Disclaimer: Harry Potter não me pertence e tudo que vocês reconhecem pertence a J.K. Rowling. Essa história também é inspirada em "A Shattered Prophecy," do Project Dark Overlord.

Chapter Thirty Nine – Home

(Em Casa)

Harry aterrissou com um baque forte. Mesmo antes de se endireitar completamente, sabia onde estava. Os efeitos da chave de portal não puderam mascarar a familiaridade do lugar, o cheiro no ar e a pura sensação de magia que crepitava ao redor dele. Voltara para casa.

O jovem olhou através da escuridão para a mansão em forma de castelo, a casa de que tanto sentia falta. Assim que sua cabeça parou de girar, partiu em direção à Mansão Riddle a passos longos e ansiosos. Bella estava ao seu lado, correndo para acompanhá-lo. Um momento depois, vários estalos soaram pelo ar e os Comensais da Morte aparataram ao lado dele. Tendo completado a missão, não tinham motivo para prosseguir com o ataque a Hogwarts. Os Comensais seguiram atrás de Harry e Bella, regozijando-se alto com a missão bem-sucedida e lançando fagulhas verdes. A vitória era deles. Tinham adentrado corajosamente os terrenos de Hogwarts e resgatado o Príncipe das Trevas, bem debaixo do nariz torto de Dumbledore. O mestre certamente ficaria satisfeito.

Quando Harry se aproximou da mansão, notou um Comensal da Morte solitário, esperando nas portas. Lucius Malfoy estava com as mãos entrelaçadas às costas, a cabeça erguida, os olhos cinzentos afiados e focados em sua direção. Lucius não usava a máscara, então Harry podia ver o alívio em cada linha de seu rosto quando seus olhos se encontraram. Um sorriso largo e desinibido espalhou-se pelo rosto do homem e ele se afastou para abrir a porta. Quando Harry passou, Lucius o acompanhou sem esforço. O rapaz entrou na mansão, com Lucius de um lado e Bella do outro.

Quando Harry passou pelo saguão principal, os Comensais da Morte estacionados lá dentro caíram de joelhos, curvando-se diante dele, mas o garoto os ignorou. Tudo que queria era ver seu pai. Enquanto se aproximava dos aposentos do Lorde das Trevas, sua cicatriz começou a latejar. Mas Harry tinha experiência suficiente para saber que a dor era porque seu pai estava feliz. Excruciantemente feliz.

Os passos de Harry vacilaram quando a dor intensificou, mas ele prosseguiu mesmo assim. Fazia quatro meses desde a última vez que vira o pai, dor alguma o impediria. Assim que sua sombra apareceu nas portas, elas se abriram, permitindo o acesso. O jovem parou subitamente, Lucius e Bella também pararam, o exército de Comensais da Morte atrás deles ficou em silêncio.

Lorde Voldemort estava no meio do grande aposento, os olhos vermelho-rubi brilhando, mas sua expressão era ilegível. Harry entrou, mas parou a alguns passos de distância. Seu coração batia pesadamente contra a caixa torácica e deu outra reviravolta dolorosa quando o olhar de seu pai percorreu sua forma antes de encontrar seus olhos.

Os olhares se encontraram e Harry sentiu o cutucão da Legilimência em sua mente. Ele permitiu a conexão, não que seus escudos mentais fracos pudessem afastar Lorde Voldemort. Não sabia o que seu pai procurava, mas aparentemente achou logo. O puxão de Lorde Voldemort em sua mente cessou, mas deixou Harry cambaleando. A exaustão o alcançou depressa, tanto que Harry podia jurar que sentia sua energia vazando pelos poros, tornando quase impossível se manter de pé.

Uma sombra caiu sobre ele e Harry olhou para cima e encontrou seu pai parado à sua frente. As duas mãos descansaram em seus ombros e o rapaz sentiu a dor na cicatriz aumentar novamente. Ele mal conteve um grito.

Mas Voldemort estava distraído demais para notar que sua alegria estava afetando o filho. Vê-lo de volta, vivo e relativamente ileso, era irresistível. A breve Legilimência provou que ele era de fato Harry e que ainda lhe era ferozmente leal. Dumbledore não conseguiu alcançá-lo. O tempo longe não atingira sua fidelidade. Ainda era inteiramente seu filho.

Um sorriso adornou o rosto do Lorde das Trevas e seu aperto nos ombros de Harry se intensificou.

"Bem-vindo de volta, Harry."

Apesar da dor, o rosto de Harry se abriu em um sorriso cansado. Mas o sorriso no rosto de Voldemort se esvaiu, os olhos vermelhos se estreitando. A mão dele deixou o ombro de Harry e foi até seu rosto. Os dedos longos levantaram seu queixo antes de inclinar seu rosto para o lado. A outra mão empurrou o cabelo de Harry para examinar a ferida escura na lateral de sua testa. A expressão no rosto de Voldemort era aterrorizante. Harry teve que apertar a mandíbula com força e espremer os olhos para lidar com a dor aguda na cicatriz.

Voldemort se afastou, aplacando sua raiva, bloqueando-a e, de uma vez, Harry pôde sentir a dor desaparecer. Ele abriu os olhos, piscando para conter a umidade que a dor provocara. O olhar de Voldemort ainda estava nele, mas o bruxo apontou para a multidão reunida atrás. O breve estalar de dois dedos era simples o suficiente para ser entendido como "saiam."

Só quando as portas foram fechadas e apenas os dois permaneceram na câmara, o Lorde das Trevas falou.

"Quem te atingiu?" sua voz tremeu levemente com a pergunta, como se cada grama de autocontrole não fosse suficiente para mascarar sua raiva.

"Ninguém," respondeu Harry, "eu devo ter batido em alguma coisa quando Dumbledore me derrubou."

Voldemort se ergueu com a menção de Dumbledore e Harry podia sentir, apesar dos esforços valentes de seu pai, o pico de dor aumentando em sua cicatriz.

"Dumbledore," repetiu Voldemort, com um silvo, "eu deveria ter imaginado. Ele é o único que é páreo para você", o bruxo se aproximou, "ele tentou Legilimência em você?"

Era o temor que mantinha Voldemort acordado à noite. Um pensamento preocupante, entre outros, que roía suas entranhas. As habilidades de Harry em Oclumência não eram boas. Na verdade, eram terríveis. Não importava o quanto insistisse, quão duro fosse com o garoto, Oclumência era a única coisa que Harry não conseguia dominar. Se confrontado por um mestre em Legilimência como Dumbledore, Harry não teria chance. Se Dumbledore tivesse entrado na mente de Harry, teria descoberto todos os detalhes dos planos de Voldemort, sua localização e a identidade de todos os Comensais da Morte. O que significava que Voldemort tinha muito prejuízo para controlar.

