Snape acordou e achou que havia sonhado com aquela noite. Tantas e tantas vezes já tinha fantasiado com Hermione em seus braços, o amando novamente e perdoando os seus crimes e erros, que aquilo só poderia ser apenas mais uma ilusão. Ao se virar para levantar da cama, sentiu aquele cheiro que o enlouquecia... era ela, dormindo tranquilamente com a respiração sossegada ao seu lado. Ela achava-se enrolada nos cobertores, encolhida, como uma pequena lagarta em um casulo. Provavelmente, julgava que aquela era a melhor maneira de se proteger do frio, sem acordá-lo, se aninhar ali tão quieta e linda. Ele sorriu imaginando a cena e o quanto a sua castanha era doce e adorável. Não demorou muito para que a puxasse para perto de si. Queria aquecê-la com o calor do seu corpo, como fizera muitos anos antes em uma madrugada gélida na Torre de Astronomia, ou, talvez, quando conversavam próximos ao lago Negro.
Estranhamente, aquela lembrança o entristeceu... e o fez pensa em como teria sido, se ela não tivesse ido embora. Certamente, teriam concluído os estudos em Hogwarts e casado. Ele não se tornaria Comensal da Morte e, era provável, que alguma coisa aconteceria os fazendo criar Nymphadora juntos e gerado muitos filhos. Seriam crianças lindas e, já teriam se tornado jovens... quase adultos. Teria feito as suas pesquisas em bioquímica, engenharia química e farmácia, possivelmente, trabalharia em um hospital ou daria aulas em Oxford... não ficaria rico, mas daria uma vida digna à esposa e para as suas crianças. Era doloroso pensar nesse presente que nunca existiu. Pela primeira vez, Snape sentiu que algo tinha sido roubado dele, o que o fez chorar e a mágoa de não ter sido amado por tantos anos e, quem sabe, a vida toda não foi mais contida explodindo como uma avalanche sem qualquer controle. Era uma angústia tão grande que o dominava, que o fez sentar-se na cama abraçando o próprio corpo, apertando os joelhos contra o tórax, como se tentasse se proteger e reprimir o que sentia... mas, era difícil. Bellatrix realizara o sequestro da sua memória, do seu direito de sofrer, de chorar cada minuto aquela saudade que o sufocava, de vivenciar a ausência que ele sentia do seu amor... ele não teve a chance de superar o luto que a separação de Hermione causara e, desde que recuperou as suas lembranças, ainda não conseguira o tempo necessário para que o fizesse e terminasse com aquele paradoxo da presença-ausência que apertava o seu coração cada vez que a via.
A castanha acordou assustada com os soluços altos dele... ela, em partes, sabia que o fizera sofrer, viu a dor nos olhos dele antes de partir. Entendia que quebrara o coração dele e que era a responsável por todo aquele suplício e mortificação. Hermione passou os dedos por toda a extensão daqueles cabelos negros, procurando passar conforto e, Snape, a puxou para si. Apertou forte contra o peito e ficou repetindo baixinho:
- Nunca mais me deixe, nem que seja por um segundo... eu não vou aguentar te ver partir outra vez. Eu te amo... amo tanto.
Foi, então, que ela reparou mais atentamente nos pulsos dele. As cicatrizes eram profundas e mostravam o quão desesperado e sozinho ele tinha ficado com a sua partida. Se deparar com aquela realidade fez com que o seu coração se despedaçasse... por sua culpa, ele julgou que jamais seria digno do amor de alguém. Possivelmente, vários sonhos inconfessáveis foram destruídos. Mas, ela estava decidida a refazer cada um deles. Seriam felizes juntos! Constituiriam, finalmente, uma vida e uma família. Se teriam ou não filhos, pouco importava naquele momento, pois, teriam um ao outro e nunca mais o abandonaria ou permitiria que ele se sentisse solitário novamente. Hermione ergueu a cabeça o olhando, beijou o seu queixo, fazendo com que ele a olhasse. Assim, ela disse para Snape:
- Você é o amor da minha vida, Severus. Eu nunca mais vou cometer o erro de te deixar – sorriu triste, beijando os lábios que tanto amava.
-Promete? – respondeu acariciando o rosto dela, enquanto a olhava com verdadeira adoração.
- Sim... – sussurrou.
