Raios de sol romperam as janelas do dormitório e Crookshanks pulou sobre a cama encarando a dona, que olhava fixamente para o teto. Hermione ainda estava confusa com o sonho que tivera e as sensações despertadas no seu interior. Ainda era muito difícil admitir o óbvio e seguir em frente... sua vontade era a de se esconder e ficar ali para sempre. Entretanto, como o meio amasso a empurrava para fora, numa postura de quem, praticamente, lhe dava ordens para não se acovardar, se levantou.
Olhando para o animal de estimação, a jovem respirou fundo e seguiu para o banheiro, onde fez a sua higiene matinal e tomou um longo banho de chuveiro. Foi lá que permaneceu por um bom tempo, precisava pensar e organizar as ideias, enquanto a água lavava o seu corpo e a sua alma. Ao mesmo tempo em que acalmava o seu coração, vestiu o uniforme, rumando para o salão principal em silêncio. Descobrira da pior forma possível o significado do coração não permitir que o corpo descanse. Era assim que se sentia... exausta e com fome. Por isso, tudo o que queria, além de sossego e horas de sono reposto, era tomar o café da manhã.
Havia tantas questões na sua mente que, o trajeto entre o quarto e a mesa foi feito automaticamente, de um modo ao qual não saberia explicar. Era como se ocorresse aquele estranho instante onde se perde a noção de tempo e espaço. Ou um átimo de tempo em que se vaga rumo ao sol em busca do desconhecido, como Ícaro queimando as asas atraído pela radiação resplandecente. Talvez, aquele foi o segundo em que a sua percepção, com relação à maneira como o silêncio necessitava ser escutado, se tornou mais clara. Assim, teria dimensão suficientes para notar que algo se transformara, definitivamente, dentro de si. Não eram mais sonhos de criança, mas novas ondas de vida circulando por suas veias. Suspiros lentos e precisos brotavam de seus lábios... por conta de alguém ao qual chamara de "príncipe" sem recordar quem era na realidade.
Severus era um homem fechado, com um ar sombrio e misterioso, de um jeito tão expressivo que escondia de todos o seu olhar triste. Seria por conta de um amor perdido, já que carregava uma aliança presa a uma corrente no pescoço? Ou era uma consequência da inúmeras cicatrizes que carregava pelo corpo? Inegavelmente, aquele homem de cabelos negros passara pela Primeira Guerra Bruxa e lutara ao lado do Lorde das Trevas.
A Marca Negra no antebraço esquerdo documentava que havia sido um Comensal da Morte e defendeu a pureza de sangue. Quais as motivações o conduziram à condição de soldado? Equivaleria às razões que guiaram, sua mãe, Bellatrix? Uma ilusão cega em decorrência da esperança de viver um grande amor? Se fosse por isso, quem teria lhe roubado o coração, dessa forma, e o feito sofrer tanto? Suas considerações se mostravam tão fortes e se mantinha em uma postura tão centrada em si mesma, que ignorara o seu entorno. Principalmente, relato, pormenorizado, de María Laura com reação aos fatos que sucederam depois da sua saída. Hermione apenas concordava e começava a se atentar para uma das mesas. Queria falar com Draco e precisava ver onde se encontravam os irmãos.
Assim que os localizou, se separou da amiga e de Fernando, inventando uma desculpa sobre resolver assuntos de família urgentes. Sem dar tempo para que os dois dissessem qualquer coisa, rumou em direção a eles, olhando fixamente para o loiro. Não poderia deixar aquela conversa para depois.
- Dray, eu preciso conversar com você... agora. Pode ser? Eu tenho uma certa pressa - falou se aproximando com um tom meio autoritário. Essa postura acabou chamando a atenção dos demais presentes. Aquilo não era um hábito muito comum vindo dela.
- E o que seria exatamente? - respondeu a encarando com um meio sorriso. Conhecia a prima o suficiente para observar que algo estava diferente, só não conseguira assimilar o mensurar com precisão o que era. Todavia, não passava de uma mera questão de tempo para descobrir.
- É a respeito do seu padrinho, o professor Snape... eu tenho uma dúvida. Você tem como me ajudar - sussurrou o questionamento, levando-o a se ajeitar na cadeira para ficar mais perto e compreender o que dizia.
- O que tem ele? - inquiriu sério. Aquilo soava bastante estranho e, o conteúdo do diálogo, lhe despertava curiosidade. Principalmente, pelo modo como ela ficara ruborizada quando proferiu o nome do bruxo.
- Como você conviveu com ele, assim como o Leo e o Pictor, poderia me sanar uma curiosidade? - perguntou vendo que o rapaz assentia com um ar de indagação.
- Quando o professor era mais jovem... ele chegou a usar o cabelo curto alguma vez? - prosseguiu na sua investigação, ao mesmo tempo em que, movimentava as mãos para afastar o nervosismo. Não era somente o ponto que suscitara, mas o fato de que achava-se diante de alguém muito perceptivo. Qualquer deslize, a denunciaria e, o primo se daria conta de que estava apaixonada.
