Capítulo 47 – O fim e o princípio

"Que seu primeiro dia no inferno dure dez mil anos e seja o mais curto deles"

(Stephen King – Lobos de Calla – A Torre Negra, volume V)

Goku, mesmo tendo percorrido toda a jornada atrás das esferas, mesmo sabendo, desde o início, que era aquele o resultado desejado, observava, maravilhado, o rosto do irmão revivido em sua frente. O rapaz tinha o mesmo sorriso de sempre e nenhuma marca do enforcamento que o matara. Era como se ele jamais houvesse sido enforcado. Vegeta, mesmo tendo acabado de ter seu pedido atendido e de estar com o braço de tiro curado, sentia algo muito parecido.

Raditz então cruzou os braços e disse:

- Vocês dois não vão dizer nada?

O barulho de um tiro os interrompeu. Yamcha, mesmo caído no chão, acabara de errar um tiro contra um homem que saíra do saloon, achando que ele viria na direção deles, mas o sujeito simplesmente correu seu parar até a corda, passou por baixo dela e subiu num cavalo, em disparada, aproveitando a confusão. Os três homens olharam para o laçador, que disse:

- Eles estão todos no saloon agora. Todos os que sobraram. E para aquele estar fugindo, sua munição está no fim.

- Vamos desentocar os nossos homens e cercar o saloon – disse Vegeta – agora vamos negociar. Você tem que ter alguma coisa além de corpos para apresentar para o Hitto, Kakarotto.

- Ok. – Goku respondeu – mas antes preciso fazer uma coisa.

Ele foi até o lugar onde ele estava escondido com Vegeta e trouxe um cinturão, que estendeu para o irmão.

- Sua arma e sua faca – ele disse – estavam comigo desde...

Ele foi interrompido pelo forte abraço de urso de Raditz, que disse:

- Tinha que ser você para fazer isso, meu irmão, tinha que ser você, Kakarotto.

Vegeta saiu empurrando os dois e disse:

- Vamos, vamos, larguem de bobagem, depois que matarmos Freeza vocês dois matam a saudade.

Raditz riu e disse:

- Gostei de te ver também, Vegeta.

Eles iam para a porta do saloon quando Yamcha disse:

- Um de vocês, me ajude aqui! Eu não consigo me levantar.

Os três olharam para o rapaz ferido, com uma bala provavelmente alojada logo acima do joelho e Raditz se aproximou, e estendeu a mão para ele, dizendo:

- Eu te pegaria no colo, mas você não é uma garota.

- Eu só preciso mesmo de apoio para caminhar.

- Meu irmão não é ótimo? Me traz de volta da morte quando não tem nenhuma garota na cidade e ainda tenho que andar agarrado com um cara.

Yamcha riu e disse:

- Só por isso, quando eu reabrir meu negócio, você vai ter um belo desconto...

Atrás do saloon, depois de fugir na confusão que se seguiu ao seu breve diálogo com Goku, Freeza avaliava as suas poucas opções: do seu bando de 50 homens, ele sabia que restavam entre 7 e 10, contando ele; a dinamite com a qual eles pretendiam explodir a linha do trem havia sido roubada por um cretino traidor, que, como muitos, havia fugido e, a única banana de dinamite que ele guardara por segurança no seu bornal havia sido gasta inutilmente na tentativa de explodir a igreja.

Ele achara que invadir West Sayan seria fácil como havia sido o saque a Vegetown, mas, pelo jeito, subestimara a estratégia dos sujeitos. Ele havia sido enganado, e não gostava disso. Normalmente, era ele que passava os outros para trás. Olhou para a corda, amarrada entre o saloon e a construção ao lado e sentiu raiva. Truques tão simples, tão tolos, e ele agora estava acuado quase sem opções. Bastara cercar a cidade com cordas na altura do peito dos cavalos para que eles não pudessem entrar. Tinha enfrentado muitas cidades antes, essa era a primeira que o enfrentara.