Mas Harry sorriu e balançou a cabeça.

"Ele achava que eu ia trair você e dar informação voluntariamente."

Voldemort sorriu enquanto o alívio tomava conta dele.

"Ele é um tolo em pensar que meu filho se voltaria contra mim."

Harry apenas sorriu em resposta, mas a exaustão começava a dominá-lo e Voldemort percebeu. Ele se aproximou e gentilmente colocou as duas mãos nos ombros do rapaz.

"Vá descansar," instruiu, "conversaremos amanhã."

Harry sorriu agradecido.

"Sim, pai."

Voldemort observou Harry se afastar, sorrindo. Conseguira. Contornara o destino e recuperara seu herdeiro das garras do inimigo. Poderia não admitir para ninguém, mas estivera preocupado. Harry ficara com Dumbledore por quatro meses. Quatro longos meses na companhia dos pais biológicos. Quando o garoto entrou em seus aposentos há poucos instantes, Voldemort estava com uma estranha sensação de medo na boca do estômago. Foi só por um momento, por uma fração de segundo, que o bruxo temeu pela lealdade do rapaz. Mas na mesma quantidade de tempo, a Legilimência que realizou afastou todos os seus receios. Harry lhe era irrevogavelmente fiel. As precauções que tomara nos primeiros anos da vida do menino valeram a pena. Harry nunca o deixaria. Jamais escolheria nenhum dos Potter no lugar dele.

O bruxo tornou a sorrir.

Enquanto se recolhia para dormir, mapeou mentalmente os planos para o dia seguinte. Sabia o que faria primeiro. Depois de quatro meses, tomaria café da manhã com o filho. Então, conversaria com Harry sobre suas experiências, sobre tudo que ele passou. Por mais breve que tivesse sido sua Legilimência, sentira a dor que o garoto enfrentara. Silenciosamente, fez um voto consigo mesmo. Quem o machucou, pagaria caro. Ninguém sairia ileso após machucar seu único filho.

xxx

Hogwarts estava um caos. Os estudantes que se confinaram nos dormitórios haviam saído, em pânico e confusos. Os sobreviventes da Ordem e dos aurores estavam do lado de fora, separando os feridos dos mortos. Os professores conduziam os alunos de volta aos dormitórios, assegurando-lhes que tudo estava bem, que nenhum estudante fora atingido, mas lutando para negar que um deles havia sido levado pelos Comensais da Morte. Não conseguiam mentir descaradamente para os alunos. Afinal, provavelmente logo descobririam. As pessoas que viram Harry sair pelas portas do castelo e correr até os Comensais da Morte contariam aos demais o que presenciaram, não importava o quanto ameaçassem.

Através do pandemônio, um homem desceu correndo os degraus, procurando desesperadamente por seu filho. Já tendo verificado a sala comunal e os dormitórios da Grifinória, James Potter abriu caminho através da multidão, procurando por Damien. Ele deu três passos de cada vez, com o coração batendo ferozmente no peito. Já perdera o filho mais velho para Voldemort naquela noite, precisava ver o mais novo para permanecer são.

"Damien? Damien?" gritou James, Lily e Sirius gritando o mesmo atrás dele. Mas não importava em qual corredor corriam, ou qual esquina viravam, não conseguiam encontrar o menino em lugar algum.

"Ron! Ron!" James avistou o garoto ruivo no meio da multidão. "Onde está Damien?" perguntou ele, segurando o garoto pelas vestes.

Ron olhou para as mãos trêmulas que seguravam suas vestes e para o rosto manchado de lágrimas, que exibia um medo tão vívido que o assustava.

"Eu... eu não sei," ele balançou a cabeça. "Eu não o vi... talvez ele esteja na sala comu..."

"Ele não está lá!" James o soltou, virando-se para passar as mãos pelos cabelos, parecendo prestes a chorar. "Onde ele poderia estar? Ele não saiu correndo, não é?"

Ron sacudiu a cabeça.

"Não, eu estive aqui o tempo todo. Damy não passou por aqui e ele definitivamente não saiu do castelo."

Isso era tudo que James precisava ouvir. Ele decolou, correndo na direção oposta.

"James!"

Ele parou, virando-se com a voz de Sirius.

"As masmorras!" disse Sirius, antes de sair em direção às escadas que levavam aos andares inferiores do castelo, onde deixaram Harry pela última vez. James correu atrás dele, Lily em seu encalço.

Assim que desceram os degraus e viraram a esquina, viram Damien, seguindo lentamente adiante. Sua cabeça estava abaixada, forçando cada passo adiante, quase como se estivesse sentindo dor. O alívio inundou os pais aflitos e eles correram na direção dele.

"Damien!"

Olhos avelã cheios de lágrimas os encararam. James e Lily o alcançaram e abraçaram o menino.

"Graças a Deus!" sussurrou Lily. "Você está bem, graças a Deus!"

"O que estava fazendo aqui embaixo?" questionou James.

Mas Damien simplesmente sacudiu a cabeça, as lágrimas escorrendo pelo rosto.

"Eu tive que fazer," murmurou ele, "vocês entendem, certo?" Ele olhou para James. "Ele... ele não me dava ouvidos, ele... ele não acreditava em mim. Eu tinha que fazer, eu não tinha outra escolha."

James, Lily e Sirius ficaram alarmados. Eles levaram Damien de volta pelo caminho que viera, de volta aos aposentos de Lily. Quando entraram, James teve que se forçar a não olhar para a cadeira vazia com as cordas descartadas, enroladas aos seus pés. Estremeceu ao pensar em como tratara Harry, alimentando sua mente com mais pesadelos sobre os pais. O bruxo sacudiu os pensamentos, não podia pensar nisso agora. Tinha que se concentrar em Damien. Ele sentou o filho no sofá e se ajoelhou diante dele, enquanto Lily e Sirius sentavam-se ao seu lado.

"O que aconteceu?" perguntou James, mantendo as mãos nos ombros do menino. Ele teve que lhe dar uma pequena sacudida antes de repetir: "Damy? O que aconteceu?"

Damien olhou para o pai, os olhos vermelhos e as bochechas manchadas de lágrimas.

"Eu o soltei," disse Damien baixinho, "eu soltei Harry."

James sentiu o coração afundar até o estômago.

