Severus saiu da mansão rumo a Hogwarts. Se sentia estranho com aquelas roupas, pois não estava nem um pouco acostumado com o uso de ternos com gravatas trouxas. Particularmente, não entendia os motivos que levavam Rodolphus a se vestir daquele modo. Ainda mais quando era um ferrenho defensor da pureza de sangue. De contra partida, o bruxo de cabelos negros e olhos de ônix, sendo mestiço, sempre escolherá as suas roupas seguindo modelos tirados dos livros que lia. Um estilo inegavelmente vitoriano e digno de ser utilizado como um verdadeiro exemplo da mais alta alfaiataria. Mesmo atrasado, quando adentrou o castelo e seguiu às masmorras, decidiu passar pelo seu quarto antes de entrar na sala e iniciar a aula. Apenas a ideia de que passaria dois períodos de seu dia com os alunos da Grifinória e da Sonserina, dividindo o espaço, já o deixava inquieto e nervoso. Considerava aquilo um verdadeiro pesadelo acordado e sua vontade era de amaldiçoar mais da metade dos adolescentes, pelos mais diversos motivos.
Por mais que tivesse se passado quase 3 anos completos, aquela turma, especificamente, a todo o instante lhe esfregava a ausência de Draco e de Hermione ali... e que falta eles faziam. A castanha, com o seu brilhantismo e inteligência, constantemente, mostrava uma postura analítica com relação às coisas ao seu redor e tão focada nos estudos. Já o loiro, mesmo sendo preguiçoso e vagabundo neste ponto, acabava se sobressaindo ao fazer pequenas observações e ponderações interessantes nos seus trabalhos. Refletindo sobre isso, o mestre em Poções, recordou o quanto tinha planejado tudo para o momento em que ambos cruzassem os portões do colégio e iniciar o seu primeiro ano. Para tanto, se dedicara a revisar todos os conteúdos que havia aprendido e memorizado ao longo dos seus anos como discente. Assim, estaria completamente apto para lecionar as aulas extras e entregar longos planos de estudo codificados que idealizara para os dois.
Como os conhecia bem, sabia que o menino, rapidamente, atingiria o nível NOMs, no terceiro ano, e, a bruxinha com os olhos de âmbar, estaria no do NIEMs. Sua convicção de que Hermione se transformaria em uma jovem muito mais fantástica e sagaz do que antes fora como aluna, o deixava diariamente animado e o incentivava a buscar ser um professor melhor... porém, seus projetos foram destruídos. Quando o ano letivo de 1991 iniciou, eles não se encontravam no meio dos alunos primeiro anistas. Aquilo o revoltara de tal maneira que, ao término da cerimônia de seleção das casas, se retirou de lá. Permaneceu uma semana desaparecido... era melhor tomar um porre e passar dias bêbado, perambulando pela Spinner's End, do que matar o primeiro aluno que ousasse cruzar o seu caminho. Principalmente, se este fosse Harry Potter... o que lhe daria um prazer imenso. Aquele menino era o anúncio de sérios problemas e crises de enxaqueca, pelo simples fato de existir.
Dando um meio sorriso, causado por aquelas últimas considerações, entrou na sala quase derrubando a porta para anunciar a sua presença e encerrar toda aquela algazarra. Não tinha a menor paciência para aguentar aquilo e, para piorar, avistou Harry sentado ao lado do seu fiel escudeiro, Ronald Weasley... algumas coisas jamais se alterariam, independentemente da realidade criada. Apenas por olha-los ali tão felizes e alheios ao que era importante, teve uma vontade imensa de azará-los. Entretanto, se controlou, por um tempo. Para não perder mais tempo olhando para aqueles jovens, aos quais considerava um grupo de cabeças ocas, fez um gesto com a varinha e a sua letra se desenhava no quadro precisamente. Ali eram listados todos os ingredientes da poção Drenhose, vulgarmente chamada de Sono sem sonhos, que os alunos deveriam fazer para entregar. Ao concluir a escrita, deixou claro que qualquer erro o levaria a descontar pontos da casa do responsável pelo transtorno. Porém, interrompeu a sua breve explanação, ao perceber que o menino de olhos verdes o encarava.
