*** Cabo Sunion - 12:00 ***
Deitado em um banco de pedra frio no fundo da cela úmida entalhada diretamente na base de um enorme rochedo, Shaka tentava aproveitar a maré baixa para descansar, quem sabe tirar um cochilo, afinal em poucas horas a maré subiria de novo e a água invadiria a cela sem piedade e sobreviver a ela era exaustivo. Apesar das roupas molhadas, o sal encrustado em sua pele e de sua "cama" nada confortável o que mais lhe incomodava, e lhe impedia de realmente fechar os olhos e recuperar as energias era o incessante e azucrinante barulho de correntes se arrastando para lá e pra cá.
Irritado, o indiano tentou mudar de posição e tampar os ouvidos com as mãos, mas de nada adiantou. Como se sua situação já não fosse terrível ainda tinha que aturar aquele som incômodo.
Porém sua paciência atingiu o limite ao ter sua perna puxada tão forte por elas que quase fora derrubado do banco.
Imediatamente o virginiano se pôs sentado, apanhou a corrente que estava atada ao próprio tornozelo e a puxou com força.
— Ai! — Touro reclamou ao ter uma das pernas puxadas e quase ir o chão entre uma passada e outra.
— Pelos seis infernos do Samsara. Será que é possível você ficar quieto por um instante? — Shaka ralhou nervoso soltando a longa corrente que unia o seu tornozelo ao tornozelo do Cavaleiro de Touro que estava de pé a poucos metros a sua frente — Essa merda também está presa a mim e eu estou tentando, pela graça de Buda, descansar.
— E eu estou te impedindo por um acaso? — o taurino disse cheio de marra ao cruzar os braços e encarar os olhos cerrados do companheiro de cela.
— Está!
Por um instante os dois travaram uma pequena batalha muda através dos olhares, até que vencido, Aldebaran deu uma bufada e se sentou no chão, jogando o enorme corpanzil contra a parede de pedra enquanto Shaka voltava a se deitar em uma tentativa inútil de tirar um cochilo. Entediado, o taurino apoiou o braço no joelho da perna direita, que estava dobrada, e se pôs a observar com "grande interesse" as ondas que se chocavam contra as pedras na orla marítima além das grades, qualquer vista era melhor que ficar olhando para aquele indiano irritante.
A situação dos dois era a mais absurda possível, mas por mais que Aldebaran quisesse praguejar e ofender todos os deuses do olimpo, no fundo sabia que a culpa de estar ali era sua. Touro e Virgem cumpriam punição dada pessoalmente pela deusa Atena devido ao péssimo comportamento como Cavaleiros de Ouro, decorrente da briga que tiveram na arena de treinamento e do mau exemplo diante das patentes inferiores e aprendizes.
Já estavam ali há dois dias, que lhes pareceu serem absurdamente longos, mas como se não fosse castigo o suficiente estarem presos juntos no Cabo Sunion e acorrentados um ao outro, o encarregado por manter o "bem estar" dos dois, levando-lhes comida, água e o que mais fosse necessário era ninguém menos do que Mu de Áries.
Saori Kido como reencarnação da deusa da guerra e da sabedoria, podia ser um tanto maquiavélica às vezes.
E era justamente por isso que o enorme brasileiro se encontrava tão inquieto. Mesmo sentado, Aldebaran balançava as pernas e estalava os dedos ansioso pela vinda de Mu que surgiria a qualquer momento com o almoço dos dois.
— Por Buda! — Shaka resmungou ao se virar no banco ficando de briga para cima. Agora eram os estalos dos dedos do taurino que o tiravam do sério — Você é ridículo, sabia?
Imediatamente Aldebaran parou o que fazia e virou o rosto na direção de Shaka.
— Vai se foder Xuxa! Não me enche! — Touro disse ríspido e irritado mostrando-lhe o dedo do meio.