Não iria entrar no saloon e se juntar àqueles derrotados incompetentes, iria fugir. Avaliou as opções: não havia como voltar à estrada pela cidade, cheia de inimigos, mas ele precisava alcançar alguma montaria. Esgueirar-se pela campina até a estrada que levava ao cemitério e à mina de cobre era uma opção, mas ele duvidava que conseguisse um cavalo naquelas bandas. Sua munição estava no fim, ele precisava chegar ao seu próprio cavalo: no seu bornal de sela ele ainda tinha uma caixa de munição e poderia sair dali em relativa segurança.

Só havia um caminho: a campina. Ele se abaixou, esgueirando-se pelo mato alto, bem a tempo de ver que os homens da cidade, avisados pelo xerife de que não havia perigo, saíam dos seus esconderijos e iam tomando a praça. Sua raiva cresceu. Tinha sido derrotado por um bando de trabalhadores braçais, alguns sujos, barrigudos. Mas ele voltaria e reduziria aquela cidade a pó.

De repente, ele, andando pelo mato, na direção da entrada da cidade, teve seu caminho subitamente interrompido por um índio. Ele era alto, tinha ombros largos e a pele morena, as laterais da cabeça raspadas num corte moicano. E o olhava com fúria nos olhos pretos quando disse:

- Saia dessa campina, sujeito imundo. Esse é o solo sagrado onde foi derramado sangue inocente. Você não é digno de pisar aqui!

Freeza assustou-se, mas percebeu que ele estava desarmado, apesar da coragem. Lentamente, pegou sua arma e se preparou para atirar no pele vermelha. Nenhum índio falava com ele naquele tom.

Goku demorou alguns minutos apenas para organizar com Vegeta e Raditz uma forma de negociarem a rendição dos homens de Freeza que ainda restavam. Eles três estavam à frente do saloon, em pé e armados; Yamcha, sentado num caixote por causa da condição de sua perna ferida, observava uma das laterais, enquanto Lápis, que descera do campanário, observava a outra e Kuririn, Senhor Kame e Lazuli, fechavam o cerco indo para trás do saloon. Não chegaram a ver Freeza, que havia corrido minutos antes para a campina, por pura questão de tempo.

Diante do saloon, Goku gritou:

- Aqueles que quiserem se entregar e sair dessa com vida são bem-vindos aqui do lado de fora. Garantimos que vocês terão um julgamento justo. Os demais, preparem-se para lutar porque ainda temos munição. E não tentem sair pelos fundos, tem gente lá também.

Um a um, os homens que restavam do bando foram saindo, de mãos para o alto. Vegeta e Raditz tiravam suas armas e os amarravam. Raditz ainda fazia graça:

- Desculpe a ausência das algemas, elas estavam na delegacia que eu explodi por acidente...

No fim, eram oito homens, que eles amarram com a mesma corda que havia sido esticada para impedir a passagem dos cavalos. Quando estavam amarrando o último deles três estampidos secos soaram na campina, e Goku disse a Lápis:

- Termine aqui, por favor.

Ele, Vegeta e Raditz correram até os fundos do saloon, mas o senhor Kame disse:

- Também ouvimos o tiro, foi dentro do mato da campina.

Embrenhar-se naquele mato seria arriscado, e eles foram beirando a borda do matagal até que viram a silhueta de Freeza. Ele estava parado, revólver em punho, olhando para os lados como que procurando alguma coisa. Os três apontaram suas armas para ele e Goku disse:

- Acabou, Freeza. Saia do mato e venha!

Raditz olhou para o irmão como quem dizia "como assim, acabou?" ele queria mesmo entregar o lagarto para o maldito diabo careca enforcar, deixando-os fora de toda diversão?

