Capítulo 23 - Capítulo 23

Três dias depois

Snape olhou para Draco e rosnou.

- O quê? – O jovem perguntou. – Apenas disse o que eu acho. Não me parece muito inteligente deixar uma criança dormir as seis da tarde. Você é um pai estranho.

- Ele estava cansado. – Severus bufou, descansando os braços contra o balcão. – O que queria que eu fizesse?

Narcisa sorriu educadamente com a resposta de Severus, embora concordasse com Draco. Porém, não podia ficar surpresa com a falta de bom senso do homem quando o assunto era crianças.

- Você, sabe... – Draco começou. – Agora temos uma grande responsabilidade, há uma criança nesta casa. Então, temos que dar o exemplo.

- Não seja ridículo, você não é responsável nem mesmo por você. Do meu filho cuido eu. Mas sobre dar o exemplo, nada de trazer mulheres para seu quarto, nem mesmo depois que todos estiverem dormindo. – Alertou e franzindo a testa. – As paredes são finas.

Draco pareceu profundamente ofendido, mas logo assentiu. Ainda calada, Narcisa olhava para os dois com bastante interesse. Era visível que nenhum dos dois sabia como lidar com a nova realidade, embora, dada sua circunstância, eles teriam que dar um jeito.

- Deus proteja essa criança. – Murmurou Narcisa com um pouco de pena. – Me diga, Severus... Letta realmente mudou de ideia tão facilmente? - Perguntou de repente enquanto ela e Draco estavam se deliciando com uma taça de vinho.

- Você acredita em papai Noel? – Snape rebateu. – Obviamente a irmã dela desistiu, pude notar seu olhar enquanto olhava para o celular.

- Então por que pediu desculpas? – Persistiu a mulher no assunto. - Parece que você ficaria com ele de qualquer forma!

- Bem, você também faria se tivesse se comportado como me comportei. Fui um estupido. Além disso, é do meu filho que estamos falando, então eu devia isso a ela. Se você entende o que quero dizer. – Explicou enquanto se levantava para pegar um pedaço de queijo na geladeira.

- O que fará quando voltar a trabalhar? – A mulher perguntou interessada. - Luke estuda apenas no período da manhã. Você não poderá levá-lo para escola e buscá-lo todos os dias. E a tarde com quem ele ficará? Você ficou nesses três dias, mas e depois? Ele é uma criança e você sabe o quão difíceis eles podem ser. - Respondeu depois que ela engoliu uma fatia de queijo que Snape lhe ofereceu.

- Fui até uma agencia de babás e consegui algumas entrevistas. Eu só vou ter que ser franco e dizer que espero que seu filho não estrague isso. -Respondeu casualmente e olhou para Draco.

- Desculpe-me? – Narcisa lhe lançou um olhar de insulto e continuou: - Não entendi!

- Você entendeu sim. – Implicou cautelosamente. - Seu filho é um jovem de 24 anos muito famoso pelo número de mulheres que ostenta pelos corredores daquela universidade... pelo que vi, a babá de Luke terá essa mesma faixa etária. Pelo menos até que achem outra pessoa, quero ele distante dela.

Narcisa rosnou, mas Draco sorriu maliciosamente concordando.

- Quase hora do jantar. – O jovem alertou. – Snape, já conseguiu fazê-lo conversar com você? – Perguntou Draco e o outro homem revirou os olhos. – Esquece não quero saber, mas também ficaria puto com você se fosse ele. - Disse e começou a comer.

- Não tenho tempo de ouvir suas gracinhas, Draco. Tenho que acordá-lo.

- Não! Você não sabe acordar as pessoas. Vai assustá-lo. – O louro alertou e seu sorriso se alargou quando o homem lhe lançou um olhar mortal. – Deixa que eu faço isso.

(...)

Draco Malfoy olhou para o menino jogado na cama e sorriu. O quarto improvisado era quente, aconchegante e cheio de muitos brinquedos estranhos. Para ele, as gerações anteriores que sabiam como se divertir. Crianças normais não deveriam ter tantos jogos envolvendo física.

