Hermione saíra de lá sem esperar a conclusão da cerimônia totêmica esbarrando em María Laura, que se mostrava bastante empolgada de ver aquele homem tão interessante praticamente nu diante de todos, assim como a maioria das meninas da escola. A castanha achava aquilo tudo um verdadeiro acinte, o que aquele homem tão sério poderia pensar deles? Algumas se comportavam como animais no cio ao ver um macho para procriar. Estava enojada com os comentários de suas colegas a respeito do novo professor. Internamente, brigava consigo mesma, por tê-lo olhado quando passou e imaginado como seria se ele estivesse totalmente sem roupa. Sobretudo, pelo modo como a região do seu baixo ventre reagiu diante desse pensamento inadequado. Severus seria professor deles, mesmo que fosse por apenas 15 dias, e merecia total respeito. Na sua opinião pessoal, julgava ser uma insolência absurda aqueles fatos e os gracejos proferidos por pessoas que deveriam proceder de modo exemplar. Ainda mais se tratando da professora de Poções que ficara muito exaltada diante daquela visão. Quantas mais já haviam ficado assim? Essas ponderações a enchiam de raiva e indignação.
No fundo, algo lhe dizia que era mais do que isso, mas não jamais admitiria. Seria ilógico constatar que sua revolta não passava de ciúmes, pois, não era absolutamente nada seu. Além de ser frustrante cogitar a possibilidade de que poderia estar atraída por alguém cuja idade era quase a mesma que a de seu pai e, também, era padrinho de um dos seus irmãos. Definitivamente, nunca seria vista como mulher e ainda corria o risco de ser alvo dos risos ou de um sentimento de pena por parte daquele bruxo. Fora que já se referira a ela como criança.
Sem reparar no seu entorno, seguiu para o dormitório bufando… pelo o que observara e as sensações despertadas por todo o seu corpo, a noite passaria devagar e insone. O calor que percorria cada partícula ínfima de suas células disputava espaço com calafrios que lhe cortavam os centímetros de seu ser. Seu juízo se esvaia perante a percepção do seu sangue fervendo e pulsando, como se pequenos choques elétricos se expandissem por ondas magnéticas de minuto a minuto. Será que era verdade a máxima de que aqueles que reprimem os seus desejos só o fazem, pois suas fantasias são fracas para serem contidas? Ou, essencialmente, o excesso de ambição por algo ou alguém se configuraria em uma experiência única de alimento do espírito? Fundamentalmente, desde que o seu sonho se materializara, o mundo parecia brincar com o seu coração, o fazendo disparar descompassado.
Como no Casamento do Céu e do Inferno, a mutabilidade do afeto e da sensibilidade, levariam a uma intimidade iminente à sensualidade que transita entre luz e sombras. Quanto a isso, bastava lembrar que apenas se aproximasse com olhares que lhe rasgavam a alma, para que apreciasse a emoção de aspirar o que não enxergava e a intensidade de amar o desconhecido. Se colocando em uma posição arriscada em que a perda solene de gravitas in sensu imperium (qualquer sensação de controle) era o caminho para se apaixonar corretamente. Como enfatizariam as doces palavras que colorem a escuridão da noite, preservando a sua inocência, em um ato cego de pura fé. Parecia enigmático que todas as respostas que sempre rastreara surgissem como gotas de uma chuva de verão… lágrimas do céu que serviam para lavar a alma e clarear as memórias. Foi com tais pensamentos, se chocando na sua mente, que foi se deitar. Horas se passaram com a jovem se batendo na cama, virando de um lado ao outro, até que conseguiu adormecer profundamente…
Hermione andava por um pátio grande, bonito, gramado e com algumas árvores bastante frondosas que davam a sombra necessária para o descanso daqueles que precisassem. Era um lugar desconhecido que poderia ser registrado através de pinceladas feitas por algum grande artista. Olhando ao seu redor, pensara que o lago de águas tão escuras, certamente, guardaria um segredo. Tão profundo quanto as imperfeições, traçadas golpe após golpe, ou a noção de que a vida entregava a todos o que lhes era merecido. Aquele pequeno paraíso existia? Suas criaturas desconhecidas e mágicas, realmente, passeavam por aqueles campos? Como compreender os rótulos, extremamente humanos, quando aos seus olhos as questões se resumiam a se encaixar no coração de uma outra pessoa?