"Você fez o quê?" perguntou ele, horrorizado. "Por quê? O que estava pensando?" Seu aperto intensificou em torno de Damien. "Você o soltou para que pudesse voltar para Voldemort? Por quê!? Por que você faria isso?"

"Porque você ia mandá-lo para Azkaban," respondeu Damien. James o soltou e sentou-se, atordoado. "Eu não queria que Harry fosse pra prisão," disse Damien, balançando a cabeça, "eu sei que ele tentou te machucar, mas... mas Harry, ele... ele acha que fugiu de casa. Ele não sabe a verdade. E não importava o que eu dissesse, ele não acreditava em mim. Eu não tinha tempo para convencê-lo, os Comensais da Morte chegaram e eu sabia que Harry ia ter que pagar por isso," o menino encarou o chão, "então eu o soltei para salvá-lo."

Lily estendeu a mão e gentilmente virou Damien para que ele pudesse encará-la.

"Como pôde pensar que deixaríamos Harry ir para Azkaban?" perguntou ela. "Não confia que nos preocupamos com a segurança dele?"

O olhar choroso de Damien se ergueu para o rosto dela.

"Como posso confiar..." perguntou ele, "quando foi papai que o ameaçou?"

"Como sabe disso?" perguntou Sirius.

"Eu ouvi," confessou Damien, "eu estava aqui sob a capa da invisibilidade," ele gesticulou para a vestimenta descartada em um canto da sala, "eu ouvi o que você disse a ele, como o ameaçou," o garoto se dirigiu a James agora, "em seus olhos talvez Harry merecesse isso. Ele tentou... matar você," a voz de Damien vacilou, "mas ele ainda é meu irmão, e eu não poderia dar as costas e deixar os dementadores pegá-lo."

James não disse nada. Seu coração estava partido. Ele estendeu a mão e, amorosamente, passou-a pelos cabelos escuros do filho.

"Eu não ia mandá-lo para Azkaban," disse ele com a voz entrecortada, "era apenas uma ameaça vazia. Não há dementadores aqui. Eu os removi há semanas."

Os olhos de Damien se arregalaram e ele olhou para o pai.

"Mas... mas você disse que ia fazer o Professor Dumbledore... entrar na mente de Harry..."

"Eu estava tentando assustá-lo, para que me dissesse por que me atacou," explicou James, "mas agora eu sei, por que ele..." seu coração saltou quando as memórias que viu na penseira ressurgiram. Ele mordeu a língua e fechou os olhos com força. "Ele acha que eu o machuquei," sussurrou ele, "ele pensa que... eu e sua mãe..."

"Eu sei," interrompeu Damien. "Eu sei, pai, eu sei."

As lágrimas começavam a queimar de novo e não importava o quanto Damien tentasse, não conseguia contê-las. Ele olhou para James através dos olhos molhados, vendo algo semelhante acontecendo com seu pai também. Damien estendeu a mão e James deixou o garoto de treze anos sair da cadeira e se aconchegar em seus braços. O menino chorou contra seu ombro, abraçando-o ferozmente.

"Sinto muito, pai, me desculpe," disse ele em uma voz abafada e em meio aos soluços, "eu tentei dizer a ele, eu... eu tentei fazer Harry ver que você, você nunca..." ele não conseguia dizer a palavra. Seu aperto ao redor do pai aumentou, "ele... ele não me deu ouvidos. Não consegui convencê-lo. Ele... ele ainda acha que você o odeia, que você... você não o queria. Não consegui limpar seu nome, me desculpe. Eu sinto muito."

James o silenciou, lutando contra as próprias lágrimas.

"Não é seu trabalho limpar meu nome, Damy," consolou ele, "eu farei isso. Custe o que custar, vou recuperar Harry. E vou mostrar o quanto o amo. Não se preocupe, Damien, eu vou reunir nossa família, não importa o que aconteça."

xxx

Uma hora depois, Damien estava dormindo. Sua explosão emocional o deixou exausto. James e Lily decidiram mantê-lo em seu quarto aquela noite. Os dormitórios da Grifinória seriam um lugar difícil para ele, especialmente naquela noite. Todos iam querer respostas e James não queria que o filho tivesse que explicar. Esse trabalho era seu, não de um garoto de treze anos de idade.

James colocou Damien na cama de Lily e saiu do quarto, fechando a porta o mais suavemente que pôde. Ele voltou para o sofá na antessala, encontrando apenas sua esposa lá. Sirius saiu para verificar os danos deixados pelo ataque. Estava preocupado com as baixas, mas prometeu que voltaria mais tarde.

James sentou-se cansado ao lado da mulher. Ambos não queriam nada além de cair na cama e dormir até que aquele pesadelo acabasse. Uma parte dele desejava que tudo fosse um pesadelo. Que acordaria e estaria na cama, com Harry ainda em Hogwarts com ele. Seu olhar voou para a cadeira, com as cordas ainda penduradas, e ele fechou os olhos.

Inconscientemente, adicionara combustível ao ódio de Harry. Sua mente voltou a todos os enganos que cometeu com o filho, percebendo agora como suas ações iam ao encontro das memórias de infância dele.

A primeira vez que o encontrou, enquanto ele estava por trás da máscara prateada, eles duelaram e James o cortou, derramando sangue do próprio filho. Então, quando a armadilha para o Príncipe das Trevas foi armada, James tinha sido um dos quatro que o atingiu, fazendo-o cair de dois andares, machucando-o seriamente. Em Nurmengard, quando percebeu que Harry estava enganado, exigiu que lhe confessasse as mentiras que Voldemort havia lhe contado. Mas a questão era essa, Voldemort nunca mentiu para ele. Ele fabricou memórias que Harry acreditava serem verdadeiras. James se encolheu ao lembrar da conversa.

"O que ele te disse? Como você acabou com ele e longe dos seus pais verdadeiros?"

"Ele não me disse nada."

"Você está mentindo! Me diga, o que Voldemort lhe disse que aconteceu?"

"Não sou eu quem está mentindo."

James soltou um suspiro frustrado, estendendo a mão para esfregar a cabeça, desejando afastar a dor que sentia.

"Como pude ser tão estúpido?" murmurou ele. "Por que eu não vi? Por que não percebi?"

Lily balançou a cabeça lentamente, repreendendo-se mentalmente também.

"Ele nunca escondeu que odiava todos nós," disse ela calmamente, "mas nós ignoramos, não quisemos lidar com isso, esperando que Harry simplesmente mudasse." Ela fechou os olhos, ainda balançando a cabeça. "Como pudemos ser tão ignorantes?"