- Não... ele sempre usou comprido. Na altura dos ombros, mais precisamente. Há fotos dele com as nossas mães, quando adolescentes, que mostram que o padrinho gostava de ter o cabelo longo... como o tio Regulus - disse pensativo, ficando um pouco em silêncio antes de dar continuidade à resposta:
- Não sei quais os motivos que o levaram a mudar agora... pode ser que tenha encontrado alguém especial ou sei lá - deu de ombros. Contudo, parou e ficou com a xícara suspensa, evitando tomar um novo gole de café com leite, como se tivesse uma epifania. Isso o fez se virar para a castanha, com um olhar inquisitivo e a indagar:
- Qual o seu verdadeiro interesse nisso, Mione? Não tente me esconder, porque eu vou acabar descobrindo de um jeito ou de outro. Então, me diga... em que instante foi despertado este interessante fascínio, bonequinha - riu zombeteiro ao notar o semblante de desconforto apresentado por ela.
- Nada... nada mesmo! Foi apenas uma mera curiosidade... só isso, bebê da mamãe - deu um sorriso discreto, retribuindo a brincadeira. Era uma forma de desconversar e mudar todo o foco, voltando os seus olhos para os alimentos que estavam dispostos à sua frente.
- Sei... ao meu ver o nome disso é outro. Sabe que o nosso pai vai querer te matar, não é? - seguiu sorridente, dando um leve empurrão no ombro de Hermione, para incomoda-la um pouco. Se divertia a encarando e percebendo que aquela sugestão a deixara, totalmente, sem reação. Ao ter certeza de que sua insinuação se revelava verdadeira, sacudiu a cabeça em negação. Aquilo seria, simultaneamente, trágico e cômico. Sobretudo, porque Severus foi namorado de Bellatrix durante a infância e começo da adolescência. Porém, antes que ouvia-se toda a clara argumentação, que notoriamente a menina formulava dentro de sua mente, tiveram o assunto interrompido. Leo ouvira uma boa parte do cochicho sem fim entre eles e ficava observando as trocas de olhares em meio à conversa.
- Irmãzinha... quem diria?! Reformulando o que o Draquinho disse... qual a importância que a princesa dos Black dá ao querido amigo Snivellus do papai? Sabe que o seu posto de favorita pode ser perdido, não é? - perguntou sarcasticamente a provocando. Aquilo a deixaria furiosa e, certamente, iniciaria uma briga. Enquanto Hermione encolerizava-se, ele mordia um pedaço de torrada a encarando.
- Nenhuma, Leozinho, querido! Mamãe não deve tê-lo ensinado a não ficar bisbilhotando a conversa dos outros. Aliás, deve ter esquecido o óbvio... não é nada bonito ser fofoqueiro - respondeu retribuindo o olhar de afronta.
- Não, ela não esqueceu. Afinal, eu sou filho da Narcissa, ao contrário de você. Por isso, deve ser tão difícil agir de acordo com a lógica, pois foi gerada por uma louca - retorquiu. Aquele era o momento em que falaria tudo o que pensava durante anos. Estava farto de ver o quanto os pais a admiravam, enquanto ele se esforçava para ter estima de Sirius e o reconhecimento do quanto eram parecidos. Respirou fundo e prosseguiu:
- Logo a filha predileta esta entusiasmada por alguém que o nosso pai odeia. Aliás, foi aquele seboso idiota que te presenteou com o gato esquisito e diabólico... devia ser a favorita daquele ridículo também. Você é igual a sua mãe, sonsa e oferecida! - esbravejou e, pouco depois, começo a rir com a expressão de dúvida que surgira no rosto dela e a ausência de palavras. Por um instante se arrependeu, por saber que fora longe demais e teria consequências.
- Você é um idiota, babaca e grosseiro, Leo. Vai cuidar da sua vida e não encha a nossa paciência, seu animal. Quem pensa que é para ofender a Mione assim? - Draco se meteu na discussão, demonstrando ter perdido a paciência com aquilo. Era inadmissível ter que escutar aquelas palavras.
- Ah, que maravilha! Até parece que o Malfoy herdou alguma coragem dos Black... você é tão covarde e fresco quanto o seu pai! - Sagitta se envolveu, apoiando o outro que ficara em desvantagem.
- Pode até ser... e, por falar em quem herdou o quê, você e esse ridículo foram os dois que, comprovadamente, ficaram com a loucura e a impertinência. Pelo visto, são os dois anormais da nova geração da família e não a nossa irmã - respondeu cerrando os punhos sobre a mesa.
- Vai fazer o quê, Draco? Nos bater? Chorar e chamar a mamãe para te socorrer? Ou, quem sabe, correrá para aquele imundo do seu padrinho? Aliás, essa cretina é apenas sua prima. Está apaixonadinho por ela? E... - a sua frase foi suspensa diante dos olhares de espanto direcionados para quem estava parado atrás dele. O bruxo de cabelos negros o fulminava com os olhos.
- E o quê, senhor Black? Pode me dizer? - interpelou rispidamente. Sua expressão demonstrava uma clara raiva pelo menino que estava a sua frente.
- Na... nada! - murmurou desviando o olhar e fitando fixamente o chão.