— Eu teria o maior prazer em "não te encher" e ignorar solenemente toda sua existência insignificante e miserável, Touro. — Shaka falava com voz calma e serena, enquanto massageava a raiz molhada e salgada do couro cabeludo com os longos dedos de uma mão, e com a outra tentava coçar o tornozelo dolorido pelo atrito da pele com o metal gelado da corrente — Mas estou preso aqui, nessa cela úmida, gelada e fedendo a peixe, obrigado a presenciar hora após hora essas suas demonstrações patéticas de descontrole emocional diante da expectativa de se encontrar com o meu namorado. —- intensificou a entonação ao falar "meu".
Aldebaran trincou os dentes contendo a vontade de voar naquele pescocinho magro e esganar Shaka. Porém, Atena fora categórica: Não podiam brigar ou seriam punidos de forma ainda mais severa.
— Eu já mandei você se foder? — rosnou — Antes de ser seu namorado ele era MEU marido!
— Disse bem. Era, pretérito imperfeito do indicativo do verbo ser. Não é mais!
As palavras atingiram diretamente Aldebaran que de punhos cerrados abriu e fechou a boca algumas vezes tentando rebater o loiro, sem sucesso. Na ausência de resposta, ou ao menos alguma ofensa de baixo calão, Shaka tombou o rosto para o lado e encarou firme a face do taurino que sentiu os olhos azuis ocultos pelas pálpebras de longos cílios dourados o julgando sem piedade, o repúdio de Virgem era tão palpável que inconscientemente abaixou a cabeça.
Touro não queria admitir, mas estava farto daqueles olhares. Não precisava de mais ninguém para julga-lo, a própria culpa era seu mais terrível algoz. Culpa essa que o açoitava dia após dia e o corroía com a dor do arrependimento. Por isso quando as lágrimas inundaram seus olhos ele não mais as segurou, nem se quer se importou com o companheiro de cela. Apenas encaixou o rosto entre os braços apoiados nos joelhos e chorou.
No primeiro momento aquela reação pegou Virgem de surpresa, ver aquele homenzarrão soluçando era algo inesperado, entretanto a demonstração patética de sofrimento do taurino não lhe comovia. Principalmente porque fora ele, Shaka, quem colhera as infindáveis lágrimas de Mu amparando-o em seus braços quando o confortou em Jamiel. Que Aldebaran chora-se o Ganges inteiro.
— Suas lágrimas são dignas de pena. Recomponha-se e nos poupe de mais essa cena constrangedora. — o virginiano ralhou impaciente ao se sentar abruptamente no banco. Era a vez dele de mirar as ondas da maré que começava a subir fora das grades.
Aldebaran fungou algumas vezes tentando se controlar e limpou o rosto molhado com os dedos.
— Me deixa em paz, Paquita! — resmungou com voz embargada, sem animo para mais uma discussão. Era só o que faziam desde que foram presos ali: discutir — Você não entende! Ninguém entente...
Shaka revirou os olhos por sob as pálpebras. Poderia ficar calado e deixa-lo com suas lamúrias, mas sua própria mágoa não lhe permitia descansar a língua ferina.
— Entender o que? Que você é um calhorda sem vergonha?
— SIM! — o taurino respondeu alto, quase em um grito de indignação ao erguer a cabeça, o que pegou Shaka de surpresa — Que eu sou um calhorda sem vergonha, infiel, traidor filho da puta, mas que eu amo o Mu de verdade e por isso dói tanto aqui dentro. — desabafou em perdigotos — Dói muito saber que eu o perdi pra sempre, tá legal?! Dói saber que a culpa é minha, e dói saber que não importa o quanto eu o tenha amado e ainda o ame, ele nunca sequer me olhou do jeito como ele olha você!
Nesse momento Virgem ajeitou a postura e se virou na direção de Aldebaran.
— Era isso que você queria ouvir? — continuou o taurino ao se por de pé em meio às lágrimas de raiva e tristeza que escorriam por seu rosto revoltado — Então tá falado. Eu tentei desesperadamente concertar a merda que eu fiz porque eu não suporto viver com essa dor. Eu não suporto viver sem ele, e aceitar que eu o perdi é como aceitar a morte.
— Não. Não é. — Shaka respondeu sério ao se levantar e se dirigir ao taurino, parando diante dele, cara a cara.
