Pigmentos de Amor
Kaline Bogard
Capítulo 30
A cor que tinge e atinge
Shino apresentou-se na recepção do hospital para receber a autorização de entrar no quarto, o procedimento era rotineiro para a mudança de acompanhantes em turnos de vinte e quatro horas. Ele informou que veio para trocar com Inuzuka Hana e foi rapidamente admitido, era por volta de seis e meia, a segunda noite seria sua responsabilidade.
Assim que ganhou o corredor do quarto de Kiba, percebeu a energia estável e recolhida, como acontecia quando seu companheiro estava dormindo. Por precaução diminuiu a presença Alpha o máximo que conseguiu, para que sua chegada não despertasse o garoto.
Confirmou as suspeitas tão logo adentrou o quarto, viu Hana sentada ao lado do leito, lendo um livro. Kiba cochilava na cama, coberto com o lençol branco hospitalar, a televisão estava ligada em algum desenho, apenas exibindo imagens sem o som.
— Boa noite. — Cumprimentou baixinho.
— Boa noite. — Hana sorriu erguendo a cabeça.
— Como ele passou o dia? — Em dois segundos o Alpha parava junto ao leito.
— Assim... — A resposta veio seguida de um gesto de mão. — Revezando entre conversar e dormir, um enfermeiro acabou de dar a medicação, Haruno-sensei ainda não veio, acho que vai visitar mais à noite.
Shino ajeitou os óculos no rosto, ouvindo o pequeno relatório com atenção, não deixava de ser uma boa notícia. A presença da médica podia significar piora no quadro de Kiba, ao menos consideraria que a situação estava estável.
— Veio para o turno da noite? — A jovem Beta indagou fechando o livro. Assim que Shino concordou com um aceno, suspirou. — Não vou acordá-lo só pra me despedir e dois acompanhantes não podem ficar no quarto ao mesmo tempo, vou ter que sair...
— Eu explico a situação.
Hana aceitou a oferta, pegou a bolsa que dependurara na cadeira, depositou um beijo suave sobre os cabelos de Kiba (talvez com um pequeno e discreto desejo de que ele acordasse com o gesto) e se foi.
Shino tirou a mochila do ombro e colocou no chão encostada na parede, sentou-se na cadeira em que sua cunhada estivera e esperou, Kiba ainda dormiu por um bom tempo antes de despertar, a consciência o tomou de imediato ao captar a presença recolhida do companheiro.
— Shino!
— Olá.
— Faz tempo que você chegou? Nem vi Hana-nee sair, apaguei forte dessa vez.
— Sua irmã pediu para me despedir no lugar dela. Como vocês estão?
— Bem. — O prazer pela pergunta no plural dominou Kiba. — Estamos bem! Tirando esse cansaço, já que por mais que eu durma não consigo sentir aquela disposição de antes, é foda! — Moveu a mão de sob o lençol e colocou sobre o colchão de modo que Shino pudesse segurá-la, pedido mudo prontamente atendido. Os dedos se enroscaram e a essência de Alpha e Ômega se entrelaçaram com mais contundência, acentuando como a separação forçada foi difícil para ambos.
Então o garoto emendou um monólogo em tom eloquente contando com detalhes tudo o que aconteceu. Reclamou bastante da sonda, que incomodava, foi menos minucioso ao contar sobre a comadre, acontecimento descrito por alto, nesse ponto Shino captou a relutância fluir pelo vínculo e fez por bem aceitar só a narrativa mais rasa assim como a parte a respeito de tomar banho no leito, descrita com poucas palavras. Contou sobre a visita da psicóloga, os remédios de gosto ruim e a sobremesa de morango que Ino lhe deu.
— Ino se ofereceu para vir todas as tardes. — Shino revelou.
— Sabe o que aconteceu? Ela ficou meio interessada na minha psicóloga, eu vi ao vivo! Acho que a Ino vai tentar investir nisso, acredita? Eu aqui sofrendo internado e ela de saliência com a psicóloga!
— Prefere que eu peça pra ela não vir?
— Não! — Kiba respondeu depressa. — Vai ser melhor do que acompanhar novela...
