JÁ PODE ROUBAR A NOIVA?
Santuário. Casa de Touro.
Aldebaran conseguia sentir as alterações no Cosmo geradas pelo Caos. Por isto, no seu escasso tempo livre, ele acompanhava as notícias de diversos lugares do mundo pela televisão. Austrália, Estados Unidos, Alemanha, Argentina, Turquia... Estes e outros países sofriam com o surgimento de monstros mitológicos, com a ocorrência de eventos climáticos para lá de atípicos, pânico coletivo e etc. No entanto, foi uma notícia oriunda da Itália – de Verona, especificamente – que prendeu a atenção do cavaleiro de Touro.
_Mas o que...? – Aldebaran quase não acreditou. – É o Milo e... Um dos juízes do Inferno?
Nas imagens feitas por um cinegrafista amador, o cavaleiro de Escorpião e Radamanthys de Wyvern eram rendidos numa praça pela polícia italiana. Aldebaran não percebeu, mas, ao fundo, uma jovem ruiva de olhos azuis, a qual segurava um mapa nas mãos, foi conduzida para longe por um homem de semblante preocupado.
_Se isso não for um evento do Caos – o brasileiro riu da indignação de Milo ao ser algemado. – Eu não me chamo mais Aldebaran.
O cavaleiro de Touro não sabia, mas a confusão há muito terminara, e o escorpiano já estava livre para seguir o rastro da Musa da Poesia. Ainda na Itália, ele caminhava em meio à uma bela paisagem bucólica, onde ovelhas pastavam tranquilamente em colinas distantes, tocadas na linha do horizonte por um deslumbrante céu azul. Aqui e ali, construções pitorescas podiam ser vistas, e videiras carregadas anunciavam uma colheita iminente.
_Sinto que ela está por perto – Milo falou consigo. – Mas, desta vez, eu não posso perder o foco.
Sentindo-se humilhado e envergonhado, o cavaleiro tentava esquecer os acontecimentos da Piazza delle Erbe, mas era difícil. Ele desejou, então, que o maldito Radamanthys permanecesse fora do seu caminho por tempo suficiente para o cumprimento da sua missão. Afinal, a dignidade que lhe restava dependia disto.
_Ali – Milo disse ao avistar a entrada de uma vinícola.
Lá, a vindima havia começado. Havia música, festejos, e várias pessoas dedicadas à colheita de uvas. Algumas, inclusive, pareciam turistas. Milo se misturou a elas e pôde caminhar sem problemas pelo lugar. Após algum tempo, ele avistou a Musa da Poesia sob o sol da manhã, distribuindo sorrisos enquanto pisava em uvas recém-colhidas. Ela usava um singelo vestido branco, e o seu longo cabelo ruivo estava trançado e enfeitado com flores do campo.
_Concentre-se, seu idiota – Milo disse para si após um momento de deslumbre. – À essa altura, ela já encontrou os lábios doces de sabe Zeus onde, e você é apenas um passado inconveniente. Sendo assim, faça o que deve ser feito e ponto final.
Decidido, Milo tirou os seus sapatos e passou a participar da pisa das uvas. Outras pessoas faziam o mesmo, claro, ao som de uma música bastante animada. Aos poucos, o cavaleiro de ouro se aproximava da Musa da Poesia, porém, alguém a chamou. Era um homem, o mesmo que levou Adella da Piazza delle Erbe.
_O que...? – Milo observou a familiaridade com a qual ela o tratava. – Quem é ele? Será os lábios doces do... Do tonel de uvas?!
Sorrindo ternamente, a Musa da Poesia seguiu o estranho até o palacete no topo de uma colina. Milo, após pegar seus sapatos, segui-os mantendo uma distância razoável. Os dois entraram na bela construção, cumprimentando antes os dois seguranças que guardavam o portão. Temendo ser visto por eles, Milo deu a volta visando uma entrada furtiva. Sem esforço, ele pulou uma cerca viva e atravessou um tranquilo jardim italiano, o qual era adornado com flores, estátuas e fontes. Depois, o cavaleiro escalou a parede do palacete até alcançar uma janela convenientemente aberta.
_Foi mais fácil do que eu pensei – Milo disse e notou a aproximação de Adella.
Rápido, ele se escondeu atrás de um grande móvel. Depois, passou a segui-la com cuidado para não ser notado. Ele estava tão apreensivo que não percebeu certa diferença no caminhar dela. Porém, notou que a Musa da Poesia conhecia muito bem o palacete, tanto que abriu de modo corriqueiro a porta de um quarto amplo e bem arejado, de paredes claras e com muitos livros de poesia em suas estantes.
"Ela deve vir muito aqui", Milo pensou e entrou no quarto assim que ela se dirigiu ao banheiro para tomar banho. Havia uma mesa próxima à uma das janelas do cômodo, e o escorpiano notou algumas fotos sobre ela. Viu, então, Adella ainda criança, na companhia de dois adultos e um menino mais velho.