Virgem então abriu os olhos e mirou bem dentro das enormes íris cor de jabuticaba antes de prosseguir, eloquente, afinal sobre aquele sentimento ele entendia melhor do que ninguém.
— Dói. Muito. É uma dor imensurável que lhe rouba o fôlego, como se a cada inspiração seu peito fosse transpassado por lâminas afiadas. Seu coração parece que vai se despedaçar a cada batida e tudo que você mais quer é fechar os olhos e descobrir que tudo não passou de um pesadelo, que ele não está com outro e que você não está sozinho. — fez uma pausa para ter certeza de que o outro prestava atenção — Você vai sobreviver Aldebaran, como eu sobrevivi todos esses anos sabendo que o homem que eu amava com todo o meu ser, o homem mais importante para mim que minha própria iluminação, estava deitado nos braços de outro, porque isso não é a morte. Isso é a vida, e a vida, a sua vida a partir de agora, é sofrimento.
Como um toureiro matador no final do labor da faena*, Shaka desferira o golpe certeiro e fatal no touro ferido, direto na jugular. Não havia nada mais a ser dito.
Aldebaran ainda assimilava as palavras duras, porém verdadeiras, do virginiano quando o barulho de um molho de chaves pesadas abrindo a cela lhes chamou a atenção.
Era Mu, que adentrava a cela um tanto atrapalhado por carregar duas bolsas térmicas junto ao corpo, segurando-as com uma mão, enquanto fechava a cela com a outra. Ainda tinha outra grande bolsa pendurada nos ombros e vinha trazer o almoço dos dois prisioneiros.
— Me desculpem o atraso. A fila no refeitório estava enorme. — disse com falsa naturalidade, ignorando o óbvio clima esquisito que pairava no ar.
Aquele era o pior pesadelo de Áries, o seu ex e o seu atual acorrentados juntos e só ele para cuidar e vigiar os dois.
Foram dois dias bem difíceis, com muitas discussões e muito estresse. Mu precisara de todo seu jogo de cintura para conseguir lidar com a situação. E agora já nem se importava mais com as picuinhas dos brigões.
Shaka ainda manteve o olhar firme em Aldebaran por um instante, antes de se voltar para o namorado e caminhar até ele, para ajuda-lo com as coisas que trouxera.
— Não tem problema Mu, nem estou com tanta fome assim. — disse ao pegar a bolsa térmica menor, que provavelmente era a sua, e dar um pequeno beijo nos lábios de Mu — Bom dia, meu amor.
Virgem e Áries tentavam ser discretos e não provocar o taurino com suas demonstrações de afeto, afinal a situação dos três era no mínimo delicada e inusitada, mas nem por isso se privavam de serem carinhosos um com o outro.
— Bom dia. — Mu retribuiu o beijo e estranhou não ouvir nenhuma reclamação ou resmungo vindo do ex-marido — Trouxe berinjela recheada e spaghetti de legumes para você. Está uma delícia.
— Obrigado Mu. Deve estar gostoso mesmo. — Shaka agradeceu e já se sentou no banco para abrir a bolsa e pegar lá dentro uma pequena marmita vegetariana quentinha.
Enquanto Shaka procurava os talheres para começar a comer, Mu deixou a bolsa que trazia nos ombros ao lado dele e andou até Aldebaran, notando que este se quer se movera desde que adentrara a cela, evitando inclusive lhe olhar nos olhos.
Estranho. Normalmente ele era o primeiro a lhe abordar, o que já mandava sua parca paciência para os ares logo de cara.
Sem nem ao menos perder seu tempo com comprimentos e de um modo bem mais grosseiro, foi logo estregando ao grandão uma bolsa térmica três vezes maior que a outra.
— Aí tem um pouco de tudo o que tinha lá. Coloquei o dobro de Moussaka e peixe frito também. — por mais magoado e chateado que o ariano estivesse com o taurino, sabia muito bem o tamanho do apetite dele e não o deixaria passar fome. Sempre caprichava quando ia preparar a marmita dele.
