Depois de algum tempo pensando, Snape subiu às escadas rumo ao quarto de Hermione. Estava resoluto a fazer aquilo, era o necessário e com toda a insegurança dela, não haveria com o seu plano se tornasse falível... era melhor se afastar dela, deixa-la ir, Bellatrix a esqueceria completamente e focaria a sua loucura em outras coisas ou pessoas. Com esse pensamento fixo, ele entrou no cômodo, vendo a castanha sentada na cama olhando para a janela completamente séria.

- Gostaria de conversar com você, Hermione. É possível? – percebendo que ela não respondia, deu alguns passos que o deixaram próximos de onde se encontrava e continuou:

- Eu, particularmente, espero que seja inteligente a ponto de não ter acreditado nas coisas que a Bellatrix disse hoje. Eram mentiras... você sabe que o objetivo dela sempre é o de atacar e ferir os outros de algum modo.

- A Narcissa me contou o que aconteceu entre vocês... falou que não teve importância, que por isso não me disseram nada. O que eu acho estranho é você, que sempre pediu confiança e sinceridade, da minha parte, quando foi o contrário... não o fez! Severus, em nenhum momento passou pela sua cabeça que eu poderia preferir ouvir isso de você do que dela ou qualquer outra pessoa? A sua atitude foi egoísta! – argumentou se virando para Snape, demonstrando o quanto estava magoada.

- Como eu posso ser egoísta? Estava tentando te proteger! Por acaso, queria acordar de manhã e ouvir de mim "bom dia, Hermione! Sabe... um dia desses, antes de nós voltarmos... então, eu estava dentro de um quarto fodendo com a minha melhor amiga. Ah, não se preocupe... só fiz isso porque tinham uns Comensais da Morte extremamente interessados em fazer o mesmo", é isso? Certamente, você ia aceitar muito bem – respondeu sarcástico.

- Não consigo entender, como eu esqueço fácil do quanto pode ser grosso e estúpido para falar comigo! Por que não admite que transou porque teve vontade? Reconheça que queria fazer isso e encontrou a oportunidade. Ora... pode ser que para ela não seja nada demais, mas, duvido que esse pensamento seja recíproco! Aliás... usando o seu próprio linguajar completamente vulgar... você trepou com duas mulheres no mesmo dia! Que tipo de homem é você?! – bufava segurando as lágrimas que já lhe queimavam os olhos. Vendo toda aquela decepção estampada no rosto de Hermione, por mais que lhe doesse, começou a pôr o seu objetivo em prática.

- Fico muito regozijado que lembre do fato de que eu sou homem e de um tipo que não recusa horas de prazer a uma mulher bonita. Claro que... às vezes, posso fraquejar um pouco, é compreensível... entenda. No entanto, qual homem na minha posição resistiria a duas mulheres como aquelas? Devo confessar que, quando estive com a Bellatrix, esperava bem mais pela fama que ela tem. No entanto, não experimentei nada de extraordinário... apenas nojo por saber que transava com alguém que esteve com centenas de outros além de mim. Contudo, a Narcissa... sinto muito Hermione, mas, de fato, não posso negar a você que deixei todos os meus instintos mais primitivos me guiarem. Já que a sua curiosidade te obriga a quer saber tanto... provei de um prazer profundo ao possuí-la. Que mulher! Não faz ideia de quanto tempo quis passar umas horas de sexo intenso, realizando cada uma das minhas fantasias com ela – concluiu com um semblante livre de qualquer sentimento. Aos poucos estava voltando a se esconder atrás da sua máscara de mestre em Poções cruel e insensível. Por dentro, estava lutando contra si mesmo, queria abraçar a sua castanha, sua rainha, o mais forte que pudesse e fazê-la acreditar que ela era tudo o que ele mais amava. Ver as primeiras lágrimas caindo daqueles olhos de mel, era como se mil facas atravessassem o seu coração. Contudo, não podia voltar atrás.

- Como pode falar isso com tanta naturalidade? Eu não creio que pude pensar que você era decente... que me amava! Quem é, afinal? – Hermione chorava batendo contra o peito dele com raiva e Snape mantinha o olhar indiferente a ela, sem mover um músculo para afastá-la ou se defender.

