Sirius entrou lentamente no quarto e a encontrou adormecida sob os cobertores pesados como o seu sono. Após alguns minutos a observando tão serena, com os lábios entreabertos e a respiração tranquila, decidiu que aquele era o melhor momento para acordá-la. A madrugada já se anunciava e não havia mais tempo para permanecerem ali. Em verdade, não gostaria de ter posto os pés naquela casa e ter visto, uma vez mais, Severus a quem tanto desprezava. Suspirou resignado e se aproximou da esposa, tocando no seu ombro, a chamando.
Narcissa, despertou aos poucos, ainda meio zonza por conta do cansaço que dominava cada célula do seu corpo. Estava tão exausta que o encarou, piscando os olhos, para firmar a sua visão. O bruxo a fitava sorrindo abertamente, aguardando que ficasse mais consciente para tirá-la da cama e irem embora. Mal a loira se espreguiçou, ele segurou as suas mãos para que levantasse e o seguisse. Não esperaria que se recompusesse, a ajudou a se enrolar ainda mais no roupão que usava e a levou consigo pelo corredor. Ainda meio desnorteada e letárgica, desceu as escadas ao lado do marido que a abraçava forte.
- Sirius, não precisava ter vindo me buscar. Eu já ia voltar... apenas estava descansando um pouco - falou em meio a um bocejo, encostando a cabeça no seu ombro.
- Como não? Que tipo de homem eu seria se não me preocupasse com a minha linda mulher? - a puxou mais para perto e lhe deu um beijo.
- Você não existe! - disse em meio a um sorriso bobo que o deixou com uma expressão satisfeita por tê-lá deixado feliz. Ainda mais depois de um dia tão complicado e triste.
Ao ouvir as vozes e os passos na escada, Severus, sentou no sofá esperando os dois chegarem à sala. Queria se despedir da amiga e demonstrar o quanto sentiria a sua falta. Era triste que aquilo ocorresse, entretanto, não existia saída. Ao notar que Narcissa entrara no cômodo, ignorando completamente o outro, se ergueu do móvel e a abraçou.
- Cissa, não importa onde você vai ou quanto tempo ficará lá. Eu garanto que, quando voltar, tudo já vai estar resolvido... eu prometo! - concluiu colocando as duas mãos no rosto da loira, dando um beijo na sua testa, antes de se afastar. Aproveitando aqueles últimos segundos de proximidade, ela sussurrou no seu ouvido:
- Sevie, depois veja a carta que eu te deixei - essas palavras o fizeram erguer a sobrancelha tentando assimilar o que significava. Por quais motivos escreveria? No entanto, entendeu pelo olhar que era um assunto para depois. Aquele era um daqueles átimos em que não precisavam de qualquer argumento para que um compreendesse o que o outro queria dizer. Desta forma, com a mesma rapidez que se aproximaram, os dois se distanciaram e com um aceno se despediram. O que restava era ver o casal partir e ficar perdido em seus próprios pensamentos.
Mal entraram na residência e seguiram em direções opostas para pegar os últimos pertences, arrumar as crianças e averiguar se nada estava faltando. A bruxa, analisando que tudo se encontrava em ordem, aproveitou para ir ao quarto trocar de roupa. Deixaria o roupão de Severus com Regulus, para que ele entregasse, por não haver motivos em permanecer com a vestimenta. Colocando um outro vestido se beneficiou daqueles minutos de paz para refletir sobre como fora o seu dia. Ao sair do quarto, viu que o primo lhe aguardava com um olhar triste. O bruxo de cabelos negros abraçou o irmão e ela, desejando a ambos uma boa sorte no lugar pra onde iriam. Não sabia quando os reencontraria, visto que, os meses seguintes seriam perigosos para qualquer tipo de aproximação.