- Oi garotão. – Draco sussurrou. – Que bom que já acordou.

- Oi. – Respondeu sonolento.

- Quer sair para jantar? Seu pai estava se perguntando se você acordaria a tempo ou não.

- Não me sinto bem.

- É fome. – Respondeu com propriedade. - Sabe, Luke, chegou ao meu conhecimento que você não fala com seu pai. Eu te entendo, Snape pode ser um otá... Uma pessoa difícil! Mas faça um esforço, está bem? Vai ser melhor...

O menino resmungou e os lábios de Draco se contraíram.

(...)

- Não vai conosco? – Snape perguntou a Draco.

- Bem, você sabe, quinta-feira. - Respondeu e riu novamente, e apesar de estar completamente acostumado com o outro homem, ele ainda sentia seu estômago contorcer-se na expectativa de ser expulso.

- Não importa ... - Snape ofereceu como resposta. – Vamos Luke.

- Você tem certeza que ele é seu pai? – Draco fez uma careta involuntária. – Você é bem mais divertido.

O menino sorriu e o outro homem respirou fundo.

- Suma, Draco. Achei que tinha compromisso. Está pronto Luke? - Perguntou e de repente, o celular começou a tocar. – Desculpe por isso. Me dê só um minuto.

O menino permaneceu indiferente. Afinal, sempre que o pai estava com ele, tudo parecia ser mais importante do que ele próprio. Então, sabia que não seria diferente agora.

- Está tudo bem. Eu nem queria jantar mesmo.

- O quê? – Draco o questionou sem entender. O rapaz examinou o rosto do menino e tudo que ele podia ver era desanimo.

- Alguém deve estar esperando por ele. – Luke respondeu jogando-se no sofá.

- Criança, ele é o responsável por você nesse meio tempo que sua mãe não estiver. Se não quiser sair para jantar, ele pode pedir comida por telefone ou até mesmo fazer. Mas se fosse você saia e pedia o mais caro.

Em pouco tempo, Snape estava de volta e Draco preferiu deixar o assunto de lado.

- Sua mãe já se instalou, mas ela ligará depois. Vamos? – O menino abaixou a cabeça indeciso. - Você está vindo? – Snape tentou novamente e recebeu um leve aceno de cabeça como resposta.

(...)

Depois de insuportáveis 40 minutos parados no trânsito, Severus e Luke haviam chegado no destino final. Chovia terrivelmente do lado de fora, mas o clima abafado dominava o lugar.

- AH, ela não veio hoje? – A garçonete enxerida perguntou quando Severus e Luke se aproximaram.

O rosto de Severus ficou vermelho, algo que ele mais odiava eram pessoas curiosas.

- Meu filho e eu gostaríamos de uma mesa. – Ele respondeu ignorando a pergunta da mulher.

A mulher lançou um rápido olhar de julgamento antes de seu sorriso retornar rapidamente. Eles a seguiram até uma mesa que ficava bem no canto e se sentaram.

Luke olhou para o pai sem saber o que dizer ou como prosseguir e Severus deu-lhe um meio sorriso, apesar do fato de que o menino não queria estar lá, Snape ficou contente pelo fato do menino não ter negado o seu pedido.

- Ainda sem falar comigo? Tudo bem, Luke. Você sabe, ficar em silencio é um direito seu. Mas terá que dizer para aquela moça qual é seu pedido.

Severus se sentiu desconfortável. Perceber que seu filho não queria sua companhia era um pouco desconcertante. Mas o que ele poderia querer? Ele não tinha sido um pai exemplar, então não poderia cobrar nada do menino.

Deus, como ele deveria agir em torno do menino? Ele nem sabia qual era sua comida favorita. Definitivamente, ele era patético. Não sabia sobre a vida do próprio filho.

