Fernando fora um dos primeiros a desistir do curso especial, tentando obrigar Hermione a fazer o mesmo. Isso ocorrera, pois, ao término da primeira aula, saíra esbravejando contra tudo e todos. Se achava profundamente enraivecido e revoltado com o professor pelo fato de que, após 2 horas de aula, se dera conta de que fora chamado de idiota, no mínimo. Além de que, se tornou alvo de chacotas, por parte da turma, depois do ocorrido. Contudo, mesmo que pudesse ter algum pingo de razão nas suas reclamações, Hermione não perderia o seu precioso tempo com infantilidades, tampouco ignorâncias, com as quais não estava familiarizada. Desta forma, conseguiu despistar o rapaz, o abandonando em companhia as suas queixas, tentando se enquadrar ao máximo na posição de vítima e injustiçado. Intimamente, sentia crescer den de si a vontade acompanhadas por pensamentos profundos sobre o término do namoro. Aproveitaria a menor chance que surgisse para dar um fim naquele relacionamento.

Definitivamente, aquele não era o momento para ficar ao lado de um imbecil patético, que esperneava como uma criança mimada. Estava claro que havia coisas bem mais importantes para fazer… estudar, ler, andar pelo Castelobruxo, passear pelo El Dorado com os irmãos no final de semana ou conversar com os Caiporas. Além disso, aproveitaria a oportunidade para agradecer ao mestre pelo o que fizera no café da manhã por ela.

- Senhor? - chamou por Severus se aproximando com cautela. O bruxo não lhe dera liberdade para chegar perto sem que houvesse uma permissão prévia. Ainda notara o quanto o mais velho deixara claro, desde que pusera os pés no colégio, a sua posição objetiva de distanciamento hierárquico com relação aos alunos. Não aprovando conversas paralelas e exigindo o tratamento por senhorio da parte dos mais jovens. Sem que precisasse dizer, expusera que seu curso, e a sua presença, não era destinada a fazer amigos ou socializar. Apenas os ensinaria como a Alquimia se definia como um processo de purificação espiritual e limpeza da mente, para um completo aprendizado relativo aos prós e os contras dos mais diversos temas que circundassem as suas vidas.

- Diga, senhorita Black - respondeu erguendo os olhos a observando, sobretudo, quando jogara seus cabelos para trás de um jeito selvagem e arrogante. Isso apontava que, inegavelmente, era filha de Bellatrix e lembrava a mãe em algumas atitudes. Mesmo que fossem inconscientes, se encontravam ali a traduzindo e lhe mostrando as mudanças que a jovem sofrera. Não estava diante da preciosa Granger, mas de uma Black desconhecida. Sem que desse tempo para que reparasse em qualquer devaneio ou tentasse investigá-lo, com um gesto, fez com que os pergaminhos se reorganizassem e ficarem reunidos para serem levados. Tão logo, o assunto fosse concluído e fosse descansar.

- Desculpe atrapalhá-lo, sei que irá para os seus aposentos… contudo, eu posso conversar com o senhor? - o questionou com um ar de dúvida e insegurança. Embora fosse corajosa para muitas coisas, algo lhe dizia que, lidar com aquele homem, não era uma tarefa fácil de ser desempenhada.

- Alguma dúvida sobre a aula? - retorquiu a fitando seriamente. Sua curiosidade despertara em vários pontos. Primeiro, porque não seria tão ousada em se declarar. Pelo simples fato de que, Hermione, não era uma menina que se jogava facilmente em paixões avassaladoras. Ou motivo, era que fora extremamente bem educada por Narcissa. Isso a impediria de agir ou se dirigir de modo desrespeitoso a quem quer que seja. Por último, se estivesse enganado, quanto ao rumo da conversa, deixaria claro que não sentia qualquer interesse por crianças. Independentemente do fato de que algumas fossem geniais, nunca cercaria um ser inocente para garantir uma parceira sexual no futuro. Severus enxergava os seus múltiplos defeitos, porém, sob qualquer hipótese, se utilizaria de subterfúgios e da sua posição de poder em sala de aula para seduzir uma menor de idade. Aquilo era vil e baixo demais para alguém como ele.

