Pássaros voavam apressados em busca de abrigo, enquanto às árvores envergavam com seus galhos chicoteando contra o vento forte que batia, naquela noite. O silêncio anterior fora abandonado completamente… com os Caiporas proibidos, até segunda ordem, de guardarem os portões do Castelobruxo, alguns Priores e Aurores rondavam de um lado ao outro. Ao mesmo tempo, sob um céu sombrio e enuviado, animais adentravam os portões para ter proteção durante a tempestade que se aproximava.

Severus caminhava pelos corredores alheio a tudo, sentindo o zéfiro passar pelo seu rosto, jogando o seu cabelo para trás violentamente. Tudo o que mais queria naquele instante eram algumas doses fortes de firewhisky para lhe queimar a garganta e o fazer esquecer do peso que carregava na alma. Se estivesse vagando pelas ruas e becos de Spinner's End, a fumaça cinza das fábricas amenizaria o seu sentimento de fracasso. Apenas aquela nuvem de poluição, cortando o ar e deixando tudo cinza, o levaria a esquecer as toneladas de desilusão carregadas sobre os ombros. Ao mesmo tempo, se confundiriam de tal maneira com a ardência dos seus olhos negros, que seria impossível reconhecer as suas lágrimas e solidão. Sua mente funcionava furiosamente o acusando de ter posto tudo a perder por conta de um temperamento ávido e bravio… semelhante ao ato tempestuoso demonstrado por Hermione.

Por um lado, se arrependia amargamente por ter sido grosseiro com a jovem. Considerava injustificável a sua atitude extrema e infundada contra alguém que só quis lhe ajudar. Entretanto, correspondentemente a este ponto, permanecia revoltado com a sucessão de fatos. Aquela menina fora irresponsável e inconsequente. Não tinha o direto de ter se colocado em risco para salvá-lo da morte. Tais ponderações, faziam o bruxo bufar de raiva, imaginando os mais diversos tipos de cenários horrendos, onde a castanha morreria por ter falhado. Porém, sua profunda reflexão auto-punitiva foi interrompida por Carla e um grupo de adolescentes que o aguardavam próximas à porta do seu aposento. Aquela cena bastou para que a linha tênue, que ainda o impedia de encolerizar-se, fosse destruída.

- Que merda é essa? - perguntou a si mesmo, sem compreender o que exatamente as trazia até ali. Já não era suficiente a dor e a ira constante, ainda teria de aguentar hormônios descontrolados e uma mulher com mania de grandeza…

Não via qualquer razão para querer receber informações quanto a isso, no entanto, notando que elas não iriam embora tentou despistá-las. Cada passo que dava, mudando o rumo do seu trajeto, mais se aproximava do ajuntamento. Seu plano caiu por terra ao se ver cercado. Todas falavam conjuntamente, tentando umas se sobressaírem em cima das outras, revelando o quanto ficaram preocupadas com o que acontecera e que o consideravam um herói. Alegavam que nunca viram um homem extremamente corajoso por ter lutado contra os Caiporas sozinho. O mestre em Poções cogitou que, aquilo, era um pesadelo terrível ao qual não conseguia acordar… Todavia, tudo se transformou em algo mais assustador quando Hermione chegou e um emaranhado de estranhos eventos intercorreram.

Vitrais estourados, estátuas caídas ou rachadas, alguns rombos nas paredes, revoadas, gritos e o caos instaurado. O lugar ficara assustadoramente destruído e abandonado, como se jamais houvesse qualquer rastro de presença humana ali. Severus, ao perceber a quietude, observou toda a devastação e procurou localizar alguém ferido no processo anárquico e revolto. Constatando que ninguém se machucara e que, aquele comportamento acarretaria graves consequências, se virou em direção a mais jovem com um semblante enfurecido.

- Porque fez isso, senhorita Black? Já não ultrapassou todos os limites do aceitável ao ter se envolvido naquela luta? Ainda não foi informada que há pessoas exigindo a sua expulsão? Qual a sua crescente necessidade em atacar agora? Me responda! - interrogou a menina, exigindo explicações urgentes quanto as suas ações. Intimamente, o assustara se deparar com a capacidade de extinção e assolamento adquiridas pela jovem bruxa. Aquilo ultrapassava todos os seus campos de conhecimento nas artes das trevas e o preocupava visceralmente.

- Não interessa! Só vim devolver o seu livro e aquelas… não julgo correto que fiquem assediando uma pessoa, senhor - retorquiu, tentando controlar a fúria que crescia dentro de si. Nunca experimentara tanto ciúmes de alguém quanto naquele momento. Ficara cega, ansiosa, com um fogo intenso e perturbador perturbando os seus pensamentos. Queria esganar todas aquelas que ousaram ficar tão próximas dele.