Freeza olhou para eles, assustado. Ele havia gasto suas últimas balas atirando no índio que aparecera diante dele, mas o pele vermelha desaparecera, aparentemente ileso, mesmo depois dos três tiros à queima-roupa. Ele olhou para os três rapazes, sabendo que não tinha mais muitas alternativas. Mas ele viu um cavalo selado adiante, a metros de onde estava, e correu até ele.

Subiu na sela, sabendo que tinha os três no seu encalço e nenhuma munição, mas ele era um especialista em fugas e sobrevivências, e, se hoje estava derrotado, amanhã poderia se reerguer. Dessa vez sequer ferido estava.

Goku correu o mais rápido que pôde e alcançou Kihoho, que estava na estrebaria. Raditz e Vegeta pegaram cavalos dos que estavam soltos pela cidade, depois da confusão com os bandidos, e os três foram em perseguição a Freeza, que cavalgava pela estrada pensando nas suas alternativas, que eram cada vez menores com aqueles três no seu encalço.

O sol ia subindo no céu, mostrando que estava cada vez mais perto do meio-dia, e ao longe se ouvia o apito do primeiro trem que chegaria a West Sayan em breve. Freeza corria pela estrada que conhecia tão bem, onde assaltara tantas diligências e matara tantos homens quando, ao fazer uma curva, ele viu uma pessoa parada no meio da estrada.

Novamente o maldito índio.

Seu cavalo empinou e ele, que não conhecia aquele animal, caiu no chão apenas para ver que não havia índio nenhum na estrada, mas o cavalo seguiu desembestado sem que ele pudesse alcançá-lo, e ele ficou, de repente, caído no meio da estrada desarmado, sabendo que era finalmente o fim, porque ouvia o tropel dos cavalos do xerife e dos outros chegando.

Ergueu as mãos, ainda sentado no chão, tentando se mostrar indefeso e desarmado e viu aonde estava. Uma curva da estrada que por muitos anos havia sido chamada de "Curva da Pedra Lisa", mas desde uma tragédia, vinte e seis anos antes, recebera o nome de "Curva das Cruzes". Era a primeira vez que ele parara naquele lugar desde o dia em que assassinara Bardock desarmado e deixara órfãos os dois homens que apareceram na curva um instante depois.

Ele olhou para Raditz, espantado. Como ele havia revivido?

O outro olhou para ele, rindo, e tirou o revólver do cinturão sem desmontar do cavalo. Ficou andando em círculos em volta de Freeza, apontando para ele, como um gato brincando com a presa antes de matá-la.

- Espantado, chefe? – perguntou Raditz, rindo – afinal, você foi prestigiar meu enforcamento... eu me lembro perfeitamente que a última coisa que eu vi antes da corda quebrar meu pobre pescoço foi sua cara nojenta rindo para mim do meio da multidão... mas meu irmãozinho conseguiu me trazer de volta com aquelas esferas pelas quais você matou meu pai, sabia? E aqui estou eu, pensando se vou atirar em você ou te sangrar com a minha faca.

- Raditz, não! – era a voz de Goku, que parara Kihoho e olhava para Freeza do alto da sela, sério. O irmão o encarou, e a Vegeta, que acabava de chegar na curva e disse:

- Como assim não, Kakarotto? Foi para isso que nos preparamos, para vingar nossos pais. Como vamos pegar esse desgraçado e simplesmente entregar para o Hitto?

- Porque se o matarmos assim, desarmado, nós nos igualamos a ele – disse Goku. – a forca é um destino justo e nos mantém limpos.

- Eu não me importo de me sujar no sangue dele – gritou Raditz – ele matou nossa mãe, nosso pai e sabe Deus quantos mais ele deixou órfãos, Kakarotto.

Goku desmontou da sela e ia caminhando na direção de Freeza quando percebeu o gesto. Freeza tinha algo na bota, provavelmente uma faca, e rapidamente, aproveitando a posição, tentou sacá-la para lançar contra ele.

