*********************** Cap 19 O Fada do Dente ***********************

Casa de Touro

Esticado no sofá de três lugares, que mesmo sendo bem grande e espaçoso ainda assim não era o suficiente para comportar todos os seus 1,90m de altura, deixando de fora os pés — um calçado e o outro somente com a meia — Saga permanecia inconsciente.

Apertando-se entre o estofado de couro preto e a enorme televisão de tubo 29 polegadas, sentado em um banquinho infantil de madeira tão minúsculo quanto resistente, quiçá até mais poderoso que a própria armadura de ouro de Touro por suportar bravamente todo seu tamanho e peso, Aldebaran prestava a ele os primeiros socorros. No chão, a seus pés, sobre o carpete vermelho e preto estava uma enorme bacia de alumínio, que pelo tanto de amassos e riscos, somado ao péssimo estado de conservação, era nítido que se tratava de uma peça que integrava os utensílios da lavanderia daquele Templo já fazia longa data. Contudo, era nessa peça meio cambeta mesmo que o taurino mergulhava um pano sujo na água fria para retirar o excesso de sangue e depois, com ele um pouco mais limpo e encharcado, voltar a limpar os ferimentos no rosto de Saga.

Touro já tinha perdido a conta das vezes que repetira tal operação, sempre com cuidado para não pressionar demais os hematomas, sobretudo os acima das sobrancelhas, na testa, onde havia colocado uma bolsa térmica com gelo para tentar diminuir o edema. E foi justamente o toque gélido na fronte que gradativamente fez Saga despertar e aos poucos recuperar os sentidos.

Ainda no limiar entre consciência e torpor, um sussurro fantasmagórico reverberou na mente do geminiano lhe dando funestas boas-vindas à sua terrível nova realidade.

"Seis anos!"

Ele mexeu os dedos das mãos lentamente.

"Você a abandonou... Nenhuma dor justifica sua fuga."

Tentou inspirar o ar profundamente, então um choque elétrico sacudiu seu corpo violentamente.

"Seis anos!"

"Seis anos!"

Com um suspiro profundo e angustiado, ainda sentindo-se atordoado Saga vagarosamente tentou abrir os olhos, mas somente um se abriu, inchado e com manchas de sangue na esclera, e mesmo assim Aldebaran foi capaz de perceber o terror que assombrava a alma do geminiano.

— Calma, Patrão. — a voz grossa e acolhedora de Aldebaran vinha acompanhada de um toque gentil da mão imensa espalmada no peito de Saga — Fica quieto aí.

O brasileiro podia sentir o coração dele batendo frenético dentro do peito em sincronia perfeita com a respiração acelerada, o que pelo menos achou um bom sinal. Apesar dos pesares ele ainda estava vivo.

— O-onde... estou? — Saga perguntou num fio de voz, afinal até falar lhe causava uma dor excruciante.

Diferente das outras dores, igualmente incapacitantes, que lhe acometia a cabeça momentos antes de perder a consciência, as que sentia agora apenas castigavam-lhe o corpo. Sentia sua mente enfim livre.

Tal liberdade, no entanto, vinha acompanhada de um sentimento profundo de angústia, medo, terror... Ele não tinha consciência do que havia acontecido, nem até ali e nem antes, era como se de repente tivesse passado por um portal amaldiçoado que lhe consumira o raciocínio lógico e nada mais passasse a fazer lhe sentido, mas ainda assim, era a uma remota ideia que ele se apegava, e esta lhe era simplesmente aterrorizante. Mais terrível que essa suposição era apenas a última lembrança que guardava em sua mente; esta amarga, e infelizmente ele tinha certeza de ser real.

A sala branca.

As luzes fortes que lhe fazia doer os olhos.

O cheiro sufocante de iodo e álcool.

A voz de doutor Hector, lastimosa como uma marcha fúnebre.

A sentença dada a si, e que fez cada célula de seu corpo fremir em terror.

A realidade que jamais sequer ousou cogitar.

Havia perdido seus filhos. Talvez perdesse também sua amada amazona.

Mas o certo era que diante do terror fora ele quem se perdera...

Por quanto tempo?

Não.

Não poderia ter sido por seis anos.

Negava-se a acreditar em semelhante atrocidade.

— A gente tá na minha casa, Patrão. — a voz de Aldebaran o trouxe de volta — Aqui é a sala do Templo de Touro, lembra?

Saga correu o olhar confuso e limitado pelo ambiente, o qual num primeiro momento lhe pareceu bem singular, com cores vivas onde predominava o vermelho. Parecia-lhe familiar, mas ao mesmo tempo muitas coisas ali não se encaixavam da maneira como se lembrava delas.

— Você lembra de mim, né? — perguntou Touro meio assustado, fitando o olhar vago e perdido do grego — Sou o Aldebaran, Cavaleiro de Ouro de Touro, seu amigo...

Nessa altura o brasileiro já começava a se perguntar se teria ele recebido tanta pancada na cabeça que tinha perdido a memória.

— Sim — Saga disse com dificuldade devido à dor e aos ferimentos na boca, enquanto balançava a cabeça de leve em afirmação — Eu sei quem você é... Aldebaran...

— Ah! Minha Nossa Senhora da Cabeça, graças a Deus! — o taurino suspirou aliviado, depois sem cerimônia esfregou a bolsa de gelo na cabeça dele tentando achar a melhor posição, deixando os cabelos azuis ainda manchados de sangue ensopados de água gelada.

— Aldebaran...

— Oi patrão?

— Os meus filhos...

Touro engoliu em seco.

— Calma, fica quietin aí. Evita falar, porque senão vai doer mais ainda.

— Os meus filhos, a minha mulher... — Saga olhava para ele com o único olho aberto estatelado, como se olhasse para uma assombração — A última coisa de que me lembro é... é de estar no Hospital de Atenas... na Ala 5. Geisty... Geisty estava... na sala de cirurgia...

Touro tinha o rosto lívido e coberto por gotículas de suor.

— Aldebaran... os meus filhos, minha mulher...

Um silêncio terrível caiu sobre eles.

Saga ainda ficou por um momento sem reação, olhando para Touro, até que num rompante de dor levou as duas mãos feridas ao peito, como se comprimindo ali pudesse de alguma forma aliviar a dor em seu coração, que era tão grande como da primeira vez, quando ouviu a sentença nefasta do médico.

As lágrimas ardidas irromperam com a força de um dique rompido, e junto de um suspiro doloroso que escapuliu da boca ferida, elas tentavam achar um caminho por entre seus olhos inchados e as várias escoriações no rosto contorcido pela dor de tão desesperadora lembrança. Aos soluços ele tentou levar as mãos sujas aos olhos, mas foi impedido pelo amigo, que prontamente as segurou e as colocou sobre o seu peito.

— Calma, Patrão. Não faz assim não, senão vai machucar mais ainda. — disse calmamente Aldebaran usando o pano molhado para enxugar as lágrimas dele com todo cuidado.

— A Geisty... a minha Geisty... Ah! Pela poderosa Atena... — Saga murmurava entre o choro convulso, mergulhado em desespero — Ela saiu daquele hospital?... Ela... está viva?... Por todo o Olimpo, me diga, me diga que Geisty está viva! Por favor... ela... ela está viva...

— Calma. A patroa, ela saiu do hospital sim. Ela tá bem, na medida do possível.

Saga olhou para ele assustado.

— Na medida do possível? — perguntou aflitíssimo — Como assim? O que... quer dizer com na medida do possível?

— É... — disse o taurino reticente, pois decididamente aquele não era o melhor momento para entrar em detalhes sobre a vida conjugal que Geisty levara nos últimos seis anos ao lado de seu lado maligno — Temos muito tempo para falar disso depois, Patrão.

— Não! Por favor... por tudo que tem por mais sagrado nessa vida... Aldebaran — Saga implorava, segurando o mais firme que conseguia nas mãos enormes do taurino — A Geisty... ela... a última vez que a vi ela estava morrendo em uma maca de hospital.

Aldebaran levantou atônito as grossas sobrancelhas unidas.

— Você não se lembra de nada mesmo?

Saga tremia e tentava controlar a respiração para amenizar o choro.