Snape parou para pensar em tudo que sua ex esposa havia dito. Apesar das amargas palavras que ela falara, Severus sabia que ela tinha razão. Ele era desprezível.

A verdade é que Severus sentia vergonha. Quando ele olhava nos olhos de Luke a única coisa que conseguia lembrar era de como ele havia chorado quando o viu indo embora há anos atrás.

Ele sabia que não conseguiria consertar tudo, nunca mais seria o mesmo. Ele só tinha que tentar sobreviver aos seis meses sem decepcionar aquela criança ainda mais.

(...)

Severus ficou surpreso ao encontrar Minerva e o neto no mesmo restaurante que ele.

- Eu senti sua falta, Sr. Sverus! - Disse Henry.

Luke observou seu pai sorrir estranhamente.

- Eu senti sua falta também, Henry. Quando passará alguns dias com sua avó? Aquela universidade não tem sido a mesma sem você.

Os olhos de Luke se estreitaram. Ele ficou decepcionado com toda aquela interação. Seu pai parecia se importar muito mais com aquele menino do que com ele. Ele mesmo nunca tinha ido ao trabalho do pai.

- Não vai demorar, não é mesmo Henry. – Disse Minerva, envolvendo os braços ao redor da criança. – Mas primeiro todos precisam se recuperar da primeira visita. – Gargalhou levemente e virou-se para a outra criança que estava sentada. – Oh, meu Deus! Não me diga que...– Exclamou extasiada.

- Absolutamente Minerva, tenho certeza que você se lembra do meu filho.

- Como posso não lembrar? – Sussurrou emocionada. - Olá, Luke. Você cresceu um bocado desde a última vez que lhe vi.

- Luke, - Severus começou. - Essa é Minerva McGonagall, minha colega de trabalho e este é Henry, seu neto.

- Prazer em conhecer vocês. – Disse educadamente. Ele olhou rapidamente ao redor do restaurante, em seguida, olhou em direção à saída, como se esperasse que o engolisse e o cuspisse em sua nova casa.

- Oi. - disse Henry, sorrindo.

- Estamos felizes em te encontrar aqui, Luke. – Minerva o informou. – Henry e eu temos que ir, mas espero que você possa ir até a minha casa com seu pai. Adeus, rapazes. – Severus assentiu e observou enquanto se dirigiam para fora.

- Você parece estar aborrecido. – Severus revelou. - O que você tem? – Perguntou, mas não obteve resposta. - Não gostou da pizza? – Tentou novamente. – Podíamos ter ido a outro lugar se você tivesse me alertado.

- Pare de me perguntar coisas. – Sussurrou parecendo totalmente desconfortável. – Não gosto de tantas perguntas, Senhor.

- Vamos lá, Luke. Qual é o seu problema? – Severus o questionou sem entender. – Podemos resolver qualquer coisa que esteja te incomodando. É melhor resolvermos isso agora!

- Não existe nenhum problema, Senhor.

- Eu mereço ao menos uma explicação, Rapaz. Não estou gostando da sua atitude, você é muito novo para ter esse comportamento. – Falou ligeiramente aborrecido. – O que há com você? Se não gostou da comida, podemos ir em outro lugar.

- Não importa o que eu acho. De qualquer forma, não é como se você se importasse.

- Espere um pouco ai, criança. Me respeite que sou seu pai, não vou tolerar tal comportamento!

- Se não gosta de mim, por que não me manda para minha mãe? Sabemos que é o melhor para todos. O senhor pode esquecer de mim, pode para sua casa e voltar para sua vida. Assim será bem melhor.

- Luke Lestrange Snape... – Repreendeu.

- É Luke Lestrange! Luke Lestrange! – Grunhiu aborrecido. - Eu quero ir para casa! Cansei disso.

- É Luke Lestrange Snape, foi assim que lhe registrei. Vamos voltar para casa depois que você comer ao menos fatia de pizza. – Tentou ser paciente, após respirar fundo.