- Quieta e acalme-se. Eu fiz perguntas e quero esclarecimentos… e qual livro? - a questionou franzindo cenho, sem entender o rumo daquele assunto. Não fazia o menor sentido o que acontecera.

- Eu não vou ficar quieta! Nem sou obrigada a explicar nada… eu não lhe devo satisfações quanto ao que faço ou deixo de fazer - falou com uma falsa calma. Lutando para manter o timbre de voz baixo, continuou:

- A obra com a qual me presenteou. Eu não quero ficar com algo que pertence a alguém tão mal educado e ingrato. O senhor foi muito rude comigo hoje! - ao concluir acabou expondo toda a mágoa impregnada em cada palavra proferida até aquele ponto.

- Já terminou o seu ataque de fúria? Posso lhe garantir que, como deve ter conhecimento e educação, não se pode devolver o que ganhou, senhorita - retorquiu a encarando com seriedade e frieza. Internamente, brigava consigo mesmo para não perder a paciência e agir irracionalmente com Hermione. Não se perdoaria se gritasse ou fosse novamente grosseiro com ela. Sobretudo, quando ainda não assimilava o que sucedera e quais os motivos a levavam a tomar uma atitude tão drástica.

- Não só consigo, como o faço. Tome! - afirmou. Convicta de que o mais velho não pegaria o exemplar de volta, seu temperamento estourou e decidira assumir o risco de queimar a paciência que o homem apresentava atirando o livro contra ele. Com isso, Severus caminhou, lentamente, em direção a Hermione sem desviar o olhar em nenhum instante. A respiração de ambos estava acelerada… enquanto os punhos da castanha se mantinha cerrados, como se estivesse prestes a entrar em uma luta, o homem de olhos de ônix ia dobrando os punhos da sua camisa branca. Ao chegar bem próximo a menina, se abaixou um pouco para a analisar de perto. Já estava, suficientemente, zangado para cometer uma idiotice e precisou respirar fundo duas vezes antes de decidir qualquer coisa.

- Ele é seu… leve-o e pare de agir como uma criança tola e chorona! - sibilou, entregando o livro nas mãos dela. Não perderia o controle e a deixaria sair dali como se estivesse coberta de razão.

- O senhor é um estúpido… um idiota, que não vê que essas oferecidas estão praticamente se jogando no seu colo. Me dá nojo as suas atitudes, eu… o senhor deve até gostar de ter essas vagabundas aos seus pés! - gritou com lágrimas nos olhos. O monstro de olhos verdes lhe roubava toda a prudência e de maneira absurda.

- Como é? Eu não estou dando espaço a quem quer que seja para me assediar ou se aproximar, para sua informação. Numa coisa está correta, eu devo ser algum tipo de lunático por ter me dignado a conversar com uma criança birrenta, mimada, insolente, dentuça e com um cabelo que parece abrigar um ninho de ratos - esbravejou, retendo o olhar, incomodamente, fixo ao semblante da jovem que corava. Havia um misto de fúria e frustração os cercava e tornava o ambiente sufocante.

- Cala a sua maldita boca, Snivellus… seu velho idiota e narigudo! - a agressividade explodiu e, por alguns segundos, a maneira que o confrontou lhe fez congelar a sua espinha. Conhecia muito bem qual era o seu significado, no entanto, era a primeira vez que reparava no quanto Hermione era capaz de mantê-lo. Nunca se dera conta do quanto era idêntico ao de Bellatrix quando estava com gana de matar alguém.

- Eu só vou lhe dar um aviso, é a última vez que ousa falar comigo nesse tom ou se refere a mim deste modo! Estamos entendidos? - inquiriu com uma voz cada vez mais baixa e cheias de significados implícitos, os quais Hermione não apresentava coragem para descobrir quais eram. Seu olhar desviou do dele, percebendo o quanto fora impertinente e desagradável. De contrapartida, Severus manteve a sua postura e deu continuidade à descompostura:

- Eu posso ser até um velho idiota e narigudo. Mas, espero que a senhorita siga com a sua vida de pequeno castor enraivecido - sibilou perigosamente com o rosto próximo ao dela. Assim como se aproximou, rapidamente, deu as costas para entrar no quarto e a abandoná-la ali. Daria fim àquela discussão sem o menor cabimento.