- Algum problema que queira compartilhar, senhor Potter? - questionou com uma expressão de completo desprezo. Nada no mundo o faria gostar, minimamente, daquela réplica de James Potter.
- Não - respondeu o mais jovem olhando para os seus materiais. Evitaria o confronto a todo o custo, pois Rony quase estava esmagando o seu pé com os pisões que dava para que ficasse quieto.
- Ótimo! Menos 50 pontos para a Grifinória pela arrogância e insolência do senhor Potter - disse ouvindo os protestos dos demais grifanos, o que o fez prosseguir:
- Com a petulância dos senhores, ousando me confrontar a minha autoridade, eu estou tirando mais 20. Se não calarem à boca, estarão todos em detenção até o final do ano e, cada um, perderá 100 pontos! - afirmou, depreciativamente, em voz alta o que deixou todos em absoluto silêncio.
Em meio a todo aquele remanso taciturno, os minutos foram passando rapidamente. Severus revisava os pergaminhos que se encontravam sobre a sua mesa e, vez ou outra, dava uma volta pela sala analisando como cada um executava os processos necessários para a realização da tarefa atribuída de um jeito satisfatório. Ao parar atrás da bancada da dupla de leões, vistos por ele como pseudo-heróis, a única coisa que concluíra era que não lhe significavam nada. Atestava, internamente, que se tratava de dois completos idiotas incompetentes, o que o levou a bufar e seguir até onde se localizava Neville Longbottom… situação que levou o bruxo a massagear as têmporas pela irritação crescente subindo pelas suas veias. Na realidade, não tinha o menor problema com aquele jovem, só não conseguia assimilar como alguém poderia ser tão atrapalhado para preparar uma poção, relativamente, simples.
Após alguns avisos finais e ordenar que lhe entregassem os frascos com amostras do que fizeram. O bruxo de cabelos negros, acidentalmente, deixou que os dois recipientes de Harry caírem da sua mesa e se espatifarem no chão. Como o menino se revoltou com aquela injustiça, teve a oportunidade de lhe conferir duas semanas de detenção diária, incluíndo os finais de semana, por seu atrevimento em desafiá-lo. Resolvido isso, em partes para curar a frustração que vivenciava naquele dia, esperou que todos se retirassem da sala para sair de lá. Precisava falar com Remus um assunto urgente.
Depois de percorrer os corredores a procura do outro, o encontrou parado próximo ao pátio interno da escola lendo uma carta atentamente. Pelo o que presumira, vendo o pedaço do selo que ainda restava colado ao pergaminho, se cognominava como novas solicitações do Ministério da Magia, conjuntamente ao Saint Mungus e algumas pequenas clínicas bruxas, para o envio de poções. A referente ao Ministério, sem dúvidas, era uma requisição para a seção de aurores. Quanto aos hospitais, certamente, se tratavam de demandas para reposição de seus estoques.
Diversamente ao que muitos ali imaginavam, os dois homens não trabalhavam em Hogwarts por carência ou obrigação. Mas, porque sentiam vontade de dar aulas mesmo… no caso daquele que carregava os olhos de ônix, seu interesse maior era nos alunos que, de fato, apresentavam aptidão para uma arte como a execução de todos os processos fundamentais para elaborar uma poção perfeita. Já o oposto, era o homem de cabelos castanho claro, que se alegrava ao se ver rodeado de jovens felizes e com sede de conhecimento. Mesmo que estes não fossem prósperos em muitas áreas, a sua empolgação diante do novo era o suficiente. Como um brilho estranho de contentamento se expunha naqueles olhos castanhos, o mestre em Poções se sentiu incomodado com aquilo e decidiu terminar com a satisfação demonstrada. Não era tão benevolente assim com aquele lobo para não o chamar para que prestasse atenção no que postularia acintosamente.
- Lupin, quero que este final de semana, você fique como responsável pelos alunos da Sonserina... e, já aviso, que não aceitarei gracinhas contra eles - exigiu ostentando uma expressão irritada.