Remus, que ficara na casa auxiliando à organização das bagagens e dos objetos que levariam, permanecia em um canto com lágrimas nos olhos. Era horrível e perturbador conceber a ideia de que ficaria longe do seu melhor amigo. Porém, não encontrava outra alternativa para evitar que isso acontecesse. Se não escapassem, uma hora ou outra, o Ministério da Magia os encontraria. Não existia um auror que não estivesse caçando Sirius por todos os cantos e, a sua localização, era apenas uma questão de tempo. Na melhor das hipóteses, o bruxo de cabelos castanhos seria novamente preso e morto. Já, Narcissa, somente julgada por ter escondido um fugitivo. Certamente, alguém justificaria que estava em cárcere ou sob a maldição Imperius. Ainda existia a possibilidade de Lucius estar vivo e o destino deles se desenhava ainda mais cruel do que o previsto.
Antes de usarem a Chave de Portal, permitiram que os filhos se despedissem dos dois homens. Já o fizeram, antes de anoitecer, com as irmãs e primas, contudo, ali era uma situação diferente. Era triste de se ver o quão eram apegadas a eles e não os teriam por perto nos momentos que precisassem. Durante anos, aqueles dois bruxos, desempenharam o papel de figura paterna para os pequenos. Mesmo que não fossem completamente responsáveis pela educação deles, assumiram, com todas as forças e tempo, responsabilidades que o pai não poderia exercer por estar preso. Para todos ali presentes, era doloroso abrir mão do convívio... mesmo que não fosse mais diário como antes.
Em meio aos soluços de choro, o expressões de tristeza e frases de conforto, associadas a abraços e beijos de apoio, a porta que os levaria à sua tramontana e futuro se criou. Após os últimos apertos de mão, se separaram dos dois e agarraram o guarda-chuva, que servia como chave... tudo começou a girar, como se estivessem sendo sugados por jatos de vento dentro de um tubo apertado e escuro.
Simplesmente a estes acontecimentos, em casa, Severus andava em círculos pensando em tudo e em nada ao mesmo tempo. Na verdade, estava perdido em suas próprias considerações, bebendo algumas doses de firewhisky. Depois um longo período reflexão e esvaziar a garrafa, decidiu subir as escadas e ler o conteúdo da carta mencionada. Após revirar todos os cantos e achar que era cego ou idiota, encontrou debaixo do travesseiro, onde Narcissa dormira horas antes. Algo dentro de si gritava que era algo muito importante e que careceria de uma análise cuidadosa e atenta. Envolto nessas ponderações, retornou à sala para sentar próximo da lareira. Desdobrando o pergaminho, cuidadosamente, iniciou a leitura com calma. Chegava a escutar a voz dela ecoando na sua mente em cada frase:
Querido Severus,
Acho que a nossa despedida não nos deu tempo para dizer muitas coisas e, como não sei quanto tempo ficaremos longe ou se um dia voltaremos a nos ver, quero salientar que jamais esquecerei de nenhum momento passado ao seu lado.
Um dia, nós dois fomos jovens e inconsequentes, fugíamos para a sua casa sempre que surgia alguma oportunidade. Lembra quando fomos a um pub para beber um copo de Victory Ale e o dono nos expulsou ao perceber que não tínhamos idade para estar ali? Ou que, depois, você voltou lá, roubando algumas garrafas para que bebêssemos e me disse que eu me encontrava "muito bêbada para decidir qualquer coisa sobre a minha vida"? Me achava e, ainda me mantenho, convicta de que ali se mostrava a sua verdadeira face, refletida no brilho prateado que atravessava os seus olhos negros e reluzentes pelo álcool. Por mais que sempre tenha negado, você é um homem decente e bom, que jamais se aproveitaria de uma menina ou mulher fora do seu estado de consciência, para conseguir o que deseja.
