Ao terminarem de atravessar o portal, olharam para a rua iluminada, com calçamento de calçamento de paralelepípedos no meio da rua. Era madrugada... Sirius fez um gesto para que Narcissa ficasse um pouco mais para trás com as crianças para investigar onde estavam. Após caminhar pela quadra, olhando para as casas cercadas por gramados verdes e muros baixos na cor branca, se deparou com uma placa indicando o nome Avenida Guaíba. Recordava brevemente de ter estado ali quando criança com o pai, entretanto, fazia tantos anos que sequer lembrava daquele lugar. Por um instante, agradeceu aos pais e a Merlin, por ter sido obrigado a aprender 8 idiomas, pois se encontravam no Brasil e teriam de se adaptar. Retornando para onde estava a loira e os pequenos, sorriu:
- Cissa, estamos em Porto Alegre. Aquela casa branca ali é nossa. Creio que tenha espaço suficiente para nós dois e os diabretes.
- Porto Alegre? Perto do Uruguai? – questionou enrugando a testa pensativa.
- Exatamente – suspirou, refletindo que, pelo pouco que memorizara a respeito daquele lugar, era próximo a Londres nas questões climáticas e arquitetônicas. Tinha uma vida noturna e cultural interessante... em resumo, não seria difícil viver ali. As crianças corriam na frente para entrar logo na residência, obrigando o casal a acelerar o passo e impedi-los de seguir em frente.
- Vocês ficam aqui! Essa casa está fechada por, pelo menos, 20 anos. Temos que tirar os Bichos Papões escondidos antes de invadirem como mini bárbaros. Pode ser? – a bruxa inquiriu os filhos que apenas assentiram. Para eles aquilo era uma aventura maravilhosa e se encontravam muito ansiosos pelo o que viria depois. Não era apenas outro país, eles se localizavam agora em um novo continente. Nos livros, alguns autores falavam que era o Novo Mundo... e não era? Um universo inteiro se apresentava diante dos seus jovens olhos, uma língua diferente, costumes distintos, uma casa em que dava para ver um lago enorme e, principalmente, uma sensação de liberdade. Miravam tudo, analisando cada detalhe do entorno, olhando os vaga-lumes que circulavam por entre as árvores.
- Dray, olha aquilo lá... o bichinho parece um besouro com uma lanterna na bunda! – falou Leo apontando para que o irmão observasse o animalzinho.
- Leo, por Merlin. Isso é apenas um vaga-lume ou pirilampo. Ele é um inseto coleóptero da famílias Elateridae, Phengodidae ou Lampyridae, que se destaca pela sua emissão de luz bioluminescente – Hermione o encarava com um ar de superioridade. Sempre perdia a paciência com as idiotices e a falta de educação do irmão.
- Ah, cala a boca, sua chata! Não dá para dizer nada que lá vem você corrigir – cruzou os braços emburrado, encarando a irmã que dava um sorriso sarcástico.
- Se você não fosse um leão burro, eu não necessitaria perder meu precioso tempo reparando a sua patetice! – ergueu as sobrancelhas vitoriosa com o semblante contrariado dele.
- Nosso pai é um leão, bravo e corajoso! Você não deveria vir com essas palavras depreciativas... serpente sonsa! – Sagitta se envolveu na discussão fazendo com que a cacheada se virasse para ela.
- Eu sou uma serpente sonsa? Esquece que a nossa mãe e toda a nossa família são orgulhosamente serpentes? Nosso pai foi uma exceção por achar que músculos são mais fortes do que a inteligência. Vocês dois são dois patetas patéticos! Sonham com as histórias a respeito dos Marotos, quando são burros o suficiente para nem conseguirem amarrar os sapatos! Prefiro o Tor, o Dray e a Lua, que são inteligentes e maravilhosos para conversar – olhou para o outro lado para não prosseguir a briga. Aqueles dois sempre ficavam de graça e só falavam baboseiras despropositais nos momentos mais inoportunos.
- Mione, releve – Luna se aproximou abraçando a irmã.
- Eu desculpo até demais. Você sabe muito bem o que eles fizeram antes de virmos para cá... quiseram sumir com o Crookshanks, alegando que tinha sido dado pelo "Ranhoso". Sei lá quem é essa pessoa e esses dois imbecis queriam abandonar o meu bichento! – bufou com raiva, recordando o que houve e o quanto teve que percorrer a casa em busca do gato meio amasso, para que não ficasse para trás. Pictor, enquanto isso, se mantinha alheio a toda a discussão dos irmãos. Estava cativado e fascinado com o som dos grilos e o brilho vaga-lumes para prestar atenção em bobagens. No mesmo momento, Draco seguia para os fundos da residência para espiar o tamanho do pátio. Achava-se bastante reflexivo quanto a viabilidade de poder voar com a vassoura por ali, em segurança, sem ser notado pelos vizinhos. Chegando à conclusão de que, no dia seguinte, questionaria os pais sobre a possibilidade de fazê-lo.