Aldebaran apanhou timidamente sua refeição de cabeça baixa e ainda sem olhar Mu nos olhos caminhou os poucos passos que a corrente em seu tornozelo permitia e se sentou afastado para comer. A verdade é que não tinha fome alguma, não depois das dolorosas palavras de Shaka e de finalmente aceitar sua verdadeira situação. Ter Mu ali só piorava tudo. Se pudesse gostaria de ficar sozinho naquele momento.
Mu franziu o cenho por um instante ao notar marcas de lágrimas no rosto de Aldebaran e imediatamente se voltou para Shaka o vendo comer tranquilo. Ali tinha coisa. Ambos estavam quietos demais.
Enquanto os dois almoçavam, ou melhor, Shaka comia e Aldebaran cutucava a comida, Áries voltou até o banco.
— Aqui tem roupa limpa para os dois. A maré já está subindo, mas vocês ainda tem algum tempo antes do mar inundar a cela. — disse ao tirar as peças da bolça grande que deixara lá — Depois de comer, troquem de roupa que eu vou lavar essas que estão usando, e mais tarde eu volto com as que lavei ontem. Trouxe várias garrafas de água potável e também suco de maça para Shaka e refrigerante para Aldebaran.
Shaka apenas sorriu em reposta, pois estava de boca cheia e Aldebaran nada disse, o que só reforçou a estranheza do ariano.
Se odiando por seu coração mole, Mu caminhou bicudo até o taurino amuado e lhe estendeu uma garrafa de refrigerante diante dos olhos.
— Toma! Eu sei que você não gosta de comer no seco. — mas Touro não pegou, se quer levantou a cabeça.
Um tanto irritado, para não dizer incomodado, Mu colocou a garrafa no chão bem do lado da marmita do grandão.
— Ó está aqui. Se você quiser beber, você bebe, Aldebaran. Se não quiser, joga fora. Eu não ligo. — mentiu.
— Obrigado. — o taurino disse por fim com um fio de voz.
— Hum.
Mu deu um resmungo e se afastou indo em direção ao namorado que lhe cedeu espaço no banco.
— O que ele tem? — perguntou baixinho ao sentar-se tão junto a Shaka que seus braços se encostavam.
— Deixa ele, Mu. — Virgem respondeu no mesmo tom de voz e após fitar rapidamente o taurino logo desconversou — Hmmm, realmente! Essa berinjela está ótima.
Inesperadamente o almoço transcorreu "tranquilo" na medida do que era possível pra aquela situação. Virgem raspara até o fundo da vasilha enquanto conversava amenidades com o namorado e Touro pouco comera, remexendo o alimento extremamente triste e incomodado com a intimidade do casal ao seu lado.
Era nítido o brilho no olhar do ariano. Por mais discreto e respeitoso que eles fossem, não restava mais nenhuma dúvida: Shaka reinava absoluto no coração de Mu.
Como o ariano não podia ficar na cela por muito tempo, pouco tempo após Shaka e Aldebaran terminarem a refeição Mu tratou logo de apanhar o molho de chaves em seu bolso e soltar as correntes em volta do tornozelo dos dois para que eles conseguissem trocar de roupas.
— Seu tornozelo está machucado, Shaka. — Mu constatou ao se abaixar e tocar a pele ferida do namorado com os dedos enquanto o loiro vestia uma camiseta regata de tecido leve que não pesava muito quando molhada — O sal da água do mar está piorando o atrito do metal. Vou trazer uma pomada na próxima visita. Também está machucado, Aldebaran? — perguntou já se levantando.
— Pouca coisa. Não se preocupe comigo. — Touro respondeu enquanto trocava de cueca e de calça.
— Mentira! — Shaka o desmentiu no ato — Ele fica andando para lá e para cá, arrastando essas correntes dos seis infernos o tempo todo. O tornozelo dele está pior do que o meu, Mu.
— Isso não é bom. Ferida aberta em contato com água do mar pode levar a uma infecção. Vou trazer pomada para os dois, quem sabe algum curativo.
— Já disse que não precisa. — Aldebaran terminou de se vestir.
