Oi pessoal! Novamente, mil desculpas por demorar tanto a vir postar aqui, mas pelo menos esse já é o penúltimo capítulo.
Isso mesmo! A saga de Annabelle com Hitomi e Naraku está chegando ao fim, e eu posso matar um pouco das saudades de escrever essa fanfic publicando-a aqui, mesmo tão tardiamente. Espero que não tenham desistido da leitura, me perdoem novamente por tamanho atraso e muito obrigada por seguirem acompanhando até aqui, significa muito para mim!
Bom, não me prolongarei porque o capítulo está imenso e cheio de informações, me emocionei muito ao escrever tanto esse como o último, tomara que vocês se emocionem também! :D
Boa leitura!


Capítulo 45 - Um ciclo termina

Tanto o chão quanto as paredes pareciam feitos de carne e estremeciam de vez em quando, a atmosfera do interior da aranha era densa e deixava a estrangeira ainda mais tonta do que já estava. Apoiada com as duas mãos e as costas em uma daquelas superfícies de exótica textura, encarou-o arfante. Ambos se mostravam atônitos, Naraku, porém, estava quase apático, ainda desacreditado em vê-la ali.

Quando Annabelle desgrudar-se-ia da parede escorregadia, um forte tremor em todo o "terreno" a fez cambalear e quase cair para a frente. Tentáculos surgiram do chão e a contiveram.

— Eles já estão aqui! — a escocesa exclamou desesperada, a olhar para todos os lados na tentativa de identificar de onde vinham as luzes, os ruídos, e as energias que se misturavam violentas. Fora impressão dela ou a face pálida do aracnídeo trincara sutilmente ao redor de um dos olhos rubros?

— Você me deu a sua palavra! — num repente, a letargia deu vez à indignação e Naraku, pouco preocupado com a rachadura no rosto, bronqueou. As mãos fecharam-se com tamanha força que as veias ressaltaram nos dorsos.

Anna correu até ele, o impulso a fez perder o fôlego e pousar as mãos no peitoral angustiado, no entanto silencioso.

— Não, esse não é você! Onde está, onde está o verdadeiro?! — girou o corpo procurando-o.

— Tudo aqui sou eu. — puxou-a pelo braço, fazendo-a se virar e encará-lo outra vez — Está dentro do meu corpo, não percebe? Não deveria ter vindo aqui! — meneou a cabeça, furioso — Não sabe o risco que está correndo!

— Sim, eu sei! — bradou, agarrando as mãos dele.

— Você jurou, sua idiota, se esqueceu?! — segurou o rosto dela entre as mãos, fios acobreados emaranharam nos dedos dele.

— Eu menti! — gritou, a entrelaçar os dedos nos de Naraku, as lágrimas a respingarem dos longos cílios ruivos.

—... por quê? — soltou-a vagarosamente, incrédulo daquela loucura, então a viu pousar as mãos sobre o ventre e suspirou discretamente melancólico. — Você não merece isso... — tocou a barriga dela que palpitava desenfreada, depois afagou a bochecha gelada da jovenzinha. — A libertei do fragmento da Joia, apenas para prendê-la a mim de outro jeito. — riu, seco e breve, não escarnecia de ninguém além dele próprio — Vou tirá-lo imediatamente. — afirmou veemente.

— Não! — Annabelle deu um pulo para trás, abraçando a si mesma e protegendo a vida guardada em si.

— Venha, você não faz ideia do perigo que isso representa para você. — estendeu a mão para ela.

— Não me importa! — abanou a cabeça freneticamente.

— Não temos muito tempo, ande logo com isso! — aumentou o tom e aproximou-se.

— Não vai tirá-lo de mim! — o chão estremeceu novamente, um clarão esverdeado reluziu através da parede, ela quase caiu de joelhos, todavia o hanyou a segurou pelos braços.

— Mulher tola, é sua chance de ser livre! — ralhou.

— Eu não quero ser livre, eu quero ficar com você! — urrou, as lágrimas a rolarem espessas e a gotejarem do queixo aos seios que subiam e desciam velozes, palpitantes.

Naraku, boquiaberto, arregalou os globos escarlates e suas mãos escorregaram, não conseguiu emitir qualquer reação. No fundo, indagava se tudo aquilo não seria um grande delírio.

A humana respirou fundo e o abraçou forte, partiu a encher a face dele de beijos, a boca aflita perpassava pela testa, pelas maçãs, pelo queixo, pelas têmporas, inclusive pelos olhos.

— Fuja comigo! — Annabelle implorou — Vamos para a Escócia, podemos deixar para trás todas as tragédias que vivemos aqui e recomeçar, juntos! — e deu incontáveis selinhos na boca entreaberta — Lá é tão bonito, há tantos lugares para te mostrar, há tanto o que podemos fazer! Você vai ver! — passou a rir num misto de empolgação e exasperação, os olhos vidrados sequer piscavam enquanto ela o fitava e balançava a cabeça insistentemente, afirmando as próprias ideias.

— Isso é impossível! — reteve a cabeça dela entre os dedos novamente, e mesmo seu toque firme era incapaz de conter os tremores.

— Por favor, Naraku! — suplicou, perpassando as mãos pelo peito e depois pelos ombros tencionados. — Você sempre escapa, sempre arranja um jeito de fugir!

— Eles não permitirão que eu vá, me seguirão até o inferno se for preciso. — disse entredentes, amargurado por sua condição.

— Deixe a Joia de Quatro Almas para trás! — persistente, Annabelle sugeriu ainda no mesmo tom, a rir e a chorar.

— Mesmo se eu pudesse desistir da Joia, meus inimigos jamais desistiriam de mim, não enxerga isso? — os olhos piscaram inúmeras vezes, atordoados com a postura da moçoila que àquela altura soluçava constantemente.

— Não me faça passar por isso outra vez, por favor, eu imploro! — baixou a cabeça, comprimiu as pálpebras vigorosamente, o enjoo a consumia em conjunto à aceleração no peito. Annabelle percebera reviver uma situação. Certa vez sugeriu a Hitomi para que fugissem juntos e ele, por razões diversas, negou-se. Sofrera amargamente naquela ocasião, e o que mais a assustava era sentir que sofria o dobro no presente. Apesar de tudo o que Naraku fizera a ela e a outros, seu apego a ele se mostrava visceral.

O aracnídeo, por sua vez, compreendeu o que a forasteira quis dizer e sentiu o remorso dar pontadas ainda mais fortes dentro de si.

Como é puro o coração dessa mulher, depois de tudo o que você fez a ela, Annabelle ainda anseia por salvar a sua alma, se apieda por sua condição... — as vozes, sedentas e mais concretas do que nunca, zuniram dentro dele, afoitas por apressá-lo a concluir a obra de uma vez e fundir-se à Joia.

— Eu não quero a sua piedade! — afastou-se dela de súbito. — Não pode salvar a minha alma, Annabelle!

Sem dar chance ao orgulho, a mulher não se ofendeu com a arrogância do meio-youkai decadente e tornou a ficar próxima.

— Você não pode morrer! — bradou, o azul fixado no vermelho.

— Por quê?! — no mesmo volume e a mirá-la na mesma intensidade, questionou. — Sempre disse que eu merecia esse fim, agora se arrepende? — enfim riu, a recobrar o sarcasmo que sempre o servira muito bem — Por que, Annabelle Rose?!

— Porque eu te amo! — e a confissão finalmente escapou, num clamor acalorado e impensado.

A voz, as ideias, a razão, tudo dentro dele desvaneceu abruptamente. Discreto lume enfeitou os rubis estremecidos e as sobrancelhas, costumeiramente arqueadas, desceram singelamente, desse modo a tristeza do hanyou transpareceu por mais que ele teimasse em se mostrar uma fortaleza. Anna tapou a boca com as mãos em primeiro momento, por náusea e por assombro. Contudo, se Naraku pensou que os impulsos da escocesa cessariam ali, estava muito enganado. Ela pulou em seus braços, enredou a nuca dele com urgência, com o queixo apoiado no vão entre o pescoço e o ombro e com o rosto a roçar no dele, a boca sussurrou rente à orelha atenta:

— Eu te amo... — confessou novamente, um tênue sorriso aliviado se formou nos lábios por conta da coragem de revelar aquele segredo elucidante. Um peso enorme a abandonou, apesar de a moça ainda estar arrebatada pelo medo de perdê-lo.