- O senhor me respeite! Eu não o conheço e não tem o direito de me ofender. Isso é repulsivo e desrespeitoso… - berrou com as lágrimas escorrendo pelo seu rosto.

- O que espera, Black?! Me diga o que quer, afinal? Tem esperanças que eu me jogue no chão e implore que me perdoe? A senhorita se colocou em risco, quase se matou, fez desse lugar um inferno há poucos minutos - bufou, buscando recuperar o controle da respiração que acelerara, para dar prosseguimento:

- Não contente com isso, ataca pessoas porque se descontrola, me joga um livro, se atreve a me afrontar, age como uma louca e eu é que a ofendi? Cresça, menininha insolente! - concluiu tentando restabelecer um tom aceitável de voz.

- Eu odeio você! - vociferou contra o bruxo e saiu correndo aos prantos. Seu choro era tão sentido e dolorido que lhe partiu o coração. Porém, não a seguiria… Hermione quebrada todas as barreiras do respeito e ultrapassado os limites do aceitável em minutos.

Resumidamente, tudo o que mais queriam no mundo era esquecer completamente aquele dia…

Um clarão em meio as ruas estreitas e mal iluminadas revelou uma aglomeração de pessoas com fantasias e máscaras por todos os lados. Havia uma confusão de vozes, beijos, abraços, o ir e vir dos pedestres que caminhavam animadamente por entre os carros… se via completamente cercada por aquela multidão desconhecida e não vislumbrava o local em que se encontrava. Hermione transitava sem saber para onde ia e se sentia perdida em meio ao caos. Olhava para todos os lados em busca de rostos conhecidos, porém em vão. Todos estavam ocultos e as luzes piscavam freneticamente em seu entorno, distorcendo as suas percepções espaciais e enganando os seus sentidos.

Sua vontade era a de pedir ajuda, entretanto, tal impulso foi superado pelo desejo de seguir em frente. Queria rumar para o que presumira ser um ponte e, quem sabe, ali ter alguma noção de que cidade ou vilarejo era aquele. Ao mesmo tempo, almejava que alguém retirasse aquele invólucro branco que a mantinha presa e a impedia de ir para qualquer destino escolhido. Ambicionava ser livre, como todos os seus pensamentos, e, conquistar o que lhe era tão proibido.

Ao chegar na ponte, esqueceu do tempo, admirando o rio que, com suas águas calmas, desafiava a desordem e avançava no seu percurso envolvo às sombras da noite. O som a tranquilizava e a levou a fechar os olhos… tudo ficou claro. Aquele foi o instante em que, quando menos se espera, as coisas acontecem. Ao fixar os seus olhos, viu ao longe aquele que a guiaria aos limites de suas inclinações mais profundas e inconfessáveis.

Com o coração batendo forte como um tambor, analisou Severus à distância. O bruxo trajava roupas brancas e pomposas, seu cabelo negro parecia mais cheio e o seu andar era lento… tão galante e alinhado como se fosse uma representação do próprio Visconde de Valmont. Definitivamente, ele era lindo e a sua beleza enigmática se tornava ainda mais sedutora sob a luz da lua. Tal idealização a fez sorrir e a corar um pouco. Sem reparar ou ter noção do que sucedera, uma espécie de imã invisível o atraiu até lá. Tão próximos, perseveraram por minutos se olhando sem dizer uma palavra que fosse ao outro. A jovem, assim, resolveu assumir o controle de tudo aquilo. Sem dar sazão para que o homem se afastasse, o beijou.

O contato entre os lábios foi se aprofundando, a medida em que, suas línguas se acariciavam vagarosamente, transformando aquele gesto em um ato lascivo, intenso, caloroso e erótico. Hermione passava os seus dedos pelo rosto dele, sentindo cada centímetro de pele… as sensações a deixavam como se estivesse embriagada pelo cheiro e a compeliam a querer mais. Severus retirou as mãos dela e se afastou um pouco, com o olhar atordoado, como se tentasse compreender a situação e a insolência da bruxa em tocá-lo daquela forma.

Sem se dar por vencida, o agarrou novamente. Queria que lhe retribuísse todo o calor, o contato e lhe desse passagem para saborear a sua boca tão macia contra a sua. A cabeça da castanha girava com os afagos que se convertiam em atos mais urgentes e febris. Um apertava o corpo do outro como se a vida dependesse daquilo. Se abraçavam com tanta força que pareciam náufragos desesperados por salvação. Hermione o puxava pela nuca, o queria perto, o máximo que era capaz para obrigá-lo a nunca mais se afastar. Ao mesmo tempo, sentia a barba dele roçando enquanto seu pescoço e queixo eram beijados.

