Adam Warlock não foi colocado como o ultimo entre os seus alvos sem nenhuma razão, ele não é alguém em que suas estratégias e golpes de sorte funcionariam como aconteceu com todos os outros. Um homem que foi criado para ser " perfeito" e que acabou se tornando a provável obra mais incrível do povo que lhe deu origem, alguém com uma alma tão poderosa que nem mesmo Morte consegue se aproximar, cujo o nível de ameaça se igualou a de algumas das entidades mais essenciais para o universo. Ninguém em sã consciência o desafiaria esperando realmente vencer, isso deixou de ser algo possível a muito tempo. Quando ele surgiu pela primeira vez Thor o enfrentou e até pode mata-lo, mas isso foi muito antes dele passar por toda a evolução que o levou a se tornar o que é hoje e é possível arriscar dizer que apenas o próprio Adam possui poder o suficiente para se derrotar, afinal uma simples demonstração disso é o fato de que depois de se sentir mentalmente instável como uma consequência de seu período em posse da manopla do infinito e das seis joias Warlock se livrou dos seus pensamentos emocionais que se dividiam entre o bem e o mal e sem que ele soubesse, de maneira inconsciente, nesse momento de separação nasceram duas entidades diferentes e extraordinárias: Magus e Deusa. Mesmo com cinco das pedras do infinito em posse de Loki e Strange eles não podiam se permitir acreditar que venceriam.

Embora não pudessem ter certeza absoluta sobre o que as pedras estavam tentando mostrar ambos optaram por seguiram a intuição delas e com isso usando os poderes da joia do espaço eles foram levados até Heven, o lar dos anjos. O planeta certa vez fez parte da conquista de Odin, sendo caracterizado como o decimo reino de Asgard, mas depois que a Rainha dos Anjos supostamente matou a filha recém-nascida do pai de todos, Aldrif, seu povo foi condenado a receber a maldição da Força de Odin para os proibir para sempre de terem acesso ao universo além de seu próprio planeta, os ancorando profundamente no vazio. O feitiço foi tão poderoso que os Anjos conseguiram usufruir dele para se manterem vivos na prisão eterna e o utilizaram como o mecanismo para energizar seu mundo, porém com o Ragnarok e com a morte do rei tudo o que eles conseguiriam construir foi rebaixado à estaca zero, o que antes se tornou energia e vida para eles passou a ser uma magia instável e perigosa sem seu portador. Loki e Thor foram os responsáveis pela reabertura de uma passagem até Heven, mas somente agora foi possível para o jotun saber que aquele povo havia conseguido se salvar apesar de tudo.

A magia ilusionista do príncipe os escondeu da possível desconfiança que cairia sobre eles caso algum anjo notasse o quão diferente do resto do povo eles são e depois disto, misturados com a população local, tudo o que foi preciso fazer foi deixar que suas preciosas armas os guiassem livremente. Ambos possuíam a sensação de havia alguma coisa em algum lugar por perto estava gritando para ser encontrada. Utrimque estava chamando por seus irmãos.

A civilização foi ficando cada vez mais longe conforme eles se aproximavam do que vieram buscar, apenas algumas moradias continuavam no caminho em que percorriam e aos poucos a paisagem que antes lembrava uma Asgard arcaica foi desaparecendo para dar lugar a uma floresta densa, seca, com grandes arvores mortas e de aparência macabra. Não seria sábio entrar em um terreno tão carregado de magia antiga como aquele, Strange e Loki podiam sentir em suas peles que era exatamente naquele lugar que as almas dos mortos de Heven conseguiram refúgio depois que a passagem para Valhalla e para Hel foram bloqueadas, embora no momento não exista mais nada que impeça tais mortos de seguirem seu devido caminho é possível que eles já tenham desistido a muito tempo de tentarem partir dali.