— Não pode ser... — comentou, rígido dos pés a cabeça, apenas uma mão sua afagava as costas dela, e bem superficialmente.

— Por que não? — tornou a olhá-lo nos olhos, jogou a franja dele para trás, assim poderia vislumbrá-lo melhor.

— Depois de tudo o que eu fiz? — o olhar perdia-se em lembranças — Como poderia?

— Sim, eu conheci o pior de você. — séria, falou: — Mas também conheci um lado seu que ninguém jamais conheceu, e me afeiçoei a ele. Quando me dei conta, todos os meus pensamentos, sonhos e desejos se voltavam para você e eu pouco pensava em Hitomi. Me sentia tão culpada que não queria admitir, Naraku.

— Como pode ter certeza de que isso é realmente amor Annabelle, se você mesma cansou de me dizer que já não sabia mais o que era amar, e por minha causa? — falou chiado, em ritmo lento, como se estivesse embriagado, porém cético até o último momento.

— Eu menti, menti para você e para mim mesma, porque era mais fácil duvidar de tudo do que aceitar essa verdade. — respirou fundo, tentava se acalmar, era difícil se pronunciar mediante a quantidade de soluços que lhe escapuliam. — Aquele fragmento enlouquecia os meus sentidos, sim, e me ajudava a manter a dúvida. Pensei que assim que me livrasse daquela peça maldita estaria livre, no entanto, com ou sem fragmento no meu peito, não há um momento do dia em que você não permeie os meus pensamentos. Sei quem voc que fez, ainda assim tudo o que quero é estar ao seu lado. — roçou o nariz, avermelhado por causa do pranto, ao dele. Sentiu o hálito quente e o aspirou, as mãos acarinhavam a cabeça dele, ternas e mornas. — Eu queria tanto ter dito isso antes... — comentou consigo mesma, nem se deu conta de que acabou dividindo isso com ele.

— Annabelle... — a outra mão também pousou às costas dela, premendo-a contra o seu corpo despido e com novos trincos. A saliva desceu vagarosa e amarescente. Naraku mordeu o lábio inferior, fechou os olhos, respirou fundo, para depois a boca tremente se curvar num sorriso. Sem perceber, a humana o feriu mortalmente com aquela revelação, e ao mesmo tempo o preencheu de alegria, pois, sem que soubesse, ela dera a ele o que sempre desejara, e que nem a Joia de Quatro Almas poderia oferecer.

Como aquela situação era inédita demais, Naraku sequer sabia o que dizer. Portanto, o meio-youkai agora com metade do rosto trincado – para o apavoramento de Annabelle – a respondeu com um beijo que representava cada sentimento aflorado em seu interior. Enquanto ela lhe afagava o rosto, contornando as rachaduras, e abria a boca para dizer mais, a dele se encaixou na dela e sua língua ansiosa adentrou imediatamente, sem pedir qualquer licença. Anna emitiu alguns grunhidos no lugar de palavras abafadas. As línguas se rolaram uma sobre a outra, febris, enquanto um sugava o lábio do outro com avidez. A prensá-lo contra si naquele abraço avassalador, Belle tocou-lhe os tentáculos às costas e os afagou como se alisasse os cabelos dele. A luz branca que a envolvia se expandiu e o contornou, no entanto as fissuras que rasgavam a pele alva não diminuíram.

Desolada, ela apartou o beijo e emitiu um gemido lamurioso, Naraku segurou a sua cabeça e prosseguiu a beijá-la como se nada mais tivesse importância naquele momento. Seus polegares enxugavam os cantos dos olhos dela enquanto as cabeças volviam de um lado para o outro, em sincronia com a rotação frenética das línguas. Ela tateou o peito dele diversas vezes, o arranhou, e não sentiu nenhuma pulsação.

Quando finalmente não restara fôlego para prolongarem aquele beijo, o cessaram e com os narizes encostados ofegaram juntos.

— Onde está o seu coração? — perguntou enfraquecida.

— Você é o meu coração, Annabelle Rose. — Uniu a testa à dela e fechou os olhos, um sorriso genuíno abrilhantava-lhe a face.

— Naraku... — estonteada e discretamente rubra, recomeçaria a tentar convencê-lo de escapar. Era o que ele sempre fazia, por que dessa vez seria diferente? No entanto, de supetão, tentáculos vindos do chão e da parede enrolaram-se nos braços e nas pernas dela. A ocidental olhou para cada lado e depois o fitou.

— Obrigado, — os orbes lacrimejaram levemente e o sorriso – sincero e doce – se expandiu — por me mostrar a verdadeira face do amor.

— Não, espere! — apontou-lhe um braço, ainda que fosse difícil se movimentar com aqueles apêndices a apertarem-na. O choro se intensificou — Não me deixe!

— Vá. — e então o riso se fechou e Naraku reouve a expressão contida e sisuda, apenas seus olhos ainda espelhavam o desconsolo, porém, acima de qualquer tristeza a determinação prevalecia, diferentemente do episódio em que o hanyou a procurou para regenerar as suas chagas, nesse fatídico dia, ele parecia pronto para receber a morte.

Os tentáculos puxaram a Rosa Branca para trás com tudo, por mais que ela se debatesse e esperneasse. A imagem do hanyou quebradiço ficou cada vez mais distante, bem como os relâmpagos esverdeados que até que enfim partiam as paredes em vários pedaços de carne.

— Não! — ela persistiu a gritar, sentia-se em queda livre, a vertigem a deixava alheia ao que realmente acontecia, ainda que seus gritos e seu plangor não perdessem a força. E, num repente, os pés tocaram o chão e ela se viu fora da aranha flutuante, ao seu lado estava a manta de babuíno – que caíra de suas costas no momento em que ela pulou de cima do youkai centopeia para adentrar a bocarra da fera, ou melhor, do próprio Naraku.

Ainda consumida por desesperação e pavor, tentou levantar e caiu de joelhos, não desistiu. Apoiou as mãos na grama, impulsionou-se para cima e cambaleante iniciou uma corrida que não durou mais de alguns segundos, logo alguém veio por trás e a segurou. Ela permaneceu a espernear e a chamar Naraku aos berros enquanto chacoalhava as pernas e remexia os braços cativos nas mãos de um ser misterioso. A alma ardia, bem como o peito, Annabelle não acreditou que conheceria sensação pior do que aquela. Já perdera tantos entes queridos, não deveria estar acostumada? Ah, mas com ele tudo sempre fora mais intenso...

— Pare, garota! — a voz aguda de Byakuya se fez reconhecer — Está me fazendo perder tempo, tenho coisas mais importantes a fazer! Eu disse pra você não me dar trabalho, já esqueceu?!

Enfim as articulações dela pesaram e pararam de se chacoalhar aos poucos, os soluços, todavia, emitiam-se fortes e sufocantes. O youkai a soltou e ela caiu sentada, de volta à grama. Uma pontada na barriga a desatinou de dor e a fez deitar e se enrolar na manta.

— Você precisa sair daqui depressa, antes que eles descubram! — passou a mão pela testa, trincada como a face de Naraku, olhou para os lados como se procurasse algo e suspirou aliviado — Ah, lá está! — comentou.

A escocesa ouviu um ruído a se aproximar, ergueu a cabeça e se deparou com uma carruagem elegante, de grande porte, mas não teve tempo para admirar os detalhes, pois Byakuya a puxou pelo braço e a arrastou apressadamente até o veículo.

— Vamos, entre aí! — jogou-a lá dentro, sentada sobre o assento estofado.

— Não! — débil e arfante, atirou-se contra a porta já fechada, sentiu o balanço e notou que a carruagem já andava e era rápida. Meteu a cara para fora e avistou o youkai, ereto, a mirá-la com seriedade e, poderia ser, pesar?

— Não pretende se jogar, pretende? — aquela voz, Annabelle reconhecera no ato e por essa razão seus olhos dilataram e ela se voltou para dentro imediatamente.

Nem se dera conta de que havia outra pessoa naquela condução luxuosa, sentada à frente, coberta por uma manta cheia de bordados de flores de cerejeira.

— Kagura? — sussurrou empalidecida.

A outra descobriu o rosto e revelou o olhar avermelhado, bem como um sorriso costumeiro.

— Surpresa em me ver?

Mesmo arrasada, e com o choro persistente a escorrer, Anna sorriu aliviada e atirou-se sobre a youkai, abraçando-a com intensidade.