— Não foi uma pergunta. Vocês dois estão sob minha responsabilidade. Eu vou trazer e ponto final. — Mu disse ao apanhar a corrente nas mãos — Por ora vou trocar elas de lado, assim pelo menos a pele machucada ganha um descanso. Põe o outro pé aqui em cima Shaka. — apontou para o banco pronto para acorrentar novamente os cavaleiros.
—"Não faça isso Cavaleiro de Áries. Não é mais preciso." — a voz doce da deusa Atena ecoou dentro da cela.
Surpresos, imediatamente os três homens endireitaram a postura e abaixaram as cabeças em respeito.
—"A pena dos três chegou ao fim. Porém quero que se apresentem imediatamente no Décimo Terceiro Templo onde eu os aguardo."
— Sim, minha deusa. — responderam em uníssono.
*** Décimo Terceiro Templo - 13:10 ***
Trajados com suas poderosas armaduras douradas e de joelhos diante da deusa Atena, os Cavaleiros de Áries, Touro e Virgem ouviam calados o maior sermão de suas vidas.
A voz de Atena era branda, falava enquanto caminhava lentamente de um lado para o outro diante de seu trono com seu báculo em mãos.
—... Eu jamais esperei que a situação chegasse ao ponto em que chegou. Isso é vergonhoso. Como sua deusa, eu espero dos meus Cavaleiros de Elite uma postura à altura da honra das sagradas armaduras de ouro que vestem. — o discurso proferido pelos lábios da jovem era duro e firme. Ainda que Saori fosse vários anos mais nova que os três homens prostrados a sua frente, nenhum dos três se quer tinha coragem de erguer a cabeça diante de sua autoridade absoluta — Por mais que eu lidere esse Santuário, eu tento ao máximo me manter afastada de seus assuntos pessoais. Uma vez que já sacrificaram suas vidas em meu nome e eu os trouxe de volta, acho justo terem privacidade para desfrutarem do pouco de liberdade que possuem. — parou diante dos cavaleiros e bateu firme a haste do báculo no chão, gesto que fez Aldebaran encolher os ombros, Shaka apertar os olhos fechado e Mu prender a respiração — Mas quando dois de meus Cavaleiros da mais alta patente se engalfinham no meio da arena de treinamento, feito dois cães de rua raivosos, por conta de conflitos amorosos envolvendo um terceiro, é exigido que eu tome uma atitude, não concordam?
A voz da deusa já não era mais tão branda e envergonhados os três homens apenas menearam positivamente as cabeças baixas.
— Ótimo. Quero que saibam que estou profundamente decepcionada com o comportamento dos três. Na verdade todos nesse santuário se comportaram extremamente mal, porém vocês três foram o foco principal de toda essa balburdia. Sinceramente eu esperava mais maturidade de homens adultos e guerreiros de tão alta estirpe. Não são meros aprendizes ou adolescentes, são meus Cavaleiros de Ouro e deveriam dar o exemplo a todos os outros. E é aqui que finalmente entro no motivo pelo qual eu puni aos três e os chamei aqui. Levantem-se! — ordenou lhes apontando o báculo.
Imediatamente Áries, Virgem e Touro se colocaram de pé em um movimento sincronizado, ainda mantendo os olhos baixos em postura submissa e obediente.
— Espero que durante esses dois dias vocês tenham refletido sobre suas atitudes e enfim aprendido as três lições que me vi forçada a lhes ensinar. Caso elas não tenham ficado claras, eu irei destrincha-las nesse momento. Primeiro: Dever e Responsabilidade. Vocês são irmãos de armas, três membros do seleto grupo dos doze guerreiros mais fortes do meu exército, homens escolhidos a dedo para se tornarem guardiões das casas zodiacais. Trabalham juntos, vivem juntos e precisam aprender a conviver civilizadamente como companheiros de luta que são. O dever como Cavaleiros, a irmandade entres vocês, vem acima da vida pessoal. Indiferente das desavenças ou afinidades que possuam, devem se lembrar que fazem parte de um exército e o mínimo que é esperado é que possam conviver um com o outro de forma adequada. Foi por isso que eu mandei prenderem Virgem e Touro, não apenas na mesma cela, mas acorrentados um ao outro. Para que pudessem aprender a conviver, nem que seja na marra. Tenho certeza que foram dias difíceis, mas colaboraram um com o outro e juntos sobreviveram a cada maré alta que os atingiu.