James não tinha uma resposta. Os últimos quatro meses com Harry passaram em sua mente, e a cada falha ele se odiava mais e mais.

Foi ele quem jogou Harry contra uma vitrine e depois não teve o bom senso de checar se estava ferido. Lembrou-se de como Harry o olhara quando entrou para vê-lo no quartel-general.

"Whoa! Harry! Está tudo bem. Eu não vou te machucar."

Mas a questão era que, nas memórias de Harry, tudo que James fez foi machucá-lo. Foi por isso que ele reagiu tão violentamente. Essa foi a razão pela qual não deixou James ou Lily se aproximar o suficiente para tocá-lo. Foi por isso que afastou toda e qualquer tentativa de aproximação. Eles devem ter parecido tão falsos; suas palavras, ações, tudo isso deve ter parecido um grande disfarce.

"Sério? Você me perdeu? Voldemort me levou, não foi?"

"Eu posso ser como você. Eu posso ser um mentiroso, um falso, eu também posso fingir."

James fez uma careta e tirou os óculos, inclinando-se para frente para descansar, pressionando a palma das mãos contra os olhos. Lutou contra a queimação neles, desejou conter as lágrimas. Não merecia a satisfação de chorar sua dor. Fracassara em manter a família unida. Harry deixou muitas dicas, chegando quase a gritar, mas James não entendeu.

"O que vai fazer? Me bater? Vá em frente! Eu não tenho medo de você, não mais."

Por que não insistiu para que Harry se abrisse? Por que aceitou os protestos dele?

"Eu falhei com ele," disse James, sua voz horrivelmente fraca, "deveria ter descoberto. Eu sabia que havia algo errado, mas nunca..." ele balançou a cabeça, querendo que sua voz permanecesse forte, "eu nunca pensei... nunca pensei que fosse algo... assim." O bruxo limpou os olhos com raiva, irritado consigo mesmo, zangado com as lágrimas que continuavam a percorrer seu rosto.

Lily puxou James para seus braços, em seu abraço caloroso e confortável.

"Não é culpa sua," disse ela baixinho, "eu estava bem aqui com você. Também não entendi. Nunca, nem por um segundo sequer, pensei que Harry acreditava em algo assim, que seus próprios pais o odiavam... o machucaram..." Ela esfregou o rosto molhado e fungou. "Nós dois falhamos, James, nós dois o decepcionamos."

James ficou em silêncio, no abraço de Lily por longos minutos. Sua mente percorreu mais memórias, aprofundando-se no poço de sua miséria. Aquele dia, no quartel-general, quando Damien entrou sorrateiramente para ver Harry. Naquele dia, Harry soltou muita coisa, mas nem ele nem Lily perceberam. A forma que Harry protegeu o irmão quando James disse que Damien ia se arrepender de ter fugido. Deviam ter notado o quanto foi estranho.

"Crianças não saem de casa, a menos que sejam forçadas a isso."

Ele basicamente disse em voz alta. Harry pensou ter fugido de casa, forçado pelo tratamento abusivo de seus pais. Ele lhes dissera, em alto e bom som, mas eles não entenderam.

"E se tudo isso não ensiná-lo uma lição, sempre pode jogá-lo dois andares abaixo! Nada como ossos quebrados para ensinar uma lição!"

James sentiu seu estômago revirar quando percebeu que as palavras que Harry falara no final eram um eco do que vira na penseira. O James Potter nas memórias de Harry usou as mesmas palavras quando quebrou seu braço.

Foi demais. James levantou-se, saindo dos braços de Lily e conseguindo chegar a tempo no banheiro. Ele esvaziou o que estava no estômago, vomitando violentamente. Todo o tempo, mais de seus erros surgiram em sua mente e a voz de Harry ecoou em seus ouvidos.

"A quem você está tentando enganar? Pra que esse drama? Não há ninguém aqui exceto eu e você, então por que não para o teatro e é sincero pela primeira vez!?"

"Seu filho da mãe! Você quer que eu diga em voz alta? Você me dá nojo."

"Estamos só nós dois aqui. Não há ninguém aqui para você fazer cena, ninguém aqui para revelar seu segredo. Então, vá em frente, diga, por quê?"

"Olhe nos meus olhos, seu filho da mãe e me diga! O que eu fiz para você me odiar? Eu era seu filho! Droga! Por quê?"

"Eu inventei desculpas para você, me convenci de que você era um bastardo doente, que só era capaz de machucar os outros, que não sabia ser melhor. Mas eu vi você com Damien, e vi como você era diferente com ele. Então, eu te pergunto novamente, Potter. Por quê? Por que eu?"

"Você não lembra? Que sorte a sua, não ter aquelas lembranças te assombrando. Mas eu lembro, Potter. Eu me lembro de cada detalhe."

James recostou-se, respirando de forma irregular. Estava tremendo, gotas de suor se acumulavam em sua testa. Ele se encostou na parede, respirando fundo, mas não adiantou. A memória de seu filhinho de três anos espancado sem piedade voltou e James finalmente cedeu às emoções tumultuosas. Ele baixou a cabeça entre as mãos e chorou. James soluçou, querendo dissipar a angústia através de lágrimas quentes, mas isso só o fez sofrer ainda mais.

Vira apenas algumas dessas torturas atrozes e isso o deixou completamente quebrado, mas seu filho vivera com todas aquelas lembranças por anos. Quanto sofrimento, quanta dor aquilo deve ter causado a Harry? Ele só tinha dezesseis anos. Como era que depois de suportar tal agonia, tendo um passado tão tortuoso, seu Harry ainda conseguia ficar de pé?

Lily se ajoelhou ao lado dele, a mão em seu ombro.

"James?"

Ela também chorava. James podia ouvir em sua voz.

"James, não, por favor," soluçou ela, "por favor... se você desmoronar... então... então eu... eu não consigo..."

James afastou as mãos, virando o rosto manchado de lágrimas para encarar a esposa. Ele estendeu a mão para ela, acomodando-a ao seu lado. Os dois ficaram sentados, afundando cada vez mais em sua miséria, recordando-se das oportunidades perdidas.

Lily fechou os olhos, aconchegando-se em James. Passou os últimos quinze anos imaginando uma vida com seu filho mais velho, com Harry. Agora que o destino lhe dera a chance, ela estragara tudo. Harry voltara para eles e, nos quatro meses que passou ali, conseguiram ignorar todos os comentários e comportamentos estranhos, o que resultou em perdê-lo novamente.

