto embalava Kiki nos braços, que já se agarrava em seu pescoço manchando sua camiseta branca de sangue — Geisty está bem longe de você, como deveria ter sido desde o princípio... Nós nunca deveríamos ter sido coniventes com a escolha dela no passado em voltar a viver sob o mesmo teto que você. Jamais deveríamos ter permito tal loucura!
Gêmeos apontou o punho em riste para o indiano. O medo que sentia por algo grave ter acontecido à Geisty lhe minava a razão e o raciocínio, e ele agia movido por uma agressividade fora do comum.
— VIRGEM, ME DIGA PARA ONDE O MERDA DO TEU MACHO LEVOU A MINHA MULHER. ME DIGA AGORA OU EU...
— ELA NÃO É SUA MULHER, ÉBRIO AMALDIÇOADO DOS SEIS INFERNOS! — Shaka gritou elevando seu Cosmo.
— Babaaa, o Kiki tá com medo! — Kiki choramingava desesperado agarrado ao pai.
O Patriarca lançou um olhar horrendo para o virginiano. Os músculos de sua face tremiam, seus olhos brilhavam e ele só conseguia pensar que o pior tinha acontecido à amazona, e essa realidade o deixava em completo terror.
— Se você não me disser agora, eu vou mandar essa porra toda de Santuário, você e a merda do seu filho doente para outra dimensão, e então o desgraçado do Áries que leve a piranha da amiga dele para o inferno, porque não terão um lar para voltar, seu maldito imbecil! DIGA OU EU MATO VOCÊ, VIRGEM!
Shaka manteve-se calado, e enlouquecido pelo desespero Gêmeos investiu em sua direção, pronto para arrancar-lhe a informação à força, mas eis que milésimos de segundos antes que Virgem pudesse conjurar seu escudo de energia cósmica, algo completamente inusitado aconteceu.
Um tijolo surgiu do nada, como que por magia, e cortando o espaço em uma velocidade estrondosa atingiu em cheio a nuca do geminiano.
Obviamente que aquele projétil insólito não tinha massa, tampouco eficácia, para ferir um cavaleiro de Ouro, mas ele não poderia ter surgido em hora mais oportuna, pois que elevou a dor de cabeça de Gêmeos a um patamar que beirava o insuportável.
Shaka ainda tinha os olhos azuis arregalados e o rosto congelado em uma fisionomia de espanto quando o Patriarca, com um gemido rouco e o semblante furioso, virou-se para trás e no segundo seguinte viu surgir à sua frente o Cavaleiro de Áries. Este, completamente ensandecido, pairava a alguns centímetros do chão enquanto mais três tijolos orbitavam-lhe a cabeça de curtos cabelos revoltos. As roupas estavam ensopadas pelo sangue rubro de Geisty, e seu rosto era uma máscara perfeita de ódio.
— PAPAI! — o grito de Kiki fez Mu desviar os olhos da face contorcida de Gêmeos por meros segundos e olhar para o filho ali, tão frágil e quebrado nos braços de Shaka, que estava igualmente aos pedaços. Isso fez seu coração sangrar. Havia acabado de deixar Geisty, sua amada amiga, sua irmã, em igual condição na Ala 5, e de repente sentiu que sua família estava por um fio.
— AFASTE-SE DA MINHA FAMÍLIA, DESGRAÇADO IMUNDO! — Áries gritou. A imagem de Geisty aos prantos na maca recebendo os primeiros socorros ainda era viva em sua mente, e só não lhe castigava mais do que a imagem que vira dentro dos olhos violetas suplicantes dela no momento em que a resgatou da Casa de Gêmeos, instantes antes de leva-la ao hospital. Jamais a deixaria sozinha lá, especialmente depois do que vira em suas terríveis lembranças, caso não tivesse sentido o Cosmo de Shaka acender na Casa de Virgem.
— Você está aí, seu desgraçado intrometido... — Gêmeos praguejou piscando os olhos e soltando as palavras com raiva visceral — Como ousa afasta-la de mim?
— Você nunca mais vai tocar em um fio de cabelo dela... — disse Mu encarando ele nos olhos. Estava tão furioso que seus lábios tremiam e seus olhos verdes quase saltavam das pálpebras.
— Cadê ela? Diga maldito! — agora avançava temerário em direção a ele — Eu preciso dela AGORA! DIGA ONDE ELA ESTÁ!
— NUNCA MAIS CHEGARÁ PERTO DELA OU DE QUALQUER UM DE NÓS, SEU FILHO DE UMA PUTA DESGRAÇADO!
Sem mover um dedo Mu arremessou os três tijolos com a velocidade de um torpedo contra Gêmeos, que conseguiu desviar facilmente de dois deles; O terceiro lhe acertou em cheio o rosto, bem no meio dos olhos. A forte pancada o fez cambalear para trás e ter de concentrar o peso nos calcanhares para não ir ao chão. Então, sem que Áries ou mesmo Virgem esperassem, ainda de olhos fechados ele abriu a boca e deu uma alta e arrepiante gargalhada.
— E quem é que vai me impedir? Heim, Áries? Você? Como? Me jogando tijolos? — ele disse em meio ao riso gutural.
— Não. Acabando com a tua raça! — disse Mu com raiva insana.
— Você é ridículo! — rosnou Gêmeos cessando o riso.
— Você é bom em agredir e ameaçar uma mulher amedrontada, não é mesmo, Gêmeos? Vamos ver como se sai contra um macho de verdade, no mano a mano. — intimou o ariano.
Alguns passos mais para o fundo, incrédulo Shaka encarava o rosto de Mu, enquanto o Patriarca ergueu as sobrancelhas e deu um riso de escárnio.
— Um macho de verdade? E esse... macho, é você? — debochou — Está me desafiando para uma briga no mano a mano, como dois civis de merda, sem usar nossos Cosmos ou nossas armaduras de ouro?
— Estou. Vem me pegar, Besta amaldiçoada.
"Mu, o que pensa que está fazendo?", Shaka questionou o ariano através de telepatia.
"Não se meta, Shaka.", ele respondeu sem pormenores, enquanto mantinha os olhos fixos em Gêmeos que prontamente, e num gesto urgente, arrancou o paletó o jogando longe e cheio de pressa desabotoou os punhos da camisa branca.
— Quando eu terminar com você, vai me trazer a minha mulher de volta. Vai deixa-la exatamente no lugar de onde a tirou. Na minha casa. De onde ela nunca deveria ter saído. — sorria cruel enquanto arregaçava as mangas da camisa até os cotovelos — Vai ser um prazer te dar uns tabefes para te colocar no seu devido lugar, igual se faz a uma criança tola e desobediente, coisa que aquele velho decrépito do Shion não soube fazer.
— Não ouse falar do Shion, SEU USURPADOR DE MERDA! — Mu gritou, e sua voz trovejou em tom firme, plena de poder e autoridade, então arremeteu-se sobre Gêmeos feito uma bala cuspida pelo mais poderoso dos canhões.