É interessante recordar essas coisas, quando remetem ao momento exato em que eu descobri a existência de um novo mundo... tão diferente do que eu conhecia até então. Ao mesmo tempo, tudo parece engraçado e triste... se eu fechar meus olhos e pensar, vou me recordar que o nosso primeiro beijo foi em uma parada de ônibus. Incrivelmente, você era mais baixo do que eu naquela época e sempre sorria quando nos encontrávamos escondidos. Assistimos filmes, visitamos um museu, caminhamos de mãos dadas na rua... porque você enfatizava que eu não podia atravessar a rua sozinha, pois morreria atropelada por ser desatenta e desacostumada com os trouxas. Na sua casa, ouvimos aquelas músicas estranhas que tanto gosta e nos tornamos um só... tantas vezes que seria indecente contar.
Foram dias felizes e eu amava a forma como me sentia e as sensações que experimentava ao se lado. Contudo, você me abandonou quando eu mais precisei... justamente, na minha oportunidade de ouro. Precisamente, no átimo em que eu estava prestes a te possuir como eu tanto sonhava. Juro que eu te odiei com a mesma força que eu te amei. Julguei que eu era apenas uma mais uma peça no seu jogo perverso e perigoso. O meu mundo incendiava porque eu me achava terrivelmente apaixonada por você! Tão perdida por não ter mais nenhum segundo de retribuição. Eu o queria a cada instante, o tempo inteiro... Mas, quem diria que eu perderia a minha maior luta para alguém que sequer existia? Ou que você se negasse bravamente a acreditar que eu o amava com todo o meu coração?
Da mesma forma, nessa época, inúmeros pesadelos surgiram à noite, todos horríveis e tristes... me vi desnorteada e privada dos meus sentidos. Ficava vagando sem direção e parando em frente a sua janela, como um pedido mudo para que abrisse a sua alma e me deixasse cuidar dela. Sem me importar com o frio ou com a chuva que pareciam cortar a minha pele, eu queria ficar com você ali até os meus últimos minutos de existência. O pior é imaginar que jamais tenha a dimensão do quanto é escuro e solitário, quando eu não posso vê-lo... sempre foi tão difícil deixar você ir. Principalmente, porque eu acabo vivenciando o amargor de sentir a sua falta, depois de provar o doce ardor da sua presença. Houve dias em que eu pensei que iria definhar e que meu destino seria horrendo. Entretanto, creio que as criaturas da noite aprendem a vagar pelas sombras e carregarem segredos pelas trevas.
Eu não gostaria de partir, mais uma vez, meu cruel e astuto Severus... o que eu posso fazer? Sei que, eu ainda sou muito jovem para ter juízo... tanto que eu estou escrevendo esta carta, arriscando toda a minha vida e o meu casamento perfeito. Cometo este deslize, unicamente, para dizer, apenas uma última vez, que eu o amo. Concomitantemente, sei que sou velha demais para agir como uma tola guiada por ilusões bobas. Delírios que fascinam e atraem como miragens de um oásis ou aqueles finais felizes dos contos de fadas trouxa que você me falou. O pior é que eu vejo em você, desde o exato momento em que nos conhecemos, o meu único sonho, o meu inigualável mestre e o senhor absoluto do meu coração!
Sei que esse pode ser o maior e mais terrível erro da minha vida me expor desse jeito. Sei o quanto gosta de correr riscos, especialmente, pelo fato de que para você nunca houve nada em jogo. Eu sempre fui a única que poderia perder tudo o que possuía por me atirar em um abismo que me chamava o tempo inteiro... pedia para que eu realizasse tudo o que eu não deveria, porém, desejava sempre. Certamente, nossa amizade acabará junto com o final da sua leitura... compreenda que eu necessitava dizer isso antes de que os meus sentimentos me sufocassem. Por isso, Severus, eu peço que nunca me julgue ou me deteste! Eu prometo que nunca serei empecilho ao seu sonho de amor e, tampouco, penso em abandonar o meu marido a quem eu tanto adoro. Muito menos, roubar os devaneios de uma menininha que sonha com o seu lindo príncipe de cabelos negros... mesmo que, por alguns minutos, eu a inveje por ter conhecimento que ela é a sua única dona, a pessoa por quem você daria a vida e o seu verdadeiro amor.