Uma batida soou na porta dos aposentos de Lily. Ambos se levantaram do chão, enxugando os rostos. Saíram do banheiro e Lily foi abri-la.

Era Dumbledore. Ele acenou para ela, mas o charme habitual do bruxo não estava presente. Não havia brilho nos olhos, nenhum sorriso torto nos lábios.

"Posso entrar, Lily?" perguntou ele em uma voz calma e cansada.

"Por favor." Lily saiu do caminho, gesticulando para que entrasse.

Dumbledore entrou, seus olhos azuis repousando em James imediatamente. Nos primeiros momentos, ninguém falou. O olhar do diretor permaneceu no rosto de James, sem dúvida percebendo os olhos vermelhos e inchados, e o rosto manchado de lágrimas. O bruxo não disse nada, não perguntou como ele estava, porque sabia a resposta. Em vez disso, apontou para a porta que levava ao quarto de Lily.

"Ouvi dizer que o jovem Damien estava desaparecido," disse ele. "Sirius me disse que ele foi encontrado aqui. Eu queria verificar se ele está bem."

James não seria enganado.

"É verdade, Dumbledore." Não estava a fim de joguinhos hoje. A força lhe fora roubada. "Foi Damien quem libertou Harry."

Dumbledore assentiu.

"Foi o que imaginei."

"Ele estava tentando salvar o irmão," explicou James, "ele pensou que eu estava falando sério sobre mandá-lo para Azkaban."

Dumbledore assentiu.

"Entendo," ele baixou o olhar, "é honroso ele agir para ajudar o irmão..."

"Dumbledore, eu sei," disse James, interrompendo-o, "eu sei o que Damien fez, isso nos custou caro, acredite em mim, eu sei," disse ele. "Eu perdi Harry de novo, ninguém está mais irritado com Damien do que eu," James sacudiu a cabeça, "mas ele só fez o que achava ser melhor pro irmão. Não posso me opor a isso."

"Nem eu," assegurou Dumbledore.

Tanto James quanto Lily suspiraram aliviados. Eles não queriam que Damien se encrencasse pelo que fizera.

"Quão ruim foi?" perguntou Lily. "Quantos morreram esta noite?"

Dumbledore soltou um suspiro cansado e triste.

"Doze perdas e quatro gravemente feridos. Eles foram levados a St. Mungo's."

James se sentiu imensamente culpado. As baixas aconteceram por causa de seu filho. Os Comensais da Morte vieram aos terrenos de Hogwarts, prontos para matar qualquer um que estivesse em seu caminho, para levar Harry embora. Os corpos caídos poderiam facilmente ter sido estudantes e James não estava lá para ajudar.

"Não se sinta culpado," disse Dumbledore, depois de ver a culpa em seu ex-aluno. "Vocês estavam enfrentando um tipo diferente de batalha na ocasião, uma que eu não desejaria a ninguém."

James e Lily conseguiram, por pura força de vontade, não desmoronar novamente.

"Não posso acreditar..." começou Lily, lutando para encontrar as palavras certas, "todo mundo sabe o quão cruel Voldemort pode ser, mas nunca pensei que ele seria tão baixo!" Os olhos verde esmeralda cheios de dor encararam Dumbledore, "essas... essas memórias, essas mentiras! Ele encheu a cabeça de Harry com elas, só para fazê-lo nos odiar? Por quê? Só pra que nunca voltasse para nós?"

"Ele pode fazer o que quiser," disse James, "mas não vai tirar meu filho de mim. Vivi quinze anos sem meu Harry, mas isso porque acreditei que estivesse morto. Não importa o que tenha que fazer, vou recuperar meu filho." Ele deu um passo na direção de Dumbledore com grande esperança. "Quão difícil será mostrar a Harry que as memórias são falsas?" perguntou ele. "Não pode ser tão difícil, não é? Quer dizer, deve haver sinais que denunciem que as memórias são forjadas. Você pode provar isso, não pode?"

Dumbledore permaneceu em silêncio. Algo passou depressa pelo rosto do bruxo de idade, uma emoção que James não podia nomear, mas que deixou Dumbledore com o semblante fraco e derrotado.

"As memórias não são falsas, James."

O outro ficou parado. Seus olhos encaravam os de Dumbledore, mas sua visão periférica captou a reação de Lily. Ela recuou como se alguém a tivesse queimado.

"Quê?" perguntou ela.

"As memórias," Dumbledore se virou para ela, "elas não são falsas. São reais. Tudo que viram naquela penseira, tudo aquilo aconteceu, foram momentos vividos e experimentados pelo jovem Harry."

James sentiu como se alguém tivesse lhe acertado com um martelo. Todo ar lhe foi arrancado. A única coisa que o sustentara até então foi a certeza de que as memórias não eram reais, que nunca haviam acontecido. Harry não havia sido espancado e abusado de verdade. Ele só acreditava ter sido. Isso já era difícil o suficiente de lidar, mas com as palavras de Dumbledore, sua segurança desabou. Elas eram reais. As lembranças eram reais. Harry sofrera aquele abuso físico e mental. Seu filho estivera à mercê de Voldemort e foi isso que aquele monstro fez com ele.

"Quando uma memória é modificada ou criada artificialmente, há sinais que mostram isso," Dumbledore continuou a explicar, "enquanto muitos bruxos não conseguem reconhecê-los, eu posso ver a diferença. Receio que as memórias que testemunhei sejam todas genuínas. Harry viveu tudo que vocês viram na penseira hoje à noite. Meu palpite é que Voldemort mandou alguém imitar você e Sirius. Se o próprio Voldemort era parte da memória, eu não sei."

"Por quê?" engasgou-se James. "Por que ele faria isso?"

"Não é óbvio, James?" perguntou Dumbledore, tristemente. "Voldemort não só se certificou de que Harry nunca retornaria aos pais legítimos, mas plantou um profundo ódio pelos seguidores da Luz. Ele fez Harry acreditar que os seguidores da Luz são tão impiedosos quanto os Comensais da Morte. Para Harry, Voldemort é seu salvador. Isso torna sua lealdade a ele muito mais compreensível agora."

"Salvador?" perguntou Lily. "O que você quer dizer?"

"Você não viu essa memória? Quando Harry encontra Nagini e ela o leva para Voldemort?"

O casal recuou horrorizado.

"Nagini?" perguntou Lily. "Não, não fomos tão longe."

Dumbledore assentiu gravemente.