— Eu disse... A última lembrança que tenho é... dela... entre a vida e a morte na Ala 5. — soluçou e apertou os olhos como se fazendo isso pudesse apagar aquela imagem de sua mente, depois, trêmulo e ofegante, olhou firme para o taurino — Aldebaran... eu... eu não me lembro de nada... — fez uma pausa. Tinha completo pavor do que iria dizer — Eu sei que... sei que em algum momento eu perdi o controle, perdi o controle para Ele... Só que eu... eu não sei por quanto tempo.

Aldebaran passou a mão na própria cabeça, nervoso.

— É, Patrão, tu perdeu o controle mermo. — inspirou contraindo os lábios e soltando o ar fazendo um bico — Tu perdeu e perdeu com força! Tipo um caminhão de oito eixos sem freio descendo a ladeira.

Um aperto forte na garganta fazia Saga ter dificuldade para respirar.

"Seis anos."

Não.

Ele não podia acreditar que as palavras de Mu, que até agora não lhe faziam nenhum sentido, começavam a ter alguma lógica, ainda que totalmente terrível.

Touro por sua vez, suava frio. Podia sentir as gotículas salgadas brotarem na testa rente à raiz do cabelo.

— Patrão, quer um copo d'água fresquinha?

Aquela foi a única manobra que o taurino conseguiu pensar para tentar sair pela tangente. Já se movimentava para se levantar do minúsculo banquinho de madeira quando Saga o segurou pelo pulso.

— Por isso está tudo tão... diferente. — murmurou o grego olhando para os lados, visivelmente aterrorizado — Por isso não reconheci sua casa...

— Eu vou por açúcar e gelo na água, para acalmar os nervos. — insistiu Touro novamente tentando se levantar, mas mais uma vez Saga o impediu.

— Por isso você está diferente... — agora olhava para Aldebaran com mais atenção, para seus cabelos longos e negros que mesmo presos em um rabo de cavalo era possível notar conforme ele se movia.

— Eu? — Touro nem sabia o que dizer.

— O seu cabelo... está comprido.

— Ah, pois é, eu deixei crescer, Patrão. Fiz promessa... pra você voltar, sabe.

Touro sorriu meio sem graça, já se arrependendo do que dissera.

— Zeus! — Saga soltou o pulso do taurino e ainda olhando para ele, num misto de terror e desespero sufocante, assumiu uma voz autoritária e sem dar brechas para o outro fugir fez a pergunta fatídica, mesmo já imaginado qual seria a resposta: — Aldebaran... me responda sem rodeios. Quanto tempo realmente eu fiquei fora de mim?

Casa de Virgem

Não tinha sido fácil para ninguém que havia presenciado aquele lamentável espetáculo de violência nas escadarias da Casa de Virgem, ouvir o relato de Mu inflamado em ira; mais difícil ainda fora para ele domar a tormenta dentro de si para conseguir explicar aos irmãos de armas o motivo pelo qual ele e Gêmeos tinham chegado às vias de fato.

Amparado por Shaka, a quem todos também encaravam com olhares curiosos, dando a falta dos longos cabelos, Mu em poucas palavras deu o paradeiro de Geisty e um breve parecer sobre seu estado. Não poupou ofensas e palavras chulas ao apontar o culpado absoluto por mais aquele incidente envolvendo a amazona que amava como uma irmã legítima, e quando o choro do ariano já começava inflama-lo para um novo rompante de ira insana, Shaka prontamente se encarregou de arrasta-lo para dentro de casa.

Diante de rostos chocados, corações acelerados e mentes confusas no limiar entre mágoa e alegria pela volta de Saga, Aldebaran fora o único que demostrou alguma compaixão pelo geminiano, indo recolhe-lo do chão. Já Shina, assim que deixou as Doze Casas, vestiu-se adequadamente e seguiu para o Hospital de Atenas.

Dispersas as testemunhas, ficaram apenas Aiolia e Marin ali, que seguiram Shaka e Mu para dentro da Casa de Virgem a fim de lhes oferecer alguma ajuda com Kiki, a qual fora muito bem vinda quando Camus, aflito por Afrodite estar vestido com suas roupas, o fez entregar o garotinho para a amazona de Águia para obriga-lo a voltar às pressas para Peixes.

Agora sozinhos ali, no banheiro, com as mãos ainda trêmulas e a boca tão seca que se tornava difícil articular as palavras, Shaka ajudava Mu a tirar a camisa toda suja de sangue aos farrapos. A manobra, ainda que executada com extremo cuidado e atenção, não isentou Áries das terríveis dores, pois que seu corpo estava demasiadamente castigado, e ele gemia alto enquanto resmungava meia dúzia de impropérios e palavras de baixo calão, todos direcionados ao Cavaleiro de Gêmeos.

— Shiii... fique quieto, Mu. — pediu Virgem, e logo em seguida fez uma careta de espanto quando olhou para o torso nu do marido — Are baap re!* Parece até que uma legião de espíritos famintos dançou Bharatanatyam** em cima de você.

Piscando os olhos azuis, que arregalados corriam pelo tórax, ombros, braços e cintura do lemuriano marcados por toda a sorte escoriações, Shaka balançou a cabeça e o tomou pela mão machucada.

— Venha, sente-se aqui — indicou a borda da banheira.

Ainda com o sangue quente, Mu se sentou enquanto passava língua no vão deixado pelo dente perdido, sem sentir muito bem o rosto devido as pancadas.

— O meu dente... Puta merda! Aquele filho de uma cadela sabia que eu tinha um implante — chiou indignado.

Áries reclamava enquanto se esticava todo para tentar ver seu reflexo no grande espelho à frente deles, mas estava distante demais, e seus olhos inchados demais para ver qualquer coisa que não estivesse a poucos palmos de seu rosto.

Shaka fez um gesto negativo com a cabeça enquanto ia pegar a caixa de primeiros socorros no armário.

— Justamente por saber é que o pilantra te golpeou tanto na boca. Teve sorte de ter perdido só o implante.

— Desgraçado... Até agora não consigo acreditar no que o filho da puta fez com ela.

— Olha a boca, Mu.

— Estou tentando olhar... Pega o espelho de mão para mim, Shaka — disse furioso, sem acreditar que havia perdido a prótese caríssima e personalizada de porcelana que substituía um de seus incisivos, perdido em um acidente infantil envolvendo Aldebaran, Shaka, Afrodite, uma caixa d'água, uma ladeira e nenhum juízo — Se ele danificou o pino no meu osso eu juro que vou lá em Touro agora mesmo e arranco todos os dentes da boca dele.

Shaka suspirou virando-se para ele.

— Você não vai a lugar nenhum, Mu de Áries! — o repreendeu enquanto rapidamente embebia um chumaço de gaze em água para limpar os ferimentos em seu rosto. Então foi até ele e lhe entregou na mão o espelho que tinha pedido — Pelos seis infernos, marido, trate de se acalmar! Eu nunca o vi descontrolado desse jeito... Esse... esse duelo entre vocês dois foi completamente insano e irresponsável. Onde diabos estava com a cabeça?

Com cuidado, Shaka limpava o rosto de Mu analisando quais ferimentos ele poderia tratar com suas ervas e infusões caseiras e quais precisariam de mais atenção, como sutura ou outro procedimento que só poderia ser feito no ambulatório.

Num primeiro momento Mu se manteve calado, principalmente porque mostrava os dentes para o espelho de mão, vendo refletido nele um sorriso torto e medonho, porém totalmente condizente com todo o resto de seu rosto deformado.

— Se você tivesse visto o que eu vi, se tivesse ouvido os gritos de desespero nos pensamentos aterrorizados dela, te conhecendo como eu te conheço, sei que você teria feito ainda pior — falou com voz grave e intimidadora, depois fechou os olhos e abaixou o espelho.

Virgem olhou para ele mortificado.

— Ele é um monstro, Shaka. — disse Mu rangendo os dentes — Deveria ter me deixado extermina-lo de uma vez por todas das nossas vidas.

Shaka ergueu as sobrancelhas loiras em um arco e balançou a cabeça de modo expressivo, como os indianos fazem quando querem dizer algo óbvio sem que tenham que usar palavra alguma, depois jogou o chumaço sujo de gaze no cesto de lixo e prontamente preparou outro.