— Ei, calma! Vai me partir ao meio desse jeito! — ruborizada, a Mestra do Vento apalpou os ombros da ruiva, tentando afastá-la.

O contato fez a descendente das fadas perceber uma pulsação diferente, e vinha do peito da amiga.

— O seu coração... — a face, antes apoiada num ombro, ergueu-se absorta, a encarar a antiga serva de Naraku.

— Ele devolveu, finalmente. — resfolgou, o enredo afrouxara levemente ao redor dela. O sorriso nos lábios vermelhos era ameno dessa vez. — Eu sou livre... — fechou os olhos, aspirando o vento que adentrava pelas aberturas, através das cortinas, e reabriu as pálpebras. — Graças a você.

Os céus de verão, límpidos, molhados, emocionaram-se ainda mais.


Kagura... — Naraku surgiu diante da youkai enquanto ela planava em sua pena sobre um extenso campo esverdeado.

"Ele veio!" — apavorada, freou o transporte e ficou a encará-lo e de tanto que mediu palavras para confrontá-lo, terminou calada. Sabia de onde ele vinha, provavelmente teria salvado a humana com base nas informações que ela mesmo dera. Haveria se condenado? – indagava-se e o frio a percorria por dentro, fazendo-a intentar abraçar a si mesma para amenizá-lo. Contudo, cada poro de sua pele pareceu congelar quando o hanyou estendeu o braço, abriu os dedos vagarosamente e exibiu um órgão vital a pulsar freneticamente – o dela.

As pupilas carminadas quase saltaram das órbitas e o tempo pareceu parar naquele exato momento. Kagura tinha certeza de que morreria. Seu mestre não esboçou qualquer reação. Inexpressivo, disse:

É seu, pegue.

Ela hesitou, os dedos apertavam-se aos fios brancos da pena.

Vamos, Kagura, não era isso o que queria? — a desafiou — Venha pegar.

Os pés da youkai tocaram o chão e a passos lentos e pesados ela se encaminhou ao algoz. Conforme se aproximava, o coração na mão dele acelerava mais e mais. Enfim, de frente para Naraku e ainda apática, roçou os dedos naquele pedaço de carne latejante e cada pelo de seu corpo arrepiou.

Devagar, a mão dela envolveu o que lhe pertencia e o retirou da dele, ainda escancarada. Assim que a escrava recém-libertada o trouxe próximo ao peito, o araneídeo tornou a falar:

Sabe, eu planejava esse momento há algum tempo... — sorriu de canto — Eu pretendia feri-la mortalmente assim que devolvesse o seu coração, — e riu, breve — para puni-la por ter cogitado me apunhalar pelas costas.

Naraku! — deu um salto para trás, afastando-se de pavor.

... mas ela pediu que eu a libertasse. — e, repentinamente, o olhar dele deixou de ser tenebroso e baixou-se visivelmente entristecido.

Boquiaberta, Kagura estancou onde estava, e ele deu continuidade ao discurso:

Por isso, Kagura, — tornou a encará-la amedrontador — agradeça Annabelle. Você deve sua liberdade e sua vida a ela. — e os pés dele começaram a destocar a terra para o seu corpo planar envolto pela cúpula protetora. Antes de atingir as nuvens, contudo, o hanyou parou. — Ah! — fixou-se em seu antigo peão, já pequeno diante de seus olhos, e terminou: — Não ouse conspirar contra mim, se eu souber que você se uniu a Inuyasha e seus amigos imbecis, a matarei. — soou grave, sombrio. Ela sabia ser verdade.

Assim, ele desapareceu nos céus, levando as nuvens escuras consigo.


— Ele fez o que pedi... — Annabelle tocou uma maçã ainda encharcada, sem conseguir controlar a tormenta dentro de si. O coração apenas apertava-se mais, os olhos ardiam infernalmente, focados nos próprios pés como se pudessem enxergar os dedos a encolherem-se aflitos por baixo das botas e das meias. — "Porque ele tem sentimentos por mim também".

— Uma pena Kanna não ter a mesma sorte... — Kagura lamentou.

— E Kikyou! — cobriu o rosto, imersa num luto sem fim, tomada pela frustração de não poder mudar o passado, ou sequer o futuro.

— Mas Kohaku, sei que está bem. — o modo de falar não fazia jus à intenção de propiciar qualquer acalento — Ele sobreviveu, mesmo sem o fragmento.

"Então nossos esforços alcançaram mesmo algum resultado..." — respirou fundo, e soluçou mais vezes. — "e Naraku não foi purificado ao conseguir roubar o último fragmento" — quase ficou aliviada — "Mas..." — só que se lembrou do estado crítico em que ele se encontrava ao mandá-la para fora da grande carapaça de aranha – ou seja – para fora dele, e as angústias se asseveraram. — O que está fazendo aqui, agora que é livre para ir aonde quiser? — perguntou, as mãos a abafarem o que a garganta já fazia embargar e tremelicar.

— Algum tempo depois de me devolver o coração, Naraku mandou um sujeito excêntrico me procurar. — selou os cílios negros e curvilíneos e deu início a uma narrativa calma: — O nome dele era Byakuya, você o conhece.


Quem é você?! — perguntou arisca, preparada para usar o poder do leque na primeira oportunidade que tivesse.

Calma, calma! — o estranho abanou as mãos e desceu do enorme pássaro de origami que o levava para cima e para baixo. — Você é Kagura, certo? Me chamo Byakuya, Naraku mandou que eu a encontrasse. — contou placidamente, com um sorriso quase sapeca.

Naraku?! — vociferou, uma das mãos se pôs rente ao peito como escudo do maior bem que ela possuía — Eu deveria saber que aquele maldito não me deixaria em paz! Sou livre, tenho meu coração, não obedecerei as ordens dele nunca mais!

Não é uma ordem... — os lábios se transmutaram a uma reta e ele suspirou — é um pedido.

A Mestra dos Ventos abriu a boca pronta para ralhar, e de repente a voz ficou trancafiada antes de fazer a língua enrolar. Os olhos de sangue piscaram confusos e sem que ela percebesse, a mão que erguia o leque já baixara.

Pedido? — arqueou uma das sobrancelhas, cética.

Você é amiga da humana de cabelos de fogo, não é mesmo? — encarou-a curioso.

"Amiga..." — dessa vez, foi a youkai alforriada que soltou um longo suspiro. Sentiu as batidas acelerarem dentro da caixa torácica conforme se recordava das idas à floresta com Annabelle, do vestido que ganhara, das conversas triviais e até mesmo de alguns risos que deram juntas. — Sim... — murmurou, por fim relembrando que se no presente tinha um coração a bater dentro do peito, era porque a humana convencera Naraku a devolvê-lo. Ah, sim, jamais se esqueceria da noite em que a mulher arriscara a própria vida por isso. — Ela é minha amiga. — concluiu quase a sorrir, sem qualquer resquício de hostilidade na atitude.

Naraku pede que eu e você façamos algo por ela. — prosseguiu.


— Por mim? — Anna ouvia o conto sem entender qualquer coisa. A carruagem passou por cima de uma pedra e chacoalhou mais do que devia. A moça pousou as mãos sobre a boca, cheirando-as no intuito de conter a náusea.

— Naraku usou o seu antigo disfarce para exercer influência sobre os homens e assim conseguir acumular mais riquezas do que já tinha. Então, mandou que Byakuya comprasse um grande barco de madeira e contratasse um capitão e uma tripulação de respeito, estrangeiros como você.

— Comprou uma caravela?! — zonza, quanto mais ouvia, menos compreendia.

— Sim, e o restante pediu para que entregasse quando eu a encontrasse. — Kagura puxou uma bolsa de dentro da gola do quimono e a colocou sobre as pernas da escocesa.

— O que ele pretendia com isso? — abriu a sacolinha de couro e os olhos chorosos arregalaram-se diante da quantidade de joias preciosas dentro dela.

— Mandá-la para o seu país de origem, para que você possa reconstruir a sua vida. — a fitou diretamente, observando o sofrimento a se derramar pelos olhos azuis. — Eu me envolvi, porque estava em dívida com você. Mas aquele desgraçado... — riu breve, ainda assim seu olhar aparentava pesaroso — ele me surpreendeu com isso. Nunca pensei que veria Naraku agir de modo tão altruísta.

— Então, quando ele me disse que eu ficaria bem... — soluçou — era disso o que estava falando! — olhou através das cortinas as árvores fundirem-se numa só imagem corrida, estavam em alta velocidade.