Poucas horas depois, Sirius e Narcissa saíram, contemplando as crianças sentadas no pátio muito concentradas nas estrelas. Compreendiam que não conseguiriam dormir, deixando que ficassem ali por mais alguns minutos, enquanto, terminavam de arrumar as coisas dentro da casa. Sentiam-se cansados, após ter ido em todos os cômodos procurando a existência de algum Bicho Papão, para deixar o ambiente sem qualquer perigo aos bruxinhos. Ao mesmo tempo em que, os elfos limpavam os tapetes e as cortinas, espantavam fadas perdidas e desinfetavam objetos. Aproveitando aquela paz, se acomodaram ao lado deles e ficaram descansando um pouco. Hermione vendo que a tia se mantinha absorta nos próprios pensamentos e com uma expressão clara de fadiga, a única coisa que dominava as suas conjecturas era o que ainda teria de ser feito para, realmente, organizar a residência onde viveriam nos próximos anos. A menina se aproximou calmamente se assentando ao lado da loira, segurando a sua mão para ficar mais próxima.
- Mãe, desculpe incomodar a senhora, mas... eu posso fazer uma pergunta? – a olhava atentamente esperando a resposta que seria dada. Se não fosse possível obter uma resolução à sua dúvida, naquele instante, tentaria mais tarde novamente.
- Claro, bonequinha. O que quer saber? – fitou a menina aguardando que ela inquirisse e sanasse as suas incertezas com relação a um assunto que lhe era desconhecido.
- Porque eu sou a única que não tenho nome de um corpo celeste ou de uma flor? – torceu o lábio para o lado o mordendo. Não entendia os motivos, porém, sempre que cogitava o tema, uma sensação de insegurança atravessava o seu corpo.
- Mione, quando a Bella estava grávida, ela pensou em nomeá-la como Adhara ou Nova. Adhara seria por conta do seu pai, já que esta é a segunda estrela depois de Sirius na constelação de Canis Major. Já o nome Nova, sempre vinha acompanhada de uma descrição que fala muito sobre como você é – sorriu passando a mão no rosto da mais jovem que prestava atenção no que lhe era relatado. Notando que deveria dar continuidade a explicação, seguiu:
- Nova, como você deve conhecer, é uma estrela anã, que poucos dão importância. Todavia, na medida em que vai crescendo, se transforma em uma Supernova. Tão brilhante que ofusca todas as outras que se localizam à sua volta.
- Eu lembro muito pouco dela... da minha mãe, a Bellatrix. Como ela era quando jovem? – fez um beicinho e suspirou pesadamente. Por mais que amasse Narcissa e a visse como sua mãe, queria conhecer Bellatrix, constatar quais eram as suas semelhanças e diferenças, ouvir a sua voz, sentir o seu abraço...
- Ela era uma bruxa muito bonita, com uma cabeleira selvagem igual a sua, só que mais escura. Sempre muito orgulhosa, altiva, astuta, inteligente, cheia de vida e, principalmente, adorava chocar os outros e era muito apaixonada por tudo o que a seduzia um pouco – sorriu abertamente ao recordar de como a irmã era quando criança e adolescente. Em meio a esse pensamento, continuou relatando:
- Um exemplo, é que viva com o rosto enterrado nos livros, quando tinha a sua idade e sempre se apresentava cheia de ideias. Quando entrou na adolescência, quis chocar os nosso pais, fazendo Estudo dos Trouxas e tendo as melhores notas.
- Porque o meu pai nunca fala nela, mãe? Eu já tentei perguntar para ele, mas... sempre tem uma desculpa e a frase de que isso é algo que falaremos outra hora – Hermione soltou uma lágrima olhando para o céu e Narcissa a encarou, puxando para perto de si, abraçando-a.
- Foi difícil para o Sirius ter sido rejeitado pela Bella. Seu pai a amava muito. Na verdade, ele idolatrava todos os gestos do seu amor de infância. Era com ela que imaginava casar. Contudo, não foi assim... – deu um beijo na testa menina, que retribuía o gesto se aconchegando o máximo que podia nos seus braços. Não havia como explicar o quanto se sentia segura e amada ali. Jamais abriria mão de ter aquele contato tão próximo.
- Isso é triste! – murmurou chateada com o que acabara de ouvir. Na verdade, a consternação era por conta de ter constatado que era o fruto de um relacionamento fadado ao fracasso. Nunca houve uma chance daquilo ser real.
- Muito e sabe o que é pior, bonequinha? Isso já é algo que é dito pelas constelações! Os sábios já descreviam que Bellatrix e Sirius não podem incendiar juntos... é o anúncio de uma guerra ou tragédia iminente. São duas estrelas incandescentes que se ofuscam – os olhos da castanha cintilaram para a loira, com uma ponta de assimilação profunda.
- Meus poderes podem significar a catástrofe? – questionou abraçando ainda mais forte a tia em busca de segurança para afastar todo o temor que começava a tomar conta do seu corpo. Demonstrava todo o receio de ser a causadora da desgraça na vida dos outros.
