Pigmentos de Amor
Kaline Bogard
Capítulo 27
A cor que vem com o diálogo
Aburame Shino deixou o hospital e parou na calçada, respirando fundo por alguns segundos. Ainda estava digerindo todos os acontecimentos desde que Tsume ligou lhe avisando sobre o ocorrido na escola. Ficou assim, meio perdido, até Naruto sair também e acertar um tapa amigável no ombro do Alpha.
— Vai descansar, cara. Amanhã cedo eu venho pra ficar de companhia, relaxa que vai dar tudo certo.
— Quer uma carona?
— Não. Tem uma estação no próximo quarteirão. Chego mais rápido de metrô do que de carro! Valeu!
Naruto acenou em despedida e se afastou. Antes que saísse do lugar, Shino sentiu o celular vibrar no bolso. Era Tsume avisando sobre o arranjo com Naruto, para que não se preocupasse com o horário da manhã, Kiba não estaria sozinho.
Foi o sinal para que se libertasse da letargia. Seguiu rua abaixo até a lateral onde estacionou o carro. Tinha acabado de travar o cinto quando o aparelho telefônico vibrou de novo, dessa vez era Ino e a Alpha mal deu tempo de Shino começar a explicar a situação.
Tão logo soube que Kiba estava internado disse que encontraria com o amigo no apartamento para que pudessem conversar com calma. Não queria notícias assim, pelo telefone. Quando chegou em casa, Shino teve a confirmação de que Ino era uma grande amiga, ela o esperava com uma caixa de pizza e uma garrafa de vinho nas mãos.
— E é isso... — Shino terminou de contar os acontecimentos, sentindo-se exausto ao final. Estava sentado na poltrona, segurando uma taça com vinho tinto de aroma agradável.
— Mas os dois estão seguros, é o que importa. — Ino estava sentada no sofá, com uma taça gêmea na mão. A caixa de pizza aberta permanecia sobre a mesinha de centro, ainda que nenhum dos dois tivesse feito algo para degustá-la.
— Sim, Sakura quer antecipar o parto para prevenir um mal maior. Quanto mais o tempo passar, mais arriscado fica, principalmente para Kiba. — O rapaz recostou-se no sofá. A consternação minou em ondas e tocou o lado animal de Ino.
Alphas não eram bons em melhorar o ambiente tal qual Ômegas faziam, mas isso não os tornava indiferentes ao sofrimento alheio, muito menos de um amigo querido. Até criaturas territorialistas e de instinto mais agressivo podiam mostrar compaixão, justo por isso a parte animal de Ino respondeu com algum conforto, algo rústico, apenas um sinal de que compreendia a dor de Shino.
— Já pensou em procurar uma segunda opinião? — Ino questionou.
— Não. — O rapaz foi sincero. — Nenhum médico aceitou acompanhar do começo, porque parecia um caso complicado. Agora que se tornou mesmo um, não tenho ilusão nenhuma, mas creio que a Sakura-sensei está sendo uma boa médica.
Haruno Sakura vinha se mostrando precavida. Toda semana verificava a saúde de Kiba e do bebê. Tal postura foi o diferencial para que tivessem uma resposta rápida diante de tudo o que aconteceu. Já sabiam da degeneração corporal, logo a ação foi direto ao ponto.
— O moleque é forte. — Ino sorriu. — Vai sair dessa e vai ficar um nojo, querendo comida pra compensar.
— Me sinto culpado... — O Alpha não se animou pela brincadeira descontraída. — A única vez que deixei meu lado animal influenciar foi naquele dia, eu nunca devia ter feito sexo com Kiba sem camisinha.
— Se sente culpado? — Ino franziu as sobrancelhas. — Por quê? Você forçou alguma coisa? Seduziu ou induziu?
— Não, claro que não.