Estrondoso e brutal foi o choque entre os dois.
Os punhos de Áries encontraram o rosto de olhos queimando de ódio de Gêmeos tantas vezes que em poucos segundos este já sentia o ferroso gosto do sangue se misturar à saliva, mas em uma delas, quando o ariano por um simples vacilo abriu a guarda, o grego contra-atacou tão rápido quanto o vento com um chute frontal no peito tão poderoso que o arremessou para longe, para o lado de fora da Casa de Virgem. Porém, Mu nem chegou a tocar o chão.
Levitando no ar, com o rosto vermelho de raiva e a respiração interrompida devido à pancada no peito, Áries teleportou-se para as costas de Gêmeos e o agarrou com um mata leão. Em desespero fazia de tudo para arrasta-lo para longe de Shaka e Kiki, que ainda estavam ali, mas o Patriarca era um homem de porte físico vigoroso, além de extremamente forte, e estava possesso em fúria. No entanto, não era a ira que lhe injetava na veia a adrenalina que fazia sua força dobrar e seu espírito de luta atingir um patamar inimaginável, mas o desespero.
Naquele instante, Gêmeos sabia que lutava com dois adversários poderosos.
Um deles era Mu; O outro ganhava força a cada novo instante e o impedia tanto de elevar seu Cosmo, quanto de invocar sua armadura de ouro. Não estava disposto a jogar limpo, nunca estivera de fato.
Mesmo assim ele tentava, e suas tentativas não passaram despercebidas por Áries.
— Eu sei que... não consegue elevar... seu Cosmo... — Mu rosnou rente ao ouvido dele, enquanto lutava para puxar o ar para dentro dos pulmões doloridos — Caso contrário... já o teria feito, porque você é baixo e covarde, Gêmeos... Mas eu não... Por isso vou manter o que disse e... também não usarei o meu... Lutarei com você no seu nível, seu miserável.
— Cala a boca desgraçado! — o Patriarca grunhiu irritado pelo deboche do outro e também por ter de admitir que ele estava certo. Vinha tentando elevar seu Cosmo desde que chegara ali, em Virgem, e o silêncio daquela que era a centelha principal do poder de um Santo de Atena lhe causava agonia e ganas em gritar de desespero.
Reunindo toda força que tinha, Gêmeos agarrou o braço de Mu que apertava sua garganta e com um só movimento dobrou ligeiramente os joelhos para ficar mais baixo que ele, em seguida inclinou-se para frente com um tranco forte e deu-lhe um puxão pelo mesmo braço, o que fez com que Mu fosse arremessado por cima de seu ombro esquerdo. Mas, novamente antes de tocar o chão o Santo de Áries se teleportou, agora para sua frente, e com um jabe* curto e absurdamente forte no rosto o fez tombar para trás e bater com as costas em uma das colunas de pedra, soltando um queixume baixo de raiva e dor, porém desta vez ele já estava preparado, e prevendo o movimento seguinte do ariano, que já armava o segundo jabe, Gêmeos deu um meio-giro e com um soco de precisão e força impressionantes acertou em cheio a lateral da cabeça de Mu, e já em seguida outro em seu queixo. Áries cambaleou atordoado, sentindo como se uma descarga elétrica lhe corresse danosa pelo cérebro, o deixando zonzo por alguns segundos, mas não tempo o suficiente para Gêmeos lhe acertar o terceiro golpe, que certamente seria fulminante.
Quando o Patriarca girou no ar com o chute armado para acertar as costelas do Santo de Áries, este se teleportou mais uma vez, e tudo o que o pé do grego atingiu foi outra coluna de pedra.
— Desgraçado covarde!
Gêmeos praguejou correndo os olhos pelo vazio onde antes estava Mu, porém percebeu tarde demais quando ele surgiu à sua esquerda e lhe acertou com outra sequência de golpes no rosto. Da maioria ele se defendeu a tempo, mas dois lhe acertaram, no nariz e na têmpora.
— É essa sua luta limpa, maldito? — o grego rosnou enquanto contra-atacava com socos e chutes certeiros que abriam cortes e marcavam a pele do ariano. Sentia sua cabeça doer como se fosse espetada por mil agulhas.
— Eu disse que lutaria sem o meu Cosmo... mas eu sou um lemuriano! — Mu gritou alucinado, avançando — A minha espécie é naturalmente superior a sua! Você é só um reles humano, uma raça inferior... Um homo sapiens sapiens macho, débil e cheio de esteroides. Você não é nada!
— Essa prepotência nata de vocês lemurianos é tão patética... — desdenhou o grego — Eu vou te matar, Áries. Igual matei o inútil do seu mestre! — praguejou Gêmeos ao acertá-lo com mais meia dúzia de socos no rosto e peito — E vou matar o viado inconveniente do seu marido e também o seu filho doente, depois eu vou caçar um a um, cada lemuriano dessa terra desgraçada, e diferente de você, Áries, eu vou encontra-los!
As ameaças do geminiano acertaram em cheio o alvo de modo muito mais doloroso que qualquer golpe físico.
Com um urro cheio de ódio Mu arremeteu-se para cima de Gêmeos e ambos foram ao chão, rolando um sobre o outro entre a entrada da Casa de Virgem e o primeiro degrau da escadaria. Áries tinha sangue escorrendo do nariz e boca. Suas mãos, acostumadas ao ferro e ao fogo, maltratavam a carne do grego com ódio visceral.
— Você não é homem! Você é um bicho! Um animal odioso! — Mu gritava entre um golpe e outro. Seus olhos verdes alagadiços cheios de fúria e rancor — Não, animais não fazem o que você fez... seu estuprador de merda. COMO PÔDE FAZER ISSO COM ELA? COMO?
Da entrada do Sexto Templo, Shaka estava em choque com o que ouvira.
Seus olhos acompanhavam absortos o embate ferrenho entre os dois cavaleiros, mas sua mente agora só conseguia desenhar o horror que acabara de ouvir. "Geisty?... Não... Não...", ele pensava em terror.
O remorso de ter permitido que ela voltasse a viver em Gêmeos se tornou ainda mais amargo e pesado, e teve um sentimento profundo de raiva que quase o fez juntar-se a Mu para quebrar a cara do grego, mas de repente o grito rouco e pleno de desespero de Kiki o despertou daquele estado.
— PAPAI! — Kiki choramingava e esticava os bracinhos tentando pular do colo do pai indiano, que rapidamente o segurou com força.
— Shiii, calma filho... vai ficar tudo bem — falou aflito olhando para o rosto de Kiki, tentando tranquilizá-lo — Vai ficar tudo bem... vai ficar...
— Não vai não! O papai tá brigando! — Kiki estava desesperado, pois sentia a aura agressiva do pai como nunca sentira antes — Faz alguma coisa Baba! Ele tá machucando o papai!