Sua sensação de não pertencimento àquilo a abandonou ao avistar um jovem Severus, de cabelos curtos e uniforme, sentado debaixo de uma árvore. Foi, então, que recordou os motivos de estar ali… queria sobreviver, dominar o desconhecido e, principalmente, esperar por um olhar dele. O espiando de longe, via a sua postura rígida e dedicada ao que estava fazendo. Sua concentração era absolutamente única e representava todo o seu empenho em ir além do ponto em que estava naquele instante. A intuição lhe avisava que seu trabalho ali, entre ler, anotar e revisar, era de suma importância. Por isso, estava tão compenetrado que não notara a chegada da jovem. Desviando os seus cabelos castanhos revoltos do rosto, encontrou um modo de chamar a atenção do bruxo, sem assustá-lo, tocando gentilmente o seu ombro. Gesto, este, que o fez encará-la com um ar de curiosidade e aprazimento.
- Posso interromper um pouco a sua leitura, Severus? - disse sorrindo ao distinguir que, estranhamente, ele aparentava ter a sua idade e lhe retribuía a gestualidade com a mesma intensidade e gentileza.
- Você sabe que nunca o faz - respondeu, voltando a sua absorção brevemente ao livro, marcando a página que lera e o guardando na mochila. Logo, reergueu o seu olhar para seguir a encarando e, ainda um pouco perdida em seus olhos negros, não reparara que ele segurava outro exemplar entre as mãos. Captando o semblante incógnito da moça, seguiu fitando suas feições. Sem ter coragem para questionar o que pretendia, viu que os olhos dele faiscaram de um modo diferente e isso veio acompanhado de um sorriso tímido e incerto:
- A propósito, Hermione, já faz algum tempo que eu gostaria de te agradecer com um presente. Por favor, não repare… mas, eu não sabia como demonstrar minha gratidão por ter me auxiliado no laboratório do professor Slughorn. Eu não pensei em nada melhor do que lhe ofertar uma obra literária - concluiu estendendo a mão com um livro de capa dura e negra, notadamente de couro, na sua direção. Seus olhos denunciavam toda a expectativa para ver como seria a reação da castanha diante daquele presente. Hermione pegou com cuidado e analisou, calmamente o que estava impresso na capa. Ao ler o título, seus olhos brilharam como os de Severus que se empolgava com o sorriso que a via abrir. Não encontraria uma forma de externar toda a felicidade e excitação que vagueava pelo o seu corpo todo. Tinha vontade de pular nos braços dele e nunca mais soltá-lo. Entretanto, não o faria… corria sérios riscos de ser rejeitada. Se recompondo um pouco, seus instintos ainda se manifestaram incontroláveis:
- Severus, muito obrigada! Eu sempre quis esse livro… é tão adorável da sua parte. Eu estou sem palavras! Não sei como você pode ser tão fechado e, ao mesmo tempo, tão fofo - argumentou sorrindo. O abraçou meio torta e ajoelhada no gramado, a obrigando a ter que ajeitar as suas roupas, em especial a gravata que quase lhe enforcava. Concomitantemente, recebera em troca um grande sorriso ao tê-la ali ao seu lado tão contente.
- Eu estou com medo de você… não faço a menor ideia do que me chamou e temo que seja um gravíssimo xingamento - disse com um ar que confessava sua incredulidade e curiosidade. No fundo, temia que estivesse sendo alvo de uma brincadeira e servisse somente como um mero passatempo para um diversão furtiva. Algo falava para a bruxa que, aquele rapaz, sob hipótese alguma se aceitava como digno de receber os sentimentos mais sinceros de alguém. Mesmo que tudo lhe provasse o contrário, sua expressão de desconfiança, conotava todo o seu estranhamento perante uma manifestação de afeto.