O deus já estava familiarizado com a presença da magia negra e da morte, mas mesmo assim conforme adentravam por entre as arvores ele não conseguia evitar o desconforto e o arrepiar de seus pelos. Nunca se tornaria algo agradável ver almas passando a eternidade em sofrimento injustamente, mas graças ao seu histórico de envolvimento com coisas levemente mais terríveis não era um problema tão grande para ele ignorar as suplicas incompreensíveis e continuar apenas seguindo o seu caminho sem muitas interferências. Já para Sthepen as coisas eram muito diferentes, sua natureza humana se revelava frágil diante de tantos apelos simultâneos, o estomago dele se embrulhava e o enjoou aumentava a cada seguindo, mesmo que sua reação fosse muito mais resistente do que seria o esperado para qualquer um de sua espécie nada disso estava valendo muito em sua mente, seus pensamentos se tornavam incompreensíveis, seu corpo implorava para que ele fosse embora e nada conseguia fazer com que a sensação de perigo passasse. O mago queria ajudar, queria livrar as dores de cada um dos amargurados presos ali naquela floresta e ser incapaz disso o frustrava tanto que quase fazia com que seu corpo parasse complemente. As joias que ele carregava o forçavam a continuar indo enfrente, mas nem mesmo elas eram capazes de dar qualquer alivio tanto para ele quanto para aqueles que estavam ao redor das únicas coisas vivas em um raio de quilômetros, em particular porque eram o motivo exclusivo do mago reagir de tal forma e não conseguir lutar de uma melhor forma contra a interferência que recebia. O peso sobre seus ombros e a estranheza em relação ao seu próprio comportamento fizeram com que Strange quase atacasse Loki por conta do susto que levou quando sentiu a mão dele em seu braço.

- Você precisa respirar. - O príncipe disse tentando de alguma forma relaxa-lo. - Eu entendo que seja muito sensível a elas, mas está atraindo as formas mais cruéis para você mesmo com o seu descontrole. - O mago respondeu com um resmungo agoniado. - Se quer ajuda-los então vai ter que lutar contra esse impulso agora, depois que conseguirmos a joia da alma nós podemos mandar todos eles para o mundo dentro dela, isso não seria nenhum problema e os levaria para um lugar muito melhor.

Não deveria ser uma surpresa para o humano que pudesse reconhecer o brilho amarelo nos olhos do deus enquanto ele dizia tais palavras, ambos sabiam que as pedras eram armas traiçoeiras para qualquer portador, que moldavam quem as usasse como bem queriam, manipulavam suas ações e os enlouqueciam pouco a pouco, mas ele também sabia que elas evitavam trata-los da mesma forma apenas porque os consideravam aliados e apesar de tudo não queriam prejudica-los. A ideia de que cada uma das joias que estava portando poderia sim usá-lo como visivelmente já estavam fazendo com seu parceiro não era nada reconfortante, porém em seu íntimo não conseguia nem mesmo querer se opor a elas.

Obrigando-se (ou sendo obrigado por algo) a seguir o conselho que o outro lhe deu Stephen se esforçou a acalmar os próprios batimentos cardíacos e a normalizar a respiração. Os segundos extremamente desconfortáveis que seguiram durante este pequeno processo de recuperação poderiam tê-lo enlouquecido ainda mais, porém o príncipe usou da joia da mente para ajudá-lo a se manter estável, não que isso pudesse melhorar a sua condição, mas fazia com que ela não piorasse. Que lastimável, um o mestre das artes místicas se expondo desta forma diante do inimigo/aliado, Strange provavelmente sentiria vergonha de seu comportamento mais tarde por mais que não demonstre em nenhuma hipótese.

Seria tão mais simples se pudessem simplesmente manipular a realidade ou usar a joia do espaço para irem diretamente até Adam, mas optaram por não correrem um risco desnecessário e agora precisavam caminhar naquele grande tormento pelo que pareciam serem horas sem fim. Apesar de incomodo e levemente perturbador era uma experiencia um tanto melhor do que aparecerem em um plano conhecido pelo adversário e serem pegos desprevenidos. Conversas foram evitadas, ambos os cérebros trabalhavam com toda a concentração que conseguiam no que fariam assim que suas vidas fossem colocadas em xeque.

Haviam certas coisas em seus mínimos movimentos e seus pensamentos que não pertenciam a eles, a influência quase que imperceptível tomava conta das ações de ambos, mas mesmo que fosse algo arriscado ou de certa forma terrível esse era o preço que aceitaram pagar pelo poder que permitiria a eliminação da ameaça maior.