As palavras da deusa eram como açoites na honra e orgulho de Shaka e Aldebaran. Nenhum dos dois se quer cogitavam retrucar a bronca, mais do que merecida. O taurino já sentia suor lhe escorrer pela têmpora enquanto o virginiano tinha a face toda rubra de vergonha.
Mas a bronca estava longe de acabar.
Atena umedeceu os lábios e prosseguiu firme.
— Segundo: Respeito. Áries e Touro, vocês foram casados por cinco anos. Durante todo esse tempo dividiram não apenas suas moradas como também suas vidas, as entrelaçando como se fossem uma só. Não importa a circunstância do rompimento, vocês não podem simplesmente fingir que esse relacionamento nunca aconteceu, principalmente quando ainda há sentimentos de uma das partes. Já ouviram falar em responsabilidade afetiva? — nesse momento tanto Mu quanto Shaka sentiram os olhos da deusa focados em si — Áries, além de Touro ser seu ex-marido, ele é o Cavaleiro da Templo logo acima do seu, se um dia precisar de ajuda será Aldebaran de Touro quem correrá em seu socorro. Os seus sentimentos por ele mudaram, ou se findaram, mas os dele não. Por mais errado que ele esteja, e isso não vem ao caso agora, não pode exigir que ele o apague de sua vida como se nunca tivessem se envolvido. Não desdenhe dos sentimentos dele e não lhe exija indiferença. Isso vale também para você, Virgem. Da mesma forma que sofreu ao ver o homem que amava com outro, Touro sofre agora por ver você e Áries juntos, com o agravante da culpa que ele carrega. Não quero que escondam o relacionamento de vocês ou algo do tipo, mas respeitem os sentimentos dele e entendam sua dor. — ela então se voltou para Aldebaran — Nem preciso repetir o discurso para você, não é Touro? Mu e Shaka agora são um casal, e não importa em qual situação eles ficaram juntos, você também deve respeita-los como tal. Você tem a mesma responsabilidade afetiva que Áries, isso significa que deve aceitar as consequências de seu relacionamento amoroso com ele, incluso o término trágico e a mágoa que Áries carrega. — Atena voltou a se afastar e encarar os três — Foi por isso que ordenei que você, Áries, fosse o responsável por cuidar de Virgem e Touro enquanto estiveram presos. Ex ou atual, não importa. Ambos são pessoas marcantes em sua vida, e que cultivam sentimentos por você. Tem responsabilidade afetiva com ambos, aprenda a lidar com ela. — nesse momento Atena deu um longo suspiro e caminhou até Aldebaran, parando diante dele. — O que nos leva a terceira e última lição.
Se o chão se abrisse naquele instante e engolisse os três Cavaleiros, nenhum deles acharia ruim, tamanha era a vergonha e constrangimento que sentiam por terem obrigado a própria deusa a se intrometer em seus problemas pessoais. Porém o mais encolhido de todos com toda a certeza era Aldebaran. O homenzarrão parecia até pequenino diante da jovem deusa que diante de si erguia a cabeça para lhe olhar nos olhos.
— Livre-arbítrio! — Atena disse firme — Cavaleiro de Touro, você não tem o direito de obrigar quem quer que seja a nada, muito menos um antigo parceiro a permanecer em um relacionamento contra a própria vontade. Áries não é um objeto, não é um pertence seu, muito menos um escravo para que imponha sua vontade sobre ele. Suas atitudes foram completamente inapropriadas e não posso ignorar que foram elas o grande catalizador que os levou até o terrível incidente na arena.
Notando que Aldebaran fechava os olhos, Atena tocou o queixo do taurino com a ponta do báculo o obrigando a levantar a cabeça.
