Pigmentos de Amor

Kaline Bogard

Capítulo 33
A cor de um novo existir

— Desculpe a demora em dar notícias, o procedimento foi complicado, como bem sabem. Haruno-sensei precisou continuar com Inuzuka-kun até agora, apenas me pediu para vir avisá-los. A situação ainda é crítica e o paciente foi encaminhado para a UTI, por garantia. A filhotinha está na incubadora, logo Aburame-san poderá vê-la. — Afirmou essa última parte para Shino. — É o pai de uma linda Alpha, nascida à uma e dez do dia vinte e cinco de dezembro. Parabéns! E feliz natal!

O alívio foi imediato e compartilhado por todos. Uma etapa vencida com êxito era parte do que mais desejavam, metade do peso que cada uma daquelas pessoas carregava no peito foi retirada.

— Podemos vê-lo? — Shino perguntou.

— Temo que não. Haruno-sensei vai terminar a técnica na UTI, é um jutsu muito específico que não pode ser interrompido até a finalização. A filhotinha está sendo acomodada, assim que for possível liberaremos pelo menos as visitas ao senhor. — Ela sorriu para Shino antes de reverenciar de leve e voltar para o interior do hospital.

Tão logo ela se afastou e o silêncio envolveu o grupo. Eram boas notícias, mas não na totalidade que queriam, precisavam aguardar mais. Graças a Naruto o clima estranho foi dissolvido, ele aproximou-se de Shino e acertou um tapa sonoro no ombro do Alpha.

— Parabéns, Aburame-touchan! — Riu, já tinha se encontrado com Shino várias vezes naquele quase um ano de relacionamento com seu melhor amigo, fato que fazia Shino melhor amigo por tabela. — Acabaram-se as noites de bebedeira, adeus farra! Quero ser padrinho da pirralha, mas não sei trocar fraldas! — Foi impossível não descontrair com a brincadeira.

— Parabéns! — Ino deu um passo a frente e abraçou Shino. — Eu quero ser a madrinha, não me importo em um pouco em trocar fraldas! Mesmo se o pacotinho não for muito aromático... — E torceu de leve o nariz empinado.

Hana também abraçou forte, dando congratulações pela nova vida que vinha aumentar os Inuzuka, era sua família crescendo! Tsume e Shibi foram menos efusivos na demonstração de felicidade, o que não diminuía em nada a emoção que sentiam.

— A gente podia comprar sake pra comemorar! — Naruto lançou no ar, ganhando olhares de ceticismo e incredulidade.

— Boa tentativa. — Tsume aliviou o lado do garoto, a mente maligna por trás dos planos infantis que, em via de regra, colocavam a ele próprio e ao Kiba em confusão.

A interação quebrou a tensão em que se viam presos durante o arrastar das últimas horas. Depois disso, esperar foi mais ameno, sem o medo intrínseco de que a qualquer segundo alguma enfermeira viesse para dar notícias ruins. Não tiveram que esperar muito, passava pouco das três e meia da madrugada quando a mesma enfermeira voltou para buscar Shino.

— Venha conhecer sua filha. — Ela o chamou com um gesto de mão.

O rapaz levantou-se e passou as mãos suadas pelo casaco, o coração bateu rápido no peito e o lado Alpha se agitou um tanto.

— Coragem, homem! — Tsume riu do lugar em que estava sentada.

— Ficaremos esperando por detalhes. — Hana estava tão ansiosa para conhecer a sobrinha, esperava que logo liberassem acesso para as demais visitas.

Foi o incentivo para que Shino se colocasse em movimento e alcançasse a Beta que o aguardava. Seguiram lado a lado pelo corredor interno até o elevador.

— Sua filhotinha está no Berçário de Alto Risco, é uma bebê muito prematura, por isso precisa de todos os cuidados que o hospital pode oferecer. Vou te auxiliar em uma série de procedimentos para ter acesso à ala, também vou pedir que seja o mais silencioso possível. Mantemos o ambiente controlado, o som pode ser muito prejudicial para os bebês em internação.

