Pigmentos de Amor
Kaline Bogard
Capítulo 34
A cor que desampara
— Entendo o que quer dizer, senti a energia da minha filha, foi uma energia desconhecida, mas familiar. Obrigado por ajudá-la a nascer.
— Estamos aqui pra isso, não escolhi a pediatria neonatal por acaso. Então venha comigo para a segunda rodada de emoções, Haruno-sensei orientou que após apresentar sua filha, o levasse direto para a UTI, ela permitiu que visite seu companheiro!
Shino não soube definir o misto de emoções que o dominou ao ouvir a informação. Embora, analisando depois, alívio fosse o mais contundente, seguido de perto por alegria. Compreendeu a liberação como a prova de que o pior havia passado e ele não podia ter se enganado mais.
O caminho até a ala da UTI foi feita em silêncio. Shino tentava manter a emoção sob controle, embora a ansiedade parecesse ter garras afiadas rasgando-lhe o peito, mal podia esperar para rever Kiba. Era algo tão forte que o curto espaço de tempo que levaram indo de uma ala à outra pareceu demorar duas eternidades.
— Por favor, siga as mesmas orientações do Berçário de Alto Risco. — A enfermeira fez um gesto amplo indicando o lavatório higiênico e o armário com a vestimenta esterilizada.
Em poucos segundos Shino estava pronto para entrar na UTI. Lançou um olhar inquisidor para a enfermeira, que apenas assistia, recebeu um sorriso gentil de volta.
— Pode entrar, eu vou voltar para o Berçário, mas Haruno-sensei está esperando por você lá dentro. — Ela poderá explicar melhor a situação.
— Obrigado. — Ele agradeceu sem prolongar a conversa. Não queria ser rude, apenas desejava reencontrar logo seu companheiro.
Tão logo adentrou no espaço monitorado pôde observar o local, era a primeira vez que entrava em uma UTI, a sensação mostrou-se imediatamente angustiante. Não era um quarto muito grande, dava abrigo para quatro camas enfileiradas lado a lado, todas ligadas a complexas aparelhagens de suporte à vida. Discretas cortinas no mesmo tom do avental esterilizado separava um leito do outro, provendo certa privacidade, algo, naquele momento, um tanto desnecessário, Kiba era o único paciente. Sakura estava parada ao lado da cama, de braços cruzados, virou o rosto quando Shino entrou no quarto, a expressão não podia ser mais séria.
— Como ele está? — Shino lançou a pergunta do jeito mais direto possível, era o que mais queria saber.
A médica aguardou que parasse ao lado do leito antes de responder.
— O parto foi menos complicado do que eu pensei. — A Beta suspirou.
Shino observou o rosto de Kiba, o baque foi indefensável, o Ômega parecia dormir tranquilo, mas a tez pálida dava a pior impressão possível. Da barriga que começava a ganhar a forma arredondada pouco se podia ver a não ser o inchaço resultante da operação, o soro e o tubo de oxigênio, por si só, já tornavam o quadro assustador, conquanto o monitor do ritmo cardíaco fosse o mais intimidante. Desde que entrou no quarto, Shino percebeu apenas uma marcação...
— Apesar de prematura, a filhotinha teve ótimos resultados na verificação. Claro, é um estado delicado, os riscos ainda são grandes, mas diante dos fatos é um dos melhores cenários que poderíamos querer. — Sakura retomou a palavra. — O que não esperávamos era que a propagação das células fibrosas avançasse, o miométrio estava tão avariado que tivemos que removê-lo.
Shino tentou engolir saliva, porém a boca estava seca demais para isso, certa intuição começou a perturbá-lo, algo como um presságio ruim.
— Isso significa?
— Que Kiba nunca mais poderá ter filhos, o corpo de um Ômega é considerado uma evolução em nossa raça e, apesar disso, regenerar a estrutura corporal do ponto em que Kiba está seria mais do que um milagre.
O Alpha respirou fundo, a notícia era triste, todavia longe de ser a pior de todas, se fosse o desejo de seu companheiro ter uma família grande poderiam adotar filhotinhos. O orfanato de Konoha tinha muitas crianças sem pais e Shino aprendeu que laços não precisam vir do sangue para ter força e alimentar o amor, só precisava de Inuzuka Kiba ao seu lado.
— Entendo. — Sussurrou voltando a fitar a face pálida daquele que era sua Alma Gêmea. — Vamos lidar com isso.
Novamente aquele presságio o envolveu, um manto frio e estranho, inexplicável, tinha o namorado diante de seus olhos, ao alcance duas mãos... E ainda assim a consternação permanecia, como se algo ruim estivesse ao redor, à espreita de uma brecha para atingi-los de vez e consumar o que quer que fosse que incomodava a parte animal de Shino.
