O domingo amanheceu frio e ensolarado, entrando pequenos raios pelas frestas das cortinas do quarto. Snape acordou e permaneceu um tempo analisando os detalhes das paredes com atenção. Pensava no quanto aquela casa precisava de uma reforma, mas, compreendia a aversão que Sirius sentia em relação a ela... era a mesma que, por tanto tempo, ele teve pela sua na rua da Fiação. Nessa reflexão, lembrou de Lillian e o quanto fez por alguém que, na primeira chance, desfez completamente a amizade entre os dois. Se ele errou em chama-la de sangue ruim? Sim, muito. Entretanto, sempre soube que a ruiva aproveitaria a oportunidade de romper qualquer laço, quando este aparecesse. Lembrou de James e, o quanto era tão ou mais idiota do que Sirius, porém, como Lillian, não merecia ter perdido a vida tão jovem e o direito de acompanhar o crescimento do único filho. Nesse ponto ele riu pensando em Harry e Ronny, bons meninos, corajosos e com um coração grandioso... mas lerdos e burros o suficiente para não conseguirem sobreviver, nem meio segundo, sem Hermione ao lado. Ela era a verdadeira heroína na vida de Harry Potter e, ele agradecesse aos deuses, pelas mulheres da família Black possuírem uma coragem absurda diante das adversidades. Cada uma, ao seu modo, era extremamente forte e guerreira. Considerou que este mesmo fato se aplicava a ele mesmo...

Foi, então, que Snape pensou no quanto a vida era direcionada à ventura de se relacionar com essas mulheres desde a infância, quando a sua mãe decidiu, deliberadamente, aceitar a proposta de Cygnus Black de casar a filha caçula com "o menino mestiço, o último dos Prince". Demorou muito tempo para compreender os motivos que levaram aquele homem, defensor da pureza de sangue, a chegar àquela conclusão... Voldemort, quando Andrômeda nasceu, apresentou um verdadeiro interesse pela menina e isso, logo, se estendeu as outras duas. Como Black, embora tivesse uma verdadeira adoração pela figura de Tom Riddle e fosse seu fiel seguidor, não pretendia entregar nenhuma das suas filhas ao lorde e começou uma verdadeira busca por pretendentes antes que elas completassem 11 anos. Assim, aquele homem de tantas posses, encontrou Eillen Prince e as tratativas sobre um possível enlace entre os filhos foi iniciada. Pouco depois, aos 8 anos, já estava comprometido com Bellatrix e a sua vida, que já não era fácil, se tornou ainda pior. Não obstante, com Andrômeda e Narcissa, a convivência sempre foi muito boa. Meditou o quanto gostava de Andrômeda, sempre a viu como forte, generosa, vivaz, de um coração tão grande que poderia se dedicar a salvar o mundo e quebrar todas as correntes que encontrasse pelo caminho. Narcissa, em pouco tempo, se tornou a sua melhor amiga. Resiliente, astuciosa, gentil, esperta, calma e resoluta, criada para ser e agir como uma verdadeira princesa com o seu nome de flor. Não pode deixar de pensar em Bella... que poderia ser definida como uma força da natureza difícil de compreender ou controlar. Teria se apaixonado, verdadeiramente por ela, se não fosse tão doente e compulsiva. Reconhecia todas as qualidades dela, de todas, era uma guerreira nata, apaixonada ardentemente por aquilo que a seduzia. Porém, os defeitos se sobressaiam e caracterizavam, fortemente, o seu temperamento instável. Ao sentir Hermione se mexendo na cama, abandonou as suas considerações a respeito de tudo aquilo, percebendo que ela o olhava atentamente, tentando descobrir o que tanto ocupava a sua mente.

- Acordou, dorminhoca? – sorriu para a sua castanha, levantando a sobrancelha. Ela era uma graça ao acordar com aquela cabeleira bagunçada!

- Sim... o que aconteceu? Não conseguiu adormecer? – perguntava, enquanto coçava os olhos, tentando despertar e se acostumar com a luminosidade.

- Estou pensando em tomar banho, entretanto, minha inocência se encontra em perigo pelo fato de que eu divido o quarto com uma depravada – gargalhou vendo que ela se empertigava na cama e o encarava séria.

- Sei... – respondeu cruzando os braços.