Eles se arrastaram naquele caminho perturbador pelo que pareceram horas e que provavelmente não passaram de minutos, mas eventualmente uma luz apareceu no horizonte e foi aumentando a medida em que caminhavam para frente ignorando as almas atormentadas que tentavam mantê-los para trás. A luz natural de pequenas plantas e insetos iluminava a clareira que se aproximava, chegar até ela foi como finalmente tomar uma boa lufada de ar fresco depois de passar muito tempo sem respirar.

Porém a sensação de alivio não durou muito tempo, na beira do desfiladeiro, a poucos metros de distância, era visível a presença daquele que precisariam roubar. Adam Warlock, o homem criado para ser perfeito, que ultrapassou as expectativas de todos e que se tornou a figura de um ser inalcançável, imbatível e invencível. O tempo até serem notados não demoraria a se esgotar, a agitação das joias era bem perceptível e quase podiam ouvi-las dizendo que sua irmã não estava com o inimigo, mas estava sim em algum lugar por ali e necessitavam mais do que tudo encontrá-la. Loki e Stephen trocaram um olhar com compreendimento mutuo, não era difícil adivinhar quem seria o foco da justiça do adversário quando se enfrentassem afinal o príncipe não era exatamente alguém bem visto na maioria dos planetas, por isso será ele quem encontrará a pedra enquanto o mago rouba a atenção de Adam.

Compartilharam um sorriso de lado como se dissessem "boa sorte" e então o deus desapareceu de sua vista, apenas uma fração de segundos antes do Warlock deixar de encarar as estrelas e virar o seu rosto minimamente dando reconhecimento a presença do invasor. Strange não se mexeu, forçou cada um de seus sentidos a permanecerem muito atentos, ficando pronto para reagir a qualquer sinal de um primeiro movimento vindo de seu inimigo, não contava com a interferência do parceiro para nada mesmo que soubesse que ele apareceria para recuperar as joias em seu corpo caso morresse, estava sozinho contra uma das mais poderosas criaturas do universo. Sob o olhar atento do homem ele ergueu uma das mãos fazendo movimentos já tão conhecidos por si para iniciar um novo ciclo, Adam não tentou impedi-lo.

- Quando eu soube que você estava reunindo as gemas, roubando meus companheiros e conspirando com o deus da trapaça juro que não acreditei. - Ele se levantou e caminhou a passos lentos na direção de seu desafiante. - Teria Doutor Estranho, o protetor da realidade e mestre das artes místicas cedido a tentação sobre a cobiça pelo poder? - Seus olhos pareciam ver além de sua pele, para dentro de si. - Ou está sendo manipulado por algo maior?

- Não sou nenhum tolo, tenho a leve impressão que saberia se alguém estivesse me levando a fazer qualquer coisa contra a minha vontade. - A magia se formou em suas mãos marcadas, a posição de combate surgiu com naturalidade.

- Então afirma que seu ego o levou a estar aqui neste momento, junto do rato que tenta encontrar seu tesouro? - Não havia agressividade em sua postura, mas sim determinação. - E, no entanto, eu continuo a discordar justamente por conhecer os seres malignos que você deixou possuir o seu corpo. Elas estão usando o seu bom senso, Stephen. - Em um momento Adam continuava a metros de distância e no outro a respiração em seu ombro fez com que se afastasse bruscamente como instinto, tentando se defender de um ataque que nunca veio. - Olhe só para si mesmo e como está agindo... - Havia pena em sua voz. - Você é um mago que está ao meu patamar, mas elas confundem seus sentidos e bagunçam a sua mente, fazendo com que fuja como se não conseguisse me enfrentar.

- Ninguém aqui está fugindo.

A primeira vez que Strange teve a real dimensão de como as pedras diferentes que carregava ampliavam seus poderes naturais foi quando tomou a realidade como algo palpável e a usou contra o homem que tentava intimida-lo, diferente do que fazia antes tudo lhe pareceu tão simples e fácil, muito mais fascinante e incrível, ele se tornou mais consciente de seu próprio poder do que sempre foi. Warlock não se abalou quando o mundo caiu sobre ele, pelo contrário, como também possuía plenos dons da manipulação da realidade ele pode reverter o ataque ao seu ponto de vista descontrolado e colocá-lo contra aquele que ainda não dominava a imensidão do que pode fazer.