- Não… só queria mostrar a minha gratidão por ter defendido ao Draco, a Luna e a mim, principalmente, hoje no desjejum. Sei que, como professor, o senhor não deveria ter se envolvido naquela discussão e eu espero que não seja punido por conta desse transtorno causado - afirmou manifestando todo o seu reconhecimento pela atitude tomada por ele. Apesar de que reconhecera que o bruxo agira de uma maneira pouco ética ou profundamente dura, se sentia grata pelo fato de que a protegeu ali. O ato a deixara profundamente feliz, em razão verificar que sua carranca, inacessibilidade e, às vezes, crueldade nas palavras e nos gestos não passavam de uma máscara. Aquilo era somente um esconderijo para que ninguém reparasse na sua inadequação e infelicidade de ter de executar uma coisa a qual detestava.

- Senhorita, não vejo motivos para me gratular. Seu irmão passou dos limites e foi desrespeitoso para com aqueles a quem deve afeição - comunicou mantendo a sua postura rígida para evitar qualquer mal entendido entre os dois.

- Eu quero lhe fazer uma pergunta, se não for nenhum incômodo… é que eu gostaria de saber se o senhor era, ou ainda é, amigo da minha mãe? - inquiriu respirando fundo, perdendo um pouco do comportamento altivo e pretensioso. Agora, Hermione, o encarava com um olhar aberto que exteriorizava uma profunda expectativa pela resposta. Estava ciente de que havia a possibilidade de receber uma negativa e ser mandada embora. No entanto, era importante colher informações e conhecer um pouco mais a respeito da sua própria história.

- Nós nunca fomos o que se pode chamar de amigos - respirou fundo, disfarçando o máximo que podia o seu desconforto. Queria, a todo o custo, evitar que a jovem reparasse no desagrado imenso, que experimentava, ao ter de falar sobre Bellatrix. Ponderando este ponto e o que arriscaria dizer, prosseguiu:

- Eu a conheço bem pelo motivo de que crescemos juntos. O que quer questionar exatamente? - se sentou, notando que a conversa se alongaria mais do que o imaginado, fazendo um gesto para que a jovem se acomodasse à frente dele, em uma cadeira.

- Quando eu era pequena, antes da minha mãe ir presa… ela me amava? - interrogou em meio a uma respiração longa e pesada. Aquele era um dos raros instantes em que a verdade surgiria de um jeito cru e agarraria a oportunidade com as duas mãos.

- O que eu posso lhe dizer? Bella sempre apresentou uma forma muito peculiar de demonstrar afeto. A senhorita já deve ter ouvido falar que cada pessoa ama e demonstra seus sentimentos à sua própria maneira. Ela não é diferente disso - ponderou, refletindo como abordar o assunto sem ferir a sensibilidade e expectativas da menina. Sua mente pesava cada frase ao dar continuidade:

- Porém, ela vai além do que é tido como normal e aceitável. Bella é uma mulher muito intensa e exagerada sob os mais diversos aspectos. Se não a amasse, esteja convicta de que sua mãe não ameaçaria alguém de morte ou brigaria com o homem que venerava por sua causa - repontou, expondo os pontos mais precisos que sanariam as suas dúvidas. Aquilo a sossegaria, momentaneamente, e a conduziriam a novas questões relativas ao episódio insinuado.

- A minha mãe foi apaixonada pelo meu pai? Porque eles não deram certo? - suas demandas se multiplicavam diante dos olhos de Severus como se estivessem sob o Gemini. No fundo, aquilo o chocava um pouco, ao mesmo tempo que lhe proporcionava uma sensação de reconhecimento… por um lado, divergia das suas lembranças na Penseira, de ou, ainda era uma eximia expert em metralhar aos demais com perguntas infinitas. Em qualquer realidade, mundo ou circustância, esta característica, permaneceria intacta.

- Ela sempre amou o pai da Delphine e fez tudo por ele. Seus pais nunca conseguiram ter uma conversa que não terminasse em discussão. Ainda assim, o Black, sempre a adorou com uma devoção cega. Se a Bella o quisesse, ele a teria seguido para onde quer que fosse - disse sem se expandir muito nos esclarecimentos. Aquele era um tema muito privado e arenoso, ao qual era Sirius que deveria tratar com a filha. Se via como, plenamente, inapto para tratar de algo tão íntimo e que não interferia na sua vida.