— Olhe para mim! — ordenou sem piedade — Se teve coragem de até desobedecer minhas ordens e ir importunar Áries durante o trabalho, deve ter coragem para me olhar nos olhos.
Ali do lado, os sentimentos haviam mudado repentinamente. Shaka demostrava no rosto uma placidez inigualável em contraste perfeito com seu interior que vibrava em satisfação. Mu por sua vez tinha dificuldade em controlar os próprios músculos faciais, pois que sua boca teimava em exibir um pequeno sorrisinho.
Quando o taurino finalmente abriu os olhos encontrou as feições aborrecidas de uma jovem Saori Kido.
— Você deve desculpas a Mu! Muito além de uma traição conjugal, você o desrespeitou como ser humano e como irmão de armas. Sua teimosia ultrapassou todos os limites. E agora me vejo aqui, nessa situação, sendo obrigada a interferir diretamente em suas ações. Já que não sabe mais quais seus limites morais, cabe a mim os impor a você. — Atena estava zangada e Aldebaran mortificado — Pois saiba que eu o tirei do Cabo Sunion porque é hoje o dia da audiência para a dissolução de sua união estável com o Cavaleiro de Áries. E como sua deusa eu ordeno que compareça e ponha um ponto final a esse problema que você mesmo gerou.
— Sim, minha deusa. — apesar de surpreso Aldebaran respondeu de imediato, sem nem pensar em questionar.
— Ótimo. E tem mais. A pena disciplinar que apliquei ao Cavaleiro de Áries, por conta do comportamento inapropriado que ele teve meses atrás, agora também será aplicada a você. Assim que retornar do cartório deve imediatamente se apresentar na prisão comum para cumprir duas semanas de reclusão, seguido de três meses de prestação de serviços comunitários. Alguma dúvida?
— Não, minha deusa.
Atena então soltou um longo suspiro, deu as costas ao Cavaleiro e subiu os degraus que a separavam de seu trono, onde se sentou visivelmente cansada. Tantos problemas mais sérios no mundo e ela ali, resolvendo picuinha amorosa no melhor estilo dos programas de baixaria que passam na televisão.
— De agora em diante eu espero que se comportem como os guerreiros de elite que são, e não mais envergonhem as armaduras de ouro que carregam. Dito isso, estão dispensados. Sumam da minha frente.
A deusa encerrou a reunião com um aceno de mão indicando que se retirassem.
Mais do que depressa, Mu, Shaka e Aldebaran saíram quase correndo do grande salão com as orelhas quentes, as faces pregadas no chão e mais ensaboados que roupa suja em bacia de lavadeira.
*** Cartório de Athenas - 16:40 ***
Mu não conseguia conter o enorme sorriso em sua face. Desde o momento em que o Juiz oficializara sua separação, uma felicidade arrebatadora tomara conta de si e essa só aumentou quando finalmente assinou os papéis e teve em mãos a certidão de divórcio.
Para sua surpresa, e também de Shaka, que fizera questão de estar presente ao seu lado na audiência, tudo fora muito rápido e tranquilo. Aldebaran comparecera na hora marcada, muito bem vestido com calça e camisa social, e sem causar transtornos. O juiz fora sucinto, fizera poucas perguntas, constatando logo que uma das partes até já estava em um novo relacionamento. Não vendo motivos que impossibilitassem a dissolução, colhera as assinaturas e estava feito. Em poucos minutos a audiência teve fim e os três foram encaminhados para o lado de fora da sala com Touro e Áries devidamente separados.
— Deuses. — Mu murmurou baixinho ao caminhar para fora do cartório de mãos dadas com Shaka — Nem acredito que consegui minha carta de alforria.
— Ele nunca foi seu dono, Mu. — Shaka sorriu para o namorado notando como ele segurava firme o papel na outra mão.
— Mas pensava que era. Estou tão feliz.
Sem mais se conter, assim que alcançaram à calçada em frente ao cartório, Mu se jogou nos braços de Shaka e o abraçou com força.
— Me sinto tão leve. Meu pesadelo chegou ao fim. Obrigado por vir comigo, Shaka. Foi muito importante ter você ao meu lado desde o começo. — beijou levemente os lábios do namorado — Agora não há mais nada nos atrapalhando, meu amor.