Shino ergueu as sobrancelhas diante da curiosidade que seu companheiro demonstrou, todavia não negaria que tanto a oferta de Naruto quanto a de Ino vieram para tirar os três de um impasse. Tsume e Hana trabalhavam o dia inteiro, Shino tinha a faculdade e o estágio, largar Kiba sozinho no hospital estava fora de cogitação, fariam qualquer arranjo para que o Ômega sempre tivesse alguém ali com ele. Agora podiam contar com a ajuda de Naruto e Ino. Logo restava apenas a parte da noite, que seria dividida entre Tsume, Hana e Shino.
— Quer que eu compre alguma coisa pra você comer? — O Alpha indagou. — Takoyaki?
— Não, obrigado, a comida do hospital é boa e à tarde minha irmã trouxe um lanche da cantina e eu to meio cheio ainda, posso aguentar até o jantar. Como foi o seu dia?
Foi a vez de Shino resumir o que aconteceu, nada diferente da rotina. As férias de inverno se aproximavam, sua faculdade costumava fechar por três semanas inteiras, ele planejava usar o período da manhã para antecipar mais horas de estágio e atingir a cota mínima o quanto antes. Já conseguira uma boa quantidade de horas, seria fácil, prestava as últimas provas da temporada.
— Não quero atrapalhar seus estudos. — Kiba sussurrou quando Shino silenciou.
— Não vai, trouxe meus livros para estudar, mas prefiro fazer isso mais tarde, agora só quero conversar com você.
A frase final fez Kiba sorrir, conversar era uma das coisas que ele mais gostava! Ainda tinha muito o que falar, contudo as palavras não vieram, em seu lugar o garoto ofereceu um bocejo cansado. Acabara de acordar de um cochilo e já se sentia sonolento, relutou um pouco em ceder, porém deslizou para outra soneca fora de hora e Shino não viu opção a não ser antecipar os estudos.
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Quando a médica do casal veio visitá-los, deu sorte de pegar Kiba em um dos momentos em que ele estava desperto.
— Olá. — Ela cumprimentou. — Como você está?
Kiba deu uma risadinha, de alguma forma aquele foi o som mais triste que Sakura e Shino já ouviram do garoto. Ali, deitado naquele leito, tão pálido e desanimado, dava a impressão de ser tão jovem... Abalou a parte animal de ambos.
— Faz só um dia que eu to aqui e já ouvi essa pergunta mais vezes do que na minha vida toda. — Suspirou. — Eu não sinto nada de ruim, só esse cansaço que ta me fodendo, é tão difícil mover as pernas! Dormi a noite toda e quase o dia todo, mas continuo cansado.
Sakura não respondeu, ao invés disso pegou o prontuário pendurado nos pés da cama e leu as anotações marcadas na ficha. Ela ficou satisfeita por ver que seu paciente conseguiu fazer as necessidades, porque aquela parte nunca era fácil para ninguém. Também avaliou números de controle como aferição da pressão, temperatura, nível de insulina. Shino e Kiba observaram com certa ansiedade, boas ou más notícias, mas que a mulher lhes desse alguma informação! E foi o que aconteceu.
— Recebi os resultados dos seus exames. — Ela devolveu o prontuário ao lugar onde estava e caminhou devagar até ficar mais próxima do casal. — O laboratório marcou como prioritário e passou a frente de todos os outros.
— Qual o diagnóstico? — Shino já tinha uma boa ideia do que acontecia, Sakura não os poupou da realidade. Kiba ainda não sabia, pois era melhor a médica decidir como e quando contar, pelo visto seria ali e agora.
— Kiba, nós lidamos com a possibilidade de haver riscos pelo seu corpo estar imaturo para uma gestação. A natureza é muito sábia ao estabelecer os pontos do desenvolvimento de um shifter, esses riscos não são mais possibilidades, eles se tornaram um perigo real. — Sakura respirou fundo. — O útero em que o filhote está crescendo não vai suportar o peso por mais tempo, ele está se desfazendo muito rápido, parte das células que se desprendem é eliminada na urina e nas fezes, tem traços de sangue nos exames, mas a maior parte dessas células está se espalhando por sua cavidade abdominal e aderindo a outros órgãos, por isso você se sente tão cansado.
— Não entendo... — O Ômega soou meio perdido.
— Seus órgãos estão sobrecarregados e incapazes de completar a função, atualmente seu chacra está sendo usado para eliminar essas células de fibras musculares, por isso você está tão cansado. Seu corpo está num ciclo infinito e desgastante para se manter funcionando e está pagando o preço. — Sakura olhou de Kiba para Shino e de volta para o garoto. — Estive em reunião com Tsunade-sama essa tarde, nós chegamos a conclusão de que antecipar o parto é a única solução viável.