- Você é fofo e espero que concorde com isso. Aproveitando, intratável jovem Fantasma da Ópera, já que vive me importunando com perguntas infindáveis… eu já li esta narrativa e a vejo como uma linda história da amor que ultrapassa as barreiras do tempo e da morte - respirou profundamente para terminar de falar tudo o que vinha na sua mente. Se parasse, por um segundo, perderia o fio que guiava a sua determinação:
- O Morro dos Ventos Uivantes é belíssimo e foi um dos textos mais bonitos que eu já tive o prazer de passar horas me deleitando. Mesmo que eu ame Shakespeare, ao meu ver, é o texto mais lindo escrito no nosso idioma. Então, eu agradeço profundamente a sua sensibilidade de me proporcionar este átimo de absoluta felicidade - encerrou dando vários beijos pelo rosto de Severus, o que o deixou um pouco sem reação e com as bochechas queimando de vergonha pela conduta da menina.
- Como, segundo as suas palavras, eu sou um fofo e, se não estiver enganado, há dois meses você me atormenta com a sua insolente presença de forma constante… eu gostaria de ser informado se a gentil senhorita aceitaria me acompanhar à reunião do Clube do Slugh - embora seu semblante fosse livre de sentimentos, suas mãos denunciavam o seu nervosismo, pelo jeito que cruzava e esticava os dedos ao elaborar as frases. Sem dar espaço para uma resposta rápida, seguiu na sua arguição muito compenetrado no que estava fazendo:
- Além disso, a senhorita anda se achando no direito de me assediar publicamente, me agarrando e beijando, como uma verdadeira maníaca. Isso me leva ao segundo ponto de nossa conversa… Hermione, você me concederia a honra de lhe cortejar e romancear com a sua nobre pessoa? - explanou temeroso e encabulado para a castanha, recebendo em troca um sorriso bobo e apaixonado. Os olhos de âmbar cintilavam e declamavam mais do que todas as palavras presentes em um dicionário.
- É sério isso? Você está me pedindo, formalmente, em namoro? Como em um romance do século XIX? - agora era a sua vez de estar cética com o que sucedia ali.
- Sim… você é tão insuportavelmente inteligente que eu quero ser o seu namorado. No entanto, se não desejar, tudo bem! Eu… nós podemos seguir sendo amigos… - começou a se explicar, adiantando todas as desculpas cabíveis para o caso dela o rechaçar. A insegurança, na percepção da jovem, o deixava mais bonito e a fez abraça-lo novamente:
- É óbvio que eu aceito, seu bobo! - deu um leve beijo nos lábios dele antes de se levantar e sair, praticamente, saltitando. Internamente, sua vontade era de gritar para que todos ouvissem o quanto era feliz por ser amada.
Como se fumaças e cortinas teatrais fechassem o primeiro ato de uma peça, o cenário se modificou completamente e ela se vira no espelho com o traje de baile. Ao fundo se encontrava Severus, igualmente bem vestido, a admirando. O ambiente em que se achavam era escuro, com luzes de velas iluminando o espaço amplo e de móveis luxuosos. Parecia que ali era uma sala grande, decorada nas cores verde e prata, com uma espécie de escudo ornamentado enfeitando o brasão de serpente sobre a lareira. Tudo era cercado por vitrais emoldurando as paredes, dando um panorama amplo do fundo do que aparentava ser um lago. Criaturas passavam por ali indo de um lado ao outro, embelezando a visão disponível a quem se interessasse.
Hermione se aproximou do bruxo de cabelos negros, o acariciando delicadamente na bochecha e analisando cada expressão de prazer que se desenhava na sua face. O considerava tão bonito e forte que não conteve um suspiro involuntário que escapou da sua boca. Estava, irremediavelmente, louca para vivenciar cada momento que surgisse ao lado dele como se fosse o último. Sem entender porque, sussurrava o quanto acreditava em suas palavras e que jamais o abandonaria. Em todas as hipóteses possíveis, não enxergava qualquer motivo para duvidar que lhe dissera a verdade. Seus carinhos foram se intensificando, pormenorizando os traços, acariciando minuciosamente tudo o que mais ansiava. O jovem abriu os olhos e a encarou por algum tempo indefinido, pegando as suas mãos e beijando a ponta de cada um dos seus dedos com devoção. Parecia afagar a mais rara, doce e pura criatura já feita no mundo. Ao concluir, passou a fazer o mesmo com as palmas e as costas das mãos, partindo para os braços, os ombros e o pescoço... como se experimentasse um delírio violento de paixão e desejo. Seus carinhos foram barrados pelos toques macios da castanha, que voltavam a percorrer o seu rosto. Começando a navegar para a região da sua nuca, despertando a sua concupiscência que se revelava no baixo ventre e os guiava a tocarem os sexos.
