Capítulo Vinte e Dois
Severus Surprised
(Severus Surpreso)
Padfoot estava furioso, tanto por Wormtail ter estado tão perto e ainda ter fugido quanto pela aparente falha no mapa. Ele e Moony tinham passado a tarde antes da lua cheia de novembro perto do lago, com o mapa, mas não tinham se saído melhor do que Harry em sua tarde com Tonks e o Dementador-bicho-papão.
— É velho — disse Tonks, reconfortante, enquanto Harry observava com um sapinho de chocolate em mãos. Ela segurava o mapa, virando-o em suas mãos. — Talvez esteja com defeito?
O senhor Prongs gostaria de lembrar que o mapa é mais novo do que a senhora Lupin, Harry leu por cima do ombro dela e sorriu.
O senhor Padfoot acha que a senhora Lupin deveria procurar uma Curandeiro para o caso de ela estar com defeito.
O senhor Moony gostaria que os senhores Prongs e Padfoot deixassem a senhora Lupin em paz e garante que o mapa funciona perfeitamente.
O senhor Wormtail concorda com a garantia do senhor Moony e... Padfoot pegou o mapa e o dobrou.
— Viu? — perguntou. — Todo o resto está funcionando bem.
— Por que não pergunta a eles o motivo de não ter funcionando, então? — perguntou Tonks com um sorriso divertido.
— Eu... er... não acho que isso daria muito certo — respondeu Moony. — Eles não ajudaram em nada quando nós perguntamos, e depois de ter dito que eles são "velhos", você provavelmente vai ser insultada.
— Você se chama de velho o tempo todo — lembrou ela, cutucando Moony com o cotovelo.
— Sou agora — falou com tristeza. — Mas não éramos naquela época. — Indicou o mapa nas mãos de Padfoot. — E eu concordo com eles... nós? Há mais nisso do que um simples defeito. Tem que ter.
Tonks encontrou os olhos de Harry e jogou as mãos no ar. Ele não sabia com quem concordar; por um lado, o mapa nunca falhara antes, mas, por outro, tinha sido ele a ver o pontinho de Wormtail ir de um lado para o outro antes de sumir.
Mas, apesar da insistência de Padfoot e Moony, novembro passou rapidamente, assim como a maior parte de dezembro, e eles ainda não sabiam como Wormtail tinha sumido nem para onde ele tinha ido. E, apesar de ficarem de olho no mapa sempre que possível, ele ainda não reaparecera.
— Nada — murmurou Hermione, sentando-se ao lado de Draco em Adivinhação. Ela ajeitou a gola de sua camisa, escondendo ainda mais a corrente de seu Vira-Tempo, e entregou o mapa a Harry. Eles tinham começado a deixar o mapa com Hermione, assim, ela podia observá-lo durante suas aulas e, quando ela voltasse no tempo para se juntar às aulas deles, podiam observar juntos.
Harry escondeu o mapa embaixo da sua cópia de Esclarecendo o Futuro e ergueu os olhos ao ouvir o som de miçangas e xales.
— Eu prevejo sofrimento em seu futuro, senhorita Granger — disse Ron, inclinando-se para sussurrar para Hermione em uma péssima imitação da voz aérea de Trelawney. — Por aproximadamente uma hora, começando agora. — Hermione riu, sem se importar em disfarçar, e Trelawney (que começava a falar sobre o tipo de folhas de chá que usariam nessa aula) a olhou feio.
Harry olhou para o mapa enquanto Trelawney falava e Ron pegava o conjunto de chá deles, mas não viu nada relacionado a Wormtail. Dumbledore andava em seu escritório, mas não por muito tempo; alguém chamado Damaris Sprottle estava na escada de seu escritório. Fred, George e Lee estavam em um banheiro do quinto andar com Pirraça, e o pontinho de Hermione estava a algumas salas dali, em sua aula de Estudos Muggle, apesar de ela estar bem ali, olhando feio para sua xícara.