"Eu fui mais fundo na penseira. Depois que Harry sai de casa, ele é encontrado por Nagini, que o leva a Voldemort. Parece que Harry é um ofidioglota."

Lily não pôde conter o suspiro. James simplesmente fechou os olhos. Ele não tinha mais forças, nem mesmo para ficar com raiva ou chocado.

"Novamente, estou presumindo que seja algo que Voldemort passou para Harry," prosseguiu Dumbledore, "é claro, Harry acha que é um raro dom que possui desde o nascimento. Nagini fala com Harry, que está perdido e aterrorizado. Ela o leva a Voldemort, que cura seus ferimentos. Ele então pergunta se Harry deseja ficar com ele, como seu filho, já que Voldemort pode sentir seu grande potencial. Harry é apenas uma criança assustada e aceita o convite." Dumbledore encontrou o olhar desesperado de James. "Voldemort quebrou Harry, só para ser aquele a consertá-lo. Harry acredita que Voldemort é responsável pelo poder e habilidade que ele possui. Ele é grato apenas a Voldemort. Dessa forma, Voldemort assegurou-se de que Harry nunca irá intencionalmente prejudicá-lo, garantindo que a Profecia não se cumpra. Se o único que poderia derrotá-lo se transformar em seu escudo, ele se tornará invencível."

"Aquele filho da mãe doente!" vociferou James. "Eu não me importo com o que a Profecia diz, eu que vou matá-lo!" disse James, seus punhos cerrados. "Eu vou acabar com ele pelo que fez! Como ousa tocar no meu garotinho!?"

Lily correu para seu lado, tentando acalmá-lo.

"James, não," insistiu ela, "ficar com raiva não vai ajudar em nada. Temos que ficar c-calmos." Ela estava se esforçando para manter o equilíbrio. "Não se concentre naquele bastardo! Concentre-se em nosso filho, que ainda está em suas garras. Concentre-se em como vamos recuperá-lo, como vamos lhe mostrar a verdade."

Funcionou. James sentiu uma fração de sua dor desaparecer, substituída por pura determinação.

"Como mostramos a verdade a Harry?" perguntou ele, olhando para Dumbledore, que suspirou cansado.

"Eu não sei como ou até mesmo se é possível provar que essas memórias são manipuladas," respondeu o bruxo, "já que não são modificadas, é difícil provar que são falsas."

"Então, o que está dizendo? Que toda a esperança está perdida?" perguntou James. "Porque se é isso, então tudo bem. Você pode desistir de Harry, mas eu não. Ele é meu filho e eu não ligo para o que tenho que fazer, vou garantir que ele saiba a verdade sobre sua família! Vou fazê-lo descobrir como está sendo enganado!" Ele balançou a cabeça descontroladamente. "Não posso viver sabendo o que Harry acha que fiz com ele. Posso não ser um pai muito bom, já que obviamente falhei em ajudá-lo, mas não sou o monstro que ele acredita que sou! Então, não me importo com o que tenho que fazer, ou o que vai me custar, não vou descansar até fazer Harry ver a verdade!"

O silêncio pairou no ambiente ao final do desabafo de James. Os calmos olhos azuis de Dumbledore viajaram de James para Lily, antes de se fixarem no primeiro novamente.

"Eu nunca desistiria de ninguém," disse Dumbledore, "e estamos falando de Harry."

"O.k., então, o que fazemos?" perguntou James.

"Em primeiro lugar, temos problemas iminentes que exigem atenção," respondeu Dumbledore, "teremos que elaborar um plano para a recaptura de Harry mais para frente. Receio que as consequências das ações desta noite sejam bastante catastróficas." Ele ajustou seus óculos de meia lua, antes de olhar para James e Lily. "O ministro chegará em breve. Temo que ele não me escute dessa vez."

James cambaleou para trás em choque. Esquecera-se completamente do acordo entre Dumbledore e o ministro. Agora que Harry escapara e voltara para Lorde Voldemort, o acordo acabou. O ministro o sentenciaria ao beijo. Não havia outra alternativa.

"Ah, Deus!" Lily tropeçou em uma cadeira, uma mão no peito e a outra cobrindo a boca. Ela também chegara à mesma conclusão.

Eles haviam perdido Harry. Todo auror estaria à procura dele e agora sabiam exatamente como ele era. A máscara prateada não o ajudaria mais. A menos que James chegasse primeiro a Harry, ele seria levado pelos dementadores após ser capturado.

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Harry tirou a rolha da garrafa antes de retirar algumas bolas de algodão da mochila. Ele segurou uma contra a boca da garrafa e inclinou-a, encharcando-a com a poção. Olhando para cima, encarou seu reflexo no espelho. Sua aparência já estava muito melhor; de pé em seu banheiro, depois de tomar banho em seu chuveiro e vestir suas próprias roupas.

Até ele se surpreendeu com o quanto sentia falta de coisas triviais, como seu quarto, seus livros, suas roupas, todos os seus pertences. Ficou sorrindo como um idiota para sua escova de dentes.

Ele balançou a cabeça com seus pensamentos e olhou para cima, concentrando-se na tarefa em mãos. Afastou o cabelo molhado, examinando a contusão roxa pela primeira vez. Parecia tão ruim quanto dolorosa. Havia uma fina linha de sangue no meio do hematoma, onde a queda abrira sua pele.

Acabara de aproximar a bola de algodão encharcada de poção antisséptica quando ouviu a leve batida na porta.

Ele fez uma pausa, esforçando-se para ouvir o som de sua porta sendo aberta. Os passos se aproximaram, vindo para o banheiro. Bella apareceu em sua porta, uma caixa em suas mãos. Ela sorriu para ele.

"Você já está melhor," comentou ela.

Harry sorriu de volta.

"Um banho pode fazer maravilhas," respondeu ele, "especialmente quando não é preciso dividir o chuveiro com quatro garotos."

"Ao mesmo tempo?" Bella franziu a testa. "Hogwarts realmente mudou depois do meu tempo."

Harry lançou a bola de algodão molhada em seu rosto sorridente. Ela desviou sem esforço.

"Legal, muito legal," comentou ele.

Bella entrou e colocou a caixa no armário do banheiro, antes de abri-la.

"Sente," instruiu ela enquanto tirava um punhado de suprimentos.

"Eu estou bem, posso cuidar disso sozinho," argumentou Harry, mas ela apenas gesticulou para ele se sentar, sem desviar o olhar da caixa. Com um gemido, o jovem se virou e sentou-se em cima do armário.