- Bom dia para você também, Severus! Não se preocupe, que eu farei isso sem cogitar nenhum tipo de divertimento contra as suas serpentezinhas de estimação - afirmou calmamente, ao mesmo tempo em que pensava na botica de propriedade dos dois em Hogsmeade. Como Severus ainda o encarava sem esboçar qualquer reação, optou por mencionar as razões que o levavam a aceitar a responsabilidade de cuidar dos sonserinos por dois dias:
- A Elixires estará sob os cuidados da senhora Snape e da Virgínia. Sei que não o avisei, contudo, ela teve uma folga durante a semana para resolver problemas pessoas e vai trabalhar no domingo de manhã.
Olhando para o bruxo de cabelos negros, refletiu que jamais teria palavras ou gestos para agradecer toda a ajuda e amizade que aquele homem lhe ofereceu sem pedir nada em troca. Além de tê-lo auxiliado com a criação da Poção do Acônito e lhe dado um emprego, quando todos negavam por conta da sua condição. Propiciou uma vida digna, com a redução dos sintomas na lua cheia, com as variações feitas na solução. No início, foram tempos difíceis até conseguirem patentear a fórmula junto ao Ministério. Porém, tudo teria sido infinitamente pior se não tivesse recebido qualquer apoio na época. Remus, andava se sentindo um estorvo morando na mansão dos Black. Era horrível se ver como alguém que vivia de favor na casa dos outros, contando com a boa vontade, para ter uma existência digna. Entretanto, depois do registro e o sucesso da Elixires, ele e Severus enriqueceram o bastante para não depender de quem quer que fosse.
- Sobre o que era essa carta? - questionou o tirando dos seus pensamentos ao apontar para o pedaço de pergaminho com o queixo.
- Querem algumas poções. Com o crescimento dos interrogatórios chefiados pelo Moody... precisam até das Repositoras de Sangue - Remus deu um suspiro pesado e cansado com aquilo. Também se incomodava profundamente com os métodos de tortura empregados por aquele auror para arrancar verdades dos prisioneiros.
- Entendo… no entanto, o Prohibere Sanguinem ou o Sanguis Supprimitur não estão mais funcionando? Quando eu fui preso, servi de cobaia daqueles anormais e esses dois feitiços grosseiros - revelou expressando todo o desconforto que aquela lembrança lhe despertava. Nunca esquecera do quanto foi cruelmente atormentado por um grupo de aurores quando foi pego. Olhando para o outro bruxo, que aguardava alguma instrução de como responder, seguiu com as suas considerações quanto ao que deveria ser repostado:
- Avise a estes imbecis que, até quarta-feira, eles receberão toda a encomenda. Mas, adiante algumas Veritaserum para os interrogatórios. Deste modo, evitamos que aquele maníaco tente matar alguém sob a alegação de que está buscando a verdade - retorquiu já dando as costas para sair e começar a organizar suas coisas para a pequena viagem que realizaria.
- Severus? Você acha que Voldemort voltará e teremos uma nova guerra? - lançou um olhar preocupado em direção ao homem de vestes negras. A vida que todos levavam era, relativamente, tranquila depois do trágico término do primeiro confronto. Mesmo que alguns incidentes acontecessem, vez ou outra, a paz ainda reinava. Porém, a sombra do retorno d'Aquele-que-não-deve-ser-nomeado, deixava muitos amedrontados e sem grandes perspectivas de futuro.
- Lupin, ele retornará e o melhor é estarmos preparados para o que virá. Certamente, esse combate será mais violenta do que a anterior e todos nós lutaremos - concluiu fazendo um aceno com a cabeça antes de se retirar e deixar Remus preocupado para trás. Apesar de não admitir, aquilo era algo que lhe afligia profundamente… em especial, naquele instante em que começava a se encorajar para revelar os seus sentimentos à Nymphadora.
Em outro ponto do castelo, Severus meditava o quanto o outro era inocente quanto aos próximos passos do embate. Tudo era esquematizado secretamente por aqueles que detinham o poder e os tratavam como meras marionetes presas em seus cordões invisíveis. Se libertara disso ao procurar um novo mestre que o guiava para não fosse novamente subjugado por dois Senhores da Guerra como Voldemort e Dumbledore. Agradecia por, a cada dia que passava, estar mais próximo de revelar a sua real lealdade e incendiar o mundo bruxo com a verdade assombrosa que há tanto tempo escondia. Não necessitaria mais viver angustiado imaginando o que o Agoureiro aprontaria naquele ano ou nos posteriores.
