Pigmentos de Amor
Kaline Bogard
Capítulo 31
A cor do entardecer
Os dias seguintes vieram em rotina. Pela manhã Naruto substituía quem tivesse passado a noite no hospital, noites essas que eram divididas entre Shino, Tsume e Hana, e as tardes quem acompanhava Kiba era Ino. Tardes que traziam um tom divertido à vida acamada do garoto, porque logo após o almoço, a psicóloga o visitava.
Era um alívio conversar com a mulher, poder contar seus medos e anseios sem qualquer tipo de julgamento. Não que Kiba não tivesse essa liberdade com o companheiro ou com a família, ele tinha toda a abertura de conversar com as pessoas que amava, mas ao fazer isso sentia como se tirasse um aperto do próprio peito apenas para jogar no peito dos outros, aliviar o sufoco momentâneo sufocando um dos outros.
Conversar com Hyuuga Hinata era sinônimo de tirar essa agonia que o acompanhava e fazê-la se esvaecer no ar, pois a psicóloga era treinada para ajudar sem se envolver, uma observadora de fora que intervinha com o olhar diferenciado sabendo como guiar os pacientes e tornar a internação menos pesada do que seria caso não recebessem aquele apoio.
E era durante as visitas da psicóloga que se divertia com o jeito de Ino, toda interessada na Ômega, sem nunca encontrar uma brecha ou tentar um contato mais incisivo e pessoal, sempre se prometia tentar algo no dia seguinte, conquanto no dia seguinte a cena se repetisse.
Além disso, Kiba recebeu várias e inusitadas visitas. A primeira delas foi a representante de classe, a menina veio pronta para dar uma bronca e deixar claro que Kiba devia parar com o corpo mole e voltar logo para as aulas. Todo o discurso motivador desapareceu no instante em que entrou no quarto e pôs os olhos no menino, a aparência de fragilidade amoleceu-lhe o coração e a representante foi incapaz de dar bronca até mesmo em Naruto. Ao contrário da intenção inicial, desejou que Kiba se reestabelecesse e não se preocupasse com as aulas, o colégio sempre estaria no mesmo lugar e saúde era o mais importante de tudo.
Iruka-sensei, Anko-sensei e o diretor também foram ao hospital levar votos de uma recuperação completa e plena, infelizmente, quando passaram pelo quarto encontraram Kiba adormecido, mesmo ficando algum tempo pelo quarto não tiveram a chance de falar com o garoto, que lamentou a triste coincidência quando soube.
Era cada vez mais trabalhoso para ele ficar acordado, seu corpo travava uma luta interna para manter-se funcionando, todo chacra era investido em proteger os próprios órgãos sobrecarregados ao executar as funções habituais. Para recuperar essa energia, Kiba dormia e cada vez por um tempo mais longo.
Aburame Shibi conseguiu voltar do navio em que fazia suas pesquisas, ele usou alguns contatos, pois tinha acabado de embarcar quando recebeu a notícia. Não foi fácil sair pela segunda vez em tão pouco tempo, mas seu filho precisava da família, jamais daria as costas a Shino em um momento tão delicado. Ele chegou e ficou no antigo apartamento, presença silenciosa e forte que Shino sabia precisar.
Foi por esses dias que o novo artigo sobre o caso foi lançado, mostrando que a editora Uchiha não estava à parte da situação. Sasuke tinha o cuidado de não aparecer no hospital, o que teria um tom nada razoável, era um homem polido e pouco acolhedor, mas nem por isso queria parecer um abutre rodeando a tragédia. Para ele era suficiente reunir-se com Sakura em busca de informações técnicas, sem precisar interrogar o paciente ou seu companheiro diretamente.
O lançamento do artigo pareceu despertar mais interesse entre o público alvo. A notícia sobre a gestação rara de um Ômega adolescente atraiu olhares no meio acadêmico e Shino recebeu e-mails de reitores querendo marcar uma reunião para falar sobre o acontecimento único. O Alpha recusou todos os contatos, não estava preparado para discutir sua situação estando em pleno olho da tempestade. Depois que tudo se resolvesse bem, aceitaria participar das reuniões.
Foi assim que chegaram na data mais esperada pelos casais apaixonados e foi assim que as coisas atingiram o ponto mais perigoso que tentaram com afinco evitar: o Natal. No Natal que, infelizmente, a véspera fria pareceu congelar o animo de Kiba ainda mais.
Havia algo no ar, que tornava o clima denso, alguma premissa que incomodava o lado animal de Shino, uma espécie de instinto, algo com o qual não sabia lidar, que se esgueirou pelas frestas da janela e da porta, um prelúdio incômodo e silencioso, que veio sem convite e se espalhou pelo aposento.
Trazia consigo um frio que não atingia o corpo, conquanto parecesse congelar a alma, como tudo o de melhor que acontece com alguém, e também de pior. Chegou sem aviso, algo que...
— Nosso primeiro natal. — O Ômega sussurrou, observando a noite do dia vinte e quatro de dezembro pela janela do quarto, cortou a linha de pensamento de Shino e atraiu toda a sua atenção. — Era pra ser especial...
