Pigmentos de Amor

Kaline Bogard

Capítulo 29
A cor de um sopro de esperança

Kiba não podia reclamar das refeições no hospital, o almoço foi tão bom quanto o café da manhã e o jantar na noite anterior. Não se fez de rogado para rechegar a barriga já que foi mais restrito pela manhã. O humor já tinha melhorado bastante no decorrer daquelas horas, Ino era uma companhia similar à de Naruto, podia conversar sobre qualquer coisa quando Kiba estava acordado, ou tão somente ficar por ali aguardando durante as longas cochiladas que o Ômega dava.

Pois foi ao fim de um desses silêncios que Ino sentiu uma coisa diferente, seu lado Alpha tornou-se inquieto, alerta... Ela remexeu-se na cadeira incomodada, olhando para os lados sem saber o que causara aquele estado em seu lado animal. Foi algo contundente, que mexeu até com Kiba, em um segundo o garoto estava sonolento sobre o leito, no outro olhava em volta com curiosidade. E então... O cheiro!

Atingiu Ino de modo indefensável, fulminante e encantador, todos os sentidos da jovem Alpha se entorpeceram rodeados por um aroma maravilhoso, algo que retomava sua infância, os bons anos, dando a impressão de que ela estava em um campo primaveril, rodeada por um tapete de infinitas flores desabrochando. A porta do quarto se abriu e uma Ômega entrou, uma mulher não muito alta, aproximando-se da meia idade, de cabelos curtos tão negros que pareciam ostentar um reflexo azul e os olhos perolados de íris rara e muito peculiar.

— Boa tarde. — A Ômega foi dizendo num tom de voz tão doce quanto o cheiro que exalava. — Sou Hyuuga Hinata, psicóloga do hospital, é um prazer conhecê-los. Vim ver como se sente, Inuzuka-kun.

A pergunta soou com interesse sincero, a essência animal envolveu Kiba e o acolheu de modo cordato, conquanto inegável. O menino sentiu-se abrigado de um modo primordial, irracional até, a premissa da casta que o atingia com intensidade pela primeira vez na jovem vida.

— Vou fazer terapia no hospital?! — Empolgou-se.

— Não exatamente. — Hinata sorriu, parando ao lado do leito. — Minha função não é terapia clínica, vou passar por aqui todos os dias, para ver como você está e conversarmos um pouco.

— Você é parente do Neji? Ele é o capitão do meu time de judô no colégio. — Kiba não pôde evitar tirar a dúvida, a psicóloga tinha o mesmo sobrenome que seu senpai, sem contar os olhos.

Se Hinata surpreendeu-se com o paciente, de mencionar aquele nome, não deixou transparecer.

— Neji é meu primo. — Respondeu com naturalidade. — Se preferir, posso pedir para nosso outro psicólogo vir atendê-lo.

A proposta foi descartada com um gesto de mão.

— Não, não tem problema. Sei desse lance de sigilo profissional. — Kiba sorriu um pouco mais. — Não tive nenhum sonho, sabe? Psicólogos interpretam sonhos, não é?

Hinata balançou a cabeça, concordando.

— Como passou a noite?

— Bem, dormi tipo uma pedra, dormir é tudo o que eu tenho feito! Nunca me senti assim cansado, mal consigo mexer as pernas! — Suspirou. — Tive que usar um caralho de... Hum... Comadre...

A voz falhou ao final da revelação, tanto Ino quanto Hinata sentiram a consternação minar em ondas sem que Kiba pudesse evitar. A Alpha até cogitou perguntar se devia sair, mas tal simples pensamento incomodou tanto a parte animal que as palavras não vieram!

— Sim? — Hinata incentivou que o desabafo continuasse.

— É meio foda, só isso, meio que destrói um pouco a dignidade da gente, sabe? Mas é pra evitar um mal maior. — Terminou levando as mãos até a barriga e descansando-as ali. — Eu fico repetindo isso na minha mente, pra não morrer de vergonha. Tentei segurar... Hum... O máximo que eu aguentei. No fim o enfermeiro me ajudou e não foi o pesadelo que eu pensei que seria, mas...

— Mas...?

— Quero que isso acabe logo, pra minha filhotinha ficar bem e a gente voltar pra casa. Você vai atender o Shino também? Ele é meu companheiro, somos Almas Gêmeas! Quando o Shino está por perto eu vejo tudo em cores. Você sabe como são os Alphas, né? Essa coisa de responsabilidade e tudo mais, seria legal ele poder conversar também.

— Eu estou aqui para ouvir você e os acompanhantes. — E as palavras vinham trazendo tanto calma quanto uma energia mansinha. Terminou virando-se de lado na direção de Ino, que apenas balançou a cabeça muito depressa, descartando a oferta. Logo se voltou para Kiba. — Então é uma menina?

— Ah, a gente não fez o exame pra confirmar, combinamos desde o começo que seria uma surpresa. É minha intuição: sei que é uma Alpha femeazinha!

Hinata ainda ficou algum tempo ouvindo Kiba discorrer sobre o bebê, antes de se despedir e afirmar que estava à disposição. Passaria ali todos os dias naquele horário, fato que não impedia Kiba de chamá-la caso sentisse necessidade. E se fosse da vontade de Shino, o ouviria também.