A existência de Delphine se comprovara uma tortura diária. A odiava com todas as forças por sua dissimulação e perfídia. Era uma moça fisicamente linda e de alma pútrida, tal qual a um cadáver errático. Às vezes, se perguntava se possuiria sentimentos ou suas capacidades eram tão decompostas quanto as de seu pai. Nisso, definitivamente, não se assemelhava em nada a Bellatrix, em razão de que esta, amava até demais e com uma intensidade assustadora. A bruxa de olhos azuis era bem mais sádica que a mãe e dispunha de uma visão muito deturpada da vida. Basicamente, ao seu ver, o mundo teria de lhe ser devotado e lhe entregar o que governava. Não passava de uma jovem arrogante, prepotente, mesquinha, que se julgava o centro do universo por ser filha do Lorde das Trevas. Todavia, a verdade era apenas uma menina fraca que implorava por afeto. Quando o átimo preciso chegasse, se livraria dela e de todos aqueles canalhas que constituíam os Comensais da Morte.
Isso era um dos preciosos temas que necessitava conversar com o bruxo das trevas com quem fizera amizade. Já se achava farto de ter que dar relatórios mensais para Voldemort do que vinha sendo executado por sua tão fiel serva. Secretamente, se arrependia amargamente, do dia em que fez aquele maldito Voto Perpétuo e o Pacto de Sangue com aquele monstro. Conseguiria ter Hermione novamente se valendo de métodos bem mais eficazes e que não incluiriam um sociopata maníaco lhe cobrando deveres. Equitativamente, se mostrava cansado de notificar Dumbledore quanto as novidades das realizações e se a marca negra já se manifestara. Cercado por esta clareza quanto as suas perspectivas e insatisfações, Severus, não percebeu o quanto o tempo foi veloz como o vento de uma tempestade.
Na sexta-feira à noite, aparatou fora dos portões de Hogwarts e seguiu o seu caminho. Andando pelas ruas, observava atentamente todos os cantos desconfiado. Não poderia ser seguido sob hipótese alguma. Após percorrer algumas quadras, parou em frente ao prédio e entrou no local. Já se acostumara a fazer tantas vezes aquela trilha que a efetivava automaticamente.
- Quais são as novidades, Prince? - sorriu, vendo que o mestre em Poções ia em sua direção apressadamente, se livrando das vestes de ensino que ainda trajava.
- O Agoureiro anda muito silencioso, senhor. Creio que esteja premeditando algo muito sério - afirmou se sentando na poltrona que o bruxo apontara, esticando a mão para pegar o copo de whisky que lhe alcançara.
- Deixamos, então, que o tempo resolva esta querela interna. Uma coisa que o ensinei, e que sempre esquece, é que não se deve sofrer antecipadamente. O medo é o seu maior inimigo. Além disso, não queria agarrar o que se mantém fora do seu alcance. Veja, por enquanto, o que está a sua frente e não o horizonte - sorriu encarando Severus que lhe fitava pensativo.
- O que quer dizer exatamente com isso, senhor? - perguntou tentando ter a dimensão de onde aquele assunto iria parar depois daquela frase. O ancião era extremamente habilidoso com as palavras e dominava a arte do discurso e o modo de como conduzir o diálogo para os pontos que mais lhe interessavam. Isso o doutrinava muito sobre quais as táticas e movimentos diplomáticos que deveriam ser articulados com maestria, se quisesse obter o sucesso desejado para os seus intentos futuros.
- Refletiu a respeito da carta da linda Narcissa? Já se foram quase 5 anos, ao que me recordo, daquele fatídico dia em que apareceu na minha porta desesperado por conselhos e ajuda - retorquiu, permanecendo com o olhar fixo, ao mesmo tempo em que bebericava alguns goles da bebida em seu copo.
- Eu sempre penso naquelas frases… nunca vou entender como ela pode me amar. É ilógico! - suspirou tenso. Aquela era uma conversa que jamais gostaria de voltar a ter com quem quer que fosse. Era horrível ter de lembrar todo o sofrimento que causara a ela, que sempre lhe quis tão bem e o ajudou tanto.