E foi o último gesto do velho lagarto, porque tanto Goku quanto Raditz e Vegeta atiraram quando ele expôs a faca, sendo mais rápidos que ele. Freeza abriu a boca num esgar de espanto e a faca, que teria sido arremessada contra Goku, caiu de sua mão, e ele então caiu de lado na estrada, na curva das cruzes, exatamente onde começara a história da orfandade dos dois irmãos. No fim, seu último pensamento, embotado pela dor dos múltiplos ferimentos, foi apenas "eu deveria ter atirado nesses três quando eram apenas crianças".

Os três homens ficaram contemplando o homem morto um longo tempo. A seu modo, cada um dos três o havia jurado de morte e, no fim, um tiro de cada um o matara. Raditz olhou para o irmão, que contemplava entristecido o corpo inerte do inimigo e disse:

- Como eu te disse uma vez: você é muito bonzinho, Kakarotto.

O trem apitou na última curva e o maquinista estranhou a estação completamente vazia. Normalmente quando um trem chegava a uma cidade, mesmo com uma hora de atraso, como aquele, havia uma festa na estação e todas as pessoas da cidade apareciam para saudar o progresso e a civilização na forma da grande locomotiva de metal que vinha pela cidade soltando fumaça.

Mas em West Sayan, esperavam-no apenas o prefeito Kaioh, o chefe da estação, que trabalhava ali desde as obras e se chamava Satan e um assistente gorducho de olhar aparvalhado, Buu. Nenhuma bandinha de música e nenhum ajuntamento de curiosos.

O prefeito Kaioh disse ao chefe de operações do trem, que saltou assim que a locomotiva parou:

- Olha, meu jovem, aqui tem as chaves da cidade, bem-vindo e tudo mais. Mas não repare, tivemos um baita problema essa manhã, sabe? O tal do Freeza invadiu a cidade.

- Freeza? – perguntou o homem, assustado – e o senhor está assim, tranquilo?

- Ah, nossos meninos cuidaram de tudo, não foi, Satan?

- Sim, prefeito, agora parece que está tudo bem.

- Mas o xerife mandou que eu recebesse o xerife regional, parece que ele veio nesse trem, confere?

- Sim, sim... acho que ele está descendo agora, - disse o chefe de operações, ainda espantado com a tranquilidade do velho. – é aquele ali.

- Ah! Perfeito!

Hitto desceu do trem acompanhado de um séquito de oficiais e vários agentes de Nova Sadala, porque levara a sério o chamado de Goku. Havia policiais com vários níveis de experiência, todos querendo entrar no combate contra os homens de Freeza, mas o prefeito Kaioh disse, a ele, sorridente:

- Bom, eu acho que o senhor chegou um pouquinho tarde, mas pode ir lá na cidade conferir... os meninos deram conta perfeitamente bem, sabe?

- Meninos?

- Sim, os meninos do xerife. Parece que eles mataram o tal do Freeza.

Na praça de Nova Sadala, Raditz contava os corpos, conforme ele e Vegeta os enfileiravam:

- Vinte e sete. Esse é dos nossos ou dos deles?

- Dos deles, só quatro dos nossos morreram.

- Caramba, então vocês foram eficientes, hein?

- Eu fui. O plano foi quase todo meu, embora o Kakarotto tenha ajudado bastante.

- Sim, senhor estrategista.

- E o palhaço engomadinho que levou um tiro no joelho teve a boa ideia de cercar a cidade com cordas.

- Isso realmente funciona?

- Quando o cavalo vê um obstáculo na altura do seu peito, ele recua, instinto. Claro que eles poderiam ter cortado a corda, mas começamos a atirar logo neles, para que não tivessem tempo de pensar nisso.

- E isso parece ideia sua!