— Não sei como consegue sofrer tanto por ele. — a youkai não conteve o comentário — Por mais que a última atitude de Naraku tenha sido nobre, sinceramente, não acredito que seja o suficiente para erradicar todos os seus pecados. Não deveria desperdiçar tantas lágrimas assim... — tateou a própria roupa e procurou por um lenço, encontrou-o por dentro de uma das mangas e o ofereceu a ela. — Em pouco tempo você poderá ser livre também.

— Não serei. — passou a seda macia pelo rosto inutilmente, afinal, novas gotículas salgadas surgiam para molhar a pele. A convicção no timbre dela incomodou Kagura.

— Não é como se ele tivesse o seu coração nas mãos, mulher! — se impacientou.

— Há diversas formas de se roubar o coração de alguém, Kagura. — apoiou a cabeça à parede, cansada do balanço — E ele consquistou o meu.

"Eles se amam, e por que eu devo me importar com isso?" — a escrava liberta via-se em contradição consigo mesma. Enquanto a razão insistia que ela deveria se sentir aliviada e ansiosa pelo fim do antigo carrasco, o coração apertava melancólico. Como poderia achar uma ocasião tão justa e injusta ao mesmo tempo?

Contemplou a humana afagar a barriga como se tentasse apaziguar um ser que se revirava dentro dela. Sabia que era só por causa daquela vida protegida no interior do ventre que Annabelle não se jogava daquela carruagem e ia atrás de Naraku de qualquer jeito. Estava certa, apesar de mal poder imaginar o conflito travado na mente da forasteira.

Anna quase sentia raiva de Inuyasha e de Sesshoumaru por saber que eles não teriam qualquer clemência. E então, se recriminava em pensamentos, não poderia condená-los jamais, e não conseguia condenar Naraku também. Orava à Deusa para que de algum modo ele sobrevivesse...

E assim, a carruagem deixou o chão e, envolta pelo campo de força arroxeado, voou pelos céus até chegar ao litoral. A humana cochilava, porém o cheiro da maresia adentrou-lhe as narinas e a despertou. Assim que vislumbrou o mar, sentiu uma saudade indescritível das boas meninas com quem conviveu algum tempo, bem como da anciã que costumava aconselhá-la.

"Nunca mais as verei" — inspirou e expirou, controlando-se, a face já estava inchada e ardida pelas horas anteriores de pranto. Que jeito havia? Se alguém soubesse que Naraku deixara um herdeiro, o que seria da criança? Ao menos a criança ela salvaria.

Pousaram num bosque próximo ao porto, de lá a carruagem foi por terra. Kagura desceu e ofereceu a mão a ela.

— Aqui nos despedimos. — a youkai disse, sorridente.

— Kagura, venha comigo! — assim que aceitou a ajuda e tocou os pés no chão, apertou a mão da amiga entre os dedos — Você vai gostar da Escócia.

— Desculpe, mas não posso. — soltou-se. — Ainda quero ver e viver muitas coisas aqui... mas um dia, com certeza desejarei viajar o mundo e conhecer outras terras, aí sim, eu a procurarei. — tocou-lhe os ombros.

— Não quero ficar sozinha... — choramingou, abraçada a pele de babuíno que lhe cobria a cabeça.

— E não vai ficar. — mirou a barriga da moça. Annabelle entendeu o gesto e se conformou com a decisão de Kagura.

— Até um dia... — a abraçou de leve, porque conhecia bem o temperamento fechado da outra. — e muito obrigada.

— Estamos quites. — mesmo desconcertada pela proximidade, pousou uma mão às costas de Belle e a afagou sutilmente. — Agora vai! É o barco do canto esquerdo!

— Certo... — virou-se para a praia e então avistou dois homens a carregarem a sua harpa dourada para dentro da caravela. As pernas bambolearam por conta de outras lembranças: o sorriso sereno de Hitomi na noite em que a ajudou a fugir do castelo, e a promessa de que guardaria aquele instrumento angelical consigo, para que ela tivesse uma razão de voltar para ele. Depois disso, a harpa passou para as mãos de Naraku e ela a tocou para ele como um dia tocara para o Jovem Mestre. Após abandoná-la na floresta, o hanyou devolveu-lhe todas as roupas, a harpa porém, continuou em seu domínio. De alguma maneira, foi como se o aracnídeo tivesse assumido o voto de Kagewaki para si. Agora aquele belíssimo objeto dourado subia pela rampa amadeirada e tornava às mãos dela, e os dois amores de sua vida ficavam para trás. Não haveria meios de voltar para Hitomi ou para Naraku.

Uma pontada na barriga a fez se curvar para a frente conforme ela se aproximava da grande nau.

Um homem se aproximou, tinha cabelos castanhos e olhos verde-oliva, a barba cobria boa parte do rosto. Certamente era um estrangeiro como ela. Seria um dos tripulantes da navegação?

Ele falou alguma coisa, pelo que Annabelle conseguiu compreender o sujeito se dizia capitão e perguntava se ela estava bem. A moça abanou a cabeça positivamente e aceitou a ajuda dele para começar a subir a rampa, eis que ouviu alguém conhecido chamá-la:

— Senhorita Anaberu! — era Himawari a trazer consigo uma rede cheia de peixes dentro.

Impulsiva, a escocesa terminou de baixar a manta e descobriu o rosto, em seguida se encaminhou à menina e a abraçou fortemente.

— Você não me parece bem, por que nunca nos deu notícias?! — o tom da menina era uma mistura de zanga com preocupação.

— Himawari, minha presença no vilarejo se tornou um grande perigo para todos, se algo acontecesse a vocês por minha causa eu nunca me perdoaria! — afundou o rosto no ombro dela — Mas estou tão feliz por ter te visto pelo menos mais uma vez!

— Ficamos todos preocupados, Yoru fala de você todos os dias! — segurou a cabeça dela e a ergueu.

— Eu sei, muito obrigada, já não precisam mais ficar, eu estarei bem. — enxugou os olhos e ajeitou os cabelos para trás.

— Para onde você está indo? — a irmã de Yoru contemplou a nau, um pouco assustada.

— Para casa... — sorriu terna. Enfim, o homem a chamava, com a mão erguida em sua direção. — Por favor, diga à Yoru e à Motoko que eu as amo e que nunca as esquecerei, assim como você. Tenho certeza de que Yoru será uma grande sacerdotisa! — foi se afastando conforme falava. A menina, que viera vender na feira do porto os peixes que pescou, permaneceu estática, encarando-a saudosa.

Annabelle subiu ao barco e correu desajeitadamente até a beira, debruçando-se nela e acenando para Himawari, e a aprendiz de exterminadora fez o mesmo. Os tripulantes soltaram as cordas que prendiam a caravela ao porto e depois subiram a âncora. Pouco a pouco, a embarcação deixou a margem e se endereçou ao mar aberto.

Na proa, tentando se afastar das dores ao sentir o frescor marinho, ela ouvia algumas conversas entre os homens. Como vivera algum tempo no reino de Espanha com a família, Belle era fluente e reconhecia que o idioma dos homens era muito parecido. Eles falavam sobre os lugares onde precisariam parar, comentavam sobre o furor oceânico, nada que ela não conhecesse. Só enjoava naquela ocasião por conta de seu estado, se estivesse em condições normais nem se preocuparia. Era a primeira vez em muito tempo que viajava sem se disfarçar de homem também, e se perguntava que jeito Naraku dera para que marinheiros a tratassem com tanto respeito.

O capitão a acompanhou até a cabine onde ela descansaria, pelo lado de fora dava para perceber o seu tamanho considerável, no entanto era impossível enxergar o interior porque as cortinas vermelhas de veludo estavam todas fechadas.

"São do reino de Portugal" — constatou a nacionalidade de seus companheiros de jornada enquanto girava a maçaneta dourada da porta talhada em madeira maciça. O responsável pela viagem se afastou para dar-lhe privacidade. Algumas velas alumiavam o cômodo, mesmo que fosse dia. Havia alguém sentado em uma cadeira elegante, de costas para ela. Anna reconheceu, mesmo à meia luz, as extensas ondulações negras, soltas, esparramadas para os lados.

— Naraku... — murmurou, as costas toparam-se com a parede e as mãos se apoiaram nelas, trêmulas. Um sorriso começava a se abrir quando a figura finalmente virou-se de frente, rompendo quaisquer expectativas.

