EU PRECISO DE SILÊNCIO PARA PENSAR
Santuário. Casa de Libra.
Era noite quando Sophi, a Musa da Música, se despediu das irmãs, do cachorro King e do simpático cavaleiro de Libra. Sem pressa, ela tomou o caminho até a Casa de Áries, aproveitando a agradável brisa que vinha do mar. Em poucos dias, a sua vida – ou a vida que julgava ser sua – tinha mudado completamente.
_Que loucura – ela disse e riu. – Um dia você toca guitarra em Seattle e no outro está aqui, sendo deusa, tomando chá com um homem de duzentos e tantos anos e com outras filhas de Zeus. Uau... Preciso de uma cerveja.
Sophi continuou a descida até a Primeira Casa. Ao chegar, percebeu que a luz na oficina de Mu estava acesa e sorriu ao pensar nele. Infelizmente, o prazo que Shion dera para o reparo de armaduras era bem curto. "Medidas extraordinárias para tempos de guerra", o ariano mais velho enfatizou dias antes.
No entanto...
_Quem não arrisca não petisca – ela bateu na porta; tocando o início de Smoke on the Water com as batidas.
_Sophi? – Mu sabia quem era, pois sentiu o cosmo da Musa da Música assim que ela entrou em Áries, mas perguntou por estar surpreso. – Entre, por favor. – Ele disse ao abrir a porta, aparentemente preocupado. – Algum problema?
_Não – ela respondeu e entrou na oficina, atenta às coisas ao seu redor. Percebeu que ele trabalhava numa armadura de amazona, a qual retinia lindamente. – Ela está...?
_Viva? Sim.
_Isso é fantástico!
_Imagino que você pode ouvi-la – ele disse.
_Sim, muito bem! – Sophi respondeu e caminhou até a armadura. – E sabe o que ela está me dizendo agora?
Mu meneou a cabeça.
_Que você precisa de uma folga – a Musa da Música disse em tom descontraído.
No entanto, Mu pareceu reticente com a ideia:
_Eu não sei, Sophi. Ainda falta...
_Ah, vamos lá – ela disse ao toma-lo pelo braço. – Pelo que pude escutar desde que cheguei, o Santuário é um lugar bem interessante. Que tal uma caminhada? A noite está ótima, você não acha?
Mu olhou para Sophi. A energia em seus olhos azuis era contagiante.
_Tudo bem – ele concordou. – Vamos. O que você gostaria de conhecer?
_ Escuto o barulho do mar. Acho que há uma praia por perto.
_Sim. Mas é praticamente deserta.
_Mesmo? – Sophi pareceu gostar da ideia. – Eu não me importo. E você?
_Ah... Eu acho que não – ele respondeu. – Somente me preocupo com a sua segurança. Não é bom que fiquemos longe da área das Doze Casas.
_Você é um cavaleiro e eu sou uma deusa. O que poderia acontecer? – Sophi disse e piscou para Mu.
No Caos.
Olivia se sentia estranha, como se estivesse flutuando. Seus olhos estavam fechados, e a sua cabeça doía um pouco. Escutara as palavras do estranho ser que surgiu no hospital, mas não as entendeu muito bem. Nêmesis? Seria a deusa da mitologia grega? Impossível.
Ou não?
_Onde estou? – A Musa da Astronomia se perguntou ao abrir os olhos. Não estava mais no hospital, definitivamente. – Que lugar estranho – avaliou ao perceber que flutuava no ar, como se não houvesse gravidade ali. – Vovô? Onde o senhor está?
Não houve resposta. No entanto, luzes piscaram ao seu redor e mudaram de cor de modo inesperado. Por fim, elas foram substituídas pela escuridão.
_Como cheguei aqui? – Perguntou-se e sentiu calor. Depois, frio.
De repente, Olivia caiu e caiu como se a gravidade tivesse voltado a funcionar. Porém, voltou a flutuar novamente.
_Oscilações – ela podia sentir. – Transições.
Olivia se lembrou de Camus. Ele dissera algo sobre perturbações caóticas enquanto estavam no carro, mas aquele lugar, se é que poderia chamar assim, mais parecia o interior do próprio caos. Inesperadamente, ela ouviu um som vindo de longe. E parecia... Uma voz?
_Estou ouvindo coisas? – Pensou alto.
Mas não, não estava. Ela viu alguém que também flutuava. Parecia um homem. Ou... Um deus? Ele estava envolto numa aura luminosa, e usava uma armadura de estilo grego, com tons de dourado e bronze. Com dificuldade, ele conseguiu dar alguns passos na direção dela, mas logo perdeu o pouco equilíbrio que alcançara e voltou a flutuar sem direção.
_Urânia? – Ele perguntou, incrédulo. – Que fazes aqui?
Olivia olhou ao seu redor, procurando por uma terceira pessoa.
_Estou falando contigo – ele apontou para ela. – Não lembras de mim?
_Por que eu deveria?
_Euterpe ou Erato são melhores companhias – ele se referiu às Musas da Música e da Poesia, respectivamente. – Mas se tu, uma das filhas da Memória, ainda não se lembra de mim, o deus Ares, a situação fora do Caos deve estar pior do que antes.
_Ares?
_O deus da Guerra. Sim, sou eu.
Olivia ergueu uma das sobrancelhas, sem acreditar.