Ron entregou a Harry uma xícara fumegante, e eles beberam em silêncio. Harry voltou a observar o mapa; encontrou o pontinho de Cho nas estufas. Sorriu. Ela tinha voado brilhantemente na partida de novembro contra a Lufa-Lufa, e a grande vitória da Corvinal significava que Grifinória ainda tinha uma chance de ganhar a Taça de Quadribol.
Ron disse algo, e Harry ergueu os olhos, voltando a cobrir o mapa.
— O quê?
— Perguntei se terminou — repetiu Ron, indicando a xícara de Harry. Harry bebeu o último gole e trocou de xícara com Ron.
— Não acho que seja um unicórnio nem uma vassoura — sibilou Hermione para Draco. Ele era o único que conseguia se sentar ao lado de Hermione em Adivinhação; Harry costumava chamar a atenção de Trelawney, o que nunca acabava bem quando Hermione estava por perto, e Ron gostava de provocá-la ao fingir levar tudo a sério. — Acho que é um amontoado de folhas de chá...
Rindo da expressão meio divertida, meio de exasperada de Draco, Harry e Ron se voltaram às próprias xícaras.
— Pode ir primeiro — falou Ron. — Minha xícara sempre tem menos que a sua.
— Está bem — concordou Harry. — Er, bem... — Apertou os olhos para o fundo úmido da xícara de Ron. — Você tem algumas linhas nas beiradas, então... er... — Folheou o livro. — Em dois meses, você vai ter algum tipo de jornada... Isso não pode estar certo, vamos estar na escola. — Voltou a olhar o livro e deu de ombros.
— Ah, mas quem disse que será uma viagem — falou Ron em um sussurro místico. — Pode ser uma jornada espiritual.
— Certo — falou Harry, bufando. — Depois me conta como foi, pode ser? — Ron bufou também. — Depois... Acho que é uma pera... talvez sua jornada será até a cozinha, então?
— Provavelmente — falou Ron, sorrindo. — Malfoy vai querer visitar aquele elfo doméstico maluco dele.
— Eu não sei o que é isso — admitiu Harry, apontando para as folhas. — Mas vamos dizer que essa pedaço é uma folha, então... crescimento?
— Eu vou precisar de novas vestes se for o caso — falou Ron, puxando as vestes; elas tinham sido de Bill, o único que ainda era maior que ele, mas pela foto que Harry tinha visto deles todos no Egito, Ron estava prestes a ficar mais alto do que ele também. — A mãe não vai ficar feliz.
— Talvez não deva fazer aquela viagem até a cozinha, então — falou Harry, rindo, e Ron também riu. — Certo, sua vez.
— Está bem... — Ron olhou dentro da xícara. — Esse mês... isso é perda, mas com uma linha atravessada, então... não perder...?
— Vencer? — sugeriu Harry.
— É, deve ser... pena que não tem Quadribol até fevereiro — falou Ron. — Sei lá, talvez você devesse entrar em uma competição ou algo assim... mas... — Ele inclinou a xícara e a levou para perto do rosto. Trelawney escolheu esse momento para se aproximar.
— Como estamos indo por aqui? — perguntou ela, esticando a mão para pegar a xícara. Ron a entregou. — Perdeu alguma coisa, meu garoto? — perguntou.
— Er, não — falou Harry.
— Porque irá encontrar — anunciou ela, parecendo ignorá-lo.
— Não perder — murmurava Ron baixinho, balançando a cabeça. — É claro que é encontrar.
— Mas fique avisado, esse encontro trará consigo grande perigo...
— É claro — suspirou Harry. Draco riu, e Hermione revirou os olhos.
— Ah? Mas o que é isso? Você... Essa xícara não é de todo ruim, parece. — Trelawney sorriu um pouco incerta para Harry, que achou que ela cheirava a desapontamento. — Um coração — disse ela, alto. — Romance! — Harry se afundou em sua cadeira, horrorizado, enquanto Ron gargalhava. Lavender e Parvati ofegaram.
— É o fim de semana em Hogsmeade, Harry — falou Parvati, animada. — Sabe quem é, professora?
