Narcissa entrou na casa do largo Grimmauld com uma carta nas mãos, perguntando onde estava Sirius, enfatizando que era urgente. Como ele havia saído, ficou conversando com as meninas sobre amenidades, tranquilizando Hermione que tudo estava bem com Snape e que acreditava na possibilidade de, logo, tudo aquilo acabar. Depois de algumas horas, perto do anoitecer, o homem de cabelos castanhos chegou à residência e ficou surpreso ao encontrar a loira ali.
- Olá, Cissa! Houve algo grave para ter vindo sem avisar? – perguntou curioso.
- Olá, Sirius! Em partes, sim... mas, creio que eu não necessite anunciar quando pretendo vir, não é? – o olhou desafiadora.
- Não... não é isso que eu quis dizer. É que sempre me envia um bilhete informando quando pretende aparecer aqui – riu sem graça e seguiu:
- Mas, deixando de bobagens... digo, da minha parte... o que te traz hoje a minha casa?
- Severus quer falar com você ainda hoje e é improtelável que compareça - respondeu séria, estendendo a mão para que ele pegasse a correspondência. Sirius leu atentamente o que estava escrito e devolveu a ela.
- Eu só trocarei de roupa e vou encontra-lo. Não preciso mencionar que o seu filho foi para a Toca e está babando em cima daquele inocente... certamente, necessita da um babador para não afogar a criança – falou em meio a uma gargalhada alto ao subir às escadas.
- Tia Cissa, vai ficar aqui e jantar conosco? – inquiriu Luna sorridente.
- Com um convite tão gracioso, quanto o seu, não tenho como recusar – fez um gesto de concordância com a cabeça ao retribuir o sorriso para a sobrinha.
- Ainda não acredito que a minha irmã possa ter colocado no mundo duas meninas tão amáveis... mesmo que, inegavelmente, uma tenha puxado o gênio explosivo dos Black – argumentou olhando de soslaio para a de cabelos castanhos que riu.
- Ora, Cissa... nem tanto! – falou olhando para a tia, mantendo o semblante alegre. Sabia que aquilo era um elogio e não uma crítica velada.
- Ainda vou te convencer a me chamar de tia também, menina – disse com um falso tom autoritário.
- Não vai conseguir... afinal, acredito que ainda seja muito jovem para ser minha tia. Principalmente, depois que me ajudou a ir com o Sevie na festa do Clube do Slugh – o rosto de Hermione se iluminou ao lembrar disso.
- O que eu não faria para ajudar dois amigos? Sobretudo, quando já se gostavam tanto – retribuiu o sorriso.
Sirius passou pela sala, vendo que elas estavam envolvidas em uma conversa a respeito do passado. Contavam para Luna, detalhadamente, tudo o que aconteceu naqueles meses entre 1977 e 1978. Como já estava atrasado, preferiu não se importar com aquele assunto e jogou Pó de Flu para entrar diretamente na sala do diretor em Hogwarts.
Ao chegar lá, observou que o lugar estava vazio e havia um bilhete em cima da mesa.
- Black, se chegar aqui e a sala se encontrar vazia... obviamente, eu não me encontro! Em verdade, posso ter saído para resolver algo importante... Aviso que não deve vagar pelos corredores ou no entorno do castelo em hipótese alguma, há dementadores cuidando as saídas, até mesmo as passagens secretas presentes no Mapa do Maroto. A escola também está com dois Comensais da Morte, altamente treinados, servindo de cães de guarda e de vigilantes... creio que o Lorde das Trevas tenha alguma desconfiança a meu respeito... Aconselho a ficar conversando com Dumbledore, pois, dois lunáticos devem se alegrar em um encontro furtivo. SS
- Ranhoso, idiota! – pensou alto ao jogar o pergaminho no fogo da lareira. Sabia que não podia ficar qualquer vestígio de que alguém da Ordem estivera ali. Especialmente, se essa pessoa fosse convidada por Snape.
Para passar o tempo, caminhou pela sala e começou a dialogar com alguns quadros, particularmente com o do antigo diretor. Tentava ter certeza de que o que estava escrito na carta era verdade e, assim, permaneceu por cerca de uma hora até ouvir a porta se abrindo.