- O senhor conhece o pai da Delph? - questionou com a voz saindo quase que como um sussurro. Aquele era um assunto tabu na família, ao qual ninguém tocava… às vezes, temia que algo terrível tivesse sucedido. Entretanto, a notícia de que Bella amava esse desconhecido, lhe aliviava um pouco. Porém, suas conjecturações digladiavam por espaço, gerando tantas dúvidas e conclusões, que se atrapalhava em meio às ilações tiradas em tão poucas frases. Simultaneamente, nunca imaginara ter uma conversa tão longa com o bruxo. Então, aproveitaria cada segundo para buscar nele todos os dados e respostas admissíveis.

- Sim. Conquanto, eu não posso revelar quem é. Sinto muito - encerrou o assunto para evitar que entrassem em algum tipo de terreno pantanoso, onde não veria grandes alternativas para retrucar ou dissimular palavras para desfazer as dúvidas que fossem levantadas.

- Desculpe incomodá-lo - falou com uma voz chorosa, lamentando que não conseguiria ter tal informação. Já se erguendo para sair da sala, disse com um ar de agradecimento:

- Obrigada, mais uma vez, senhor - arrumou a cadeira e deu os primeiros passos em direção à porta.

- De nada - retorquiu, dando ênfase ao que falaria a seguir:

- A propósito, senhorita Black, venho realizando algumas pesquisas a respeito das plantas de uso medicinal. Gostaria de saber se teria algum interesse em me auxiliar? Draco já vem me ajudando no que diz respeito ao reconhecimento das mesmas nas gravuras dos livros que possuo e me sugeriu o seu nome. Conforme as suas palavras, a senhorita é muito boa em Poções - disse, chamando a atenção da bruxa para o convite que acabara de ser feito.

- Eu adoraria a oportunidade, senhor! - expressou todo o seu contentamento nas frases que se misturavam a um cativante sorriso. Parecia que acabara de ganhar o melhor presente do mundo naquele segundo.

- Começaremos amanhã a análise das infusões que vamos executar. No sábado, ao final da tarde, iniciaremos os trabalhos práticos. De acordo? - perguntou analisando o semblante animado e os olhos brilhantes dela, que apontavam o quanto sua mente ponderava o convite e os detalhes do que lhe era proposto.

- Sim. Mas, tem um pequeno problema, senhor… sábado nós iremos para El Dorado, sem querer parecer ser irresponsável ou me mostrar como uma pessoa invasiva, por acaso aceitaria jantar comigo lá? Deste modo, voltaríamos juntos… - antes que terminasse viu que ele a encarava com uma expressão de espanto com a insolência da oferta.

- Não me leve a mal, é, exclusivamente, um convite para evitar que eu me atrase ou atrapalhe o seu trabalho - refez a proposta. Queria deixar claro que era apenas um gesto amistoso, mesmo que o seu coração estivesse quase saindo pela boca, ao encerrar a sua proposta. Intimamente, experimentava o seu corpo arrepiando com a possibilidade de estar sozinha com Severus. Ainda mais quando sua imaginação formava diversos cenários em que os dois estariam juntos sem qualquer pessoa para interrompê-los.

- Eu o faço. Considero que será muito aprazível fazer uma refeição com a senhorita e os seus irmãos. Pois, certamente, eles também estarão lá. Ou eu estou enganado? - perguntou antecipando quais eram as reais intenções dela. A despeito de ser unicamente um convite, não alimentaria ilusões de uma adolescente a tratando de uma maneira diferenciada. Se fosse um mau caráter, se aproveitaria da inocência dela, ou pior, reivindicaria os seus direitos de marido. Hermione era sua esposa desde o dia em que nascera, ou quem sabe no instante em que foi concebida… apesar disso, uma coisa era certa, no que dependesse da vontade do bruxo, a jovem não seria comunicada deste detalhe tão cedo.