— Uma garota — falou Trelawney. — Ela estuda aqui, nessa escola, mas seu rosto me é desconhecido. — Harry ficou feliz por isso, mas ainda parecia que seu rosto pegava fogo. De seus amigos, só Hermione parecia solidária.
— Acho que o rosto dela me é conhecido — murmurou Ron, rindo ao seu lado. Harry o acotovelou e nem se sentiu mal por isso. Os alunos começaram a conversar; alguns especulando quem seria o par de Harry, outros rindo às custas de Harry e alguns (Neville, Seamus e Dean) pareciam desconfortáveis por Harry.
— Você teria que ser cego — falou Draco em voz baixa e, depois, num tom ainda mais baixo: — Faz a gente imaginar como ela pode não conhecer se ela tem três olhos... — Hermione riu.
— Mas tome cuidado! — Harry não foi o único que pulou; a turma esperava barulhos súbitos de Moody, mas não de Trelawney. — Não será um romance feliz.
Apesar de esse ser o tipo de comentário que Harry esperava de Trelawney, seus planos de convidar Cho para ir com ele a Hogsmeade no fim de semana já não pareciam mais tão interessantes.
— E desde quando você acredita nas previsões da Trelawney? — perguntou Hermione, brava, a caminho de Transfiguração. — Convide-a, Harry. E se for um romance infeliz... — Sua voz assumiu uma péssima imitação da professora de quem não gostava. — Então lidaremos com isso quando chegarmos lá.
— E se ela falar não? — perguntou Harry, de repente ansioso.
— Ela não vai dizer isso — falou Hermione, confiante. — Eu sei que ela quer que você a convide para esse fim de semana.
— Como? — perguntou Draco, curioso, apesar de não ter deixado de olhar para o mapa; era a vez dele.
— Eu ouço as coisas — falou Hermione curtamente.
— Por que você não a convida então, já que gosta tanto da ideia? — resmungou Harry, e Ron abafou a risada. Hermione o olhou feio, os lábios crispados de um jeito que deixaria McGonagall orgulhosa. Então ela se voltou a Harry e havia algo magoado em seu cheiro.
— Eu não ligo se você vai ou não a Hogsmeade com a Cho — ralhou Hermione. — Eu só estou tentando te ajudar porque é óbvio que ela gosta de você, e você parece gostar dela, mas não faz nada além de olhar para ela o tempo todo!
— Isso... Eu não olho! — protestou Harry. Draco bufou.
— Você meio que olha — falou Ron, apologético.
— Não importa — falou Hermione, balançando uma mão. — Ela olha de volta na maior parte do tempo. Mas não...
— Ela olha? — perguntou Harry, animado.
Hermione suspirou.
-x-
Legillimens, pensou Severus, concentrando-se na cabeça loira de Draco, inclinada sobre o caldeirão que ele dividia com Potter.
Os ombros de Draco ficaram tensos, mas ele não parou de misturar a poção, e Severus não conseguiu atravessar suas defesas mentais... ainda. Severus usou um pouco mais de força.
Draco tinha progredido bastante desde o começo do semestre. Ele tinha ido de não perceber que estava sendo "atacado" a reconhecer a sensação de uma intrusão — com Severus sendo cada vez mais sutil —, até aprender a bloquear tais intrusões. Agora, Severus não ia só procurar pelos pontos fracos de suas defesas, ia realmente ler sua mente.
Seria muito mais fácil se o olhasse nos olhos, mas Severus tinha talento o bastante para não precisar se preocupar com isso. E, ainda que quisesse que Draco conseguisse bloqueá-lo, também estava curioso para saber o que Draco planejava para Lucius durante o feriado.
Draco colocou a concha na mão de Potter e fechou os olhos, o rosto enrugado. Potter colocou uma mão em seu braço, parecendo preocupado.
Severus forçou mais um pouco, e as defesas de Draco sucumbiram. Severus o viu se afundar um pouco, viu Potter sussurrar perguntas.
A mente de Draco rodopiou ao seu redor. A mente do próprio Severus era cuidadosamente organizada — assim como a de todos os Oclumentes —, mas a de Draco ainda não era, e pensamentos e sentimentos estavam por todos os lados, passando quase rápido demais para que Severus conseguisse acompanhar.