- Hermis... Hermione, sempre foi você. Até quando eu nem imaginava que existia, alguma parte de mim já te amava. Eu me tornei homem no exato momento em que eu te fiz mulher. Acredito que... é horrível dizer isso... mas, eu tenho que ser sincero... certamente, foi e é apenas com você que eu me senti assim, homem e não um animal que só agia pelo mero instinto de sobrevivência ou como se estivesse no cio – Snape a olhou preocupado e Hermione via como se todas as engrenagens da cabeça dele estivessem girando freneticamente ao mesmo tempo. Ele sentia medo de que ela fosse embora, que o deixasse a qualquer instante. Via o momento em que a sua castanha o olharia e diria que tudo aquilo não passara de um erro terrível. Que ele era sujo e desumano e, que ela, merecia um futuro muito melhor do que ao seu lado. No entanto, foi tirado dos seus pensamentos e do pânico que começava a crescer no seu peito, ao ouvi-la:
- Severus, eu sabia que seria difícil para você me esperar... mesmo que não fosse uma ideia agradável, era algo que poderia acontecer. Embora, não acredite, você é um homem atraente e suficientemente capaz de conquistar qualquer mulher. Eu só não tinha a dimensão da gravidade de como isso aconteceu, do modo que foi feito e você se viu sem uma parte de quem era. Foi cruel, doentio e totalmente sórdido o que a Bella te fez – Hermione dizia, ao mesmo tempo em que, se encaixava mais perto, enterrando o seu rosto entre o pescoço e o ombro dele. Queria que ele sentisse o amor dela, que ela jamais desistiria... era bom respirar o aroma e sentir o calor do seu corpo.
- Você já pensou que foi essa a mulher que te pôs no mundo? – ele já conseguira cessar as lágrimas e acariciava os cabelos dela. Aquilo proporcionava uma sensação boa, de paz e sossego. Como se um bálsamo fosse jogado sobre cada uma das suas dores.
- Já... e eu não tem sentimentos por ela por conta disso. É terrível, mas é a verdade – ela respirou fundo e ficou pensativa. De fato, era terrível o pensamento de que, aquela mulher que a odiava, era a responsável pela sua existência. Hermione não conseguia compreender como Bella teria sido capaz de gerar uma criança, sendo um ser tão execrável e frio. Simultaneamente, se sentia péssima por não conseguir perdoar aquela que a era a responsável por sua existência.
- A verdade nem sempre é bonita... e eu te entendo – a afastou um pouco para olhar em seus olhos, enquanto falava o que considerava que era o certo para ser dito naquela ocasião:
- Também não observo como digno de sentimentos o Tobias... embora as situações sejam distintas, ambos nos trataram como aberrações e nos agrediram de algum modo. Eu não gosto do Sirius, mas dê uma oportunidade a ele. A Cissa me contou o quanto ele te procurou até ser preso. Ele queria você na vida dele, foi humilhado pelos pais e pelos tios... lutou para cuidar da criança que representava todo o amor que sentiu pela Bella desde a infância... eu o entendo nesse ponto.
- Por quê me diz isso? – a castanha o olhou com curiosidade. Não era todos os dias em que Severo Snape falava qualquer coisa positiva a respeito de Sirius Black, ou vice-versa, então, era um caso a ser pensado e analisado.
- Porque se você me desse um filho e, por algum motivo, eu fosse afastado dessa criança... viraria o mundo de ponta-cabeça até encontrar. Ao olhar nos olhos dele ou dela, eu te enxergaria e aquilo ia me dar a certeza de que não foi um erro. Que um dia, tudo foi real – ele a observou sério e prosseguiu, mudando um pouco de assunto, tentando parecer mais divertido:
- Apesar de que... eu pedi autorização para corteja-la, jovem dama... aos seus pais que lhe deram um sobrenome, criaram você com carinho e proteção. E, isso, faz com que, mesmo dizendo para você dar uma chance ao cachorro, eu não tenha que pedir a sua mão em namoro para ele – ergueu a sobrancelha esquerda para ela dando meio sorriso.
- O que eles te disseram? Quando foi isso? – Hermione considerou aquelas afirmações com um semblante incrédulo.
- Ora, quando? No dia em que eu os levei para a Austrália! Eles me garantiram que se você aceitasse, não iriam se opor. Embora, eu tenha notado que o seu pai não ficou muito feliz de ver um homem quase da idade dele pedindo a sua única filha em namoro... mas, como ele mesmo disse, era preferível eu, do que um rapaz sem eira nem beira – deu de ombros rindo abertamente.