- Boa noite, Black. Presumo que esteja ciente do teor do que lhe enviei e esteja aqui para conversarmos como homens civilizados.
- Noite... Sim, Narcissa me entregou o pergaminho. Aliás, você está um farrapo humano...há quanto tempo não pensa em se barbear ou tomar banho? - deu um meio sorriso, debochado. Contudo, uma parte dele, estava preocupada por nunca ter visto Snape naquele estado tão deplorável... nem mesmo quando exercia o papel de agente duplo.
- O que isso importa? Quer me dar banho ou me admirar nu, por acaso? - retribuiu com alguma irritação.
- Não se exalte, foi só uma pergunta... Então, foi iniciada à temporada de caça?! – disse com uma ironia triste.
- Verdade... todos vocês estão em risco. Eu não estou participando ativamente das reuniões, por estar aqui, então há coisas que permaneço na ignorância. O que sei é que ocorrerá um ataque à casa dos Weasley. Além disso, o Lorde das Trevas deu uma ordem direta a todos os Comensais se encontrarem Hermione... era para a destruir completamente antes de assassiná-la. Ou como ele mesmo disse "matando o cérebro, o coração e a coragem sucumbem"... não vejo outra pessoa, além de você e do Remo para me auxiliar com isso – soltou uma respiração pesada ao terminar o relato.
- Você já fez isso com alguém? Assassino, eu sei que você é... só me diga se já cumpriu uma ordem dessas – perguntou sério.
- Já... não é algo que me orgulhe e, se pudesse, teria tratado o assunto de outra forma quando aconteceu, Black. Para a sua informação, atualmente, eu evito mais que essas coisas aconteçam do que executo – respondeu fechando a carranca.
- Foi com alguém que eu conheço? – a raiva era crescente.
- Sim... – falou o encarando.
- Posso saber quem? – a mão estava perigosamente agarrada na varinha.
- Melhor não e nem pense em ser idiota de me atacar aqui dentro – Snape falou observando o outro homem, sem fazer qualquer movimento de defesa.
- Como estamos sendo sinceros, Ranhoso, só me diga... aquela história de você ter estuprado a Bellatrix, é verdade ou não? – dizia tentando conter o ódio. Embora a pergunta de outro homem fosse relativa ao ano de 1974, aquilo o incomodava, porque se tornara verdade.
- Já cansei de repetir que não fui eu e que, descobri recentemente, o autor foi o Lucius. Ele mesmo jogou isso na minha cara quando teve a oportunidade, Pulguento – bufava.
- Você sabe que isso a destruiu mais do que Askaban – esbravejava.
- Sei e sinto muito, mas não é minha responsabilidade e nem sua... sempre as nossas conversas terminam nela! Eu acho extremamente enfadonho que ainda aconteça... parecemos dois velhos esclerosados repetindo as mesmas coisas. Se convença que eu nunca a quis e que ela te usou. Prometi que não ia me envolver nisso... mas, se você diz que está apaixonado pela Cissa, pare de falar na Bella, esqueça essa mulher! – gritou.
- E você conseguiu esquecer a Lilly? – o encarou com o rosto contorcido de raiva.
- O fato de ter vivido uma mentira por anos e ter me fodido por isso, não me faz amar a Lillian. As únicas lembranças boas que eu guardo dela, são da minha infância e, mesmo assim, quando penso seriamente... não são tão maravilhosas, quando era eu quem tinha de me moldar ao que ela queria e, ao ver que não precisava mais de mim, correu para aqueles que lhe beneficiariam de algum modo. Você diz que me humilhei pela Lilly, mas, fez igual ou até pior! Se enfiou no casamento da Bella e implorou para que ela fugisse com você... nunca fui capaz de descer tão baixo por alguém – argumentava aos berros indo em direção ao outro homem, com a ânsia de agarra-lo pelo pescoço e começar a sacudir até que tomasse consciência.
