Pigmentos de Amor

Kaline Bogard

Capítulo 28
A cor que envolve dignidade

Naruto e Tsume voltaram juntos para o quarto. Um simpático enfermeiro Beta terminava de ajeitar o garoto na cama, em seguida despediu-se e saiu do local.

— Vou trabalhar agora. — Tsume aproximou-se do filho e depositou um beijo sobre os cabelos castanhos. Nunca foi de demonstrações de carinho, todavia a situação a fazia mais propensa a baixar as barreiras. — Naruto vai ficar com você pela manhã, a tal de Ino vem à tarde e o seu companheiro fica à noite. Hana deve passar por aqui também, comporte-se!

— Sim, senhora. — A resposta veio sem muita eloquência.

Tão logo Tsume foi embora, Naruto sentou-se na cadeira ao lado da cama.

— E aí, cara? Tá tudo bem?

Kiba, que estava encarando a porta fechada, virou-se para o amigo estreitando os olhos.

— Tudo bem um caralho, não bastava ter que mijar nessa porra de caninho ainda me vieram com algo pior! — Resmungou.

Naruto sentiu a curiosidade queimar-lhe as entranhas.

— Que coisa pior?

— Um negócio chamado "comadre"! — Kiba sentiu o rosto esquentar, acabou colocando o antebraço sobre os olhos para disfarçar o constrangimento. — Perdi até a vontade de cagar. Quando a Sakura vier aqui vou chorar um pouco e ver se consigo que alguém me leve até o banheiro, não posso fazer esforço, mas acho que se me ajudarem não tem tanto problema.

Naruto nunca tinha ouvido falar naquele procedimento antes (ele deduziu que fosse algum tipo de procedimento).

— Quer tentar agora? Posso te ajudar.

— Não... — Kiba respondeu e levou às duas mãos para acariciar a barriga, passando os dedos com cuidado por sobre o lençol que o cobria. — Antes preciso confirmar com a Sakura, é orientação pro bem da bebê. Prefiro perder a dignidade a arriscar fazer mal pra ela.

O Beta sorriu compreendendo o ponto.

— Falando sério Kiba, como você tá? Ontem foi tão corrido, o susto que eu levei quando Neji-senpai chegou na sala... Caralho!

Os dois amigos já tinham conversado sobre o dia anterior. Kiba chegou a contar sobre o mal estar, o "acidente" nas escadas e a ajuda do veterano.

— Passei bem à noite, só esse cansaço estranho que tá me fodendo, cada perna parece que pesa uma tonelada! Hoje fiz mais exames, a Hokage esteve aqui... Me sinto um rato de laboratório! A comida também é boa, sabe? Me deram um jantar caprichado ontem, comi demais! Hoje eu fui mais humilde no café da manhã pra não encher demais o estômago.

Naruto riu. Nunca imaginou que seu irmão do coração teria prudência em comer devido às "restrições" na hora de ir ao banheiro.

— Fico mais tranquilo em saber disso. Internação é foda cara, mas pelo menos se algo acontecer vão poder ajudar rapidinho, isso faz toda a diferença.

Kiba sorriu pequeno, então franziu as sobrancelhas e encarou o Beta:

— Você faltou na aula?

Antes de responder Naruto ajeitou-se na cadeira.

— Faltei. — Respirou fundo sem parar de sorrir. — Kiba, não vou voltar pro colégio por um tempo.

— Porra! Não vai perder o ano por minha culpa, ficar aqui no hospital não é tão ruim assim, tem televisão, o quarto é aquecido, até agora o pessoal tá sendo bem legal comigo.

— Ah, eu só tava indo na escola porque era divertido tocar o terror com você por lá. Teuchi-san me fez uma oferta incrível: ele vai me dar um emprego em tempo integral como cozinheiro.

O rosto do Ômega se iluminou de alegria, para em seguida tornar-se meio desconfiado.