— Eu já quis extermina-lo de nossas vidas muito antes de você. E naquela época foi você quem me impediu... Levante um pouco a cabeça — pediu apoiando o queixo de Mu em seus dedos enquanto o olhava nos olhos. Sua voz era serena e passava certa calma ao ariano — Talvez estejamos aqui justamente para impedir um ao outro de qualquer interferência no cumprimento do karma do Cavaleiro de Gêmeos.

— Hmf — Mu resmungou irritado.

— Nem posso imaginar o quão terrível e doloroso foi para você o que viu na mente de Geisty, mas precisa resgatar sua razão, Mu. Se com o simples desejo de matar Saga você já a perdeu momentaneamente, imagine se de fato tirasse a vida dele? Depois, Geisty tem o direito de ajustar as contas com o marido dela, o verdadeiro, não aquele ébrio possuído. Não pode tirar isso dela, marido... Você mesmo me disse isso uma vez.

— Posso sim! — a voz do ariano voltou a se exaltar e ele encarou com fúria os olhos azuis do marido — Não me deixaram matar o cretino, mas perto dela ele não chega nunca mais. Eu não vou deixar.

— Mu de Áries! — Shaka tentou chama-lo para a razão o encarando firme.

— Geisty me provou que não posso confiar no julgamento dela. O amor que ela sente pelo Saga a deixa cega quanto ao real perigo daquele outro ser monstruoso que habita dentro dele. Ele a estuprou Shaka! Está entendendo? E ia fazer de novo se eu não tivesse chegado lá a tempo. Foi isso que eu vi na mente dela, e é por isso que eu nunca vou perdoa-lo. Nunca!

Com cuidado, pois que mal havia área no corpo de Mu que não estivesse ferida ou extremamente suja de poeira e de sangue, Shaka lhe acariciou a cabeça delicadamente colocando algumas mechas do cabelo desgrenhado e imundo atrás de sua orelha.

— Não estou pedindo para que o perdoe, porque certamente nem Saga será capaz de perdoar a si mesmo por ter permitido semelhante atrocidade... Estou pedindo para que não cometa os mesmos pecados dele. Não deixe sua ira e seu rancor ganharem forma e consciência próprias a ponto de transformarem você em outro homem. — agora passava com cuidado a gaze molhada nos lábios do ariano tingidos de vermelho vivo — Faça o que você tem que fazer, mas nunca deixe de ser você. Nunca deixe de ser o meu Mu, um homem justo, honrado e que sabe como ninguém a diferença entre bem e mal. Você está me entendendo?

— Hmf!

Novamente a resposta do lemuriano foi um resmungo.

Nas escadarias das Doze Casas...

O coração de Afrodite ainda batia acelerado e inquieto quando ao lado de Camus atravessavam o imenso pátio da casa de Escorpião.

Aquário caminhava apressado alguns passos à frente, e desde que deixara a Casa de Virgem, praticamente arrastando o pisciano junto consigo, não cessou de resmungar um só minuto, nem para recuperar o fôlego perdido devido à subida apressada e a adrenalina que fazia ferver suas veias.

C'est pas possible! C'est pas possible ça merde!

Com dois passos mais largos e velozes, Afrodite aproximou-se de Camus e lhe deu um tapa forte nas costas, próximo a um dos ombros, pois assim sabia que o faria parar de andar e olhar em seu rosto, coisa que ele não fizera desde que saíram do cenário da briga às pressas.

— A senhora vai me dizer o por que desse ataque de pelanca, ou eu vou ter que adivinhar como sempre? — Afrodite perguntou quando o francês enfim parou e virou-se para ele o encarando com desconfiança.

— Ainda tenho que dizer?

— Eu não tô boa, heim Camus! Ok! Você tem toda a razão de estar atacada. Eu admito que caguei no maiô, mas naquela abilolação* toda de Cosmo da Mosca explodindo, depois o do Mu... Como é que eu ia lembrar que estava usando o seu pijama? Ah, tá boa! Você praticamente arrancou o meu afilhando do meu colo! O menino estava só que chorava assustado. Custava ter me deixado ficar lá?

— Custava! — o ruivo respondeu, depois retomou a caminhada emburrado.

Porém não andou muito e logo outro tapa de Afrodite o fez parar e novamente virar para trás.

— Custava por quê? Posso saber? Você não viu que o Saga voltou? O Saga voltou! — sorriu esfuziante — Talvez precise de ajuda e...

— Exatamente por isso, Afrodite! — Camus o interrompeu lhe apontando o indicador na altura do rosto — Non era hora para você ir lá correndo todo solícito para ele.

— Como é?

— Hyoga está nos esperando em casa, e você está todo maquiado, de salto e usando um pijama com a merde do meu nome bordado nele... Dieu! Até de seios você está! — apontou para as próteses pequenas que ele estava usando por debaixo da roupa.

Afrodite espalmou ambas as mãos sobre elas e abriu a boca, pasmo consigo mesmo, mas muito mais com Camus.

— Sorte que ninguém estava prestando atenção em você. Non viram meu nome e nem suas próteses quando virou a camisa do avesso, mas e se tivessem visto? Non pensou em nada disso, non é? Claro que non! A única coisa que você pensou foi em correr para ele, colocando nosso relacionamento e nossa família em risco. E por quê? Por causa de uma surra mais do que merecida!

— Uma surra? Mu ia matar ele!

— Pois deveriam tê-lo deixado matar!

— Mulher, você tá loca? Todos ali viram a transformação, e todos viram que Saga quando voltou estava desnorteado, confuso, incapaz de se defender, e mesmo assim Mu fez a bilôca e tentou matar o coitado na covardia. Não fosse o Touro chifrudo e o Buda loirudo eu nem sei o que... — fez uma pausa e respirou fundo sentindo o coração acelerado. Nessa hora pensou em Geisty e em tudo o que conversara com ela pela manhã; em tudo o que ela pensaria agora que Saga estava de volta — Isso foi extremamente errado!

Non posso acreditar que esteja dizendo isso!

— Ele merecia uma surra sim, o Coiso, o Saga também, talvez, embora a vergonha que ele vai carregar daqui para frente por ter se permitido ser dominado pelo cafuçu dos olhos vermelhos por tanto tempo eu já ache castigo o suficiente, mas... mas ninguém foi até ele tentar entender o que aconteceu, por que... por que afinal ele se ausentou por seis anos? E se todo esse tempo ele tentou lutar? Tentou voltar? E se ele sofreu também, igual nós, igual a Mosca sofreu?

Camus chacoalhou a cabeça incrédulo.

— O que foi feito, foi feito. — Camus respondeu sério — E nada disso tem a ver com o seu comportamento irresponsável.

— O quê? O meu comportamento irresponsável? — a indignação de Afrodite transfigurou seu semblante — Gata, e você se comportou como uma lady, arrancando Kiki do meu colo daquele jeito, né? Ah, faça-me o favor, Camus!

— A senhora que non se faça de sonsa! — o aquariano deu dois cutucões na prótese de seios dele com a ponta do indicador.

— Ah! Eu sou sonsa?

— Você só non correu para ele como uma noiva apaixonada, com o MEU nome na camisa, porque eu te segurei, Afrodite. A bonita pensou em todos os motivos do mundo para defender o cretino do Saga, e se esqueceu do mais importante para non defende-lo.

— Qual?

Camus bateu duas palmas no ar e abriu os braços incrédulo.

— EU! — gritou ele.

— Como é que é?

Aquário olhou bem dentro dos olhos de Peixes e de supetão retomou a subida sem nada mais dizer.

— Pelo eunuco safado do Cronos! Você está com ciúmes! — disse Peixes caminhando apressado logo atrás dele.

— Óbvio que non.

— Está sim! Esse chilique todo é porque está com ciúmes do Saga!

— Vá se foder, Afrodite. Você e o idiota do Saga, mas antes vá agora mesmo tirar essa merde de pijama, e non pegue mais as minhas coisas, putain de merde!

Afrodite respirou fundo e deixou que ele seguisse na frente.

Não discutir era o melhor a se fazer. Poderia até ficar envaidecido com o ciúmes do aquariano, mas na verdade estava era apreensivo.