- Ora, menina tola! Você me pediu a verdade... agora arma um escândalo! Não contradiz em nada que é filha da Bellatrix e do Sirius, completamente descontrolada e agindo como uma louca. Pensei que fosse um pouco mais esperta do que isso! – deu um falso sorriso irônico e decidiu dar a cartada final:

- Quer que eu seja bem honesto? Eu nunca amei você! Apenas a usei para substituir a Lillian. Sim, sempre foi ela... meu único amor, por quem arrisquei a minha vida e protegi o filho dela como forma de sanar um pouco do meu arrependimento. Já você, Hermione... bem... como posso dizer... foi apenas uma boba que apareceu na minha juventude, quando não me restavam muitas opções para transar, além da Bella. Depois, ressurgiu anos depois e, sinceramente, foi muito fácil encher os seus ouvidos com promessas vãs e frases melosas para que aceitasse tudo - Snape se assustou quando viu que as lágrimas dela, simplesmente, secaram. Era como se uma parte dela tivesse deixado de existir naquele instante. O olhar da castanha para ele era o de quem estava se sentindo cruelmente traída e usada... de uma pessoa que teve os sonhos destruídos em poucos segundos e viu as suas esperanças arruinadas sob um céu de nuvens carregadas. Era como se estivesse entrando em um estágio letárgico, melancólico, em que a vida, de repente, fugiu das suas mãos e a esperança esvaiu-se.

- E quer saber de mais, Hermione Granger ou Hermione Black? - sorriu diabolicamente.

- Sim, Severus Snape... me dê a punhalada fatal – pensou ela, antes de dizer em voz alta:

- Diga... de você, eu espero as piores coisas! – respondeu secamente.

- Então, minha cara, um dos motivos que me levaram a querer passar todo esse tempo com você... foi por vingança! Você é filha do Sirius Black, o homem que eu mais odeio no mundo. Como eu poderia deixar passar a oportunidade de iludir a menininha dele? Tão inocente, tão apaixonada pela sua personificação do rei Leontes! Você é patética... "rainha Hermione" – mentiu descaradamente sobre as suas intenções, seus sentimentos e a respeito do seu ódio. Afinal, não tinha muita certeza de quem alimentava mais a irá e a raiva na sua vida, se era Lucius Malfoy ou o Lorde das Trevas. Ou quem sabe de si mesmo ao afastar Hermione dessa maneira? Pensou, rapidamente, no quanto estava sendo desumano com quem tanto amava e o que lhe rasgava a alma dizer cada uma daquelas palavras. Se ela fosse mais segura de si, teria percebido o quão dissimulado e falso estava sendo naquele momento.

- Fora... vai embora daqui! Severus Snape... você é sujo, um completo ordinário insensível... o Sirius tem razão! É apenas um Comensal da Morte imundo e canalha! – gritava sem pensar no peso das suas afirmações, voltando a bater nele como se tentasse obriga-lo a voltar a si. Sua mente funcionava de modo furioso... seu coração lutava bravamente para se manter vivo.

- Exatamente, Hermione... eu sou tudo isso! Obrigado por ter me lembrado, por revelar o que sou realmente, e, agradeço por ter posto o seu cérebro para funcionar – se virou e saiu do quarto, permitindo que toda a dor começasse a ser extravasada. Estava tão absorto nos seus pensamentos destrutivos e na sua angustia, que não percebeu alguém o observando de longe. O espectador sacudia a cabeça incrédulo que, mais uma vez, Snape formulava tudo e chegava às piores conclusões possíveis. Como conseguia ser tão inteligente sob tantos aspectos, porém, com relação aos sentimentos, era um completo idiota? Era só insistir no quanto gostava dela, reafirmar os sentimentos fazendo com que a menina percebesse que ela era a única na vida dele.

- Ah, Severus... por qual motivo você é tão obstinado a ser infeliz? – pensou.

Nesse meio tempo, outra discussão ocorria no final do corredor. Sirius, finalmente, havia tomado coragem para ir até o seu quarto, onde estava Narcissa arrumando algumas das suas coisas que tinham ficado ali. Ele demorara tanto para procura-la, por saber que teria sérios problemas ao tentar falar com a loira. Ao parar, se encostando no marco da porta, a escutou, imediatamente, questionando com um tom irônico:

- Ao que devo a honra do senhor Black resolver aparecer por aqui? – ao concluir, ela estava o encarando com uma das mãos na cintura.

- Eu estava esperando que me chamasse para conversar, Cissa – respondeu abrindo um meio sorriso.

- Ah, sim... claro! Esqueci que deveria mandar uma carta solicitando um horário com sua alteza real. Da próxima vez, me lembrarei de enviar uma coruja ou pedirei para que um dos elfos leia, no meio do corredor, o meu chamamento – prosseguiu com o sarcasmo.