- Um sacrifício sempre é necessário para conseguir o que quer e o homem que você diz ser não é capaz de amar nada suficientemente para dar em troca do poder. - Adam tratava seu confronto como uma brincadeira e desejava arrancar o mal imposto em seu adversário pela raiz.

Poder brilhou com o conjunto de feitiços e contrafeitiços lançados pelo mago e repelidos prontamente pelo outro, o patamar fora dos costumes de Sthepen fazia com que sua precisão diminuísse e seus ataques falhassem apesar de continuarem letais, por outro lado Ele focalizava em encontrar uma forma de erradicar a matéria maligna energizada no corpo do protetor da realidade, seu senso de justiça o impedia de feri-lo gravemente enquanto continuasse a acreditar que seu adversário não estava agindo em sã consciência. O chão a muito tempo deixou de coexistir com a manifestação do poder de ambos os homens, foi destruído e posto de lado quando a luta se elevou para o ar, agora nos céus eles se enfrentavam distorcendo a naturalidade da vida e manipulando a energia na inútil tentativa de encerar o que pode levar um deles a sua ruina.

Invisível aos olhos daqueles que elevavam o confronto a proporções gigantescas Loki encarava o fundo obscuro do vale que dividia o refúgio das almas com uma parte habitável do planeta, em sua mente só um pensamento dominava: é preciso sacrificar quem ele mais ama. As joias acopladas a manopla, que foi perfeitamente criada por um pensamento seu comandando a armadura em seu organismo, vibravam em excitação por saberem que a última de suas semelhantes estava tão perto de ser alcançada e tão próxima de se unir a eles, bastava apenas que conseguisse dar o próximo passo.

Com poderia ele deixar que um bem precioso como aquilo que mais amava fosse jogado fora? Como poderia continuar sem algo tão magnifico consigo? Estava começando a desejar abandonar a caçada pela joia da alma e deixar Strange consegui-la sem a sua ajuda, que fosse ele o que perderia o que lhe fosse mais importante para obtê-la! Mas ao mesmo tempo não conseguia deixar de cobiçar o universo que se abriria para si se conseguisse reunir as sete pedras como nenhum outro fez, tudo e todos seriam colocados a sua mercê, ninguém jamais conseguiria se opor a si além daquele que está acima de todos. Seu corpo reagia desejoso com a perspectiva de tudo o que estava prestes a conseguir, sua boca chegava a salivar e a literalmente um passo estava tudo o que sempre sonhou em conseguir. Dando sua última lufada de ar o príncipe tomou sua decisão.

"Palhaço, se o que eu vou fazer der errado sinta-se responsável por terminar isso e desfazer as minhas ações." - O aviso veio na mente do mago e lhe deu apenas uma fração de segundos para olhar na direção que sentiu estar o parceiro e assistir quando ele andou para frente e se jogou no abismo, sacrificando aquele que mais amava. Sua distração lhe rendeu um golpe no estomago que danificou sua estrutura magica e o arremessou contra o chão sem que tivesse tempo de altera-lo para qualquer coisa menos propensa a feri-lo. Esperava profundamente que o jotun não falhasse, não tinha certeza de que seria capaz de resistir por muito tempo.

(...)

Não se podia dizer o que era pior, olhar para Lin Stark presa em uma cela desenvolvida para ameaças em potencial, saber que foi Thor quem fez o ferimento que deixou mais uma imensa cicatriz na coleção dela ou aguentar o maldito sorrisinho no rosto da garota. Pepper definitivamente não estava tento um bom dia, ela acordou de manhã decidida a tirar merecidas férias para planejar outra viagem que traria mais alegria para aquela que recentemente acolheu como sua filha e quando estava indo se deitar recebeu a notícia de que a dita mulher era a responsável por uma série de ataques em todo o mundo, por aplicar artefatos místicos ameaçadores em pontos espalhados pelo globo, deixar ilusões de si mesma diante das câmeras enquanto usava a imagem de seu suposto amigo para vagar por onde quisesse, além de utilizar o modo furtivo que lhe foi confiado para que ninguém conseguisse rastreá-la enquanto voasse com sua armadura até outro continente onde cometeria novos delitos.