- Como lhe disse aquela vez, você foi atrás do seu destino como um cego e arriscou tudo. Sua irresponsabilidade a deixou profundamente magoada e de coração partido… e o pior, é que você se apaixonou por ela também - sorriu abertamente diante da confusão claro que estava estampada nos olhos de ônix. Pela primeira vez, via os dois diabretes que viviam naquele olhar buscarem algum refúgio ou resposta para questões as quais não fazia ideia de que eram travadas internamente.
- Eu amo a minha rainha… o senhor tem o mais profundo conhecimento de que eu fiz tudo por ela e não abriria o meu coração a quem quer que fosse - respondeu perdido com tudo aquilo.
- Por conta do Elo… Prince, você exclui pessoas da sua vida e se isolou de uma maneira assustadora. Você quer que Hermione o veja apenas como dela. Esqueceu completamente que um pouco de ciúmes e insegurança alimentam qualquer relação sadia entre duas pessoas - argumentou tranquilamente diante da sua perplexidade. Uma vez que, o homem de cabelos negros passava as mãos no rosto, como se aquele gesto fosse capaz de reorganizar as suas ideias, o idoso deu seguimento as suas ponderações:
- Narcissa o valorizou pelo o que você é. Sem ressalvas, sem cobranças… como preferiu outra, ela lhe deu uma verdadeira lição de amor ao revelar o que alguém honrado age para garantir a felicidade da pessoa a quem dedica afeição - esperou que o outro se recuperasse e absorvesse tudo aquilo para continuar. Estava certo de que ficaria quase envolto a um monólogo pelo motivo de que os mais jovem não saberia o que falar.
- Eu li aquela carta atentamente quando você apareceu arrasado na minha frente. Ali era exposto de uma forma muito claro que ela lhe declarava os sentimentos mais profundos. Você é o amor da vida dela. Mas, o que aquela jovem fez? Não me responda… ela abriu mão dos seus próprios sentimentos para que a filha não perdesse o príncipe dos sonhos! - declarou repreensivamente.
- Sua visão de amor é muito deturpada, rapaz! Tudo gira em torno de paixão avassaladora, honra, morte, sofrimento, obsessão, submissão… uma percepção doentia de afeto que me dá o mais absoluto nojo e pena. Em resumo, você não sabe amar! - concluiu o desafiando a expressar abertamente os seus pensamentos mais profundos. Já passara da hora de decidir o que faria quando tivesse de tomar uma atitude efetiva para resolver toda essa confusão.
- Senhor, eu… - tentou, miseravelmente, exteriorizar o que se passava na sua mente. Contudo, as palavras lhe fugiam… tudo era muito difícil e doloroso. Sua mudez reticente era extremamente reveladora. Até mais do que um discurso inflamado.
- Siga tencionando e avaliando todos os prós e contras, Prince… é o que eu lhe peço neste ensejo. Uma hora, chegará a ocasião em que será imperioso que não perca o controle - atestou assertivamente vendo Severus concordava com aqueles enunciados.
- Vamos tratar de uma particularidade primordial que fomos deixando lado há anos dada a relevância e celeridade de outros temas que foram surgindo. Preste atenção… a cada dia que passa, estou mais convicto da iminência de que isso seja abordado - enfatizou em seu pequeno discurso a inerência da conversa que teriam ali. Aquele era o momento crucial em que, basicamente, uma boa parte da história dos dois se cruzaria definitivamente e não haveria mais como voltar atrás.
- Qual seria? - questionou com um olhar inquisitivo, expondo o quão atento se portava diante do que ouviria do bruxo.
- Abordaremos a sua importância na guerra e os motivos que me levam a querer ajudá-lo desde que me procurou - falou se ajeitando no sofá, em que se encontrava sentado, despretensiosamente. Seria um longo e complexo diálogo que teriam ali.