- O pior é que eu estou correndo sérios riscos de ser violentado por ela debaixo do chuveiro... pois, soube que ela tem fantasias eróticas comigo nessa situação. Já pensou nisso? – tinha certeza de que Hermione ficaria encabulada de ouvir aquilo. Ainda se envergonhava de alguns dos seus impulsos.

- Ah, Merlin... porque você não supera isso? Esquece... – sacudia a cabeça em negação com as bochechas coradas.

- Só vou apagar da minha memória pura e virginal, essa visão, o dia em que a senhorita... aliás, a senhora, me conceder a abertura das suas deliciosas pernas dentro do box e fazer tudo o que imaginou – sorriu malicioso para ela, movimentando as sobrancelhas duas vezes para cima e para baixo a fazendo rir e dar um tapa no braço dele. Esse gesto fez Snape a puxar contra si, a apertando entre os braços.

- Devo me levantar e me banhar antes? É isso? - o questionou com um ar lascivo.

- Sim... vou adorar te ver nua caminhando por este quarto. Será uma cena maravilhosa de se admirar - falou se espreguiçando demoradamente na cama, sorrindo libidinoso com as imagens que se formavam na sua mente.

- Depois sou eu a pervertida... não é? – mordeu o queixo dele.

- De fato é... muito... por sinal, já que fica agarrando oportunidades para me atacar a dentadas. A propósito, eu não me lembro de ter me imaginado com você nessa situação. Entretanto, agora que fizemos o Elo... não vejo a hora de te colocar sobre a minha mesa de escritório ou de te virar do avesso na Torre de Astronomia – mal terminou de argumentar e se deitou com a castanha de volta na cama.

- Severus, se controle! Parece um adolescente que não pode ver mulher... – Hermione gargalhava em meio aos beijos e as cócegas que recebia.

Passado algum tempo, ouviram batidas na porta e, do outro lado, a voz de Fleur que avisava que Molly havia mandando chama-los para o café da manhã. A castanha respondeu rapidamente que, logo, desceriam para a cozinha. O casal foi tomar um banho rápido e se encaminhou para o cômodo, encontrando ainda várias pessoas que estavam na casa no dia anterior. Snape percebeu as trocas sugestivas de olhares entre os jovens rapazes Weasley e Potter, que seguravam os risinhos quando observavam a cara que Ginny e Draco estavam; Lupin estava absorto passando geleia em um pão e Sirius... bem, ele bebeu todo o café de sua xícara, em apenas um gole, se levantando da mesa para se retirar de lá. A castanha ficou um pouco corada, quando Ronny decidiu compartilhar a piada com eles.

- Snape... professor, o senhor nos desculpe, mas parece que os dois acabaram de sair da zona. Por isso que o Sirius saiu daqui tão bravo – mal terminou de dizer, sentiu a mãe lhe dando um tapa na cabeça.

- Ronald, mais respeito com o Severus e com a Hermione! Onde está a educação que eu dei para vocês? E, William, você é o mais velho! Deveria ser o primeiro a dar exemplo aos outros, ao invés de ficar de gracinhas... e, Ginevra, não pense que eu não vi. Depois, terei um assunto em particular com você quanto aos modos – Molly estava possessa repreendendo os filhos.

- Molly, eu entendo qual o problema do seu filho. Já passei pelo mesmo que ele e sei o quanto dói... mas, o que esperar de uma trupe à Monty Phyton? Sobretudo, quando sir Lancelot e sir Galahad, dependem até os últimos fios de cabelo da mais perfeita encarnação da Morgana Le Fay, para manterem as cabeças ainda em cima dos próprios pescoços. Fico pensando no dia em que, sem ela, eles terão de enfrentar os cavaleiros que dizem Ni, Peng e Neee-Won – enfatizava cada palavra com um tom de devastadora ironia, que ele sabia que poucos ali entenderiam, lançou a sua melhor carranca de mestre em Poções para os rapazes. Harry se afogou com o café sendo, logo, socorrido por Luna que ficou preocupada com o estado dele. Draco ria baixinho, do outro lado da mesa, pensando no que o padrinho havia acabado de se referir.

- Severus, não seja tão maldoso com eles! O Ronny não falou para nos ofender... ele foi idiota, é verdade, mas quis nos dizer o porquê estavam todos rindo quando chegamos – a castanha tentou contemporizar o que acontecera. Conhecia o humor do marido, suficientemente, para saber que não estava dos melhores naquele momento.