A ruiva nem mesmo possuía autorização para falar com ela, não que fosse capaz de dizer qualquer coisa caso tal dialogo pudesse acontecer, mas era frustrante apenas poder vê-la sendo tratada como um mostro enjaulado sendo pronto para o abate sem conseguir fazer absolutamente nada ou conseguir entender os motivos da mais nova ter feito tais atrocidades. As câmeras que lhe mostravam o lugar em que garota estava não deixavam que conseguisse ver muita coisa, mas só o fato de ter sido Carol Danvers a escolhida para vigia-la dizia o quão temerosas as pessoas estavam em relação a ela.

O julgamento estava cada vez mais próximo, embora não fosse uma atitude muito inteligente tentar submeter alguém como a Stark a lei dos homens era isso o que todos precisavam ver para se sentirem seguros, ela afinal se tornou uma figura pública muito admirada no tempo que passou como heroína e o povo não queria aceitar que uma das filhas do Homem de Ferro era a culpada de tudo o que havia sido divulgado que ela fez. Pepper realmente queria ter esperanças de que tudo aquilo era apenas mais uma mentira.

Mudando para a perspectiva daquela que vigiava a menina marcada, a Capitã Marvel, era possível se admitir que uma certa curiosidade havia despertado em Carol com relação a supostamente frágil e genial criadora de um projeto que salvou a vida de milhões de pessoas enquanto com suas próprias mãos destruiu a mente de outras de centenas e matou dezenas. Quando colocou seus olhos nela pela primeira vez desde que foi chamada para evitar que Lin ousasse tentar fugir a primeira coisa que percebeu era o quão diferente ela estava em relação à última vez que teve qualquer contato com a imagem dela, não era como se de menina fraca e desnutrida ela tivesse passado para uma pessoa saudável com a devida moral da adulta que merecia, o que enxergava era muito maior, ela nem mesmo parecia uma humana. Seus braços e pernas se alongaram, seu rosto se definiu em uma perigosa divindade e seu olho castanho se clareou de tal forma que agora quase era tão dourado quanto o outro, não sabia se essa sempre foi a aparência original por trás da farsa ou se ela estava se transformando em algo muito mais ameaçador do que era quando cometeram o erro de liberta-la de seu cativeiro.

- Todos estão lhe acusando por crimes imperdoáveis neste planeta, não vai tentar se defender? - Danvers perguntou querendo observar qual seria a reação da garota ao seu intrometimento.

- Alguém seria burro o bastante para acreditar no que eu posso dizer? - o olhar dela se desviou do lugar onde estava a câmera teoricamente escondida que transmitia tudo o que estavam fazendo para as pessoas responsáveis pela segurança que a mantinha presa. - Então talvez eu deva pensar em alguma coisa e impressionar os cordeirinhos fazendo-os crer na minha tão certa inocência.

- Não é isso que está fazendo desde que chegou? Manipulando as pessoas para que acreditassem na frágil, brilhante e gentil Lin Stark? - ela devolveu o sorriso falso que recebia da prisioneira.

- Não é culpa minha se vocês humanos acreditam tão facilmente naquilo que querem ver. Uns precisavam pensar que eu era desequilibrada e traumatizada por anos horríveis de tortura para me aceitarem e desejarem me proteger, outros queriam que a figura de Tony Stark reaparecesse para voltarem a acreditar que os heróis têm total controle da situação, eu dei cada uma dessas coisas a todos eles sem muito esforço.

- E então todos acreditaram nas suas mentiras enquanto uma mulher forte, maligna e trapaceira se escondia por trás de um rosto marcado. - A capitã concluiu ganhando um olhar de satisfação em resposta.

- Você não é tão idiota quanto estava parecendo. Eles esperam fragilidade em uma mulher, esperam que ela encontre o seu príncipe encantado e que passe a depender dele depois de ser tirada de sua torre, querem que seu corpo seja perfeito como o de uma jovem donzela e mesmo que nem todas possam fazer uma mágica para resolver os seus "defeitos" esse padrão não vai parar de se repetir, quando seu passado for cruel ou diferente demais para te dar um rostinho bonito, para ser o que eles tratam como normal, ou para não se importar com o tratamento que lhe é imposto não há problema! Com certeza os olhares de pena, medo, repudio ou zombaria vão ser muito bem-vindos e o comportamento "cuidadoso" vai ser muito bem aceito. - A ironia e sarcasmo transbordavam no tom de voz dela, mas a outra não conseguiu sentir raiva. - Eu literalmente estou em liberdade a menos de um ano e não tive nenhuma razão para deixar de sentir nojo da humanidade mesmo que meu contato com ela tenha mudado bastante de perspectiva. Só precisei agir como era o esperado e todos acreditaram em mim.