- Eu não atinjo o seu ponto de vista. O senhor pode me esclarecer onde quer chegar? Porque, particularmente, eu não me vejo como uma peça essencial nesse confronto - na sua cabeça vários cenários se desenhavam e, em todos, ele seria novamente utilizado como peça para o êxito de outras pessoas que sequer lhe valorizavam. Isso o deixava profundamente preocupado e, um pouco, revoltado de ser visto como um peão.
- É muito simples, você é neto do Credence Barebone que, na realidade, nasceu como Vespasian Prince. Para que ninguém descobrisse esse segredo, eu alterei documentos no Ministério quando eu o encontrei. Só foi possível com o emprego de uma série de feitiços que escondem por debaixo de toda aqueles papéis a verdade dos olhos desatentos dos burocratas - afirmou com um semblante de êxito diante do olhar de espanto e sobressalto recebido em troca. Ter ciência de tudo aquilo deixava o mais jovem bastante perplexo.
- Ele foi morto… Eileen me garantiu que éramos de um ramo distante da família. Porque ela nunca me contou isso? O que ela ganhou me mantendo na ignorância durante todos esses anos - gritava caminhando de um lado ao outro confuso.
- Sua mãe fez isso por ser um segredo muito bem guardado. Seu avô foi sequestrado quando bebê, por ser um dos sangues mais puros do mundo bruxo. Ser um Prince, significava simbolizar a realeza e tudo o que os demais deveriam se tornar… se você soubesse, alguém aproveitaria qualquer chance para assassiná-lo - indicou o ponto ainda obscuro que se evidenciaria mais além.
- Isso é loucura! Aliás, caso o senhor queira ter ciência de como as coisas funcionam, eu quase fui morto sem ter a menor ideia de toda essa confusão - afirmou Severus abismado.
- Não, não é em absoluto. A pessoa que permitiu que quase fosse executado, sempre teve interesse pelo extermínio dos Prince. Quanto ao seu avô, ele foi levado aos Estados Unidos por conta de que um dos sequestradores não ter coragem de assassinar um bebê indefeso. Confesso que quando o localizei, ele passava por grandes dificuldades por ser um Obscurial e era maltratado pela mãe adotiva. Uma mulher repugnante, quero ressaltar - afirmou. Sem dar espaço para qualquer pergunta, deu continuidade a sua narrativa:
- Sua avó se chamava Queenie Goldstein. Ela era mestiça, por ser filha de uma bruxa com um judeu… - antes de terminar a sua arguição referente a este ponto, foi subitamente interrompido pelo jovem.
- Quer que eu acredite que eu sou sobrinho neto do Newton Scamander? Só pode ser brincadeira e de muito mal gosto… - falou rumando em direção à porta, porém foi impedido de sair.
- Não faria piada de uma questão tão séria e os tempos eram outros. Quando eles chegaram à Europa, o Ministério ainda tratava casos como o das Goldstein como sangues puros de segunda linhagem. Mestiços eram os filhos de pais bruxos e mães trouxas. As coisas só foram alteradas, depois daquele duelo, em 1945 - percebendo o silêncio aterrador do homem de cabelos negros, o mais velho se manteve sustentou a sua postura altiva para proferir o seu exposição de maneira mais esclarecedora possível:
- Perceba, Prince… se as leis tivessem sido preservadas, você seria considerado um sangue puro. Ninguém contestaria isso… por esta razão, Tom Riddle se vê como tal. Ele se graduou em Hogwarts nessa mesma época e empreendeu o seu projeto de poder - respirou fundo e continuou:
- Antes que pense que eu o faço por ser bondoso e gentil, asseguro que está enganado. Esse será o meu último confronto no mundo bruxo e eu quero ter o meu êxito como general! O que eu ambiciono é que assuma o posto deixado pelos seus avós - respirou profundamente dando espaço para que Severus, finalmente, falasse o que tanto lhe afligia.
- Quero que me elucide uma coisa, senhor. Como uma sangue puro, filha de uma exímia Legilimente e, um Obscurial, casou com o pior tipo de trouxa que existiu? Como ela aceitou se unir com a escória, sem qualquer resquício de sangue mágico? - interrogou sondando os pontos que ainda não lhe eram claros, praticamente, exigia que fossem dadas respostas urgentes.