A última frase da médica penetrou na mente do casal. Não surpreendeu o Alpha, todavia foi um baque para Kiba, ele levou as duas mãos até a barriga proeminente e abraçou-se como uma forma de proteção.
— Mas não é muito cedo? — Perguntou em um fio de voz. — Faltam meses!
— Sim, seriam... — Sakura começou a explicar, porém Kiba a interrompeu.
— Não dou autorização pra isso, eu aguento o tempo que falta, sou forte. — Disse com toda a certeza que tinha.
— Kiba... — Shino tentou acalmar o companheiro em vão, a essência do Ômega se tornou relutante, quase hostil.
A médica não se abalou, sua profissão não trouxe apenas pacientes pacíficos e gentis, ela teve uma boa cota de revolta com o que lidar.
— Não faço isso por maldade, Kiba. — A voz soou tranquila. — Quanto mais tempo demorar, mais perigoso é para você e para o bebê, não é uma questão de você aguentar e eu tenho certeza disso, é uma questão de o filhotinho aguentar.
— Oh... — O Ômega pareceu relaxar um pouco. — Como assim?
— O útero não serve apenas para proteger o bebê, uma outra função é alimentar e levar oxigênio para o filhote através da placenta e do cordão umbilical, sem isso a criança pode morrer sem nutrientes. — A explicação veio com calma e paciência, Kiba tinha todo o direito de se desesperar e se preocupar, Sakura sabia que seu papel profissional não permitia ser nada além de gentil com um paciente em sofrimento. — Antecipar o parto é uma precaução para salvar você e o bebê, demorar demais só faz as chances de ambos diminuir.
Kiba começou a chorar, a cena partiu o coração de Sakura e foi uma punhalada na alma de Shino. Ele segurou uma das mãos do companheiro e a trouxe para perto do rosto, queria ter palavras perfeitas para dizer e melhorar a situação, contudo o sofrimento do Ômega abalou qualquer pensamento racional e ordenado que pudesse ter. A reação instintiva foi projetar o lado Alpha e envolver o outro, querendo protegê-lo e ao filhote de qualquer mal.
A médica aguardou, respeitando a dor do casal pelo caminho que a vida deles precisava percorrer, assistiu as lágrimas de Alpha e Ômega transbordarem, dando vazão ao medo e a angústia, ao receio pelo que o futuro traria, que até o dia anterior era uma premissa maravilhosa. Então Shino sussurrou as palavras que serviram como cura momentânea para a dor que Kiba sentia.
— Tenho fé em você. — Ele falou baixinho. — Tenho fé em nós! — Terminou a afirmativa levando uma das mãos até a barriga do companheiro, tocando-a com carinho e com todo o amor que poderia fluir pelo vínculo.
— Eu também tenho. — Kiba sorriu por entre as lágrimas, deslizando a própria mão para cobrir a do Alpha.
Sakura sentiu um peso sair dos ombros, a situação era delicada, ela mantinha a postura firme e calma, conquanto presenciar o sofrimento alheio, o sofrimento de um Ômega, nunca era agradável para ninguém. Temeu que Kiba caísse em uma depressão por causa das notícias, felizmente Shino era o apoio que estava ali para aninhar o garoto sempre que ele fraquejasse. Ela aproveitou que a tensão se desfazia e sorriu ao revelar:
— Não faremos o parto amanhã ou depois, Tsunade-sama e eu chegamos a um acordo, dia trinta e um de dezembro é a data limite, o que acham? Ganhar um filhotinho de presente no ano novo?
A ideia fez Kiba sorrir largo e olhar mais animado para Shino, o rapaz sentiu-se instigado e levantou-se da cadeira para abraçar a pessoa mais importante de sua vida, que o ano novo transformaria em duas pessoas mais importantes!
A tempestade foi afastada por hora, todavia ela voltaria mais rápido do que todos gostariam.
Notas Finais
Pergunta: fez sentido essa explicação para o que está acontecendo com o Kiba?
Agora um recado carinhoso: veste colete pro próximo capítulo. Aí sim vem a pior parte. Hohohohohohoho
Até mais!