Havia frustração por perder, raiva (apesar de ele não saber que Severus era o responsável), medo por a pressão ter sido mais forte dessa vez e um tipo animado de determinação... e, certamente, Draco empurrou de volta depois disso.
Severus hesitou e acabou permitindo-se ser retirado, ainda que apenas para que Draco soubesse que era possível. Conseguia sentir as defesas de Draco se reconstruírem. Então, Severus voltou a empurrar.
Sentiu o choque de Draco, e depois dor. Severus fez o que pôde para diminuir a dor e foi procurar, passando por sentimentos, lembranças e pensamentos para encontrar o que procurava, mas tomando o cuidado de não examinar o resto. Legilimência era uma prática intrusiva e não havia como evitar isso, mas Severus achava que seu afilhado não ia gostar que conhecesse todos seus pensamentos, tampouco queria.
O pânico o cercou, e Severus se afastou; era fácil demais se perder nos sentimentos da mente hospedeira e raramente algo bom vinha disso.
Severus viu o rosto de Lucius e foi em direção a ele, certo de que os planos de Draco estariam ali, também.
O nome de Draco ecoou ao seu redor, e o rosto de Lucius sumiu, substituído pelo de Potter. Severus se afastou um pouco, o bastante para olhar para a sala de aula — ninguém tinha se machucado ainda, o que era um bônus —, e viu Potter murmurar algo para Draco... daí ele ter aparecido na mente dele.
Severus voltou a procurar pelos planos de Draco e continuou a seguir o rosto de Lucius. Os sentimentos de Draco pelo pai eram complicados, para dizer o mínimo, e estavam por todos os lados conforme Severus se aproximava. Severus fez seu melhor para ignorá-los, para deixá-los de lado. Draco o empurrou sem muita vontade — como se não esperasse que funcionasse, e não funcionou —, mas passou mais tempo o seguindo, vendo as próprias lembranças. Ele ainda estava em pânico, mas havia confusão e curiosidade também.
Severus olhou para a lembrança mais próxima, antiga, na qual Lucius ensinava Draco e Hydrus a voarem. Draco assistiu com ele, em vez de tentar interferir, e o tom de sua mente mudou de confuso para nostálgico. Não era esse tipo de resposta que Severus queria, então deixou essa lembrança de lado e escolheu outra.
Essa era mais recente, e Severus não ouviu as palavras que eram trocadas, mas estudou os arredores da memória, porque estivera lá. Granger tinha sido petrificada, e Draco e Lucius discutiam em frente a Ala Hospitalar... a qualquer momento, Lucius iria embora e Severus chegaria...
Draco o empurrou, enfurecido. O empurrão não tinha sido o suficiente para expulsá-lo, então Draco tentou algo diferente; ele pegou a lembrança e, em vez de lutar, Severus permitiu. A sensação resultante não era física, tampouco podia ser comparada a uma. Ter todos os aspectos sensoriais e emocionais de um ambiente arrancados causava uma sensação própria e extremamente desagradável. Se tivesse sido qualquer outra pessoa, Severus não teria permitido.
Precisou de alguns momentos para se recuperar, sentindo-se estranhamente confortado pelo som dos sussurros apressados dos alunos do terceiro ano e do suave borbulhar dos caldeirões. Nem mesmo Longbottom conseguira atrapalhar a aula. Severus o colocara para trabalhar com Granger para se garantir disso, mas com Longbottom ninguém estava verdadeiramente seguro. Severus olhou para a ampulheta em sua mesa.
— Vocês têm dez minutos — falou. — Espero que estejam quase prontos para colocar suas poções nos frascos.
Voltou a deixá-los sozinhos. Garantiu-se de que sua cabeça estivesse inclinada sobre os papéis em sua mesa — sua desculpa para não andar pela sala hoje —, e voltou para a mente de Draco.
Encontrou as lembranças relacionadas a Lucius mais rapidamente dessa vez. Draco tinha tentando escondê-las em sua ausência, mas Severus começava a conhecer melhor sua mente.