Bella destampou um pote e se aproximou dele. Ela subiu sua manga esquerda, franzindo a testa profundamente para a corda que queimara seu pulso. A mulher trabalhou em silêncio, cobrindo o pulso esquerdo com a pomada cicatrizante antes de alcançar o direito. Harry a observou, lendo as emoções que cintilavam em suas feições. Estava furiosa, os olhos estreitados lhe diziam isso. Mas também estava angustiada, olhando para as queimaduras da corda como se fossem profundas lacerações. Harry se viu sorrindo. Se Bella tivesse visto como ele ficou depois que Moody o atacou em Hogsmeade, teria colocado fogo no vilarejo.

"Então," começou ele, "como têm sido as coisas enquanto estive fora?"

Era disso que Bella precisava, uma distração.

Ela olhou para ele, ainda trabalhando em seu pulso direito.

"Você está perguntando como se esperasse que tudo desmoronasse sem você," respondeu ela.

"Tenho que admitir, fiquei surpreso por tudo estar como deixei," brincou Harry, "acho que os Comensais da Morte não são exatamente os imbecis que pensei que fossem. Eles não conseguiram derrubar a mansão."

Bella levantou uma sobrancelha, mas os cantos de sua boca se animaram com a usual brincadeira entre eles.

"Os Comensais da Morte acabaram de salvar seu traseiro, eu não ficaria falando deles se fosse você," disse ela, limpando os dedos antes de tampar o frasco.

"Eu estava cuidado de tudo," disse Harry. "Não precisava que sua equipe de resgate aparecesse."

Bella derramou um pouco de poção antisséptica sobre uma espessa camada de algodão.

"Sim, estou vendo como estava cuidando de tudo," ela estendeu a mão e afastou o cabelo dele, sibilando ao ver o hematoma, "eu tremo ao pensar em que estado você estaria se estivesse lutando."

Ela limpou a ferida e Harry respirou fundo, o corte pinicando contra a poção. Bella parou, os olhos escuros fixos no rapaz, observando sua expressão de dor. Ela diminuiu a velocidade, tocando a ferida com uma mão mais suave.

"Você é muito imprudente," sussurrou ela.

"O que quer dizer?"

Bella puxou a mão, descartando o algodão por um novo.

"Você foi pego porque correu de cabeça para uma situação sem pensar. Eu já disse mil vezes, não deve se arriscar por ninguém além do Lorde das Trevas." Ela balançou a cabeça enquanto passava o algodão uma última vez na ferida e o jogava fora. "Nós quase te perdemos." A bruxa destampou outro pote menor e retirou o creme. "Não tem ideia do que seu pai passou nos últimos meses."

"Ah, sim, pobre papai, ele deve ter enfrentado o inferno," zombou Harry, "e eu? Ah, não, eu estava me divertindo."

Bella riu levemente, afastando o cabelo rebelde de sua testa novamente.

"Eu pensei que Vossa Alteza estivesse cuidando de tudo?"

Harry fez uma careta, mas não respondeu. Eles ficaram em silêncio, enquanto Bella esfregava a pomada no hematoma, sorrindo enquanto ele rapidamente suavizava. Ela se afastou para lavar as mãos.

"Então," Harry começou de novo "o pai sentiu minha falta quando eu estava fora, hã?"

Bella enxugou as mãos e virou para encará-lo, colocando a tampa de volta no pote.

"Quem disse alguma coisa sobre sentir sua falta?" brincou ela. "Na verdade, estávamos muito ocupados. Sem mencionar a paz e a calmaria sem você." Ela espetou um dedo nas costelas dele de brincadeira e Harry riu. O sorriso de Bella desapareceu. "Mas, para ser franca, estava quieto demais sem você." Ela se virou para ele. "O Lorde das Trevas nem vinha a esta parte da mansão, não queria subir e ver seu quarto vazio." Ela baixou o olhar. "Eu nunca o vi assim antes."

Harry saltou do armário e ficou atrás dela. Suas mãos pousaram em seus ombros e ele a virou. Ela olhou para cima e viu seus olhos verdes iluminados com malícia.

"Eu te disse que ele gosta mais de mim do que de você," ele sorriu.

As sobrancelhas de Bella se ergueram e sua boca abriu.

"Retire o que disse!" ela entrou na brincadeira. "Eu sou a favorita dele."

"Sim, a Comensal da Morte favorita," ele levantou a cabeça, "eu sou filho dele."

Bella rosnou para ele.

"Tecnicidades," murmurou ela, mas lançou um olhar examinador sobre ele, "você tem algum outro ferimento?"

Harry sacudiu a cabeça.

"Não, eu estou bem."

Bella assentiu.

"O.k., vou guardar essas coisas, então."

Harry fez uma pausa, antes de estender a mão, impedindo-a.

"Na verdade, há outra coisa, mas não pode contar ao pai," o jovem observou seus olhos escuros se estreitarem para ele.

"Príncipe?" perguntou ela. "O que foi? O que há de errado?"

"Nada," respondeu Harry, "eu só, me machuquei, mas se o pai descobrir ele vai ficar bravo, e eu prefiro não ter dores de cabeça."

Bella o olhou de perto.

"O que aconteceu?"

Harry respirou fundo e tirou a blusa. O olhar aguçado dela examinou seu tórax, mas não conseguiu encontrar nenhuma marca, contusões meio curadas ou qualquer coisa.

"Prometa, Bella."

"Deixe-me ver e vou decidir," respondeu ela secamente.

Harry suspirou e se virou, revelando suas costas para ela. Ele fechou os olhos com força diante do silêncio tenso, imaginando quão horrorizada Bella deveria estar agora. Sentiu as mãos dela tocarem suas costas, provocando uma onda de dor em sua espinha. O rapaz ficou tenso, abafando o gemido através dos dentes cerrados.

"Quem fez isto?" perguntou ela, calmamente, o que Harry sabia significar que estava pronta para matar alguém.

"Nin-ninguém," ele se virou e viu que ela estava dura de tensão e raiva, "eu caí, não é nada demais..."

"Nada demais?" sibilou Bella, "você viu suas costas?"

"Considerando que ficam atrás de mim, não, não vi," respondeu Harry.

"Harry, então, me ajude, se está tentando menosprezar isso!" avisou Bella. "Eu vou direto ao Mestre."

"Não é nada," disse Harry, "olhe, eu caí feio. Estava jogando quadribol e caí da minha vassoura."

Bella levantou a cabeça para encará-lo.

"Você estava jogando quadribol?"

Harry assentiu.