- Hermis… - sussurrava. Delicadamente, Severus colocava as mãos naquela espécie de casulo e o rasgava. Ela sentia o aperto sendo, aos poucos, aliviado por se ver solta daquele enclausuramento.

A pressão do corpo do bruxo contra o dela, o peso contra o seu quadril, a deixava louca. Entre beijos molhados, tudo a anestesiada. Sem pensar, se mexeu para que continuasse, fazendo com que os movimentos fossem ritmados. A segurava pela cintura para que o acompanhasse e não se sentisse tão desconfortável.

- Sevie… - murmurou distribuindo pequenas mordidas para aliviar a tensão. Uma fumaça vermelha os cercava, indo e vindo como as batidas de seus corações, ao chocar dos corpos.

- Eu amo você…

A menina acordou desorientada, com as mãos trêmulas e o suor escorrendo pelo seu rosto. Como se saltasse da cama, saiu depressa do quarto, sem se importar por estar ainda de camisola e descalça. Correu pelos corredores, sentindo os seus pulmões queimarem, até chegar ao dormitório do mestre em Poções. Após várias batidas fortes e urgentes, o viu abrir a porta com um semblante confuso e sonolento. Ele piscou algumas vezes para focar no rosto dela e entender o que fazia ali tão cedo. Antes que pudesse perguntar, Hermione pulo em seu colo o abraçando.

- O que aconteceu, senhorita Black? - questionou preocupado com aquela reação desproporcional, a segurando firme para que não caísse.

- Me perdoe… sinto muito pelas coisas que eu disse, senhor - chorava o apertando o mais forte que podia, como se ainda estivessem no sonho.

- Eu o farei se me prometer uma coisa… - falou tentando acalmá-la e se encaminhando para dentro do cômodo. Temia que alguém os visse de pijama e interpretasse erroneamente os fatos. Mesmo tendo alguma dificuldade em se soltar, conseguiu colocar a bruxa sentada na cama e se encostou na parede. Seu cérebro reorganizava as possibilidade e cenários que culminassem naquele ponto.

- O que quiser - argumentou secando as lágrimas.

- Interessante, senhorita Black… eu posso exigir o que me vier a mente? Tudo em troca do meu perdão? - questionou dando um meio sorriso diante da inocência dela em não assimilar o que lhe era inquirido.

- Sim… eu… só… - gaguejou, tentando justificar o que afirmava.

- Bem, apenas me dê a sua palavra de que jamais voltará a me ofender ou se pôr em perigo. Esse juramento me basta - contra-argumentou a deixando mais tranquila. Nunca abusaria da sua pureza de alma e de pensamentos. Contudo, inesperadamente, novos soluços e lágrimas surgiram.

- Eu tenho medo de perdê-lo… eu… sinto que os meus pais vão me odiar se eu lutar pelo o que eu quero. Estou confusa… não sei o que fazer. Por favor, me ajude! - confessou o deixando desarmado. Não sabia quais as frases e gestos a tranquilizariam. Se estivesse em Hogwarts, já teria dado uma Poção Calmante, para sossegar os seus nervos.

- Duvido que Sirius ou Narcissa deixem de amá-la ou passem a sentir menos carinho por conta de qualquer decisão que tome na vida. Há um tipo de amor que é incondicional e maior do que todas as coisas que existe… é o que eles possuem em relação à senhorita e aos seus irmãos. Além disso, Bellatrix jamais a julgará por suas atitudes - enfatizou, enquanto a observava choramingar baixinho. O horror de falhar ou decepcioná-los de algum jeito, a deixavam à beira de um ataque de pânico. Notando que os tremores de Hermione se ampliavam, Severus sentou ao seu lado e a segurou pela mão.

- Shhhh… não fique assim. Não se aflija por tão pouco. Além disso, quero que perdoe e esqueça os insultos que lhe fiz. Foram ultrajes ditos em uma crise de raiva e que não expõe o que eu penso. Me envergonho de tê-la injuriado e lhe deixado tão triste - falou respirando pesadamente. Nada o destroçava mais do que ser o responsável pelo sofrimento daquela bruxa de cabelos revoltos. Ela apenas ergueu os olhos e assentiu, buscando serenar o próprio coração. Após minutos de silêncio entre os dois

- O senhor será capaz de me amar um dia? - perguntou baixinho, quase um sussurro, contemplando a mão dele junto a sua.

- Tudo ao seu tempo… a senhorita ainda é muito jovem para querer a devoção de um homem - respondeu pensativo.