Apesar dos cabelos, dos olhos carminados, e dos traços deveras semelhantes, era uma mulher.

— Você deve ser Annabelle. — a voz, profunda, reverberou por cada canto. Ela se levantou graciosamente, revelando-se num quimono cor de lavanda com bordados de flores azuladas, o obi a contornar a cintura fina assumia-se num azul mais escuro, na tonalidade que representa o início da noite.

— Quem é você? — ainda assombrada pela impressão de segundos atrás, perguntou arfante.

— Sou Kiseki, estou aqui para cuidar de você. — caminhou até ela e tocou-lhe os ombros.

— É uma cria de Naraku? — revirou os olhos, uma forte vertigem a consumiu de súbito.

— Pode-se dizer que sim. — pegou um braço da humana e o fez envolver seu pescoço. Assim, ajudou-a a chegar na cama e a deitou lá. — Descanse, a viagem será longa...


Alguns dias e noites se passaram, dificultosos e arrastados como ciclos intermináveis.

A escocesa a caminho do lar sentiu-se tão fraca que chegou a pensar que a vida fosse um fio prestes a arrebentar. Não temia por si, mas pelo rebento. Kiseki enrolava diversos panos molhados em seu corpo afim de aliviar a febre.

— É demais para você! — a acarinhar a cabeça de Annabelle, a criatura parecidíssima com o hanyou comentou preocupada.

— Não... não se atreva.. — entre o sono e a lucidez, a Rosa Branca se pronunciou — não se atreva a tirá-lo de mim! — as mãos se contorceram sobre o baixo-ventre e ela se virou para o outro lado, encolhendo-se de medo e de dor. Confundia a acompanhante com Byakuya, como se tivesse voltado à noite na cabana de Jinenji e sua mãe. — É tudo o que eu tenho, tudo...

— Se quer que ele sobreviva e se quiser sobreviver para vê-lo, tem que pelo menos se alimentar direito. Está me entendendo? — virou-a de volta, obrigando-a a fitá-la nos olhos. Os mesmos olhos.

— Por que Naraku tinha que fazê-la tão parecida com ele? — cobriu o rosto.

— Talvez para que você se sentisse mais familiarizada. — pegou uma bandeja cheia de comida e a deixou rente à face da futura mãe. — Coma.

A estrangeira se esforçou imensamente para sentar, apoiou as costas na cabeceira e se obrigou a tomar pelo menos metade da sopa.

— Isso, muito bem! — a aia – ou coisa parecida – a cumprimentou e ficou lá, ao seu lado, como costumava fazer desde que se conheceram.

Kiseki a ajudava a se lavar, a se vestir, a pentear seus cabelos, nunca saía de perto. Por um lado, era reconfortante ter alguém a tratando com tanto esmero, e por ser uma youkai, lhe trazia a sensação de segurança, nenhum marinheiro ousaria desafiá-la. Por outro, era sufocante e desesperador olhar para um ser idêntico ao híbrido e lembrar de que não pudera fazer nada para salvá-lo. Nem condições de chorar escondida ela tinha, pois bastava respirar mais devagar ou pesado e a serva fiel se grudava ao lado, como uma sombra a protegendo da fúria do mar e da solidão.


Anaberu... — aquele jeito de chamá-la, aquele timbre angelical, ah, ela conhecia muito bem.

Hitomi! — estremeceu. Pensou que nunca mais o veria depois daquele encontro na Noite de Todas as Almas. Viu-se envolta por uma brancura sem fim e ele cintilava à sua frente, pacífico como fora em vida.

Acabou, estou livre... — ele fechou os olhos e sorriu ameno — A Joia de Quatro Almas não existe mais.

A saliva desceu como fel, o ar faltou como se ela estivesse a se afogar. O olhar perdeu o brilho no mesmo instante por conta da certeza que cresceu dentro dela.

Uma menina chamada Kagome fez o desejo certo, e agora posso descansar em paz. — reabriu os orbes amendoados lentamente, suas mãos, transparecidas, pousaram sobre as dela e provocaram-lhe um calafrio.

Kagome... — uma lágrima rolou pelo canto do olho — Agora pode descansar em paz? Pensei que eu o tivesse libertado naquela vez... — e ele voltou a ser o seu foco.

Minha alma estava presa dentro daquela joia, junto com a de milhares de youkais e a de uma sacerdotisa. O intuito daquela pedra era absorver para si o espírito daquela menina, só que no fim das contas, Kagome desejou que a Joia de Quatro Almas desaparecesse e assim a maldição se acabou. — tentou enxugar as maçãs da estimada noiva, porém seu corpo era plasma e o dela era matéria, pertenciam a planos diferentes.

É assim que termina... — letárgica, mirou o nada, a boca tremia desesperadamente. Não tinha coragem de perguntar a Kagewaki sobre Naraku, e nem precisaria, bastava aquele sentimento horrível a devorando por dentro. A razão de ele ter ficado tão amargo depois da morte certamente era por o lugar de seu descanso ser tão atormentador, e ela nunca sequer desconfiou do que se sucedia. Tinha ciência, contudo, de que o homem a quem amou estivera naquele inferno por causa do meio-youkai por quem ela chorava todos os dias, e por quem seu coração batia no presente.

Silente, o falecido filho de um senhor feudal fechou a distância entre ambos e roçou os dedos na barriga dela.

Um ciclo termina, outro começa. — e a olhou triste, porém terno. — Que você seja muito feliz, minha Anaberu. — o semblante começava a clarear e a desaparecer como poeira que se dissipa no vento.

A ruiva ergueu as mãos para ele, na altura dos rostos que se entreolhavam nostálgicos, as palmas de Kagewaki pousaram nas dela e por um breve segundo o casal foi capaz de sentir o calor um do outro. Um tênue brilho esbranquiçado contornou os dedos deles e então, Hitomi desapareceu completamente.

"Estarei olhando por você, não importa onde eu esteja," — a voz do primeiro amor da Rosa Branca ecoou — "minha Anaberu Rosu".


Annabelle, deitada, abriu os olhos subitamente e ofegou.

— Está acabado. — sentenciou — Está tudo acabado!

— Do que está falando? — Kiseki, que cochilava na cadeira ao lado, despertou confusa.

— Naraku... ele... — mordeu o lábio inferior, sentada num sobressalto, eis que gritou exasperadamente e cravou as mãos à cabeça, assustando a companheira de quarto.

— Annabelle, o que é isso?! — preocupada, atirou-se sobre a cama e a abraçou de lado, de nada adiantou. Com os olhos cerrados, a humana prosseguiu a espernear, tomada por uma dor sem início, meio ou fim. Ela se debateu, esmurrou os lençóis, mordeu o dedo indicador e nada acalentou a sua alma.

— Por que eu não disse para ele mais cedo?! — desabou no colo da outra e a fez sua confidente — Se eu dissesse antes, talvez tudo tivesse sido diferente!

— Se você dissesse o quê?! — agoniada, acarinhou os cabelos alaranjados e os afastou do rosto dela.

— Que eu o amo! Eu deveria ter dito isso naquele dia em que o protegi da Ferida do Vento, ou antes, deveria ter declarado o meu amor por ele quando nos sentávamos em frente a árvore que eu fiz, em vez de ficar indagando sobre os sentimentos dele! — devaneou imersa em arrependimento.

— Não seja tola, não faria diferença. — repentinamente, Kiseki enrijeceu e respondeu com severidade. — As coisas tinham que acontecer do modo como aconteceram. — e no fim, soou afetuosa novamente, apertando-a num abraço de consolo.

— Eu sei que poderia tê-lo salvado! Dói tanto! — reclamou, os tremores, no entanto, começavam a se dispersar.

Então, a caravela sacolejou bruscamente e os móveis dentro da cabine começaram a se arrastar um pouco. O lampejo dos trovões atravessou as cortinas, clareando o quarto e o som da água a jorrar dos céus elucidou a youkai:

— É uma tempestade! — deixou Annabelle na cama e correu até uma janela, escancarando-a. Deparou-se com a tormenta e seus olhos se arregalaram — Se continuar assim, é capaz de afundar esse barco!

Anna, por outro lado, tateou a barriga com as mãos e deu mais um grito. A nau balançou uma vez mais e Kiseki caiu ao chão empalidecida, parecia apavorada.

— Não o sinto, não o sinto mais! — apalpou aquela região em frenesi.