— Então não faça isso com você, nem com o Kiba. Sexo é uma decisão consensual entre duas pessoas, não existe erro nisso, mas tem responsabilidade, e é meio a meio. Você não é culpado por ser um Alpha! — A jovem soou irritada. — E Kiba não vale menos só porque é um Ômega, a vontade dele é tão importante quanto a sua e tem exatamente o mesmo peso.
Shino terminou a bebida em um gole e inclinou-se para servir-se outra vez.
— Não foi o que eu pensei. — A tensão de Shino diminuiu bastante depois do rompante da amiga. — Não é questão de Alpha e Ômega, sinto culpa pela diferença de idade, sou mais velho que Kiba, devia ter levado isso em consideração ao invés de ceder ao instinto.
A confissão fez Ino rir um pouco.
— Bom ponto... — Ela dobrou as pernas sobre o estofado, se ajeitando com mais conforto. — Adolescentes tem os hormônios em polvorosa. Se for colocar a questão da idade na balança serei obrigada a concordar, você não é tão mais velho do que ele, mas...
— Eu nunca vou diminuir ninguém por causa de casta.
— Sim, ser preconceituoso não combina com você, que situação de merda! — Ela suspirou. — Não sei o que dizer, só sei o que fazer, pode contar comigo pra ficar no hospital à tarde, pelo tempo que for necessário.
— Não posso pedir isso!
Ino desdenhou com um gesto de mão.
— Você não tá pedindo, eu to oferecendo, não faço porra nenhuma à tarde Shino. Você tem o estágio e as Inuzuka trabalham. Vocês são mais do que meus amigos, são minha família também, e não ouse agradecer! Senão eu termino esse vinho sozinha e a pizza também! Olha que eu trouxe quatro queijos, seu vegetariano sem coração, a ocasião pedia muito bacon e calabresa, sabia? — Ela saiu da posição apenas pela pegar uma fatia de pizza, logo voltando ao lugar.
Shino a imitou, mais por respeito ao gesto de amizade do que por sentir fome. A gratidão foi gritante, apesar de não vir em palavras. Depois ligaria para Tsume para avisar da oferta de Ino, isso os ajudaria a se organizar melhor nos dias que viriam. Queria dizer que seria uma atribulação breve, porém tudo indicava o contrário.
No outro dia, Naruto chegou ao hospital por volta das sete horas da manhã. Encontrou-se com Tsume no hall de entrada. A mulher explicou que Sakura-sensei veio com Tsunade-sama e pediu que ela desse privacidade para fazerem alguns exames. Kiba já estava no quarto particular, por isso podiam começar a rotina: o primeiro banho no leito e cuidados higiênicos, atos íntimos que deviam ser realizados em particular. Ainda que Tsume fosse mãe de Kiba, o jovem adolescente não queria que ela assistisse essas coisinhas constrangedoras. Apesar da noite tranquila o humor do Ômega não era dos melhores.
— Já tomou café? — Naruto perguntou.
— Ainda não.
— Então vamos comer e conversar! — Naruto indicou uma placa sinalizadora que levava até a cantina do hospital.
— Certo. O senhor vai me explicar direitinho essa sua história de largar o colégio.
O Beta concordou com um gesto de cabeça. Alguns minutos depois, conseguiram uma vaga entre as mesas, a maioria ocupada por parentes esperando notícias ou acompanhando algum ente querido. Naruto foi até o balcão e voltou com dois bento, entregando um para Tsume.
— Itadakimasu. — Agradeceram a comida antes de começar.
Ainda provaram o alimento em silêncio por alguns minutos, até o rapaz se pronunciar.
— Não vou largar o Colégio por causa do que aconteceu com o Kiba, eu deveria ter largado no começo do ano. — Revelou.
— O quê? — Tsume não esperava aquilo, interrompeu a refeição para encarar o garoto que considerava tanto quanto seu filho.
— Teuchi-san, meu patrão... Ele me ofereceu um emprego integral, disse que eu tenho uma boa mão na cozinha e quer me ensinar a ser um chef. Eu disse que aceitaria, mas pedi um tempo pra continuar indo ao colégio, sabe, ser um chef é o meu sonho! Quero aprender com Teuchi-san e abrir meu próprio restaurante de lamen, não preciso terminar a escola pra isso.