- Nada? Vejamos, senhor Black... sua irmã, a senhorita Hermione, é igual a mãe, conforme as suas palavras pejorativas. Pois bem, se ela o for, creio que tenhamos uma jovem corajosa, perspicaz, forte e engenhosa - sibilou aproximando o rosto do jovem para encará-lo, o olhando dentro dos olhos. Impedindo de falasse, continuou:
- Quanto ao Draco se parecer com o pai dele... embora eu não goste do Lucius, advirto que ele é um homem bastante inteligente e ardiloso. Quanto a ser covarde, seu adorado pai, com a sua idade era um exemplo de coragem. Tão destemido que infernizava a vida de pessoas solitárias ou vistas, por ele e o seu bando, como inferiores - respirou fundo e concluiu o segurando pela gola da capa:
- Aquele cachorro, na hora da briga, precisava de mais três para auxiliá-lo. Chamaria ele do quê? Sinto informar, só que o seu bravo pai nunca passou de um fraco e chorão - despejou cada frase com a raiva que percorria cada milimetro do seu sangue.
- Eu... - tentou dizer alguma coisa. No entanto, sua tentativa foi barrada na hora. Aquilo o frustrara, as respostas lhe fugiram completamente e, no fundo, sentiu medo do modo que aquele homem o confrontou.
- Calado! Se eu ouvir mais uma palavra sua, "leãozinho", o senhor descobrirá na prática os motivos que levavam o seu pai a necessitar de uma gangue quando quis brigar comigo. Avisado? - perguntou ameaçadoramente o sacudindo.
- Sim... sim, senhor. Eu... eu... entendi - gaguejou sem conseguir formular qualquer expressão que lhe oportunizasse uma afronta que daria orgulho a Sirius.
- Ótimo! O comunicado serve para a senhorita também. Aprenda a segurar a língua do seu irmão para evitar que ele saia ofendendo, gratuitamente, os outros - finalizou dando às costas e segue para a mesa dos professores.
- Vocês dois estão muito encrencados, seus idiotas. A mamãe ficará ciente do que acabaram de fazer aqui... eu não vou me calar dessa vez - Hermione se levantou e saiu com passos duros. Todo o seu trajeto, até sumir do campo de visão, foi acompanhado pelo bruxo de cabelos negros, que analisava as suas reações atentamente. Aquela menina se mostrava bem diferente da que ele via nas suas memórias dentro da Penseira...
O caminho de volta ao dormitório foi mais longo do que imaginara. Como Crookshanks havia sido dado a ela, justamente, por aquele homem que dominava os seus sonhos? Recordava muito bem que, o filhote, chegara em um cesto carregado por Nymphadora antes deles virem ao Brasil. A história, cada vez mais, se tornava complexa e absurda. Porque ele fizera isso? Qual a razão para lhe presentear com um meio amasso? Eram tantas as dúvidas, que precisava de respostas rápidas e precisas. Queria muito estar em casa, sentar no colo da tia e escutar os seus conselhos... foi assim que pegou os livros que esquecera e sentou para escrever uma carta endereçada a ela.
Olá mãe,
Eu precisava conversar com a senhora, mesmo que fosse assim, através de um pergaminho. Me sinto tão confusa e queria tanto que estivesse aqui ao meu lado... agora, já! São tantas coisas para contar, que eu não sei por onde eu começo. Vou iniciar pelo último problema... Draco e eu tivemos uma briga muito séria com o Leo e a Sagitta hoje pela manhã. Aquele sem coração afirmou que Draco não era um Black, que era um covarde como o senhor Lucius Malfoy.
Além de ter me comparado com a minha outra mãe, me chamando de sonsa e oferecida. Nesse caso, é uma questão antiga, pois me xingarem é o esporte favorito dos dois. Quando eu falava que mandaria uma carta para a senhora, eles sempre ficavam sussurrando um para o outro que eu deveria escrever para Azkaban. Sempre achavam que eu não escutava ou prestava atenção... só que isso sempre me feriu profundamente. Eu estou muito magoada... sou tão sua filha quanto eles! Assim como Draco é filho do meu pai! Me dá nojo que sejamos atacados de uma maneira tão vil e baixa... o que esses dois farão com a Luna? A senhora já pensou nisso? Por anos eu venho escondendo nas cartas o que eles aprontam. Porém, chegamos ao momento em que tais atitudes se tornaram insuportáveis. Eles passaram de todos os limites com o que disseram! Mãe, por favor, não me odeie por dizer essas coisas e por estar falando assim... no entanto, só a senhora e o meu pai podem resolver.
Por falar nele, eu tenho algo para lhe contar... só que eu peço que isso, pelo amor de Merlin, a senhora não diga nada a ele. O padrinho do Draco chegou ao Castelobruxo e nos dará aulas até o final da próxima semana. Desde a sua chegada, estou perdida. Parece que todos o conhecem, menos eu... e o pior, eu descobri que foi com ele que eu sonhei todas essas noites! Que o Crookshanks foi um presente dele... o que mais eu devo saber? O que mais me escondem? Mãe, me ajude! Eu preciso das suas respostas...
Eu a amo de todo o meu coração!
Um beijo com saudades,
Hermione