— Annabelle! — arfante, chamou-lhe — Se você não fizer nada, vamos naufragar!

A mulher não parecia ouvir, ela fechou os olhos fortemente, sacudiu o corpo para a frente e para trás e sussurrou palavras em gaélico. Os dedos circulavam o ventre, encobertos por lume ebúrneo. Os olhos dela abriram-se esbranquiçados e uma esfera iluminada adentrou-a. Kiseki, vidrada, observou o corpo da humana se remexer, sem cair da cama, mesmo com o quarto inteiro a tremer, e viu as ondas alaranjadas elevarem-se na direção do teto. Enfim, a pulsação retornou e Annabelle ofegou, novamente dominada por náusea e vertigem. A ocidental fechou os olhos e sorriu aos suspiros, abraçando a si mesma.

— Annabelle! — o fôlego de Kiseki retornou, ao sair do transe a youkai se ergueu num pulo e segurou um braço da humana — Você não ouviu o que eu disse?! Se esse navio afundar aqui, como espera chegar ao seu destino?

— Certo! — quase perdera a preciosa vida dentro de si, agora que ela estava salva, precisava salvar os tripulantes e a embarcação. Com a ajuda de Kiseki, ficou de pé e foi à beira da janela. Focada no temporal, entrelaçou os cílios arruivados, abriu a boca e, com a cintura a ser envolvida seguramente pela youkai, Belle esticou os braços adiante, apontando as mãos aos raios que se pincelavam no céu da madrugada.

A brancura alumiou toda a cabine e se endereçou ao firmamento, afastando as nuvens e as mandando para longe. O vento, que vinha por todos os lados, foi direcionado corretamente e também abrandado. Logo, as estrelas cintilaram em uma abóbada límpida e as águas se acalmaram.

— Você conseguiu! — Kiseki comemorou, e a resposta veio no corpo que pendeu em seus braços, desacordado. Por não esperar por aquilo, a cria de Naraku caiu sentada e Annabelle, deitada em seu abraço, teve a cabeça apoiada por uma das mãos esguias da dama de companhia.

— Aguente... você tem que aguentar. — sussurrou, absorta na imagem pálida e adormecida. Primeiro afagou-lhe o rosto, depois a barriga.


Que lugar é esse? — Annabelle não se lembrava de estar a caminhar em um monte esverdeado, com pedregulhos espalhados aos redores. Adiante, ouvia o som de um rio a correr. — Me parece familiar... — pousou uma mão ao rosto, pensativa.

É claro que é familiar. — o timbre grave era inconfundível — É sua terra natal.

Ela estancou, o sangue ferveu nas veias conforme o coração palpitou lépido. Virou-se cautelosamente, e finalmente seus olhos encontraram os dele – sorridentes. Era Naraku. Sem parafernálias ou tentáculos, era aquele Naraku que se vestia como um nobre senhor de terras, o mesmo do último encontro na caverna.

Sem querer pensar em como chegaram ali, importando-se apenas com o fato de ele estar consigo. Annabelle correu ao encontro dele e o apalpou todo, desde as bochechas aos ombros, depois os braços, por fim o peito.

Você veio! — o abraçou e fechou as turquesas contentes, a felicidade transbordava de dentro do peito. Céus, as mãos a entrelaçarem nos seus cabelos pareciam tão reais, e depois os mesmos dedos acariciaram o rosto dela, contornaram-lhe os lábios, estavam tão próximos...


Anna abriu os olhos devagar, a luz do dia não os contornava mais, todavia, a luminescência amarelada das velas tornava aqueles olhos ainda mais avermelhados. Tão serenos, afetuosos e tristonhos como na despedida. As madeixas escuras caíam em volta dela, o cheiro permanecia o mesmo. Assim, a humana envolveu aquele pescoço, pousou a mão à nuca e não houve resistência da outra parte. Beijou os lábios entreabertos e úmidos, não avassaladoramente como de costume. Os uniu primeiro, afim de apreciar o sabor tão conhecido. Era igual. Uma língua roçou à sua, estranhamente contida. Retribuiu na mesma medida enquanto corria os dedos pelos cabelos que tanto adorava. Já que a outra parte não se atrevia a aprofundar aquele beijo, Annabelle deu o passo. Puxou aquela cabeça ainda mais de encontro à sua e foi se sentando devagar, sem apartar as bocas, as línguas abraçando-se e rodando em conjunto. Enfim, frente a frente, quando resolveu selar os corpos, sentiu os seios premerem-se contra uma superfície macia e semelhante, então caiu em si e parou de imediato tudo o que fazia.

Não era Naraku, era Kiseki e ela ofegava, entorpecida.

A humana jogou-se para trás e passou as mãos pelo rosto e depois pela boca, embora o embaraço fosse tremendo, a face em vez de corar, empalideceu. Os olhos não davam uma piscadela.

— Me desculpe, eu... — ainda confusa, como se não tivesse certeza de que aquilo acontecera, engatinhou para trás, se afastando o máximo que podia. — Você e ele... são idênticos. — massageou a testa, por baixo da franja, a cabeça abaixada.

— Acalme-se. — disse, mas era evidente que ainda estava balançada — É natural que se confunda. — ergueu-se com calma e caminhou até a ocidental, estendendo-lhe a mão.

Annabelle sequer pareceu notar o gesto da youkai, o olhar se perdia em qualquer direção. Estava paralisada.

— Deixe-me ajudar... — a outra insistiu amigavelmente.

— Eu sonhei com ele, — contou, ignorando completamente a proposta dela — sonhei que estávamos juntos na Escócia, caminhando pelos campos verdejantes, como duas pessoas comuns... — ainda não se fixava em nada específico.

— Parece bom. — Kiseki suspirou e, mesmo sem a resposta da humana, a suspendeu pelos braços cautelosamente.

— Ele nunca poderá vivenciar a paz e a simplicidade, nunca poderá conhecer o lado bonito da vida. — os olhos orvalharam mais uma vez e uma gama de lamúrias sairiam da boca dela. Então, Kiseki se colocou às costas de Anna, segurou os seus ombros e começou a guiá-la até a janela que estava aberta. As cortinas vermelhas balançavam suavemente.

— Olhe só, a tempestade se foi. — a cria de Naraku afastou a cortina, exibindo o céu estrelado e o mar sereno. Os astros refletiram nos globos melancólicos e nas profundezas do azul celestial tremeluziram. — Você fez um milagre acontecer. — ela prosseguiu, ajeitando os cabelos de Annabelle para trás. — Não perca a esperança, você ainda tem muito a fazer nesse mundo.

— Como você sabia que eu era capaz de parar a tempestade? — vidrada na paisagem lá fora, perguntou em baixo tom.

— Se o meu propósito é cuidar de você, é importante que eu a conheça inteiramente. — sorriu sutilmente, admirando o céu noturno e a brisa marinha ao lado dela.

Annabelle assumiu que Naraku contou tudo a Kiseki, ou inseriu quaisquer lembranças nela quando a moldou de seu corpo. Até nisso ele havia pensado – um modo de cuidar dela e não deixá-la só.

Por mais despedaçada que estivesse, a europeia encontrou dentro de si alguma força para manter o clima e os ventos da forma necessária para que a viagem ocorresse bem e para que fosse adiantada. Embora ainda chorasse pelo luto algumas vezes no dia, ela saía mais vezes da cama e até mesmo do convés para apreciar o sol da manhã e também a vista do oceano. A sua dama de companhia nunca abandonava o quarto, dizia ser melhor assim. Como a youkai era deveras boa com ela, Annabelle não a enchia de perguntas para não incomodar.

O tempo passou demoradamente sob a perspectiva da europeia, entretanto, enfim chegara o dia tão esperado. A luxuosa embarcação atracou nas margens do litoral de Edimburgo. Um bote de madeira estava preparado para que Annabelle e Kiseki descessem juntas, outros dois eram abastecidos com as coisas das duas. A youkai finalmente deixou a cabine, coberta por um manto arroxeado bem escuro, e as duas amigas encaminharam-se junto a um marinheiro ao batel.

Assim que desceram na areia, a oriental contemplou atordoada a extensão da praia, contornada por um alto muro de pedras. Inúmeras pessoas transitavam pelo porto, esbarrando-se umas nas outras, o cheiro fétido do peixe das feiras a fazia sentir dor de cabeça.