Um Camus com ciúmes nunca era bom sinal.

Pouco tempo depois ambos já estavam nas escadarias para o Templo de Aquário, e lá no alto podiam ver um menininho muito sério de prontidão logo na entrada.

Hyoga havia ficado em guarda na frente da Casa e Aquário como o pai lhe ordenou, mesmo muito curioso com o que ocorria casas abaixo. De longe viu quando duas pessoas se aproximavam e logo se deu conta de que eram o pai e Maman Di, e nem assim desfez a guarda. Deixaria que se aproximassem mais para ter certeza de que eram mesmo eles, já que alguns cavaleiros possuíam o poder de dominar a mente dos inimigos e criar ilusões e não podia se permitir cair em uma.

Logo que Camus galgou os primeiros degraus de Aquário, para surpresa total de Hyoga ele lhe sorriu e correu até ele de braços abertos, se abaixando e o abraçando bem forte junto ao corpo. Ver o filho ali, um garotinho de apenas dez anos, pronto para enfrentar qualquer inimigo poderoso que se aproximasse tocou o aquariano de uma maneira que nem ele esperava. Talvez tenha sido o encontro fortuito que tivera com Shaka e Kiki em Virgem e o choque de ver ambos tão debilitados, em especial o pequeno lemuriano, tão magro e doente como nunca imaginou que um dia veria.

Oh mon fils. — sussurrou cheio de amor e carinho enquanto fazia um cafuné na cabeça de Hyoga e o pegava no colo — Eu te amo muito, viu? E tenho muito orgulho de você. Nunca se esqueça e nunca duvide disso. Você é a pessoa mais importante da minha vida.

Camus fechou os olhos ainda abraçado forte ao loirinho, sentindo seu cheirinho gostoso e esquecendo-se completamente da discussão com Afrodite.

No fundo Aquário estava assustado.

Não queria nem pensar o que seria de sua vida se fosse Hyoga no lugar de Kiki.

— Eu também te amo, papai. Muito! — disse Hyoga.

Afrodite respeitou aquele momento entre pai e filho e não interferiu. Ficou de pé, parado um pouco mais atrás até ver Camus pegar Hyoga no colo e seguir para dentro do Templo. Os seguiu por um tempo, calado. Sabia que era importante para o menino esse reconhecimento vindo do pai, ainda mais este sendo sempre tão rígido, então quando percebeu uma pequena brecha ele também quis dizer a Hyoga o quanto se orgulhava dele. Apertou o passo e pegando aos dois de surpresa abraçou Camus pelas costas e junto dele o garotinho, lhes dando um apertão aconchegante e um beijo estalado na bochecha de cada um.

Maman também está transbordando de orgulho do meu loirudinho! — disse com um tom de voz ameno e bem mais agudo que a sua — Viu só, Camy! Podemos sair despreocupados que o Templo de Aquário está em ótimas mãos, nas do destemido cavaleiro Hyoga, da constelação de nariz de batatinha!

Oui! — Camus concordou, mesmo que irritado ainda.

— E se Aquário está bem protegida, eu nem preciso me preocupar em proteger Peixes. — disse Afrodite sorrindo para o pequeno russo.

— Isso mesmo, Maman Di. Se depender de mim, mesmo a senhora sendo uma amazona poderosa de Ouro, nunca vai precisar lutar, porque eu vou protege-la! Vou protege-la com a minha vida! — disse Hyoga com o peito cheio de orgulho e determinação.

Afrodite suspirou e seus olhos brilharam.

Ver o amor que aquele garotinho tinha por si lhe deixava ao mesmo tempo elevado e em pânico. Que Atena tivesse misericórdia deles, e se a verdade um dia surgisse para os fazer sofrer, então que lhe permitisse viver aquela mentira até o fim de seus dias.

— Eu não tenho dúvida disso, meu amor. — disse Peixes lhe fazendo um cafune nos cabelinhos loiros.

— Bom, acho que teremos que esquentar a pizza. — disse Camus quando chegou à entrada da parte residencial de seu templo, procurando descontrair e retomar a rotina para não pensar nos desaforos que ouviu de Peixes e também falou a ele.

Já era tarde, mas nem se quisesse Camus conseguiria dormir, não depois de tudo que presenciara nas escadarias da Casa de Virgem.

Tampouco Afrodite conseguiria. Estava preocupado demais com Geisty, mesmo Mu dando garantias de que ela estava bem, na Ala 5, embora bastante ferida.

Mesmo assim, iria apenas esperar Hyoga dormir para poder passar em Peixes para mudar de roupas e ir para o hospital.

Casa de Touro

Os olhos jabuticabas arregalados definitivamente não expressavam contentamento, ainda mais quando eram acompanhados de um estalar de língua constrangido:

— Então, né patrão... Você ficou muito tempo.

Saga engoliu em seco.

— Muito tempo quanto homem? — ergueu a voz aflito, reunindo a pouca força que lhe restava para movimentar a carcaça miseravelmente dolorida do sofá, enquanto contorcia o rosto moldado a pancadas em uma expressão de dor — Diga! Pelos deuses! Eu preciso ouvir. Preciso ouvir!

— Seis anos!

Aldebaran falou tão rápido e direto quanto um tiro a queima roupa.

Saga imediatamente congelou no movimento que fazia. Tentava se sentar, mas ficou com as pernas avulsas esquecidas no ar enquanto apoiava um dos braços no acento do sofá. O único olho que ainda se abria fitava hirto e fixo o rosto moreno do taurino com a surpresa e expectativa de quem espera ansioso o próximo ato de uma historia de suspense. A boca de lábios inchados e rasgados apenas se abriu, torta, em uma exclamação muda de perplexidade.

Ele sabia. Só se negava a acreditar.

— Então... o que Mu falou era verdade... — disse desalentado — Atena, como pude fazer isso?

Uma lágrima escorreu ligeira de seu olho aberto estatelado.

Aldebaran contraiu os lábios, sem saber o que dizer.

— Como pude... deixa-la sozinha por esse... por esse tempo todo?

O apoiando pelos braços, Touro o ajudou a concluir o movimento e enfim o colocou sentado.

— Ah, Patrão, fica tranquilo... Ela não ficou sozinha não... — disse o brasileiro se aproximando para ajudar o irmão de armas a se aconchegar no sofá sem que lhe doesse demais o corpo.

Mas longe das preocupações que afligiam o geminiano, a dor no corpo sequer lhe era perceptível nesse momento.

— Não? — Saga perguntou com um rompante de espanto. Seu coração bateu forte como se recebesse um soco direto no peito.

— Não.

Em choque, Saga sentiu seu peito gelar. Não podia evitar sentir o temor de ser abandonado por Geisty, mas dadas as circunstâncias, sequer tinha o direito de questionar qualquer conduta da esposa, ou ex-esposa, que porventura implicasse nisso. Trêmulo de medo, apenas rogou, em seu íntimo, que não tivesse sido trocado por Milo, a quem considerava um parasita oportunista que sempre sondou seu relacionamento com Geisty, e para quem seu sumiço de seis anos seria um prato cheio.

Só de pensar nessa possibilidade seu sangue fervia nas veias.

— E... com quem ela ficou? — perguntou, pronto para receber a estocada final em seu coração apaixonado e desesperado.

— Ué, como assim, com quem? Ela ficou com você! — Aldebaran abriu os enormes braços no ar.

— O QUÊ? — Saga deu um grito.

— Digo, com o outro você, né. O Unhudo, o Sete Pele, Belzebu, Cabrunco, Cão, ou sei lá como vocês se chamam ai... Aí dentro de você.

— Mas pelo caralho imundo do corno amaldiçoado do Hades, Aldebaran! Como vocês permitiram que Geisty ficasse com aquele maldito? — disse Saga tentando se por de pé, mas impedido pelo amigo que apoiou a mão em seu ombro e o fez sentar novamente, causando-lhe uma careta involuntária de dor — Onde estavam com a cabeça? Onde ela estava com a cabeça?

— Foi ela quem quis, patrão.

— Como assim foi ela quem quis? Pelo amor de Atena!

— Ninguém foi a favor, mas ela insistiu.