A voz do filho atingiu Mu em cheio, mas nem de longe chegou perto de acalma-lo, e num vacilo de Gêmeos o agarrou pelo braço direito e o torceu para trás das costas derrubando em seguida o grego no chão. De repente espantou-se com a súbita debilidade do outro, e tirou vantagem dela para tentar imobiliza-lo.
Por segundos Gêmeos não reagiu. As palavras ditas momentos antes por Mu ainda reverberavam nos confins de sua mente e o punham em uma espécie de torpor paralisante. Aquela realidade lhe golpeou tão forte quanto os socos do lemuriano em sua cabeça, mas, diferentes desses, dos quais ele resistia com uma firmeza e vigor físico impressionantes, aquela verdade lhe causou uma cegueira e surdez súbitas. De repente seu mundo todo fora reduzido a um zunido atordoante; Como se visse a realidade através de um funil e todo o resto desaparecia para restar à sua frente somente aquele dia.
Em seu terror particular, Gêmeos sentiu o chão de pedra sob seu peito perder a rigidez, então seu corpo afundou na água e passou a ser movimentado pelas ondas da mare baixa, que iam e vinham num bailar vertiginoso, enquanto adentravam a cela do Cabo Sunion.
Nem mesmo o paredão de rocha calcária era páreo para conter a força do mar.
A maré tinha pressa; O som das ondas agitadas estourando furiosas contra a entrada da cela prisional lhe era como uma melodia soturna executada em tom de marcha fúnebre. Essa constante e tétrica sinfonia ditava o invadir lento da água pelo chão de pedra e também através das frestas lodosas, impregnando todo aquele lugar com seu odor característico e aos poucos inundando seu cárcere.
Deitado de costas no chão sobre aquele manto frio d´água que lentamente o sufocava, ele tinha os olhos fechados e o corpo inerte. Bem acima de sua cabeça havia uma estalactite no teto, de onde uma gota imunda pendeu para lhe pingar certeira na testa. Uma, duas, três... infinitas vezes, até aquele gotejar inconveniente lhe fazer os músculos faciais se contorcerem.
Era difícil reagir ali. Sua vontade não lhe respondia.
Cada miserável movimento lhe era extremamente doloroso, pesado, em especial o mais crucial deles: abrir os olhos.
Em uma nova tentativa, dentre tantas que já pelejara, ele forçou as pálpebras até que finalmente dessa vez elas se abriram tímidas e incertas, então eis que, para sua completa surpresa, a luz do sol lhe atingiu as íris jades como ávidos punhais afiados. Foi forçado a contrai-las em reflexo.
O sol...
A quanto tempo ele não chegava até sua cela?
Fazendo um esforço tremendo ele novamente contraiu o rosto. Sentiu que algo o impelia a acordar, e por mais que quisesse continuar imóvel, dormindo, pois que lhe era penoso qualquer movimento, ele agarrou-se aquela vontade como se tomado por um impulso repentino.
Mais uma vez tentou abrir os olhos. O negrume costumeiro aos poucos se esvaía feito nuvem densa de tempestade dissipada pelo vento, mas apesar da luz do sol tocar seu rosto, o frio ali ainda era constante e lhe castigava.
Trêmulo tentou se movimentar, então junto do som da água o zumbido terrível chegou até seus ouvidos, e este era tão agudo que não lhe feria apenas os tímpanos, mas reverberava dolorido dentro de sua cabeça e castigava lhe o cérebro.
Atordoado ele gemeu alto, mas sua vontade dessa vez não o abandonou. Girando o corpo para o lado apoiou as mãos no solo lodoso e dobrou uma das pernas. Sentiu as pedras arranharem sem dó sua pele, a qual ardia em demasia pelo contato com a água salgada. Esta, por sinal, já era quase absoluta ali.
Estava em toda a parte.
Escorrendo pelas paredes de rocha.
Em seus cabelos encharcados.
Nas roupas que pareciam nunca terem secado desde que fora jogado ali.
A água do Egeu invadia até seus pulmões. Ele a sentia deixar um rastro amargo de seu gosto na boca cada vez que tossia frenético.
De repente ele pensou em desistir mais uma vez. Não tinha forças, não queria, doía... mas súbito o som do mar e o zumbido atordoante não eram mais absolutos naquele cárcere.
Da entrada da galeria ele ouviu, distante e incompreensível, como já tinha ocorrido outras vezes em um tempo do qual não era capaz de precisar, uma voz conhecida ecoar distante. O que ela dizia lhe era incompreensível, mas notou seu tom alterado, e ainda que em volume baixo foi capaz de reconhece-la.
Sempre as reconhecia...
Afoito ele se arrastou como pôde até a grade enferrujada e nela segurou com força para conseguir se por de pé, então a voz conhecida ganhou forma e silabas soltas.
Com dificuldade olhou para o lado de fora da cela, na direção que vinha a voz, a qual agora ouvia acompanhada de outra, esta bem mais conhecida que a primeira, e que de imediato fez seu peito gelar.
Ele então viu uma praia, mas naquela distância não podia enxergar com nitidez quem estava nela. A luz do sol tocava o mar e refletia-se sem dó em suas retinas; até que de repente tudo ali lhe pareceu horripilantemente familiar.
O desespero esmagou sem compaixão seu coração.
Estava no Cabo Sunion.
Agora tinha certeza.
Uma ânsia nauseabunda lhe revirou o estômago, e ele agarrou-se mais forte às grades de ferro querendo transpassa-las desesperado; Foi quando ouviu a voz de Mu em ecos.
"Você não é homem! Você é um bicho! Um animal odioso!... Não, animais não fazem o que você fez... seu estuprador de merda. COMO PÔDE FAZER ISSO COM ELA? COMO?"
Em choque ele arregalou os olhos, e sentindo a adrenalina correr por todo seu corpo, com um grito de ódio desferiu um golpe contra as barras de ferro da cela, que não se partiram, mas que visivelmente não o conteriam por muito tempo mais.
Rolando por cima de Gêmeos, enquanto mantinha seu braço preso atrás das costas, Mu percebeu que junto da repentina debilidade a aura dele agora também oscilava, e que ele deveria estar passando por algum tumulto interno, mas fora de si como estava o ariano pouco se importou, deixando que a ira o guiasse sobrepujando a razão. Essa ele certamente havia mandando às favas na hora em que resolveu acertar as contas com o geminiano.
— Você ouviu isso? É a voz do meu filho desenganado, seu filho da puta miserável. — rosnava o lemuriano com os olhos marejados — Você quer muito ter filhos, não quer? Pois eu rogo à Atena que nunca permita que tal desgraça caia sobre uma criança. Você não faz ideia do que ter uma família significa... Se Shion estivesse vivo, certamente diria que alguém como você não merece viver!
Junto com o grito Mu forçou a cabeça de Gêmeos contra o chão, mas eis que quando menos esperava, o grego, com uma súbita e explosiva reação, apoiou a mão livre junto com os joelhos no chão e com um impulso forte e veloz girou o corpo para o lado já desferindo uma forte cotovelada na mandíbula do ariano, que teve o lábio inferior aberto por um corte fundo.