- Você deve ser meio doido, Severus... quando me pediu em namoro para eles, foi na época em que me chutava para fora da sua vida! – ela sacudia a cabeça num misto de reprovação e alívio. Eles ficaram um tempo em silêncio, cada um com os seus pensamentos, quando Hermione respirou fundo e disse decidida:
- Temos que ir hoje a sede da Ordem e eu vou falar com o Sirius a este respeito.
- Hermione... antes de nós sairmos, eu quero te perguntar uma coisa... – Snape mordeu o lábio esperando que ela respondesse o autorizando ou não.
- O que? – o olhar dela era de dúvida.
- Como os seus pais te acharam? Como veio a decisão do seu nome? E... principalmente, quem te deu aquele gato maligno que me persegue? – o último questionamento fez com que os dois desses gargalhadas.
- Bem, não é só uma interrogação, mas, vejamos... eu fui deixada na porta da casa deles com um bilhete que dizia "Embora tenha sido abandonada pela minha mãe, eu nasci forte e generosa. Uma guerreira capaz de reinar sobre Esparta, Micenas e Epiro. Também sou bela, a ponto de enlouquecer de ciúmes um grande rei como Leontes e, mesmo depois do desamparo, ser capaz de perdoá-lo com todo o coração. Seja bem-vinda ao mundo, Hermione!", o que responde duas das suas dúvidas. Sobre o Bichento, minha mãe me contou que um rapaz me presenteou com ele depois de ter me visto chorando por conta de outras crianças... – a castanha terminou de retorquir, quando percebeu que ele a olhava com uma expressão de espanto.
- Que idade você tinha quando ganhou o gato? – mantinha os olhos arregalados a fitando.
- 3 anos, por quê? Severus, você está me assustando – Hermione o analisava sem compreender os motivos que o levaram a ficar daquele jeito.
- Porque, aquele velho doido, me mandou para uma missão sem pé nem cabeça para a Londres trouxa em 1982... e eu dei um gato meio amasso para uma menininha que estava triste porque uma cretina a chamara de estranha. Ela tinha o seu nome, me agradeceu dando um beijo no meu rosto... – ele passava as mãos nos cabelos compulsivamente, falando como se estivesse organizando as ideias. A questionando novamente:
- Eu... eu senti uma sensação de felicidade quando ela me olhou... a mesma que eu sinto quando olho para você! Mas, não pode ser... Tem alguma foto sua quando criança, para que eu veja?
- Tenho... eu posso conjura-la aqui – em instantes a foto chegou e Snape soltou um ruído de surpresa.
- Era você... aquele velho me mandou porque sabia que eu ia te encontrar, que alguma coisa me levaria até onde estava, Hermione! Algo fez com que nos reconhecêssemos, você confiou em mim e disse o que te afligia, me seguiu para agradecer... tão pequena ainda, um pouco mais do que um bebê... isso é loucura! – pôs as duas mãos contra o rosto, temia entrar em pânico a qualquer momento. Não era possível que ela fosse, justamente, aquela criança que ele ajudara.
- Eu não acho que seja loucura e nem um mistério insuperável... creio que seja destino e amor, para que soubéssemos desde sempre a verdade. Você me disse, uma vez, que eu era a sua estrela Polaris, te guiando para que encontrasse o caminho de casa. Agora, percebo que isso significa que você só se sente completo, Sevie, quando estou perto e, eu sinto algo semelhante... é como se quando você está longe, faltasse um pedaço importante de mim – Hermione sorriu abertamente. Sentia que era uma coisa com um propósito muito maior naquele encontro.
- Tenho outra coisa para falar... aquele bilhete, provavelmente, a vadia da Bella roubou dos meus pertences para que eu não tivesse qualquer recordação sua. Não é exatamente do jeito que você, Hermis, me relatou. Alguém pode ter copiado alguns pedaços, porque considerou o nome bonito, sem que ela soubesse – mostrava uma expressão séria e pensativa.
- O que estava escrito originalmente? – perguntou com curiosidade para ele.