Vegeta apenas deu seu sorriso presunçoso. Ele se ergueu de repente, deixando o último corpo de lado. Bulma voltava para a cidade, junto com Chichi e todas as outras mulheres, velhos e crianças que Goku havia ido buscar, avisando que tudo acabara bem. Ela correu até ele e o beijou, jogando os braços em volta de seu pescoço, para escândalo do resto das mulheres da cidade. Bulma não ligou. Já era mal falada mesmo.

Quando se separaram ela começou a dizer:

- Vegeta, preciso te contar uma coisa...

Foram interrompidos pela chegada dos homens do xerife regional, que entravam na cidade a pé, pela rua lateral que vinha da estação, com o prefeito Kaioh contando a Hitto os detalhes na sua versão:

- Então, os meninos cercaram a cidade com cordas, para que os cavalos não passassem, e parece que deu certo, mas agora temos um bocado de cavalos errantes aí pela cidade, e, veja bem, meu filho, não queríamos que isso acontecesse, mas um bocado dos bandidos morreu, mas, se eles ficassem iam fazer com a gente aquilo que fizeram em Vegetown, e, meu Deus, imagina que horror...

Hitto vinha andando pacientemente, ouvindo a incessante cantilena do prefeito quando viu Goku e correu até ele, despedindo-se brevemente do outro. Eles se encararam brevemente, sérios, e então, Hitto sorriu e apertou a mão dele:

- Você o derrotou!

- Não. A cidade inteira o derrotou! Tivemos sorte de saber que ele viria com alguma antecedência.

- Algum espião ou delator?

- Gostaria de preservar a minha fonte, ela não é uma criminosa! – disse Goku, sério, completando – infelizmente, tivemos baixas também. Quatro dos nossos morreram, e um deles era um grande amigo...

Ele viu que Hitto parava, de repente, encarando Raditz. Ele andou até o rapaz, incrédulo, como se estivesse vendo um fantasma, e, no mesmo instante, foi reconhecido por Vegeta, que estava de pé ao lado do outro, mas não desviou, se escondeu ou tentou fugir.

- Mas... – ele disse, olhando para Raditz – como você...?

- Como voltei dos mortos? Acredite, foi por meio de magia, e eu não fui o único!

- Mas você... eu deveria prender você!

- Pelo quê? Já fui enforcado por meus crimes uma vez e o senhor sabe muito bem que um homem não pode ser enforcado duas vezes...

Hitto ficou mudo. Aquilo era demais para sua mente puramente racional. Ele então olhou para Vegeta, que ficou ereto, esperando a voz de prisão que acreditava que viria e então, Hitto disse:

- Eu o conheço de algum lugar, não conheço?

Vegeta abriu a boca, incapaz de pronunciar qualquer palavra e Hitto seguiu:

- Já esteve em Nova Sadala?

- Algumas vezes.

- Deve ser isso – o homem seguiu para perto de Goku e Bulma disse baixinho, quando ele se afastou:

- Foi o meu pedido – Vegeta a encarou, espantado – que todas as acusações contra você fossem apagadas e esquecidas... eu passei pelo seu cartaz de procurado ali atrás e seu rosto sumiu dele. Você agora é um homem livre.

Ele sorriu para ela, e, pela primeira vez, seu sorriso não era presunçoso nem cínico, nem um meio sorriso ou um sorriso de canto. Era um sorriso feliz.

Goku explicou tudo que acontecera, enquanto levava Hitto por entre os corpos, explicando que nenhum homem havia sido executado ou morto quando não representava nenhuma ameaça, e que ele tinha dado a Freeza todas as chances de se entregar antes da sua última tentativa de reação. Finalmente, chegaram diante do corpo de Freeza, que Hitto olhou sem muita emoção. Nunca o havia visto, mal tinha certeza se ele se parecia com os cartazes, muito vagos, que o anunciavam como procurado. Por isso, chamou um jovem do seu destacamento e disse:

- Você, que disse que o reconheceria se o visse novamente... é ele?