- Não precisa ficar assim... Narcissa, foi só uma noite para confirmar que eu não sentia mais nada por ela... – falou fazendo o seu melhor olhar de cachorro abandonado.

- Deixa eu ver... você precisa de um atestado sexual para saber se gosta ou não de uma pessoa? É isso mesmo? Sirius, eu já ouvi desculpas bem melhores do que a sua! Sinceramente, achava que era otário e frouxo... agora, burro... parabéns, me surpreendeu! – soltou a respiração fazendo um gesto de negação com a cabeça, o olhando decepcionada.

- Calma! Não precisa me ofender, Cissa... não é para tanto! – disse tentando se aproximar.

- Vamos fazer assim, meu caro primo, eu desenharei a situação que você criou. Vejamos... você falou com o Severus que te disse que todos nós estávamos correndo perigo, que há uma ordem para todos os Comensais da Morte para que sequestrem a sua filha e você faz o quê? Ah, lembrei! Você revela o segredo a uma Comensal, a predileta do Lorde das Trevas, que, para a nossa sorte, decidiu vir aqui sozinha... isso tudo para que tivesse a certeza de que não gostava mais dela! Te parabenizo, mais uma vez, porque também é demente! – falou irritada e continuou duramente:

- Em algum segundo que seja, você chegou a imaginar que a Bellatrix poderia ter vindo acompanhada pelos amiguinhos e amantes dela? Certamente, não! Porque não possui a mínima capacidade para isso!

- Me escute, bruxa! – Sirius a segurou fazendo com que ela o olhasse.

- Eu não tenho o que ouvir de um homem que pensa com o pênis e não com o cérebro... estaríamos todos mortos, na melhor das hipóteses, por sua causa! Aqui não é mais um lugar seguro, graças à sua suprema capacidade de fazer alguma idiotice. Agora me solte! - foi nessa hora que Narcissa se amaldiçoou mentalmente de tantos homens para se envolver porque tinha que ter se apaixonar, logo, por ele?

- Narcissa, você deveria ganhar o prêmio de maior idiota do mundo! Primeiro, o Lucius e, agora, esse traste todo tatuado! – pensou se virando para o homem.

- Me ouça com atenção, porque essa será a primeira e última vez que direi isso! Eu vivi anos com um homem completamente infiel e abusivo. Não precisava fazer absolutamente nada para que ele perdesse a paciência comigo e me batesse ou me acusasse dos maiores absurdos possíveis. Caso não tenha notado, não sou nenhuma menina para acreditar em grandes promessas, amores que rompem barreiras... você não me pareceu muito convencido de que a esqueceu, pelo modo que ficou quando ela te tocou! O que eu quero é que, caso decida de fato ficar comigo, me respeite e seja leal! – disse decidida.

- Jamais tocaria em você dessa forma... por pior que seja o seu gênio e mesmo que me agrida. Eu não sou um covarde! Sei que errei e traí a sua confiança. Não há justificativas, mas, acredite... me apaixonei por você, quero que faça parte da minha vida e, se possível, se torne minha esposa! – argumentou com sinceridade a abraçando, mesmo percebendo que a loira ainda se mostrava contrariada.

- Sirius... desculpe pelas palavras que dirigi a você. Eu tenho que te contar uma coisa... – Narcissa fez um olhar de dúvida que o levou a incentivá-la a prosseguir:

- Vamos, diga... tem toda a minha atenção!

- Eu estou grávida, tenho quase absoluta certeza disso – disse o olhando com expectativa.

- Como? - a encarou atônito sem conseguir formular nenhuma frase.

- Como? Creio que eu não precise te explicar como uma mulher engravida! E antes que me pergunte, não há dúvidas de que o filho é seu – seguiu o observando atentamente.

- Eu vou ser pai... é sério isso? – ele sorriu vendo que a vida estava lhe dando uma segunda oportunidade de refazer a sua história.

- Não... você não é suficientemente responsável para cuidar e proteger uma criança – riu do semblante bobo que ele estava.

- Narcissa... Cissa, me dê outra chance, por favor! Jamais eu colocaria em risco a vida do meu próprio filho – disse lhe dando um beijo na testa.

- Não? Ah, Salazar... como pode só pôr no meu caminho homens tão obtusos?! Qual a parte de transar com a Bellatrix, contar o segredo e ela entrar nessa casa, você não entendeu? Essa sua atitude colocou a sua filha em perigo, sem falar que meu filho e o meu neto também poderiam ter sido assassinados! – bufou não conseguindo se soltar dele.