"Eu sei, eu sei," disse ele, irritado, "apenas ponha um pouco de pomada e esqueça, o.k.?"

Mas Bella estava muito ocupada olhando para ele. Ela balançou a cabeça.

"Desde quando o menino que brinca com lâminas começou a brincar com vassouras?"

"Desde que foi capturado e entregue a um maluco que gosta de fazer as pessoas sofrerem humilhação."

Bella recuou.

"Dumbledore te forçou a jogar quadribol?"

"Não, não exatamente," Harry passou a mão pelo cabelo, "olhe, apenas faça algo sobre isso, o.k.?! Essa porcaria está me matando."

Bella ficou quieta. Ela se aproximou, agarrou a pomada para contusão e destampou novamente.

"Vire-se," instruiu.

Harry o fez e Bella começou a aplicar uma dose generosa na pele azulada e machucada, dando muxoxo.

"Como foi que você caiu da vassoura?" perguntou ela.

"Eu estava pegando o pomo..."

"Pomo?"

"Sim, o pomo de ouro. É uma pequena bola que..."

"Eu sei o que é um pomo!" rebateu Bella. "Você estava jogando de apanhador?"

"Sim," respondeu Harry, fechando os olhos enquanto o alívio inundava seus nervos doloridos, "não diga ao pai, o.k.?"

"Não direi, mas é melhor você dizer," instruiu ela, "ele quer saber tudo que aconteceu, tudo," enfatizou ela, "mesmo que seja como você é um péssimo apanhador que caiu da sua vassoura tentando pegar um pomo idiota."

"Ei!" Harry se virou para encará-la. "Eu não caí porque estava tentando pegar o pomo," defendeu-se ele, "eu caí por causa da dor na minha cicatriz que quase me cegou!"

Bella fez uma pausa, sua mão parou no ar. Ela olhou para Harry com os olhos assustados.

"Minha cicatriz," respondeu Harry, "doeu quando eu estava tentando terminar o jogo. A dor era tanta que eu não conseguia enxergar. Então, meu nariz começou a sangrar e eu..."

"Espere, o quê?" Bella largou o frasco e virou-se para Harry. "Seu nariz estava sangrando?"

Harry percebeu que não contara ao seu pai ou a Bella sobre os estranhos sangramentos nasais ainda.

"Sim, é muito estranho," começou ele, "comecei a ter essas hemorragias nasais quando a dor aumenta."

Bella estava sacudindo a cabeça para ele.

"Sua cicatriz não deveria doer enquanto estava em Hogwarts," disse ela.

"Bem, doeu," respondeu Harry, "e isso aconteceu nos piores momentos possíveis."

"Mas como pode ser?" perguntou Bella. "Sua cicatriz só dói quando você está fisicamente perto do Lorde das Trevas. Não importa quão bravo Lorde Voldemort estivesse, isso não deveria ter afetado você quando estava tão longe."

"Eu pensei a mesma coisa," disse Harry, "mas minha cicatriz doía quando eu estava em Nurmengard. Eu tive a primeira hemorragia nasal quando fui levado ao quartel-general da Ordem." Ele balançou a cabeça diante dos olhos surpresos de Bella. "Não se anime. Está sob o feitiço Fidelius e eu não sei a localização. Fui levado até lá por uma chave do portal."

Mas Bella não parecia se importar com isso, não no momento.

"Eu não entendo," murmurou ela, "sua cicatriz não deveria doer, não quando estava tão longe." Ela olhou para cima e notou o pingente em volta do pescoço de Harry, repousando orgulhosamente em seu peito nu. "A Horcrux," disse ela, olhando para Harry com um sorriso, "você estava sofrendo por causa da Horcrux em volta do seu pescoço."

A mão de Harry disparou automaticamente para o pingente de prata.

"Claro," suspirou ele, "a Horcrux do pai!" Ele poderia ter se esbofeteado por ser tão sem noção. "Tem um pedaço da alma dele, então quando o pai ficou chateado, era como se eu estivesse perto dele, porque, na verdade, eu estava perto de um pedaço dele."

Bella sorriu de alívio também.

"Você me deixou preocupada," disse ela, levantando o pote novamente. Ela começou a trabalhar nas costas de Harry.

O rapaz não disse nada, mas seus pensamentos voltaram às hemorragias. Bella terminou com a pomada e se virou para lavar as mãos, antes de arrumar os suprimentos. Harry recolocou a camisa.

"Bella?"

"Hum."

"E as hemorragias?"

Bella parou, de costas para ele. Ela se endireitou, encaixando o último frasco de volta na caixa, usando o tempo para recompor suas feições. A bruxa se virou com um sorriso.

"Não se preocupe com isso, provavelmente é uma reação intensa devido a Horcrux estar tão perto de você e o Mestre estar tão zangado com sua captura." Ela não o encarou. "Mas eu acho que deveria mencionar isso quando falar com ele. É importante que lhe conte sobre os sangramentos nasais."

Harry assentiu.

Bella estava tentando soar calma e tranquilizadora, mas ele via sua reação no espelho. Ela parecia preocupada.

As mentiras que Dumbledore e Potter vomitaram há apenas dois dias voltaram para Harry e seu coração saltou no peito. "Sua cicatriz não é apenas resultado de uma maldição... essa cicatriz na sua testa é a marca que Voldemort lhe deu, e é a razão pela qual está sentindo dor... ela está te enfraquecendo... a dor que sente em sua cicatriz só vai piorar, quanto mais você e Voldemort coexistirem... e um dos dois deverá morrer na mão do outro, pois nenhum poderá viver enquanto o outro sobreviver."

Mas Harry afastou a memória. Eram mentiras, nada além de mentiras. Bella estava certa, era apenas uma reação por ter a Horcrux ao redor do pescoço, só isso.

Harry saiu do banheiro e se despediu de Bella. Ele subiu na cama e se deitou. Falaria com seu pai amanhã sobre tudo e perguntaria sobre a possível causa das hemorragias nasais. Seu pai saberia o que significavam. Saberia como fazê-las parar.

Harry soltou um suspiro exausto e virou-se de lado. Nos últimos quatro meses, não dormira bem; atormentado por pensamentos preocupantes ou pesadelos recorrentes de seu passado com os Potter, mal conseguira algumas horas de descanso por noite.

Agora, de volta em casa, de volta à sua cama, Harry se acomodou confortavelmente. Nem mesmo o pensamento nas preocupantes hemorragias nasais poderia mantê-lo acordado. Em pouco tempo, estava dormindo profundamente pela primeira vez em quatro longos meses.

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