_Eu não gosto de brincadeiras – ela disse seriamente.
_Eu sei – Ares respondeu. – Nós somos irmãos, filhos de Zeus. Mas a tua mãe é Mnemósine, a deusa da Memória.
As palavras dele soavam como loucura aos ouvidos de Olivia. Ares? Zeus? Mnemósine? Estava sonhando ou tendo uma alucinação?
_Eu não sei do que você está falando – ela disse.
Ares não era o mais paciente dos deuses do Olimpo:
_De que serve uma filha da Memória que de nada se lembra?! – Ele esbravejou. – Deverias ser uma guardiã da ordem das coisas, não uma falsa mortal! Maldito Caos!
Inesperadamente, Olivia foi surpreendida por uma memória: estava em um lugar conhecido, juntamente com outras jovens, e foi tragada por uma força tremenda, semelhante à força que estava ao seu redor – ou talvez fosse igual. Sim, era.
_Caos... – ela sussurrou.
Ares tentou se equilibrar no espaço, mas falhou. Irritado, ele disse:
_Sim! É o que nos prende aqui! Fui lançado ao Caos numa batalha que ocorreu... Há horas? Dias? Semanas? Não sei ao certo! O tempo aparentemente não existe aqui. Nada existe. Mas, ao mesmo tempo, tudo existe. Não consegues perceber?
Sim, ela conseguia. Era estranho, mas havia um potencial infinito ao seu redor. Era assustador e, ao mesmo tempo, fascinante.
_Era o que o Camus pretendia me dizer? – Cogitou.
_Não sei de quem estás falando. Sei apenas que Athena enviou seus cavaleiros de ouro numa missão de resgate. Eles deveriam encontrar as nove Musas e garantir a sua segurança. Mas, se tu estás aqui... Pelo menos um deles falhou.
Olivia se lembrou das palavras de Nêmesis. Aliás, daquilo que mais pareceu uma ameaça. E se ela estava ali, no interior do Caos e na inesperada companhia de Ares, algo grave acontecera no hospital. Por que ela não conseguia lembrar? Fora lançada ali antes? De todo modo, o seu coração acelerou quando pensou em Camus e no seu avô.
_Como podemos sair daqui? – Ela perguntou ao deus da Guerra.
_Eu não sei – ele respondeu. – Estamos... Presos.
_Deve haver alguma saída.
_Se há, eu não consegui encontrá-la.
Olivia fechou os olhos. Pensou na lembrança que teve, no momento em que foi tragada por aquela força tremenda, nas outras jovens que eram as suas irmãs. Filha de Zeus e da Memória... Uma das nove Musas. Sim, as estrelas conversavam consigo, contavam-lhe todos os seus segredos. Ela conhecia o universo, as suas leis, a ordem à qual ele pertencia. Era capaz de nomear cada galáxia, buraco negro, estrelas e constelações existentes. Filha de Zeus e da Memória... Sim.
Ela era Urânia, a Musa da Astronomia.
_Nós sairemos daqui – Olivia não tinha dúvidas. – Mas não fale nada. Eu preciso de silêncio para pensar – ela disse e tirou papel e caneta do bolso.
Santuário. Casa de Câncer.
Kieve demorou mais na Casa de Libra do que Sophi, e se arrependeu disto assim que pôs os pés na Casa de Câncer:
_Esse tinha que ser o lugar mais escuro e assustador daqui, né? Até parece mal-assombrado! É a casa perfeita para aquele Mascarado filho de uma...
_Se ofender a minha mamma, você será uma coisinha marcada para morrer.
Kieve se assustou ao ouvir a voz dele, claro. Mas estava escuro demais para vê-lo:
_Apareça, seu Mascarado das trevas!
De propósito, o cavaleiro de Câncer se moveu para trás de uma coluna. Ela sentiu o movimento, mas ainda não conseguia vê-lo.
_Eu vou contar pra o Presidente!
_Vai contar o que pra aquele velho rabugento? – Ele perguntou e se moveu outra vez, assustando-a de novo. – Que você é uma coisinha medrosa?
_Não! Que você não quer me mostrar a sua cara feiosa! – Kieve se virou, procurando por ele na escuridão. – Se bem que... É um favor que você me faz – Ela disse e cruzou os braços, tentando não demonstrar medo.
O cavaleiro de Câncer se moveu outra vez, querendo assustá-la. Porém, não funcionou. Kieve permaneceu de braços cruzados, com a cara fechada.
_Você é muito sem graça para ser a Musa da Comédia.
_Correção: deusa suprema da Comédia. E é melhor parar de me assustar.
_De onde você tirou essa coragem toda, coisinha convencida?
_Não sei – ela respondeu. – Mas é melhor ter chocolate quente aqui amanhã de manhã – ela exagerou um bocejo. – Eu vou dormir.
Kieve caminhou no escuro até o aposento que ocupava na Casa de Câncer, sem se preocupar com Máscara da Morte. Ao contrário do que fizera até então, ela não tentou fugir do Santuário. Tampouco se assustou ou se irritou com as atitudes do cavaleiro de ouro. Ele ficou um tanto surpreso e, ao mesmo tempo, um pouco irritado.
_O que há de errado com ela? – Resmungou.
O capítulo saiu antes do que eu imaginava. Espero que gostem. Bjs