_Ah, sim... – Milo se lembrou. – O Caos deu vidas terrenas às Musas para que esquecessem suas origens divinas. Esta deve ser a "família" dela.
O cavaleiro observou mais o quarto. Outras fotos estavam por lá, e algumas mostravam Adella e o estranho juntos em viagens pelo mundo. Ele segurou um dos porta-retratos e comparou ao menino da primeira foto, notando a semelhança.
_É a mesma pessoa – concluiu. – Será que ela e os lábios de uva são... Irmãos?
Ao pensar nisto, Milo sentiu um inesperado alívio. Ele, então, continuou a investigar o ambiente. Foi quando percebeu uma espécie de diário sobre a mesa. Tentou não bisbilhotar, porém, a sua curiosidade foi mais forte. A caligrafia nele era bastante bonita, assim como os versos escritos. Milo leu alguns, perdendo a noção do tempo. Era como se ele entrasse na mente, ou melhor, no coração de Adella.
_Quanta profundidade – ele elogiou. – "Te amo de uma maneira inexplicável, de uma forma inconfessável, de um modo contraditório" – leu baixo, imerso nas palavras.
Somente percebeu que Adella terminara o banho quando era tarde demais. Ao vê-la diante de si, usando um roupão felpudo e visivelmente surpresa, ele largou o diário sobre a mesa e disse:
_Eu posso explicar tudo. E não é o que parece.
Hotel Dorchester. Londres, Inglaterra.
Carros de luxo trafegavam pela Park Lane em direção à entrada privativa do Hotel Dorchester, conduzindo os convidados do Baile Beneficente Anual da Fundação GRAAD em Londres. Devidamente vestido para a ocasião e um tanto ansioso, Aioros observava tudo à procura de Anna, o seu par naquela noite.
_Por acaso cheguei cedo demais? – Ele se perguntou.
No entanto, para a seu alívio e alegria, Anna não tardou a descer de um dos carros. E ela estava simplesmente magnífica. Usava um vestido cor de esmeralda, o qual se adequava perfeitamente ao seu corpo esguio, e ostentava joias finas e caras. Aparentemente, a Musa da Eloquência procurava pelo cavaleiro de Sagitário, que sorria ao admirá-la de longe, abobalhado. No entanto, antes que pudesse caminhar até ela, ele sentiu algo caótico nas proximidades do hotel.
_Essa não – Aioros disse temendo pela segurança de todos ali. – Espero não me atrasar muito – ele desejou e seguiu a perturbação do Caos; mas sem falar com Anna antes.
Catedral Metropolitana de Atenas. Grécia.
Discretamente, Afrodite de Peixes observava a chegada dos amigos e familiares dos noivos. Divertia-se com as roupas de alguns, considerando-as como o cúmulo da cafonice, reprochava a falta de modos de outros, irritava-se com as crianças que corriam para lá e para cá, seguidas por pais igualmente barulhentos, e ria do apático noivo, o qual vestia um terno cinza extremamente sem graça. Mas, à medida que o tempo passava, o cavaleiro passou a se perguntar onde estaria a noiva.
_Será que aconteceu algo com Carrie, a Estranha? – Ele zombou.
No entanto, uma limusine virou a esquina, parando diante da catedral. A porta se abriu para a alegria dos convidados, porém... A noiva não desceu do veículo. O seu vestido era tão, tão volumoso que Dora simplesmente não conseguia sair.
_Alguém poderia – ela suspirou. – Ajudar?
Os convidados que estavam no interior da catedral saíram para ver o que acontecia. E os que ainda estavam do lado de fora cercaram a limusine para ajudar ou apenas observar.
_Ela engordou, não foi? – Uma das primas disse.
_Claro que não, Isolda! – Outra respondeu. – A Dora come feito passarinho!
Um dos tios falou:
_Calem a boca e ajudem a puxar!
_Sim, mas cuidado com o vestido, Agamenon! – Uma tia pediu.
Várias mãos puxavam os braços de Dora, que estava visivelmente constrangida. Outros, por sua vez, deram a volta, entraram na limusine e tentavam empurrá-la porta afora.
_Se ela entrou, vai ter que sair – um dos primos disse, fazendo força.
De repente, o barulho de tecido rasgando foi ouvido. Dora saiu do veículo, mas parte do vestido ficou. Inesperadamente, todos ficaram em silêncio por alguns segundos.
_Quem tem linha e agulha? – Alguém perguntou e Afrodite percebeu que ainda não poderia roubar a noiva.
Jules Heartlly, Revenge of Queen Anne e Arayan: obrigada pelos comentários. Espero postar mais capítulos em 2020. :)