— NÃOOO! — a voz gutural do Patriarca troou rouca e desesperada, como um alerta para a realidade.
Com um segundo movimento rápido Gêmeos conseguiu livrar o outro braço e empurrar Áries para longe de si, então imediatamente em seguida colocou-se de pé e avançou novamente contra ele voltando a golpeá-lo diversas vezes no rosto.
— Quem não merece viver é você, Áries, seu maldito miserável! Você e toda sua raça desgraçada! — berrava o Patriarca enquanto deitava sua fúria assassina sobre o Santo de Áries, que defendia-se de seus golpes em velocidade e força impressionantes na mesma proporção que também o atacava com igual empenho e ira — Por isso, depois que eu acabar com você vou escravizar cada lemuriano que encontrar sobre essa terra, nem que para isso eu tenha que enviar meus Santos atrás da sua gente até os confins do Submundo! Eles vão viver e morrer para a forja deste Santuário! Vão pagar por você, Áries, até que não sobre mais nenhum. E não há nada que você possa fazer para me impedir... nem você, nem Saga!
Cego de ódio, Mu usou telecinese para lançar vários pedaços de rocha maciça contra o corpo de Gêmeos ao mesmo tempo em que lhe agarrava pelo colarinho sujo de sangue da camisa e com a testa lhe desferia uma pancada bem no nariz. O sangue do grego espirrou abundante no rosto do ariano, que fechou os olhos, e bem nessa hora tomou uma rasteira que o levou ao chão. Com um rolamento para trás, Mu logo se levantou e o embate teve novo início, com o Patriarca agora saltando sobre ele até que o choque estrondoso de seus corpos os lançassem três degraus abaixo na escadaria.
A ânsia pela vitória em ambos os embates que travava gritava dentro do Cavaleiro de Gêmeos, que tinha acabado de presenciar, dentro dos confins da própria mente, sua outra faceta despertar depois de seis anos e reclamar o corpo que também lhe pertencia.
E se o oponente em sua mente era poderoso, o de carne e osso no mundo material também era, e não lhe perdoava o mínimo de distração.
Foi assim que Áries acertou um chute na boca de Gêmeos quando este por um segundo titubeou. O geminiano ainda sentia os dentes moles quando uma sequência a seguir de mais chutes nas costelas e pernas, junto com fortes socos na cabeça, o fizeram quase sufocar devido à falta de ar e o sangue que lhe minava pela boca e nariz.
Mesmo em torpor, Gêmeos foi capaz de contra-atacar acertando uma cotovelada potente seguida de dois jabes no maxilar de Mu. Na sequência lhe golpeou forte o estômago, e a pancada fez o ariano se encolher gemendo de dor e soltar o ar pela boca de uma só vez. Aproveitando a guarda baixa dele, o grego agarrou-lhe pelos cabelos no topo da cabeça e acertou-lhe uma joelhada firme na boca. Áries caiu de costas no chão, e só foi poupado do chute que se seguiria, e que o atingiria em cheio nas costelas, graças a seu teleporte.
Surgindo a alguns metros de distância de Gêmeos, próximo à entrada da Casa de Virgem, Mu apoiou-se em uma das gigantescas estátuas de Buda e em fúria cuspiu uma bola de sangue e saliva que se amontoava dentro de sua boca, então ao olhar para ela no chão surpreendeu-se ao ver seu incisivo superior em meio àquela mancha vermelho vivo. Rapidamente ele correu a língua pela arcada dentária e confirmou a falta do dente.
— Seu filho da puta... — resmungou. O ar passando pela fenda causando um assovio dissonante — VOCÊ ARRANCOU O MEU IMPLANTE DE PORCELNA! VOCÊ TÁ MUITO FODIDO! EU VOU TE MATAR!
Áries vociferou a plenos pulmões, e feito uma flecha envenenada lançada por uma balestra atirou-se novamente contra Gêmeos cortando o ar sem seus pés tocarem o chão. O grego ouviu o som de uma cartilagem ser quebrada ao choque do punho de Mu com seu nariz.
— Foda-se seu implante! Eu vou arrancar todos os outros dentes da sua boca, desgraçado! — berrou Gêmeos cuspindo sangue.
Caíram novamente no chão atracados um ao outro. A violência dos golpes crescia, e era espantosa a resistência de ambos.
A fúria do ariano assombrava Shaka, que parecia em choque assistindo aquela peleja, enquanto Kiki em seu colo chorava de dor e de medo. O pai lemuriano sangrava, estava banguela, e nunca em sua curta existência o tinha visto tão violento.
Poucos minutos haviam se passado, mas tempo o suficiente para logo os outros cavaleiros começarem a aparecer ali, atraídos pelos Cosmos de Virgem e de Áries momentos antes daquele embate deplorável ter início.
Aiolia e Marin foram os primeiros a chegar ali.
O casal subia as escadas de Virgem afobados, enquanto ainda ajeitavam as roupas no corpo. Era madrugada, e justamente naquela noite a amazona havia decidido dormir com o namorado na Quinta Casa. Ambos já tinham percebido que havia algo de errado quando sentiram o Patriarca passar por Leão sem se anunciar, por isso já ficaram em alerta, mas quando chegaram ali nada os havia preparado para o que viram.
Aiolia e Marin trocaram um olhar silencioso entre si, como quem pergunta se deveriam interferir, quando outro cavaleiro também apareceu de supetão, vestido apenas com uma cueca samba canção e chinelos de dedo. Os cabelos molhados e com metade da barba feita a navalha entregavam que estava no meio do banho.
— Porca miséria! — vociferou Máscara da Morte com os olhos arregalados cheios de surpresa — Má o que tá acontecendo aqui?
Aiolia e Marin olharam para o canceriano espantados.
— É, pelo visto ninguém mais usa armadura nessa porra. — disse o Leão quando, depois de medir Máscara da Morte dos pés à cabeça olhou para as escadarias e viu ao longe mais duas figuras que subiam correndo também em trajes nada convencionais.
Shura e Shina decidiram deixar o Templo das Bacantes assim que sentiram o Cosmo de Shaka acionar as defesas da Sexta Casa. Como não sentiram nenhum outro Cosmo em tom de ameaça, logo souberam não se tratar de uma invasão às 12 Casas, por isso não se preocuparam em vestir suas armaduras, mas a súbita expansão do Cosmo de um cavaleiro de Ouro sempre era um sinal de alerta. Diante dos trajes que vestiam, ou ausência deles, deixavam claro o que estavam fazendo. Capricórnio estava sem as calças de seu terno e com a camisa vermelha aberta. Calçava apenas meias pretas. As únicas peças que cobriam o corpo de Ofiúco eram uma calcinha fio dental sem vergonha e um par de adesivos em forma de estrela em cada mamilo.