E então ele entendeu. Percebeu o quadro completo que se desenhava diante de si, não literalmente, claro, apenas por ter os demais sentidos tão ampliados Shino se tornava sensível a tudo que os olhos eram incapazes de ver, a energia Ômega, a essência do seu companheiro. Não podia captá-la.
— Shino, preciso que preste muita atenção em mim. — A seriedade na face de Sakura só não era maior do que a suavidade em sua voz. — Aproveite esse momento e esteja pronto, a situação não é das melhores.
Ela preferia fazer tais comunicados sempre em presença de um dos psicólogos do hospital, infelizmente o profissional do turno da noite estava em um atendimento emergencial na ala oncológica, não podia se dar ao luxo de esperar que ele resolvesse o caso adverso de óbito e viesse para informar o perigo à família de Inuzuka Kiba, sobretudo ao companheiro dele.
Quando começou a operação cesariana, Sakura ficou chocada com o que viu. Não calculava que a absorção das células diluídas tivesse causado um estrago tão grande na saúde de Kiba, alguns órgãos estavam mais do que sobrecarregados, era inacreditável que tivesse chegado tão longe. Era uma profissional preparada para diversas situações, porém deparava-se com um fato inédito na carreira, fez o melhor que pôde, aplicou técnicas de contenção e um jutsu medicinal que ajudava a filtrar impurezas no sangue, algo que adaptou com a ajuda de Tsunade durante várias reuniões no decorrer daqueles três meses.
Ajudou a melhorar um pouco, com certeza, e o preço para essa melhora talvez fosse alto demais: o corpo já fraco pela complicada gestação não pareceu receber bem as técnicas que visavam ajudá-lo. A estabilidade foi provisória e pouco durou, seguida de um declínio tão acentuado que fez desaparecer todas as esperanças de Sakura, já viu pacientes o bastante naquele quadro para poder concluir o final da história.
— Perdão...? — A voz de Shino a tirou de seus pensamentos, ele pareceu tão confuso quanto sua voz transpareceu, fez o coração de Haruno Sakura se comprimir em tristeza.
— Podemos perdê-lo a qualquer instante. — Falou com calma, também era experiente o bastante para temer que aquele Alpha se descontrolasse. — Sinto muito Shino, agora é só uma questão de tempo.
Então Shino compreendeu a insinuação por trás das palavras da médica e ao compreendê-las não se descontrolou, continuou tão racional quanto possível, conquanto tomou uma decisão pela qual pagaria até o fim de seus dias e da qual jamais se arrependeu.
Ele não gostava de silêncio, nunca gostou. Para Inuzuka Kiba silêncio era sinônimo de solidão, era sinônimo de ouvir os próprios pensamentos e deixá-los levá-lo para longe ou talvez o motivo para não gostar do silêncio fosse simplesmente por ser contrário à sua própria natureza. Onde ele estava o ambiente se transformava, o que era algo incrível, convenhamos.
Mas voltando a questão dos pensamentos... Lidar com eles era complicado, o assunto mais recorrente era a injustiça de nascer Ômega, pertencer à casta considerada mais fraca e frágil o prendia em uma jaula inescapável de preconceitos que lhe roubava a maioria dos sonhos infantis.
Queria ser Hokage para liderar Konoha, e não podia, queria ser policial para combater o crime e não podia.
Queria que o mundo o conhecesse, alcunhar um legado, a prova suprema de que um dia ele existiu e contribuiu para tornar a sociedade melhor, e... Não podia? As opções eram limitadas. Lutar contra o sistema nunca trouxe outro resultado a não ser ficar encrencado, levar bronca na escola, castigos infinitos...
Até que conheceu o outro lado da moeda e essa nova perspectiva veio na forma de um Alpha, alguém que também estava preso em ideias sociais pré-concebidas e pagava, a sua maneira, um preço tão alto quanto o de Kiba. Alguém que mostrou a beleza e toda a comunicação que existe no silêncio, quando a voz não se manifesta e apenas a presença um do outro é suficiente para a transmissão de mensagens, olhares, gestos, suspiros e toques... Tanto podia ser dito sem que qualquer palavra se pronunciasse.
Alguém que... Kiba não conseguia se lembrar quem era. Não que se lembrasse de muita coisa mais além da sua relação antes e depois com o silêncio, não fazia ideia de onde estava, do quando ou dos porquês. Toda sua percepção sensorial parecia ter desligado, todos os seus sentidos se mantinham em suspenso. Não havia nada ali, absolutamente nada, a não ser ele e aquele silêncio abençoado.
Porque ele também se lembrava do cansaço, tinha a impressão de ter ficado exausto por tanto tempo... Pelo que parecia a duração de uma vida inteira e naquele instante era como se pudesse se libertar, como se tivesse chegado ao fim de uma jornada que cobrou mais do que poderia oferecer, pagando um preço alto demais. Estava tão abatido, tão esgotado...
Talvez, se aquele silêncio durasse para sempre, ele finalmente pudesse descansar.