— Não! Não faz sentido! Geisty jamais ficaria ao lado dele. Ela sabe que ele... que ele é perigoso... eu a avisei várias vezes, tantas vezes... ela mesma... — fez uma pausa tentando recobrar o ar. Hiperventilava, tinha palpitações, tremores, e por fim deu um suspiro derrotado — Ela mesma sentiu na pele do que ele é capaz... ela já sofreu nas mãos dele antes... Por que ela cometeria essa insanidade de ficar ao lado dele?

— Porque ela tinha esperança de te trazer de volta, Patrão. — o brasileiro disse com pesar.

Saga olhou para ele em choque. Chorava, mas apenas as lágrimas desciam por seu rosto imóvel.

— Mas, calma, não foi assim, ficar de verdade, sabe? Era mais um esperar. Tu sabe a mulher teimosa que tem, não sabe? — Aldebaran tentava amenizar a tensão e tristeza que se abateu entre eles — Todo mundo tentou fazer a cabeça dela pra mudar de ideia. Mas ela tinha certeza de que ia conseguir, mesmo com geral aqui falando pra ela largar de mão... Não que a gente não quisesse que tu voltasse. Num é isso não, tá? — espalmou as mãos no peito tentado contornar a situação que por si só já era um desastre.

Ainda em choque Saga só esboçou uma reação quando sentiu sangue vivo e quente lhe escorrer por um dos cantos da boca. Piscando algumas vezes, perturbado levou a mão à boca e com os dedos tocou um ponto que de repente passou a doer consideravelmente. O sangue então lhe verteu por entre os dedos, enquanto apalpava um volume estranho em seu palato inchado.

— Ah... mas o que... — disse embolado, trazendo entre os dedos, para perto do olho que ainda não tinha se fechado por completo pelo inchaço, um de seus molares.

— Ah! Cacete! Caiu mais um. — Aldebaran disse eloquente, e na mesma hora esticou o braço e mostrou a palma da mão para ele — Dá aqui para mim. Eu tô juntando tudo. Vou colocar junto com o outro que eu catei lá nas escadarias, do teu lado, quando tu tava caído depois do Mu ter te rebocado.

Sem nem ter o que dizer, Saga lhe entregou o dente e depois limpou o sangue na boca com resto da camisa em farrapos.

— Falando nisso... O que aconteceu? — perguntou com voz fanha e abafada pela camisa — Por que eu estava lutando com o Mu?

Aldebaran olhou para ele enquanto ia guardar o dente junto do outro. Não soube de imediato o que responder.

— Por que ele... estava daquele jeito? Justo o Mu... sempre tão calmo e gentil? Por que ele... tentou me matar? — Saga tinha um semblante atordoado e incrédulo.

O silêncio momentâneo, somado a expressão de receio do amigo já diziam muita coisa ao geminiano. Coisas essas que o faziam sofrer muito mais que a perda de dentes ou ossos trincados.

— Pelos deuses... Eu a machuquei? Digo, Ele... Ele a machucou? Ele a feriu, Aldebaran? Ele...

O aceno tímido afirmativo de Touro deixou o grego em desespero.

— Eu acho que tu também a machucou, né Patrão. Não falo do corpo, falo do coração. Ela deve tá com o coração partido, na fossa.

Saga baixou a cabeça sentindo as mãos e os pés formigarem e adormecerem de pavor.

Não sentia o Cosmo de Geisty por perto, pelo menos não dentro dos limites do Santuário, e isso era um terrível sinal.

— O que ele fez a ela? — perguntou num sussurro, temendo pela resposta.

Com a voz calma o brasileiro tentou preparar o coração angustiado do amigo.

— Bom, pelo o que o Mu contou, assim, por cima, a patroa desistiu de você.

Nessa hora Saga levantou a cabeça e olhou para ele. Não disse nada.

— Depois e seis anos ela chutou o balde, sabe? Aí ela foi pra casa de vocês, lá em Gêmeos, pra juntar as trouxas e pôr o bloco na rua. Mas aí deu merda.

Touro olhava para ele mortificado.

— Tu apareceu lá com o bicho carpinteiro no corpo, digo, tu não, o outro lá, o Unhudo, que o diabo o guarde onde estiver... E aí, ele bateu nela.

A respiração de Saga de repente ficou agitada e ofegante.

— O Mu chegou lá pra socorrer... Eu não entendi direito, mas pelo que ele falou, ela tava toda machucada, parecia que tava cortada, mas eu não sei o que houve direito. Só sei que agora ela já tá no hospital e ...

— Para qual hospital ela foi? Para o Hospital de Atenas? Ela está na Ala 5? Pelos deuses, eu preciso ir vê-la...

Saga se levantou afoito do sofá, mas foi detido pelo irmão de armas que o segurou pelos braços.

— Guenta aê! Vai lá não. Tu não tá bem...

— Eu... Ah... Espera... Argh...

Outra vez o grego levou a mão à boca e depois de palpar com os dedos lá no fundo tirou mais um molar.

— Puta que pariu! — Aldebaran arregalou os olhos alarmado — Mas que marreta tem o Mu naqueles braço, homem rapaz!

Prontamente se levantou indo buscar o copo de vidro, tipo americano, onde estavam os outros dentes arrancados.

— Me dá mais esse aí que eu vou juntar com os outros dois — disse estendendo a mão a Saga — Tu fica aqui, Patrão. Se acalma, bebe antes uma água gelada com açúcar.

— Eu não quero água com açúcar, Aldebaran! Eu quero ver minha mulher! — disse tapando a boca com a camisa suja.

— Tá, mesmo assim. Tu não pode ir agora. Tem que dar um jeito nessa cara primeiro. E também não vai sair assim, quinem saci, com um pé só calçado, né? Eu vou te trazer um copo de água com açúcar, ai tu toma, se acalma, toma um banho, troca de roupa, vira gente e eu te acompanho até o hospital. Até porque vai precisar por esses dente tudo no lugar, né?

Enquanto falava, Aldebaran foi até a cozinha preparar o copo de água com açúcar para Saga, mas quando voltou à sala o grego já não estava mais lá.

— Ah! Caralho! Puta que me parola! Mas era só o que me faltava... O homi fugiu!

Touro ficou ali, parado no meio da sala segurando o copo de água em uma das mãos e o copo com os dentes na outra.

Alguns momentos antes, na Casa de Virgem...

— Mu de Áries, tente ficar quieto! — pedia Shaka que com muito custo limpava as escoriações mais leves no rosto do ariano, enquanto este não parava de chiar impropérios e chacoalhar as pernas — Hum... vai precisar de alguns pontos no supercílio. O corte está tão fundo que cabe um dedo.

Mu olhou para cima, para os olhos do marido.

— Isso não é nada. Eu mesmo suturo essa merda. Não quero nenhum...

De repente Áries calou-se e arregalou os olhos inchados.

Um choque lhe percorreu a coluna e culminou numa explosão de surpresa e raiva que fez arrepiar todo seu couro cabeludo.

Shaka percebeu a mudança do ariano no ato, mas nem teve tempo de lhe perguntar o que se sucedia. Mu desapareceu diante de seus olhos alarmados o deixando com as mãos suspensas no ar e o peito congelado.

Hospital de Atenas, 03:33am

Na entrada, ainda do lado de fora, em meio a movimentação constante de ambulâncias que saiam e que chegavam, pessoas e seguranças vestidos de terno preto, duas figuras tinham a atenção total de todos. Uma por estar trajando, o que para a maioria ali parecia ser o figurino de alguma super produção cinematográfica de ficção científica, dessas com heróis alienígenas trajados de armadura; o outro por estar sem camisa — essa estava enrolada em uma das mãos e lhe estancava um sangramento na boca —, todo machucado, visivelmente perturbado e calçando apenas um sapato.

— NÃO OUSE DAR UM PASSO, CAVALEIRO DE GÊMEOS! — Mu gritou a plenos pulmões diante de um Saga de rosto lívido e fisionomia assustada. Vestia a armadura de Áries e já tinha seu Cosmo ativo pronto para qualquer embate — Por todos os deuses do Olimpo! Eu não posso acreditar que você teve a cara de pau de vir até aqui, seu cínico covarde!

Abalado em olhar para o lemuriano depois do ocorrido nas escadarias de Virgem, o grego só conseguiu pensar no que havia levado os dois até ali.