Assim que a psicóloga saiu do quarto, Kiba recostou-se no leito sentindo o peito um tanto leve, ia comentar algo com Ino, e foi nesse exato segundo que percebeu que a Alpha ainda olhava na direção da porta, meio embasbacada. Postura de admiração abobalhada que teve durante toda a visita da profissional.

— Oho... — Provocou com um sorriso suspeito.

Ino saiu do estupor e franziu as sobrancelhas para o sorriso malandro que era enviado em sua direção.

— "Oho" um caralho! Não é nada do que você está pensando!

— OHO! — Kiba mostrou um sorrisão com duas presinhas afiadas. — Como sabe o que eu to pensando...?

— Com a cara que você tá fazendo é meio óbvio! Só fiquei surpresa pelo hospital oferecer serviço de psicologia!

Isso e o fato de seu lado Alpha reconhecer uma pretensa companheira, mesmo depois de ter passado por toda aquela tragédia na adolescência. Claro, não era inédito na sociedade, havia vários casos de shifters que reconheceram um segundo companheiro na vida, devido às circunstâncias em que o primeiro encontro não desse certo. O companheirismo, ao contrário de Almas Gêmeas, podia acontecer mais de uma vez na vida. Mas ela não se achava digna dessa abençoada segunda chance. Não depois de...

— Ah, acho que me confundi! — Kiba limpou a garganta antes de emendar muito depressa. — Eu não tava pensando em nada!

Ino piscou confusa, acabou por se perder em pensamentos! E ao piscar o mundo deixou de ser aquele borrão estranho, porque as lágrimas que embaçavam sua visão transbordaram.

A tarde chegava ao fim quando Inuzuka Hana chegou um tanto apressada. Ela entrou no quarto, sorrindo e dissipando o resquício do clima estranho que estava entre Kiba e Ino, por conta do incidente após a visita da psicóloga.

— Olá! — Hana foi falando. — Desculpe o atraso, estou tentando mudar a escala da clínica pra poder ficar aqui durante a tarde e...

— Não precisa! — Ino cortou a oferta. — Eu venho e fico todas as tardes com ele.

A oferta surpreendeu a Inuzuka mais velha, porém já era algo meio esperado por Kiba.

— Todas as tardes? Não posso aceitar, vai ser um transtorno na sua rotina.

— Não será, não tenho compromisso nenhum nesse horário. — Ino garantiu. — Posso tomar conta desse cara de cachorro sem problemas, eu já tinha oferecido ao Shino, deixa comigo!

Kiba ergueu uma sobrancelha um tanto cético, sabia que a proposta tinha muito interesse da parte dela em ter mais contato com Hyuuga Hinata, não era assim uma ajuda lá muito altruísta. Claro, poder contar com Ino durante as tardes não tinha preço. Tsume, Hana e Shino, cujo dia-a-dia era mais apertado, ficariam tranquilos e só teriam que arrumar a escala para dormir no hospital.

— Seria incrível, não sei nem como agradecer. — Hana soou sincera.

— Alias, sou Yamanaka Ino. — A Alpha se apresentou. — Considero Shino como mais do que um amigo, ele é minha família e isso faz o peste ali parte da minha família também.

— OE! — Kiba resmungou, divertindo as mulheres.

— Sou Inuzuka Hana, prazer em conhecer.

— Pode ficar sossegada, fico até Shino vir essa noite, ele que vem? Ou você que vai ficar? Se for o caso pode ir pra casa se arrumar e voltar, eu seguro as pontas aqui. — Além de ajudar aos amigos, Ino susteve a esperança de rever aquela mulher, estava curiosa, o reconhecimento teria sido unilateral? A parte Ômega a tratou com parcimônia... Algo acolhedor sim, embora... Profissional.

Era certo que Ômegas em tal emprego tivessem treinamento para lidar com a parte animal das demais castas, eles deviam conviver com todo o tipo de sentimento ao exercer a profissão, não podiam se permitir ser alvo de cada um desses sentimentos. Teria a parte Alpha sido cativada por engano? Seria real o reconhecimento? Tantas dúvidas! Ainda se emocionava só de pensar que talvez a natureza estivesse lhe oferecendo uma estimada segunda chance.

— É o Shino quem vem. — Hana explicou. — Agradeço muito que possa ficar de acompanhante durante as tardes, vou contar para minha mãe, ela também estava tentando ajeitar as escalas. Eu fico aqui até o Shino chegar, já que estou aqui. Obrigada!

— Tudo bem. — Ino ficou de pé e concordou com um gesto de cabeça. — Até amanhã, cara de cachorro.

— Até amanhã... — Kiba respondeu com uma risadinha tão suspeita que só fez Ino escapulir do quarto bem depressa!

Então Hana foi sentar-se no leito, sem se preocupar com as regras que proibiam isso, e fez um cafuné nos cabelos do irmão.

— Maninho, conte-me como foi o seu dia e o da minha sobrinha. Estava muito preocupada com vocês, mas agora eu sei que estarão em ótima companhia o dia todo.

Kiba riu feliz, era bom ter amigos, todavia a presença conhecida da irmã e o vínculo maravilhoso que possuíam era um conforto que não tinha preço!


Notas Finais

Primeira postagem de 2020! O Trump quer guerra, mas a gente só quer amor, não é?