- Matou e hospitalizou todas aquelas pessoas por um julgamento baseado nas suas experiências ruins? Não nego que muitos de nós conseguem ser desprezíveis na maior parte do tempo, mas agir desta forma não te torna melhor que eles. - Era a primeira vez que conversavam, não desejava ultrapassar nenhuma barreira desnecessária.

- Diga-me Carol, acha que eu consegui minhas cicatrizes por gostar de me machucar? - Lin com um sorriso insano brincando em seus lábios socou o material transparente que a mantinha presa e que muitos chamariam de vidro mesmo que estivesse longe de ser algo tão facilmente destruído. - Não, foi porque humanos gostavam da ideia de brincar com uma criança e de escravizar uma mente genial. Eu posso ser um monstro como eles, mas sou resultado do que eles fizeram, não das minhas escolhas. - Seu punho cerrou com mais força. - Não matei inocentes, eu matei pessoas que levantaram armas contra mim e quebrei alguns daqueles que me tornaram essa criatura linda de se ver.

- Você teve a chance de se recuperar, de conseguir uma vida melhor com pessoas que se importam e escolheu vingança. É a sua vez de me dizer, sem suas mentiras e seu deus Loki o que resta?

- Uma gênia, feiticeira, deusa e o aquela que aparecerá nos seus pesadelos.

- Deve ser mais convencida do que eu imaginei se acha que consegue me amedrontar. - A capitã de certa forma até achava graça do comportamento da mais nova.

- Eu? Não, claro que não posso te assustar, não agora. - Sua expressão subitamente mudou para algo quase melancólico. - Mas você não vai conseguir se esquecer de mim quando a merda começar a acontecer.

O momento estranho se dissipou quando outras pessoas começaram a entrar no cômodo, prontas para servirem de enfeite enquanto Carol escoltava a prisioneira até o auditório em que o ocorrerá o julgamento. Por ver a mulher como uma perturbada apesar de tudo a Capitã não atribuiu importância ou qualquer outro significado as palavras dela, apenas a seguiu de perto enquanto saiam do lugar em que ela podia ser contida mais facilmente e se digeriam para onde ela seria exposta diante da lei sem receber qualquer credito positivo por seus feitos, afinal um assassínio cruel não deixa de ser o que é por suas supostas razões ou motivações.

O caminho até o tribunal foi silencioso, Lin apenas olhava para o chão com o cenho franzido como se sua cabeça latejasse dolorosamente e parecia alheia ao ambiente ao redor, não demonstrou nenhum comportamento diferente quando de fato chegaram ao lugar que definiria sua sentença. Houve um murmúrio surpreso quando as pessoas viram ela como realmente era, sem nada da beleza extraordinária ou da semelhança gritante com o pai e Carol viu quando homens se encolheram em seus acentos por medo em relação a sua aparência grotesca, ela sentiu raiva por estarem tratando-a com tamanha repulsão somente por ter se exposto.

Foi preciso que se afastasse da mais nova para que o julgamento pudesse começar, mas permaneceu a uma distância suficientemente segura para interferir caso ela tentasse qualquer coisa. Observando-a melhor viu que a Stark se encolhia onde estava, mantendo os olhos fechados como se de fato estivesse apavorada, um comportamento que quis acreditar ser mentiroso e que a confundia por tamanho realismo.

- Linna Mary Stark pelos crimes de assassinato e tortura hedionda foi trazida diante desta corte para responder por suas ações. Você nega sua culpa, pequenina?