— La puta madre! — exclamou Shura ao ver Gêmeos e Áries atracados um ao outro entre chutes, socos, pontapés e cotoveladas enquanto se ofendiam com toda a sorte de injúrias.
— O que houve? — Shina perguntou nervosa.
— Eles estão brigando. — Máscara da Morte respondeu distraído enquanto olhava para os adesivos nos seios dela.
— Ah, jura? Nem tinha reparado! — disse Ofiúco cruzando os braços — Jurava que estavam se acariciando!
Enquanto isso, do lado de cima da escadaria, na entrada da Casa de Virgem, quando Shaka em desespero ainda tentava estancar a hemorragia no nariz de Kiki, eis que outro cavaleiro apareceu correndo em seus tamancos de salto e plumas de pavão tamanho 42, o que desviou sua atenção imediata.
Afrodite estava na Casa de Aquário, ele e Hyoga colocavam a mesa para comerem uma pizza juntos quando tudo aconteceu e o tirou completamente do tino. Deixou cair o prato de porcelana francesa a seus pés assim que sentiu o pedido de socorro da amiga amazona, então, sem pestanejar, e vestido como estava, deixou Hyoga e Camus ali e correu para o lado de fora, mas antes que pudesse descer as escadas, os Cosmos de ambos desapareceram por completo sem deixar vestígios ou rastros a serem seguidos. Aflito, Peixes pensou em subir até sua casa para ver se Mu tinha levado Geisty para lá, mas não o fez porque detectaria qualquer movimento nesta caso fosse, então, quando Camus e Hyoga juntaram-se a ele na entrada da Casa de Aquário, eis que sentiram Gêmeos invadir a Casa de Virgem.
Afrodite engoliu em seco e trocou um rápido olhar com Camus, que tinha na mão um pedaço de pizza Marguerita.
— O que está acontecendo, Maman? É o Cosmo do tio Shaka! — disse Hyoga em alerta, enquanto olhava concentrado montanha abaixo.
— Eu não sei... mas é babado forte! — Afrodite engoliu em seco. — Eu vou descer.
— Eu vou com você. — disse Camus tranquilamente enquanto dava uma mordida farta na pizza, afinal deveria ser só mais uma, dentre tantas, brigas entre Serpente e o Patriarca, mas o fato dos Cosmos de Mu e da amazona terem desaparecido era motivo de preocupação. Eram tão corriqueiras as brigas daqueles dois que ele nem se preocupou em tirar o pijama de seda bordô que usava para vestir sua armadura.
— Eu também vou! — disse Hyoga já descendo os degraus.
— Non, non, non! O senhor fica aqui. — fez Camus lhe acenando com o indicador no ar.
— Aaaah père! Eu já sou grande! — o pequeno russo protestou.
— Por isso mesmo! Você já é grande e forte o suficiente para proteger a Casa de Aquário na minha ausência. — disse o francês com sua infalível e perfeita lábia, o que fez Afrodite dar um suspiro e revirar os olhos. Camus nunca iria mudar. — Ative seu Cosmo, fique em alerta máximo e faça como te ensinei. Todo invasor deve ser punido como?
— Com a morte. E essa deve ser a mais cruel e dolorosa possível. — Hyoga respondeu com um suspiro chateado enquanto voltava a subir os degraus emburrado e de cabeça baixa, contrariado.
— Parfait petit! — Camus sorriu e lhe bagunçou os cabelos da franja.
— Ah, minha deusa, o Mu voltou! Ele está em Virgem. — disse Peixes quando sentiu o Cosmo de Mu, já não mais oculto e muito agressivo, regressar ao Santuário. O preocupou ele ter voltado sozinho, por isso nem esperou mais e partiu em disparada para a Casa de Virgem com Camus em seu encalço.
— Shaka! Oh minha deusa! — disse Afrodite quando viu Kiki ali chorando enquanto o indiano lhe pressionava o nariz com um chumaço de gaze — O que está acontecendo? Onde eles estão? — perguntou alarmado. Por um momento lhe causou choque e comoção ver o Cavaleiro de Virgem com os cabelos curtos, mas logo os gritos de Mu e Gêmeos do lado de fora o tiraram daquele estado.
Antes que Shaka pudesse responder qualquer coisa, Afrodite correu para a saída e logo atrás dele veio Camus, que parou na frente de Shaka ao vê-lo ali, sozinho e perceptivelmente aflito, enquanto tentava acalmar o filho.
Colocando a mão no ombro dele o aquariano disse em tom solícito e ameno:
— Você precisa de alguma coisa, Virgem? — Camus perguntou. Ainda mastigava um último pedaço de pizza que havia enfiado na boca às pressas enquanto descia as escadas.
Shaka respondeu com um rápido aceno negativo de cabeça, então Aquário trocou um olhar breve com ele, depois com Kiki, de quem sentiu um profundo pesar, em seguida entregou ao cavaleiro um lenço de linho que tinha no bolso do pijama e seguiu atrás de Afrodite.
Quando Camus alcançou o sueco percebeu que ele estava chocado com o que via. Mu e Gêmeos se engalfinhavam em um embate ferrenho e violento.
— Eles vão se matar! — disse Peixes agoniado, e sem pensar duas vezes quis correr até eles para tentar impedi-los, mas foi Camus em quem o impediu de sair de onde estava.
— Non. Você non vai interferir, Afrodite. — disse o francês segurando Afrodite pelo braço.
— Mas mon amour eles...
— Já estava na hora. — Camus o interrompeu olhando fixamente em seus olhos — Você entende, ma belle? Já estava na hora. Além do mais, confie em mim, Mu precisava fazer isso.
Peixes contraiu os lábios, olhando fixo nos olhos de Aquário. Ele sabia que Camus estava certo, mas lhe era extremamente difícil presenciar tamanha violência quando um dos envolvidos era seu amigo mais querido, e do outro, apesar de tudo, nunca desejara o mal, apenas queria que voltasse a ser como era antes.
Nos degraus inferiores, Aldebaran também juntava-se aos outros depois de ser pego desprevenido de igual maneira. Graças aos seus ouvidos bem treinados e atentos, escutou a agitação na vizinhança e sem tempo para se trocar seguiu como estava mesmo, regata verde da Mangueira, sua escola de samba do coração, toda carcomida por traça na borda e que era dois números menores que o que usava e um short branco largo de um tecido sintético ordinário e transparente, o qual deixava clara a ausência do uso de cueca.
— Caralho, mermão! Mas o que tá rolando aqui? Eu pisquei um instantinho e perdi o barraco! — disse o taurino que esfregava o rosto curioso para espantar o sono. Havia dormido enquanto assistia ao debate esportivo sobre futebol na televisão quando foi acordado por um barulho estranho na cozinha. Julgou logo ser algum meliante invadindo sua casa, até lembrar-se de que não estava no Rio de Janeiro e sim no Santuário de Atena, então se alguém passara por sua casa com tanta pressa, algo de muito errado não estava certo.
E não estava mesmo!