- Hermione, não estou sendo perverso. Só estou me referindo a questões que todos aqui sabem. Principalmente, que, desde ontem, o seu amigo ruivo está inconformado que você preferiu a mim – sorriu para ela e continuou tomando café como se nada tivesse acontecido. Ao terminar, se virou em direção a Lupin, o chamando para conversar fora da cozinha e, antes de sair, deu um beijo demorado na sua amada.

Os homens se encaminharam para a sala e Lupin foi se adiantando no assunto. Não via a hora de conversar com Snape com relação a tudo o que estava acontecendo, o pedido de Dumbledore e tudo o que fora decidido depois que ele e Hermione subiram para completar o Elo.

- Severus, depois que você e Hermione subiram, foi decidido que as meninas passarão a usar o sobrenome delas de fato. Vão constar nos registros de nascimento dela e da Luna, os nomes dos pais biológicos. Como você deve lembrar os nascidos trouxas e, depois, mestiços, são perseguidos por Voldemort. Como não sabemos exatamente qual foram os antepassados da loira, pensamos em adiantar isso também, mesmo o da sua esposa sendo o mais urgente – se adiantou.

- Como as duas passarão a se chamar? – ficou curioso.

- Hermione, o Sirius sugeriu que ficasse Granger-Black, porque não quer desmerecer as pessoas que a criaram tão bem. Essa proposta acabou se estendendo para a Luna, que será Lovegood-Malfoy e... sei que ficará furioso, mas a Nymphadora pediu para, finalmente, usar o seu sobrenome também – Lupin disse preocupado, antevendo que Snape poderia ter uma explosão de raiva.

- Por qual motivo a doida da minha irmã inventou isso? Já disse a que o pai dela é o Ted Tonks e não o anormal do Tobias... a Dora deveria esquecer que é filha daquele desgraçado e agradecer que não precisa carregar o mesmo fardo que eu... – o argumento dele foi interrompido pelo outro homem, que o contestou:

- Quem disse que é porque quer ser filha do Tobias e não do Ted? Prestou atenção em tudo o que ela esbravejou para o Sirius naquela cozinha? A Dora não quer usar o sobrenome Snape por conta de um canalha, mas, sim... porque... ela ama você e quer que todos saibam disso. Severus, você a criou como filha, todos aqui percebem o quanto os dois se gostam. A Molly e o Arthur concordaram que isso já deveria ter sido feito há muito tempo, pois eles acompanharam o crescimento dela e sempre viram o quanto você se dedicou para que ela tivesse o melhor.

- O sobrenome do Tonks deve ser mantido, isso eu não abro mão! Não quero que ele tenha assumido uma criança, que não era dele, e sido morto em vão – Snape enfatizou sério.

- Será feito dessa maneira. Ela também quer manter esse sobrenome, disse que vai adorar ter o nome dos homens que se arriscaram por ela – garantiu e ouviu o outro bufando em negação. Com isso, prosseguiu, mudando o rumo da conversa:

- Eu quero dizer que acho um absurdo o que Dumbledore o mandou fazer. Não faz o menor sentido! Assim como, ele ordenou que eu fosse viver entre os lobisomens para ver se consigo adeptos à Ordem...

- Aquele velho biruta quer nos matar nessa guerra, tenho certeza! O que ele nos pediu são missões suicidas. Eu correrei o risco de ser morto por mais da metade do mundo bruxo ao me tornar o "assassino de Dumbledore". Você, no meio dos seguidores do Greyback, pode ser estraçalhado quando menos esperar... – zangava-se ao lembrar do que viria pela frente e questionou o que queria saber:

- Qual o motivo do cachorro ter ficado daquele jeito?

- Tem a ver com você, Severus, mas não foi a justificativa que foi dada na cozinha. Ele está preocupado com o que pode acontecer com nós dois... querendo ou não, nós somos praticamente os últimos da idade dele com quem tem convivência. Mesmo que, no seu caso, seja meio turbulenta. Quanto a mim, sou o único amigo que restou... além disso, o Sirius está apaixonado – Lupin sentou soltando a respiração pesada e ficou pensativo.

- Por quem? Remus, não venha me dizer que o Sirius ainda está preso àquela ladainha de que a Bellatrix é a mulher da vida dele! – Snape ficou de frente para o outro esperando a resposta.

- Não... não é mais a Bella... a escolhida é melhor em todos os aspectos como pessoa, no entanto, a situação é pior e mais complicada do que quando ele estava fascinado pela morena doida – levantou o rosto encarando o outro.

