Stephen estava a alguns minutos em um grande nível de concentração em sua meditação, seu corpo se encontrava a um metro do chão, seus olhos mexiam fervorosamente por baixo das pálpebras, até finalmente abrirem.
— O que está havendo Dr. Strange? — Bruce questionou preocupado.
— Ela está presa.
— Como assim?
— A mente possui diferentes camadas, de vão da Kamamaya Kosa a Hiranyamaya Kosa. Danisa está presa em um limbo criado por sua própria mente através do poder da Jóia, ela precisará percorrer um longo caminho até a Consciência Suprema.
— Eu realmente não entendi nada do que falou — Stark comentou. — Mas você não pode ajudá-la?
— Infelizmente não, se eu adentrasse a sua mente, com toda essa inconstância e descontrole poderia piorar a situação. — o Doutor preferiu ignorar o primeiro comentário do moreno. — Ela mesma terá que encontrar o caminho de volta.
— E se não conseguir? — Natasha foi a única ali a ter coragem de fazer esta pergunta.
— A perderemos… — o mago odiou proferir tais palavras, sentia-se impotente diante da situação de sua filha.
— Isso não vai acontecer! — Bruce se pronunciou, sua voz alguns tons acima do normal. — Ela irá conseguir, tenho certeza.
Ninguém ousou se pronunciar depois disso. Já fazia quase um mês que Danisa se encontrava acamada na ala médica da S.H.I.E.L.D., no que poderia ser chamado de "coma profundo", Stark havia tentado de diversas maneiras ajudar a jovem, até cogitou a possibilidade de construir uma máquina que seria capaz de trazê-la de volta, mas parou para pensar sensatamente e chegou a conclusão de que a ideia era idiota demais, desesperada demais. Bruce passava horas ao lado de Danisa, dizia que precisava ficar próximo para quando ela acordasse.
— Tome, precisa comer algo. — Natasha estendeu um saco da Taco's, comida mexicana. — Um pouco de pimenta sempre me dá mais energia.
— Obrigado. — ele pegou de bom grado. — Ela vai conseguir, não vai?
— Bruce... — a ruiva hesitou, analisou o amigo, ele estava abatido, mas do que de costume. — Teimosa do jeito que é, tenho certeza que vai sair dessa — disse por fim.
Bruce sorriu de canto, e começou a comer.
Manhattan se estendia no horizonte, cá estava ela, naquela cidade bagunçada. Sua mente projetava-a com perfeição, afinal, não pensava lembrar-se de tantos detalhes assim, "Talvez isso ainda seja efeito da Jóia", pensou. Sentia o sol arder levemente sua pele, contudo, não havia ninguém além dela por lá, era uma verdadeira cidade fantasma, seriam as pessoas tão insignificantes assim?
Danisa ainda não compreendia por que não conseguia usar seus poderes. Houve um tempo em que ela daria tudo para não tê-los; quando mais jovem, quando era usada por Kelly, quando se sentia uma aberração… Mas agora, se sentia vazia, como se parte de si não existisse mais. Sua perna ainda sangrava, mas a dor quase não era sentida, tamanha era a adrenalina que percorria seu corpo, escapar da prisioneira foi por pouco, ela não ousou atravessar o buraco na parede para seguir Danisa, está ali na Sala Branca, era para ela seu único objetivo. A morena caminhava ainda sem rumo, lutava com seus próprios pensamentos que a acusavam, culpando-a por está naquele limbo, e no fundo, ela sabia que estava certa, colocara a si mesmo ali.
— Eu preciso dar um jeito de sair daqui. — falou em voz alta para o nada.
— E por que iria querer sair daqui? — disse uma voz.
A morena rapidamente entrou em alerta, olhou para os lados, mas não havia mais ninguém.
— Quem está aí? — tentou manter a voz firme — Apareça!
— Não está em posição de ser imperativa comigo.
Danisa até o momento não percebera, mas encontrava-se exatamente no último lugar que estivera, na região central da cidade, na Times Square, em frente a um enorme outdoor. Sua própria imagem a fitava, mas seus olhos brilhavam intensamente a luz azul, como um jóia reluzente.
— Estivemos juntas por tanto tempo — ela começou a flutuar — Você me alimentou durante muito tempo, com sua raiva e ódio discriminado.
— Alimentei? — Danisa tentou soar calmamente, perceber que este ser possuía poderes a deixou indefesa. — Você é mais uma de minhas versões?
— Eu não sou você. — ela a olhou de cima a baixo. — Apenas me apropriei deste invólucro, que sei que conhece bem.
— Então quem é você? — a jovem perguntou assustada. "Quem mais poderia está em sua mente, além de ela mesma?"
— O problema de vocês é pensar que usam o poder. — ela olhava diretamente nos olhos de Danisa. — A verdade é que o poder é que usa vocês, e não podem fazer nada para mudar a realidade.
— O que está querendo dizer com isso? — a jovem recuou alguns passos.
— Estou dizendo… — a mulher começou a avançar lentamente em sua direção — Que você não irá sair daqui.
Conforme andava em direção à Danisa o invólucro que escolhera para si; à imagem e semelhança da jovem; ia se desfazendo. A cena era assustadora, digna de filme trash de terror, sua pele parecia derreter, quando finalmente chegou frente a frente com a morena, seu corpo era apenas energia. Danisa sabia que não poderia usar seus poderes, mas os anos na S.H.I.E.L.D. tinham tornado-a uma grande agente, então se defenderia da melhor forma, o incômodo em sua perna machucada era o que menos importava no momento.
A jovem não saberia precisar por quanto tempo travava uma batalha corpo a corpo com a energia, nem mesmo sabia dizer por que esta não a atacava com poderes, por fim chegou a conclusão de que assim como ela, não podia, por motivos que ainda lhe eram uma incógnita. A forma de energia não parecia em nada ser afetada pelos golpes de Danisa. Demorou um pouco até a jovem notar uma pequena abertura em formato de fechadura que começava a ficar a mostra, onde seria o colo da energia, rapidamente lembrou-se da chave que a Outra lhe entregara. Apesar de em sua mente a ideia de usá-la parecesse boba e arriscada, a ideia de passar uma eternidade em luta com aquele ser parecia bem pior, deste modo o plano era deixar que a energia se aproximasse o suficiente para que Danisa pudesse usar a chave, mesmo que isso significasse alguns machucados a mais. Depois de ter mais sangue arrancado de si, conseguiu inserir a chave, quando a girou foi revelado uma pequeno coração roxo pulsante. Ao perceber o que a jovem havia feito, a forma de energia deu um grito estridente, agarrou Danisa pelo pescoço e voou até o edifício mais alto da Times Square.
— VOCÊ VAI MORRER! — vociferou.
— Não! — respondeu a jovem com voz sufocada, enterrando a mão na abertura e apertando com toda a força que conseguia o coração daquele ser, que soltou um grito agonizante de dor. — Eu escolho viver! — E num puxão arrancou o coração de sua algoz.