- Ela é a mãe da minha única filha! E a sua história com a Lillian não foi bem assim... ela nunca foi cruel com você! Não seja sonso comigo e nem se faça de vítima, quando eu conheço bem a história. Você a perseguiu, a espionou, a encurralou para que cedesse aos seus desejos. Eu não fiz isso nunca! – vociferou.
- Bom saber que era essa versão rondando na Torre na Grifinória... ela conseguiu se sair melhor do que eu imaginava para conquistar o James Potter. Sempre soube que era inteligente, mas, dissimulada... é surpreendente – disse sarcástico e prosseguiu:
- A mãe da sua filha, não se chama Bellatrix! É a senhora Jean Granger, que criou, amou e educou a Hermione com todo o coração. Essa é a única mulher que pode ser chamada de mãe e reconhecida como tal, e, não a vagabunda que a pariu e sequer quis conhece-la. Você se prende a isso porque não quer esquecê-la... é lascimável ver que, depois de tantos anos, ainda rasteje por conta dessa mulher.
- Não sabe o que diz. Eu já a esqueci... só tenho consideração por ela – respondeu encarando Snape.
- Consideração... tá bom, Black! Vamos deixar assim, mas não faça a Cissa sofrer – falou revirando os olhos com desdém.
- Se Vold... – começou a dizer e foi interrompido pelo outro homem, que quase pôs a mão na sua boca para que se calasse.
- Não diga, o nome dele agora é amaldiçoado para rastreá-los. Só vocês ousam falar em voz alta – explicou preocupado.
- Retificando, se o seu mestre mandar que execute essa tarefa que foi dada contra a Hermione... o que fará? – inquiriu mantendo um semblante sisudo.
- Prefiro me castrar e arrancar os meus próprios braços antes de fazer algo desse tipo com ela. Você sabe, seu idiota, que eu morreria se fosse preciso e tivesse certeza de que estaria a mantendo em segurança. Faça a sua parte nisso, seja pai dela... por mais que eu não queria admitir, preciso da sua ajuda para que ela permaneça a salvo – seu tom de voz era preocupado.
- Não se preocupe, vou cuidar dela – assentiu.
- Mesmo que isso te obrigue a matar o seu único amor? – Snape ergueu a sobrancelha, tinha certeza de que aquela pergunta era certeira e que faria o outro dizer a verdade. O modo retórico como foi feita a inquirição fez com que Sirius desviasse o olhar, antes de reagir.
- Se for preciso, por mais que me doa... serei o responsável por tirar a vida dela – respirou fundo, dando as costas para ir embora. Antes de partir, o questionou:
- É seguro eu sair por aqui?
- Não... não é. Solicitei que uns trinta Comensais estejam te esperando dentro da lareira para exterminar com você - retorquiu sarcástico e prosseguiu:
- Ora, francamente, Black! Sabia que era obtuso, entretanto, isso chega a ferir os meus tímpanos... respondendo a sua tola pergunta, não será mais tão seguro utilizar Pó de Flu daqui uns dias. Contudo, como sou o bruxo de "confiança", esta lareira ainda não está sendo vigiada... por enquanto! – deu de ombros, vendo o outro ir embora.
Ao retornar do encontro com Snape, pensava em tudo o que havia sido dito ali e sabia que o que teria de fazer era necessário. Antes de chegar ao largo Grimmauld, sentou em uma praça nas proximidades e ficou olhando para a lua e as estrelas. Seu pensamento estava vagando quando ouviu um sussurro indo em sua direção:
- Sirius... Sirius... Sirius Black – quando escutou a risada, que tanto conhecia, olhou para trás e viu Bellatrix o olhando sorridente com um ar vitorioso. Instintivamente, apontou a varinha para ela, o que a fez erguer as mãos, como se estivesse se rendendo, sem tirar os olhos dele.
- O que faz aqui? – perguntou sério, sem desviar o olhar.
- Vim falar com você, priminho – continou indo em direção a ele.
- Não temos nada o que conversar, Bella... - disse se erguendo para ir embora, sentindo a mão dela o segurar pelo braço para que ficasse.