- Quem é essa mulher? – perguntou ressabiado com a resposta.

- Me dá a sua palavra de que não comentará nada com ele, a não ser que o próprio Sirius conte isso? – retribuiu a questão com outra.

- Certo, não vou comentar nada... mas, desembucha logo – estava ansioso pela informação.

- Narcissa... ele está apaixonado, encantado, caído... pela Narcissa – antes que Lupin continuasse, Snape o interrompeu, colocando as duas mãos no rosto, massageando as têmporas e afirmando:

- Eu jurava que tinha problemas e uma relação bem estranha com as mulheres dessa família. Contudo, o Sirius, é o que pode se chamar de surpreendente! Sei que passou 12 anos preso, mas existem outras no mundo, além das primas dele.

- Também pensei o mesmo... só que agora é tudo "a Cissa". Aquele pobre hipógrifo, em pouco tempo, pronunciará o nome dela com perfeição! O Sirius fica conversando com aquele coitado, enumerando as qualidades que ela tem e o quanto ele se arrepende de não ter reparado nela antes – os dois acabaram rindo daquela situação. Era absurdo usar o pobre Bicuço como psicólogo de plantão para os problemas amorosos que estavam surgindo.

- Remus... sinceramente, em vista daquele bosta que ela casou, o Sirius é um grande homem e até que combinam. Isso, quero deixar claro que, se você contar a ele que eu disse, negarei até a morte! Agora basta saber o que ela pensa de tudo isso? Se é que ela tem ciência de toda essa confusão... – sacudia a cabeça com um sorriso no rosto. Embora o homem não fosse alguém a quem dedicasse verdadeiro afeto, sabia que ele a trataria com respeito e carinho sempre.

- Ela sabe, Severus. Começo a achar que essa família é de malucos! Ela aceitou e ainda o convidou para aparecer a qualquer hora na mansão, acredita? Que vai dar um sinal quando ele puder ir... pelo menos, foi o que ele me contou – disse passando a mão nos cabelos, controlando o riso e observando as escadas para ver se o outro estava descendo.

- Minha irmã é dessa família e a Hermione, também. Até onde eu me lembre, nós dois estamos até o pescoço envolvidos nesse caos – Snape o encarou com um ar desafiador.

- E quem disse que somos normais? Você é chamado de "Morcegão das Masmorras" pelos alunos, alguns acham que é um vampiro. Eu sou um lobisomem... estamos só acrescentando pontos a uma família muito bem estruturada – Lupin concluiu fazendo uma expressão tão engraçada que fez com que o outro o ficasse encarando mordendo as bochechas para não rir. Sabia que tinha razão e que todos se transformarem em uma só família era loucura, principalmente, pelo histórico que mantinham de brigas, discussões intermináveis e tentativas frustradas de assassinato. Aproveitando que não havia nenhum sinal de que alguém entraria na sala, continuou:

- Então, como está recentíssima vida de casado iniciada ontem?

- Ótima! Acho que, em uma noite, não teríamos grandes motivos para brigar... – Snape respondeu sarcasticamente se levantando do sofá para pegar dois copos de firewhisky para eles.

- Eu te disse que a Hermione voltaria e que era um idiota por tentar o suicídio... não tente me interromper, também tive uma vida de merda, mesmo que sejam por questões diferentes – estendeu a mão para pegar o copo e viu o outro assentir.

- Realmente, você tinha razão... Remus, eu quero me desculpar por ter sido um bastardo e ter feito você perder o emprego em Hogwarts. Tenho planos para quando tudo isso terminar e gostaria que me ajudasse – ao concluir viu que Lupin o observava.

- Exatamente o que você está projetando? – mantinha os olhos fixos em Snape com um semblante de interrogação, enquanto sorvia um gole de whisky.

- Abrir uma botica, primeiro em Hogsmeade e, depois, se tudo der certo... na Londres trouxa. Se aceitar, ficaria com a parte financeira, pois sei que sempre foi organizado e bom com números. Claro que, quando o trabalho estivesse muito grande, teria que me ajudar no preparo das Poções... – argumentou exprimindo todos os seus projetos futuros.

- Aceito – se ergueu e foi em direção ao outro para selar o acordo com um aperto de mão.

- Simples assim? – Snape fez um gesto de dúvida, se levantando também.

- Sim, não vejo motivos para complicar – terminou com o pacto já selado pelo gesto de confiança.