- Eu quero ir para casa, por favor. Eu quero a minha mãe. - Suplicou abaixando a cabeça enquanto deixava algumas lágrimas caírem. – Não quero ficar com o Senhor.

Snape pigarreou e, novamente, voltou os olhos para o menino. Seu filho era excepcionalmente talentoso quando se tratava de testar sua paciência. Severus tinha constantemente que se lembrar que estava lidando com uma criança que se parecia com ele demais para o seu próprio bem.

- Luke, você sabe que sua mãe não está em casa. Por isso, essa possibilidade está descartada.

A criança piscou de repente e deixou a mão cair dos lados da cadeira. Ele olhou para o pai com os olhos arregalados e os lábios franzidos. Por um momento, o menino parecia incapaz de falar e aquilo pegou Snape de surpresa.

- Luke?

- Pode me deixar sozinho lá mesmo. – Sussurrou minutos depois. - Assim o senhor poderá voltar para sua paz. Você sabe que você quer isso mesmo, pode dizer! Eu não me importo mesmo, não mais.

- Você não sabe o que está dizendo. Vá ao banheiro, lave o rosto e volte para comer. Essa conversa acaba aqui!

A criança levantou-se e foi em direção ao banheiro. Severus o observou silenciosamente, tentando pensar em qualquer coisa que o tirasse daquela situação, mas nada parecia certo.

- Não posso acreditar, Severus! – Ele ouviu a voz da mulher que não saia da sua cabeça nos últimos dias. – Faz dias que não consigo te encontrar... você está com uma mulher, não está? Eu sabia.

- Sente-se, Hermione.

- Como você pode ficar tão calmo? – Grunhiu ela. - Bem, qual será a desculpa? Quer que eu saia antes que ela volte?

O rosto de Severus era uma máscara de pedra quando eles se entreolharam.

- Não agi corretamente ao não entrar em contato com você, Hermione. Mas eu preciso te contar algo importante.

Ele olhou de volta para ela, e viu em seu rosto em linhas cansadas.

- Não zombe de mim, Severus. Somos dois adultos, apenas diga que se arrependeu. - Ela se acalmou e olhou para o chão, passando as mãos nas bochechas.

- Não estou zombando de você, mulher. Eu acho que você está se sentindo magoada, eu entendo, mas me escute.

- Chateado? Você fugiu de mim por três dias inteiros, Severus... - Ela se inclinou ainda mais para ele, como se fosse atacá-lo.

- Com licença, - A garçonete se aproximou. - mas acho que vocês perderam essa criança! Eu o peguei tentando pegar um táxi sozinho ali na frente.

- Mh-hh Não. – Hermione sussurrou com simpatia, tentando se recompor. – Você se enganou.

- Obrigado, Senhora! Ele é meu. – Severus informou - Me descuidei.

- Sei bem o que é... – A mulher confirmou se retirando.

Hermione encostou-se na cadeira, atordoada pelo o que acabara de ouvir. Snape olhou para ela, depois para criança, e Hermione sentiu seu nível de consciência gradualmente desaparecendo, então, preferiu se sentar.

- É sobre isso que eu deveria conversar com você. Esse é meu filho, Hermione. Luke essa é a Srta. Granger.

- Muito bem, - Disse ela, assustada. – como... vai...? – Gaguejou. - Bem eu tenho que ir. Agora que o ar está de volta entre nós, eu suponho que eu devo ir... – Atordoada, ela se levantou, mas voltou a se sentar. – Um filho? Você tem um filho? Quando planejava me contar? Esquece, eu não quero saber.

Ela saiu da mesa e uma enorme tensão se instalou sobre os dois,

- Sério, Luke? Onde você planejava ir? - Ele olha para cima, a voz ligeiramente descontrolada.

- Para a minha mãe. – Reclamou com os olhos repletos de lágrimas. O garoto tremia com uma mistura de raiva e tristeza.

- Vamos embora. – Falou cansado. – Definitivamente o único culpado sou eu.