— E ele ofereceu isso assim? Por coincidência com a minha internação?

— Não, né? Ele me ofereceu isso nas férias de verão do ano passado. Daí negociei pra aceitar depois da formatura. — Explicou em poucas palavras toda a situação, o que o motivou a adiar e porque resolveu investir na segunda chance.

Kiba ouviu em silêncio, compreendendo o ponto. Era preciso coragem para fazer uma escolha dessas, mudar o investimento no futuro de modo tão drástico. A faculdade era uma vantagem enorme, mas ser ensinado por alguém como Teuchi era igualmente vantajoso para o sonho de Naruto.

— O que posso dizer? — Kiba ajeitou-se melhor na cama. — O colégio sem mim deve ser um porre mesmo.

E foi assim que ele aceitou a decisão de Uzumaki Naruto. Sem críticas ou julgamentos. Não era a ideia infantil de invadir um banho público restrito a Alphas ou comprar camisinhas escondido, eram livres para decidir o próprio destino, tendo que lidar com as consequências de qualquer forma. Se Naruto acreditava dar o passo certeiro em seu futuro, então Kiba o apoiaria.

A manhã passou morosa. A dupla dividiu o tempo entre jogar conversa fora e as longas cochiladas que Kiba dava, essa última parte preocupando um pouco Naruto. Sabia que o outro passou bem a noite, apesar disso a aparência pálida não melhorara em nada e tal lividez parecia inerente à essência Ômega, que nem de longe trazia a animação usual do garoto. E foi por volta da hora do almoço, quando o enfermeiro fazia uma ronda de verificação que Inuzuka Kiba se deu por vencido.

— Como se sente? — O homem perguntou com o prontuário na mão.

— Eu... Eu preciso ir ao banheiro, não aguento mais... — Confessou.

Receio fluiu pelo cômodo, algo que nem precisava do toque sobrenatural para ser percebido. O enfermeiro lançou um olhar significativo para Naruto, foi o bastante para ele entender o sinal silencioso e sair do quarto.

— Isso é meio constrangedor... — Kiba sentia o rosto esquentar e o coração disparar. De repente ali era o último lugar da face da Terra em que queria estar, nunca sentiu tanta falta de casa antes.

— Uns dez anos atrás eu sofri um acidente de moto. — O enfermeiro contou enquanto ia até o banheiro conjugado ao quarto. — Quebrei alguns ossos, muitos ossos, eu sei como você se sente Inuzuka-kun.

Kiba ficou quieto, assimilando a informação. O enfermeiro retornou com um objeto na mão e retomou a história:

— Na época eu queria ser advogado, como pode imaginar meus planos sofreram um atraso de alguns anos. No fim preferi me tornar enfermeiro para ajudar as pessoas. — Sorriu. — Quero tratar meus pacientes com o mesmo cuidado e respeito que me trataram.

O garoto sentiu os olhos arderem, de alguma forma a calma do homem o contagiou. Não do jeito que os Ômegas equilibram ambientes conturbados, apenas um tratamento que o fez se sentir humano.

— Ah, esses hormônios são foda... — Desconversou.

— Sim, são sim, quando se sentir pronto me diga.

Kiba riu:

— To pronto, mais pronto do que isso e eu sujo as calças!

O enfermeiro pareceu satisfeito com o bom-humor voltando. Aproveitou a melhoria no clima para começar o procedimento.

Naruto esperava do lado de fora do quarto quando uma Alpha de longos cabelos loiros se aproximou, elegante mesmo com uma sacola de papel na mão. Não a conhecia pessoalmente, mas Kiba já tinha falado o bastante sobre a mulher para saber que se tratava de Ino.

— Yo! — Cumprimentou baixinho. — Sou Uzumaki Naruto.

Ino ergueu as duas sobrancelhas. Também reconheceu o Beta, graças às descrições detalhadas que Kiba fazia.