No centro daquele círculo que se formou ao entorno deles, engalfinhados Áries e Gêmeos rolavam no chão trocando socos e chutes com tamanha selvageria que compara-los à mais primitiva das bestas ainda seria modéstia. Seus olhos queimavam de ódio. As bocas vertendo sangue e saliva emitiam gritos e ruídos grotescos, enquanto até os dentes eram usados para ferir um ao outro. As mãos feridas tingidas de todo o tom de vermelho vivo socavam a carne, arranhavam a pele castigada, rasgavam os tecido das roupas e os músculos.
Obtendo certa vantagem, pois que o dom lemuriano do teleporte possibilitava a Mu uma esquiva cem vezes mais veloz e eficiente, este conseguiu agarrar Gêmeos pelas costas depois de se esquivar de mais um chute no estômago e pressioná-lo contra a parede de rocha.
— Você se acha superior a todos apenas porque é o Grande Mestre. — vociferou o ariano com voz gutural, fazendo uma força colossal para manter o grego ali, com o peito e o rosto pressionados à superfície áspera que feria sua pele — Mas você não é! Você é um lixo usurpador. Um assassino covarde!
Ardendo em ira insana, Gêmeos deu uma cotovelada no torso, seguida de um soco na virilha de Mu, que devido à dor afrouxou o agarro e perdeu a força que imprimia contra ele e a rocha, então com um giro rápido o geminiano ficou de frente para ele e lhe agarrou o pescoço com ambas as mãos, apertando-lhe sem piedade a garganta.
— Usurpei o trono sim, porque assim como você, o frouxo do Shion também era um completo incompetente! — rosnou o Patriarca num ranger de dentes enquanto encarava os olhos de Áries com os seus faiscantes — Décadas! Mais de um século, regendo esse Santuário, e tudo o que ele conseguiu foi erguer um exército medíocre e um pacto humilhante com os sujos dos russos. Shion foi a maior decadência desse solo sagrado desde os tempos mitológicos.
— CALA A BOCA! — Mu gritou enfurecido ao mesmo tempo em que usou sua telecinese poderosa para obrigar Gêmeos a soltar-lhe a garganta, então, livre, chutou-lhe o peito o fazendo recuar alguns passos para trás — Você mente! Mente para justificar seus atos de desonra e tirania, mas nada os justifica. Nada! Mas saiba que o trono de Shion só é seu porque eu permiti, Gêmeos! EU PERMITI! Em memória ao Saga, porque eu sou o herdeiro de Shion. Eu fui treinado para ser o Patriarca, e se até hoje, e mesmo depois que você roubou a vida do Saga, eu não clamei o trono, foi porque tinha esperança na missão de Geisty, porque dei meu total apoio a ela, mas... quando eu soube o que fez a ela no passado... — nessa hora lágrimas saltaram dos olhos faiscantes de Mu — Eu juro que não permitirei que fique mais um dia nesse posto. SEU DESGRAÇADO MALDITO!
Um novo choque entre os dois cavaleiros se deu levantando poeira, suor e sangue no ar.
Embora já quase esgotados, os golpes de ambos eram ainda mais selvagens e potentes, porém Gêmeos sentia que não poderia segurar o ariano por muito mais tempo, pois que dentro de sua mente ele também travava uma batalha ferrenha. Por conta disso, tentou mais uma vez elevar seu Cosmo na tentativa de vencer e acabar com a luta, mas novamente não teve sucesso, porque seu domínio sobre a cosmo energia que regia seu ser era inferior ao dono verdadeiro dela.
Percebendo sua tentativa frustrada, enquanto desviava de mais um soco para tentar chutar os joelhos do grego, Mu deu uma risada alta e debochada.
— Mas é mesmo um covarde! Está tentando burlar as regras, Gêmeos? Tentando me atacar com o Cosmo? — grunhiu desviando de um soco em seu peito para logo em seguida contra-atacar com outro — Mas você não consegue, não é mesmo?
— MALDITO MISERÁVEL! — gritou o geminiano, que com um giro rápido desviou do golpe e num contra-ataque preciso deu uma pancada com a faca da mão na garganta do lemuriano, que ofegou sem ar — EU VOU TE MATAR, ÁRIES!
Gêmeos saltou sobre Mu visando novamente tentar asfixia-lo, mas o lemuriano foi mais rápido e dessa vez protegeu-se cruzando os braços em X à frente do rosto, então, na velocidade de um pensamento, apanhou um pedaço de rocha do chão e com ele na mão deu uma pancada com toda a força na têmpora de Gêmeos.
O impacto fora como tomar um tiro à queima rouba bem no meio dos miolos.
Com a cabeça latejando, a visão turva e os ouvidos surdos, o cheiro de sangue e poeira desapareceu dando lugar ao odor forte da maresia, e nessa hora o desespero voltou a tomar conta do Patriarca.
Com o coração aos saltos, Gêmeos sentiu quando Áries arremeteu-se sobre seu corpo lançando a ambos no chão novamente, mas na iminência do choque com este, nenhuma superfície dura e áspera fora sentida.
No lugar dela só havia o sacolejar nauseante das ondas do mar.
Ele havia caído nas águas salgadas do Egeu, de frente à cela do Cabo Sunion.
E mais uma vez lá estava o outro. Agarrado às barras enferrujadas, urrando feito um animal enlouquecido enquanto as sacudia em completo desespero.
Saga...
Gêmeos murmurou imóvel, olhando para ele.
Da cela, Saga experimentava uma sensação de derrota avassaladora. Esta lhe minava as forças, mas ele mantinha-se firme. Precisava manter-se firme, ou o outro venceria...
De repente ele teve consciência de que algo muito grave havia acontecido, e que isso envolvia Geisty.
Geisty...
Geisty!
Sua amada amazona...
Ele não era capaz de sentir a presença dela, nem seu Cosmo, mas seu coração aflito lhe dizia que ela estava viva.
Geisty...
O nome dela pulsava constante e incessante em sua mente junto com o bater aflito de seu coração.
Não sabia quanto tempo estivera ali. A única certeza que tinha no momento era de que precisava encontrá-la, precisava estar com ela. Por isso, apressado correu os olhos por cada centímetro daquelas barras enferrujadas procurando um ponto franco. O ferrugem e o azinhavre eram grossos, tinham um odor fétido, de lodo e corrosão, mas com a pressa dos que lutam pela vida ele passava as unhas pelas crostas à procura de alguma rachadura. Sem sucesso, e alucinado de terror e desespero, agarrou-se novamente as barras e as forçou...
Atena, por favor! Atenaaaa!
Ele rogou a deusa de sua devoção. Sua fé e o amor pela amazona eram tudo o que tinha ali.
Foi quando sentiu seu Cosmo, esquecido a tanto tempo dentro de si e adormecido, voltar a seu corpo e aquece-lo feito o sol.
Mas o outro também clamava pelo seu Cosmo, e no mesmo instante que o fazia Saga olhou para ele, para seus olhos viperinos cheios de ódio e desejos hediondos que lhe encaravam com um olhar insano, mesmo a metros de distância.
