Danisa quase se desequilibra ao vislumbrar a si mesma lhe questionando do centro do coreto.
— Não precisa ter medo de mim, ou melhor, de nós. — a sua Outra sentou-se no chão, usava um vestido florido, inteiramente limpo, seus cabelos estavam soltos, possuíam um brilho negro hipnotizante. — Você está péssima!
— Que lugar é esse? E quem é você? — Danisa estava confusa e fraca, parou a poucos passos de sua 'cópia'.
— Deveria sentar. — a Outra disse apontando-lhe o chão esverdeado do coreto. — Tenho certeza que não irá se importar em se sujar.
Danisa olhou para si mesma, toda suja de lama e cabelos desgrenhados, sentiu raiva da ironia da Outra, mas mesmo assim obedeceu. Ela analisou cada centímetro da sua cópia, era perfeitamente igual a si, exceto que parecia viver uma vida bem melhor, pois aparentava uma serenidade que a jovem não lembrava ter sentido um dia.
— Bom, uma de suas perguntas eu já respondi, somos a mesma pessoa. A outra é mais complexa. — ela olhou para o céu escuro e suspirou. — Esse lugar é um tempo.
— Um tempo? Como assim?
— Sabe que não se pode brincar com coisas poderosas da qual não se tem controle. Você criou esse lugar num espaço e tempo indefinido, como uma projeção de sua própria mente.
— Como um universo paralelo?
— Colocando de uma forma altamente reducionista, podemos dizer que sim.
— E como eu saio daqui?
— Da mesma forma que entrou.
— Você está brincando comigo? Eu não sei como vim parar aqui! — Danisa já estava ficando o suficientemente irritada com a placidez da Outra.
— Você se mostra bem impaciente. Realmente não é surpresa está presa aqui.
— O que uma coisa tem a ver com outra? Além do mais se somos a mesma pessoa, é natural que você seja igual a mim.
— Ora, foi você e sua raiva descontrolada e a trouxe aqui. — a Outra olhou no fundo dos olhos de Dani — Quem muito brinca com o poder acaba sendo destruído por ele Danisa. E mais, vais perceber que nem tudo o que parece com você, é exatamente igual a ti.
— Não fiz porque eu quis, era a única forma de salvar a todos. — a jovem suspirou — Muitos enigmas e poucas respostas...
— Tem tanta certeza assim? Ficou tão preocupada em querer ser a grande heroína, que esqueceu que não se faz nada sozinha. Agora está aqui.
— Por favor, eu não sei mais o que fazer. Eu não quero terminar assim.
— Está certo. — ela inspirou profundamente — Você só tem uma chance para sair deste lugar. Leve com você. — ela estendeu a mão e entregou à Danisa uma chave prateada.
— Para que serve isso? - ela perguntou, analisando o pequeno objeto.
— Você saberá. — a Outra se levantou e mostrou um corredor escuro que se estreitava pelo labirinto.
— Obrigada! — Danisa se dirigiu ao corredor.
— E lembre-se, a escolha é somente sua.
A jovem acenou com a cabeça e adentrou a escuridão do desconhecido.
Os minutos pareciam longas horas naquele corredor, havia um odor de algo queimando, que lhe acompanhou por todo o caminho. De repente, Danisa sentiu uma brisa gelada vindo pelas suas costas que atirou seus pelos da nuca. Ela olhou para trás e percebeu uma movimentação incomum, estreitou os olhos para ver melhor. As paredes do estreito corredor começaram a se fechar. A jovem correu para a única saída que havia em sua frente, quando finalmente estava próximo a sair daquele lugar sua perna ficou presa em um dos galhos. Danisa tentou novamente usar seus poderes para romper o que lhe prendia, mas sem sucesso, a parede continuava a se fechar cada vez mais. A alternativa que passou rapidamente em sua mente foi puxar sua perna com força, conseguindo assim se soltar a poucos segundos antes do lugar se fechar completamente. Apesar da jovem ter se livrado de ser esmagada, seu pé estava sangrando e latejando de dor, mesmo assim, não poderia desistir de sair daquele lugar. Mancando, ela chegou a fonte do odor de cinzas, era sua casa, ou o que sobrou dela. havia ruínas e montes de entulhos, ainda podia-se perceber fumaça saindo de alguns pontos do terreno. Seu coração acelerou, estar ali novamente não lhe fazia bem, mesmo assim, algo dentro de si movimentava suas pernas automaticamente para aquele lugar. Quase arrastando sua perna, ela seguiu para onde seu corpo a levava, para a Sala Branca.
Dentro daquela prisão cruel que lhe trazia terríveis lembranças, ela a encontrou. Se ver acorrentada com os olhos vendados, totalmente vulnerável, foi cruel.
— Eu sei que está aí. — a prisioneira falou com voz suave, que gelou a espinha da Danisa.
— Você, sou eu? — a jovem perguntou.
— Ainda surpresa? — a prisioneira riu. — Não sou a primeira e nem serei a última que você encontrará aqui.
— Vou te soltar! — Danisa fez menção de soltar as correntes.
— Não! — a prisioneira gritou, assustando a jovem. — Não ouse fazer, isso, eu escolhi estar aqui.
— Isso é mentira! Eu jamais faria isso, odeio esse lugar.
— Não, no fundo você só quer vingança, sabe disso. Este lugar é o único capaz de proporcionar poder para isso.
— Eu não quero! Não quero. — Danisa tentou tirar a venda da prisioneira, mas caiu para trás com o susto.
Onde deveria haver olhos, a prisioneira ostentava um vazio escuro. Danisa arrastou-se para longe.
— Sabe qual é o preço a se pagar pela vingança? — sua voz era gutural — A vingança e ódio te cega!
A prisioneira num momento abrupto rompeu as correntes e seguiu em direção à jovem, que recuava assustada. A prisioneira farejava o ar tentando se guiar como um animal. Danisa tentava sair daquela sala de pesadelo, mas não passava de um vazio, não havia nada ali, nada com o que pudesse se defender. Era uma sensação horrível, o medo de si mesma. Apenas arrastava-se pelo chão tentando se esquivar das unhas enormes e afiadas da prisioneira. O seu recuo certamente a levaria de encontro à parede gélida daquela sala, mas não foi isso que ocorreu. Tal qual fora libertada em vida, sua mente tentava lhe fazer o mesmo, e o buraco na parede a permitiu ficar longe de sua própria prisão.