- Era uma carta... eu escrevi pensando que, algum dia, poderia entrega-la nas suas mãos. Infelizmente, não a tenho mais. Mas, lembro do que eu redigi. Se quiser, eu a refaço em um pergaminho para que leia... Acho que seria mais romântico e interessante se eu mantivesse o meu plano original. Pode ser? – Snape a encarou e ela assentiu com a cabeça. Ele se levantou da cama e foi até o escritório, fazendo um gesto com a mão para que ela aguardasse o seu retorno. Passados alguns minutos, voltou com a carta nas mãos, entregando para a castanha que começou a ler em voz alta:
- Minha Hermis, mensageira do que há de melhor em mim e de todos os deuses que existirem... Sinto saudades de você todos os dias e os espelhos do meu coração se partiram em mil pedaços cultuando a tua ausência. Queria que, onde quer que esteja neste momento, soubesse o quanto eu te amo e, também, que eu estava certo ao te chamar de rainha, minha rainha Hermione. De fato, tem o nome de duas... embora, eu te veja como Maia, mãe de Hermes ou Mercúrio, deusa da cura, da primavera e a única que dominava serpentes. Você me dominou sem nenhum esforço... eu não me canso de amar você! Entretanto, com relação as rainhas: a primeira, era filha de Helena, que fugiu com o príncipe Paris para Tróia, você sabe tão bem quanto eu... é uma história triste de abandono. Mas, Hermione, filha de Helena, embora tenha sido rejeitada pela mãe, nasceu forte e generosa. Uma guerreira capaz de reinar sobre Esparta, Micenas e Epiro. A segunda, bem... ela foi bela, brava e forte! Soberana absoluta em uma das tantas tragédias de Shakespeare. Era tão linda, que conseguiu enlouquecer de ciúmes um grande rei como Leontes e, mesmo depois do desamparo, foi tão grandiosa a ponto de ser capaz de perdoá-lo com todo o coração. Então, seja bem-vinda ao mundo, Hermione! Não a qualquer mundo... mas ao meu, onde terá tudo o que sonhar... posso não ter fortuna, entretanto, possuo amor tão imenso que é só teu. É a dona do meu reino e da minha alma. Por e pelo o teu amor, enfrento raios, relâmpagos, dragões e o universo, se preciso for. Hermione, você é o meu único e verdadeiro amor, todo o meu coração e a minha vida. Eu espero que, um dia, volte e feche novamente todas as feridas do meu coração... S. S. – ao terminar de ler, ela estava com os olhos cheios de lágrimas se virando para dizer:
- Isso é lindo! Quero que saiba que o maior tesouro que eu desejo possuir no mundo, Sevie, é o teu amor. Já me basta saber que me ama também, que nada foi em vão e que, mesmo depois de todo esse tempo, todo o nosso sentimento se mantém e será eterno – foi em direção a ele e o abraçou forte, recebendo em troca um beijo apaixonado. Ficaram mais alguns momentos assim, até que Snape falou a contragosto:
- Teremos que sair para chegarmos lá no horário do almoço, para ouvirmos com os outros o que Dumbledore tem a nos informar.
Tomaram banho e trocaram as roupas para sair de Hogwarts e seguir para a sede da Ordem. Depois de atravessarem os portões, ela o segurou pelo braço e eles aparataram chegando ao Largo Grimmauld. Entretanto, antes de entrarem, ele a puxou para si.
- Hermione, certamente, o Black vai querer que eu diga onde estão os seus pais... depois de tentar me matar algumas vezes, após todo o escândalo da Bella dentro do Ministério... – respirou fundo para continuar dando um sorriso aberto e de divertimento para ela:
- Ele vai querer que você use o sobrenome dele... e, neste ponto, te pergunto Hermione... quantos sobrenomes terá até o final da vida? Eu te conheci como Geavet, depois foi Granger, agora será Black ou Granger-Black mantendo o sobrenome dos seus dois pais. Tenho até medo de descobrir que é uma agente secreta do MI6.
- Acho que depois dessa mudança, ainda haverá mais uma... mas, garanto não ser parte do Serviço Secreto de Inteligência – Hermione riu.
- Qual? – Snape a observou já sabendo o que ela diria. No entanto, adoraria ouvir aquilo naquela voz doce e perfeita.
- Eu vou preferir que fique Granger-Black Snape e que os nossos filhos tenham esse sobrenome também – ela já não ria mais e os seus olhos brilhavam com a ideia de se tornar esposa dele. Isso o fez sentir o seu peito queimar, mas, não perderia a oportunidade de implicar um pouco com ela, antes de se ajoelhar e gritar a todos que a amava.
- E quem disse ou o quê te faz pensar que eu quero me casar com você? – a olhou desafiante segurando o riso.
- Os seus olhos, os seus olhares, as suas palavras e o seu amor... eles são as maiores provas de que você sonha com o dia em que eu serei sua esposa e mãe dos seus filhos – ela sorriu novamente.
- Quer casar comigo? – Snape se ajoelhou na frente dela segurando as suas mãos.
- Quero... quero muito – Hermione o olhava segura da sua decisão.