Shino prestou atenção em cada palavra, preocupado em não fazer nada errado. Pararam no andar do berçário e o elevador se abriu dando passagem para uma área antecedente, que era um espaço pequeno, com um lavatório, um armário de metal com porta dupla e um grande tambor de plástico tampado. A enfermeira o levou a pequena pia e pediu para que fizesse a assepsia das mãos com o sabonete líquido antibacteriano, ação que ela também realizou.

— A visita de cada criança tem duração controlada e acontece em horários diferentes, não podemos ter muitos visitantes no Alto Risco ao mesmo tempo. Poderá voltar amanhã às treze horas. — Explicou enquanto abria a porta do armário e tirou um conjunto de avental e touca num tom verde água, oferecendo-os ao Alpha. — Preciso que coloque isso, não é a última moda em Konoha, mas...

— É para proteger minha filha. — As duas palavras finais soaram engraçadas ao ouvido de Shino, estava a poucos passos de conhecer a filhotinha que aprendeu a amar naqueles meses, por quem torceu e sofreu essa madrugada inteira.

— Isso mesmo! — a enfermeira cortou a linha de pensamentos em que a mente de Shino ameaçava se perder.

Ambos se vestiram em silêncio. Como última parte do processo, a jovem mulher lhe entregou sapatilhas de plástico da mesma cor dos demais itens, para que colocasse sobre os sapatos, iam entrar num espaço delicado, precisavam evitar qualquer risco de contaminação que ameaçasse as crianças ali internadas.

— Pronto? — A enfermeira perguntou.

— Sim. — Shino respondeu.

Ela abriu a porta e cedeu passagem, o rapaz se viu saindo entrando em uma sala ampla e com iluminação menos intensa do que no restante do hospital. Na parede em frente à porta havia uma fileira com cerca de doze incubadoras acopladas à parede, um sistema complexo de fios e aparelhagem que davam suporte às vidas infantes, pelo menos três daquelas máquinas tinham um filhotinho sobrevivendo em seu interior. Um Beta enfermeiro estava parado em frente a um dos bebês, observando e anotando algo em um prontuário. Cumprimentou Shino com um gesto breve de cabeça e voltou às atividades de análise, era um jeito ético de mostrar que sua atenção estava ali e que o recém-chegado tinha privacidade (na medida do possível) para ver sua bebê.

Lendo a surpresa na face do Alpha, a enfermeira explicou:

— Nascimento de prematuros é mais comum do que pensa... — Falou baixinho. — Principalmente quando nascem de um casal Alpha e Beta, os genes da sua casta são uma combinação perfeita para a casta Ômega, com a casta Beta nem sempre se mostra tão boa.

— Entendo.

— Seu bebê está ali. — Ela apontou a primeira incubadora, a mais afastada dos outros três bebês, na ponta extrema. — É nossa única princesinha, vá conhecê-la, leve o tempo que precisar.

Shino assentiu, caminhou naquela direção, o coração ia aos saltos. Assim que se aproximou o bastante ele sentiu e nada no mundo poderia colocar em palavras a sua reação. Seu lado Alpha, completamente em alerta sem que a parte racional se desse conta, captou a energia fraquinha e frágil que emanava do bebê.

O reconhecimento veio instantâneo, a essência Alpha se propagou e envolveu o corpinho minúsculo antes mesmo que Shino estivesse perto para ver os contornos em preto e branco, privado de detalhes graças à deficiência com a qual nasceu.

O pai reconheceu a própria cria, a filhotinha respondeu ao chamado, emanando chacra na medida em que lhe era possível, de modo frágil e delicado, o bastante para ser sentida e apreendida, mais do que isso, a pequenina tirou forças da presença de Shino, que pode senti-la absolver um tiquinho da energia de seu pai.