A mulher o analisou com atenção.
— Não desistiu antes por causa do Kiba?
Naruto balançou a cabeça assentindo. Se ele tivesse largado a escola antes, o Ômega teria debandado fácil, Kiba nunca foi muito fã de estudar. Era o jeito de Naruto incentivar para que Kiba se formasse e entrasse na faculdade, como bradava ser seu sonho.
— Eu não disse nada porque não queria que Kiba se sentisse responsável, agora é meio foda tudo isso. Não to feliz com o que aconteceu, mas... Sinto que tenho que agarrar a oportunidade! Vou trabalhar a partir da uma da tarde até às nove da noite, por isso posso ficar aqui todas as manhãs sem problemas.
Terminou a frase empolgada e enfiou generosas porções de arroz na boca. O sorriso não lhe abandonou o rosto em momento algum. Se havia uma palavra para descrevê-lo naquele instante, seria "entusiasmado".
— Naruto... Quero que meus três filhos se formem, tenham um bom emprego... — Tsume viu-se em um beco sem saída, metade do coração queria aceitar a oferta ao ver como o garoto estava feliz, a outra metade queria grudá-lo pela orelha e levá-lo de volta para a escola. — Não precisa apressar nada! Se já tinha combinado com seu chefe para ele esperar até o fim do terceiro ano, tudo bem, podemos ajeitar os horários para ficar com Kiba sem prejudicar você no colégio.
— Prioridades, lembra? Isso é menos pelo Kiba e mais por mim mesmo. Estou fazendo o que a senhora me ensinou, não é só uma desculpa pra matar aula, eu to dando um passo importante pro meu futuro! — Naruto desviou os olhos ponderando o que falar a seguir. — Faculdade não é garantia de nada, Tsume-kachan. Não me arrependo de ter adiado a decisão antes, mas sinto que vou me arrepender se abrir mão de novo. Por favor, aceita as minhas escolhas e não fica decepcionada comigo!
Tsume sorriu descartando a possibilidade.
— Você cresceu bastante, moleque. Imagino que pensou muito sobre o futuro.
— Desde que Teuchi-san me convidou, eu só penso nisso. Pesei os prós e os contras... Não to indo por impulso. — Nesse ponto ele voltou a encarar a mulher que considerava como mãe. — Sou muito grato, porque vocês me acolheram quando eu não tinha mais ninguém nesse mundo, só estou fazendo essa escolha porque é algo consciente, quero que sinta orgulho de mim!
— Eu só não sinto orgulho quando tenta invadir um banho público de Alphas, moleque!
Naruto riu alto, chamando a atenção de algumas pessoas, ali não era um lugar apropriado para demonstrações efusivas de bom humor e ele acabou se encolhendo um pouco, sem jeito.
— Ah, e esse é o último mês que eu vou precisar de mesada! A partir do mês que vem já vou ter meu salário integral do novo cargo. — Fisgou um pedaço de omelete e levou aos lábios, mastigando de leve. — Quero que a senhora e Hana-nee passem a dar essa mesada pro Shino e pro Kiba, eles vão precisar.
— Naruto...
— Só não abro mão dos bentos! Vou virar o melhor chef de Konoha, mas comida de mãe é comida de mãe!
Tsume não rebateu. Sentiu uma pontada de orgulho por ver o rapaz, que praticamente criou, tomar decisões e defender seu ponto de vista com argumentos maduros. Assim como sentiu uma pontada de dor por ceder tão fácil, estudar era importante, era algo que ela valorizava muito!
Todavia, Naruto tinha razão. Ele já tinha quase dezoito anos, estava tomando sua primeira decisão como jovem adulto da vida, era direito dele arriscar. Se estava certo ou errado, só o destino iria mostrar.
Notas Finais
Voltamos a programação normal
E fé em Deus que é sem mais hiatus dessa vez.