Sozinhos ali eles se encaravam. Dois homens, duas consciências, duas essências, que dividiam um mesmo corpo. O que eles eram? Talvez jamais alguém conseguiria dizer um dia. Nem mesmo eles próprios.
Os olhos jades do Cavaleiro de Gêmeos dentro da cela emanaram uma faísca que ditava seu desejo iminente. Sua mente fervia de ira e preocupação com a lembrança de Geisty, então ele agarrou com toda força a grade velha e enferrujada e com a ajuda de seu poderoso Cosmo num único tranco violento a abriu, fazendo o ruído do metal enferrujado ecoar estridente pela galeria de pedras.
Ele estava livre!
Entre ele e o outro agora não havia mais nada. Nenhum véu amaldiçoado os separava mais. A escuridão fora embora e agora ele podia olhar diretamente para o rosto do outro tomado em ira, com seus olhos despertos, com sua mente em seu total domínio.
Com os pés descalços ele iniciou um caminhar lento na areia em direção ao outro, que não se movia; Apenas o peito subia e descia numa cadência alucinada, enquanto seus olhos vermelhos o fitavam em terror.
De pé diante dele, arfando de ódio Saga o agarrou pelos ombros. Ele não era mais que uma figura débil e decadente. Nem seu peso era tanto. Por isso com facilidade o carregou até perto da cela e o jogou lá dentro, fechando as grades de ferro com uma pancada e usando seu Cosmo para sela-las.
NÃO! NÃOOOOOO!
O mal personificado gritou alucinado dentro da prisão.
Saga ainda olhou uma última vez nos olhos dele antes de uma dor lancinante lhe obrigar a levar as mãos à cabeça e cerrar forte os olhos.
Caiu de joelhos na areia, mas de repente esta lhe pareceu mais dura e áspera do que deveria, então o cheiro da maresia desapareceu e no lugar dele o do sangue o despertou.
De repente ele se viu no Santuário de Atena, e este lhe pareceu tomado pela escuridão. A dor em sua cabeça tornou-se generalizada, e sem entender ainda o que acontecia sentiu seu corpo ser jogado contra uma coluna de pedra e uma pancada forte na boca o fez cuspir um dos dentes molares para fora junto de uma bolota de sangue.
Atordoado, desorientado, sentindo os pés e mãos formigarem e os sapatos apertarem seus dedos, já que há poucos segundos andava descaço na areia da praia, Saga apertou as pálpebras com força. Quando abriu os olhos sua visão estava desfocada, mas ele conseguiu ver o punho de Mu vindo na direção de seu rosto na velocidade de um cometa.
Teve tempo apenas de tombar rapidamente a cabeça para o lado e encarar os olhos alagadiços e ardentes de ira do lemuriano. Ouviu o baque alto do choque do punho dele contra a coluna e os ossos trincando, então foi surpreendido por uma joelhada em seu rim. Ofegou e tossiu, ainda desorientado, mas seu instinto de guerreiro exímio e treinado agiu na hora certa, e mesmo sob torpor desmedido defendeu-se como pôde de uma segunda joelhada nas costelas junto de outro soco na mandíbula.
Saga não entendia o que estava acontecendo. Por que, afinal, Mu, seu amigo e sempre tão calmo cavaleiro, o estava agredindo daquela forma tão violenta? Ele lhe parecia fora de si, por isso só sabia que era preciso se defender e tentar pará-lo de alguma maneira.
Foi assim que, reunindo forças sem saber de onde, e procurando organizar a confusão que assolava sua mente, mesmo cambaleante Saga empurrou Mu para longe usando o próprio corpo.
Novamente ambos foram ao chão, e nessa hora o Santo de Áries encarou os olhos jades de Saga e percebeu que não apenas eles mudaram de cor e aspecto, perderam a chama da ira que os devorava, mas a aura do cavaleiro também tinha ganhado novas nuances de cor; Um azul claro brilhante, o rosa terno e quente que existe somente naquelas pessoas cuja bondade toca o coração.
Mu estreitou os olhos e arfou ruidoso.
Uma súbita, fria e gigantesca ira então tomou seu coração e ele rosnou feito um bicho enlouquecido.
— Olha só quem está dando o ar da graça! — Áries grunhiu o agarrando pela gola da camisa — O covarde fugiu, não é? Então agora a minha conversa vai ser com você, seu filho da puta!
— Mu... Mu!
Finalmente Saga conseguiu falar.
Sentia a garganta dolosamente apertada, os lábios trêmulos e inchados, mas sua maior dificuldade era organizar os pensamentos e percepções presentes, entender o que estava acontecendo. Por que estava no chão trocando socos com Mu? Por que este estava de cabelos curtos? Por que aquela máscara de ódio e loucura, que nada tinha a ver com sua sempre doce e gentil figura, cobria seu rosto transtornado.
— Seis anos, seu desgraçado... Seis malditos anos! — gritou cuspindo saliva e sangue — Como pôde fazer isso... com ela?
O pânico tomou os olhos e o coração de Saga ao ouvir aquilo.
Seis anos? Ele pensou sentindo o peito gelar num pavor genuíno, mas ainda sem ter noção exata do que Mu dizia, então, quando menos esperava, Saga sentiu o lemuriano sem dó nem piedade lhe soltar a camisa e acertar seu rosto com um jabe de direta que abriu um corte em seu supercilio. Reagiu o chutando na cintura e o empurrando para que saísse de cima de si, mas tudo que conseguiu foi cair junto com ele alguns degraus abaixo, pois que seu corpo parecia não lhe obedecer exatamente aos comandos que lhe dava. Sentia-se fraco, como costumeiramente acontecia quando recobrava a consciência após tê-la perdido para o Outro. Além disso, estava debilitado pela dor excruciante que ferroava todo seu corpo.
Durante a queda Mu lhe golpeou outras vezes mais o rosto e também as costelas, enquanto ele só cruzava os braços na frente da cabeça para tentar se defender.
Seis anos?
As palavras do ariano reverberavam em sua mente o pondo em terror.
— Ela perdeu os filhos, perdeu o marido, perdeu a vida que ela tanto sonhou... E que você prometeu...
Mu gritava em meio a um choro convulso cheio de ódio, revolta e mágoa, enquanto seus punhos massacravam a carne do geminiano, abrindo cortes, trincando ossos, partindo cartilagens...
— Você a abandonou... Nenhuma dor justifica sua fuga. NENHUMA! Você matou meu mestre, agrediu minha irmã de todas as formas, e depois veio ameaçar meu filho de seis anos, o meu marido, e toda a minha raça... FODA-SE QUEM ESTÁ NO CONTROLE, EU NUNCA VOU PERDOAR VOCÊS PELO QUE FIZERAM À MINHA FAMÍLIA! EU VOU ACABAR COM OS DOIS. EU VOU ARRANCA-LOS PARA SEMPRE DE NOSSAS VIDAS, SEUS DESGRAÇADOS! NEM QUE PARA ISSO EU PRECISE DESCER ATÉ O SUBMUNDO JUNTO DE VOCÊS. VOCÊS JAMAIS IRÃO ENCOSTAR DE NOVO NA MINHA FAMÍLIA. NÃO MERECEM VIVER, MALDITOS! MALDITOS!