O rapaz devia ter uns dezoito anos, era alto e tinha os ombros largos e olhos cinzentos e frios que miraram o rosto morto de Freeza por algum tempo antes dele dizer:

- Sim, é ele. Eu me lembro de ter visto quando ele recebeu a tocha no rosto e ganhou essa marca de queimadura.

O oficial agradeceu e continuou conversando com Goku. Queria saber como o irmão dele voltara da morte. O rapaz, então, foi andando até Raditz e Vegeta e parou diante do primeiro, que o olhou sem reconhece-lo. O jovem então disse:

- Quase seis anos atrás você deu um cavalo e algum dinheiro para um menino de doze anos, quando acabou com o bando de Freeza.

O rosto de Raditz se iluminou em reconhecimento e ele disse:

- Você é aquele garoto, o Jiren? Nunca esqueci seu nome! – ele surpreendeu o rapaz ao abraçá-lo e o garoto disse:

- Vermod me ajudou muito, mas como percebeu que eu atirava muito bem, me fez deixar o circo e me alistou na academia de polícia. Eu acabei de me formar.

- É bom se ter amigos policiais quando se quer andar na linha.

Yamcha saía do consultório do doutor Karin, depois dele tirar a bala do seu joelho e colocar uma tala. Ele disse que se o rapaz cuidasse da ferida, nada de complicado iria acontecer. Mas deu a ele um par de muletas. Yamcha viu Bulma ao lado de Vegeta e suspirou. Ele sabia quando a havia perdido, mas precisava por um ponto final de verdade antes de seguir em frente, e foi andando até ela, que o olhou com espanto.

- Yamcha... você está bem?

- O doutor Karin tirou a bala. Com sorte, eu não vou mancar pelo resto da vida – ele sorriu – mas eu queria te dizer que vou assinar os papéis e te entregar.

Ela arregalou os olhos. Há quatro anos ele a embromava para assinar o divórcio. Ele então olhou para Vegeta e disse:

- Cuide dessa garota.

Ele saiu pela praça, até o seu bordel, onde atirou-se no sofá. Maron, de volta à cidade depois de se refugiar com todas as outras na casa de Toma, estava lá, e se aproximou dele, hesitante.

- Está tudo bem?

Ele olhou para ela, sorriu e disse:

- Tudo. Eu só quero ficar um pouco só. Acho que vai me fazer bem.

Na praça, Gohan olhava o corpo do seu amigo Piccolo, inconsolável. Sua mãe estava ao seu lado, entristecida, porque ela mesma aprendera a apreciar a amizade do Namek. De repente, Raditz se aproximou dos dois e se apresentou:

- Você deve ser a Chichi – ele disse – eu a vi junto do meu irmão.

Ela arregalou os olhos:

- Você é o irmão do Goku? O que...?

- Eu mesmo. Fui enforcado e voltei. – ele riu – mas eu não me lembro de quase nada do outro mundo, então não adianta me perguntar... esse é meu sobrinho?

Gohan se escondeu atrás da saia da mãe e Raditz se abaixou, para ficar na altura dos olhos do menino, e disse:

- Tudo bem com você, colega?

O menino não respondeu e Chichi disse apenas:

- Ele está triste por causa da morte do senhor Piccolo. Eles eram amigos. Raditz olhou para o corpo de Piccolo e sussurrou para o menino:

- Ei, sabe aquele mapa que o seu pai tem? Acho que eu vou pega-lo emprestado...

O menino o olhou, incrédulo:

- Para quê?

- A princípio por dinheiro e mulheres... mas acho que vou pedir também para trazer seu amigo de volta.

- Você pode fazer isso?

Ele se levantou, olhando para o menino, que agora o olhava atento e disse:

- Se um sujeito sem merecimento algum como eu teve uma segunda chance... qualquer um pode ter.