— A jornada ainda não terminou. — Annabelle comentou. O marinheiro que as acompanhou também foi o guia para que encontrassem a carruagem – bem diferente da que a escocesa esteve com Kagura no Japão. Eram três veículos, um para as viajantes e os outros para seus pertences, os cocheiros as esperavam.

— Para onde vamos daqui? — Kiseki perguntou a tapar o nariz.

— Para as Terras Altas. — fechou os olhos por instantes, absorta em nostalgia.

Enfim, subiram no veículo e deram início à jornada por terra. Contornaram a grande muralha da capital, por sobre a parede de pedras era possível enxergar os topos das torres da fortificação.

— Nunca pensei que veria tanta gente de cabelo e olho claro e com trajes tão exóticos... — a youkai teceu o comentário, deslumbrada com sua primeira impressão sobre as pessoas.

— Pois é, eu não sou tão especial quanto parecia. — Anna apoiou o rosto sobre a mão, contemplando a paisagem que se modificava aos poucos através da janela, conforme a carruagem se afastava do centro urbano, a belíssima flora da Escócia se fazia presente. Tantas árvores, tantos montes, tantas rochas e uma fina garoa de fim de tarde.

— Ah, você é sim. — Kiseki disse espontaneamente — para Naraku, você com certeza é. — corrigiu-se.

— Eu fui... — Annabelle retificou ainda mais.

Em silêncio, a youkai atentou-se as feições cansadas e tristonhas da ruiva durante a viagem. Ela também não conseguia conter o aperto dentro de si e este transbordava pelos olhos rubros. As horas foram passando e elas só trocaram outra palavra quando a carruagem já percorria as altas montanhas.

— Nosso lar... — Annabelle pôs a cabeça para fora da janela, avistando algumas casas e muito mato. — Siga adiante! — conduziu o cocheiro.

O veículo subiu ainda mais alto, por trilhas escorregadias, o limo recobria os troncos e as pedras. Da outra janela, Kiseki admirava a noite cair naquele bosque que parecia místico. Não existia qualquer youkai ali, certamente, mas era possível sentir a densidade de outro tipo de presença. Fitou Annabelle novamente e assustou-se com a forma como ela brilhava, contornada pelo branco.

— O que está acontecendo? — perguntou apreensiva.

— Estamos chegando. — a humana esboçou um sorriso melancólico e pediu para que o homem a frente parasse. Desceram do transporte e viram-se diante de um campo aberto além da trilha de árvores, nenhuma casa por perto.

— É aqui que quer construir a sua casa? — a youkai perguntou cheia de desconfiança — Esse lugar é seguro?

— Quanto mais distante do povoado, mais seguro é. — caminhou na frente. Enquanto isso, os homens que as acompanhavam vinham trazendo os objetos delas.

— Que lugar é esse, afinal? — Kiseki questionou.

— É o bosque das fadas. — revelou, um sorriso coloriu levemente a face tão desbotada. — Construiremos o nosso lar aqui, o que acha?

— Parece pacífico... — manifestou-se reticente, perpassando os olhos vermelhos e puxados por todo o perímetro.


Após alguns dias de trabalho árduo, as duas conseguiram erguer uma cabana feita de pedras, com telhado de palha e janelas de madeira. Kiseki não permitiu que Annabelle fizesse algo além de dar ordens devido sua condição. Portanto, a "gêmea" de Naraku catou toda a pedra, o feno, cortou a lenha, carregou, e montou a humilde morada de um cômodo só. Uma lareira as aqueceria durante o inverno rigoroso, bem como o leito forrado com a manta branca de babuíno. As moças não se sentiam mais constrangidas pela proximidade, e nunca mais comentaram sobre o beijo que trocaram. Annabelle estava ciente de que viveriam como boas amigas e a ideia a confortava, as duas criariam aquela criança com todo o amor que pudessem oferecer, e ela finalmente seguiria o curso que seu pai gostaria de ter seguido: seria uma fazendeira, viveria do que a terra tinha a oferecer – e, com uma pequena ajuda do dom de nascença, faria uma plantação crescer nas redondezas.

Cinco meses se passaram. Kiseki voltou da floresta carregando um porco selvagem nas costas para o jantar e se deparou com a humana a analisar a própria barriga enquanto a acariciava.

— Já se passou tanto tempo... e não cresceu nadinha! — Annabelle resfolgou atribulada — Será que está tudo certo? A pulsação já não é tão forte... — ela transpirava de nervoso — e eu me sinto cada vez mais desgastada, como se minhas forças fossem sugadas.

A aracnídea se achegou silenciosa e tocou a barriga da moça.

— Não se preocupe, está estável. — encarou-a — Não falta muito.

— Como assim? Não está nem perto de completar o tempo! — apoiou a testa em uma mão.

— Continue dividindo a sua luz com ele, e em breve essa pequena semente estará pronta para florescer. — pegou uma madeixa de fogo que caía pelo busto da rosa branca e a desembaraçou com os dedos.

Kiseki tinha razão sobre o prazo, na manhã seguinte Belle acordou com a incômoda sensação de pontadas no abdome e começou a gritar de dor.

— O que é isso?! — exclamou a apoiar-se no leito, apertando a manta que acolhia seu corpo durante o sono. O clima era frio, ainda assim ela transpirava tanto que sua pele brilhava e a camisola branca se grudava à pele.

— Respire fundo! — Esbaforida, Kiseki saiu da janela e sentou na beira da cama. Afastou as pernas de Annabelle e segurou-lhe os joelhos.

— É cedo, muito cedo! — exclamou de olhos cerrados. Os dentes arrastavam uns sobre os outros.

— Morda esse pano! — a youkai pegou o cobertor de lã e entregou nas mãos da escocesa. Obediente, Anna mordeu fortemente aquele tecido quadriculado e grunhiu. — Escute, terei que fazer algo que será desconfortável, mas peço que confie em mim. — a voz soou forte, porém inconstante. A montanhesa não podia ver as feições da amiga, pois suas pernas escancaradas lhe cobriam a visão.

Kiseki subiu a camisola clara até as costelas dela. Belle, então, sentiu uma mão abrir seus grandes lábios a ponto de quase esgarçá-los. Ardeu. Os dedos, a seguir, adentraram lentamente e mudaram de forma, parecia um tentáculo modelado de acordo com o tamanho do canal dela, afim de não lhe causar dor desnecessária. Logo, aquele apêndice escorregadio chegou ao envólucro que protegia a semente de Naraku e a puxou vagarosamente. O que a mocinha sentiu sair de si aos poucos a consternou. Não parecia ter pernas ou braços, a coisa vinha se moldeando conforme o tamanho da passagem e quando enfim saiu, não emitiu qualquer som.

Kiseki puxou a flanela das mãos de Annabelle e apressadamente cobriu o ser, o escondendo.

— Por que não está chorando?! — ofegante e com o rosto virado para a parede, a ocidental questionou.

— Não olhe... — nitidamente enfraquecida, a youkai respondeu enquanto aninhava aquela coisinha nos braços.

— Me dê, Kiseki! — exigiu, suspendendo o braço e esticando os dedos na direção dela. Ouviu um ruído, algo caíra no chão de madeira. Mesmo débil, Belle sentou e ao se virar, o olhar fundo se fixou na amiga caída desacordada sobre o piso, e o embrulho rolara pouco adiante. — Kiseki! — urrou e a sacudiu, não obteve reação alguma. Seus olhos elevaram-se adiante, cravados no lençol amarrotado a envolver o seu bebê. Não havia um choro, um chiado de respiração.

Tremente, Annabelle arrastou-se até a criaturinha, apertou o pano, selou as pálpebras e o puxou de uma vez. Quando destampou a vista, defrontou-se com um pedaço de carne inanimado, arroxeado como o quimono da desfalecida Kiseki. Rememorou as palavras da mãe de Jinenji sobre os riscos de dar vida a um descendente de demônio e um grito ficou entalado na garganta.

Não houvera tempo para aquele pequeno projeto de vida se formar, e caso a evolução avançasse, quem saberia dizer no que ele teria se tornado?

No entanto, foram tantas as esperanças às quais ela se agarrou, naquela massa púrpura a jovenzinha investira seus sonhos de futuro. Era tudo o que ela tinha. Tudo!

Pegou-o cuidadosamente entre os dedos, a forma era pouca coisa maior do que as duas mãos dela, flácida, quase se derramava ao se espalhar nas palmas. Se ela sentiu nojo? Qualquer coisa, menos isso.