A princípio ninguém entendeu o súbito choque que tomou conta do rosto e paralisou o corpo da acusada, muito menos quando ela começou a tremer e a encarar o nada com os olhos arregalados. O que quer que fosse ela não estava fingindo desta vez, ou até mesmo nas outras já que somente agora a Capitã presenciava tal comportamento de fragilidade pessoalmente e conseguia sentir o pavor nas agitações involuntárias do poder dela, começava a compreender que por mais que os humanos se assustassem com ela não eram eles quem estavam entrando em pânico por sua presença e sim o contrário. Todos os acusadores, testemunhas e agentes da lei a encravam esperando por uma resposta ou por uma reação, mas não esperavam exatamente pelo que veio a seguir: Lin se forçou a rir e riu como se estivesse surtando.

- De todos os juízes no mundo foi você quem escolheram para me julgar. - Os olhos brilhando em dourado se levantaram lentamente até pararem ao se encontrarem com os do homem que lhe dirigiu a palavra. - O universo deve odiá-lo tanto quanto eu.

O murmúrio só aumentou com humanos especulando sobre como ela o conhecia e Carol sentiu sua garganta se comprimir em tristeza ao compreender o que estava acontecendo. Todas as figuras públicas que a mulher atacou de acordo com ela foram pessoas que contribuíram com as cicatrizes em seu corpo, mas ela nunca disse que havia destruído todos aqueles que lhe fizeram mal. De repente todo aquele julgamento para fazer os civis se sentirem seguros se tornou algo em vão sem nem ao menos ter realmente começado.

- Devo alerta-la para que se controle, pequenina, não é recomendável que faça coisas que só irão piorar a sua situação. - O homem obviamente havia notado que ela estava se enfurecendo e sabia que se ela entrasse em modo Hulk sua punição seria muito pior, assim como a presença da Capitã fazia com que ele se sentisse seguro o suficiente para provoca-la através de suas palavras gentis sem que alguém pudesse notar. Ele sabia o que aqueles que estavam hospitalizados fizeram a ela, mas não via nenhuma ameaça para si enquanto a Stark continuasse acorrentada e a Vingadora continuasse a protege-lo.

Lin mudou de forma tão brusca quanto no momento em que sua melancolia havia aparecido, ela voltou a se parecer com a figura poderosa e maligna que foi mostrada anteriormente, corrigiu sua postura e encarou o homem com a arrogância que lhe era característica. Nos segundos em que um sorriso apareceu em seu rosto todos exceto Davers e o juiz berraram de susto, pavor e até mesmo dor.

- Você não pensou que eu continuava a ser a mesma criança que você violou, não é? - Os olhares daqueles que gritavam se voltaram para o juiz horrorizados. Carol deu um passo afrente com seus instintos gritando que ela faria alguma coisa.

- O que é que você está tentando fazer, pequenina? - Ele se levantou recuando, assustado com as expressões de todos ao seu redor. - Você acredita mesmo que consegue fazer alguma coisa grandiosa acorrentada e sem a sua armadura aí onde está?

- Eu me livrei das correntes a umas seis horas. - O que a prendia se desfez em uma ilusão. - E estou apenas expondo aos seus amigos algumas memorias minhas em que você está se divertindo bastante. - Ela deu uma risadinha loucamente alegre abrindo os braços. - Você só poupou o meu trabalho de procura-lo aparecendo aqui tão confiante.

A Capitã agiu quando alguns pontos do corpo da acusada brilharam e sua armadura começou a se formar a partir de partículas minúsculas em seu organismo, mas foi tarde demais até mesmo para ela. Sua mão fechada em punho a acertaria e colocaria um fim no conflito antes que ele se intensificasse, Carol só não contava que Lin seria capaz de parar o golpe com uma de suas próprias mãos e devolve-lo com igual intensidade em seu rosto. Ninguém acreditaria que em algumas semanas ela havia evoluído para chegar ao nível de uma das mais fortes entre os vingadores, porém foi exatamente isso que aconteceu.

As pessoas haviam passado novamente para o lado da Garota de Ferro quando ela mostrou a eles parte do seu passado e agora seguravam o abusador para que ele não conseguisse escapar da punição que ela o daria. Entretanto havia algo errado, quando Davers se aproximou dela pela primeira vez tanto tempo atrás na festa que a apresentou como filha de Tony Stark não sentiu nela a mesma assinatura de poder que sentia agora, mas o pior é que também conhecia aquele poder antigo e obscuro, era o mesmo que sentiu quando encontrou os restos de uma antiga civilização com Jane Fost, um terror de eras passadas que a motivou a procurar por mais informações a respeito.