— Olá! — Reverenciou muito de leve com a cabeça, usando o mesmo tom de voz. — Yamanaka Ino. Como ele está?

— Passou bem à noite. Estão fazendo um procedimento, por isso tive que sair do quarto.

— Entendi. Vim ficar aqui durante a tarde, se quiser ir, está liberado.

Naruto hesitou um pouco, ainda tinha tempo antes de ir para o arubaito. Queria se despedir do amigo, mas não sabia quão complicado era o que estava acontecendo no quarto. Enquanto ponderava tentou captar o clima. Ômegas não conseguiam esconder picos de humor contundentes e Kiba era um dos mais expressivos. Como não sentiu nada de ruim tingindo o ambiente, decidiu que não havia problema em ir embora.

— Beleza. Diz pra ele que amanhã cedo eu estou de volta! — Falou em guisa de despedida antes de seguir pelo corredor.

Ino ficou esperando algum tempo, até o enfermeiro sair pela porta e sorrir ao notá-la ali.

— Você veio ficar com Inuzuka-kun?

— Sim. Sou Yamanaka Ino.

— Pode entrar, deu tudo certo. Se precisarem de alguma coisa é só apertar o botão ao lado do leito.

— Obrigada. — Reverenciou de leve antes de adentrar o aposento. Logo notou Kiba deitado com uma expressão indecifrável na face, as mãos acariciavam a barriga em movimentos um tanto lentos. Alguma coisa naquela imagem lhe partiu o coração. — E aí, cara de cachorro? Como se sente?

— Mais leve... — A resposta enigmática intrigou Ino, principalmente porque o Ômega desviou os olhos para a grande janela. — Quero ir pra casa!

— Ir pra casa ainda não dá. — Levantou a sacola de papel. — Mas talvez isso te anime.

Tirou uma embalagem plástica com um pedaço de torta de morango. Antes de comprar havia confirmado com Shino sobre alguma restrição alimentar, por sorte Kiba podia comer normalmente. Trouxe aquilo para a sobremesa, todavia mudou de ideia e fez a oferta antes de a refeição chegar. A visão do doce fez os olhos selvagens brilhar.

— Me ajuda a sentar! — Pediu num tom de ordem que fez Ino torcer o nariz. Apesar disso ela girou a manivela ao pé do leito e ergueu a cabeceira, de modo que Kiba pudesse ficar na posição sentada, então entregou-lhe a torta e um garfinho de plástico e foi acomodar-se ao lado da cama. — Que delícia! Obrigado.

A melhora visível no humor do Ômega mexeu com o lado Alpha de Ino. Ela ficou satisfeita por ter espantado o clima ruim.

— Por nada, cara de... — O sorriso singelo desapareceu dos lábios dela. — Porra, Kiba! Fecha essa boca pra mastigar!

O outro fez de conta que não escutou. Pela primeira vez desde que foi internado, deu mostras daquela voracidade que lhe era tão característica e, apesar da reclamação de Ino, tal visão foi um sopro de normalidade em todas as coisas preocupantes que vinham acontecendo.


Notas Finais

*Informação*

A comadre: Esse objeto é usado para os pacientes fazerem as necessidades deitados na cama. Todo mundo pode imaginar como deve ser embaraçoso, principalmente para alguém que está doente, mas plenamente consciente. Tem comadre de plástico e de inox. Escolhi uma de inox, essas são frias, então é comum a enfermeira lavar em água morna e deixar um pouco de água dentro da comadre, pra facilitar a limpeza depois.

***

Última postagem do ano! Quero agradecer a todos que acompanham essa história, gratidão especial a quem tem o carinho de comentar! Isso faz o meu dia muito melhor.

Obrigada a todos que favoritaram e a Sam que enviou uma recomendação isso faz a gente sentir que o texto está indo bem!

Nos vemos de novo em 2020, tentando fazer o melhor por esse casal maravilhoso!

Feliz ano novo, pessoinhas!