Tinha consciência de que o Outro certamente havia agredido Mu de todas as formas, e sabe-se lá desde quando e por quanto tempo, mas não tendo acesso às memórias Dele ficava extremamente difícil lidar com a situação e também com o que sentia.

— Mu... eu... eu preciso vê-la. — Saga murmurou afastando a camisa da boca.

— Você só entra nesse hospital por cima do meu cadáver — rosnou o ariano o encarando no único olho aberto.

— Por que está fazendo isso? — disse Saga com aflição aparente — Pelos deuses, eu sei que... sei que algo grave deve ter acontecido entre você e eu... digo... entre você e o Outro, e acredite, eu lamento muito. Vou me culpar por isso o resto da vida, mas... ela é minha mulher, meu amor...

— E ela é minha irmã! — Mu o interrompeu resoluto. Talvez se fosse em outra época, outra situação, até teria se comovido, mas diante do que ocorrera, não mais se sensibilizava com as súplicas de Saga — Você não vai chegar perto dela, seu miserável.

Uma ânsia de vômito repentina sacudiu o corpo ferido do geminiano.

— Não pode me impedir de ver minha esposa, Áries! — Saga elevou a voz, entrando em desespero.

— Ah, agora você a chama de esposa? Depois de tê-la abandonado por seis anos! — riu com deboche, mas logo voltou a ficar tão sério que seu rosto se contorcia — Quando a entreguei para você naquele altar, me jurou que a protegeria e a amaria, e o que você fez?

— NÃO ERA EU, PORRA! — Saga gritou rouco, tomado em ira, cuspindo perdigotos sanguinolentos, e no desespero de entrar naquele hospital para ver Geisty avançou tencionando passar por Mu com um empurrão, mas este o segurou forte pelo braço.

— Eu já disse que você não vai entrar. — Áries o encarou firme nos olhos marejados — Suas lágrimas não me comovem. Sabe por quê? Porque enquanto você tirou um tempinho para si mesmo, fugindo da realidade, Geisty a encarou com coragem, e as lágrimas dela sim, para mim tinham o peso de toneladas. Dia após dia eu a vi chorar, eu a consolei, eu dei meu ombro a ela... Era eu quem estava do lado dela quando ela acordava a noite soluçando, chamando por você, consumida pela saudade e pela tristeza. Era eu quem a presenteava em datas comemorativas, era eu quem a protegia de VOCÊ! Então, Gêmeos, eu estou no meu direito de impedir que você se aproxime dela. Infelizmente não posso impedi-la de voltar para você caso seja isso que ela queira, mas até lá eu juro por Atena que se você se aproximar dela eu te mato.

— Da forma como fala, você está me acusando de ter escolhido isso... — disse Saga, mais irritado do que gostaria, afinal não tirava a razão do ariano, mas queria que ele também se colocasse em seu lugar — Preste atenção no que está falando, Mu! Acha mesmo que eu escolheria abandoar a mulher que eu amo? Que escolheria fugir e me esconder por seis anos dentro de mim mesmo? Acha que eu escolhi ser um amaldiçoado em vez de um homem livre?

Mu estreitou os olhos.

— Acho — disse rangendo os dentes — Quando se trata de poder, é inacreditável as escolhas que os homens fazem.

— Vá à merda! — murmurou agastado o geminiano — Não pode me impedir de vê-la.

Saga respirou fundo, ruidoso, então rosnou e tentou livrar-se da mão dele com um solavanco, mas isso só serviu para que o outro o segurasse com ainda mais força. Estava desesperado para ver Geisty, e não seria aquele julgamento cruel de Mu que o faria desistir.

— EU QUERO ENTRAR! GEISTY! GEISTY! EU EXIJO VER MINHA MULHER! — se debatia na tentativa de fazer o ariano lhe soltar e gritava para chamar a atenção das pessoas e seguranças.

— VOCE NÃO VAI ENTRAR!

Novamente eles se engalfinhavam. Mu já pronto para cair na porrada, quando de repente outro cavaleiro se materializou ali, bem no meio dos dois, rapidamente os separando.

— CHEGA! VOCÊS DOIS! JÁ CHEGA!

Era Shaka, que do jeito que estava em Virgem, com a roupa suja de sangue, rastreou o Cosmo de Mu e veio atrás dele já prevendo que impediria Saga de entrar no hospital.

— Vocês não vão lutar aqui. Nem aqui e nem em lugar nenhum, mais. — disse o virginiano ora olhando para Mu, ora para Saga.

Ao botar os olhos em Shaka, Saga sentiu-se chocado. Ver Aldebaran de cabelos longos tinha lhe sido bem surpreendente, porém muito mais impremeditável, e até alarmante, era ver Virgem de cabelos curtos. Tão curtos que parecia até ter regredido alguns anos e voltado a ser moleque. Sentiu um aperto no peito ao experimentar tal impressão, pois que foi justamente nos tempos em que Shaka era apenas um garoto que ele perdeu o controle para o Outro pela primeira vez, e desde então a confiança e o amor que Virgem sentia por si caíram por terra. Havia conseguido resgatar algum afeto e respeito por parte dele quando se casou com Geisty e o convidou a celebrar o ato, mas duvidava que conseguiria tal façanha novamente.

Que tempos terríveis eram aqueles que ele tinha acordado...

Seis anos.

E todos lhe pareciam tão esgotados e infelizes...

Sem ainda conseguir administrar com exatidão e devida justiça o que sentia naquele momento, olhando no rosto sofrido de Saga, e desde que viu a transformação nas escadarias de seu Templo, Shaka olhava para ele calado e circunspecto. Estava bem vivo em sua memória ainda o momento exato que perdeu Saga para o Outro. Parecia que tinha sido ontem que esteve naquele hospital implorando para que ele ouvisse sua voz e não se deixasse dominar pela dor.

Dor essa que Shaka só foi capaz de entender quando era ele no lugar de Gêmeos.

Quando foi ele a desejar a morte ao em vez da dor.

— Mu... — Shaka agora olhava para o ariano e falava em tom ameno, porém com extrema firmeza — Ele não precisa entrar, mas ele tem direito de saber como ela está.

— Ele tem é o direito de enfiar a cabeça no cu e sair daqui rolando, isso sim. — retrucou o ariano.

— Mu! Olha a boca. — Shaka repreendeu o marido.

— Depois, eu já informei ao hospital que se trata de um caso de violência doméstica. Ninguém vai deixa-lo chegar perto dela.

— Certo. Então, se não vai deixa-lo entrar, vá você lá dentro e traga alguém aqui, um médico que esteja cuidando do caso, ou enfermeiro que tenha alguma notícia — disse Shaka.

— Não! Eu quero vê-la pessoalmente! Eu... eu preciso falar com ela... eu... — Saga disse exasperado.

Shaka imediatamente voltou-se para o grego.

— Você vai ficar aqui — disse, depois novamente olhou para o lemuriano — Vá agora, Mu. Eu fico aqui com ele. Gêmeos não vai dar um passo de onde está. Tem a minha palavra.

Áries relutou por um instante, mas estava muito mais a fim de resolver logo aquele dilema e poder voltar para casa, para Kiki, do que prolongar aquela discussão.

— Está bem. — disse sério, e em seguida apontou o indicador para Saga, para dar lhe um recado — Você nem pense em encostar um dedo nele... — agora apontava para Shaka — Eu juro que acabo com você... Vou trazer alguém aqui para te dar notícias dela. Volto logo.

Virgem e Gêmeos ficaram olhando Mu entrar na recepção sendo acompanhado por olhares curiosos dos que circulavam por ali, então Saga, exausto de tudo aquilo, temeroso pelo estado de Geisty, e um tanto amargurado pela maneira como estava sendo tratado, questionou Shaka voltando a estancar o sangue na boca com a camisa:

— Por que diabos ele acha que eu faria algo contra você? Que juízo faz de mim? Só porque não querem me deixar ver a minha mulher? Que é um direito meu, aliás!

Virgem olhou para ele e cruzou os braços.

— Talvez seja porque você tentou me dar um Satã Imperial anos atrás, para me forçar a matar ele e depois o Camus.

Saga arregalou o olho bom, perplexo.

