Severus semicerrou os olhos, analisando e pesando toda a gravidade da situação. Se encontrava completamente cercado por aqueles seres das matas que o encaravam com ódio e mostravam a ele suas presas afiadas. A única iluminação que possuía era a dos olhos flamejantes pela ira dos Caiporas e a luz da Lua Crescente no topo do céu. Os dois lados avaliavam cada movimento do opositor, prontos para o combate iminente que se desenrolaria ali. Particularmente, o bruxo de cabelos negros não entendia com exatidão o que levava o grupo a atacá-lo. Porém, pouco se importava com motivações, quando as atitudes lhe revelavam muito mais que palavras. Seus diabretes o avisavam que era clara sua desvantagem, seu senso beligerante apontava para estratégias de sobrevivência… com o vento batendo em seu rosto, abriu um sorriso sádico e sarcástico.
O mestre em Poções andou alguns passos, afrontosamente, com claras intenções de chamar a briga para si ao se colocar em posição de luta. Não se daria por vencido, as criaturas, que lembravam índios cobertos de pelos vermelhos, necessitariam de muita força e determinação para assassiná-lo. Só pararia de digladiar quando estivesse morto. Queria ter convicção de que possuiriam a coragem necessária para abrir uma verdadeira guerra contra toda a comunidade bruxa. Não haveria defesa dentro do Departamento para Regulamentação e Controle de Criaturas Mágicas que justificasse o ato de atacar alguém que nada fizera. Além disso, um martírio seguido por canibalismo, como a fama indicava, colocaria fogo no Ministério da Magia e na Federação. Comoção pública e pais revoltados, obrigariam o Ministro a enviar todos os seus melhores Aurores para exterminar um por um dos agressores.
Os segundos se arrastaram como se fossem horas, com as respirações aceleradas e o suor descendo pelos seus rostos… gritos de ordem e sons que remetiam a uivos ecoaram entre as árvores. O chão pareceu tremer quando correram em direção ao homem.
- Sectumsempra! - bradou com um movimento veloz e a varinha em riste, derrubando alguns Caiporas que já se debatiam com os cortes abertos. O verde se tingia de uma coloração vermelho ferroso e revestia a reverberação dos lamentos de dor.
- Sabemos quem você é… cobra traiçoeira! Anambé negro, é predador rondando a vítima. É um Yraq-khari que veio do mar, como os outros para atrair o xamã como caçador! - exclamou Rumi, que liderava o bando contra Severus. Fora ele um dos poucos que conseguira desviar do feitiço e se aproximava perigosamente. Os demais, apenas cercavam aguardando o momento preciso para atacar novamente.
- O que me interessa um índio, criatura estúpida? Acha que eu me importo com o que a sua tropa Papa Capim pensa ou com o que querem? - arguiu com um semblante demoníaco e com o olhar queimando pela fúria assassina que percorria cada célula do seu corpo. Sua revolta se tornou mais clara ao notar que fora mordido em algum ensejo de hostilidade. O ódio crescia a medida em que o ferimento sangrava e ardia.
- Quaracitî pode não ter sido gerada ou nascido nas nossas matas. Ela é a filha do fogo que ouve os mortos e conversa com as divindades… fique longe, Supay-awki! Você é criatura das trevas e não a merece - advertiu o habitante do mato, fazendo um gesto para que os demais voltassem a acercar o bruxo.
- Ah, você alega que devo me afastar de Hermione?! Nunca! Ela é minha esposa e quando eu quiser, a levo embora comigo. Quem pensa que é para tentar me impedir, escória? - Severus rumou até Rumi para afrontá-lo e exteriorizar que não se sentia nem um pouco acuado ou temeroso por conta de um ser que mal a cabeça encostava no seu peito.
- Vai matá-la novamente! Umuq já fez isso antes, quando a deixou… a culpa é sua, Anambé negro - aquelas frases o desarmaram como se um choque lhe atravessasse por todo o corpo. Em uma fração de segundos, o Caipora estava cravando uma espécie de lança no peito dele.
- Expulso Visceribus! - falou quase perdendo a consciência… antes de acertar o feitiço, um grito de horror ressoou distante:
- Não… por favor, parem! Maledictus Obice - bravejou Hermione. Foi a última coisa que viu antes de cair de joelhos. Sem conseguir refletir muito sobre o que deveria fazer, arrancou o pedaço de madeira que ainda se encontrava próximo ao coração e desmaiou.
- Hamuy kayman, Boitata - clamou o ser vendo Hermione correndo em direção ao homem. A jovem estava tão transtornada, com o que acabara de presenciar, que se movimentava como um raio, sem se importar com a dor de pedaços de galhos entrando nos seus pés descalços.
- Implorare igni - apontou para o chão criando um círculo de fogo imenso e intransponível. Ficaria ali com Severus para que ficasse protegido de novos ataques. As chamas altas os cercavam, ao mesmo tempo, a castanha olhava para os antigos amigos com profunda decepção. Haviam prometido protegê-la, todavia, agrediram quem ela amava. Não os perdoaria pela traição… nenhuma previsão do futuro ou ato, justificava tal ultraje. Sem permitir que lhe dissessem qualquer coisa, ficou sussurrando para que o mestre em Poções não abrisse os olhos. Alegava o quanto era perigoso, sobretudo ao perceber que o fogo-fátuo da cobra de fogo os rondava.