- Ele é um de vocês, façam o que acharem justo. - A voz eletrônica soou como uma ordem para os humanos que tomaram a dor dela para eles.

Carol depois de tantos anos se sentiu perdida, conseguia capitar cada vibração do poder dela causando em si estímulos de perigo, seu próprio poder respondia com submissão como se reconhecesse a superioridade da outra. Mas sua consciência se negava a admitir uma derrota sem nem ao menos tê-la de fato enfrentado, se aquela mulher guardasse dentro de si quem ela pensava estar ali todo o universo está correndo perigo.

- Você possuiu Ego... - ela sussurrou mais para si mesma.

- Eu lhe disse que você aprenderia a me temer quando a merda começasse a acontecer. - A voz dela soou em um timbre diferente dentro de sua própria cabeça e armadura com seus jatos de propulsão levantou voou, ela fugiria e desapareceria antes que qualquer um tivesse a chance de para-la.

A Capitã não deixou que isso acontecesse, energizou todo o seu corpo e a seguiu de perto, atravessando cada camada de chão recém destruído para que pudessem sair do sobsolo, ouvindo ao fundo os gritos do juiz e indo de volta para a superfície com toda a suposta segurança da instalação sendo quebrada facilmente diante da força emitida pela armadura cujo mesmo sendo semelhante aos modelos do Homem de Ferro possuía uma tecnologia completamente nova aos olhos de Carol.

Lin não parou ou se mostrou minimamente incomodada com a perseguição de sua "companheira de equipe", ela seguiu pela cidade como se nem ao menos pudesse vê-la e continuou voando em alta velocidade sem um rumo aparente ou um desejo de parar. Apenas quando chegaram aos arredores do Monte Apo, nas Filipinas, ela diminuiu sua velocidade a quase zero e desceu novamente em direção ao solo, pousando suavemente e desfazendo sua armadura como se não estivesse sob a atenção de uma das únicas pessoas no planeta fortes o suficiente para apresentarem riscos ao seu plano. Suas roupas haviam mudado para o traje asgardiano que usava normalmente em suas batalhas.

Os olhos dourados encararam a outra mulher quase curiosos com o que ela faria em seguida, mas não deu o primeiro passo que indicasse o que planejava fazer ou fez qualquer coisa que provocasse uma reação violenta. Ela apenas mantinha uma expressão contente como a de uma criança que obtinha sucesso em sua brincadeira.

- Você quis ser presa, deixou que Thor a flagrasse e a trouxesse exposta como uma vilã até nós, mas não conseguiu nada com isso além de evidenciar para mim o que esconde em seu corpo. Por que está fazendo isso, Linna? Colocar o mundo contra você faz parte de seus planos sem sentido?

- O deus que vocês tanto desprezam não está aqui para ajudar, portanto o que te faz achar que está falando com Linna Stark? - Se a conhecesse melhor saberia que até a forma como ela se mantinha ereta estava errada. - E além do mais eu consegui exatamente o que queria quando comecei cometer crimes no ponto de vista humano.

- Vai me dizer o que seria isso antes ou depois deu arrancar essa expressão satisfeita do seu rosto?

A erguida de uma mão foi a sua primeira resposta e o chão veio de encontro a Capitã sem que ela pudesse evitar, uma força brutal a manteve parada, momentaneamente sendo comprimida de forma quase insuportável contra o solo, por alguns segundos Carol se sentiu incapaz de mexer um único musculo, respirar ou o principal: reagir.

- Eu consegui que você estivesse aqui, agora, sozinha e sem perspectiva de socorro. - A insanidade estava em seu rosto mais uma vez, ela não precisava fazer nada para imobilizar a outra além de continuar a tencionar o musculo de sua mão. - Por que alguém viria ajudar a mais forte Vingadora quando esta está apenas combatendo uma única inimiga com problemas mentais?

Aquela era a verdade, ninguém apareceria para impedir que fosse aniquilada por aquela que carregava o Original dentro de si. Ninguém além da própria Danvers possuía qualquer chance contra ele e todos estariam em perigo se se permitisse perder hoje, então era a hora de se forçar a levantar outra vez.