Pigmentos de Amor
Kaline Bogard
Capítulo 32
A cor que se decompõe em tons e pigmentos
Shino ficou pouco tempo no quarto vazio, sufocando no silêncio frio que a leve nevasca colocava em evidência. Ele saiu para o hall de recepção, movimentado apesar do horário avançado na noite e sentou-se na última fileira de cadeiras, onde se pôs a ligar para família e amigos, avisando do ocorrido.
Shibi foi o primeiro a chegar. Localizou o filho e sentou-se ao lado dele, prontamente oferecendo apoio através do lado animal, eram pai e filho, eram amigos que se entendem no silêncio. Então chegou Naruto, esbaforido e corado, querendo todos os detalhes possíveis sobre o estado de seu melhor amigo.
Shino mal tinha acabado de resumir a situação para o Beta quando Tsume e Hana chegaram, obrigando-o a narrar pela terceira vez e uma quarta quando Ino juntou-se ao pequeno grupo. Cada vez que narrava, Shino sentia impacto idêntico ao que o atingiu no quarto, ainda tinha a sensação de perder Kiba nítida, impregnada em sua mente. Mil vezes ampliada porque não viu a cena em todos os detalhes, mas ela foi partilhada intensamente através do vínculo. Era indescritível e assustador.
Desse modo viram a noite acabar e se tornar a madrugada fria de vinte e cinco de dezembro, como não lembrar do desanimo de Kiba ao comentar sobre a data? Era o dia especial para casais de namorados. Lá fora, em poucas horas, Konoha estaria tomada por pessoas arrebatadas que tiravam o dia para celebrar o amor, trocar presentes e renovar a esperança para que a relação que os unia se tornasse cada vez mais forte e apaixonada.
E Kiba era tão empolgado com tudo o que fazia... Se doava, se animava, desde o começo, quando se encontraram com calma pela segunda vez, se mostrou um Ômega diferenciado, um garoto que rompia padrões e estereótipos, que não se assustava com limites impostos ainda que isso lhe trouxesse o mais pesado julgamento. Claro que alguém assim planejaria tirar o máximo do esperado Natal, tornando-o uma data inesquecível para o casal...
Todavia o Destino brinca com todos os planos sem piedade.
No dia que deviam celebrar o amor, Shino era obrigado a assistir quem tanto amava correndo risco imensurável, tanto para seu parceiro reconhecido quanto para o filhotinho gerado graças ao que sentiam. Sim, era a explicação que Shino encontrou para o milagre inédito, eram Almas Gêmeas, o poder dessa ligação fez com todos os paradigmas fossem vencidos e a nova vida germinasse apesar da imaturidade que a acolhia.
Era esse o tamanho da fé que tinha em ambos, na fé que tinha em Kiba, embora ter esse sentimento e alimentá-lo não fazia a dor desaparecer, sequer diminuir. Naquele instante seu querido Ômega estava lutando pela vida, pouca coisa doía mais do que querer ajudar e não poder, querer estar ao lado dessa pessoa, mas ter que acreditar em terceiros, acreditar nos médicos.
Se Shino pudesse, trocaria de lugar com Kiba sem pensar duas vezes, ainda que nascer em castas diferentes delimitasse o inferno pessoal e intransferível que cada ser vivo precisava enfrentar, Shino tinha sua cota, enquanto Alpha, que não podia colocar nos ombros de ninguém e assim também era com Kiba.
Se conheceram e se reconheceram como Almas Gêmeas graças à existência das castas. Certos obstáculos foram trazidos pela própria Mãe Natureza, que podia criar tanto com sabedoria quanto com crueldade, que podia acariciar com um aspecto e agredir com seu oposto, que dava a oportunidade de um Ômega engravidar vencendo limitações evolutivas do corpo, e camuflava nessa oportunidade riscos incalculáveis que podiam acabar com um sonho a dois da pior forma possível.
Castas em que os shifters traziam características eminentes às quais Shino nunca atribuiu importância para classificar as pessoas. Para ele pouco importava se era outro Alpha, um Beta ou um Ômega, ele acreditava que respeito deveria ser a base de qualquer relação humana e devolvia em medida igual tudo o que recebia dos demais.
E foi só ao conhecer Kiba que Shino foi capaz de compreender, de um modo abrangente, qual era a intenção da Natureza ao criar castas e, mais especificamente, Alphas e Ômegas, dando-lhes a oportunidade de conhecer outro ser humano tão integrante a si mesmo que somente nesse encontro predestinado se tinha a percepção dura e crua do quão incompleta é a própria existência.
Incompletude que foi varrida da história de Shino, pois Kiba preencheu todos os espaços vazios. Kiba, que amava tanto a aventura, as cores e tortas de morango. Kiba que o chamara para o primeiro encontro e lhe pagara um delicioso crepe na praça de Konoha, o garoto que tinha a surrada carteira com símbolos do Hokage... E que agora vagava na linha tênue entre a vida e a morte. Kiba que...
Nesse momento Shino sentiu um toque no ombro, quase ao mesmo tempo em que alguém lhe segurou a mão, Shibi e Hana, sentados um de cada lado no hall de atendimento, tentaram lhe passar o máximo de conforto que podiam oferecer e foi só então que ele percebeu que estava chorando. Quase em sequência o lado Alpha se manifestou um tanto incomodado e envergonhado pela demonstração de algo que a sociedade considerava fraqueza na casta. Ele era o companheiro de Kiba, era o único que jamais poderia fraquejar.