- Quaracitî… não! - implorou Rumi e os outros Caiporas ao ver o que estava prestes a acontecer ali.
- Eu me chamo Hermione e não Quaracitî! Voco autem spirituum - um misterioso vento começou a lamber os seus cabelos cacheados, levando-os a chicotear o ar. As labaredas adquiram uma coloração vermelho sangue e os selos passaram a ser rompidos um a um, revelando criaturas maquiavélicas que rosnavam. Os espíritos das trevas rondavam o fogo e ameaçavam os Caiporas. A jovem não os encarava, seus olhos ficaram fixos em Severus acompanhando a respiração lenta. Cada minuto a deixava mais encolerizada tornando o seu núcleo mágico uma fonte inesgotável para a Chave Menor da magia salomônica se fortalecer. Era cru e sem amarras o rancor que fluía… Não esperava auxílio externo. O Curupira, quando surgisse, daria razão aos primos e era capaz de ajudá-los no assassinato. Sua confiança morrera ao ver aquela lança quase perfurar o coração que um dia lhe pertenceria. A única cosia que desejava era distância de todos os ali presentes. Só contava com os ensinamentos que a tia lhe dera quando mais jovem. Os demônios ou os anjos a tirariam dali.
- Por favor, Quaracitî… Anambé negro brinca com o tempo, muda vidas, acha que é senhor do destinos dos outros… nos escute! - imploravam em vão, sendo completamente ignorados e temerosos com o que viria se a raiva dela explodisse.
- Nunca mais falem comigo! Ele não fez nada… vocês são monstros - berrou em meio às lágrimas, sentada com a cabeça do bruxo em cima de suas pernas. No fundo, se encontrava prestes a ter um ataque de pânico com a possibilidade dele morrer a qualquer momento. Sua atenção era toda voltada a pensar, furiosamente, em como pararia aquele sangramento. Sua mente vagava e, com um gesto, gritos de horror se proliferaram…
- Não me deixa… você é o meu lindo príncipe! Eu não posso perdê-lo, justo agora que o encontrei - murmurava alisando os cabelos dele com a ponta dos dedos. Com a outra mão, apertava o ferimento para estancar o sangue e evitar o pior.
- Hermione… eu amo… - as palavras foram interrompidas com a chegada da diretora e os professores, que lançavam feitiços para todos os lados. Estavam amedrontados com o cenário que testemunhavam.
As horas passaram com reuniões dentro do escritório de Benedita Dourado. Diante do ocorrido, as aulas foram suspensas e os alunos deveriam permanecer dentro do castelo, até segunda ordem. Os Caiporas sobreviventes relataram o sucedido, detalhando pormenorizadamente a responsabilidade de cada um na batalha. Revoltado, o Curupira exigia que medidas drásticas fossem tomadas. Rumi fora retalhado e queimado vivo, outros tantos queimados e alguns tiveram vísceras arrancadas. Aquilo era um espetáculo de horror sem precedentes. Em decorrência desses fatos, alguns professores, sobretudo Carla Oliveira, reivindicavam efusivamente que a jovem fosse expulsa e denunciada. Hermione usara feitiços antigos e proibidos pelo Ministério da Magia no mundo inteiro. Teria de prestar esclarecimentos com relação a como aprendera a evocar demônios e conjurar o fogo que circunda o pentagrama.ra a invocar demônios e conjurar o fogo que circunda o pentagrama.
Como era de se esperar, a notícia correu pelos corredores na velocidade de um furacão de grandes proporções, arrasando o que via pela frente. Comentários, antes por conta da Revista do Mago, se intensificaram. Eram poucos os que não passaram a ignorar os irmãos Black, virando o rosto quando os viam se aproximar. Os cinco andavam o mais rápido que podiam para a ala hospitalar, fingindo ignorar os risinhos irônicos e as frases ofensivas. Observaram aqueles que, anteriormente o chamavam de amigos, fingir não os conhecer. Entretanto, pouco antes de atravessarem a porta e ver como a irmã e o professor estavam, Leo perdera completamente a paciência…
- Lá vão os filhotes de presidiário e de Comensais da Morte. Sempre soube que esses marginais não eram confiáveis! - foi a frase que bastou para que o rapaz avançasse em direção a um grupo de jovens.
- Everte Statum, bastardos! - falou apontando a varinha para eles, fazendo-os ser arremessados para longe, dando bizarras piruetas no ar.
- Definitivamente, nós estamos muito ferrados agora - disse Pictor olhando para a cena e ajudando Draco a puxar o irmão para dentro da enfermaria.