Compreendeu o poder de um laço de sangue unindo duas vidas diferentes, mas carne da própria carne, cerne do seu cerne. A criança que nasceu da união de Almas Gêmeas, cuja base para dar-lhe existência sempre foi o amor.

Shino nunca passou por algo igual, tão impactante e instintivo. Seu lado protetor transcendeu qualquer limite, assim que parou ao lado da incubadora teve a maior certeza de todas: por aquela criança enfrentaria qualquer obstáculo, por aquela criança carregaria o mundo nos ombros, por aquele bebê daria a própria vida.

Ela era tão pequenina... E parecia ainda menor dentro daquela caixa de vidro. Observou com calma os contornos em preto e branco, o corpinho minúsculo, já todo formado: os pezinhos encolhidos, as mãozinhas que descansavam junto ao rosto, cada um dos dedinhos que pareciam brinquedo! Estava enrolada em uma manta branca, com o logotipo do hospital.

Perdia detalhes minuciosos, mas notou a expressão séria, a ausência de sorriso. Seria algo inerente aos bebês ou um traço trazido como herança do sangue Aburame?

— Seu nome é Masako. — Falou tão baixinho quanto pode. — Seja bem vinda.

A filha não deu qualquer indicação de ter ouvido, todavia o lado Alpha reagiu de modo positivo, com uma grande certeza naquele instante: o nome atravessou a barreira do vidro, alcançou a infante Alpha, trespassando-lhe a pele e os músculos, alcançando-lhe o âmago e marcando-lhe a alma.

Shino admirou a filhotinha por mais alguns segundos, captando a respiração calma e a presença, essa última foi o ponto que mais o tranquilizou, não era forte, conquanto fosse... Firme. Era uma essência Alpha, inegável e estável. Aquela menininha veio ao mundo antes do tempo certo, mas ela veio para ficar.

A certeza do bem estar da filha acalmou as emoções de Shino, meio relutante afastou-se da incubadora, a enfermeira Beta o esperava perto da porta.

— Tudo bem aí? — Ela perguntou, sabia que a emoção era grande para qualquer um, independente de casta.

— Sim, obrigado. — Shino respondeu enquanto saía. — Ela é perfeita.

— Vocês escolheram o nome ou não tiveram tempo?

— Masako. Ela se chamará Aburame Masako.

— Lindo nome, parabéns! Ela é muito forte, é a mais novinha aqui da ala. — então apontou o tambor de plástico. — Preciso que coloque o avental, a touca e as sapatilhas ali para lavagem e descontaminação. Lave as mãos do mesmo jeito que fez para entrar no berçário, é procedimento padrão.

Shino obedeceu. A própria enfermeira tirou o avental verde e demais itens que vestiu por proteção e colocou para serem limpos antes de regressarem para o armário de metal e serem usados novamente.

— Recuperou-se da emoção? — A enfermeira soou divertida.

— Sim, consegui sentir quando nossos Alphas se reconheceram, foi... Incrível!

— Essa é a parte maravilhosa das nossas relações, a equipe é treinada para conter a presença animal, é raro acontecer de um bebê se vincular ao médico ou a alguma enfermeira. A grande maioria vai bem assim: os pais conseguem reatar o laço que começa na gestação.

Shino balançou a cabeça, ainda maravilhado.

— Entendo o que quer dizer, senti a energia da minha filha, foi uma energia desconhecida, mas familiar, me faltam palavras para explicar. — Suspirou. — Obrigado por ajudá-la a nascer.

— Estamos aqui pra isso, não escolhi a pediatria neonatal por acaso. Então venha comigo para a segunda rodada de emoções, Haruno-sensei orientou que após apresentar sua filha, o levasse direto para a UTI, ela permitiu que visite seu companheiro!

Shino não soube definir o misto de emoções que o dominou ao ouvir a informação. Embora, analisando depois, alívio fosse o mais contundente, seguido de perto por alegria. Compreendeu a liberação como a prova de que o pior havia passado e ele não podia ter se enganado mais.