- Se eles não forem controlados, certamente. Mas, não esqueça que a sua tia Andy te ensinou como dominar a necromancia e as demais áreas da magia nefasta que te cercam – a loira afagava carinhosamente os cabelos da jovem, a tranquilizando. De fato, não havia com o que se preocupar. Determinadas partes já estavam contidas apenas pelo conhecimento que possuía a respeito do que era capaz de executar. Para mudar o rumo da conversa e tirar os maus pensamentos da mente de Hermione, Narcissa a segurou pelo queixo para que a fitasse, secando as lágrimas que caíam com a ponta dos dedos. Dando pequenos beijos nas suas pálpebras, obtendo, em troca, em pequeno sorriso.
- Quando quiser pensar na sua mãe biológica, olhe para o céu. Está vendo ali aquelas estrelas juntas? Aqui no Brasil chamam de Três Marias, apesar de ser nada além do que a ponta da constelação de Orion – vendo o olhar atento e que dava os primeiros sinais de sono, prosseguiu explicando calmamente:
- Ali, aquela mais brilhante, é a que se nomeia como Bellatrix ou Gamma Orionis. É a estrela que guiava os exércitos do Império Romano. Caius Julius Caesar, em Bello Gallico, trata em alguns pontos a relevância dela no sucesso da campanha militar na região da Galícia, a atual Espanha – a menina nem piscava querendo ouvir cada detalhe do que lhe era dito, fazendo com que a bruxa mais velha sorrisse ilustrando o que estava revelando:
- Bella estará, dessa maneira, sempre perto de você.
As duas permaneceram ali em silêncio. Estavam abraçadas, olhando as estrelas que ainda lutavam para expor o seu brilho, em meio aos primeiros sinais do amanhecer. Hermione ficou mexendo, com a ponta dos dedos, os fios de cabelo loiro que faziam cócegas no seu rosto se encorajando para iniciar um novo ponto para dialogarem. Não obstante, seus olhos piscavam querendo fechar e se entregar ao sono, ela perguntou:
- Mãe?
- O que foi? – Narcissa afastou um pouco o rosto para demonstrar o seu interesse pelo o que iria ouvir.
- Seu eu contar uma coisa, a senhora promete que não contará ao meu pai? – sua voz saiu um pouco retraída, pois se sentia insegura de tocar novamente naquele assunto.
- Depende... se for algo grave, o Sirius terá que ficar sabendo – a observou analisando as suas expressões de timidez, notando que as sardas se encontravam envoltas por uma coloração rosada de acanhamento. Aquilo foi uma imagem tão adorável, que ela sorriu e a abraçou ainda mais forte, fazendo com que a pequena escondesse o rosto perto do seu pescoço.
- É sobre aqueles sonhos... - murmurou com a fronte ainda oculta. Aproveitando os cabelos da bruxa para se encobrir ainda mais.
- Não falarei nada, eu juro – disse se afastando um pouco para espiar as feições da castanha que seguia envergonhada com a revelação.
- É que, eu... eu... na noite passada, ouvi a voz do príncipe, mas eu não consegui ver o rosto dele – seu rosto começou a se aquecer com o embaraço em ter de falar daquilo. Já imaginava a vermelhidão que devia ter se espalhado pelo rosto, apenas pelo fato de que, a tia a contemplava com uma expressão de encantamento com o que acabara de escutar.
- E o que o príncipe disse? – inquiriu arrumando ainda mais Hermione no seu colo, para que não ficassem desconfortáveis. Ao mesmo tempo, prestava atenção nas minúcias, para que nenhuma particularidade escapasse ou alguma omissão passasse desapercebida.
- Somente que eu era especial e não deveria me sentir tão sozinha – falou soltando um suspiro pensativo, olhando para o rosto atencioso de Narcissa.
- Bem, isso é verdade – assentiu meditando o peso daquelas palavras, previamente, para evitar comentar qualquer coisa com antecipação. Porém, antes de concluir as suas considerações, teve os pensamentos interrompidos, pelo olhar inquisitivo de Hermione.
- Meu pai é o seu príncipe? – a pergunta vinha acompanhada de uma espera cheia de expectativas pela resposta.
- Claro que é, amor! Quem mais seria além dele? – sorriu apertando as bochechas da menina e a enchendo de beijos pelo rosto.
- Não sei... é que o meu não existe. Ele só faz parte da minha imaginação... a senhora podia ter um assim também – deu de ombros olhando para baixo, ajeitando o rosto no ombro da loira que acariciava os seus braços.
- Ah, Hermione... eu passei muito tempo sonhando com um príncipe. No entanto, prefiro quem é real. Isso faz com que o meu príncipe seja o Sirius, mesmo ele naquele estado deplorável dormindo com os seus irmãos ao relento – as duas riram, apreciando a cena diante de seus olhos. De fato, tirando Draco que entrara na casa e foi dormir no sofá da sala, os demais estavam usando o pai, transformado em cachorro, como travesseiro para repousarem.