Uniu-o ao peito, fechou os olhos e iniciou uma prece. A brancura o envolveu como um véu e o esquentou. Ela acariciou o ínfimo pedaço de matéria e roçou uma bochecha nele. Num balanço suave, o abraçava e chorava por ele as mesmas dolorosas lágrimas que chorara por Naraku.

Sem ter ideia de quanto tempo gastou a usar a magia para reanimá-lo, em dado momento o aglomerado de carne tornou a latejar. Continuava sem desenvolvimento algum, mas estava vivo.

Kiseki abriu os olhos subitamente e sentou num pulo. Vidrou-se na cena de uma mãe caída ao chão, fraca, abraçada àquela vida mal formada.

— Eu sabia que você conseguiria... — pegou a criaturinha com cautela para não acordar a mãe. — "Seja paciente" — pediu em segredo, erguendo-se para sair sorrateiramente da cabana com a massa violácea em mãos.


Os cílios acobreados desfizeram o enlace paulatinamente, até que os olhos foscos se aperceberam da fraca luminosidade do nascer do sol. Não demorou para que Annabelle se lembrasse do ocorrido do dia passado e se levantasse bruscamente. As pernas, ainda fracas cambalearam e os pés a levaram para trás de modo que seu corpo frágil caiu sentado à cama.

Olhou para cada lado do casebre e não viu sinal de sua acompanhante ou de seu feto.

— Kiseki! — a voz entrecortada gritou pelo nome da youkai e persistiu: — Kiseki! — enrolada à flanela quadriculada, Belle apoiou-se pelos cantos até chegar à porta da cabana. Lá fora havia o campo, a fria névoa esbranquiçada da matina a beijar o gramado e nada além. — Kiseki! — aumentou o tom, mesmo com dificuldade, e correu trôpega pelo vale a bradar o nome em desespero. Procurou entre as árvores do bosque, por trás das pedras, e por fim veio tropeçando pela lama do pântano, a goela a doer de tanto clamar por: — Kiseki!

E lá estava ela, ereta, olhos perdidos, no topo de uma colina. Ao ouvir a voz de Annabelle, a youkai virou o rosto devagar e a fitou branda, sorria satisfeita sabe-se lá com o quê.

— Eu cumpri o meu papel... — a youkai revelou, os pés transformaram-se em pequenas mariposas que voaram sem direção, e numa espécie de gradação todo o corpo dela começou a sofrer o mesmo processo.

— Não, não! — Belle correu desajeitadamente até ela, porém, quando chegou ao seu alcance já não havia mais uma mulher, apenas os insetos voadores que, compadecidos com o sentimento de perda, formaram um círculo ao redor da ruiva antes de se dispersarem rumo à lama do pântano.

Annabelle cravou os dedos na terra, arrancando inúmeros fios de grama e enegrecendo os dedos. Todas as mortes que mancharam a sua vida perpassavam como raios escuros dentro da mente, cada uma a provocar lampejos de dor em seu coração. Não havia qualquer resquício de sua cria, Kiseki a enterrara em algum lugar antes de partir e agora ela estava sozinha. Mal conseguia respirar de tanta agonia. Gritou, mesmo rouca. Folhas das árvores ao redor caíram como gotículas esverdeadas de pranto. A névoa, o frio, o silêncio dos pássaros eram cúmplices daquele funeral solitário.

Ela caiu em posição fetal e fechou os olhos encharcados, derrotada.

"Deusa, por favor, leve-me em seus braços" — suplicou, abraçada a si — "Não sobrou nada para mim nesse mundo" — sem família, sem amigos, sem um amor, de que adiantava ter retornado ao lar?

Você não vai morrer, está me ouvindo?! — a lembrança da voz grave de Naraku no dia em que a salvara do afogamento reverberou em sua consciência — Você não vai morrer. Eu a proíbo, humana estúpida! — e ela abriu os olhos tremeluzentes.

O hanyou contradisse a própria natureza vil em nome do amor que nutria por ela. Abriu mão de tê-la ao seu lado para que a descendente das fadas pudesse sobreviver, e esteve tão atento às necessidades dela a ponto de planejar o seu retorno à Escócia. Ele se sacrificara por ela, que direito Annabelle tinha de desistir de tudo e jogar fora os esforços dele?

"Por você..." — devagar, apoiou-se no chão e impulsionou o corpo para cima — "em nome de sua memória..." — caminhou vagarosa e vacilante de volta à cabana — "eu sobreviverei".


Dois anos e alguns meses passaram vagarosos como décadas, pois a rotina era sempre a mesma. Àquela altura, a horta de Annabelle crescera tanto que ela resolveu fazer negócios com os camponeses que moravam nas proximidades. Uma vez ao mês ela viajava da montanha à cidade mais próxima e vendia uma parte de sua colheita, bem como alguns vestidos que costurava no tempo livre.

Decidira-se abraçar a vida simples de todo, vendeu cada peça elegante de roupa que tinha e começara a usar trajes simplórios, típicos dos camponeses da região, calçava botinas gastas de tanto circularem pelo terreno rochoso. Os cabelos ficavam presos numa trança baixa e a cabeça ela cobria com um lenço, assim podia arar a terra sem sujar os fios de cobre. Não se envolvia com ninguém, se limitava a cumprimentar os aldeões e ir embora.

Quando chegava em casa, tornava a visitar o pântano religiosamente. Como não sabia onde Kiseki sepultara o seu bebê, ela fazia cada árvore ali florir e abençoava o solo com a sua energia. Homenageava o seu pequeno feto da mesma forma como fizera com Keiko durante o pouco tempo que viveu no litoral do Japão.

Durante a tarde, distraía-se a cuidar da terra e à noite costurava. A harpa ficava no canto da cabana apenas para contemplação. Annabelle nunca mais a tocou, bem como nunca mais cantou qualquer canção.

O cotidiano, no entanto, sofreu leve alteração numa tarde qualquer, quando a camponesa cavava para plantar batatas, uma sensação a fez estancar de supetão e apertar o cabo amadeirado da pá.

"O que é isso?" — gélida, perdeu o ar. Uma energia obscura emanava sutilmente, o chão abaixo dos pés quase tremeu. Parecia vir do brejo.

A segurar a ferramenta nas duas mãos, arredia, ela se endereçou àquele lugar, perguntando-se quem teria a coragem de invadir e profanar o túmulo de um ente tão querido seu. Seria uma bruxa, ou mesmo uma fada? Descobriria em breve.

Abaixada, ela subiu o monte quase abraçada naquela pá, temendo a possibilidade de precisar usar aquilo para abrir a cabeça de alguém. Contudo, lá em cima não havia ninguém, era só a lama que borbulhava adiante.

Sentada, ela escorregou pelo monte, apoiou-se nas pedras e se escondeu atrás do largo tronco de um carvalho.

Ruídos estranhos emitiram do lodo que borbulhava como se escaldasse. De canto, a humana espiou o que se sucedia. Um ser emergiu ainda a se lapidar, parecia um homem. Os cabelos cresceram lentamente, melados de limo, o corpo todo estava amarronzado, ungido em barro. Braço por braço, perna por perna, dedo por dedo se esculpiram e se locomoveram a estalarem as articulações. Enfim pronto, aquelas formas pareciam deveras conhecidas aos olhos de Annabelle, e por essa razão, ela acabou por sair de trás da árvore e ainda agarrada a pá que tremia em suas mãos, arrastou os pés para mais perto.

O sujeito virou o rosto e a cor de seus olhos, o formato de seus traços eram inconfundíveis.

— Naraku... — a boca se moveu a tentar dizer, nenhum som saiu porém. A pá escorregou entre os dedos dela e caiu no solo úmido. Em seguida, o corpo de Annabelle se desmontou sobre o limo.

A respingar argila, o ser recém-moldado se aproximou da Rosa Branca, fitou-a profundamente e pegou seu corpo desfalecido nos braços, maculando-o com o líquido escuro.

Os rubis cintilantes se fixaram na trilha que levava até a cabana.
Em passos calmos, ele a levou até a casa.

Continua...


... e é isso pessoal! Espero que tenham ficado felizes pelo desfecho de Kagura ^_^
Não me prolongarei muito nas notas finais, porque quero dar voz às teorias de vocês.
Quaisquer explicações ficarão a cargo do capítulo final.
Estou ansiosa para ler os pensamentos de vocês!
Kissuuuuuuus