Que outras tantas atrocidades teria ele feito enquanto estava sob domínio de seu lado maligno?

Tinha medo só de pensar.

Sem saber o que dizer o grego ficou em silêncio, na expectativa de que o médico aparecesse ali para lhe dizer que Geisty estava bem e fora de perigo. Só uma notícia dessa poderia lhe trazer algum conforto para aquele dia terrível que estava vivendo.

Porém, não foi o médico quem veio acompanhando Mu até ali, mas Shina, que encontrou com o ariano nos corredores da Ala 5 quando tinha acabado de sair do quarto onde Geisty estava internada. Rapidamente Áries explicou a ela toda a situação e, concordando com ele que seria melhor que Saga não visse a amiga agora, Shina decidiu ir ela mesma até o geminiano para levar notícias de Serpente.

Ao chegarem lá, Saga olhou para ela em expectativa, enquanto ela lhe devolvia um olhar frio e imparcial. Assim como Mu, Shaka e Afrodite, Shina também tinha acompanhado todo o empenho de Geisty para tentar trazer o marido de volta à razão, e também todo o sofrimento dessa missão enfadonha e auto imposta.

Ofiúco ainda guardava muitas magoas do passado, e o retorno de Saga não necessariamente havia apagado essas. Não o recebia com alegria, mas apenas com alívio, pois a volta dele colocaria um fim aos anos de chumbo que todos estavam vivendo desde que o Outro assumira.

— Bem vindo de volta ao mundo dos vivos, Grande Mestre. — disse ela quando parou à frente dele, e sua voz era carregada em ironia amarga — Voltarei a fazer mesuras a você quando merecer e quando consertar toda a merda que fez, em especial as que envolvem a minha amiga.

Saga olhou para ela e nada disse, mas em seu rosto o embaraço e a angustia eram visíveis.

Shaka e Mu trocaram um rápido olhar e permaneceram em silêncio.

— Geisty está bem, está fora de perigo. Ela sofreu alguns cortes profundos, que lesionaram músculos e veias menores, mas que já foram suturados. Como ela perdeu bastante sangue, está recebendo uma transfusão, está sedada, sem dor. — disse Shina.

Saga tinha a boca sanguinolenta aberta e o olho bom marejado.

— Cortes profundos? — ele perguntou com a garganta apertada.

— Sim. Todos com a sua assinatura — disse ríspida.

Aterrorizado, Saga sentia as mãos tremerem e as pernas fraquejarem. Cambaleante ele caminhou até uma mureta que contornava o prédio e sentou, levando as mãos à cabeça. Ali mais uma vez ele entregou-se ao desespero.

Sua vida tinha se tornado um pesadelo dos mais terríveis, onde todos os seus piores medos se juntavam.

Não recebeu consolo de ninguém. Apenas minutos depois chegou ali Aldebaran ofegante e assustado trazendo na mão o copo americano com os dentes do geminiano.

— Minha Nossa Senhora da do Perpétuo Socorro! Por que você veio sem me esperar, Patrão. Eu falei que não era pra vir agora.

Olhando ressabiado para Mu, Touro percebeu que os ânimos não estavam dos melhores ali.

— Ele já teve o que veio buscar — disse Mu agora encarando o brasileiro — Leva esse cretino embora daqui, Aldebaran.

— Pô, mas pera aí, compadre. Já que tâmo aqui, não seria melhor dar uma esticadinha aí pra dentro e fazer os curativos? Porque num é por nada não, mas você tá com metade da sobrancelha pendurada, e o homi aqui já perdeu três dentes. Mais um pouco ele passa a falar fofo e você vira apito de guarda de trânsito.

O taurino olhou preocupado para Saga, que estava pálido e visivelmente abalado, mais do que quando estava na Casa de Touro, e dada a postura dos outros três ali, era certo que não havia sido nem um pouco amigável aquela reunião.

Vendo os dentes de Saga no copo nas mãos de Touro, Shaka aproximou-se de Mu e o puxou pelo braço, os afastando um pouco dos outros ali.

— Marido, preciso te falar sobre Kiki. — disse ele.

Mu sobressaltou-se.

— Kiki? Pelos deuses o que tem o meu filhote? Com esse inferno todo acontecendo eu não pude sequer ir até ele.

— Kiki está aterrorizado — disse Shaka olhando nos olhos do ariano — Ele nunca viu o pai dele cometendo um só ato de violência até agora, e de repente... Ele assistiu a tudo, Mu. E ele está assustado, está confuso.

Mu levou as mãos ao rosto e o esfregou soltando um suspiro.

— Eu vou para casa ficar com ele — disse agitado.

— Não. Você não vai. — disse Shaka o segurando firme pelos chifres da armadura para mantê-lo parado no lugar enquanto falava — Não vou deixar você aparecer assim em casa, para o nosso filhote, todo arrebentado, desgrenhado, desdentado, expelindo raiva e ódio feito um vulcão em erupção, e colocá-lo ainda mais assustado... Kiki está muito frágil, Mu... Antes de vir para cá, eu prometi a ele que estava vindo te buscar, e que levaria o pai dele de volta para casa, são e salvo, e é isso que vou fazer.

Mu respirou fundo encarando os olhos do marido, depois desviou a mirada para o geminiano.

Shaka estava certo. Sua raiva o cegara até mesmo para Kiki.

— Mas que merda! — resmungou com um suspiro longo resignado.

Hospital de Atenas – Setor de Cirurgia de Cabeça e Pescoço

No corredor, nem mesmo o silêncio e vazio costumeiros, somado ao cheiro aprazível das flores que vinha do jardim no lado de fora, eram capazes de trazer alguma calmaria ao ambiente.

Nas longarinas*** dispostas umas de frente para as outras, o clima era tenso e o ar carregado.

De um lado, Shaka, já completamente extenuado, tentava conter um ariano raivoso que mais parecia um paiol que tinha acabado de pegar fogo, mas que no lugar de exalar cheiro de pólvora queimada exalava o de sangue, éter e mertiolate. De sua boca ferida toda sorte de chiados saiam através do buraco vazio do incisivo que lhe faltava.

E o alvo de tanta chiadeira estava sentado bem ali, à sua frente, na primeira cadeira da longarina, de pernas abertas, cabeça pensa para o lado, rosto desfigurado pelos hematomas, tufos e mais tufos de cabelo azul grudados em sua pele, desde a testa até o pescoço, e sem um sapato. Ele mal ouvia as ofensas, pois que seu pensamento estava longe, nos corredores da Ala 5, onde Geisty estava internada.

Como desejava poder vê-la... E como esse reencontro lhe assustava.

Saga mais parecia uma versão maltrapilha de Don Quixote, conseguindo ter ele uma figura ainda mais triste que a do próprio herói arruinado de Cervantes, mas tendo a seu lado sempre seu fiel escudeiro, no caso de Saga, um Sancho Pança de 2,10m de altura que ocupava duas cadeiras para se acomodar e carregava um copinho fajuto com três molares tão preciosos como dobrões de ouro.

A espera era morosa e angustiante, mas finalmente terminou quando as portas duplas do consultório se abriram e finalmente delas surgiu o tão aguardado especialista em cirurgia buco-maxilo-facial, que trazia nas mãos gordinhas e meio rosadas os Raio-X dos dois pacientes. O irlandês alaranjado e atarracado era a promessa que devolveria a dignidade aos dois cavaleiros banguelas ali e que finalmente acabaria com a chiadeira ariana.

— Senhor Saga Mega... — o cirurgião dizia quando foi interrompido antes mesmo de completar o nome do paciente.

— EPA! — chiou alto Mu levantando-se num salto da cadeira — EPA! Pode parando por aí Doutor. O senhor vai me atender primeiro. — com um gesto rápido apontou para Saga na cadeira que só havia intencionado se alevantar — Você nem ouse tirar a sua bunda daí.

Ainda sentado, Shaka suspirou esfregando os olhos.

Aldebaran coçou o queixo apreensivo.

Saga olhou para o médico, que tinha os olhos arregalados.

— Mas, senhor... — o irlandês procurava o nome do ariano na ficha.

— Mu. O meu nome é Mu.

— Mu? Mu de quê?

— Só Mu mesmo. — disse assoviando.