— Vamos tomar um café. — Tsume descruzou os braços e ficou em pé. — Você está precisando, rapaz.
Shino hesitou um pouco. E se trouxessem notícias de seu namorado enquanto estivesse na cantina? O toque de Shibi em seu ombro se intensificou, ele ficaria ali com Naruto, Ino e Hana, se alguma enfermeira viesse avisar sobre o estado de Kiba, o informariam imediatamente. Resolveu aceitar o convite, afinal de contas, era de Tsume que estavam falando, a pessoa que estava tão preocupada quanto Shino, e que nunca aceitaria um "não" como resposta.
A cantina não estava vazia, porém foi fácil notar lugares vagos para sentar. Shino fez menção de ir comprar algo e foi impedido por um gesto de mão vigoroso de Tsume.
— Pega uma mesa, moleque, eu compro algo pra gente.
O Alpha obedeceu. Escolheu um lugar tranquilo perto de uma das janelas, de onde podia ver a neve caindo, o cenário que se cobria de branco era aprazível, apesar de apertar-lhe o coração.
— Aqui... — Tsume sentou-se à frente dele na pequena mesa redonda e escorregou um copo padrão ocidental, que desprendia uma fumacinha do líquido preto fumegante, além do cheiro agradável de café. — Forte e com pouco açúcar?
— Sim, obrigado. — Pegou a oferta apesar de não estar com muita vontade. Foi apenas ao dar o primeiro gole que percebeu o quanto precisava beber algo quente. — Bom.
Tsume sorriu, também tinha trazido um copo para si, não comprou nada de comer, porque sabia que nenhum dos dois ia querer. Por alguns instantes apenas o silêncio reinou, até que a Beta suspirou e resolveu falar.
— Rapaz, você é um Alpha. — Ela afirmou com veemência, de um modo que colocou Shino na defensiva, pronto para ouvir a bronca. Alphas tinham um papel a desempenhar, e ele estava fraquejando no que era esperado, deveria ser forte e fluir essa força pelo vínculo, Kiba precisava dele.
— Sinto muito...
— Quieto. Não terminei. Que eu saiba o impulsivo da dupla aí é o Kiba, o moleque que tentei criar com juízo dentro da cabeça. Infelizmente às vezes acho que só tem ar lá... — Tsume sorriu de leve. — Mas aquele cabeça de vento é duro na queda, ele é um Ômega, imagina isso? E um dos moleques mais intensos que eu conheço. Shino, você é um Alpha, mas não precisa ser forte o tempo todo, eu entendo a sua dor, o seu medo e a sua tristeza. Você não está torcendo pelo Kiba sozinho, ninguém aqui vai te julgar, pode sentir o que tiver de sentir.
Shino até tentou explicar que o vínculo era um pouco diferente, Tsume era mãe de Kiba, eles tinham um laço de amor construído antes de o menino sequer nascer. Com Aburame Shino foi diferente, foi um reconhecimento visceral, foi um encontro de âmagos, algo tão... E ao tentar encontrar palavras para explicar a diferença ele compreendeu o mais básico da questão: Amor.
Falavam de amor ali, amor por uma pessoa querida que passava por uma dificuldade. Amor não se media e não se comparava, era o sentimento que unia todos ali: a amizade, a família, o tom romântico. Ramificações personalizadas que variavam de acordo com a relação que tinham com Kiba, fundamentalmente amor em cada uma de suas nuances, e seus tons. Ou pigmentos.
Como resposta pela oferta tão humana daquela mulher, Shino abaixou um pouco a cabeça e chorou, permitiu que as lágrimas levassem embora a angústia e o medo, desejou que com isso apenas a coragem e a fé continuassem em seu peito e era isso o que faria fluir através do vínculo até a sala de operações em que seu companheiro se agarrava à vida.
Quando voltaram para o hall do hospital, Shino estava mais calmo. Ele e Tsume dividiram o café e a companhia um do outro, a Beta mostrando que até no silêncio sua presença marcante era algo que não se podia ignorar. Ino os recepcionou com um sorriso, era uma jovem Alpha perceptiva, seu lado animal notou que Shino já não parecia mais tão pressionado, algo que vindo de outro Alpha era pontual e difícil de lidar.
Naruto estava cochilando sentado e babava um pouco, com a cabeça reclinada na direção de um dos ombros, ao acordar sentiria uma bela dor no pescoço! Ainda não tinham notícias de Kiba e assim ficaram até o meio da madrugada. Era por volta de duas e meia da manhã quando uma enfermeira veio pelo corredor interno, era uma das Betas que fazia parte do turno da noite. Sorria para o pequeno grupo, todos se levantaram para recebê-la, inclusive um desperto Uzumaki Naruto.
— Desculpe a demora em dar notícias, o procedimento foi complicado, como bem sabem. Haruno-sensei precisou continuar com Inuzuka-kun até agora, apenas me pediu para vir avisá-los. A situação ainda é crítica e o paciente foi encaminhado para a UTI, a filhotinha está na incubadora, logo Aburame-san poderá vê-la. — Afirmou essa última parte para Shino. — É o pai de uma linda Alpha, nascida à uma e dez do dia vinte e cinco de dezembro. Parabéns! E feliz natal!
Notas Finais
Aí gente, a família aumentou