Escolheu outra lembrança aleatória, essa era da família Malfoy — menos Narcissa — tomando um café da manhã particularmente desconfortável com Potter e McKinnon. Baseando-se na aparência jovial dos meninos e no fato de que Hydrus e Draco seguravam ratos parecidos, a lembrança devia ser da semana antes do julgamento de Black. A consciência de Draco pareceu estudar a lembrança.
Mais uma vez, essa não era a resposta que Severus queria, então escolheu outra. Draco não era muito mais velho do que na outra lembrança, e ele e Lucius estavam de pijama nas escadas, discutindo um sonho que Draco tivera sobre monstros na Mansão...
Então, Draco fez algo inesperado. Severus teria esperado ser empurrado, ou que Draco tentasse pegar a memória, como antes. Em vez disso, Draco o atacou.
Era uma Legilimência muito desastrada, e Severus era habilidoso demais para que a tentativa de Draco ler sua mente chegasse a qualquer lugar, mesmo que tivesse sido pego de surpresa. Draco... quicou, por falta de melhor palavra, na barreia de Severus, mas voltou a tentar.
Severus não se atreveu a tentar ler seus pensamentos atuais, apesar de que teria gostado; Draco só tinha tentando empurrar de um jeito diferente e feito isso por acidente, ou tinha sido um esforço deliberado? No mínimo, ele tinha descoberto que suas dores de cabeça tinham uma identidade e tentava — pois era um pouco mais do que uma tentativa, mesmo que Severus não fosse tão habilidoso — descobrir mais.
Draco tentou de novo — dessa vez, foi mais um cutucão, a atitude por trás dele muito parecida àquela de um aluno que cutucava um ingrediente de poções particularmente interessante; sempre havia algum aluno que se comportava assim ao usar fígado de rato pela primeira vez.
Severus recuou antes que Draco pensasse em perguntas demais ou encontrasse respostas. Sabia que ele e Draco precisariam conversar sobre isso em algum momento, mas ainda não tinha decidido como fazer isso e não tinha vontade de apressar a conversa; qualquer menção aos planos de Narcissa estava fora de questão, mas, então, que outra desculpa teria para forçar aulas de Oclumência em um garoto de treze anos sem que ele soubesse?
Apertou a ponte do nariz no instante em que o último grão de areia caia na base da ampulheta em sua mesa. Ela vibrou silenciosamente.
— Quero suas poções em minha mesa — falou Severus sem erguer os olhos. — Eu os verei na aula da semana que vem.
Um membro de cada dupla foi colocar a poção em sua mesa e saía em silêncio. Conseguia ouvi-los conversar no corredor, mas eles sabiam que deviam ficar em silêncio dentro da sua sala de aula.
Depois de Zabini ter entregado a poção que ele e Nott tinham preparado e ido embora, Draco e Potter continuavam ali. Potter estava em pé. Draco ainda estava sentado, mas parecia bem melhor do que Severus teria esperado. Ao seu lado, o caldeirão que tinham compartilhado ainda borbulhava.
— Estou certo de que sabem que devem limpar tudo depois da aula — falou Severus.
— Ainda não está pronta — falou Potter.
— Mesmo? — Severus olhou rapidamente para os frascos em sua mesa e, certamente, o de Potter e Draco não estava lá. — E por que não?
Era um tom que sempre irritara James Potter e que geralmente tinha o mesmo efeito no filho. Certamente, Potter cerrou os olhos e abriu a boca, mas Draco falou primeiro.
— Estou com dor de cabeça, senhor. — Sua voz estava baixa. — Por quase toda a aula.
— Entendo — falou. — E isso explica a sua parte, Draco, mas como você estava incapacitado de terminar a poção, Potter? — Draco franziu o cenho (Severus não precisava estar em sua mente para saber que ele achava que estava sendo injusto). Mas Potter estava inclinado sobre o caldeirão, e Severus pigarreou.
— Eu não estava — falou Potter, ajeitando-se. Ele escreveu seu nome e o de Draco no frasco em sua mão. — Só está um pouco, er... atrasada.