Severus se negava a continuar parado ou deitado naquela cama como um moribundo. Apesar de ver que ficaria com duas cicatrizes e não se perdoava de não ter matado todos os que o atacaram… contudo, sua preocupação maior era com o que aconteceria com Hermione. Não recordava do que ocorrera após o desmaio, tudo não passava de flashes desconexos envolvendo luzes e palavras. Ignorando a enfermeira, levantou-se e saiu rumo ao seu quarto. Após se banhar e vestir a roupa com uma certa dificuldade, caminhou pelos corredores ouvindo os murmúrios a seu respeito. Independentemente do que sucedesse daquele instante para o futuro, daria prosseguimento ao que fora fazer ali, mesmo que o mundo incendiasse fora dos muros do colégio. Não se interessava ou se abalaria caso tivesse que ministrar uma aula às paredes ou que o seu ombro estivesse imobilizado e incomodando. Os espasmos que experimentava ali, não significavam quase nada… em Hogwarts entrara para muitas ainda com ossos quebrados e tremores por conta de longas sessões de Cruciatus. Aquilo era sua responsabilidade e cumpriria com ela até o fim.
Ao adentrar na sala, não se surpreendeu ao se deparar com cerca de 10 alunos sentados o aguardando. Curiosamente, todos sangue puro… o oposto do que alguns esperariam, o bruxo não se iludiria com a ideia de que houve falha na comunicação. Os demais não apareceram porque optaram pela fuga, dando uma clara demonstração publica de covardia. Durante a sua vida toda se acostumou com a falta de consideração e a total ausência de espírito colaborativo por parte de muitos. Dois pontos sempre lhe foram límpidos como água: a vida não era justa e ingratidão era algo contagioso. Eram males que se espalhavam pelo ar como fumaça tóxica, atingindo a todos sem exceção.
- Senhores, hoje vamos dar seguimento às explanações referentes aos processos da alquimia e seus estágios. Alguém aqui sabe quais são? - perguntou vagando o olhar pela sala, observando que apenas a castanha erguia a mão para responder. Por um segundo, considerou o fato de que deveria ignorá-la. Porém, após uma profunda e rápida conjecturação, optara por outra atitude:
- O que a senhorita Black tem a nos explicar? - inquiriu asperamente, analisando como a sua expressão foi se fechando, ao passo que, assimilava o modo como o questionamento lhe fora feito. Não acreditava que o mais velho lhe tratava daquele jeito tão ríspido, principalmente, após ter lhe ajudado e salvado a sua vida. Era triste constatar que aquele homem não passava de um mal-agradecido e grosso.
- São quatro etapas, senhor. Se me permite dizer, a primeira é chamada de Nigredo. Consiste na diluição da matéria bruta e o seu ingresso no estágio de putrefação. Isso se deve ao calor e ao fogo ao qual é submetido - esclareceu. Seu semblante era duro e lutava para engolir as lágrimas. Precisava desfazer aquele nó na garganta que insistia em prender a sua voz, porque não se daria por vencida e iria expor as suas considerações até o fim:
- Em seguida, é iniciado o Albedo, onde a substância é purificada por lavagens com Aqua Vitae sob a luz da lua cheia. O terceiro, conhecido como Citrinitas, é a transmutação dos metais. Os exemplos dados geralmente são o da transformação da prata em ouro, a luz da lua em luz solar… enfim, formando, dessa forma, um processo químico passivo-ativo. O último é o Rubedo. Ele é o responsável pela produção da Pedra Filosofal ou o Elixir da Vida. Por isso, é reconhecido como o ápice da obra e o perfeito casamento alquimia - concluiu o olhando com um ar que misturava desapontamento e tristeza profunda.
- Não é que temos aqui uma irritante-sabe-tudo?! Decorou todas as frases de um livro, sem qualquer análise ou reflexão aprofundada… decepcionante - sibilou a encarando. Buscava com tal gesto hostil que a menina se desencorajasse e parasse de querer defendê-lo. Se necessário, a afastaria para que não sofresse qualquer tipo de represália. Seu raciocínio foi interrompido pela constatação de que a bruxa baixava a cabeça para secar as lágrimas rebeldes que desciam pelo seu rosto. Por mais que aquilo lhe matasse por dentro, fingiu ignorar, expondo os seus argumentos para o grupo:
- Os senhores devem atingir a profundidade do tema. Percebam que a Pedra Filosofal tem um significado que vai além do que lhes é dito abertamente. Submerjam o máximo que puderem no mistério de que a mesma é uma fonte para alcançar a vida eterna. Ao mesmo tempo, é um repressor para que seja usado o recurso da Lei da Troca Equivalente com este mesmo propósito - revelou sem detalhar o que isso queria dizer realmente. No entanto, testemunhou os olhares de perplexidade ao se darem conta do que isso significava. Com isso, decidiu dar por encerrada a aula, liberando a todos para que voltassem aos seus quartos.
Hermione o vendo privado de alguns movimentos e com problemas em recolher todos os materiais, se aproximou e os reuniu. Concluindo que não havia mais o que fazer ali, deu as costas sem se despedir… ambos estavam exaustos e confusos com tudo o que se desenrolara até ali. Todavia, definitivamente, o dia estava muito longe de terminar.