- Não vai acontecer novamente... – deu um meio sorriso a apertando ainda mais no seu abraço. Queria muito que ela se sentisse segura, tudo mudaria a partir daquele momento...

- Está bem, prometo pensar no seu caso e se merece essa nova oportunidade! Aproveitando, graças a sua irresponsabilidade, o casamento da sua filha pode estar indo por água abaixo – falou séria, voltando a encará-lo.

- Que culpa eu tenho? O Ranhoso é que deveria aprender a se segurar dentro das calças! – deu de ombros.

- Você é o último aqui que pode julgá-lo, querido. Seu histórico não está depondo a seu favor – respondeu sarcástica sorrindo ao vê-lo contrariado.

- E... para variar, mais uma vez... você o defende! – soltou a respiração pesada.

- Esperava o quê? Ele é meu melhor amigo e sempre o protegerei, principalmente, de você... e dele mesmo – manteve o olhar fixo nele.

- Melhores amigos não transam... – a encarou semicerrando os olhos.

- Em condições normais de convivência, não... você está certo. Entretanto, no caso específico, ou seria ele, que é alguém incapaz de me ferir dessa maneira... ou os outros Comensais que estavam na mansão e não teriam o menor cuidado. Realmente, você não faz a menor ideia do que acontece por lá... – ela foi interrompida pelo som de batidas na porta.

Hermione estava aos prantos sendo consolada por Ginny e Luna, que não sabiam mais o que fazer para que ela se acalmasse. Parecia que nada bastava para aplacar um pouco a dor em seu coração. Sirius e Narcissa acabaram indo para a sala, depois de serem chamados por Lupin, que se mostrava bastante preocupado com o que ocorria. A castanha relatou às três mulheres toda a discussão, o que Snape havia dito, vendo que a tia fazia uma expressão completamente contrariada e, a irmã acompanhada de sua amiga, estavam com um olhar triste direcionado a ela. Lupin, que havia se retirado de lá e levado a esposa para casa, logo após a cena protagonizada por Bellatrix, ficou escutando a conversa e impediu que Sirius se metesse no assunto.

- Sei que pode não acreditar em mim e juro não querer justifica-lo, pois, a minha vontade é de jogar todas as maldições possíveis contra aquele idiota... mas, o Severus fez isso para protege-la. Eu o conheço bem, Hermione, ele nunca me desejou e, tampouco, quis passar horas comigo. Isso eu posso afirmar sem sombra de dúvidas – a loira disse pensativa.

- Se me amasse de verdade, nunca teria feito isso. Saberia que eu só me sinto segura e feliz quando ele está comigo... não me diria aquelas coisas – outra vez lágrimas grossas saiam dos seus olhos.

- Desculpe eu me envolver... mas, Hermione, o Severus ama você e muito! Eu o vi saindo do quarto depois da discussão, acabei ouvindo parte do que foi dito... ele amou a Lilly por muito tempo, isso é verdade! No entanto, com as coisas que aconteceram, com o modo que a amizade deles se desfez... o tempo o fez perceber que o sentimento estava se esvaindo. Você apareceu como um raio de sol na vida dele, tudo ficou diferente. Como se apenas a sua presença o lembrasse de que ele era e é apenas um homem, alguém que merece ser feliz - relatou Lupin a observando e continuou:

- Lembro dos dois sujos de barro por conta do que a Bellatrix aprontou em Hogwarts... e o Severus completamente contrariado de colocar a capa da Grifinória para tirar uma foto com você. Estava estampado nos olhos dele que tudo a seu respeito era percebido como grandioso, intenso e verdadeiro... até hoje tenho certeza de que ele teria quebrado a linha temporal para ficar com você por todos esses anos. Sempre foi você, Hermione, não a Lillian ou qualquer outra que aparecesse. Eu sei que ele é teimoso demais... mas, não seja também. Você sabe que aquelas palavras foram apenas para afastá-la. Não há bruxa ou trouxa nesse mundo que apague o que aquele idiota sente ao te ver.

- O Severus preferiu a morte a ter que viver tantos anos longe do seu amor, Hermione. Foi uma das coisas mais tristes que eu vi na vida – Narcissa estava de cabeça baixa lembrando do estado que ele ficou depois que a menina foi embora.

- Porque, então, ele fez isso? – questionou desesperada.

- Covardia diante daquilo que não tem controle... – respondeu Sirius no canto da sala antes de sair.