- Como não? Temos uma filha, uma linda mulher feita por nós dois - respondeu com a sua melhor máscara de inocente.
- Você chamou a menina de cadela! A jogou fora como se fosse lixo... quase a matou! O que quer falar? Não tem direito algum - argumentou irritado se desvencilhando dela.
- Estou pensando nisso desde a morte do Dumbledore... me arrependo muito de tantas coisas que eu fiz. Devia ter ficado com você... Já pensou como teria sido a nossa vida juntos? - o encarou inquisitiva e com um olhar maliciosamente calculado para demonstrar paixão. No entanto, Sirius respirou fundo e não respondeu, o que a fez continuar.
- Se não refletiu, eu contemplo essa possibilidade... teríamos criado ela da melhor maneira possível. Certamente, não seria a única que produziríamos, haja vista que sempre combinamos tanto - foi se aproximando, enquanto ele dava alguns passos para trás até bater com as costas em uma árvore e ela ficar perigosamente perto. Assim, Bella tocou o seu rosto e tudo nele começava a trai-lo diante daquele contato.
- Vá embora, Bellatrix - tentou debilmente afastá-la. Percebia que todas as suas tentativas estavam sendo em vão e se sentia fraco perante aquela situação.
- Não é o que os seus olhos estão me dizendo - respondeu com um meio sorriso o analisando.
- Eu... eu tenho outra... estou comprometido. É melhor se distanciar - gaguejou.
- Ah, sim! Quanto a isso, não tenho problemas... você sabe que eu não sou ciumenta, queridinho! Ou, acha que não sei que era você debaixo da cama da Cissa, aquele dia? Ora, Sirius, reconheceria aquele cachorro parecendo o Sinistro em quilômetros... – riu o fitando.
- Por isso falou aquela barbaridade? - a olhou incrédulo.
- Claro, sabia que a minha irmãzinha ficaria chocada ao ouvir aquilo - continuou rindo abertamente.
- O que aconteceu com você? Bella... não há o que discutir, não existe mais nada aqui... – seguiu tentando se manter longe dela.
- Não me ocorreu nada demais! Veja, continuo a mesma e... ao contrário do que afirma, resta sim... você está aqui conversando comigo e acontece que o seu coração ainda é meu - disse colocando a mão no peito dele, lentamente, sentindo que, de fato, ele estava prestes a ter um ataque cardíaco se ela permanecesse ali.
- Eu já disse...acabou... desapareça! – tirou as mãos dela do seu corpo a empurrando para trás. Caminhou alguns passos até que ela o alcançou. Ao puxá-lo, fez com que se virasse novamente para olhá-la.
- O que quer agora, Bella?! – soltou um suspiro pesado.
- Fale isso olhando nos meus olhos, Sirius. Diga que deixou de me amar, me encarando... – sorriu sabendo qual era a resposta.
- Não faz isso... nunca vou te perdoar pelo o que fez... desista! Eu não quero mais saber... – a olhou nos olhos firmemente, mesmo que todo o resto o desmentisse.
- Não significa que tenha deixado de me amar... – Bellatrix ergueu as duas sobrancelhas para ele, demonstrando o quanto compreendia a verdade por trás daquelas palavras que escutara.
- O que isso importa para você? Nunca ligou para os sentimentos dos outros! Agora, vem atrás de mim com essa conversa sem pé nem cabeça... se puder me fazer esse único favor, me esqueça! – tentou ir embora e ela o segurou contra uma parede.
- Shhh, você sabe onde quero chegar, o que eu quero e como eu quero... – falou apertando o queixo de Sirius o obrigando a manter o olhar nela.
- Você não vai mudar em relação a isso... continuará sempre a mesma... eu... eu não sou mais um adolescente que aceitava tudo o que fazia. Não posso concordar com os seus delírios... eu preciso ir – falou conseguindo se afastar e ela o pegou pela mão.
- Me ame, Sirius... só me ame novamente! – aquela declaração foi suficiente. Ele a segurou, Bella riu triunfante. Se beijaram esquecendo que, ali, existia 18 anos e tantas outras questões muito mais relevantes que os separavam.