Me perdoe por amar e teimar em querer você sempre tão perto, por favor!
Com amor,
Narcissa
PS: Se precisar, tenha certeza de que eu sempre o ajudarei a consertar tudo o que der errado.
Ao terminar de ler, Severus deixou a carta cair no chão e pôs as duas mãos no rosto. Tentava assimilar cada uma daquelas linhas como se cada letra tivesse a força de fazer parte do seu mundo ruir. Se achava tão perplexo, que examinava e minuciava cada detalhe, repassando na sua mente todos os fatos que envolveram os dois ao longo dos anos. Era como se o seu corpo estivesse tomado por ondas elétricas que o impediam de se mover. Ao recordar cada um daqueles jogos de palavras, presentes em algumas linhas, sentiu vontade de chorar. Tudo sempre esteve tão claro... a terrível verdade se chocava violentamente no seu rosto.
Lembrou de todo o empenho que aquela menina, agora uma mulher, fizera para se nivelar a ele. Desconsiderou as diferenças sociais, de educação e de vivência, enfrentando bravamente tantas coisas conhecidas apenas para conviver aquele a quem chamava de amigo. Algumas lágrimas teimosas escorriam pelo seu rosto, ao reviver aqueles dias e notar o esforço que Narcissa fazia para abrir mão de todos os preconceitos em que fora criada para experienciar algo desconhecido... o que chamou de abismo. Não houve um segundo em que não estivesse óbvio, mas como pode ser tão cego? Porque brincou daquele modo com os sentimentos dela? Justamente alguém que prometera proteger, teve o seu coração destruído por puro egoísmo. Tantos abraços, sorrisos, mudanças de humor, as defesas exageradas, os olhares, o carinho absoluto, a busca por conforto nos momentos de tristeza... No entanto, nunca cogitara, em todos os cenários possíveis que ela o amava.
Neste instante, chegou a ver diante de si o segundo em que a viu desmoronar diante dos seus olhos e, naquele dia, não entendeu o motivo. Quando contou que amava Hermione e que apenas ela era o seu mundo, a loira se desesperou e chorou compulsivamente. Depois, veio a briga e quase um rompimento definitivo dos laços que os prendiam... Severus se julgava um monstro da pior espécie, experimentando verdadeiro nojo de si mesmo. Se torturava com as hipóteses que surgiam e se abalroavam contra as memórias... tanto as que vivenciara, quanto as que estavam guardadas. Por um impulso subiu e foi em direção ao quarto usado como escritório, pegou o frasco e ficou o encarando com ódio. Sua vontade era de arremessar contra a parede e esquecer tudo aquilo. Que o mundo explodisse!
De tantas pessoas no mundo, Narcissa era uma das poucas a quem jamais quis partir o coração. Sempre quis que ela fosse feliz, amada e adorada pela pessoa a qual escolhesse casar... Sirius, embora um idiota completo, era perfeito para desempenhar este papel. Foi ele quem permaneceu ao lado dela quando todos a julgaram, sem se importar com as opiniões alheias ao que acreditava... deu um lar e fez com que Draco não crescesse como um bastardo. O principal, foi tê-la afastado de Lucius e mostrar que merecia uma vida melhor. Aquela bruxa era especial demais para sofrer ou chorar por alguém como ele. Sentia que nunca merecera tanto afeto...
Sem conseguir mais pensar em nada com clareza, pegou o casaco e saiu de casa sem rumo. Aparatou no primeiro beco escuro que encontrou e, desaparatou na porta da residência onde Narcissa morava. Vendo que estava trancada, sem conseguir pensar direito, lançou um Bombarda, invadindo como um furacão pelos corredores mal iluminados pela luz do dia que estava nascendo. Entrando em cada cômodo, gritava o nome dela. Precisava conversar... aquela carta não poderia ficar sem uma resposta ou uma solução.