Todos os presentes ali assistiam àquele horror escandalizados e em choque.
O barulho seco do punho de Mu se chocando contra a face do Patriarca, juntamente com suas palavras carregadas de indignação e emoção, faziam seus corpos tremerem e os pelos do corpo se arrepiarem. Porém, nenhum deles interveio. Nem mesmo quando notaram que os fios negros que se misturavam com a escuridão daquela noite ganharam os conhecidos tons de azul dos cabelos de Saga.
Atônito, Aiolia acompanhava o desenrolar final daquela batalha amparando Marin, que escondia o rosto em seu abraço.
Ao lado deles Shura desviava o olhar perplexo para Shina, que de tão alarmada tapava a boca com ambas as mãos.
Máscara da Morte por sua vez, tinha um sorriso diabólico no rosto de fisionomia visivelmente satisfeita e exultante. Toda aquela violência lhe era um deleite aos olhos. Torcia para que no final do embate, não importasse quem fosse o vencedor, se houvesse uma baixa lhe deixassem ficar com a cabeça do derrotado.
Camus segurava Afrodite pelo punho. Não fosse pelo calor e tensão do cenário e do momento teria logo se dado conta do ato falho, mas como todos ali ele também só tinha olhos para os dois cavaleiros a se digladiarem no chão, até que de repente...
— Sacre Bleu! — o francês exclamou lívido enquanto, por um segundo, desviou os olhos para Afrodite.
Subitamente, e exasperado, com um puxão forte Camus trouxe o pisciano para mais perto de si e lhe deu um chacoalhão para chamar sua atenção.
— Aii, o que foi? — Peixes murmurou olhando para ele.
— Afrodite, seu idiota, tira a camisa. — Camus sussurrou. Era notável sua urgência e desespero. — Anda! Rápido! Tira a merde da camisa!
— O quê? — o sueco perguntou confuso.
— A camisa do meu pijama. Você está com o meu pijama! Tira! Vira do avesso. Tem o caralho do meu nome bordado nela, mon Dieu! Non posso acreditar que fez isso! — sussurrou apontando para nome "CAMUS" bordado em linha de seda dourada num pequeno bolso do lado esquerdo da peça.
Uma veia saltou no pescoço de Afrodite e ele engoliu em seco nervoso.
Rapidamente arrancou a camisa e já a virava do avesso às pressas quando Shaka correu até ele e lhe entregou Kiki no colo junto com o lenço que Camus havia lhe dado para estancar o sangramento no nariz.
— Peixes fique com ele, rápido! Preciso parar essa loucura. — pediu o virginiano, que mal deixou o filho com o sueco já correu escadaria abaixo, aflito por colocar um fim àquela violência insana. O marido claramente havia perdido todos os limites.
Mas Aldebaran chegou antes dele.
Sem pensar duas vezes o brasileiro, tal qual um touro desgarrado, avançou na direção dos dois cavaleiros e mergulhou entre eles agarrando Mu por trás, pelos braços, e com um puxão o tirou de cima de Saga.
— CHEGA! — Touro deu um grito gutural e chacoalhou violentamente o ariano, o levantando do chão e o arrastando para longe do grego — JÁ CHEGA, MU!
— Me solta Aldebaran! Eu vou acabar com ele, eu quero matar esse miserável! — Áries esperneou alucinado tentando se livrar dos braços imensos e poderosos do taurino.
— Para com isso, Mu. Você não é assim, cara. — Aldebaran pedia com pesar, enquanto olhava para o corpo estirado e imóvel do grego nas escadarias. Uma poça de sangue vivo crescia debaixo de sua cabeça lhe tingindo de vermelho os cabelos azuis — Isso não é você, mermão. Essa violência e esse ódio não são teus não. Eram do outro, e ele foi embora... E aquele ali... aquele que você tá tentando matar... aquele é o Saga!... O nosso Saga! — Touro parecia em choque.
Bufando e respirando com dificuldade, Mu olhou para Saga inerte no chão, mas a ira que envenenava sua alma não se amenizou nem diante da constatação de que seu amigo havia voltado e estava indefeso. O ódio e o calor da batalha ainda queimavam dentro de si e lhe consumiam a razão e qualquer ponderação.
Cego de ira Mu se teleportou, livrando-se dos braços de Touro, e surgiu aos pés do geminiano estirado no chão, mas antes que conseguisse executar qualquer outra manobra Shaka chegou ali e colocou-se entre ele e Saga.
A princípio Virgem olhou para Áries e seu coração doeu. Ele estava tão machucado que seu rosto estava desfigurado, as roupas rasgadas e encharcadas de sangue, mas tinha certeza de que as máculas em sua alma e coração lhe eram muito mais danosas.
Lutando contra uma vontade excruciante de gritar e chorar, Shaka com pressa, mas todo o cuidado, aproximou-se de Mu e o abraçou. Lentamente encostou seu rosto ao dele e disse baixinho rente ao seu ouvido:
— Já chega... acabou, Mu, acabou. — sentia o corpo do ariano tremer alucinado, mas mesmo assim o apertava contra o seu com vigor e firmeza.
— Eu... Eu vou mata-lo... Eu preciso... proteger a minha família... Eu vou proteger a minha família! Eu vou mata-lo, Shaka! — o lemuriano disse ofegante, com o rosto banhado em lágrimas, suor e sangue.
— Não, você não vai. — Shaka respondeu com calma, contendo em seus braços os tremores convulsos que o corpo de Mu sofria. Ele mesmo tremendo devido à emoção do momento. Mal podia crer que Saga havia enfim vencido sua faceta maligna e retornado, e embora o momento e as circunstâncias fossem os piores possíveis, ainda assim era motivo para alegrarem-se.
— Ele nunca mais vai nos ferir...
— Sim, mas você não vai precisar mata-lo para isso, Mu... Veja! Quem está ali é o Saga! — dito isso Shaka se afastou e segurou no rosto ferido do ariano com ambas as mãos o fazendo olhar em seus olhos — Olhe para mim, ouça apenas a minha voz. Faça calar a ira que grita dentro de você. Controle sua raiva, meu amor... ela o está cegando. Esse não é você.
Foi então que a mão grande e pesada do taurino tocou o ombro do ariano.
— Mu, eu não sei o que aconteceu, mas você já resolveu na tijolada meu amigo. E daqui em diante é chutar cachorro morto. — Aldebaran desviou os olhos para Saga.
* Jabe - cada um dos golpes diretos, rápidos, que o pugilista desfere contra a cabeça do adversário a fim de minar-lhe as forças.