Ele se despediu brevemente de Chichi e Gohan e foi na direção de Maron, que olhava os estragos no Saloon. Alguns vidros quebrados e um barril de uísque perdido. Ela suspirou. Aquela vida não era para ela. Estava com 25 anos e sentia falta de quando era apenas uma dançarina exótica. De repente, ouviu a voz grossa atrás de si:

- Precisa de alguma ajuda, moça?

- Preciso, preciso de alguém que me devolva a vida que eu tinha antes, em Nova Sadala, antes daquela cobra nojenta me expulsar do Palácio da Serpente!

Ele a olhou, e de repente, a reconheceu. Ela era quase uma menina, naquela época, mas ele se lembrava perfeitamente de ter-lhe roubado as poucas jóias. Pobre garota.

- Você foi expulsa de lá por Hime, não foi? – ele perguntou, sorrindo.

- Fui. Ela me ameaçou dizendo que tinha caso com um bandido.

- Pff – ele disse, rindo – aquele cara não era de nada, até enforcado foi.

- Sei... mas o fato é que acabei enterrada aqui. E quando a dona do saloon morreu, eu passei a trabalhar dobrado. Não nasci para isso. As gorjetas aqui são medonhas.

- Sabe, eu acho que você ainda tem um corpo e um rosto que parariam o Palácio da Serpente – ele sorriu, charmoso – e Hime se aposentou.

- Jura? – ela o olhou, incrédula – então eu volto no primeiro trem para Nova Sadala!

- Mas já? Pensei que pudesse passar a noite com um herói que ajudou a libertar a cidade, em sinal de gratidão.

- Moço, eu não sou prostituta – ela empertigou-se – sou uma dançarina.

- Tudo bem, porque eu estou liso e não posso mesmo pagar. Mas se quiser mostrar sua gratidão – ele aproximou seu rosto do dela, pegando uma mecha do cabelo azul. Maron sentiu um arrepio. Ele era grande, forte, bonito e sedutor. – te garanto que você vai ter uma ótima última noite em West Sayan. Te dou tempo para decidir.

Ele se virou rindo e foi andando na direção onde estava o irmão. Ia pedir dinheiro emprestado a ele, porque afinal, voltara da morte sem um único dólar no bolso. Nem tudo era ruim em estar morto. Não precisar de dinheiro era de fato, ótimo.

Mas antes que ele chegasse até o irmão, ele o viu erguer a cabeça ao ouvir um relincho, e o rosto do xerife se iluminou. Ao sol da tarde de outono, uma égua de crina dourada vinha cavalgando pela estrada que levava ao cemitério num galope rápido e decidido. Goku deu um grito e o animal veio até ele, roçando o focinho no seu rosto e bufando alegremente quando chegou onde ele estava. O xerife, como um menino, ria e chorava fazendo festa na sua égua, sua Nuvem, que como Raditz, voltara da morte.

Raditz sorriu e seu coração se encheu de ternura. Seu irmão era, na sua visão, um dos melhores homens desse mundo.

Notas:

E Freeza, agora, é apenas história. Tombou na curva das cruzes, dirão as canções que farão sobre a derrota do velho lagarto. Pensei muito para dar o fim que eu achava apropriado pro monstrengo. No fim, um tiro de cada desafeto me pareceu mais justo.

A quem interessar possa, o índio, obviamente, era o fantasma do Tenshin. Não podia deixa-lo fora dessa diversão, mesmo mortinho da silva. Sobrenatural de Almeida me ajudou nessa (Sobrenatural de Almeida é um personagem de Nelson Rodrigues para fenômenos inexplicáveis)

A praga que é a citação desse capítulo é maravilhosa, um ditado dos pistoleiros de Calla, do quinto livro da série "A Torre Negra", que me inspirou nessa saga.

E, finalmente, nossa Nuvem voltou. E agora, o que Goku vai fazer com Kihoho?

West Sayan ainda não acabou. O próximo capítulo se chama "Em tempos de paz"

Parabéns para quem adivinhou o pedido da Bulma.