O dia seguinte o tempo passou depressa e, a segunda aula, transcorreu tranquilamente. Severus mostrava para os alunos os símbolos presentes n'O Livro das Figuras Hieróglifícas, de Nicolas Flamel. Neles estavam presentes as representações referentes ao bronze, o titânio, o mercúrio, o enxofre, etc., que não passavam de metáforas que confundiriam os chamados leitores indignos. Em outras palavras, aqueles que não possuíssem a proficiência natural para ir além do que as figuras confusas mostravam em sua superfície. O mestre em Poções dominava com maestria aqueles signos, identificando os pormenores que cada um representava no seu interior. Isto se traduzia na sua própria conjuntura, em que levara a si próprio ao limite mais profundo, desafiando a linha tênue entre a vida e a morte. Especialmente, as barreiras do tempo e espaço, com as quais brincara como um irresponsável.

Na sua percepção ultrapassar fronteiras e o excesso quase obsessivo, levaria a perfeição e autoconhecimento. Assim como, concomitantemente, proporcionava o entendimento para a complexa elaboração e produção da Pedra Filosofal ou os métodos de curar o próprio corpo. O que alavancava uma incessante busca pela compreensão e um volumoso estudo dos 4 elementos (água, fogo, terra e ar) para fundamentar a perícia e a competência exigidas no que concerne às práticas curativas. Embora não revelasse ou reconhecesse o esforço sobre-humano ao qual se submetera até se transformar em um verdadeiro erudito na Teoria Humoral Hipocrático-Galena.

Via a si mesmo como alguém apto e capaz de ultrapassar os conceitos e especulações apontadas por Paracelso. Tal qual este bruxo, ou os que o antecederam, iria modificar e revolucionar a medicina muggle ao inserir os seus métodos de estudo quanto os tipos e variações dos humores. Como diria o velho mago, o temperamento humano se dividia em 4 elementais: colérico (fogo), sanguíneo (ar), fleumático (água) e melancólico (terra). Estes se subdividiam entre duas qualidades bastante claras: úmido ou seco; e, frio ou quente. Deixando claro, que atingir aquele nível de absorção e apreensão das particularidades estava longe de ser apenas uma especialização em um conteúdo definido. Era quase um ato de fé querer dominar algo tão apaixonadamente que, aquilo, se transforma em seu coração, sua alma e seu ser como um todo. Mesmo que, a sapiência acarretasse na insanidade e na mais intensa solidão.

Encerrada a segunda aula e as várias explicações quanto à funcionalidade das sangrias, o modo de ser empregadas e as situações que exigiam tal procedimento, Hermione permaneceu na sala para o início do trabalho. Ao sair o último aluno, ela se aproximou do professor e foi convidada a se sentar ao seu lado. Desta maneira, poderiam dar os primeiros passos da investigação e, caso encontrassem algo interessante, mostrariam um ao ou, imediatamente. Aquela vicinalidade, superficial mas concreta, dava três grandes certezas para Severus. A primeira era que a menina continuava mandona e uma irritante-sabe-tudo capaz de o enlouquecer. A segunda, mais evidente, estava na questão de que se tornara uma sangue puro orgulhosa de ser uma Black. Enquanto, a terceira e última, a única coisa que unia a Granger com a Black era a sensatez, a afabilidade e a delicadeza. O que modificara ali era que, claramente, Narcissa a criara como uma princesa e a ensinou a se portar de tal forma com relação aos demais.

Apesar de permanecer forte e guerreira, todo aquele fogo e tolice para se atirar em aventuras insensatas, fora moderado… o que era excelente para a sua própria segurança e bem estar. Refletindo quanto a este ponto, tomou uma decisão... o Advanced Potion Making (Estudos Avançados no Preparo de Poções), seria dado de presente à bruxa. A obra de Libatius Borage, praticamente refeita pelo Príncipe Mestiço, com acréscimos de constatações acerca dos melhores meios de execução das infusões e criação de feitiços, ficaria em boas mãos.

Por mais que o Elo os ligasse, as modificações que ambos passaram, se refletiram naquele ponto. As diferenças regeriam e guiariam o caminho da relação dos dois daquele momento em diante.