- Eis aí o ponto em que você se engana! Nunca lhe ocorreu os motivos que levaram o Riddle a ter ordenado que sua mãe casasse com o Snape? Ou quando amaldiçoou Andrômeda, a enviasse, justamente, a ele? - retorquiu com novas observações que amplificavam a gama de questionamentos.
- Para a Eileen, foi uma ordem de que ela lhe entregasse um general mestiço que o auxiliasse na guerra. Eis-me aqui como prova da sua tarefa realizada! Já a Andy… foi uma punição hedionda, para humilhá-la com o lixo - declarou aborrecido e sentindo uma raiva muito forte crescendo dentro de si. Sua vontade era de estuporar aquele velho bruxo e sair de lá. A iria já estava latente em cada gota de seu sangue.
- É um belo ponto de vista… mas, lhe asseguro que se não existisse qualquer tipo de sangue mágico no Snape, você não teria tanto poder e, a sua irmãzinha, não seria uma metamorfomaga - sorriu vitorioso com o abalo que causara com aquela certificação. Sem esboçar qualquer reação ou dizer qualquer palavra, o mestre em Poções preservou a sua postura rígida e observadora quanto a tudo o que lhe era contado. Seu olhar era completamente taciturno e interrogativo o que levou o idoso a responder o que não lhe fora perguntado:
- O Snape não era um trouxa qualquer, por ser filho de uma cigana e um bruxo abortado, meu caro. Certamente, você conheceu a sua avó… Pollyana Laine era uma rainha entre os seus iguais. Falava com os mortos e via o futuro e, definitivamente, era uma mulher forte e interessante em vários pontos - respirou fundo, refletindo aquelas palavras como se estivesse relembrando de muitas coisas que vivera no passado e prosseguiu:
- Seu avô, Arthur Shackleford, foi renegado pela família por conta de sua condição. Por consequência desse abandono, ele adotou o sobrenome Snape para se distanciar de tudo aquilo que o feria. Isso faz com que seu pai apresentasse sangue mágico, mesmo que não tenha desenvolvido nenhuma aptidão, além da violência física - atestou.
- Eu discordo da sua visão, mesmo que isso soe impertinente, senhor. Ciganos são trouxas - desabafou diante de tantas informações fortes que lhe foram expostas em tão pouco tempo. Não era fácil escutar a história de sua família sendo revelada por outra pessoa que não era a sua mãe. O que o deixava mais desconfiado com relação as reais intenções que Eileen tinha com relação a ele. De tudo, a única coisa que concluía era que a relação, já tensa entre os dois, pioraria significativamente depois daquilo.
- Bobagem! Eles são uns dos mais raros povos que fazem a ponte entre os dois mundos com maestria, como feiticeiros. É por esta razão que são tão perseguidos pelos trouxas. Então, meu jovem Prince, se orgulhe! Você é a realeza pelos dois lados e tudo o que o Riddle defende é uma piada aos meus ouvidos. Imagine perseguir trouxas congênitos por não os considerar bruxos…- riu alto mantendo uma tranquilidade. Ao mesmo tempo, Severus, fazia um gesto de negação com a cabeça baixa.
- Aliás, não se vista mais desse jeito. Você tem 34 anos, é jovem! Use ternos, corte esse cabelo e pare de agir como um viúvo inconsolável. Você é um Prince e quer casar com uma Black. Se inspire no seu avô, ele sabia se vestir muito bem, depois que se tornou meu amigo próximo - foi em direção ao mais jovem, o pegando pelos ombros, olhando fixamente dentro dos olhos para terminar:
- Deixe claro que não permitirá que a sua linhagem seja esquecida ou perdida. Não deixe que a história se repita e os Príncipes Negros sejam impedidos de existir. Lute por isso!
Aquela longa conversa foi esclarecedora e aterrorizante, em vários pontos, o fazendo modificar as suas atitudes terminantemente. Seu foco era se vingar de quem permitiu a morte de Hermione. Passou meses refletindo sobre isso. Dumbledore não se interessava pela volta da realeza bruxa. Fingira apoiar o casamento dos dois, para depois destruir a sua vida com o peso de um assassinato nas costas. Em seu plano sórdido, se Bellatrix realizasse o seu trabalho com êxito, os dois morreriam e não haveria qualquer possibilidade do surgimento de novos príncipes. Aliás, se tudo desse certo, Sirius seria assassinado, Narcissa acabaria abortando a criança que esperava e a linhagem masculina dos Black se extinguiria.