Passaram o resto da manhã conversando na sala, não demorando muito, Sirius acabou se juntando a eles e entram numa discussão acalorada sobre Quadribol que atraiu os meninos para o debate. Aproveitaram para decidirem que, no final de maio, sairiam os casamentos de Dora e Lupin, Bill e Fleur, para dar tempo de organizarem a festa no terreno da casa dos Weasley, convidar as pessoas mais próximas e ter algumas horas de felicidade antes que o mundo desabasse. Todos ali possuíam a certeza de que, depois da morte de Dumbledore, tudo mudaria. Não precisavam fazer previsões para o futuro, para que soubessem que, Voldemort teria uma ascensão rápida ao poder e a política do medo se espalharia por todos os cantos. Como o tempo voava depressa para o término do ano letivo, Harry iniciaria as reuniões diárias com o diretor, no dia seguinte. Tudo começava a ser feito apressadamente, para que houvesse tempo para o mais importante pudesse ser feito. Aquele dia passou depressa com tantas coisas para serem resolvidas, assim como foi o restante da semana... Snape e Hermione só se viam nas aulas. Embora ele tivesse esboçado o desejo de tê-la todos os dias e por tantas partes do castelo, quando as oportunidades apareceram, ele procurou se distanciar. Várias vezes, repetiu a ela que deveriam manter o decoro e que era antiético, os dois se relacionarem no ambiente escolar. O que não os impediu de trocar alguns beijos e juras de amor, quando surgiam condições apropriadas.

Pelo final de abril, quando a neve começava a derreter e já estavam completando quase um mês de casados, a castanha voltou a frequentar o seu dormitório nas masmorras, onde passavam alguns finais de semana lendo. Quando queriam um tempo para si, passaram a visitar a casa que ele mantinha em Hogsmeade, saindo dos portões da escola e aparatando diretamente na sala, pois, ele começava a temer pela segurança dela. Era lá que ficavam namorando, implicando um com o outro, traçando planos para o futuro e fazendo amor cada vez mais intensamente. Com o término do mês e a aproximação dos exames finais, além dos casamentos, Hermione demonstrava o quanto estava ansiosa e, para piorar o seu estado de espírito conflitante, Snape tinha desaparecido após uma reunião dos Comensais da Morte. Ela vagava pelo castelo, perdida em pensamentos, imaginando onde o seu marido estava, pois ele sequer havia enviado algum aviso sobre os motivos que o levariam a não dar aulas naquele dia. Na hora do almoço, ao olhar para a mesa dos professores, não o avistou, o que a deixou ainda mais preocupada e aborrecida. Sua mente não parava de criar cenários catastróficos e destinos cruéis... que só pioravam a medida em que o tempo passava e as notícias do seu paradeiro não chegavam.

Antes que pudesse se levantar e seguir para as aulas seguintes, uma coruja enorme aterrissou perto e lhe entregou uma carta. Era Snape pedindo a ela que fosse até o seu escritório com a máxima urgência. Seu coração falhou algumas batidas com a perspectiva de que ele estivesse ferido, que necessitasse de ajuda rápida e que só, naquele instante, conseguira pedir socorro... foi assim que ela seguiu em direção às masmorras, quase correndo pelos corredores. Chegando lá, Hermione o olhou, analisando cada pedacinho, tentando buscar as lesões... entretanto, não havia nada de errado e ele estava bem, inteiro, vivo e, ainda por cima, com um ar de quem estava segurando o riso ao perceber a sua cara de ofendida.

- Eu posso saber, Severus, onde é que você se encontrava? Em algum átomo de tempo ocorreu que eu poderia, quem sabe, ficar preocupada porque, simplesmente, você tomou um chá de sumiço? – o encarava séria e brava, com os braços cruzados sobre o peito para mostrar toda a sua insatisfação.

- Hermione, calma! Eu saí da reunião ao amanhecer, aparatei em Hogsmeade e decidi comprar um presente para você. Dumbledore sabia que eu só voltaria pela tarde para cá, por isso, colocou outra pessoa para dar as aulas no meu lugar. Não vejo justificativa para tanta aflição – respondeu calmamente, como se nada tivesse acontecido que pudesse tê-la deixado tão à flor da pele.

- Não percebe? Você podia ter sido torturado ou morto... isso não é suficiente? Que presente seria esse tão demorado para que sumisse pela manhã e não desse aula? Por acaso fabricou ele ou montou uma indústria para que ele fosse produzido? – se mantinha firme na sua decisão de questioná-lo pelo sumiço e a falta de consideração em avisá-la que tardaria.