— A entrega atrasada costuma significar reprovação automática. — Apesar disso, Potter se mexeu como se fosse colocar o frasco na mesa, mas Severus entrou na frente e esticou a mão. Potter parou, mas não o entregou.
Draco tinha surpreendido Severus mais cedo com sua tentativa de empurrá-lo. Potter o surpreendeu agora e, ainda que Severus não estivesse nem perto de se sentir tão impressionado quanto se sentira com Draco, a surpresa de Potter foi notoriamente mais efetiva e dissimulada.
Ele passou o frasco para Draco e foi embora.
E Draco, sabendo exatamente o que Potter tinha feito e o porquê, ofereceu o frasco a Severus, dizendo:
— Desculpe o atraso, mas tive uma das minhas dores de cabeça. — A poção era de um azul claro e pálido, como deveria ser.
— Eu devia reprovar vocês dois. — Draco não respondeu, apenas colocou o frasco em sua mesa. — Ficou para trás por algum motivo em particular, Draco? — Severus tinha suas suspeitas, é claro, com as dores de cabeça sendo a primeira.
— Você está bem, senhor? — E com essa pergunta, Draco o surpreendeu novamente.
— Desculpe?
— Não é do seu feitio ficar em sua mesa a aula toda. Você costuma incomodar o Longbottom ou...
— Eu estava lendo. — Não era necessariamente uma mentira, só não estivera lendo algo que estivesse em um papel. Severus não se deu ao trabalho de responder à acusação sobre Longbottom. Desgostava do garoto por princípio, mas ele ser completamente incompetente não tinha feito Severus gostar dele com o passar dos anos.
— Eu acho que é o pai — falou Draco. Severus ergueu uma sobrancelha, um pouco perdido, mas não querendo admitir. — As dores de cabeça — esclareceu, e Severus apenas o olhou. — Elas... hoje foi diferente, conseguia sentir algo... — Esfregou as têmporas, franzindo o cenho. — Aqui, e fiquei... pensando nele.
— Que... estranho — falou Severus, cauteloso.
— Estou maluco? — perguntou Draco, olhando para Severus com os olhos grandes. — Ou... é possível?
— Não acho que esteja louco — respondeu Severus. — Talvez apenas estressado, com o natal se aproximando e seus planos de confrontar seu pai sobre o caso do Hipogrifo. É natural que ele esteja em seus pensamentos.
— Na minha cabeça — corrigiu Draco em voz baixa. Severus não respondeu, porque não havia nada a ser dito; se mencionasse Legilimência, Draco não demoraria muito para desconsiderar o envolvimento de Lucius quando percebesse que suas "dores de cabeça" só aconteciam quando Severus estava por perto. — Senhor, estava dentro da minha cabeça dessa vez!
— Acalme-se, Draco — falou Severus antes que Draco se estressasse de verdade. — Dentro ou fora da sua cabeça, não te levou à Ala Hospitalar, como suas dores de cabeça costumam fazer. Talvez seja Lucius, talvez não seja, mas preocupar-se com isso não o levará a lugar nenhum, e não posso ajudá-lo mais do que a Madame Pomfrey até que descubramos a causa.
— O que eu devo fazer, então? — perguntou Draco. Ele tinha uma expressão estranha em seu rosto, embora Severus não soubesse o que ela significava.
— Tome cuidado — falou. — Observe seu pai com cautela durante as festas se realmente acredita que ele é o responsável. — Draco assentiu lentamente. — E nesse meio tempo — adicionou, sabendo que estava sendo injusto, mas precisava que Draco saísse antes que começasse a fazer perguntas desconfortáveis —, garanta-se de que isso não o impeça de participar das minhas aulas.
Draco revirou os olhos e se retirou.
Severus fechou a porta da sala de aula e respirou fundo. Acenou a varinha para enviar a poção de Potter e Draco para onde as outras estavam, apertando os dentes ao fazer isso.
Então, foi para a biblioteca para remover todos os livros que mencionassem Legilimência antes que Draco o fizesse.
Continua.