— Bom, senhor Mu, eu peço por favor para que o senhor aguarde. O caso dele é bem mais grave que o seu, ele está com sangramento e...

— Sangramento? Isso aí não vale nada, doutor. Ele todo é a porra de um sangramento!

— Mu de Áries! — Shaka o repreendeu se levantando e se pondo do lado dele.

— Pois eu é que não vou ficar aqui, quinem um poia, tentando me acalmar enquanto espero esse cretino ir na minha frente, luz da minha vida. Eu exijo ir na frente dele. Primeiro porque não quero mais ter de olhar para cara dele hoje — afirmou enumerando ao contar os dedos de uma mão com a outra — Segundo porque meu filho está doente em casa sozinho sob os cuidados da minha vizinha, e terceiro PORQUE SIM!

— Por que sim? — o médico perguntou chocado.

— Isso! Porque sim! — assoviou Mu.

Desconcertado o cirurgião direcionou um olhar confuso para Saga, que mantinha um chumaço de gaze na boca formando um bochechão do lado esquerdo do rosto. O geminiano ainda encarava com desconcerto e até certa incredulidade toda aquela raiva de Mu para consigo, já que sempre tiveram uma ótima relação de amizade desde que Áries voltou para o Santuário. Não compreendia aquele ódio, por mais que o considerasse legítimo.

Com um aceno efusivo e pouco paciente ele sinalizou cedendo sua vez.

— Vá, doutor, atenda ele primeiro e acabe logo com essa merda — falou fofo. As palavras saindo por entre os buracos da gaze — Pelo menos assim meus ouvidos têm um pouco de paz.

— O senhor tem certeza senhor Saga? Não é um procedimento rápido o dele também — disse o médico.

— Sim ele tem certeza! — disse Mu bufando e assoprando pelo buraco na arcada como se pudesse incinerar daquela distância o geminiano.

— Sim, tenho certeza. Atende ele logo, eu vou sobreviver — falou Saga.

— Isso! E já pode ir tirando os moldes e medidas... Eu quero o melhor implante que você tiver, com a peça mais cara.

— A mais cara é a de ouro, senhor Mu — disse o especialista um tanto cético.

— Ouro? — Shaka arregalou os olhos incrédulo — Ouro não, marido. Não quero você com um dentão de ouro bem debaixo do nariz parecendo um gigolô degenerado. Hu-hun, nem pensar! Ouro não.

Mu olhou para o médico, curvou para baixo os lábios inchados e feridos e deu de ombros.

— O senhor ouviu o meu marido. Ouro não. É muito exagerado. Quero o que tiver de mais natural e resistente. E como eu sei que a prótese definitiva vai precisar modelar e não fica pronta na hora, eu exijo sair daqui com uma provisória também. Quero tudo do bom e do melhor. Preço não é problema.

— É, não vai ficar barato mesmo, senhor Mu. E eu só aceito pagamento em Euros.

— Não me interessa. Não sou eu quem vai pagar. Ponha tudo na conta dele. — disse apontado para Saga, que imediatamente deu um pulinho na cadeira.

— O QUÊ? — disse o grego se esquecendo momentaneamente das dores do corpo diante do golpe em seu bolso.

— Ora, por que a surpresa, Gêmeos? — disse Shaka cruzando os braços.

— Porque não tem cabimento eu ter de pagar pelo implante dele quando ele também arrancou meus dentes! — disse Saga arrancando o chumaço de gaze ensopada de sangue da boca para melhor articular a fala — Eu não vou pagar nada!

— Ah! Você que vai pagar sim! — assoviou o lemuriano cuspindo perdigotos — Vai pagar a merda de restauração nova para substituir a que meu Mestre Shion me pagou com tanta dificuldade. E se prepare, porque essa é só a sua primeira dívida comigo.

Aldebaran assistia a tudo estático, se agarrando com todas as forças ao precioso copinho com os três molares. As sobrancelhas grossas tão arqueadas que parecia que a qualquer momento se uniriam também a raiz de seu cabelo junto à testa.

— Que quer dizer com isso? — Saga perguntou falando fofo, olhando para ele indignado.

— Quero dizer que sua dívida comigo já ocupa seis pastas de notas fiscais e faturas de cartão de crédito, correspondentes aos seis anos que você tirou férias, seu babaca. — assoviou feroz o ariano.

Por um momento a saleta mergulhou num silêncio aterrador, até que Saga de repente se levantou da cadeira e encarou o ariano.

— Quer saber? Vá se foder, você e o teu dente postiço, Mu.

Aldebaran arregalou os olhos negros.

Shaka revirou os dele e suspirou cansado.

O médico irlandês abraçou os Raio-X.

Shina que do jardim podia ouvir a discussão, desejou que os homens desaparecessem da Terra... logo depois voltou atrás. Não saberia viver sem eles.

— Volte lá na escadaria da tua casa, procura o caralho da tua prótese por lá e cola ela na tua boca com cola instantânea, porque eu não vou pagar porra nenhuma de prótese de sei lá o que para você. Você me arrancou três dentes e eu não estou tendo uma crise histérica por isso. Que o amaldiçoado do Hades me enterre no caralho do Cocito se eu pagar um centavo para você, além do que for justo! — esbravejou fanho enquanto era puxado por Aldebaran.

— Ah, quanto a isso não há o que se preocupar. Você está livre de ser enterrado no Cocito, porque todas as suas dívidas comigo são absolutamente JUSTAS! — esbravejou Mu de volta enquanto era puxado por Shaka.

— Patrão, né por nada não, mas eu acho melhor tu não reclamar e pagar logo a despesa do dente do Mu.

— O quê? Até você, Aldebaran? Você ouviu o que ele falou? Ele quer a prótese mais cara!

— Pior que essa nem é a mais cara... E foi como eu disse, se eu fosse tu nem reclamava, pagava.

E assim eles bateram boca até que Mu fosse arrastado para dentro do consultório do cirurgião dentista, e Saga para o jardim.

Sentado em um banco debaixo de uma árvore, já com o dia claro pela aurora que despontava no céu, Saga ainda sentia-se perdido. Estava com raiva de Mu, mas ao mesmo tempo o compreendia. Porém a raiva logo deu lugar ao medo, e esse nenhum analgésico no mundo poderia amenizar.

Saga tinha medo do que poderia ter feito a Geisty. Tinha medo de não conseguir mais uma vez o perdão dela.

Tinha medo do abandono, medo do que teria feito enquanto estava fora do controle, medo de perder a razão novamente.

Saga sabia que precisava de ajuda, muito mais do que a de um dentista. Ele precisava urgentemente de um especialista para tratar de sua enfermidade crônica, ainda que não soubesse exatamente qual era ela.

Ele poderia não saber, mas alguém no mundo haveria de descobrir, um neurologista, um psiquiatra, um guru da medicina ou espiritual, quem quer que fosse que pudesse lhe ajudar a manter o Outro sob controle para sempre, porque só assim poderia cogitar buscar o que mais desejava: o perdão de Geisty, para poder amá-la e fazê-la feliz como sempre sonhou. Sem culpas, sem medos.

Ele tinha feito tudo errado ao confiar seu bem estar a ela. Esse era um fardo pesado demais. Ele teria que aprender a carrega-lo sozinho, por si próprio. Só assim poderia reparar o mal que causara à amazona e quem sabe, se ela o aceitasse de volta, enfim viver ao lado dela os planos que fizeram juntos.

Ele sabia que esse seria um caminho longo, cujas garantias de sucesso eram mínimas, e que deveria galga-lo sozinho, mas estava determinado a tentar.

Dicionário Afroditesco

Abilolação – perturbação, chilique, surto.

* Are baap re! — expressão de espanto em hindi, equivalente a: Oh meu Deus!

** Bharatanatyam — é uma dança clássica indiana. É caracterizada por voltas, saltos e batidas dos pés que marcam ritmos complexos. Considerada a mãe de todos os estilos de dança, é também conhecida como Bharatha Nathyam. A palavra Bharatha é o antigo nome da Índia e também o nome do sábio ao qual o Deus Brahma concedeu as escrituras que regem a dança.

*** Longarinas — fileira de cadeiras ligadas umas às outras, muito comum e salas de espera.