- Mas, veja só... a bruxa que eu escolhi como esposa é ciumenta e possessiva! Eu é que deveria ficar com ciúmes de você no meio de tantos meninos cheios de hormônios, senhora Snape, e não o contrário - ele riu abertamente vendo o quanto estava contrariada e continuou:

- Até parece que mulheres se estapeiam na rua ou rasgam as vestes quando me veem! Acredite, ninguém... além de você, é claro, quer um velho feio! Também não precisei fabricar nada, só tive que esperar para que ficasse pronto do jeito que eu queria.

- Já disse que não é feio e nem velho... mas, o que me trouxe? - disse ela o examinando com uma clara curiosidade no olhar. Snape deu a volta em torno da mesa, sem tirar os olhos dela, até se aproximar o suficiente. Foi, então, que ele lhe estendeu uma caixinha de veludo na cor verde. Hermione, ao abri-la, ficou maravilhada com o par de alianças de ouro, todo envolto com pequenos rubis e esmeraldas. Ao analisar mais atentamente, percebeu que, dentro da sua aliança, estava gravado "pertence ao Príncipe Mestiço". Enrugou a testa, com um semblante de desaprovação àquelas palavras, o que fez com que ele dissesse para ver o que se encontrava na dele. Pegando a outra aliança, leu a inscrição "pertence à Princesa da Grifinória", o que despertou um pequeno sorriso orgulhoso em seu rosto.

- Severus, eu não acredito que você fez isso? Não precisava ter gasto o seu dinheiro comprando alianças, quando já estamos casados. Não faz diferença... - disse ela exibindo a sua felicidade pelo brilho nos olhos, encantada com as palavras e o gesto dele.

- Como não crê e não percebe a necessidade? Ora, mulher, nós casamos através do Elo! O que significa que usaremos alianças. É só mais uma prova do quanto eu amo você! - a puxou para si e a beijou. Hermione ficou o contemplando por um tempo e refletindo sobre a forma como Snape demonstrava admirá-la, quando se afastou um pouco e afirmou com um ar sapeca no rosto:

- É que... eu ainda não consigo imaginar você tão romântico. Parece um sonho...

- Então, não acorde e só fique comigo – revirou os olhos e sacudiu a cabeça para em negação, antes de expressar um falso descontentamento:

- Esperava o quê, menina tola e atrevida? Agora, vamos, me dê logo essa mão! Posso ser romântico, mas ainda não sou paciente! - ele ria zombeteiramente dela soltando um suspiro de desaprovação ao que ele acabava de manifestar.

- Graças a Merlin, que você voltou ao normal! Estava achando que o meu Severo tinha sido sequestrado e trocaram por algum herói romântico, chato, do século XIX, que só fica fazendo juras de amor, mas é um idiota, fracassado e medíocre – gargalhou dando um tapa no ombro dele ao ouvi-lo conjecturar:

- Você é uma monstrinha sem coração, vil e desalmada que ataca um pobre homem indefeso! – desviava dela se divertindo com aquilo.

- Até parece que a besta fera, que bebia o sangue de jovens virgens ao anoitecer, é um ser inofensivo e vulnerável... – piscou para ele entrando no jogo.

- Como ousa, sua insolente, irritante sabe tudo, me afrontar dessa forma? – questionou fazendo toda a sua pose mais amedrontadora possível a encarando com uma verdadeira carranca.

- Muito simples, morcegão das masmorras... a verdade pode ser chocante, entretanto, não é infame ou injuriosa. Além de que, você é o único aqui que se enquadra na descrição de desaforado, arrogante e presunçoso. O pior é que tem um senso de humor sádico e sarcástico – ela o confrontou de volta ganhando em troca algumas mordidas no pescoço.

- Se eu sou um vampiro... você é a minha vítima preferida! - sussurrava no seu ouvido aquelas palavras, a deixando completamente arrepiada. Passou um tempo a apertando contra si e dando leves chupões, quando parou para falar o que tinha lembrado:

- Aliás, antes de te agarrar mais um pouco, tenho mais uma boa notícia. Hoje, aquele velho caduco, me disse que você, minha digníssima e respeitável esposa, pode dormir sempre que quiser aqui. Mas... eu, seu honrado marido, digo que será apenas dividir a mesma cama mesmo. Sabe que não me sinto muito confortável de transarmos neste lugar, sei que já aconteceu, mas prefiro que seja em um lugar mais reservado. Ainda mais que, aquele louco, pode invadir o quarto a qualquer instante e eu já tenho traumas o suficiente, para ainda armazenar mais um com a cena do Dumbledore me vendo nu – Hermione, que prestava atenção no que ele estava relatando, ao ouvir essa última parte, se contorcia rindo no sofá imaginando a cena.