Ambos não conseguiam esboçar qualquer palavra. Todas fugiram... ao se olharem impetuosamente, nada precisava ser dito. Impulsivamente, Severus a beijou, pedindo aos poucos a passagem de sua língua para dentro dos lábios. Cada sensação era experimentada pelos dois que se investigavam lentamente, enquanto suas línguas e bocas se afagavam com ternura e adoração. Assimilavam, intimamente, a emoção e o entusiasmo causado em qualquer gesto por menor que fosse. Era um beijo tranquilo, doce, quente e molhado, com gosto de amor e desejo. Do mesmo modo que as salivas matavam a sede um do outro, seus cheiros se misturavam. Severus cheirava a terra molhada após a chuva, com os seus mais fortes vestígios da luta pra vida. Simultaneamente, a fragrância que exalava dos seus poros, era o de madeira depois da queima da seiva, em meio às ervas e a fumaça da canela tostada... estar nos braços dele era vagar pela tempestade. Não um temporal, mas algo tão forte que lhe roubava o ar e a sanidade. O queria tanto que, os seus arrebatamentos e fervores, seus instintos mais selvagens a cegavam a fazendo agir por ímpeto ao explorar o corpo do outro.
Ele segurava as suas mãos no topo da cabeça, oscilando entre pequenas mordidas e sussurros a respeito do que lhe excitava nela. Enquanto gemia baixinho, escutava que o seu odor era de pergaminhos, livros, morango e baunilha... que tudo nela era sedutor demais. Seus corpos unidos prestes a se tornar um só, os abraços se tornando mais apertados e os beijos mais longos e intensos mostrando que a sexualidade já era latente e incontrolável.
- Minha rainha Hermione…
Sobressaltada, olhando para os lados como se ainda o pudesse agarrar e o obrigar a permanecer ali. Sentindo o seu suor escorrendo pela testa e uma sensação inexplicável de vazio, recordou de quando sua tia Andrômeda lhe explicava a força das experiências metafísicas. Acima de tudo, quando a mesma se referisse ao violento ritual da Caritas et Fortuna Imperatrix Mundi (Amor e Sorte Guiam o Mundo) como um ato de sobrevivência. Uma das chaves que conduziam a um grau de clareza quanto a circunspecção e urgência relativo ao fascínio pelo ser amado.
Se questionava o tempo todo sobre o que ignorava naquele sonho… tão real e sem sentido. Não passava de uma mera fantasia um pouco sombria, em que ela poderia usar o uniforme de Hogwarts igual aos que vira nas fotos de juventude de Narcissa e Bellatrix. Ou observar o seu reflexo, demonstrando ser, pelo menos, 3 anos mais velha do que era naquele momento. Quando iniciou essa vontade e, principalmente, carência por uma afeição que, por mais que lhe fosse dada, nunca seria suficiente? O odiava por lhe negar a atenção a qual gostaria de receber e a tratar de uma forma diferente a que era destinada aos outros. Com isso, lágrimas grossas romperam os seus olhos junto aos soluços que saíam de sua garganta. Hermione sentiu o seu coração se apertar e doer, como se a vida estivesse sendo roubada. A única explicação era a de que estava irremediavelmente apaixonada e se perdendo em devaneios por sofrer por conta de um amor não correspondido. Por mais que não se importasse com a opinião de seu pai ou de sua mãe, o medo de decepcioná-los tomava conta do seu ser. Aquele era um tabu intransponível, envolto em uma atmosfera de mistérios, misticismo e erotismo, ao qual ainda carecia de forças e conhecimentos suficientes para adentrar.
Do outro lado do castelo, Severus era surpreendido por um sentimento de agonia que se apoderava de todo o seu corpo. Só poderia vir da jovem bruxa, entretanto, não conseguia alcançar os motivos para tamanha ansiedade e aflição. Até onde lembrava, não ocorrera nada que a deixasse tão angustiada… a não ser que o Elo tivesse despertado a profunda magnitude do amor prematuramente na sua alma.