— E é. — Shino garantiu.
Estava sentado ao lado do leito depois de trocar o turno com Hana, aquela seria a noite da irmã de Kiba pernoitar no hospital, mas ela tornou-se solidária ao casal e cedeu para que Shino estivesse com seu companheiro. Ele chegou ali à tarde, trazendo um pequeno bolo de morango, viu os olhos do namorado brilharem animados e só. Kiba não demonstrou vontade de comer, talvez mais tarde, quem sabe?
Até mesmo aquela voracidade que lhe era tão característica estava desaparecendo, obliterada pelo cansaço físico que passou a ser marca registrada do garoto. Algo que levou Shino a se questionar sobre a prudência de adiar o parto até o ano novo, cada segundo que passava tirava um pouco da certeza de que Kiba aguentaria até lá.
— Ano que vem a gente capricha. — O Ômega prometeu.
Por algum motivo, aquela frase fez a garganta de Shino se apertar. Ele foi dominado por uma aflição difícil de explicar, não podia ver o rosto do companheiro, pois Kiba estava virado para o outro lado, os olhos perdidos na paisagem da noite. Tinha revelado o desejo de ver neve, seria tão legal, o natal recepcionado por neve branquinha.
— Faremos o que você quiser. — Venceu a ardência incomoda na garganta, tentando superar aquela aflição inesperada.
Kiba ficou em silêncio por alguns segundos. Então disse algo que surpreendeu Shino.
— Masako... — O nome não soou familiar.
— Masako? — Shino perguntou baixinho, com medo de que o outro tivesse começado a delirar.
— Eu sonhei com esse nome, mais de uma vez. — Kiba suspirou antes de continuar. — Nunca acreditei em vidas passadas, mas... Esse nome me passa carinho, sabe? Como se tivesse saído de uma vida diferente, em que você e eu também estávamos juntos. Isso é ser Almas Gêmeas, não é?
De repente havia uma bola amarga na garganta de Shino, dificultando o simples ato de respirar ou de falar qualquer coisa, mais distante do que as palavras de Kiba estava a própria energia, a própria essência Ômega. Foi como se o garoto estivesse indo para longe e tão súbito, que deixou Shino sem reação.
— Se eu não conseguir passar por isso a gente pode se encontrar de novo, sabe? Almas Gêmeas sempre se encontram...
Shino agiu sem sequer pensar no que fazia, ele apertou o botão ao lado da cama, o alarme que trouxe uma enfermeira até o quarto. A mulher chegou rápido, não era comum que aquele casal chamasse por ajuda, ela entrou no quarto e flagrou Shino parado ao lado do leito, segurando uma das mãos de Kiba e projetando a presença Alpha de modo a envolver seu companheiro.
— O que houve? — Ela perguntou com calma, tudo o que não precisava era provocar a parte animal de um Alpha estando ele numa postura tão protetiva.
— Ele não vai aguentar mais. — Falou com pesar. Os exames mostravam que dia trinta e um de dezembro era o limite para o corpo de Kiba, contudo a realidade não foi tão generosa. — Por favor, tente falar com Sakura-sensei, ela precisa vir aqui urgente.
A enfermeira sequer questionou, seus anos de experiência naquela profissão ajudaram a ver que Aburame Shino tinha razão. Relevando a parte animal e a ligação através do vínculo, qualquer enfermeiro treinado conseguiria ver a gravidade do estado do garoto.
O Alpha voltou sua atenção para o companheiro, Kiba ainda estava falando sobre o sonho que teve, sobre a ligação de Almas Gêmeas, frases sem muito sentido ou talvez fizessem sentido na mente do garoto, cujos olhos fixos na paisagem noturna da janela pareciam enxergar outro mundo. Uma outra vida.
Menos de três minutos cravados depois uma equipe de enfermeiros entrou no quarto. Diante do olhar estarrecido de Shino colocaram Kiba em uma maca, uma Beta teve o cuidado de aproximar-se dele e informar:
— Haruno-sensei está vindo, ela deu orientações para preparar a sala de operações, vamos antecipar o parto, Aburame-kun. — Hesitou um segundo, talvez tocada pela expressão perdida de Shino, então sorriu com simpatia. — Você vai ganhar um presente de Natal e tanto, hn? Seu filhote vai conhecer o mundo logo, logo!
Shino observou essa última enfermeira sair do quarto. Ficou ali sozinho, digerindo as informações que ouviu e compreendendo todas as implicações do que estava prestes a acontecer. Os olhos vaguearam pelo quarto vazio e silencioso, lágrimas queimando as íris deficientes, recusando-se a cair por trás dos óculos escuros.
Porque o medo que sentiu era grande, atingiu o lado Alpha como estacas de ferro dilacerando a alma ligada ao Ômega. Contudo restava algo muito maior do que essa dor, muito mais forte: Fé! Aburame Shino ainda tinha fé, e foi assim que ele notou os flocos de neve branquinhos caindo pela janela, a paisagem que Kiba tanto desejava ver, mas o Ômega já não estava ali para apreciar.
Notas Finais
É... o Kiba é forte, a gente sabe disso. Mas algumas situações não dependem apenas de força.