— Eu também estou muito feliz, Mu. — respondeu ao retribuir o carinho — E eu assumo, depois de tudo, meu lado orgulhoso não me permitiria perder esse momento por nada. Essa vitória também é minha.
Ambos riram descontraídos.
Poucos passos atrás deles Aldebaran também saía do cartório e não havia nenhum traço de felicidade em seu rosto. Antes de seguir em frente ele estacou no lugar e ficou parado ali por alguns instantes reparando no casal.
Poderia ser ironia do destino, mas achou Mu lindo. Definitivamente o ariano estava mais bonito no divórcio do que estivera no dia em que se casaram. Mu vestia roupas sociais, os três vestiam para ser honesto, porém ele parecia especialmente arrumado com um blazer escuro por cima da camisa verde clara e os cabelos soltos e brilhantes. Com tristeza Aldebaran constatou que talvez não fossem as roupas que embelezavam o Mu e sim a felicidade que ele irradiava.
Sua presença ali, os observando, não passou despercebida pelo casal que um tanto desconfortável se afastou lentamente.
— Mu, você me dá um instante? — Shaka pediu com um sussurro.
— Você vai falar com ele? — Mu perguntou confuso — Não vai provoca-lo, não é? A deusa já...
— Não, eu não vou. — o interrompeu — Confie em mim. Eu já volto.
Sem entender muito bem o que o namorado faria, Mu viu Shaka se afastar e ir em direção ao taurino que naquela altura já lhes tinha dado as costas e caminhava na direção contrária.
— Aldebaran! — Virgem chamou em voz alta — Espere um momento.
— O que você quer? — o taurino respondeu ao parar de andar, porém sem se virar para trás.
Shaka então o contornou se colocando diante dele e falou com voz bem baixa, pra que apenas eles escutassem.
— Eu vim complementar o que eu te disse na cela do Cabo Sunion. A vida é sofrimento de fato. Entretanto a principal lição que Siddhartha Gautama usava para transmitir seus ensinamentos a respeito da jornada para a felicidade é chamada de As Quatro Nobres Verdades. E sabe o que diz a primeira delas? A dor é inevitável, porém o sofrimento é opcional.
Virgem então tocou suavemente o ombro de Touro.
— Pense nisso.
Sem esperar resposta Shaka retirou a mão e se afastou, voltando para Mu.
Porém logo a voz grave de Aldebaran o chamou de volta.
— Ei! Xuxa!
Shaka virou-se para trás a tempo de vez os olhos jabuticabas marejados e um murmurar de lábios de onde saiu um "obrigado" quase inexistente. Então o taurino tomou seu rumo apressado e foi embora.
— Ei? O que é isso? — Mu, que observara tudo sem entender nada, cutucou o namorado — Estão de segredinhos? Viraram amiguinhos é?
Shaka sorriu, agora ele se sentindo leve e feliz como nunca. Em um movimento rápido o virginiano enlaçou a cintura de Mu e sussurrou em seu ouvido.
— Que tal a gente deixar Aldebaran para lá e irmos agora comemorar que ele é oficialmente o seu ex? Podemos começar com a cama da sua casa, pegamos todos os lençóis velhos e fazemos uma fogueira com eles. Depois inauguramos os novos com outro tipo de fogo, que tal?
Mu sentiu um arrepio percorrer todo seu corpo e respondeu no mesmo instante com um riso de satisfação.
— Pois eu acho que quero gastar todo o soldo desse mês comprando um enxoval inteiro lençóis agora mesmo.
Shaka riu e antes que levassem uma bronca por praticar ato obsceno em lugar público, os dois recompuseram-se e de mãos dadas e rostos rubros pegaram o primeiro taxi que encontraram rumo à loja de artigos para cama, mesa e banho mais próxima.
* Faena – trabalho realizado pelo toureiro durante a lide; especialmente, o labor do toureiro com a muleta (flanela vermelha) e a espada, em cada uma das vezes que lhe compete matar o touro.