- Realmente, seria bastante constrangedor se ele nos pegasse no flagra. Também não gostaria de ter gravada na memória a cena do diretor me vendo nua e gemendo – afirmou entre gargalhadas.

- Fico feliz que se diverte com a minha desgraça! Bem, você e a ruiva tarada são monitoras, logo, não haverá problemas de sair no meio da noite e vir para cá. O Draco, que está dividindo os aposentos comigo, vai passar a dormir com ela. Imagino que, daqui a pouco, ela já esteja parindo aquela criança e vai precisar dele por perto – Snape falava sério, contendo a sua vontade de rir, por trás de uma expressão vazia.

- Vocês são tiranos! – a castanha se levantou do sofá já se arrumando para se retirar do quarto para ir às aulas da tarde.

- Draco aprendeu com o melhor sonserino que existe, no caso eu, obviamente. E, aquele velho, Hermis... é ardiloso! Não acredite naqueles olhos azuis, porque ele é mais esperto do que todos nós juntos. Foi a única pessoa, até hoje, que conseguiu me convencer a aceitar ser envolvido num absurdo sem limites – disse se despedindo dela.

Durante o jantar, todos notaram a aliança no dedo de Snape e aquilo causou todo o tipo de comentários e fofocas pelas mesas das casas. A de Hermione não foi percebida, porque estava sendo usada como um pingente preso ao colar que havia ganho do marido. Junto a Harry, Ronny, Ginny, Luna e Draco, estes dois últimos sentados com eles na mesa da Grifinória, apenas trocaram olhares, como se nada de extraordinário tivesse ocorrido. Conversavam amenidades, fingindo não escutar os cochichos que ecoavam pelo entorno.

- Quem será que o morcego enfeitiçou? – perguntou um corvino para outro.

- Coitada da mulher que quis esse daí, mesmo tendo cortado e cabelo e parecendo que toma banho, ainda ele é intratável e grosseiro – foi a frase solta que escutaram um grifinório dizendo para o grupo que estava a sua volta.

- Ah, eu discordo... sempre achei ele gostoso e, convenhamos, é um gato! O que deve ser aquela voz grossa murmurando no ouvido? E, quando ele estava de barba, imagina! Adoraria que ele tivesse roçado no meu pescoço – aquelas opiniões vieram da mesa da Sonserina. Draco reconheceu na hora a voz feminina, que os afirmava solenemente, e, quase se afogou com o suco. Hermione se virou para todos os lados, procurando a autora daquelas frases, para cometer, ali mesmo, um assassinato. O olhar homicida da amiga estava com que Ginny desse um puxão no braço dela para que voltasse ao normal.

- Você ficou louca, Mione?! Se alguém descobre, vai ter fogo nesse cabaré todo! Já imaginou a fofocalhada? Sei que tem vontade de queimar o quengaral, mas, deixa essas galinhas ciscarem à vontade... ele não tem olhos para nenhuma delas – garantia, mantendo as mãos fixas no braço da castanha para que ela não fizesse nenhuma bobagem.

- E, você não é um exemplo, né Ginny? Até parece que quando ficam se jogando para cima do Draco, você não quer matar uma meia dúzia! – respondeu irritada.

- Fofa, o que eu estou falando e que, decididamente, não quer ouvir é que se eu enfiar a mão na cara de uma vagabunda no meio do corredor ou aqui mesmo, o Draco não será expulso ou demitido do colégio. Também não virão chuvas de cartas dos pais pedindo a cabeça dele e nem sairá n'O Profeta Diário que ele é tarado. Além disso, Hermione, você está sendo irracional! Sabe o problema que virá em pouco tempo e quer arrumar ainda mais... – a ruiva bufava em desaprovação, parecendo uma versão mais jovem de Molly Weasley repreendendo os filhos. Enquanto isso, na mesa dos professores, Snape prestava atenção mais nas reações da sua amada do que nas observações que eram feitas. Estava tenso que ela pudesse se irritar, terminantemente, e arranjar uma briga que prejudicaria os dois.