Como não queria contar apenas com a sorte, mesmo depois de morto, sustentou os seus planos mais sombrios. Impediu que o quadro de Phineas Nigellus Black fosse avisar o casal formado por seus descendentes de que deveriam segurar a menina em casa ou que buscassem uma forma de impossibilitar a morena de torturar a própria filha… ali estava a oportunidade de que as crianças não tivessem qualquer probabilidade de existir. Porém, tudo o que o bruxo de olhos azuis premeditara falhou. A loira fizera um feitiço de sangue para a proteção dos bebês.
Essa era a resposta que, por anos, procurara de quais eram os reais motivos para que Dumbledore o quisesse morto. Aquele ancião conhecia profundamente a história e queria destruir tudo o que levasse ao retorno da magnificência do antigo império dos Prince Black. Voldemort, por outro lado, ignorava a dimensão de toda aquela questão dos Príncipes Negros, só enxergando ali a viabilidade de ter alguém forte para casar com o seu Agoureiro. A percepção de toda essa trama, que sempre esteve além da sua compreensão, levou Severus a seguir os conselhos que lhe foram dados.
- Quando eu perdi a mim mesmo, me lembrei de você… linda rainha - pensou enquanto via o alfaiate tirando as suas medidas para os seus novos ternos negros. Aquelas vestes revelavam a sua consciência de quem era e de onde iria chegar. Nada o deteria. Se tornaria ainda mais digno do amor dela, quando a encontrasse, se portando como um sangue puro e sem se autoflagelar. Exigiria a volta do sobrenome Prince a lista dos Sagrados… era uma questão de honra e de reaver tudo o que lhe fora roubado.
Com o encerramento do ano letivo, para despistar Dumbledore que já se mostrava desconfiado da postura adotada por Severus nos últimos tempos, decidira viajar para a Argentina. Via aquilo como uma oportunidade ótima para espairecer e sair um pouco daquele hospício que se tornara a sua vida. Além de que, igualmente, seria uma viagem de estudos para a efetivação de algumas pesquisas e coleta de plantas, relacionadas às práticas de curandeirismo dos indígenas americanos.
Logo, nos seus primeiros dias em Buenos Aires, começou a ter estranhas visões do Castelobruxo e uma sensação de que algo importante iria acontecer a qualquer instante. Inicialmente, não deu valor àquilo, concluindo que era apenas algo por conta de preocupação do que poderia estar se desenrolando na Grã-Bretanha. Ao mesmo tempo, manifestava interesse com o desenvolvimento de um affair iniciado por acaso. Mesmo que não quisesse admitir, estava encantado com aquela bela argentina que conheceu em uma noite que foi jantar no Patagonia Sur. No entanto, não durou muito… as imagens daquela escola se tornavam cada vez mais fortes. Isso o impulsionava a seguir para lá. Precisava saber o que se desenrolava de importante ali para estar tão obsessivo com aquele lugar.
Antes do dia 10 de junho, chegou em Manaus e iniciou uma verdadeira busca por um barco que o levasse até o colégio imediatamente. Mas, parecia impossível encontrar um bruxo disposto a fazer a viagem para lá… sem pensar duas vezes, resolveu aparatar, desaparatando nas proximidades dos portões. Não prestando muita atenção no seu entorno, apontando o seu foco para adentrar logo nos terrenos da escola. Foi então que sentiu o seu corpo se chocar com o de alguém.
- Ah, meu Merlin! O senhor não olha por onde anda? - esbravejou aquela voz feminina que, instantaneamente, foi silenciada como se estivesse em choque com o que vira.
- Me desculpe, senhorita! - disse abaixando os olhos para ver quem era a jovem atropelada. As palavras também lhe faltaram. Com os olhos arregalados, assim como os dela, perdeu, totalmente, a dimensão do tempo e do espaço. Ficaram os dois ali parados sem perceber quanto tempo ficaram olhando um para o outro.
